Bon voyage pour moi

Viajar e conhecer novas paisagens para mim é terapia. Assim como caminhar. Nas viagens, dou um tempo na persona que visto no dia a dia. Deixo de lado a mulher séria e preocupada com tantas questões cotidianas. Assumo o ser que sou: livre e simples .

Estou prestes a mais uma aventura fora de meu círculo diário. Um friozinho já conhecido se manifesta no meu centro . É bom sinal. Mala pronta, pontos turísticos delineados e anotados. No entanto, o que mais me atrai, apesar de minha aparente timidez, é conhecer pessoas.

Gosto de observar os diversos rostos anônimos que farão parte de meus dias turísticos. Ouvir diferentes sotaques é canção para meus ouvidos. Conhecer histórias locais, tomar consciência que há vida pulsante e saudável fora dos centros urbanos ao qual estou familiarizada.

Quando viajo, não gasto dinheiro comprando lembrancinhas para num futuro, recordar esses dias. O que trago nem pesa na mala. Posso até fazer uma brincadeira dizendo que o que vivi e presenciei, salvei nas nuvens. As fotos digitais até podem ser salvas por lá. Contudo, a vivência desses dias e as experiências gastronômicas, sensoriais e visuais – essas -, armazeno nas inúmeras gavetas de minha memória.

-Atenção, senhores passageiros com destino a…

É minha vez. Até o retorno leitores queridos. Quando por aqui aparecerei para compartilhar com vocês algumas situações que vale a pena registrar numa bela crônica.

Bon voyage pour moi! À bientôt!

Imagem licenciada: Shutterstock

Impermanência

Mais uma manhã chuvosa a decorar minha janela. Sozinha, porém não solitária, sento e sinto necessidade de escrever algo. Não tenho ideia mas o desejo bate forte e me entrego.

Enquanto olho pela janela buscando inspiração, ouço cá dentro, as lamúrias do fado no CD de Mariza, Concerto em Lisboa. Bate uma saudade da terrinha lusitana. Já faz tanto tempo que por lá estive. Gosto de fado. Remete-nos a uma melancolia que considero boa. Vem do fundo da alma algo que não conseguimos detectar e que aquece o espírito. Após um tsunami emocional, encontro-me essa semana em paz comigo mesma e com o Universo. Terminei algumas leituras – de lazer e de estudos -, e retomei a leitura do livro de Lya Luft, O silêncio dos amantes.

O primeiro conto que li ontem à noite, antes de dormir, lembrou-me o sobrinho/filho que viajou para outra esfera. Confesso que abriu uma cratera funda de saudades de nossos papos e convivência que tivemos. No entanto, não fiquei triste. Apenas saudosa de um tempo que ficou para trás. Transformou-se em história de vida.

Estômago gritou alertando-me que já era hora do almoço. Lembrei do programa da Ana Maria Braga, pela manhã mostrando um chef ensinando os marmanjos globais a preparar uma carne moída. Achei graça.

Preparo desde criança, quando aprendi com minha avó e mãe, a arte de cozinhar. Os olhos atentos de todos me trouxe à reflexão, o quanto se perdeu da espontaneidade de um simples preparo de uma carne moída.

Abri minha geladeira e de imediato, optei pelo que tinha: filé de tilápia e bolinhas de espinafre congelados. Bingo! Decidi preparar o peixe grelhado e como acompanhamento, creme de espinafre. O arroz já tinha pronto. Era só esquentar. Em minutos, meu prato estava perfumado e saboroso!

