Louca poesia

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Passar a vida ao lado dos mesmos

sentir-se estrangeira

Não reconhecer a língua falada

não conseguir fazer-se entender

Gritar tentando ser notada

Forçar sua presença

inútil – não notam sua carência

Que sociedade vivemos onde

todos sofrem solidão sem fim

e buscam aplicativos,

redes sociais,

desenvolvem até robôs,

sósias perfeitas de quem se foi

Cada ser em seu quadradinho

Lado a lado – um só mutismo

Cegueira de Saramago

Que enxergou o que ninguém deseja ver

O ser humano perdeu referencial

de sua humanidade

Tornou-se apenas um animal

tecnológico, pobre na alma

e infeliz.

E eu aqui, sussurrando para você

Que senta-se bem a minha frente

E não sente que estou aqui

forasteira renegada

Carta descartada de um baralho francês

Que insensatez!

Mulher, velha, sem família

Que domina as letras – que heresia!

É muita ousadia!

 

Imagem: Freeimages

 

Súplica

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Espera, não vá

O dia não clareou e o galo da vizinha ainda nem cantou

Mantenha-me aquecida

Volte a encostar seu hálito quente em meu pescoço,

relaxe

Sussurre que sou cheirosa e macia

Confesse ao pé do ouvido que valho a pena

Sabes o quanto sou insegura-

Fique!

Ature-me um pouco mais

Sei que exijo sua atenção

Contudo, desdobro-me em muitas para teu prazer

O que fazer?

Anseio por seus toques. Para mim são vitais

Amo os momentos em que nos tornamos

animais

Coreografamos as preliminares

Insanos, nos devotamos, nos doamos,

não importa que para os vizinhos o que falamos

não tenha nexo

Entre galopadas, freios, gemidos e grunhidos

Nosso entendimento se faz

Nossos olhares – dois asteroides que se cruzam

e se reconhecem brilham

intensamente

como recompensa, ganhamos o ápice do prazer-

à dois, apagamos juntos

exaustos, suados, permanecemos colados –

derme contra derme

tal qual estrelas que morrem e continuam

a brilhar no universo sem fim

Assim somos, assim nos amamos, assim

nos encaixamos

Por isso, espera, não vá!

Fique um pouco mais.

Imagem: Pixabay

Estações

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Acordo primavera,

Alma florida, terra remexida

cheiro de novidade

Passo o dia exalando verão

Mãos quentes, sorriso luminoso,

olhos de tentação

A tarde baixa trazendo aroma de

café;

aspiro seu perfume que me leva à você

Forma-se tempestade

Fenômeno El Niño, viro geleira

enrigece meu coração;

Noite baixa com temperatura fria

encolhida na cama, aos poucos,

passa a tormenta; madrugada chega,

uma voz interna sopra na alma:

Alice, enfrenta!

Adormeço. Mais uma vez, despeço-me

da tua ausente presença. Amanhece.

Volto a ser jardim;

Floresço!

Imagem: Pexels

 

 

Apresentação

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Detenho poderes que nenhum ser humano imagina existir

Manipulo energias que nenhum físico descobriu

Traço caminhos que nenhum engenheiro ousou construir

Crio mundos, gero vidas,

Determino seu fim.

Posso estar em muitos locais ao mesmo tempo

Sem jamais me perder de mim mesma

Sou essência

Matéria bruta da natureza

Em meu mundo, sou conhecida como

A rainha do castelo de livros

Criei mais uma história que,

com certeza te prenderá

Te farei meu escravo, de mim não se apartará

Até saber o significado dos segredos que detenho

Deseja arriscar? A caminhada é longa mas,

o aprendizado, é para sempre.

Adentre os aposentos de meu castelo e…

Aventure-se!

 

Imagem: Pexels

Pintura poética

Autumn Rain

Pousa na sacada da janela, uma folha

amarelecida

caída da árvore que luta contra poluição do ar e fios

– que a sufocam.

