Renascimento

O ser humano não nasceu para viver sempre igual, estático. Somos movidos a mudanças. Necessitamos delas.

Quem professa a ideia: Sou assim, não mudo! – desculpe minha franqueza mas, é um pobre iludido.

Mudar é renovar, virar páginas, iniciar histórias novas. Quem passa uma existência se negando a isso, perde a chance de momentos agradáveis, pessoas novas a contribuir para seu crescimento, aumentar seu círculo de amizades.

Durante vinte e cinco anos, passei aprendendo, absorvendo, acumulando experiências e vivências. Está certo que nem tudo foram flores contudo, até mesmo as pedras no caminho serviram para me fortalecer e aprender a separar o “joio do trigo”.

A decisão de virar a página, mudar a rotina, encerrar um ciclo, não foi nada fácil. Você parar por um momento, olhar para o espelho interior e assumir suas fraquezas, falhas, medos, não é uma experiência agradável. Porém, você mergulhar em si mesma e reconhecer e aceitar-se exatamente como é, te faz sentir algo indescritível. Somente os dotados de humildade e despidos do orgulho mundano, conseguem essa proeza.

Digo que consegui. Não mantenho uma postura com peito inflado expressando através de minha face amadurecida, “Oh como sou boa!”. Não mesmo.

Mergulhei em minha essência, reconheci meu verdadeiro eu, sentei no chão, chorei o choro – não dos fracassados mas sim, o dos que se reencontram consigo mesmo e retornam à superfície, refeitos, fortalecidos e com o desejo nítido de renascer.

Caminhada nova, estradas a desbravar, companhias diferenciadas que me proporcionarão grande avanço em minha existência.

2020 finda com minha conta zerada. Deixo para trás, colegas de duas décadas, espaço físico que vi passar por reformas. O vazio que sinto por hora, não é morada para a tristeza e depressão. Muito pelo contrário, é página em branco para que eu escreva uma nova história. E acreditem: escreverei!

Vou agora ali, abrir um espumante para brindar a fênix que volta a renascer.

E por falar em escrever novas histórias, você já reservou meu livro Equação infinda? Ainda não?

Programação alterada

Tarde de sábado. Sinto como se estivesse estirada em uma grelha de churrasco. A carne a tostar – no caso, sou eu. Esse calor anormal que invadiu a cidade de São Paulo em pleno final de inverno está me prostrando.

Programei minha manhã para dar umas voltas pelas ruas em torno de minha residência. Sair um pouco do casulo que se transformou meu apartamento. Planos: ir até a farmácia de produtos naturais comprar geleia real e conhecer a feira livre, na rua paralela a minha.

Envelhecer é isso! Outras coisas passam a ser prioridades e aguçar nossa curiosidade. Quando que em minha juventude, conhecer novas feiras dos bairros seria programa matutino do sábado?

E a tal da geleia real? De nova pensaria em correr atrás e consumir essa gororoba das abelhas, em jejum pela manhã para fortalecer o sistema imunológico? E esse palavrão então? Na mocidade (hum, isso também é frase dos mais velhos), minha preocupação era tomar coca-cola, posar de fumante e paquerar. Muito!! Era tão bom paquerar! Nem sei mais como se faz. Esqueci.

Esquecimento também faz parte dessa nova fase. Para quem se gabava em ter uma memória de elefante, ultimamente esqueço até mesmo de escovar os cabelos. Depilar então, ficou no passado de mulher que está com tudo em dia. Meu empoderamento hoje é manter a saúde. E olha que a cada dia que passa, essa tarefa é das mais difíceis. Diria, hercúlea!

Agitação, aglomeração, faziam minha alegria na adolescência. Ver gente, estar com gente, encostar em gente! Era tudo de bom! Hoje, quero mais é distanciamento de gente. Reunião, só se for pelo Google meet, Zoom e afins. Encostar em mim, só se for álcool em gel. Bafo no cangote, somente do ventilador me refrescando as ondas de calor da menopausa.

E a essa altura da vida, passei a gostar até mesmo de caldo de pés de galinha. Uma iguaria dos Deuses! Além de saboroso, ajuda nas dores das tais “juntas” que enferrujam com o passar do tempo. Ah…Maldito tempo, que passa numa velocidade….ZÁS!!! Passou e esqueci o que ia complementar. Esquece.