Após almoço, satisfeita, saio para a rua. Chega de reclusão. Caminho alguns passos sentindo o ar gelado a queimar meu rosto e me encolho no agasalho pesado. De mãos aquecidas no bolso do casaco, olho de soslaio os inúmeros moradores de rua encolhidos debaixo de cobertores ralos ou papelão. Sinto vergonha por minha roupa boa e tão aquecida, meus calçados de marca e meu teto financiado porém, quentinho. Saí com a intenção de comprar alguns itens de supermercado que zeraram em minha despesa. Contudo, o olho gordo de consumidora que tento domesticar, compra guloseimas desnecessárias e retorno com a sacola lotada. Ao cruzar novamente com esses moradores das calçadas, envergonho-me mais ainda. Uma vontade imensa de sentar ao lado e chorar misérias alheias. De olhos marejados, tropeço e quase caio em cima de um dos pobres que, achando uma afronta minha, esboça um palavreado nada agradável. Lágrimas de indignação caem molhando meu cachecol peruano. Corro para o prédio, meu porto seguro diante de tantas mazelas humanas que compõe o centro velho de São Paulo.

Agora, ao som de Mornin’, na voz de All Jarreau, continuo mirando minha janela acompanhando o tempo se fechar entre nuvens carregadas e enegrecidas. Vem mais chuva e frio. Mastigo sem sentir o sabor do bolo de cenoura que comprei e quase nem sinto mais o aroma do café recém passado. Nas retinas de minha alma, permanece a imagem dos desvalidos que a cada dia aumenta nas ruas de nosso tão judiado país. A garganta se fecha diante da notícia que leio sobre a (mais uma) lamentável fala de nosso atual representante sobre o trabalho infantil.

Agarro-me à Pessoa e seus inúmeros heterônimos que me fazem companhia na xícara de café que trouxe de souvenir de Lisboa lembrando o início de Tabacaria:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é…

E tudo isso porque me deu vontade de escrever e nem sabia o quê.

Imagem: Arquivo pessoal

Muito a criar. Muito a viver

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Final dos festejos da Parada Gay, com muita euforia por momentos de liberdade que prenuncia um mundo mais leve e colorido. Ouço o rádio aqui dentro e, bem mais dentro, em meu interior, o tum!tum! de um coração que pulsa sem parar. Por alguns instantes, bate mais compassado revendo o passado.

Noite fria, fogueira acesa, pessoas sorrindo e se aquecendo ao som de uma viola caipira, assim como um quentão rolando solto por entre os copos de todos os presentes…

O cheiro da terra úmida, toma conta de minhas narinas tão acostumadas ao odor da fumaça dos carros nas avenidas da cidade de São Paulo. Agacho e pego um punhado delas sentindo a aspereza gostosa por entre os dedos. Cria do asfalto, filha da urbanidade, não tenho contato com a natureza a não ser pelos vasos de flores comprados no mercado das flores do Arouche. O perfume me enebria feito os taninos do vinho barato que compro no hipermercado Extra, na esquina de casa…

Sorrio ao ouvir de sua boca carnuda, meu nome pronunciado de forma tão sensual. Sua voz baixa e rouca, anuncia uma noite prazerosa de muitas brincadeiras sexuais a nos entreter na meia idade. Agora somos livres, nos tornamos crianças grandes e sem censura alguma, nos permitimos brincar de tudo…

O avião embica e sobe levando-me a novas experiências. Conhecer lugares é sempre bom. Conhecer pessoas também…

Fogo, fogão, foguinho
Pula dentro, pula fora
Estica a corda
E vai embora…

Como é boa a sensação de liberdade em pular corda com amigas. E cantar, e pular, e suar e  e  e…Ser feliz feito criança de novo!

Não. Não é nada disso que acontece mas todas dariam uma boa história. Vocês não concordam?

Iniciar uma história é uma estrada de várias vias que nos possibilita múltiplas escolhas. A vida real também.

Só que muitas vezes, por medo, deixamos de escolher um final feliz. Ou quem sabe, por achar que não somos merecedores. E atravessamos a vida, apegados no cotidiano miserável, porém conhecido, ao invés de se jogar de cabeça numa aventura que acrescente um matiz mais colorido às nossas medíocres existências…

Com todos esses possíveis recomeços e histórias, festejo mais um ano de vida.

