Lamento haitiano

haiti

Ai de ti Haiti, que surgiu no planeta bem aí, onde nem Judas quis perder suas bostas.

Ai de ti Haiti, que almejou ser gente numa terra de déspotas.

Ai de ti Haiti, que veio ao mundo criando negros e pobres.

Ai de ti Haiti, que nesse tempo de existência, quis pertencer ao Caribe.

Ousou falar o francês. Que insensatez!

Ai de ti Haiti, que sonhou uma liberdade. Tentou sem nunca ter de fato.

É praga! É karma! É exclusão do mundo cão que só tem olhos para gente bonita e branca.

À ti, Haiti, só restou violência e paciência por dias melhores, migalhas de quem ostenta caridade para fazer bonito nas redes sociais.

À ti, Haiti, só restou o desprezo de todos e até da natureza que se rebela por criar lugar tão maldito. E fica-se o dito pelo não dito. E o povo segue vida miserenta. Por conta disso, nem avança, nem melhora. O jeito é aguardar pa-ci-en-te-men-te a próxima desgraça.

Um dia terremoto, outro Matthew.

Taquipariu!

Ai de ti Haiti…

 

Imagem: Google

 

 

Cotidiano

harvest_thumbEntre os pés de cafezais, passava os dias sangrando suas mãos e pensando num futuro melhor. Melhor? Existe isso? Com o que será que parece?

Nasceu entre colheitas de café,laranja,batata e algodão. Seus pés, alargados pelas pisadas no solo fértil, eram grossos feito suas tranças. Olhar duro para uma infante saindo rumo a pré-adolescência. Teve como companhia baldes de água que buscava no riacho próximo de onde dividia um casebre com mais oito pessoas. Aos seis anos já era responsável por acordar as três da manhã e colocar gravetos para alimentar a brasa do fogão e pegar água para passar o café. Depois de comer uma naco de polenta assada, tomar uma chávena de café bem doce, saía no terreiro para ajudar suas irmãs maiores a debulhar as espigas de milho. Às nove horas da manhã saía acompanhada de Marciana, sua irmã mais velha carregando nas costas o almoço de seu pai e seus dois irmãos que trabalhavam na colheita do café. Enquanto atravessavam a estrada até chegar a plantação de café, tinham suas caminhadas interrompidas por cobras que passavam por elas tranquilamente e sumiam por entre o matagal da encosta. Outras vezes, se escondiam para não serem mira de bois bravos que escapavam da boiada.

Regressando para casa, ia para o celeiro separar as batatas colhidas. De um lado as bonitas, em bom estado das que já estavam feias, passadas. As boas eram ensacadas e separadas para o patrãozinho que mais tarde, mandava seu capataz, o seu Ernani, pegar as sacas e levar para a casa grande.

Às quinze horas, era a responsável por passar um novo café enquanto sua mãe, dona Ercília fazia broas de milho e assava na chapa do fogão a lenha. Algumas vezes até dava tempo de lembrar que ainda era uma criança e brincava.
Mas sua vida de criança tinha duração curta e logo, tinha de voltar para o trabalho que não terminava nunca.

Era pegar água para o preparo da sopa do jantar, limpar o arroz, separar o feijão,lavar a roupa no riacho afofar o travesseiro de paina, virar o pesado colchão de capim com a ajuda das irmãs, varrer o chão de terra batida com vassoura de piaçava tomando o cuidado de molhar de leve o chão para não levantar pó.

Deitavam-se por volta das dezenove horas cansadas de um dia de lida embrutecido para tão pouca idade. Eram tempos em que não se reconhecia infância. Apenas seres gerados para a labuta.

Virgínia pensava diferente e planejava em silêncio absoluto, o dia em que partiria para a cidade grande em busca de uma vida melhor. Toda noite fechava os olhos sonhando com um futuro mais colorido e menos dolorido. Sonhava um dia poder ter seu primeiro par de calçados a embelezar seus pés esparramados.

Imagem: Harvest – Robert Duncan

Sonata ao luar

olhando-a-lua1

Querer nem sempre é poder. Sempre soube disso pois na infância, cheia das vontades de ter brinquedos, o máximo que consegui foi ter uma boneca com os dedos decepados e metade da cabeça careca e muitos brinquedos confeccionados por minha avó. Me contentava com o que tinha. Nunca fui criança de muitas querências.

A vida me dava, eu sorria e agradecia.

Sempre tive uma relação íntima com a lua e as estrelas. Sentava à noite na calçada e enquanto os mais velhos ficavam de prosa contando muitos causos, eu, sozinha na companhia de minha imaginação, subia ao céu e permanecia na companhia delas. De lá, pulávamos nuvem por nuvem em busca de aventuras. Quando nos cansávamos e sentíamos frio, o Sol majestoso, nos dava um abraço aquecido e lá íamos novamente brincando, se escondendo, saltando, dando cambalhotas no espaço. Minha voz se perdia por entre diversos buracos negros – que de negros não têm nada.

