Matéria morta

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Um envólucro sujo e vazio.

Foi isso que me veio a mente ao presenciar aquela cena logo pela manhã.

Dois policiais chamados pelos transeutes olhavam para aquilo jogado ao chão com olhos desconfiados – ou talvez temerosos.

Sacudiram, levantaram alguns metros do chão, chacoalharam e após segundos depositaram no chão.

Trocaram algumas palavras, balançaram a cabeça e acionaram socorro.

Enquanto isso, vários olhos curiosos como os meus, acompanhavam ao longe toda a cena.

Ainda refém da sonolência matinal, custei a compreender o que acontecia.

Por instantes supus que os policiais chacoalhavam um boneco e até imaginei que alguns moleques houvessem amarrado ele ao poste do ponto de ônibus. Observei que algumas pessoas que ali se encontravam, davam mostra de incômodo com toda aquela movimentação que mudava suas rotinas matinais. Uma senhora desviava o olhar, um homem de seus trinta anos trajando um terno de bom corte, pigarreava e cuspia de lado evitando olhar para a cena. Uma jovem mãe, numa atitude protetora, cobria os olhos de seu filho. Uma adolescente, com os fones de ouvido e olhos grudados na tela de seu celular, parecia ser a única que não se apercebia da situação –  perdida que estava em sua vida digital.

Todos mostravam uma atenção forçada aos ônibus que se aproximavam com a nítida impressão de terem pressa em saírem dali.

O semáforo prestes a ficar verde. Em breve, sairíamos do túnel que desemboca na avenida mais charmosa da cidade.

Carros e ônibus se preparam para a largada. Ronco dos motores, verdadeiro Grand Prix urbano.

No ônibus, jovens munidos de seus potentes iphones se apressam em registrar aquele momento para postarem em primeira mão em suas redes sociais.

Banalização total de um jovem corpo sem vida.

 

 

Imagem: Google retirada do seguinte site: Franciscanos

Fábula urbana

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A garoa desce pela metrópole como um manto gelado cobrindo rostos atormentados pelo cansaço de mais um dia de trabalho.

O trânsito, só para variar, se torna caótico formando de imediato uma serpente que circula de forma sinuosa pelas ruas materializando um imenso cordão de luzes.
Buzinas se fazem ouvir a quilômetros de distância anunciando mais uma noite complicada. Infeliz profecia afirmando que todos chegarão muito tarde em suas casas.
Nas imensas filas que se formam nos terminais de ônibus,expressões de aborrecimento, preocupação, raiva e revolta se mesclam aos olhares de fome voltados para o rapaz que prepara e vende os “churrasquinhos de gato” na esquina rivalizando com o quiosque que vende do outro lado da rua, salgadinhos e saquinhos de pão de queijo que fazem a alegria daqueles que têm uns trocados para gastar.
Ônibus chega lotado.  Ônibus sai abarrotado de material humano empilhado uns sobre os outros e assim, sucessivamente, a tormenta do homem comum não tem fim. Nas estações de trem, o mesmo clima de sofrimento contido no olhar, nos corpos encolhidos e envergados pelo vento gelado que vem do rio, pelo cheiro fétido que sobe dele denunciando a todos, sua morte lenta.
A chegada do trem traz mais sofrimento. O embate para se sair de dentro e para se conseguir entrar nele chega a ser a materialização de uma batalha grega. Homens embrutecidos se digladiam, se empurram, se xingam, urram toda sua ira diante dos mais fracos. Mulheres assustadas se desviam desses soldados anônimos e se escondem atrás das pilastras.
Na avenida que segue paralela à linha do trem, mais combates, agora através da velocidade e das manobras enlouquecidas de motoristas que despejam toda sua raiva no volante. Veículos domésticos, caminhões, motos, cada um à sua maneira, tentam mostrar sua potência, sua superioridade diante de seu companheiro de viagem nessa estrada marginal. Marginal sob todos os aspectos. E o frio aperta, gela, faz doer, faz arder pele, olhos, boca, garganta, alma.
E diante de toda essa tragédia diária, uma criatura quase etérea , brinca, dança, dá giros sobre si mesma, com seus pés descalços e encardidos. Canta de forma aguda uma ladainha sem palavras com os olhos embaçados.
Ora rindo, ora gritando e afugentando os mais curiosos e desrespeitosos.
Envolta num cobertor ralo e sujo, sente-se uma princesa dançando num imenso salão, tendo a noite escura e nublada como testemunha de sua alegria. Diz a todos que passam por ela fitando-a num misto de medo e curiosidade, que está feliz pois seu príncipe em breve chegará para levá-la ao reino de alegria e abastança.
Pobre menina-mulher! Em seu delírio ocasionado pela fome, frio e crack, acredita que sua felicidade está próxima.
A noite avança trazendo mais chuva e frio.
A cidade amanhece cinzenta e triste.
Próximo a estação, além da movimentação constante do dia-a-dia, uma outra paralela acontece. Curiosos se juntam, se acotovelam para ver de perto a princesa da ponte que jaz ao solo gelado mantendo um sorriso de quem acaba de encontrar seu amor e um olhar vítreo de quem já não se encontra mais presente.
Ela tinha razão. Em seus delírios, afirmava que seu sofrimento estava por terminar e que em breve, seria levada para um outro reino. Só não sabia que seu príncipe era o enviado da Morte. E que só ela, a morte, traria o descanso desejado.
Com a curiosidade saciada, as pessoas retornam à sua rotina, esquecendo de mais esse personagem.
A vida segue.
Imagem: “Caminhos”, de Andrew Ferez

