Flor rara

Tocada pelas lembranças da minha meninice, de repente, me vi frente a frente com uma mulher muito querida e que foi presença constante. Há pessoas que passam por nossas vidas e partem sem deixar vestígios. Outras tantas, são verdadeiros meteóros, que na rapidez da luz, vêm e vão para nunca mais. E, existem aquelas que carimbam em nossas almas, suas presenças para toda a eternidade.

Em meu projeto de crônicas que em breve publico apresento mulheres que fizeram parte de minha vida e deixaram um legado de alegria, amor e muita comida gostosa. Cozinheiras que marcaram presença no âmbito familiar. A flor rara, foi uma das mulheres mais queridas de minha vivência. Sua risada contagiante sempre mexeu comigo. Que saudade boa toma conta de mim, cada vez que recordo passagens ao lado dela.

E você, tem alguma lembrança boa e uma história ligada a um prato para me contar? Quero muito saber!

Alimento afetivo: o que me fortalece

Carrego comigo lembranças adoçicadas e outras tantas salgadas. Crescer ao lado de mulheres que dominavam uma cozinha — com conhecimento e amor — despertou em mim o interesse nos conhecimentos culinários. Se hoje cozinho bem, devo muito à essas personas incríveis que povoam minhas memórias.

Aprender sobre as especiarias e seus usos, ter ciência sobre seus benefícios à saúde, através da oralidade de quem dominava, fez de minha caminhada terrena, um belo passeio em meio à natureza.

Um dos meus maiores prazeres, é preparar um prato para familiares e amigos. A escolha do que fazer, a seguir selecionar os ingredientes, o manuseio e a mistura de todos eles, provar sabendo de antemão, que acertei. A felicidade se instala aqui nessa caixa pulsante.

Tenho me dedicado nos últimos meses à união de dois de meus muitos prazeres : escrita e gastronomia. É uma dupla que dá muito certo. É prazer garantido. Por conta disso, jogo para vocês leitores a seguinte pergunta que desejo muito obter resposta:

Conte para mim alguma lembrança de um alimento afetivo. Quais receitas marcaram sua infância? Quero muito saber.

Imagem licenciada: Shutterstock

Temperando minhas memórias

O ano de 2020 foi atípico em muitos aspectos, mas devo dizer, que me foi benéfico. Girei a chave e mudei a rota de minha vida. Cansada da mesmice e da galhordice de muitas pessoas com a qual convivia, resolvi zerar a conta e iniciar tudo de novo. Muitos interpretaram minha decisão como louca, irresponsável, imatura. Para esses, que só conseguem enxergar a superfície, dou uma bela de uma banana. Falando mais claramente: Foda-se!

Lembro que, nessa mesma época, no ano passado, estava terminando meu projeto Diário das 4 Estações com o título Equação Infinda. Passei meses da quarentena me dedicando a escrita desse belo trabalho.

Final de junho, entreguei mais uma obra para minha editora ler e aprovar (ou não), afinal, pode não estar bem escrito, à altura de uma publicação.

Dessa vez, voltei às minhas origens: literária e de vida. Cronista desde sempre, é o gênero em que mais me sinto confortável para escrever. Antes de iniciar a escrita, mentalizei e pedi permissão e bençãos às deusas Deméter, Fames e Ukemochi, para a plena realização do projeto.

Por isso, divido com vocês leitores, a notícia sobre o próximo livro a ser lançado, em breve. Desde já, deixo a porta da cozinha aberta — cozinhando em banho-maria — para dar tempo de vocês sentirem fome de boas histórias, contadas ao redor de uma mesa rústica, acompanhado de uma xícara de café, passado sempre na hora, num coador de pano. Ah, caso não aprecie essa bebida e prefira um chá, sinta-se à vontade, trago em minha dispensa, inúmeros tipos a escolher. Seja meu convidado!

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B.E.D.A. – Desdobro-me

Tenho sofrido surtos. Preocupada, busquei ajuda médica. Pobre doutor, calejado sobre conheceres anatômicos/acadêmicos, ficou sem diagnóstico diante de minha narrativa.

Olhos esbugalhados, embaçados – talvez por noites insones – levantou, caminhou pelo consultório; ora coçando a calva, ora massageando a cervical. Dirigiu-se a sua vasta biblioteca médica e a consultou.

Ensimesmado, leu, fez anotações mentais, voltou para a mesa e – pegando da caneta e bloco -, fez uma receita e me despachou.

Emputecidinha, piquei a tal receita e joguei no cesto de lixo da recepção. Saí sem olhar para trás. Percorri caminhos nunca traçados até que parei numa praça e, sentei. Boca querendo fazer muxoxo, olhos com vontade de esparramar; coração bombeando insatisfações.