A Lua certa vez me confidenciou o quanto gosta do Sol. Disse que adoraria ter uma noite caliente ao lado do todo poderoso. Achei graça e perguntei o que ela esperava para fazer isso.

Pensativa, olhou a sua volta, pigarreou, colocou suas mãos gorduchas na cintura e sorrindo me disse:

– Oras! Oras! Menina, isso não é assunto para discutir com você. Ainda é uma infante! Venha, vamos brincar de brilhar com as estrelas.

Soube por Vega e Rigel, que novas estrelas nasceram e que o céu se encontra em festa. Pedi que me levassem para conhecer as estrelinhas no que foi negado imediatamente. Vega, impostando sua voz e ampliando sua luz como forma de se parecer mais respeitável, disse que ainda não tenho maturidade para entrar na maternidade estelar.

Não insisti pois sei que elas são mais experientes que eu e sabem das coisas. Como disse a sábia e iluminada Sirius, tudo a seu tempo! E tempo é  o que tenho de sobra e dá-lhe brincadeiras nas nuvens.

Roseliii!! Oh menina que vive ni mundo da Lua. Nunca vi coisa igual. Anda, levanta desse chão que começou a garoar. Não vê que o céu fechou, nublou e já começa a trovejar? Anda! Vem pra dentro que já é tarde e amanhã tem aula logo cedo.

…- Já vou mãe! Tô me despedindo de minhas amiguinhas!

Cresci, perdi contato com minhas companheiras de infância. Tempo, que achava que tinha de sobra, hoje faço das tripas coração para tê-lo com economia. Hoje em dia é iguaria rara, pouquíssimas pessoas tem em abundância.

As incumbências adultas, a responsabilidade em excesso, a brutalidade da realidade apagaram pouco a pouco a fantasia que habitava meu ser. Adulta, apenas executo, cumpro. Ligada no automático, acordo, trabalho, como, durmo. Minha vida tornou-se uma sucessão de liga/desliga.

Até ontem quando, voltando para casa, cansada, com sono, com fome, ela se manifestou para mim de forma esplendorosa. Mágica. Única. Como há muito tempo não via.

No topo de minha rua que é descida, deparei-me com ela imensa, radiante, espaçosa.  Teve o topete de afastar todas as nuvens, prédios, poluição para se manifestar para mim.

Em meio a rua, fiquei paralisada diante de tamanha beleza. Um reencontro mágico, especial entre duas companheiras que há muito não se viam.

Seu cumprimento foi se iluminar intensamente como forma de me dizer:

– Ei companheira, lembra-se de mim? Estou aqui! Aliás, sempre estive aqui

Eu entendia sua mensagem e emocionada, sorri por entre lágrimas que embaçavam minha visão tornando sua imagem  etérea feito aparição.

– Sua louca! Está com a cabeça nas nuvens! Não vê que está no meio da rua? Quer morrer quer? Ei! Tá no mundo da Lua? Tá? Qualquer hora vai ser atropelada hein dona!

E dizendo isso, um motorista irritado acelerou seu carro e quase tirou uma fina de mim, que ainda tomada por essa letargia, enluarada me assumia e caindo numa gostosa gargalhada como há muito não tinha, terminei de atravessar a rua descendo a ladeira de olhos pregados nela. Minha amiga de tantas noites, de tantas infâncias, de tantas aventuras. Ao chegar no portão de casa, num ato de resistente despedida, olhei para o alto e vi que agora, ela não se encontrava mais sozinha. Estava rodeada de minúsculas luzes, minhas outras companheiras de traquinagem.

Abri o portão, entrei e sensibilizadas com minha comoção, as roseiras se viraram em minha direção exalando um perfume que me intoxicou de alegria. A magia havia voltado a habitar minha alma. Sentindo uma tremedeira nas pernas, sentei-me no degrau na área e chorei. Mas não foi um choro de tristeza não. Foi um choro de redenção, de compreensão da realidade fantástica que nunca havia se esgotado em mim. Apenas havia adormecido por um tempo. Estava salva da mediocridade.

Da casa vizinha, um som maravilhoso de trompete rasgou o espaço físico instalando-se em meu coração que por hora, batia num ritmo jazzístico de melancólica felicidade.

Imagem: Google

Quero brincar de outra coisa

velhice alegre

Combinaram de brincar de O gato comeu a língua e não me avisaram.

Por que está todo mundo tão calado? Ninguém se olha, se fala, cada um voltado para seu próprio mundo.

