Maturação

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Observar a juventude se esvaindo

Manter a mente e espírito jovem

Não  infantilizada

Remoçada nas linhas de raciocínio

Ar refrescado por novos aprendizados,

experiências, vivências

Permitir-se.

Envelhecer é voltar as costas ao novo

ao não testado.

Envelhecer, é voltar-se para dentro das entranhas

e nela – deixar-se apodrecer pela inércia

Percebo meu corpo perdendo a

elasssssssticidade

A derme ganha dia a dia flacidez

Luto para manter a postura reta

envergar, somente a alma para alcançar o inalcançável

Pilates, Yoga, meditação, alimentação natural

Num mundo de industrializados, mantenho meu

foco na terra, no adubo, na criação da natureza

Essa é a verdadeira beleza!

Hidrato a pele e, em contrapartida,

ela ganha manchas senis

Teimosas, desejam demarcar território

provando que muito vivi

 

Blue Moon

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Olhava aquela lua azul e perdia-se em

Lembranças…

Já havia se perdido em outros azuis

Tão imensos e profundos quanto a bela lua

Tão misteriosos quanto a dona da rua

Que nua, se mostrava sem pudores

toda sua beleza, nobreza

E ela ali, tonta de emoção sentia

Que assim como essa madonna lunar,

Aqueles faróis azuis que tanto

a iluminou, hoje aquece

Engrandece outros territórios

Fenômeno, o amor mudou

Saiu sem pagar aluguel,

Deixando apenas fel

E hoje, através desse Blue,

restaram somente

Lembranças…

Foto de Graziella Cannata

Condutor de lembranças

cabelo branco

O fio de seu cabelo

Prata,

Tesouro que guardo a sete chaves

Me mata

A saudade que por ti alimento

Tormento que não cessa

Brilha na palma de minha mão

trazendo à tona,

Momentos vividos na alegria,

no gozo, na tragédia do dia-a-dia

Paixão infinita que não vingou

Derrapou,

escapou por entre nossos dedos

Cansados de apontar acusatórios

Dando fim ao nosso casório


O fio de seu cabelo

Prata,

Chibata no coração cansado

de tanta dor,

Condutor.

Imagem: Hemera Technologies/AbleStock.com/Getty Images

Necessidade básica

Fome…

De comida, sempre.

De conquistas, reconhecimento, deslumbramento

Algumas vezes de esquecimento.

Sede…

De água – hoje, quase escassa.

De destilados, para brindar alegrias, abrandar porcarias,

aplacar dissabores, desamores.

Desejo…

Sempre no plural afinal, ninguém vive de um só.

Desejo carnal, visceral, anal, frontal…

O que vier que complete esse vazio

abismo cavernoso, falta de beliscos

de beijos sugadores, de sentir a pele

encrespada, viciada

Em você.

E por não ter você, sinto

Fome,

Sede,

Desejos…

Criação

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Num instante de desespero,

criei-te.

Imaginei-o de acordo com meu gosto

Moldei seu belo rosto

Não tão belo mas viril

Lapidei seus músculos ouvindo

aquele velho vinil

Plantei fio a fio, suas fartas madeixas

Ao término da obra, não houve queixas.

Suas mãos, imaginei-as fortes, ásperas

dotadas de uma quentura

que a cada toque se transformava em

ternura.

Seus pés, de início, levei um susto!

Grotesco, disforme

Achei que não tivera sucesso

Pouco a pouco me acostumei

com sua estranhesa.

Apaixonada, achei até uma beleza!

Sua boca…

Ah, essa caprichei! Carnuda, vermelha,

úmida.

Sempre entreaberta num constante sussurro

por beijos

Que eu incansavelmente, te dei.

Seus olhos, preferi fazê-los um pouco cegos

Temia que visse minhas imperfeições.

Não desejava arranhar meu ego.

Pra você, tornei-me musa

E adorava me ouvir dizer:

Amor, pega, apalpa e me usa!

Juntos fizemos muitas coreografias

Tiramos até mesmo algumas

fotografias

Expondo nossos corpos suados,

malhados, em brasa.

Num total estado de ardência,

onde ambos pedíamos clemência

E eu, feito sua gueixa, satisfazia

todas as suas fantasias

Nosso caso foi tão completo e perfeito,

que hoje, na vida real, não encontro

amante feito você.

O homem comum, cheio de falhas

Em minutos me cansa, entedia

Não me faz sentir aquela doce vadia

que galopava animada em seu dorso

Hoje, sozinha, me torço num esforço

sobrehumano para alçar aquele gozo

que a seu lado atingi.

 

Imagem: O rapto de Proserpina/Gian Lorenzo Bernini (detalhe)

Morada fixa

Ainda que busque em outras bocas

seu gosto

Lembre-se: ainda te quero.

Mesmo que te esqueça em outros corpos

Lembre-se: ainda te pertenço.

Que passeie por outras paisagens

Adquira outros hábitos

Faça novas amizades

Viaje pelo mundo

Conheça outras culturas

Aprenda outras línguas

Tenha certeza: é em você que habito.

Ver(ter)

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Quero expressar mas…

faltam-me palavras,

foge-me a voz,

seca a garganta,

tremem as mãos.

Formiga os pés,

falta-me o ar,

olhos a marejar,

peito a palpitar,

estômago a embrulhar,

cérebro a embaralhar,

as idéias que tenho a te falar,

Espírito sente,

consente mas mente

Diz que te quer ver,

mas que não te quer

Derme desmente,

expõe tudo o que sente

Arrepia, te ansia

Beicinho se forma,

expressão se deforma,

lágrima rola

formando a palavra

Saudade!

Imagem licenciada: Shutterstock

Inseparável simbiose

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Sentada na encosta observo o mar

batendo incessantemente nas pedras.

Percebo que sou como elas, as águas.

Sua indiferença é como esse paredão

Inabalável. Imóvel. Muda.

Eu, enquanto água, me jogo, te ataco, estapeio,

espirro de tanto amoródio por ti.

Arrebento-me toda e,

em moléculas quebradas, volto ao ponto inicial.

Você segue sua vida intacto.

Eu, sigo remendando os cacos das quedas.

E permanecemos assim, anos a fio

Você irredutível

Eu, mar bravio

Você intocável

Eu, implacável

Você glacial

Eu, vulcânica

Inseparável simbiose

 

Imagem:  Mar bravo, Pedro Mendes