Manhã diferente

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A cidade amanhece quente trazendo no céu pinceladas de aquarela com nuances alaranjadas anunciando mais um dia.

Na metrópole que nunca dorme, a movimentação de transeuntes e carros já é grande. Buzinas, gritos, palavrões.

Esquina da rua da Consolação com a Avenida Paulista.

Diariamente passo por esse local. Faz parte de meu itinerário. Desço, atravesso e entro na Paulista andando alguns quarteirões. É uma forma de me manter em forma e despertar até chegar a empresa. Tudo parece dentro da normalidade. Mas, hoje, ao descer do ônibus e esperar o semáforo abrir observo que algo anormal acontece do outro lado da rua.

Uma movimentação atípica com muitas pessoas olhando e alguns policiais de guarda. Uma certa tensão no ar. A curiosidade fala alto em meu interior. Não sou a única. Todos que se encontram desse lado da rua espicham os pescoços para tentar entender o que se passa do outro lado. Uma senhora pergunta ao meu lado: Será que algum motoqueiro caiu? Será alguém atropelado?

O sinal abre e começo a atravessar. Confesso que não me encontrava preparada para o que vi do outro lado…

Amo São Paulo e seu caos reinante. Sempre cantei aos quatro cantos minha paixão principalmente por essa região da Paulista que, menina ainda conheci.  Avenida larga com seus casarões imensos e belos que me remetiam a uma outra época. Avenida que anos mais tarde, em minha adolescência, vinha quase que todos os domingos aos cinemas: Astor, Belas Artes, Gemini. Ah! Quantas boas lembranças! A primeira vez que assisti ao filme Saturday Night Fiver,  Meu Deus que fila imensa peguei! Mas na época tudo era festa, alegria. Após o cinema, tomar um milkeshake ou uma banana split. Oh delícia! Paquerar na escadaria do edifício Gazeta. Quem não?

Tempo de descobertas e uma certa ingenuidade. Tempo de amizades puras e risos abertos. Nada de redes sociais. Apenas olho no olho. Quantas histórias que guardarei no meu balaio de memórias até o fim.

Uns vinte anos depois, realizei meu sonho em trabalhar nas proximidades. E me encontro até hoje. Apesar de todo caos, não me canso de viver por aqui. Gosto dessa diversidade, observar as várias tribos que convivem numa boa. Vira e mexe, fico sabendo de tentativas de assalto, alguém que surta e tenta esfaquear alguém no ponto de ônibus, casais que brigam…

Mas confesso que não estava preparada para o que iria ver. E isso me chocou por demais. Quando me deparei com a cena foi como se um choque de 1000 Wats tivesse me percorrido de cima a baixo. Desviei meus olhos, senti uma náusea sem fim, perdi o rumo. Parei e não sabia mais para onde me dirigia. Esqueci que estava indo trabalhar. Parei e uma vontade imensa de chorar brotou mas por algum motivo, as lágrimas não saltavam para fora.  Sentia-me asfixiada.  Não conseguindo me mover do local onde estava, sentei-me na calçada próximo a um ponto de táxi onde alguns motoristas falavam baixo como se estivessem num velório.