O ser humano é engraçado mesmo. Ao se ver confinados, perdem a espontaneidade e vestem uma couraça para se protegerem. Se proteger de quê? Pergunto eu. Não tenho resposta até mesmo porque, eu também me retraio e fico confinada a minha existência interior. Ouço música, penso na vida, confabulo comigo mesma, desenvolvo histórias, crio personagens. Enquanto isso, no lado real da vida, as coisas correm, fluem. Os dias passam e passamos juntos, só que separados. Nem parece que somos uma equipe que convive há anos. Parecemos um grupo de desconhecidos confinados numa viagem da CVC. Todos muito sérios, compenetrados, evitando se olharem. Respirando de leve para não incomodar o colega.

Daqui de meu cercadinho penso com meus botões: onde foi parar aquele brilho nos olhos, o sorriso fácil, a leveza da boa convivência?

Eu mesma faço mea culpa pois hoje não sou mais aquela garota leve e sorridente que fui no passado. Sorrir até sorrio. Acho que sorrirei sempre. No entanto, perdi a leveza, a ingenuidade, a pureza que trazia no peito aos quinze anos. Idade em que olhava para esse mundão de Deus e me imaginava desbravando-o e conquistando meu espaço.

Conquistei ele – o espaço, sou feliz no que faço, foi minha escolha e não me arrependo só que não sei ao certo o que aconteceu nessa caminhada. Perdi algo muito importante. Sinto isso mas não consigo precisar o que. Sempre digo a minha mãe que “criar juízo” não foi uma coisa legal. Quando jovem e sem juízo nenhum, era muito mais feliz. O peso da responsabilidade sem dúvida pesa, causa cansaço, muitos compromissos assumidos, apertos financeiros, perdas…

Ser adulto é uma brincadeira que perdeu a graça. Ainda bem que inventaram a velhice ou, como se diz no politicamente correto, a terceira idade. Bonito isso não? Pois bem, Deus percebeu que sacaneou a humanidade e corrigiu a direção da vida nos fazendo envelhecer e perder a noção de certo e errado. Nos devolveu a infância! Ao perdermos pouco a pouco as conexões neurais, passamos a agir sem censura e de certa forma, voltamos s ser mais leves, mais feliz.

As vezes sinto uma certa invejinha das crianças e dos idosos ao vê-los se sujarem, se molharem, fazer caca na mesa e não estarem nem aí. Não sentirem vergonha do que o outro vai pensar. E nós, pobres adultos, cheios de etiquetas, de regras, de zelo pelo que é certo e o que é errado nos martirizamos diariamente tornando nosso fardo pesado demais.

Está decidido. Quero viver bem para chegar a velhice e voltar a desfrutar a criança que fui um dia.

Poder resgatar a menina desvairada, sem noção, alegre, arteira que deixei lá atrás.

E tenho certeza que serei bem feliz pois carregarei a mente esvaziada uma vez que, segundo os especialistas em neurociência, como passar dos anos, ocorre um declínio volumétrico. Trocando me miúdos, perdemos a cabeça!

Quer ser uma velhinha do balaco, arteira, rir muito, conversar com as estrelas, namorar a Lua, consultar o vento, dormir ao relento e, quando minha vez chegar de prestar contas ao Síndico, repousar a cabeça tranquilamente e deixar esse mundão sem saudades, nem apegos. Fluir. Simplesmente fluir.

Que assim seja!

 

Ilustração de Bruna Taynara

 

Infância roubada

shutterstock_222213265

Olhinhos orientais pousaram em mim e calados, diziam muito. Não, minto. Não diziam, gritavam de forma desesperadora pedindo socorro e um pouco de atenção.

Sentindo a força daquele olhar, parei o que fazia e olhei para o balcão vendo aquela cabecinha lustrosa.

Perguntei se desejava algum livro. Tive o silêncio como resposta mas aquele olhar…

Levantei-me, cheguei mais perto e olhando-a nos olhos perguntei novamente: Precisa de algo? Pode falar. E arrematei minha fala com um sorriso aberto. Surtiu efeito.

De forma quase inaudível, ela balbuciou:

– Não sei quem devo obedecer. Minha terapeuta ou minha mãe… – e deixando a frase no ar abaixou os olhinhos feito uma gueixa desconsolada.

– Por que diz isso? Obedecer em que?

– Minha terapeuta diz para eu fazer somente a lição do dia e o resto do tempo, brincar. Já minha mãe quer que eu faça todas as lições da semana de uma vez… Tia, não sei o que fazer…

Tocada pelas palavras e pelo tom que a pequena usou em sua fala, fiquei de coração apertado.

– Você não brinca?

