Ainda há silêncio nessas horas pequenas

(Nirlei Maria Oliveira)

A ausência de sons é cada vez mais raro num mundo repleto de barulho. Em alguns momentos, invejo o deficiente auditivo. Ele não sabe o quanto é feliz.

Enquanto tento esboçar esse texto, encontro-me sentada próximo a janela e minha rua é uma via importante para todo tipo de transporte. Vrhumm!! Uma moto com motor envenenado desceu a rua rasgando o solo de piche gasto e a barreira do som. Do alto do décimo andar, ouço como se a moto estivesse ligada no centro de minha sala.

Respiro e tento me concentrar. A música que toca na rádio fere meus ouvidos com as notas agudas da cantora. Desvio a atenção da tela, olho séria, levanto e desligo o som. Preciso me concentrar. Escrevo novas frases, encadeio ideias e… Um ônibus velho entra na rua e breca de forma perversa pois o semáforo fechou. O som é tamanho que nem consigo encontrar uma simbologia onomatopaica mas, encontro uma ótima para meus impropérios:

@#!%Z!!!

Dei um tempo, lembrei que não havia tomado minhas gotinhas de Florais de Bach.. Uma alquimia a base de Centaury (Erythraea Centaurium), Honeysuckle (Lonicera Caprifolium), Hornbeam (Carpinus Betulus), Oak (Quercus Robur), Olive (Olea Europaea) e complementando meu bem-estar e equilíbrio, Walnut (Juglans Regia). Ah…quase me esqueço do principal: esse maravilhoso coquetel numa perfeita harmonia com um pouco de conhaque. Ainda bem caso contrário, difícil se encontrar o tal do equilíbrio!

Fui salva pela voz potente de Ana Carolina vindo através da janela do vizinho que se encontra aberta.

“A canção tocou no rádio agora /mas você não pode ouvir por causa do temporal”…

Levanto e sigo dançando embalada pelo ritmo da bela canção…É tão bom se movimentar, deixar o corpo fluir, sentir toda energia percorrendo nosso corpo e…Droga, preciso terminar esse texto de uma vez! Ah, assim não dá! O bar da esquina colocou bem alto uma canção dancing Earth, Wind &Fire, September, apesar de já estarmos em meados de novembro, lembro que estamos à porta do Natal e, e, e, ihhhhhhhhhhhh

Foca no maldito texto Roseli!!!!

Espera, ouça, preste atenção: Silenciou geral! Até o motor da geladeira suspendeu seus gemidos orgásticos. O mundo parou para que eu pudesse terminar meu texto. Como disse há décadas, Mercedes Sosa “Gracias a la vida”, CON-SE-GUI!!!!

E o silêncio permanece inalterado…Gentem, acabou o mundo e ninguém me avisou? Socorro!!!!

OBS: Nirlei, adorada poeta, desculpa se não segui a beleza de seus versos que deram o mote para o título de hoje. Sacumé, não sei poetar não.

Esse texto faz parte da blogagem coletiva Blogvember. Participam comigo:

Lunna Guedes –  Mariana Gouveia –  Obdulio Nuñes Ortega – Suzana Martins

Imagem licenciada: Shutterstock

BEDA – O que tirei da mala

Hoje tem poesia tecida por uma mocinha muito linda com ares de francesinha e muito talentosa. Não recordo ao certo o ano que a conheci. Só sei que uma foto dela, tirada por um amigo em comum, me encantou de tal forma que escrevi um texto.

O livro O que tirei da mala tem sua beleza a começar pela capa. Mariana Teixeira, natural de Goiás, é uma alma inconformada com as injustiças da vida. Seus poemas são temperados com tais inquietações. Quem ganha somos nós, seus leitores. Apreciem:

apetite

por coisas

que não se come

mas que se vive

em dias

e noites

propositalmente

insones


a fumaça

sai fugida

da caneca

parecia feliz

dançava leve

subia

subia dançando

até se entregar

nos braços do ar

em tempos frios

fez todo sentido

a ideia

de que o calor

liberta

faz conservas

e prolonga

a vida

de pepinos

cebolas

e outras coisas miúdas

coloca em potes

cheios de líquido

e sal

a própria vontade

de viver pra sempre

Esse texto faz parte da blogagem coletiva BEDA Blog Every Day August

Participam comigo:

Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega Nuñes – Suzana Martins

B.E.D.A. – Arrebatamentos e outros inventos

Sem ideias para escrever, busquei inspiração na poesia. Estamos precisando! Entre tantos poetas, veio-me a lembrança de um poeta que admiro muito. Talentoso, sarcástico, brincalhão e amigo. Velho amigo.

