Era uma vez, outra vez

Abelarda retornou aos seus aposentos intrigada com a constatação do misterioso sumiço de Alfredo Augusto. Havia planejado nos mínimos detalhes seu fim, mas, tomada pelos afazeres reais e a visita inesperada dos representantes do reino Já Era, acabou por se envolver pela simpatia deles e sua doce vingança acabou por cair no esquecimento. Também pudera, Alfredinho sempre tão inexpressivo, apagado, destituído de atitude, transformou-se em polaroid esquecido num velho baú.
Mas se meu plano não foi posto em prática, o que poderá ter acontecido com ele? Será que aquele desmiolado se perdeu por entre os labirintos do castelo? Não é de se duvidar! Bem que aprecio a ideia de ser a mais nova viúva da região. Apesar de um pouco acima do peso, ainda sou uma bela e interessante mulher. Estou viva e tenho interesses num futuro mais brilhante que ser sombra de um reino pequeno feito essa Pedra Ilustrata. Quero mais! Mereço mais!
Com esse pensamento, Abelarda passou a sonhar acordada com um poder maior num reino distante e mais rico ao lado de um rei de personalidade assim como ela. Apesar da idade e da postura um tanto masculina, no fundo, alimentava o sonho de um casamento feliz ao lado de um homem de fibra que tomasse as rédeas ao seu lado no comando de um povo mais interessante que aquele. Silenciosamente achava-os provincianos demais.
Após passar a tarde inteira ruminando tais pensamentos, decidiu por mudanças de estilo de vida e de hábitos.
Olhando-se no imenso espelho, certificava o que precisava mudar em seu corpo para parecer mais sedutora. Esticava o pescoço para perder um pouco da papada, puxava a pele do rosto para sumir as rugas de expressão, desmanchou o coque que sempre usava e deixou que seus cabelos se transformassem numa grande cortina que já se mostravam grisalhos.
-Rosalinaaaaaaaaa! – vociferou
Num segundo, surgiu na porta uma serviçal.
-Vossa alteza chamou?
O que você acha estrupício? Vá logo buscar o catálogo de cores da tintura luz intensa. É pra ontem ouviu bem? Voe!
A serviçal saiu atropelando tudo pela frente, pois já sabia do mau gênio da patroinha e quando ela gritava assim com toda essa delicadeza rinocerôntica, melhor obedecer e rápido.
Tamborilando no encosto da poltrona, Abelarda continuava mirando-se no espelho e pensando em outras providências a tomar.
Lembrou-se da figura potente que comandava a guarda nacional, transformando frangotes em verdadeiros touros de briga. O professor de educação física Beloar Aparecido. Tocou a sineta e ordenou que o professor comparecesse na sala de reunião real na manhã seguinte.
Passou o resto da tarde dando cor nova a seus cabelos, tomando um banho demorado com sais de banho especiais vindos do Mar Quando Não Era Morto, fez uma massagem linfática para retirada das toxinas do corpo e a noitinha, já parecia outra mulher.
Satisfeita com seu reflexo no espelho gracejou imitando a famosa frase da rainha má:
-Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela e poderosa do que eu em toda região de Pedra Ilustrata? – gargalhando diante de tal brincadeira, ela mesma respondeu:
-Claro que não! Ora pois! Não preciso da resposta de um espelho idiota para saber isso. Eu, Abelarda Mão Pesada, senhora real dos reinos de Pedra Ilustrata e Afins, sou a mais bela, a mais feminina, a mais astuciosa, a mais inteligente de todos os tempos. E ai de quem ousar me contrariar!
À partir de agora, inicia uma nova fase na história. A Era Abelardina.
Sonhando com seu promissor futuro de poderosa mulher, foi dormir o sono dos justos espalhando seu roliço corpo na imensidão do colchão real que por hora, tinha somente para si.

Para quem não leu o primeiro capítulo: Era uma vez

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4 comentários sobre “Era uma vez, outra vez

  1. Bom, vou esperar pelo “era uma vez, outra vez, de novo” vai ter? Sabe né, ninguém merece ficar sozinho… nem mesmo a Mão Pesada.

    Olha, esses nomes todos, pra mim, foram uma diversão à parte. Sorri muitoooo.

    Parabéns querida. Bjo!

    • Claro que vai ter continuação! Exato, ninguém merece ficar sozinho. Nem a Mão Pesada, nem euzinha, hehe! Tô na fila esperando. Cris, adoro criar nomes bem divertidos. Que bom que te fez sorrir! Aguarde que já já vem sequência! Bjs

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