– Não. Não tenho com quem brincar e minha mãe disse que já passei da idade de brincar… Mas eu queria tanto!

– Não tem irmãos? Primos? Amiguinhos?

– Não, sou sozinha tia. Não tenho ninguém, nenhum amiguinho…

– Você mora em prédio ou casa?

– Prédio tia… na Vila Madalena e não tem crianças por lá… Sou tão sozinha

E falando isso, a pobre garota começou a girar os olhinhos em suas órbitas me deixando agoniada pensando que pudesse estar tento algum surto.

– R, tudo bem? Por que não trás algum brinquedo para a escola? Você fica aqui o dia inteiro, poderia fazer suas lições e depois brincar um pouco.

– Tia, até o ano passado trazia meu ursinho e minha boneca mas minha mãe proibiu dizendo que já estou grande para isso e não deixa mais eu trazer. Sinto tanta vontade de brincar…

Pensativa perguntei:

– E nos finais de semana? Seus pais não te levam a parques para brincar, andar de bicicleta, de patins…

– Não. Eles não têm tempo para mim. Trabalham muito…

Esse desabafo me fez ficar dias seguidos pensando no quanto as crianças de hoje estão sendo “roubadas” de sua infância. Direito esse, fundamental para o futuro adulto. E no entanto, pais de hoje se preocupam tanto em manter seus filhos presos a uma agenda apertadíssima entre judô, natação, inglês, informática, espanhol e tantas matérias e coisas para prepará-los para o futuro, que esquecem que a infância é uma só vez na vida e que passa rápido demais.

Nossas crianças não sabem mais brincar! Desde cedo, têm sua ingenuidade e pureza arrancadas pela telinha da TV e do computador. São reféns da “modernidade” e passam sua infância enclausurados nos prédios onde moram e entre os muros das escolas. Observo isso nos olhos sem brilho das crianças do colégio onde trabalho. Se cansam de estudar e saem correndo pelo pátio, gritam avisando que não podem correr nem brincar. Se tentar entrar no playground, são expulsos alegando não terem mais idade para isso. Ficam totalmente deslocadas e perdidas restando apenas passarem na lanchonete, se empanturrarem de guloseimas engordativas para aplacar sua fome de vida, de atenção, de amor dos adultos voltando a seguir, para o reduto que lhes resta: a biblioteca. Depósito de livros e crianças órfãs de pais vivos e extremamente ocupados.

Desculpem-me esse texto desabafo mas é que, para quem foi criança até os dezenove anos, brincou na rua, se estourou inteira pulando muros e cercas, tomou boladas terríveis nas queimadas da vida, estourou seu couro andando de rolemã, ser testemunha de uma infância roubada, dói demais e me revolta.

Adultos, vamos devolver a infância para quem é de direito: Nossas crianças!

Feliz Dia das Crianças!

Imagem licenciada Sutterstock

Anjinhos

Imagem

 

– Você não é doutora!

Uma voz pequenina e aguda deu seu veredicto.

Sonia espantou-se e olhou para o lado vislumbrando uma criança mirrada, de olheiras profundas e cabelos escorridos e ralos.

– Sou sim! Não reconhece meu jaleco e estetoscópio? Só médico usa isso!

A pequena a mediu de cima a baixo, deu uma volta inteira observando cada coisa que compunha sua figura. Parou diante de Sonia, botou a mão no queixo e como um verdadeiro filósofo sentenciou mais uma vez:

– Mas não é doutora mesmo! Médico não é assim.

– Mas então… O que sou? Pode me dizer?

– Não sei não. Não sei se é criança, se é adulto… E ainda por cima está doente.

– Doente? Eu? Como pode falar isso?

– Doente sim! Olha só para suas pernas. E você deve estar bem pior que eu. Tá numa cadeira de rodas! Eu ainda consigo andar. Só me canso um pouquinho.

Não aguentando mais se segurar, Sonia caiu numa risada contagiante que fez as demais pessoas que se encontravam por perto rirem também.

– Pequena você é bem esperta pro seu tamanho. Como seu chama?

– Juliana E você?

– Sonia.

– Já que agora somos amigas, me fala: o que é você?

– Como assim? O que sou?

– Ah, é como te falei antes. Não consigo saber se você é criança ou adulto.

– Jú, posso te chamar assim né? Digamos que sou uma adulta com alma de criança. Ou uma criança no corpo de um adulto. Como achar melhor.

– Ahhhhh, entendi! Posso?

– O que?

– Passar as mãos em seus cabelos? Eles são tão brilhosos!

– Pode. Vem cá, dá sua mão. Passa assim. Isso!

– Macio!

– O que foi? Está chorando pequena Jú?