56 velas acessas brilhando e provando que viver é bom demais. Foram começos de histórias que poderiam ter acontecido ou que realmente aconteceram. Um mosaico que compôs minha vida terrena enriquecida de muitos janeiros, muitas fogueiras, muitos brindes, muitos choros e risos. Por hora, em postura de agradecimento, elevo o pensamento e agradeço à Deus pela oportunidade única de nascer, viver, crescer e formar uma legião de amigos queridos e familiares amados. 56 viradas de folhas de calendários que fomentaram esse corpo mignon e transformaram-no em rocha que aguenta muitos trancos.

Que venham mais 56!! Afinal, o que vier daqui para a frente será sempre lucro! E não me venham dizer que é o início da derrocada porque – mesmo derrapando na pista -, sou canceriana, ando de lado e faço passo de dança. E mesmo que toque um tango sofrido , choro e danço. Danço e choro. E também sorrio porque  pode até ser que tenhamos a fama de chorões do zodíaco mas, também carregamos a alma inflamada de amor e tesão pela vida. Tin!Tin!

Imagem licenciada: Sutterstock

Em terra de Raimundo…

Sou observadora. Do tipo que mais prefere ficar nos bastidores que aparecer. É através dessa minha lente que retiro matéria e personagens para meus textos. Mas também assunto para muita reflexão.

Em tudo que faço busco sempre a paixão. Por isso fico pasma, de boca aberta mesmo em ver o quanto a maioria das pessoas simplesmente passam por essa vida anestesiadas.

Preferem o ócio não produtivo pelo simples fato de gostarem de não fazer absolutamente nada. Passam uma vida inteira trabalhando em empregos miseráveis, não se preocupando em evoluir, em melhorar suas vidas e a de seus familiares. Não se preocupam em aprender seja lá o que for. Não leem, não se aperfeiçoam em nada a não ser suas raízes fincando-se cada dia mais fundo no nada.

Pessoas que olham seus colegas com ranço de inveja por vê-los galgarem degraus na empresa, se formando na faculdade, se especializando, e maldizerem com um riso torto: “Ah, fulano ou sicrano se vendeu, puxou o saco do chefe, saiu e fez hora extra” e por aí vai tantas outras frases infelizes que expõem sua pequenez de espírito.

Pessoas que reclamam diariamente de sua chefia mas que não fazem nada para melhorar a rotina do trabalho. Ideia brilhante? Nunca pois só se preocupam com os próximos feriados prolongados onde poderão assentar suas bundas gordas no sofá de casa e se deixar anestesiar pelos programas alienantes da TV.

Isso tem me preocupado nos últimos tempos pois vejo que grande parte da nação se encontra nessas condições. Daí, a sociedade estar do jeito que está. Poucos, bem poucos são conscientes de suas obrigações, responsabilidades. É mais fácil jogar toda a responsabilidade do que não dá certo no governo do que arregaçar as mangas e ir a luta.

Quando leio ou ouço a frase: “O gigante adormecido”, penso comigo: não existe frase mais mentirosa que essa. Afinal, para ser gigante é preciso se alimentar bem para crescer acima da média. O que foge totalmente ao perfil de nossa sociedade. Para crescer precisa-se mexer, fazer atividades – não somente a física -, mas, principalmente intelectuais. O que só me faz chegar a seguinte conclusão: Não passamos de um embrião em estado latente de inconsciência!

Duro isso! Sei que ainda tenho um longo caminho a percorrer crescendo, evoluindo mas já conquistei muitas coisas boas pra mim. Triste mesmo é não ser cego em terra de malandro e escroques e ainda assinar atestado de abestado por ser honesto.

Mundo, mundo! Vasto mundo! Sai Raimundo, entra Edmundo e as coisas continuam no mesmo patamar: lama por todos os lados! Mas quer saber? Tatudooquei!