Captei algumas frases desconexas das várias conversas paralelas mas nenhuma me chamou mais atenção do que a imagem de um dos policiais ali a postos: um homem de seus possíveis quarenta anos não estava aguentando segurar a pinta de durão. Sua face pouco a pouco se transformava numa máscara de dor. Até esse dia, nunca havia me deparado com uma expressão de dor mais dolorosa do que a feição do policial que aos poucos foi deixando vir a tona um manancial de lágrimas. Me encantou tal cena! Ao mesmo tempo que me deliciava ao ver um homem chorar daquela forma vestido em seu uniforme e com as mãos em riste em sua arma, senti-me autorizada a também fazer-lhe companhia nessa ação. Levantei, aproximei-me dele, coloquei minhã mão em seu braço e olhando um no olho do outro, deixamos a emoção do momento tomar conta de nossos corações tão entristecidos.

Choramos. Muito. Aquilo que começou como algo tímido transformou-se numa crise sem fim como se nós dois chorássemos por todo o sofrimento da humanidade desde que essa portou aqui no planeta Terra. Deus!! Quanto sofrimento! Por que? Por quê?…

Por quê?  – Foi a pergunta que fiz ao policial que me abraçava e soluçava feito um menino desamparado.

Não sei… Não temos ainda nenhuma pista ou informação sobre o ocorrido. Olhei para os lados e vi que mais pessoas choravam também. Uma tristeza coletiva tomou conta da esquina mais charmosa de São Paulo.

O policial, ainda com lágrimas no rosto, voltou a sua postura profissional e pediu para que as pessoas se afastassem do local. Juntamente as demais pessoas, fui me afastando até mesmo porque, duas viaturas estacionavam e um carro do IML também se aproximava. Ao descerem dos carros, os outros policiais mais o motorista e os médicos legistas também demonstraram o mesmo choque que todos nós ali presentes sentimos. Uma médica loura, de seus trinta anos virou seu rosto desfigurado pela dor mas em dois minutos se recompôs e se aproximou. Colocando suas luvas de látex, agachou e começou a analisar. Balançou a cabeça numa negativa e mandou o rabecão trazer as macas para levar.

A cena em si parecia um quadro ultra realista e de certa forma me lembrava uma imagem de presépio: duas crianças deitadas uma de frente para a outra, nuas, cabecinhas raspadas, pés sujos, olhos vítreos que conservavam ainda algumas lágrimas quase secas escorridas pelo rosto. Aparentemente não havia marcas de sangue denunciando suas mortes por tiro ou facadas. Parecia cena montada de um grande teatro. Cheguei até a lembrar da canção do Legião “Teatro dos Vampiros”. A cena nada tem a ver com a letra dessa canção mas o título se encaixava com o que via. Ao mesmo tempo em que era chocante, nunca tinha visto cena mais bela em minha vida! Dois bonequinhos humanos deitados de forma a remeter os demais a alguma pegadinha infame do destino. E mais uma vez me peguei pensando em outra frase, do famoso escritor alemão J. M. Simmel “Por quantos ainda vamos chorar” e…

Abro os olhos na escuridão de meu quarto e me sento com o coração a mil. A cena ainda está nítida em minhas retinas.

Graças a Deus foi só um sonho!!

Beija-Flor: uma fábula sobre um grande homem

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“A massa que se move rumo a um novo tempo!” 

“Mundança já””

“Chega de arruaça em nosso país!”

Toda movimentação espalhada pelas principais ruas da cidade tiraram Beija-Flor de seu mundinho tão particular. Há anos vivendo na rua, desenvolveu um sistema de autodefesa se embrenhando num mundo psíquico. Habilidoso, sabe desenhar como poucos. Sempre que tem oportunidade, pega papel e lápis ou o que tiver a mão e, em pouco tempo inicia lindos traçados que se transformam em desenhos mecânicos de peças de maquinário. Ricos em detalhes, demonstra que o sem-teto tem um passado rico em aprendizado e talento. Suas mãos, hábeis, alongadas mais parecem mãos de pianista do que de um morador de rua.

Educado, não se mete com ninguém e sempre agradece de forma educada e até polida aos mimos e doações que recebe das pessoas que o adotaram naquela rua.

Não gosta de companhias. Sempre arredio com outros companheiros de rua. Não bebe, não fuma, não cheira. Só parece meditar. E isso ele faz com maestria por horas a fio. É de causar inveja ao mais experiente monge tibetano.

