Estado indefinível

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Choro uma dor sentida que ninguém é capaz de compreender. Para todos, encontro-me senil, débil, demente.
Ninguém compreende o que sinto e vejo ao meu redor. Tento falar, expor minha agonia, meu medo e ninguém me dá ouvido.
Pensam que não sei o que falam entre si. Acreditam que não ouço, não vejo, não sinto.
Acham que já me encontro em estado adiantado de putrefação física.
Pode até ser que em parte, isso seja verdade. No entanto, nunca estive tão lúcido.
Foi preciso viver um século para obter tal visão da vida e do mundo.
Agora eu jogo a pergunta a você: de que me serve tamanha clareza de tudo se ninguém me ouve? Ninguém acredita naquilo que falo.

De que me serve uma experiência de vida que adquiri através da labuta incessante, de pegar no cabo da enxada logo cedo, aprender mil ofícios para crescer, tornar-me homem de verdade, ajudar meus pais, meus irmãos? De que adiantou abdicar de uma vida adulta com família formada, mulher, filhos, netos?
Abri mão de tudo isso para ajudar papai e mamãe e o que ganhei em troca? Abandono.
Primeiro foi papai que partiu sem nem despedir da gente. A seguir, mamãe, inconformada com seu sumiço, abandonou a gente e nunca mais deu notícias…
Dá uma revolta pensar nisso!!
Levei uma vida inteira formando minha persona, fortalecendo-a na fé, no exemplo a ser seguido por todos. Tornei-me um guru para os mais novos. Um líder a ser seguido. Ganhei com o tempo muitos adeptos de meu estilo de vida. Fiz também muitos desafetos por ser inflexível com aqueles que não “rezavam pela minha cartilha”.
Quando mais novo, nem liguei para tais desafetos. Mas hoje, olhando para meu passado, confesso que fico incomodado.
Afastei de mim amigos que através de minha conduta, criaram reservas, se afastaram falando mal de mim.

Alguns chegaram inclusive a espalhar que eu havia me transformado num mascarado, num santo do pau oco, num falso cristão.
Logo eu, que transformei minha vida num eterno refazer espiritual, num ser moldável pelas palavras e exemplos de Cristo.
Assim como ele, fui incompreendido. Jogaram-me pedras morais que arranharam minha imagem. Por mais que tenha lutado, enfraqueci. Fui pouco a pouco diminuindo em essência e com o avançar dos anos, até minha estatura diminuiu.
Meus cabelos fartos foram rareando, platinando, meus olhos embaçando, minha pele perdeu o viço de outrora até que um dia, sucumbi.
De acordo com a medicina dos homens, tive um acidente vascular. Mas sei que foi minha alma que quedou do alto de meu orgulho de homem feito. A queda foi grande, o estrago imenso.
De lá pra cá, só decaindo ladeira abaixo.
Hoje, aos noventa anos, sinto que minha vida foi em vão. Toda energia empregada numa filosofia de vida que achei certa, corroborou, faliu, desmoronou feito castelo de areia.
Ruiu deixando a mostra, uma estrutura frágil de um ser humano prestes a deixar esse mundo da mesma forma que chegou: sem fala, sem movimentos equilibrados, mijando, defecando, babando e chorando muito. Um bebê crescido e fragilizado que só deseja retornar para o ventre aquecido e familiar de sua mãe. Seu verdadeiro lar.
Nascer dói por isso o bebê ao nascer chora. Um esforço sub-humano que fazemos para se deslocar expulsos da adorável placenta.

Morrer dói mais ainda porque ao cair nas malhas da matéria, nos iludimos uma vida inteira crendo que conquistou posição, bens, status.
Ledo engano.
Aos poucos tudo nos é tirado e ao término da vida, até a passagem é feita de forma solitária.
Sinto-me cansado. O esqueleto pesa, respirar cansa, comer – de um prazer, passou a uma tortura sem fim.
Hoje posso compreender as pessoas que desejam eutanásia. Sempre fui contra, mas só mesmo passando por tudo isso, é que se torna um simpatizante dessa atitude.
Não desejo mais viver. Não assim. Não nesse estado indefinível entre o lá e o cá.