Resumo da ópera ( que antigamente dizia ser programa de veio): envelhecer é simplesmente alterar a programação. Mas quer saber? Bendito seja os que conseguem chegar à terceira idade pois viver, mesmo que de forma limitada, ainda é o melhor programa!

A arte de persistir

O eco das vozes ensurdecem minha alma calejada pelas dores. Vomito a indignação de tantas vidas caladas de forma abrupta e violenta.

Fomenta em meu espírito, um princípio de revolta que se afoga nas lágrimas que teimam em descer.

O alvorecer promete algo melhor do que vivenciamos ontem.

Antes de me levantar, agradeço a dádiva da vida. Da minha vida. Mesmo lamentando as tantas que pereceram.

Continuar a enxergar a beleza da existência humana está se tornando tarefa das mais árduas para as almas do século vinte e um. Venço pela teimosa!

E enquanto teimo, envelheço e deixo aqui um trecho do poema Envelhecer, do livro Com a maturidade fica-se mais jovem, de Hermann Hesse. É o finalzinho que super me identifiquei:

Para os velhos é bom e são/Borgonha tinto ao pé da lareira/E depois uma morte ligeira – Porém só mais tarde, hoje não!

Imagem free: Negativespace

Muito a criar. Muito a viver

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Final dos festejos da Parada Gay, com muita euforia por momentos de liberdade que prenuncia um mundo mais leve e colorido. Ouço o rádio aqui dentro e, bem mais dentro, em meu interior, o tum!tum! de um coração que pulsa sem parar. Por alguns instantes, bate mais compassado revendo o passado.

Noite fria, fogueira acesa, pessoas sorrindo e se aquecendo ao som de uma viola caipira, assim como um quentão rolando solto por entre os copos de todos os presentes…

O cheiro da terra úmida, toma conta de minhas narinas tão acostumadas ao odor da fumaça dos carros nas avenidas da cidade de São Paulo. Agacho e pego um punhado delas sentindo a aspereza gostosa por entre os dedos. Cria do asfalto, filha da urbanidade, não tenho contato com a natureza a não ser pelos vasos de flores comprados no mercado das flores do Arouche. O perfume me enebria feito os taninos do vinho barato que compro no hipermercado Extra, na esquina de casa…

Sorrio ao ouvir de sua boca carnuda, meu nome pronunciado de forma tão sensual. Sua voz baixa e rouca, anuncia uma noite prazerosa de muitas brincadeiras sexuais a nos entreter na meia idade. Agora somos livres, nos tornamos crianças grandes e sem censura alguma, nos permitimos brincar de tudo…

O avião embica e sobe levando-me a novas experiências. Conhecer lugares é sempre bom. Conhecer pessoas também…

Fogo, fogão, foguinho
Pula dentro, pula fora
Estica a corda
E vai embora…

Como é boa a sensação de liberdade em pular corda com amigas. E cantar, e pular, e suar e  e  e…Ser feliz feito criança de novo!

Não. Não é nada disso que acontece mas todas dariam uma boa história. Vocês não concordam?

Iniciar uma história é uma estrada de várias vias que nos possibilita múltiplas escolhas. A vida real também.

Só que muitas vezes, por medo, deixamos de escolher um final feliz. Ou quem sabe, por achar que não somos merecedores. E atravessamos a vida, apegados no cotidiano miserável, porém conhecido, ao invés de se jogar de cabeça numa aventura que acrescente um matiz mais colorido às nossas medíocres existências…

Com todos esses possíveis recomeços e histórias, festejo mais um ano de vida.

56 velas acessas brilhando e provando que viver é bom demais. Foram começos de histórias que poderiam ter acontecido ou que realmente aconteceram. Um mosaico que compôs minha vida terrena enriquecida de muitos janeiros, muitas fogueiras, muitos brindes, muitos choros e risos. Por hora, em postura de agradecimento, elevo o pensamento e agradeço à Deus pela oportunidade única de nascer, viver, crescer e formar uma legião de amigos queridos e familiares amados. 56 viradas de folhas de calendários que fomentaram esse corpo mignon e transformaram-no em rocha que aguenta muitos trancos.