– Sim! Queria que meus cabelos fossem como os seus! Olha só como os meus estão podres! Arrebentam todinho! E dizendo isso caiu num pranto só.

– Vem cá minha amiguinha, senta aqui no colo da tia Sonia. Pode vir.

Aconchegando a menina em seu colo, Sonia a abraçou com tamanho carinho e emoção que algumas lágrimas também rolaram de seus olhos pintados.

– Minha pequena você é tão linda e especial! Seus cabelos estão caindo agora porque está para nascer outro mais forte. Por isso, não fique triste não. Em pouco tempo você terá novos cabelos e até mais bonitos que os meus. Acredite! Dou minha palavra de honra. Não é mesmo Doutor Fila Boia?

Outro doutor se aproximou das duas e as abraçou dizendo:

– A doutora tem toda razão Jú. Não tem por que ficar triste. Além do mais, hoje é dia de folia minha gente! Vamos cantar dançar e se divertir!

Após Doutor Fila Boia decretar que era festa, o saguão pegou fogo. Todas as crianças começaram a cantar e a dançar.

– Você não é doutora mesmo!

– Mas dizendo isso novamente!

– Eu ouvi você dizendo pro Doutor Fila Boia que está quase na hora de tomar seu remédio. Se você toma remédio, é porque está doente!

– É verdade pequena Jú! Agora você me pegou! Estou só um pouquinho doentinha. Nada grave.

– Sabia que eu também sou doentinha? E que todo mundo aqui também? Ó! A Kátia, aquela ali no canto com uma touca colorida e usando sonda, aquele menino que carrega o soro, aquela outra ali sentadinha com carinha de choro, a Laurinha. Ela está triste porque seus pais não vieram ainda. Talvez nem venham… Ei! Estão distribuindo salgadinhos e doces. Vamos lá pegar? – e dizendo isso saiu em disparada deixando Sonia de boca aberta com tamanha desenvoltura e beleza da criança.

– Está tudo bem? – disse Doutora Rabanete se aproximando de Sonia e dando um abraço nela.

– Sim! Apenas refletindo sobre a alegria de todas essas crianças que mesmo em condições difíceis, não deixam jamais sua alegria esvair-se. Às vezes me repreendo, pois me pego com pena de mim mesma achando que sofro demais.

– Natural sentir-se assim querida. Ninguém é de ferro.

– Obrigada por me trazer para esse trabalho voluntário. Está me fazendo um bem imenso. Além de desviar minha atenção da doença, está me fazendo conhecer pessoas lindas, feito esse pequeno tesouro que conheci hoje. É tão engraçado! Parece que já nos conhecemos de longa data.

-Também tenho essa sensação. E acho que sei o porquê.

– Sabe? Diz então!

– A doença humaniza e iguala as pessoas. Além de se aprender muito uns com os outros.

– Ei! Doutora qual seu nome mesmo?

– Sonia.

– Não! Seu nome de doutora!

– Ah! É mesmo! Meu nome é Doutora Pé na Cova. Desculpa tinha esquecido de me apresentar!

– Pé na Cova? – dizendo isso caiu na risada que não parava mais.

– Ai! Fiquei até com vontade de mijar!

– Qual a graça Jú?

– Simples doutora! Pé na cova estamos todos aqui. Mas ninguém quer saber de assumir que está né! Agora você foi corajosa. Tá com o pé quase do outro lado e encara isso numa boa. Parabéns!

– Nossa! Não tinha pensado nisso! Garota esperrrrrta! Ai está na hora de meu remédio. Preciso de um copo de água.

– Espera que eu e a Martinha vamos levar você até o bebedouro. O remédio está aí com você? – e falando sem parar, Jú foi empurrando a cadeira de rodas da Doutora Pé na Cova.

– Pára!Pára!Páraaaaa!

– Que foi?

-Você não pode empurrar a cadeira Jú! Não pode fazer esforço!

– Posso sim! E a sua cadeira é fácil de empurrar. Você não é pesada não! Pronto! Pode tomar seu remédio.

– Menina linda! Vem cá e me dê um abraço bem gostoso! Gostei de você viu!

– Eu também gostei de você doutora de araque!

– Numa próxima festa que tiver aqui, prometo que venho. Vou ficar bem contente em te ver de novo.

– Doutora, pode ser que numa próxima você não me encontre mais aqui.

– Ah! É mesmo! Talvez você já tenha tido alta né?

– Hum! Mais ou menos. Duvido muito que tenha alta. É mais provável que quando voltar aqui eu tenha ido embora, mas daí é porque virei anjinho.

– Como assim Jú? Anjinho?

– Eh doutora de araque viu! Não sabe que toda criança doente feito eu um dia vira anjinho lá no céu?