Seu local onde passa mais tempo está sempre limpo. De uma assepsia hospitalar. As vezes canta, assobia, faz mímica e ri de algo que não nos é permitido ver. Em seu mundo interno deve haver muita alegria pois seus olhos embaçados para a realidade, estão sempre com uma luz diferenciada quando se volta para dentro de si. E sorri!! Um sorriso com a pureza das crianças que, aliás, amam esse personagem.

Em dia de feira no bairro, vários meninos que por ali moram disputam para ver quem compra um pastel de carne primeiro para dar ao Beija-Flor. E ele, sempre sorrindo, agradece. É só do que ele gosta. Já tentaram inúmeras vezes oferecer kibe, coxinha, risolis, tortas mas não. Ele sempre diz: só como pastel. E de carne.

Outra peculiaridade: vive fazendo origamis com qualquer pedaço de papel que lhe cai nas mãos. E sempre os oferta a alguém. São perfeitos!

Os moradores do bairro vivem comentando e se perguntando: quem é de fato esse Beija-Flor! Ninguém sabe sua origem, seu passado, se tem família. É uma curiosidade só. Mas toda vez que o abordam com tais perguntas ele simplesmente sorri e fica quieto. As vezes balança a cabeça, fecha os olhos ou responde secamente Beija-Flor! E sai cantarolando deixando as pessoas sem reação.

Outro dia, pela manhã, vi um carro luxuoso estacionar ao lado de onde Beija-Flor se encontrava sentado fazendo um origami. A pessoa saiu do carro, conversaram um pouco e logo a seguir, a pessoa balançando a cabeça, retornou para dentro do carro e saiu. Curiosidade!!!

Meses após esse episódio, um vizinho ficou sabendo que é um parente, talvez um irmão que vive atrás de Beija-Flor tentando de todas as formas trazê-lo para o seio do lar. Ele é um príncipe de verdade! Vem de uma família muito rica e tradicional. Por isso sua educação, fineza, aristocracia natural que o destoa tanto de quem vive nas ruas. O que o levou a optar por essa vida livre, solta, descompromissada com a sociedade mas difícil, ingrata, sofrida muitas vezes? Ninguém nunca vai saber a não ser os familiares e ele próprio. Enquanto isso os anos passam para todos daquela rua…

“A massa que se move rumo a um novo tempo!” 

“Mundança já””

“Chega de arruaça em nosso país!”

Diante de tamanha comoção coletiva, Beija-Flor se extasia. De repente some por entre a multidão. Cartazes, banners, bandeiras circulam por toda a avenida como num grande desfile de carnaval. É festa!

Eis que aos poucos as pessoas vão abrindo caminho para um rei passar. Pessoas gesticulam, se olham e e todos perguntam: Quem é esse?

E passando num caminhar leve, quase levitando, balançando suas vestes rotas mas aristocráticas, equilibrando uma coroa feita em jornal e ostentando uma bengala feita de pau de vassoura, eis que olhando toda gleba sorri e responde: Beija-Flor a seu dispor!

Sorrindo com olhos embargados num sonho que só ele presencia, atravessa toda a avenida fazendo mesuras aos seus súditos que embasbacados, param a cantoria por alguns minutos e abaixam suas cabeças num significado geral de reconhecimento de sua realeza. Ele é o verdadeiro representante de um povo sofrido mas que soube manter a alegria de viver. Seu rosto, inteiro coberto por uma pintura que representa a bandeira nacional se alarga numa Ordem e Progresso cada vez que abre seu sorriso banguela para todos. Do nada, vai materializando um botão de rosa branca e oferta a cada um que se aproxima dele.

Isso já aconteceu há um certo tempo. Hoje, Beija-Flor é um homem quase normal. Foi empregado por um laboratório de análises clínicas que se encantou com tal figura. Ofereceram a ele emprego e moradia no próprio laboratório. Beija-Flor trabalha no estacionamento e em pouco tempo ganhou notoriedade e respeito pela delicadeza com todos que ali frequentam.

Toda vez que passo pela minha antiga rua e olho o local onde ele ficava me dá uma saudade!!! Mas também, toda vez que passo em frente ao laboratório onde trabalha e me vê, abre sempre aquele sorrisão e me cumprimenta: a senhorita está bem?

Essa é uma pequena fábula sobre um homem que, por algum motivo, desceu ao seu próprio inferno, purgou e retornou à superfície conquistando sua dignidade.