Livros

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Vivo entre livros de forma mais intensa desde 1991.No entanto, os livros sempre exerceram certo fascínio em mim.

Quando pequena, observava de longe os livros de capa de couro de um tio que lia muito e também os livros de latim e francês de outro tio. Achava isso de ter muitos livros o máximo!

Porém, a situação financeira da família tornava esse sonho um tanto quanto impossível. Quando papai começou a trabalhar numa empresa de mudanças, passou a trazer para casa livros largados de famílias que se mudavam e fez a festa da família toda. Muitos gibis, HQs do Fantasma, Aventuras de Tom Sawyer, Mary Poppins, Viagem ao Centro da Terra. Esses livros nos acompanharam por muitos anos até se desintegrarem.

Ao começar a trabalhar numa biblioteca por pura necessidade, não imaginava que se transformaria em meu lar. Passo mais tempo dentro dela acompanhada por mais de quarenta mil livros do que ao lado da família que só vejo por algumas horas aos domingos. Ouço suposições de que o livro vai acabar desde que entrei para a faculdade. As livrarias estão aí para desmentir pois nunca se produziu tantos livros como atualmente. Após duas décadas trabalhando em bibliotecas, presenciei a vinda dos e-books, conheci muitos textos incríveis e seus autores através de blogs e também passei a escrever neles. E os livros seguem firmes e cada vez mais bonitos e criativos. É claro que com a facilidade em se publicar, também surgiram muitos livros ruins mas, até nisso ele é democrático. Existe público para tudo, inclusive, para literatura considerada ruim.

E hoje, Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais, passei mais um dia cercada por Nietzsche, Drummond, Dante Alighieri, Rick Rordan e tantos outros que fazem desse espaço, um pedaço do paraíso onde você se instrui, se diverte e descansa a mente e o corpo desse frenesi que é viver.

Mendacium

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Mentira. Palavra que tem como significado: enganar, iludir, ludibriar.

Seria hipócrita em afirmar que jamais menti na vida. Menti. E muito. Principalmente quando adolescente que desejava sair e fazer coisas que minha mãe não permitia. Até o dia em que tive uma conversa séria com ela e comentei que só mentia porque ela não confiava em mim. A partir do momento em que ela passou a confiar, parei com as mentiras e, confesso que minha vida melhorou.

Vivemos numa sociedade alicerçada na mentira. Em todas as esferas, seja no seio familiar, escolar, empresarial. Entre amigos e principalmente entre os inimigos. Aí então, a mentira encontra solo fértil para fincar raízes e causar danos.

Sou por natureza muito observadora . A tudo e a todos. Essa habilidade tem sido excelente para garimpar situações e histórias para meus escritos literários. Nesse sentido é perfeita! No entanto, em meu dia a dia isso passou a ser um peso a se arrastar deixando-me muitas vezes cansada, irritada, e descrente da humanidade.

Já perdi a conta das vezes que pensei : Deus! Por que não nasci burra? Assim, sofreria menos ou talvez nada. Passaria por essa vida flanando, só curtindo o que ela tem de melhor. E conseguiria mentir sem desviar os olhos ou ficar corada. Na cara dura…

Como fazem muitas vezes comigo e eu, sendo esperta ( oh grande coisa né?) , olho a pessoas nos olhos, penetrando sua escuridão da alma e mergulho no pântano onde boia a palavra “mentira!” “mentira!” “mentira!” “mentira!”

Entro no jogo, armo meu sorriso mais bonito e saio de cena fingindo ser a otária que pensam que sou. Só que não. Ah, se não fosse pelo meu verniz da civilidade, já teria exterminado meio mundo e livrado esse planeta de tanto lixo humano!

É caro leitor. Realmente estou irritada! Ando pelas tampas, como já dizia minha adorável avó Maria, que Deus a tenha ao seu lado. Chega uma hora em que são tantas as mentiras e falsidades que te rodeia que – ou você explode mandando tudo e todos pelos ares, e aí vai presa porque cometeu um crime, ou implode toda essa matéria mitomânica e adoece por engolir tanto veneno. Difícil escolha não?