– Ai Jú não fala assim não! Você ainda vai ficar boa, crescer, virar uma bonita moça, casar, ter seus próprios filhos…

– Vou não. Sei que não… Ei! Você está chorando! Por quê?

– Querida, você fala nessas coisas com tanta naturalidade: doença, morte, virar anjinho no céu… Isso não te assusta?

– Não! Por que deveria assustar? Acho até bonito! Mas olha, não fica triste não porque, quando virar anjinho, se você ainda estiver por aqui, eu olharei por você e pedirei pra Papai do Céu que te proteja e te faça feliz sempre.

Ao saírem do hospital infantil, o grupo de palhaços estava exultante com o resultado da festa.

– Que troca maravilhosa se faz com essas crianças não?

– É verdade Doutor Fila Boia. No entanto saio daqui hoje sentindo certa tristeza em saber que talvez numa próxima visita, não encontrarei algumas dessas crianças.

– É Doutora Pé na Cova, isso faz parte de nossa rotina de trabalho. Faz parte da vida. Nossa proposta é justamente fazer dessas vidas que se encontram num momento difícil, mais alegre, mais leve. Amor é bom e nessas horas então, é a melhor medicação que eles necessitam.

– Eu também me encontro um pouco nessa situação não é mesmo? Ainda não recebi o diagnóstico definitivo sobre a doença que me assola. Também posso não estar presente num próximo encontro.

Após um breve silêncio, com os olhos marejados, ambos se abraçaram e Doutor Fila Boia encerrou a conversa dizendo:

– A garotinha está coberta de razão Doutora. Todos estão com o pé na cova a partir do momento em que nascem. Ninguém sabe o prazo de validade. Ninguém tem bola de cristal. E quer saber? Posso perfeitamente me despedir de você aqui, agora e, ao atravessar a rua ser atropelado e morrer na hora. Pare de pensar nisso e viva! Viva intensamente. Ame intensamente como se fosse seu último dia entre nós. Acredite: Estamos cercados de “anjinhos” velando por nós.

 

Imagem: Dreamstime

Olhos de cervo

olhos de cervo

Respiração acelerada, olhos de cervo em alerta diante do inimigo. Acuado a um canto entre a porta e balcão, treme. Seus inimigos o encurralaram. O que fazer? Após instantes, ataca um deles que tenta se aproximar dando mordidas. O inimigo afasta-se tão assustado quanto ele. Fica cada um de um lado tremendo, rosnando, babando. Uma raiva imensa toma conta de si. Para descontar toda essa gana, ataca um vaso de jibóia. Despedaça suas folhas com tamanha voracidade metendo mais medo em seus inimigos que temerosos, se afastam. Escoiceia o balcão que igualmente sente sua revolta. Poderia ser pego pelos inimigos mas, com certeza, lutaria até o fim. Mesmo amedrontado, não abaixaria sua cabeça. Um deles solta um grito chamando o líder da manada. Em segundos, surge um que ainda não tinha visto.

Alerta total! Encolhe-se um pouco mais. Agora rosna para causar medo.

O líder dessa matilha, uma fêmea com um andar silencioso, um molejo, um pisar suave que em nada lembra o resto deles. Fecha os olhos. Tinha certeza que agora chegara ao fim. Morreria dignamente. Sentiu seu cheiro. Era diferente, um cheiro adocicado. Arriscou um olhar, gostou do que viu. Ela, a fêmea, não lhe dá medo feito os outros. Trás um olhar, assim como seu cheiro, doce.

Não! Não vou cair na armadilha dela! Deve ser um truque para me apanhar isso sim!

Ela emite um som suave. Não vocifera feito os outros. Se aproxima não dando condições para fuga. O pobrezinho se sente perdido.

– Tenha calma. Não estou aqui para te causar nenhum mal. Como se chama?

Por que ela finge gostar de mim se o que quer na verdade é me caçar?

– Ele se chama Fernando. – responde aquele que o atacou primeiro. Aquele que grita o tempo todo.

– Muito bem Fernando, como dizia, não estou aqui para te fazer nenhum mal, só quero conversar com você. Me diz, por que toda essa braveza? O que aconteceu com você? Pode falar que eu ouço e não vou dar bronca nem te deixar de castigo. Só quero entender.

Ela parece diferente dos outros mas será que posso confiar? Não sei…

– Fernando, posso fazer um carinho em você? Assim, bem de leve? Posso?

Ela está tentando me envolver para depois dar o bote isso sim! Mas parece sincera… Será?

Encaro. Acho que ela é do bem. Tem um sorriso bonito!