Nem percebi o personagem sentado no banco ao lado, com livro em mãos a me observar. Levantou-se, deu uns passos miudos e iniciou um poema em voz alta.

Envolta por desassossegos, pensei com minhas pregas: Coitado, mais um surtado. O mundo está perdido…

Seus olhos sorriram em minha direção e uma pergunta brotou: Qual motivo de sua tristeza?

Num impulso, contei todo sofrimento pelo qual tenho passado. Ao término, pedi desculpas por ter falado tanto. Talvez o pobre senhor só estivesse tentando ser educado. Pediu licença para dividir o banco comigo. Pensativo, decretou: Desdobre-se caso contrário, morre.

Não entendendo, interroguei-o. Suspirando, soltou sua grave voz explicando que devemos desenvolver o hábito do desdobramento. Segundo ele, desdobrar para se manter são. Encerrou a conversação, olhou o relógio de bolso antigo, levantou e partiu deixando sentada, uma pessoa com mais dúvidas para carregar.

Voltei para casa achando que havia sido perda de tempo sair em busca de ajuda. Não foi. Pesquisei, li artigos diversos sobre tal fenômeno que é muito mais comum do que imaginava.

Hoje, quando a realidade me sufoca, desdobro e parto em busca de paisagens que acalentem minh’alma cansada. Quase sempre, sigo para mar aberto. O vai e vem do mar acalma, repõe minhas energias. Nessas andanças, coleto histórias, processo vivências, registro belezas. percebo fauna e flora deixando de lado, registros humanos. Esses, na realidade tenho em excessos.

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

Imagem: Ilha de Itaparica (Acervo pessoal)

B.E.D.A. – Descrença

O doce da rapadura é amargo

Assim como o amor day after

Seco, árido, vazio

Vazio são os diálogos soltos no ciberespaço

Muitos bits, raros momentos de sabedoria

não de bar mas, da vida

Vida rasa, falsa, frágil, empobrecida

Pobre de mim que suporto tanta mediocridade

Na minha idade, não tenho mais paciência

E a ciência? Perdendo tempo em prologar

essa merda de vida…

Báh!

Esse texto faz parte da blogagem coletiva “Blog Every Day April”. Participam também:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

 

B.E.D.A. – Eu só quero beber!

Após um dia de trabalho estressante, metrô lotado, rostos cansados, chego em casa. Passo a chave, respiro fundo.  Finalmente em casa!

Dispo-me ali mesmo na sala. Sigo ao banheiro para uma ducha quente. Preciso limpar o corpo e a mente e, nada como a água para realizar tal benefício. Recebendo o jato d’água morno, mantenho a mente em suspenso. 

Permaneço de olhos fechados . Que se dane a consciência de que preciso fazer minha parte na economia da água para o planeta. Preciso desses minutos para zerar o estresse diário. Somente o barulho do jato d’água se ouve no box.

Ao longe, ouço o belo trinado de Marisa Monte e a voz desafinada de meu vizinho do 82, acompanhando enquanto também toma sua ducha. Nesse interim, capturo outros sons: um liquidificador, uma freada brusca, um bate boca entre as travestis da esquina. Uma sirene entra na rua gritando seu desespero de urgência. Faço uma prece rápida por quem esteja nela.

Já em meu roupão lilás, sigo para cozinha preparar una pasta. Sorrio. Hoje sorverei o delicioso vinho tinto seco que acompanhará a massa. Em minutos ela está pronta, o molho brilhando à minha frente. Eis que surge um obstáculo: a rolha.

Tento de todas as formas tirar a rolha da garrafa. Consigo a proeza de quebrar o sacarrolhas.

Que porra é essa? – penso em voz alta indignada com a teimosia dela, em querer permanecer na garrafa. Decidida a beber pelo menos uma taça do vinho, inicio uma saga de experiências e rezas para que a maldita saia e me deixe ser um pouco feliz.

Foi um tal de colocar a garrafa num sapato e bater para dar pressão, enrolar o fundo da garrafa e bater na parede (claro, com muita delicadeza), desmontar um cabide e tentar usar feito sacarrolhas…

O problema é ser mignon e, apesar de atividades físicas, não sou dotada de força nos braços. Sentia minha pressão se elevar e a raiva também.

Quero tomar meu vinho em paz! Preciso disso hoje. Você não está entendendo querido vinho.

Idéia!!! Pego minha caixa de ferramentas e, em posse de uma chave de fenda e um martelo, mando a rolha para o fundo da garrafa. Já que ela não deseja sair, que se afunde.