Depois, saem às ruas exigindo reformas políticas e o diabo a quatro esquecendo-se que dentro de si mesmos é que deveria de ocorrer a maior das reformas: a íntima e moral.

Seres humanozinhos tenho algo a dizer: se não entenderem, a tia promete desenhar também. Reformulem-se. Humanizem-se. Vamos tratar de valorizar a verdade. As pequenas e as grandes. Garanto que darão um passo imenso em sua evolução.

Julguem-me se puderem!

 

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Decreto Lei

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Porque hoje é sexta-feira, deixarei de lado meu lado mais tenebroso. Empurrarei bem lá pro fundo meus pensamentos de ira, minhas convicções políticas, minhas críticas com relação a todos com quem convivo. Adormecerei minha vontade de explodir por qualquer razão. Sorrirei para a moça do caixa do banco que tanto enrola para trabalhar e nos atender no horário tão corrido e puxado que é nossa hora do almoço. Sorrirei inclusive, para aqueles velhinhos aposentados que – sem pressa alguma, puxam um papo que dura uma eternidade com a atendente pouco se importando que nós, trabalhadores ainda damos satisfação para nossos patrões caso atrasemos. Sorrirei. Mesmo que por dentro, o coração descompasse de ódio disfarçado de ansiedade por querer uma vida mais leve pagando menos impostos e obtendo o direito sagrado de ter acesso mais facilitado ao lazer cultural que, vamos combinar, está pela hora da morte.

E falando em morte, nem morrer se pode. O valor cobrado para nos enterrarem está algo em torno de…de…

Não. Não pensarei nem farei os cálculos sobre isso, caso contrário, meu esgar será de morte súbita de raiva e não o movimento muscular da face se abrindo num sorriso. E hoje, decididamente optei por sorrir. E não há situação ou pessoa nesse mundo que me fará mudar de ideia.

O congresso se desentende, brinca de cabo de guerra, vestem os personagens mais bizarros transformando nossa nação num imenso circo dos horrores. No entanto, hoje, não tenho olhos para eles. Até consigo rir de suas atrapalhadas nada inocentes. Não faz mal. Hoje meu dia será de pura leveza nem que para isso, congele meu raciocínio para não buscar lógica nas coisas diárias. Não quero.

Desejo somente sorrir para aqueles pobres que se encontram de estômago dobrado de fome na sarjeta e oferecer junto de um lanche, meu melhor sorriso. Talvez quem sabe um abraço porque hoje caro leitor, é sexta-feira, não é treze e meu espírito se encontra em jubilo. Motivos não tenho mas como decidi, que assim seja a minha vontade e assim está decretado no país das maravilhas Roselíssicas que hoje, somente hoje, absorverei toda a alegria do universo para amanhã, ter munição para atravessar essa escuridão que desceu sobre a humanidade. Sorria você também, por caridade.

Curiosidades literárias

O que dizer sobre minha vida literária? Alguns dirão que – assim como minha vida -, é uma bagunça. Outros, com certeza enxergarão riqueza e diversidade.

O que posso garantir, é que não consigo viver sem um livro sendo desvendado. Talvez seja uma Voyeur que ama espiar janelas e se deleitar com o cotidiano dos outros. Ler um livro é bem isso. Entrar sem pedir licença na história de pessoas fictícias que bem poderiam ser nossos familiares, vizinhos, conhecidos. É como ver a porta encostada e entrar sorrateiramente. Fazer um tour pela casa alheia observando hábitos, costumes, ouvir conversas íntimas, descobrir que usam tal marca de dentifrício e sabonete. Esse pensamento me remete a uma história de um dos contos do livro de Haruki Murakami: Homens sem mulheres. Aliás, esse é um de meus autores preferidos.