Ela levanta sua mão e afaga a cabecinha assustada. De tensa, passa a suavizar a feição transformada numa máscara de raiva. O surto ameniza. Um leve esboço de sorriso se desenha. Os outros murmuram algo e ela, olha para todos dizendo:

– O Fernando vai ficar bem não vai? – E dizendo isso continua a afagar suavemente a cabecinha e as costas dele.

Passos pesados ressoam pelo corredor. Surge uma figura nova no campo de visão do pequeno.

– Muito bonito não seu Fernando? Bancando o animal de novo? Não adiantou nada nossa conversa de ontem. Agora chega entendeu? CHEGA!! Não vou mais admitir que bata em sua professora nem em seus coleguinhas. Pode pedir desculpas para sua professora AGORA!

Olhos do cervo escurecem diante da agressividade dessa, que surge com grande autoridade. É a orientadora educacional do colégio em que Fernando entrou. Sua confusão é grande. É a primeira vez que ingressa numa escola e tudo é muito diferente de sua rotina em casa.

Tudo em sua vida mudou tão rápido em pouco tempo. Sua família se desmantelou. Seu pai que tanto amava, partiu, sumiu de sua vida. Sua mãe, que antes era tão amável, carinhosa, hoje vocifera por qualquer coisa. Vive chorando, gritando, amaldiçoando a tudo e a todos. Inclusive a ele, que tornou-se um peso em sua vida. E agora mais essa. Passar o dia naquela escola estranha, imensa, ao lado de pessoas que não conhecia. Não estava suportando isso! Estava reproduzindo o comportamento da mãe. Passava o dia chorando, brigando, urrando feito animal enjaulado. Sim, porque estava enjaulado. Passava horas naquele local cheio de portas, portões, homem engravatados que não permitiam que saísse à rua. Eram guardiões daquela cadeia! Não entende o que tinha feito de mal para ser encarcerado daquela forma. Por isso sua revolta contra todos. Queria sua vida alegre e leve de volta ao lado de seus pais.

– Fernando estou falando com você! Peça desculpas para todos aqui presente!

A moça bonita de vestido olha pra mim e sorrindo me diz: Peça Fernando e acabe com isso. Todos estamos sofrendo com você. Tudo vai ficar bem. Acredite.

A orientadora num gesto impaciente olha para a bibliotecária e diz:

– Pode ir. Agora é por minha conta. Obrigada.

– Por favor, tenha paciência com ele. Tudo é muito novo. Ele é muito criança e está confuso.

– Pode deixar que eu sei muito bem o que faço. Educar não é falar manso não. Tem que se ter pulso firme caso contrário esses monstrinhos tomam conta. E agora chega de conversa mole. Fernando pode limpar toda essa sujeira que fez com a pobre da planta.

Vencido, o pequeno cervo pega a vassoura, a pá de lixo e recolhe todas aquelas folhas estraçalhadas por ele. Em silêncio, segue a professora que ainda se encontra em estado de choque e a orientadora que marcha à frente levando o menino de volta a sua (cela) , ops, quero dizer, sala de aula.

Fernando desde cedo já aprende a dura tarefa que é crescer. Seu mundo de contos de fadas ficou para trás.

Manhã diferente

800px-SP-AvPaulista2

A cidade amanhece quente trazendo no céu pinceladas de aquarela com nuances alaranjadas anunciando mais um dia.

Na metrópole que nunca dorme, a movimentação de transeuntes e carros já é grande. Buzinas, gritos, palavrões.

Esquina da rua da Consolação com a Avenida Paulista.

Diariamente passo por esse local. Faz parte de meu itinerário. Desço, atravesso e entro na Paulista andando alguns quarteirões. É uma forma de me manter em forma e despertar até chegar a empresa. Tudo parece dentro da normalidade. Mas, hoje, ao descer do ônibus e esperar o semáforo abrir observo que algo anormal acontece do outro lado da rua.

Uma movimentação atípica com muitas pessoas olhando e alguns policiais de guarda. Uma certa tensão no ar. A curiosidade fala alto em meu interior. Não sou a única. Todos que se encontram desse lado da rua espicham os pescoços para tentar entender o que se passa do outro lado. Uma senhora pergunta ao meu lado: Será que algum motoqueiro caiu? Será alguém atropelado?

O sinal abre e começo a atravessar. Confesso que não me encontrava preparada para o que vi do outro lado…

Amo São Paulo e seu caos reinante. Sempre cantei aos quatro cantos minha paixão principalmente por essa região da Paulista que, menina ainda conheci.  Avenida larga com seus casarões imensos e belos que me remetiam a uma outra época. Avenida que anos mais tarde, em minha adolescência, vinha quase que todos os domingos aos cinemas: Astor, Belas Artes, Gemini. Ah! Quantas boas lembranças! A primeira vez que assisti ao filme Saturday Night Fiver,  Meu Deus que fila imensa peguei! Mas na época tudo era festa, alegria. Após o cinema, tomar um milkeshake ou uma banana split. Oh delícia! Paquerar na escadaria do edifício Gazeta. Quem não?