Que venham mais 56!! Afinal, o que vier daqui para a frente será sempre lucro! E não me venham dizer que é o início da derrocada porque – mesmo derrapando na pista -, sou canceriana, ando de lado e faço passo de dança. E mesmo que toque um tango sofrido , choro e danço. Danço e choro. E também sorrio porque  pode até ser que tenhamos a fama de chorões do zodíaco mas, também carregamos a alma inflamada de amor e tesão pela vida. Tin!Tin!

Imagem licenciada: Sutterstock

Decreto Lei

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Porque hoje é sexta-feira, deixarei de lado meu lado mais tenebroso. Empurrarei bem lá pro fundo meus pensamentos de ira, minhas convicções políticas, minhas críticas com relação a todos com quem convivo. Adormecerei minha vontade de explodir por qualquer razão. Sorrirei para a moça do caixa do banco que tanto enrola para trabalhar e nos atender no horário tão corrido e puxado que é nossa hora do almoço. Sorrirei inclusive, para aqueles velhinhos aposentados que – sem pressa alguma, puxam um papo que dura uma eternidade com a atendente pouco se importando que nós, trabalhadores ainda damos satisfação para nossos patrões caso atrasemos. Sorrirei. Mesmo que por dentro, o coração descompasse de ódio disfarçado de ansiedade por querer uma vida mais leve pagando menos impostos e obtendo o direito sagrado de ter acesso mais facilitado ao lazer cultural que, vamos combinar, está pela hora da morte.

E falando em morte, nem morrer se pode. O valor cobrado para nos enterrarem está algo em torno de…de…

Não. Não pensarei nem farei os cálculos sobre isso, caso contrário, meu esgar será de morte súbita de raiva e não o movimento muscular da face se abrindo num sorriso. E hoje, decididamente optei por sorrir. E não há situação ou pessoa nesse mundo que me fará mudar de ideia.

O congresso se desentende, brinca de cabo de guerra, vestem os personagens mais bizarros transformando nossa nação num imenso circo dos horrores. No entanto, hoje, não tenho olhos para eles. Até consigo rir de suas atrapalhadas nada inocentes. Não faz mal. Hoje meu dia será de pura leveza nem que para isso, congele meu raciocínio para não buscar lógica nas coisas diárias. Não quero.

Desejo somente sorrir para aqueles pobres que se encontram de estômago dobrado de fome na sarjeta e oferecer junto de um lanche, meu melhor sorriso. Talvez quem sabe um abraço porque hoje caro leitor, é sexta-feira, não é treze e meu espírito se encontra em jubilo. Motivos não tenho mas como decidi, que assim seja a minha vontade e assim está decretado no país das maravilhas Roselíssicas que hoje, somente hoje, absorverei toda a alegria do universo para amanhã, ter munição para atravessar essa escuridão que desceu sobre a humanidade. Sorria você também, por caridade.

Sentença final

Sabe aquele momento onde um resultado pode mudar radicalmente sua vida? Aqueles minutos que transcorrem após a notícia que ecoa em sua mente.

O ingresso naquela universidade que tanto sonhou, o emprego disputado com vários profissionais que te intimidou, o primeiro pedido de namoro, a viagem que sempre idealizou, o telefonema anunciando que alguém amado morreu.

Essas são apenas algumas das situações em que nos vemos presos entre a realidade e um corredor para o nada que simboliza o desconhecido.

Mas nada se comparara a notícia que sacramenta sua finitude nessa existência. Ao cair em nossos ouvidos, a frase traça uma coreografia fora de compasso até chegar ao cérebro. Processar é outro movimento estranho.

Estou condenado. Vou morrer. Vou morrer. Vou morrer… Difícil assimilar essa sentença afinal, por mais que saibamos que todos temos prazo de validade, preferimos passar essa peteca para os outros. E quando não temos mais ninguém a quem passar, segurar essa bola de fogo nas mãos é trabalho penoso.

A mente, confusa, não processa o fato. Perde-se em milhares de sinapses que se batem entre si causando confusão. O coração, por instantes pára de bater e depois cavalga em descompasso dificultando a respiração. Uma sudorese se espalha por todo o corpo.

Em breve, não sei quando, esse corpo não mais estará aqui enfrentando o trânsito, adentrando metrô lotado, aguentando o mal humor das pessoas que como eu, temem esse momento.

Não mais provarei os sabores de pratos gastronômicos, nem os vinhos que tanto amo.

E o que dizer do meu futebol? Nunca mais a expectativa de acompanhar da arquibancada meu time de coração ganhar uma partida. Ou perder, que também faz parte do jogo. Nunca mais xingar o torcedor anônimo do time adversário nem chamar ele pra briga.

