BEDA -Braçadas firmes na alma feminina

As mulheres estão cada vez mais demarcando território na literatura. Sinal que nós sempre tivemos muito a dizer. Só éramos amordaçadas. Tenho lido textos incríveis e hoje, foco especialmente numa poeta: Suzana Martins.

Dona de obra extensa e rica, seus poemas são repletos de delicadezas, verdades, alma feminina que não se intimida e se despe em cada verso.

Através da Scenarium Livros Artesanais, Suzana lançou seu belo livro (In)versos.

Repleto de sentimentos, os poemas num perfeito casamento com as ilustrações, faz da leitura, um prazer sem fim. Ao término de cada poema, sai fortalecida com a certeza de que todas nós mulheres somos feitas de matéria especial. Ah, como faz bem ler, sentir, entender a alma de outra mulher!

Apesar de conhecê-la de longa data, do princípio dos blogs, não a conheço pessoalmente. Suzana, precisamos mudar isso!

Se você ainda não conhece a escrita de Suzana Martins, apareça em seu blog Minhas marés e solicite seu exemplar.

Esse texto faz parte da blogagem coletiva BEDA Blog Every Day August

Participam comigo:

Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega Nuñes – Suzana Martins

Beda 19 – Salv(oa)dor

Salvoador

de um povo oprimido

não reconhecido,

retumba o tambor

De um espírito forte

lutador, que rangeu de dor

nas senzalas de seu senhor

Quebrou grilhões, partiu

ainda não encontrou

nem provou seu valor

— Num lamento grave

foliões, sua o peito latejante

Seguem adiante, inovando

— passos

Nem Gabriela, nem Jorge

muito menos, Brown

O povo na rua

— clama

reconhecimento, respeito

Marias, Josés, Janainas,

tantos anônimos que

cedo, estômago vazio

— quando muito,

tapioca ou acarajé

Os estimulam a seguir

sobrevivendo, numa Salvador

árida, blue, suja, degradante,

No centro velho, ninguém se salva,

impera somente

ador.

Esse texto faz parte do b.e.d.a — blog every day august.

Participam Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia — Obdulio Nuñes Ortega

Imagem: acervo pessoal

B.E.D.A. – Arrebatamentos e outros inventos

Sem ideias para escrever, busquei inspiração na poesia. Estamos precisando! Entre tantos poetas, veio-me a lembrança de um poeta que admiro muito. Talentoso, sarcástico, brincalhão e amigo. Velho amigo.

Andamos nesses últimos cinco anos distantes. Cada qual em seu Estado, levando a vida. É engraçado como mesmo as amizades tão fortes, se distanciam. Não por descuido mas, a vida é que nos direciona para outros caminhos.

Olhando minhas estantes de livros, deparei com seu único livro publicado em 2015.

Muito pouco do muito que tem escrito, guardado só para sí. Uma pena. Sua obra deveria ser toda publicada e conhecida por todos. Na mesma época em que criei meu blog, incentivei-o a criar um para registrar seus poemas. Assim como os meus antigos blogs, o dele também ficou largado, por aí nessa cidade digital chamada internet. Ah… Bateu saudades de nossos papos. Vou logo ali fazer uma ligação interurbana. Pronto, entreguei a idade!

Para quem se interessar, Blablablog

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

Imagens: Graciosamente emprestadas do blog do autor

B.E.D.A. – Clausura

grilhões

impedem meu caminhar

rotina

me sufoca

mesmice laboral

ruína dos sonhos

planos esfacelados

de uma vida leve,

colorida

obrigações,

responsabilidades,

dívidas

transformam

ganhos em perdas

permaneço

nessa prisão

anseio sair

não sei

para onde ir

grito

por mudanças

não saio

do lugar

ralho

contra o sistema

contribuo

com passividade

falsa

sou

como todos

bulímica

mastigo

o dia a dia

não sinto

sabor

vomito

nada supre

a fome da alma

sigo

feito zumbi

nessa trilha

chamada vida

trago

dúvidas

vale a pena

prosseguir?

almejo

liberdade

só não sei

como ela é.

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

Peça quebrada

Abraço-me

tentativa de sentir a própria

solidão

Grito em meu mutismo

busca vã por

alguém

Me cerco por móveis

desmontados,

simbolizam meu interior

procuro solução para nova

montagem

Sou relógio faltando peças

Algo quebrado necessitando troca

Ouço um tic-tac confirmando:

existo!

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

Imagem licenciada: Shutterstock

B.E.D.A. – Descrença

O doce da rapadura é amargo

Assim como o amor day after

Seco, árido, vazio

Vazio são os diálogos soltos no ciberespaço

Muitos bits, raros momentos de sabedoria

não de bar mas, da vida

Vida rasa, falsa, frágil, empobrecida

Pobre de mim que suporto tanta mediocridade

Na minha idade, não tenho mais paciência

E a ciência? Perdendo tempo em prologar

essa merda de vida…

Báh!

Esse texto faz parte da blogagem coletiva “Blog Every Day April”. Participam também:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

 

Marulho

Navegar é preciso

viver não é preciso, dizia Pessoa

O que ele não soube, é o quanto amei navegar em seu mar

Corpo rígido a me levar em ondas intensas

A derramar em meu porto, seu prazer

Levando-me a esquecer a náusea de viver

em terra firme

Louca poesia

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Passar a vida ao lado dos mesmos

sentir-se estrangeira

Não reconhecer a língua falada

não conseguir fazer-se entender

Gritar tentando ser notada

Forçar sua presença

inútil – não notam sua carência

Que sociedade vivemos onde

todos sofrem solidão sem fim

e buscam aplicativos,

redes sociais,

desenvolvem até robôs,

sósias perfeitas de quem se foi

Cada ser em seu quadradinho

Lado a lado – um só mutismo

Cegueira de Saramago

Que enxergou o que ninguém deseja ver

O ser humano perdeu referencial

de sua humanidade

Tornou-se apenas um animal

tecnológico, pobre na alma

e infeliz.

E eu aqui, sussurrando para você

Que senta-se bem a minha frente

E não sente que estou aqui

forasteira renegada

Carta descartada de um baralho francês

Que insensatez!

Mulher, velha, sem família

Que domina as letras – que heresia!

É muita ousadia!

 

Imagem: Freeimages

 

Súplica

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Espera, não vá

O dia não clareou e o galo da vizinha ainda nem cantou

Mantenha-me aquecida

Volte a encostar seu hálito quente em meu pescoço,

relaxe

Sussurre que sou cheirosa e macia

Confesse ao pé do ouvido que valho a pena

Sabes o quanto sou insegura-

Fique!

Ature-me um pouco mais

Sei que exijo sua atenção

Contudo, desdobro-me em muitas para teu prazer

O que fazer?

Anseio por seus toques. Para mim são vitais

Amo os momentos em que nos tornamos

animais

Coreografamos as preliminares

Insanos, nos devotamos, nos doamos,

não importa que para os vizinhos o que falamos

não tenha nexo

Entre galopadas, freios, gemidos e grunhidos

Nosso entendimento se faz

Nossos olhares – dois asteroides que se cruzam

e se reconhecem brilham

intensamente

como recompensa, ganhamos o ápice do prazer-

à dois, apagamos juntos

exaustos, suados, permanecemos colados –

derme contra derme

tal qual estrelas que morrem e continuam

a brilhar no universo sem fim

Assim somos, assim nos amamos, assim

nos encaixamos

Por isso, espera, não vá!

Fique um pouco mais.

Imagem: Pixabay