Andamos nesses últimos cinco anos distantes. Cada qual em seu Estado, levando a vida. É engraçado como mesmo as amizades tão fortes, se distanciam. Não por descuido mas, a vida é que nos direciona para outros caminhos.

Olhando minhas estantes de livros, deparei com seu único livro publicado em 2015.

Muito pouco do muito que tem escrito, guardado só para sí. Uma pena. Sua obra deveria ser toda publicada e conhecida por todos. Na mesma época em que criei meu blog, incentivei-o a criar um para registrar seus poemas. Assim como os meus antigos blogs, o dele também ficou largado, por aí nessa cidade digital chamada internet. Ah… Bateu saudades de nossos papos. Vou logo ali fazer uma ligação interurbana. Pronto, entreguei a idade!

Para quem se interessar, Blablablog

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

Imagens: Graciosamente emprestadas do blog do autor

Marulho

Navegar é preciso

viver não é preciso, dizia Pessoa

O que ele não soube, é o quanto amei navegar em seu mar

Corpo rígido a me levar em ondas intensas

A derramar em meu porto, seu prazer

Levando-me a esquecer a náusea de viver

em terra firme

Maturação

pilatesroseli

Observar a juventude se esvaindo

Manter a mente e espírito jovem

Não  infantilizada

Remoçada nas linhas de raciocínio

Ar refrescado por novos aprendizados,

experiências, vivências

Permitir-se.

Envelhecer é voltar as costas ao novo

ao não testado.

Envelhecer, é voltar-se para dentro das entranhas

e nela – deixar-se apodrecer pela inércia

Percebo meu corpo perdendo a

elasssssssticidade

A derme ganha dia a dia flacidez

Luto para manter a postura reta

envergar, somente a alma para alcançar o inalcançável

Pilates, Yoga, meditação, alimentação natural

Num mundo de industrializados, mantenho meu

foco na terra, no adubo, na criação da natureza

Essa é a verdadeira beleza!

Hidrato a pele e, em contrapartida,

ela ganha manchas senis

Teimosas, desejam demarcar território

provando que muito vivi

 

Blue Moon

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Olhava aquela lua azul e perdia-se em

Lembranças…

Já havia se perdido em outros azuis

Tão imensos e profundos quanto a bela lua

Tão misteriosos quanto a dona da rua

Que nua, se mostrava sem pudores

toda sua beleza, nobreza

E ela ali, tonta de emoção sentia

Que assim como essa madonna lunar,

Aqueles faróis azuis que tanto

a iluminou, hoje aquece

Engrandece outros territórios

Fenômeno, o amor mudou

Saiu sem pagar aluguel,

Deixando apenas fel

E hoje, através desse Blue,

restaram somente

Lembranças…

Foto de Graziella Cannata

Condutor de lembranças

cabelo branco

O fio de seu cabelo

Prata,

Tesouro que guardo a sete chaves

Me mata

A saudade que por ti alimento

Tormento que não cessa

Brilha na palma de minha mão

trazendo à tona,

Momentos vividos na alegria,

no gozo, na tragédia do dia-a-dia

Paixão infinita que não vingou

Derrapou,

escapou por entre nossos dedos

Cansados de apontar acusatórios

Dando fim ao nosso casório


O fio de seu cabelo

Prata,

Chibata no coração cansado

de tanta dor,

Condutor.

Imagem: Hemera Technologies/AbleStock.com/Getty Images

Necessidade básica

Fome…

De comida, sempre.

De conquistas, reconhecimento, deslumbramento

Algumas vezes de esquecimento.

Sede…

De água – hoje, quase escassa.

De destilados, para brindar alegrias, abrandar porcarias,

aplacar dissabores, desamores.

Desejo…

Sempre no plural afinal, ninguém vive de um só.

Desejo carnal, visceral, anal, frontal…

O que vier que complete esse vazio

abismo cavernoso, falta de beliscos

de beijos sugadores, de sentir a pele

encrespada, viciada

Em você.

E por não ter você, sinto

Fome,

Sede,

Desejos…