A música, meu segundo alimento, se perderá no espaço assim como minhas moléculas.

A leitura e a escrita também farão parte do que um dia fui. Será que deixarei lembranças naqueles que ficarem? E se deixar, serão boas ou más?

Alguém sentirá minha falta ou – em sete dias após a missa -, cairei assim como tantos, no vácuo do esquecimento? Pior, nem missa terei. Lembrei que não sou católico. Alguém irá chorar por mim?

Será que minha vida foi em vão? Afinal, nada fiz de excepcional para demarcar meu nome para posteridade. Fui medíocre. Tudo em minha vida foi mais ou menos. Tive preguiça de me esforçar para ser melhor em alguma coisa. Contentava-me com o mínimo.

Estranho saber que desde já, não pertenço mais a isso tudo chamado vida. Mais estranho ainda, é saber-se lembrança. Fragmentos de uma memória que com certeza criarão de mim e não o que fui de fato. Isso, nem a gente sabe. Partirei para um nada cósmico sem ter a certeza do que fui.

Finito. Repito. No pouco tempo que me resta, vou criando meu rito.

Finito… Mais uma vez repito para mim mesmo. Trabalho no sentido de fazer a passagem o mais leve possível. Menos dolorosa mesmo que a carne grite. Mesmo que a alma insista em permanecer aqui.

Finitude…Busco uma razão para gostar da partida. Imagino cenas novas na minha minissérie preferida no qual sou protagonista. Feito Cacilda Becker, desejo sair de cena no próprio palco. Altivo. Destemido. Ousado.

Oh Deus! Misericórdia! Sei que nesse processo, não sou nada. Apenas um saco de gordura, água, fluídos. Mas…E isso tudo que carrego aqui dentro? Emaranhados de sensações, emoções, desejos, lembranças? Isso tudo não é matéria para os vermes. É o que então?

Não tenho resposta para essa e tantas outras indagações que surgem filosoficamente nesse momento único. Como já disse lá atrás o filósofo dos filósofos: Só sei que nada sei.

E nessa total ignorância , me perderei retornando para o berço de tudo transformado em poeira cósmica anônima. Sem registro, sem CPF, sem documento algum que me identifique e diferencie dos demais que já partiram.

Talvez essa seja a verdadeira democracia. É na morte que nos nivelamos e nos tornamos iguais perante o universo.

 

Imagem: Google (desconhecido)

5.5

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Enquanto mastigo um pão de queijo e tomo um gole de café, faço uma retrospectiva de minha vida. Não sou dada a esse tipo de coisa mas hoje, em especial, senti esse ímpeto bater forte e parei para refletir.

5.5

Não é sempre que viramos o calendário e damos de frente com esse número. Esboço um sorriso ao lembrar que inferno passei ao me aproximar dos cinquenta. Sofri, chorei, praguejei, lamentei. Sentia que perdia algo de muito valor deixando para trás uma juventude que, na realidade nem aproveitei direito. Não plantei uma árvore, não casei, não tive filhos e também, não publiquei um livro. Pelo menos, não do jeito comercial e tradicional. Tinha tudo para cavar uma bela de uma frustração por tantos sonhos não realizados. Mas quer saber? Após a passagem da menopausa onde todo ritual e simbologia feminina escoou pelo ralo do tempo humano, pouco a pouco percebi que nada disso tinha importância. Observei que nem toda árvore plantada vinga e dá frutos. Confirmei que nem todo casamento é feliz. Aliás, vamos combinar, noventa e nove por cento dos relacionamentos, se resistiram foi por insistência do casal, falta de perspectiva em recomeçar vida nova, preguiça, conformismo e, em alguns bem raros casos, por amor e cumplicidade. Analisei e mais uma vez tive a certeza de que filho, é lindo em fotos retocadas mas, que no dia a dia, é uma eterna guerra para se moldar, criar, transformar uma mera massa de carne, ossos, artérias e cérebro em algo que dê certo. Caso contrário, será um fiasco a mais competindo com tantos outros seres humanos mal formados, desinformados e alienados como vemos diariamente atravessando nosso caminho. Ah! E também tem mais essa confirmação: filho nenhum é certeza de companhia, amor e carinho além de cuidados em nossa decrepitude.