Faço leitura de quase tudo o que cai em minhas mãos. Quase tudo, pois também carrego alguns preconceitos. Não leio autoajuda muito menos romance tipo Sabrina ou Nora Roberts. Explico: quer me ganhar como leitora? Surpreenda-me. Detesto histórias previsíveis. Se após alguns capítulos já consigo sacar o final, esquece. Fecho o livro e perco todo interesse. Ah! Tem algo mais importante do que me surpreender: Escreva bem.

Um texto bem escrito, bem estruturado, envolve e dá um prazer incrível em mergulhar em suas linhas. Exemplo trago muitos mas posso indicar qualquer obra do escritor Josué Montello.

Ouço ecos: QUEMM???

Pois é amigos leitores, sempre que verbalizo alguns nomes da nossa tão desvalorizada e rica Literatura Brasileira, ouço essa frase. E muito me entristece saber que nossos escritores tão talentosos são desvalorizados por nós mesmos. Trabalhando em bibliotecas há quase trinta anos, abracei essa causa e sempre divulgo e tento sensibilizar meus usuários para se permitir conhecer as obras nacionais. Nomes conhecidos como o próprio Montello, Guimarães Rosa, Carlos Heitor Cony, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Rubem Fonseca, José Lins do Rego, Érico Verissimo e tantos outros. Não dá para citar todos. O espaço seria pequeno apesar de infinito.

Contudo, minha vida literária tem muito mais. Lembro que em meados de 1995, quando era recém contratada do Colégio onde ainda me encontro trabalhando, minha primeira leitura de impacto foi a saga As brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley. Fiquei meses impactada pelos personagens e roteiro das histórias vividas pelo rei Artur e seus cavaleiros. A seguir, a saga de Penélope Keeling me absorveu por completo através da narrativa cativante de Rosamunde Pilcher. Que história! Que personagem! E por falar em personagem, sou uma perseguidora de personagens femininos fortes, marcantes. A Penélope foi talvez a primeira que descobri mas depois, vieram muitas outras como a serial killer mais conhecida como Beleza Mortal, Gretchen Lowell, do livro Coração partido de Chelsea Cain. Citando personagens de Josué Montello, do livro Uma sombra na parede, nos apresenta duas mulheres Malu e Ariana. Anos mais tarde, tiver o prazer de conhecer outra dupla de deixar marcas para quem lê: Alexandra e Raissa, do livro Lua de papel, de Lunna Guedes. Adoráveis e inesquecíveis!

Outra curiosidade das minhas aventuras literárias é escolher livros que me apresentem lugares e culturas desconhecidas. Conheci o Afeganistão e sua cultura através do belo Mulheres de Cabul, de Harriet Logan, a Índia através do olhar (novamente feminino), de Tilo (personagem) desenvolvido de forma magistral pela escritora Chitra B. Divakaruni. Pude conhecer um pouco da idílica Provence, região da França, pela ótica do inglês Peter Mayle no excelente livro Um ano na Provence, e também do ótimo e mais atual livro A livraria mágica de Paris, a escritora alemã Nina George. Um mergulho numa cultura que nos envolve e nos faz sentir vontade de se aposentar e fixar moradia por lá.

Quem me conhece sabe do quanto aprecio ler e escrever também crônicas. E claro, tenho uma lista enorme de cronistas que nos inspiram através de suas óticas, uma leitura primorosa do cotidiano. Rubem Braga, o mestre dos mestres. Contudo nomes como Moacyr Scliar, Carlos Drummond, Cecília Meireles, Fernando Sabino e entre tantos, o meu amado/idolatrado/salve-salve Caio Fernando Abreu. Ah! Como é bom ler as crônicas desses que citei e tantos outros.