Sorriso sabor de vitória. Deito a bebida delicadamente na taça, aspiro seu perfume, deixo-o passear por minhas papilas gustativas, noto a intensidade de seu tanino. Com cerimônia, preparo a mesa e o prato de massa que está fumegando. Queijo parmesão sobre ela e Tin!Tin! para mim.

É tão simples me fazer feliz!

Imagem licenciada: Shutterstock

Participam dessa blogagem:

Adriana Aneli Alê HelgaClaudia LeonardiDarlene ReginaLunna Guedes Mariana GouveiaObdulio Ortega

Ácida Cacilda

Cacilda, desperta. Seis horas da manhã de terça-feira. Dezoito de janeiro de 2021. Com certa dificuldade, senta-se na cama. Alonga seu esqueleto que range feito seus móveis velhos. Levanta, dá dois passos sentindo dores na sola de seu pé esquerdo. É a tal da fascite plantar.

Pragueja em voz alta pigarreando:

-Envelhecer é uma merda! Ai!

Vai para o banheiro urinar litros desse líquido morno.

-É o que mais tenho feito ultimamente. Mijar, cagar, peidar e sentir dores por todo o corpo. Arrê!

Entrando em seu cubículo chamado cozinha, acende o fogão e põe água para esquentar. Acende seu primeiro cigarro do dia. Puxa a fumaça para dentro de seus pulmões já carcomidos pela nicotina e, solta uma baforada que lhe enche os embaçados olhos de um brilho de prazer…

Ao deitar a água quente sobre o pó de café, o aroma que tanto gosta inunda o pequeno cômodo em que vive. Enche até a borda, uma xícara vermelha com logo Nescafé, que roubou da padaria que frequentava, quando ainda trabalhava. Cacilda sempre foi dada a essa fraqueza: pequenos furtos. Puxa uma cadeira próxima de sua janela do 16 andar. Um dos poucos prazeres é sentar-se pela manhã, acompanhada de sua xícara de café fresco e seu cigarro e observar o movimento de pessoas que pouco a pouco, tomam conta da rua em que mora. Aprecia olhar as janelas do prédio em frente e ver a rotina de seus moradores que – na pressa em se aprontarem para o trabalho -, nem imaginam serem alvo da curiosidade de uma velha moradora. Enquanto beberica sua dose de cafeína, entre uma tragada e outra, fala em voz alta:

– Ando mais ácida que limão siciliano. Sempre procurei ver o lado bom de tudo. Confesso que esse ano não estou tendo olhos para isso. Devo estar sofrendo de opacidade da retina da alma. Por onde passeio meus cansados olhos, só vejo merda. Peguei ranço da humanidade. Inclusive da minha que desandou em pensamentos impuros sobre tudo e todos. Mandei Pollyana pra puta que a pariu faz é tempo e ando tomando minhas doses com Bukowski e Hank Moody. A vida tomou um rumo sem me pedir permissão. Estou até agora pensando: Onde foi que errei? Nunca ferrei com ninguém. E olha que tive muitas chances e criaturas que mereciam minha rasteira. Contudo, meus valores jamais permitiram que assim agisse. Sempre procurei ser correta e muitas vezes sofri tropeços por conta de alguns pés em meu caminho colocados de forma mal intencionadas. Caía, levantava, chacoalhava o esqueleto dolorido e seguia em frente. Vingança? Deixava pra lá. O Universo que se encarregue disso lá na frente.

Desconfio que Deus se vingou de mim por ser tão otária. Chego a ouvi-lo rosnando : Deixa de ser besta mulher! Acorda pra vida que ela não é rosa não. Muito menos roteiro de novela global.

Completo hoje 69 anos e acordo para uma dura realidade. O que tenho presenciado e ouvido não me agrada em nada. Por conta dessa contrariedade, refugiei-me na criança pura que fui um dia e me recuso a sair de dentro dela. Só que está penoso mantê-la presa a essa velha amarga que me tornei. Não é justo com alguém que sempre me confortou, causar tamanho sofrimento. Por isso choro. O sal que escorre por minha derme repleta de manchas senis, não arde mais que o sal que escorre dentro, me corroendo a alma. Perdi a virgindade dela. Transforme-me num ser humano comum. Olho-me no espelho e o que vejo não me agrada. Não são as rugas e marcas de expressão que me atormentam. Não são as pálpebras flácidas e caídas que incomodam. Não é o vinco fino e fechado de minha boca – que outrora soube sorrir -, e que agora se lacra diante de tanta feiura mundana. É o que enxergo além do espelho. Transformei-me num monstro horrível!