 

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Despregando memórias

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Hoje amanheci com o coração aos pulos de alegria e uma felicidade que há muito não sentia. Acordei sentindo seu cheiro amadeirado, seu hálito quente, sua língua exploratória, seu toque inconfundível. Demorei a abrir os olhos pois não desejava retornar à realidade. Ali, na penumbra do quarto, mantive-me quietinha, inerte, quase sem respirar só para não quebrar o encantamento daquele momento.

Resgatar os instantes que passamos juntos é talvez, a melhor coisa que a memória faz por nós. Lembrei de uma frase sua:

‘É bom sentir saudade. É sinal que vivemos algo, construímos algo. Esses momentos são pedras preciosas que carregamos até o fim de nossas vidas. Guarde-as com carinho meu amor.”

Lembra disso? Eu gravei essa e muitas outras coisas suas. Nossas.

Não tivemos a chance de construir muitas coisas. Muito pelo contrário, o tempo foi algoz, o destino atroz no entanto, o pouco que conseguimos, ficou.

E passado tantos anos…Pra falar a verdade, décadas,  parece que tudo aconteceu ontem.

Hoje, vivo sozinha numa bela casa de repouso. Não quis saber de morar com minha filha. Ela tem sua vida, sua família, seu trabalho. Seria um fardo pesado demais em suas costas. Como no decorrer dos anos soube investir meu dinheiro, hoje posso me dar o luxo de pagar por esse “depósito” de idosos. Aqui tenho tudo o que preciso: quarto individual com banheiro adaptado, refeições bem feitas e diversificadas, uma TV no quarto que dificilmente assisto. Somente quando perco o sono pela madrugada e busco esquecer a realidade é que ligo a fábrica de sonhos. Só que, pra falar a verdade quase nunca presto atenção. É mais pelo som, pela imagem que me faz sentir menos sozinha. Continuo a ler muito só que agora seleciono minhas leituras garimpando livros que tenha uma fonte maior para poder enxergar bem. Sabe como é, coisa da idade. Ah! Outra coisa que adquiri com o tempo: escrever.

Coleciono uma dezena de cadernos com manuscritos meus. São coisas bobas, do cotidiano. Um filtro que passo em tudo o que vivencio, vejo e transformo em narrativas. Não tenho e nunca tive pretensões literárias. Sei que não levo jeito pra competir com tanta gente talentosa mas, tornou-se um bom passatempo enquanto ela, a morte, não se lembra de vir me buscar.

O que? Você acha que tenho medo dela? Nem um pouco! No passado, quando jovem e com uma vida inteira pela frente, sentia sim. Mas hoje, no alto de meus oitenta e oito anos, penso nela como uma companheira atenciosa, prestativa, certeira. Talvez a única que tenha um real olhar para mim. Sim porque, velhos costumam ser invisíveis e recebem olhar que atravessam e não permanecem. Entende a diferença? Não? Pode ser porque você ainda é jovem. Quando chegar a minha idade saberá do que falo.

Osório, a única queixa que tenho sobre o tempo e a memória, é que aos poucos, todos os nossos arquivos de vida vão desbotando. Você, por exemplo, não consigo mais fixar os detalhes de sua figura que era tão bonita. Meu cérebro já não funciona tão bem como antes. Outro dia até caí na risa sozinha quando vi que estava trocando seu nome. Logo seu nome que foi tão importante pra mim. Escrevia sobre você em meu caderno e, quando parei para ler, vi que tinha te chamado de Tenório. Imagina só.

Que pena, a consciência vai dominando meu corpo enrugado e aos poucos, por mais que lute contra, sua imagem, seu cheiro e tudo o que te compõe vai sumindo. Ficando apenas uma vaga sensação delirante. Sinto que estou despregando memórias. Ao final, acho que nada se manterá, apenas um vazio de vida.