Tempo de descobertas e uma certa ingenuidade. Tempo de amizades puras e risos abertos. Nada de redes sociais. Apenas olho no olho. Quantas histórias que guardarei no meu balaio de memórias até o fim.

Uns vinte anos depois, realizei meu sonho em trabalhar nas proximidades. E me encontro até hoje. Apesar de todo caos, não me canso de viver por aqui. Gosto dessa diversidade, observar as várias tribos que convivem numa boa. Vira e mexe, fico sabendo de tentativas de assalto, alguém que surta e tenta esfaquear alguém no ponto de ônibus, casais que brigam…

Mas confesso que não estava preparada para o que iria ver. E isso me chocou por demais. Quando me deparei com a cena foi como se um choque de 1000 Wats tivesse me percorrido de cima a baixo. Desviei meus olhos, senti uma náusea sem fim, perdi o rumo. Parei e não sabia mais para onde me dirigia. Esqueci que estava indo trabalhar. Parei e uma vontade imensa de chorar brotou mas por algum motivo, as lágrimas não saltavam para fora.  Sentia-me asfixiada.  Não conseguindo me mover do local onde estava, sentei-me na calçada próximo a um ponto de táxi onde alguns motoristas falavam baixo como se estivessem num velório.

Captei algumas frases desconexas das várias conversas paralelas mas nenhuma me chamou mais atenção do que a imagem de um dos policiais ali a postos: um homem de seus possíveis quarenta anos não estava aguentando segurar a pinta de durão. Sua face pouco a pouco se transformava numa máscara de dor. Até esse dia, nunca havia me deparado com uma expressão de dor mais dolorosa do que a feição do policial que aos poucos foi deixando vir a tona um manancial de lágrimas. Me encantou tal cena! Ao mesmo tempo que me deliciava ao ver um homem chorar daquela forma vestido em seu uniforme e com as mãos em riste em sua arma, senti-me autorizada a também fazer-lhe companhia nessa ação. Levantei, aproximei-me dele, coloquei minhã mão em seu braço e olhando um no olho do outro, deixamos a emoção do momento tomar conta de nossos corações tão entristecidos.

Choramos. Muito. Aquilo que começou como algo tímido transformou-se numa crise sem fim como se nós dois chorássemos por todo o sofrimento da humanidade desde que essa portou aqui no planeta Terra. Deus!! Quanto sofrimento! Por que? Por quê?…

Por quê?  – Foi a pergunta que fiz ao policial que me abraçava e soluçava feito um menino desamparado.

Não sei… Não temos ainda nenhuma pista ou informação sobre o ocorrido. Olhei para os lados e vi que mais pessoas choravam também. Uma tristeza coletiva tomou conta da esquina mais charmosa de São Paulo.

O policial, ainda com lágrimas no rosto, voltou a sua postura profissional e pediu para que as pessoas se afastassem do local. Juntamente as demais pessoas, fui me afastando até mesmo porque, duas viaturas estacionavam e um carro do IML também se aproximava. Ao descerem dos carros, os outros policiais mais o motorista e os médicos legistas também demonstraram o mesmo choque que todos nós ali presentes sentimos. Uma médica loura, de seus trinta anos virou seu rosto desfigurado pela dor mas em dois minutos se recompôs e se aproximou. Colocando suas luvas de látex, agachou e começou a analisar. Balançou a cabeça numa negativa e mandou o rabecão trazer as macas para levar.

A cena em si parecia um quadro ultra realista e de certa forma me lembrava uma imagem de presépio: duas crianças deitadas uma de frente para a outra, nuas, cabecinhas raspadas, pés sujos, olhos vítreos que conservavam ainda algumas lágrimas quase secas escorridas pelo rosto. Aparentemente não havia marcas de sangue denunciando suas mortes por tiro ou facadas. Parecia cena montada de um grande teatro. Cheguei até a lembrar da canção do Legião “Teatro dos Vampiros”. A cena nada tem a ver com a letra dessa canção mas o título se encaixava com o que via. Ao mesmo tempo em que era chocante, nunca tinha visto cena mais bela em minha vida! Dois bonequinhos humanos deitados de forma a remeter os demais a alguma pegadinha infame do destino. E mais uma vez me peguei pensando em outra frase, do famoso escritor alemão J. M. Simmel “Por quantos ainda vamos chorar” e…

Abro os olhos na escuridão de meu quarto e me sento com o coração a mil. A cena ainda está nítida em minhas retinas.

Graças a Deus foi só um sonho!!