O mergulho nesse lodaçal interior é doloroso. Fede. Anseio retornar à superfície e respirar um ar menos denso mas não dá. Sinto-me presa no fundo de mim mesma. Como fugir de nós mesmo? Como ignorar o que se é de fato? Lembro de minha terapeuta que cuidou de mim por quinze anos. Tento gritar por seu nome mas nenhum som sai dessa boca lacrada e garganta paralisada. Meu peito estufa ansiando por oxigênio porém, somente os gases emitidos pelo enxofre que me rodeia alimentam meus pulmões. Que pesadelo meu Deus!

A campainha toca trazendo Cacilda para a realidade. Bebe o restante do café- agora frio -, fazendo uma careta, finaliza o cigarro que já se encontra no toco apagando no chão. Gira a chave e abre a porta visualizando a figura detestável de seu vizinho Germano.

-Bom dia dona Cacilda. Falando sozinha de novo? Deve ser o “Alemão” rondando hein? Precisa se cuidar

-Vá se foder viado do caralho! – despeja com acidez, batendo a porta na cara do vizinho que apenas desejava ser atencioso com uma velhinha tão solitária quanto ele.

Imagem licenciada: Shutterstock

Nunca fui exata

Sempre fui péssima aluna nas matérias exatas. Nunca foram meu forte. Então porque fui me envolver com uma equação, pior: Equação infinda?

Quais motivos me levaram a isso? Se quiser saber a resposta, compareça ao lançamento do meu livro. Não estarei sozinha. Estarei ao lado de Aden Leonardo, Lunna Guedes e Mariana Gouveia

Lançamento: 28/11/2020,

Local: Facebook pela página da Scenarium (ao vivo)

Horário:  17h (horário de Brasília).

Sou eu ali naquelas linhas

Sempre ouvi dizer que todo escritor, ao criar uma história, coloca muito dele. Achava graça nisso. Hoje no entanto, vejo o quanto de minha personalidade sai impresso nas histórias que escrevo.

No diário, permiti que muito de mim se manifestasse na história das três mulheres. Não tem como escapar afinal, independente de cada uma, todas nós do gênero feminino, sofremos as mesmas pri(pro)vações.

O mais comum, infelizmente, ainda é a atitude machista de desrespeito as nossas aspirações e desejos. Sempre cerceando nossos caminhos, nossas decisões inclusive com relação ao nosso corpo.

Desde pequena sentia sem compreender, um olhar de reprovação, uma palavra de julgamento, muitos nãos.

Inúmeras vezes fui repreendida com frases que marcam: “Isso não é brincadeira de menina”, “Comporte-se como uma menina”, Sente-se direito. Menina não senta assim”, “Menina não se veste assim” e por aí vai as inúmeras formas de engessar o comportamento feminino.

Longe de ser mensagem panfletária de cunho feminino, a história das mulheres de Equação infinda, expõe o que cada uma sofreu em sua época, independente da formação e experiências que vivenciaram.

Acompanhe essas mulheres e veja o quanto somos únicas e ao mesmo tempo iguais. O convite está feito e aguardo sua presença no lançamento do projeto 4 Estações. Não estarei sozinha. Os diários de Aden Leonardo, Lunna Guedes e Mariana Gouveia abrilhantarão o evento. Quando?

Lançamento: 28/11/2020,

Local: Facebook pela página da Scenarium (ao vivo)

Horário:  17h (horário de Brasília).

A cidade da minha escrita

Percorri mais de uma cidade durante a escrita do diário. Não posso dizer que é meu.

Percorri ao lado de Carminha, ainda mocinha, as ruas da Mooca e depois, acompanhei seu deslumbramento com a Cidade Maravilhosa, durante o Reveillon. Confesso que também me encantei com a cidade e suas paisagens.

Tanto que finquei raízes e, agora acompanhada de Lígia, percorri a orla carioca, com seus calçadões icônicos. Sentei ao lado de uma galera talentosa. Até um certo moço bonito, com topete, sorriso de lado e sempre acompanhado de um cigarro aceso no canto da boca a cantar as belezas das praias e sua musa de Ipanema.

Levantei voo ao partir para uma aventura de uma vida inteira ao lado de Verônica. Pousamos na Califórnia e lá, fizemos a festa em plena década de 80 e 90. Revivi ao lado dela, o que nunca vivi. A escrita tem isso de bom.

Contudo, como a imaginação nos leva para onde desejamos, retornei a São Paulo. Minha cidade do coração. Sempre. Metrópole que pulsa ininterruptamente. Vidas que seguem, que chegam e partem a todo momento.

Você também pode fazer esse itinerário. Basta participar do lançamento de meu livro que faz parte do projeto 4 Estações, cujo título é Equação infinda. Quando?

Lançamento: 28/11/2020,

Local: Facebook pela página da Scenarium (ao vivo)

Horário:  17h (horário de Brasília).

Imagem licenciada: Shutterstock