Envelhecer tem disso. Deve ser também a reação aos remédios. São tantos que nos fazem engolir!

“Acorda dona Tereza! O dia está lindo lá fora. Vamos tomar o café da manhã e depois, um pouco de sol” – dito isso, a cuidadora abriu as cortinas inundando o quarto de luz e de realidade.

Quero brincar de outra coisa

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Combinaram de brincar de O gato comeu a língua e não me avisaram.

Por que está todo mundo tão calado? Ninguém se olha, se fala, cada um voltado para seu próprio mundo.

O ser humano é engraçado mesmo. Ao se ver confinados, perdem a espontaneidade e vestem uma couraça para se protegerem. Se proteger de quê? Pergunto eu. Não tenho resposta até mesmo porque, eu também me retraio e fico confinada a minha existência interior. Ouço música, penso na vida, confabulo comigo mesma, desenvolvo histórias, crio personagens. Enquanto isso, no lado real da vida, as coisas correm, fluem. Os dias passam e passamos juntos, só que separados. Nem parece que somos uma equipe que convive há anos. Parecemos um grupo de desconhecidos confinados numa viagem da CVC. Todos muito sérios, compenetrados, evitando se olharem. Respirando de leve para não incomodar o colega.

Daqui de meu cercadinho penso com meus botões: onde foi parar aquele brilho nos olhos, o sorriso fácil, a leveza da boa convivência?

Eu mesma faço mea culpa pois hoje não sou mais aquela garota leve e sorridente que fui no passado. Sorrir até sorrio. Acho que sorrirei sempre. No entanto, perdi a leveza, a ingenuidade, a pureza que trazia no peito aos quinze anos. Idade em que olhava para esse mundão de Deus e me imaginava desbravando-o e conquistando meu espaço.

Conquistei ele – o espaço, sou feliz no que faço, foi minha escolha e não me arrependo só que não sei ao certo o que aconteceu nessa caminhada. Perdi algo muito importante. Sinto isso mas não consigo precisar o que. Sempre digo a minha mãe que “criar juízo” não foi uma coisa legal. Quando jovem e sem juízo nenhum, era muito mais feliz. O peso da responsabilidade sem dúvida pesa, causa cansaço, muitos compromissos assumidos, apertos financeiros, perdas…

Ser adulto é uma brincadeira que perdeu a graça. Ainda bem que inventaram a velhice ou, como se diz no politicamente correto, a terceira idade. Bonito isso não? Pois bem, Deus percebeu que sacaneou a humanidade e corrigiu a direção da vida nos fazendo envelhecer e perder a noção de certo e errado. Nos devolveu a infância! Ao perdermos pouco a pouco as conexões neurais, passamos a agir sem censura e de certa forma, voltamos s ser mais leves, mais feliz.

As vezes sinto uma certa invejinha das crianças e dos idosos ao vê-los se sujarem, se molharem, fazer caca na mesa e não estarem nem aí. Não sentirem vergonha do que o outro vai pensar. E nós, pobres adultos, cheios de etiquetas, de regras, de zelo pelo que é certo e o que é errado nos martirizamos diariamente tornando nosso fardo pesado demais.

Está decidido. Quero viver bem para chegar a velhice e voltar a desfrutar a criança que fui um dia.

Poder resgatar a menina desvairada, sem noção, alegre, arteira que deixei lá atrás.

E tenho certeza que serei bem feliz pois carregarei a mente esvaziada uma vez que, segundo os especialistas em neurociência, como passar dos anos, ocorre um declínio volumétrico. Trocando me miúdos, perdemos a cabeça!

Quer ser uma velhinha do balaco, arteira, rir muito, conversar com as estrelas, namorar a Lua, consultar o vento, dormir ao relento e, quando minha vez chegar de prestar contas ao Síndico, repousar a cabeça tranquilamente e deixar esse mundão sem saudades, nem apegos. Fluir. Simplesmente fluir.

Que assim seja!

 

Ilustração de Bruna Taynara