Calma leitor! Não se desespere achando de antemão que me transformei num poço de azedume.

A vida me ensinou que devemos constantemente desenvolver um plano B para tudo. E eu, claro, sendo uma típica canceriana, sempre fui excelente estrategista. Não somente desenvolvi plano B mas o abecedário completo. Gosto de me sentir segura.

Aprendi desde cedo a enxergar a beleza de tudo. Isso não me transformou numa idiota que sorri a toa mas sim, numa pessoa que aposta sempre no melhor. No bom. No acertado. Mas também aprendi e aprendo muito com o erro. Ah! Esse é um grande mestre! Apesar da melancolia ser um traço marcante em mim, tomo cuidados para não transformá-lo num todo. Mergulho de vez em quando para retornar com ideias e personagens para minhas histórias. Procuro sempre cerrar a porta para que ela não saia de vez e tome conta de minha existência. Em doses homeopáticas, é de uma grandeza e serventia única para lembrarmos que somos seres humanos, frágeis e sensíveis. Ela, numa overdose, pode ser fatal.

Hoje, aqui, sentada de frente a tela do notebook, dou graças pela vida. Essa preciosidade. Conquistei coisas importantes em minha vida. Algumas materiais outras tantas ricas numa cifra diferente, mas que representa a minha real fortuna. Amar e ser amada por pessoas muito queridas. Amar sem amarras nem cobranças sabendo que tudo por aqui é passageiro e nada nos pertence de fato. Ao assimilarmos esse ensinamento, aprendemos a viver de forma mais leve, mais solta e com isso, alcançamos um pouquinho da tal sonhada e tão discutida felicidade.

5.5

Meio século e um cadinho mais percorrido. Isso nos dá um parâmetro do que foi nossas vidas e do quanto ainda teremos pela frente ou não, afinal, não sabemos a data de nossa validade não é mesmo?

Ontem à noite, saí para jantar com um amigo/irmão para comemorar antecipadamente meu aniversário. Fomos a um restaurante tailandês que há muito tínhamos vontade de conhecer. Foi uma opção acertada! Unir a arte de comer bem, a um bate-papo saudável e com quem se tem afinidades, é um prazer incrível que todo canceriano aprecia. Essa junção é alimento para a alma. Conversamos sobre trabalho, relacionamentos, vida e sobre nossa amizade de décadas. Voltei para casa de alma leve e radiante!

Amanhã, ao despertar e conscientizar-me da virada no calendário, sorrirei e elevarei meu pensamento em agradecimento por mais um ano de vida. Agradecer primeiramente aos meus pais que me geraram e me formaram esse ser que – se não perfeito – pelo menos em eterna construção. Obrigada Walter e Ilda pelo amor em me criar da melhor forma que puderam com seus valores. Obrigada Vida! Obrigada Deus ou quem quer que seja que criou esse Universo pleno de possibilidades e aprendizado! Obrigada a todos que foram e são meus mestres nessa caminhada terrena.

A vida anda uma merda em todos os sentidos: políticos, econômicos, sociais mas, quer saber? O meu lema segue o que diz aquela canção de Claudio Zoli: Viver é bom demais!!!

E seguirei enquanto  me for permitido. Sorrindo, cantando, chorando, espalhando alegrias. Feliz aniversário Roseli! Tin-Tin!

Maturação

pilatesroseli

Observar a juventude se esvaindo

Manter a mente e espírito jovem

Não  infantilizada

Remoçada nas linhas de raciocínio

Ar refrescado por novos aprendizados,

experiências, vivências

Permitir-se.

Envelhecer é voltar as costas ao novo

ao não testado.

Envelhecer, é voltar-se para dentro das entranhas

e nela – deixar-se apodrecer pela inércia

Percebo meu corpo perdendo a

elasssssssticidade

A derme ganha dia a dia flacidez

Luto para manter a postura reta

envergar, somente a alma para alcançar o inalcançável

Pilates, Yoga, meditação, alimentação natural

Num mundo de industrializados, mantenho meu

foco na terra, no adubo, na criação da natureza

Essa é a verdadeira beleza!