Esquecida, é prenúncio do outono que

atrasado, reclama sua presença entre nós

O silêncio, cá dentro, dá o tom musical perfeito

para o encerramento do dia

Anoitece em Sampa.

 

Imagem: Google

Ano estranho de se viver

cultura de massa

O carnaval passou e o ano de fato iniciou. E o agora vem repleto de dúvidas, temor, raiva e desconforto afinal, não sabemos o que nos aguarda. Ou, talvez saibamos mas preferimos fingir que nada sabemos.

O brasileiro, em sua já conhecida apatia (e eu, me enquadro nesse grupo), continua a olhar pela janela vendo o tempo passar. Exatamente como Chico Buarque tão bem exemplificou em sua canção Carolina. Passaram os blocos carnavalescos, os blocos da corrupção. Está passando a passos miúdos, o bloco da dengue,  com destaques para o zika e chikungunya.

E nós brasileiros, tomados pela apatia patológica, seguimos feito zumbis. Metendo a mão no bolso para pagar impostos que já se encontram embutidos em todas as mercadorias. Reclamamos porque fomos educados (ou devo dizer, adestrados?) para reclamar de tudo. No entanto, sentamos toda noite em frente a telinha, assimilando todo tipo de informação (verdadeira ou não). Não adquirimos o hábito de refletir sobre as mesmas e, tomamos como verdades absolutas, tudo o que vemos na tela do Plin-Plin.

Dessa forma, nossa circunferência se amplia dia a dia de tanto engolir sapos. Passamos mal, procurando a saúde pública que agoniza em estágio terminal. Compramos remédios nas farmácias sem nem saber se são bons para nossa saúde. Transformamos nosso organismo num mix farmacológico e ainda temos a cara de pau de falar em outras drogas e seus viciados. Não percebemos a quantia absurda que temos em nossos armários. Remédios de tudo e para tudo. Se automedicar, transformou-se na pós graduação que todos têm acesso na universidade da vida.Temos moral para criticar algo ou alguém?

Óbvio que não, contudo, mesmo assim seguimos nossa caminhada – ou devo dizer derrocada?, achando que sempre os outros é que são os errados na história da humanidade.

Só sei, que nada sei, diante de tantos acontecimentos, no mínimo, estranhos que tem surgido apenas nesse primeiro semestre do ano de 2016. Temo não ter raciocínio e fundamentos suficientes para poder analisar e criticar de forma consciente e correta. Só sei que sinto. E muito. Só sei que desejo. E muito.

Ver um dia nossa nação feliz, elevada e acima de tudo, consciente de seu papel.

Será sonhar demais? E sonhar demais, será errado?

Imagem: Google

Artesã

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Palavra

Parole

Word

Palabra

lavra

ideias

Para

pensar

Pensei

Achei,

Gostei!

Sorvi seu gosto

Absorvi os sentidos,

lidos…

Lapidei

Poli

Cortei

Transformei-as

num poema

Mas…

não sei

qual tema

colocar…

Volto a lavrar

Qual

palavra

usar?

Penso

Escrevo,

faço arte

com elas,

as palavras

sãs,

sã?

sou?

sou arte(sã)

Artesã

Blue Moon

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Olhava aquela lua azul e perdia-se em

Lembranças…

Já havia se perdido em outros azuis

Tão imensos e profundos quanto a bela lua

Tão misteriosos quanto a dona da rua

Que nua, se mostrava sem pudores

toda sua beleza, nobreza

E ela ali, tonta de emoção sentia

Que assim como essa madonna lunar,

Aqueles faróis azuis que tanto

a iluminou, hoje aquece

Engrandece outros territórios

Fenômeno, o amor mudou

Saiu sem pagar aluguel,

Deixando apenas fel

E hoje, através desse Blue,

restaram somente

Lembranças…

Foto de Graziella Cannata