Hidrato a pele e, em contrapartida,

ela ganha manchas senis

Teimosas, desejam demarcar território

provando que muito vivi

 

Criador e criatura

Da janela de seu quarto, observa um recorte do mundo exterior. Do lado de cá, é ciente de sua realidade. É só isso que tem. Contudo, o que não sabem, é da riqueza de sua imaginação. Através dela, percorre mundos paralelos e inventados por sua mente criativa e alimentada por muitas leituras desde que se alfabetizou. A rica moldura para a realidade, pincela traços grotescos de concreto envelhecido, pinturas desgastadas pelo tempo, vidros repletos de adesivos de estudantes que vem e vão, neons anunciando noitadas quentes a preços convidativos, drinques e diversão garantida, jardins verticais e grafites.

Sirenes rasgam o parco silêncio da rua anunciando mais doentes chegando ao hospital no final da rua. São mais frequentes aos fins de semana acompanhados de muitas cheiradas e álcool. A existência de muitos terminam ali.

Enquanto isso, sua vida segue arrastada numa rotina medonha. Não reclama. Está bom assim. Tem tudo à mão. Somente o que necessita para manter-se viva…

Tudo mudou há seis anos. Era outra pessoa. Ousada, destemida, competente e conhecida. Teve fotos estampadas por diversas vezes em jornais. Uma celebridade. Ganhou dinheiro, viajou, adquiriu imóveis. Aqueceu seu corpo escultural ao lado de muitos homens.

O prazer físico era um de seus vícios que – na medida do possível e também do impossível -, saciava. Seu duplex, decorado por Sig Bergamin, fora palco de muitas orgias. De três em três meses, abria as portas para um grupo seleto. Com direito a roteiro, personagens, boa gastronomia, bebidas à vontade. Baixelas de prata repleta de pó espalhadas por toda parte ofertavam aos convidados, momentos de puro êxtase sensorial, corporal, acompanhados sempre por música clássica ou eletrônica além de trechos de poemas e contos de autores conhecidos ou anônimos. Tudo variando conforme o tema estabelecido por ela. Toda festa era sucesso absoluto e comentadas por semanas nas rodas de amigos. Amante de sexo grupal, seu clímax era o anal que a deixava louca de tesão e estimulava fila indiana da ala masculina para enrabá-la. As mulheres participantes sugavam seus peitos bem garantidos pela gravidade entre outras brincadeiras. Seus bicos chegavam a sangrar de tão chupados e mordidos. Não ligava. A dor fazia parte do jogo. Inúmeras vezes gozou equilibrando-se no parapeito da janela do vigésimo andar. Ali, nas alturas, nua, sentindo o vento a lhe abraçar o corpo junto com algum outro a lhe penetrar, sentia-se verdadeiramente livre e dona do mundo. Seu mundo. O sexo tornou-se seu vício maior. Mais que a cheiradas, picadas e destilados. O parceiro desse vício era o risco calculado. A adrenalina era altamente prazerosa. Foi ousando e se arriscando cada vez mais. Até o momento que seus parceiros de aventura começaram a sair de cena. Muita loucura. Sem maiores explicações, a vida lhe deu um xeque-mate antes que ela fosse responsável pela morte de alguém ou de si mesma. Certa manhã, despertou sentindo-se estranha. Não reconheceu ao mirar-se em seu espelho veneziano. Recolheu-se debaixo dos lençóis egípcios e permaneceu na penumbra por várias horas. Que se tornaram dias, meses, anos. Raras vezes saiu do edifício a não ser para ir ao médico da família que a acompanha desde então. Os amigos, de início até a visitavam mas, aos poucos se distanciaram. Ela não era mais divertida. Olhar ausente pairando sabe-se lá em que paisagens causava incômodo a quem se aventurasse a visitá-la. Muda. De mulher extrovertida e com os temas sempre atualizados sobre tudo, nada mais pronunciava. Sua articulação desembaraçada havia se perdido. Somente balbucias incompreensíveis. Sua beleza – antes admirada e invejada -, agora, apenas um punhado de pele flácida de coloração acinzentada. Seus cabelos volumosos, com brilho e sedosos, hoje, um emaranhado fosco e quebrado. Ela o arrebenta em momentos de crise…

Lê mais uma vez o que acabou de escrever com a ajuda do software Motrix, instalado em seu notebook, sorri satisfeita com sua mais recente história e personagem.

Assim como Álvares de Azevedo, nada viveu em sua limitada vida porém, o que consegue vivenciar através de leituras e escritas comprova sua experiência! Por hora é só. Seu corpo pede repouso.