E o que dizer de minhas descobertas na literatura juvenil? Quantas pérolas descobri através de uma ótica voltada para os mais jovens mas , que nem por isso, deixa de ser uma literatura rica e também diversificada. Livros que marcaram minha pré-adolescência e mesmo na fase adulta onde pude ter um contato maior com esse gênero e tive o prazer de ler histórias fascinantes. Exemplo? Muitos… A montanha partida, de Odette de Barros Mott. Foi minha primeira grande aventura juvenil. O gênio do crime, do recente falecido João Carlos Marinho. A saga do menino bruxo Harry Potter me encantou com seu mundo peculiar. O fantástico livro fantasia/juvenil Penumbra, de André Vianco. Marina, do espanhol Carlos Ruiz Zafón.

É com pesar que ponho um término nessa minha postagem. Poderia varar o resto da tarde e adentrar a noite tecendo meus pareceres literários. E as muitas curiosidades que cada leitura trás em si. Só posso dizer com certeza absoluta uma coisa: Ler é fundamental para o entendimento da vida e do ser humano. Ler, abre os olhos da alma para um turbilhão de emoções e percepções que nos abastece para as mais diversas situações. Ler, além de ampliar nosso vocabulário, nos proporciona condições de falar melhor, com mais clareza e nos posiciona num patamar que nos fornece condições e ferramentas para crescermos profissionalmente.

Escrevente

O mestre disse: Escreva. Todo dia, escreva. Não importa o que aconteça, escreva. Não se deixe levar pelo cansaço, escreva. Mesmo que a tristeza te habite a alma, escreva. Aliás, segundo ele, é na tristeza que costumamos escrever mais e melhor.

Tenho minhas dúvidas…

Ando meio macambúzia. Saltitando de lado, evitando multidões, desejando o silêncio de meu quarto pois, somente lá, consigo dar vasão ao tanto de ruídos que habitam em mim.

De tanto chorar, meus olhos secaram. Dei agora de chorar por dentro. Minha alma transformou-se numa eterna nascente onde escoa de forma incessante, um mar sem fim.

Ninguém notou afinal, sou uma clown profissional e permaneço em estado de graça, sorrindo o tempo inteiro. Todos me acham o máximo! Essa sim sabe viver!

Ah, se soubessem! Sou treva. Pântano escuro onde se ouve coaxo dos inúmeros sapos que engoli no decorrer de minha vida e que hoje, os tenho como inquilinos. Nunca imaginei que me transformaria nessa estátua de sal. Houve tempos coloridos em que calcei meus sapatinhos vermelhos e acreditei que seria feliz para todo o sempre. Quando jovem, imaginava que os contos de fadas tinham final feliz. Meus pés cresceram, os sapatinhos passaram a machucar. Houve tropeços e muitas pedras pelo caminho que descascaram seu verniz. O couro enrijeceu feito minha pele de carcará até que, numa bela tarde de primavera, arrebentaram e tive de prosseguir descalça. Encontrei pela estrada algumas pedras de cal que mesmo queimando as mãos serviu para registrar minhas histórias. Tomei gosto! Hoje, desenvolvi olhos da alma para tudo registrar em forma de narrativas. Sou cronista de minha própria vida e da vida alheia.

Imagem licenciada: Shutterstock

Estátua!

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Ei! Você aí marmanjo que, feito eu, só leva a vida a sério não se permitindo mais parar e brincar.

A vida enrijece o adulto e aos poucos deixamos de fazer coisas lúdicas que amaciam nosso espírito tão judiado pelas preocupações do dia a dia.

Essa semana, reservei três dias para cuidar da saúde. Fazer uma bateria de exames por prevenção. Sabe como é, após os cinquenta não dá pra facilitar.

Exames clínicos, ecocardiograma, urina, rolter e, novidade! Nunca havia feito o tal do Mapa 24h. Meu cardiologista solicitou, achei legal ele se preocupar com meu bem estar e lá fui eu, pela manhã fazer o exame.

Laboratório lotado e aguardo, aguardo, aguardo… Que saco esperar! Aguardo mais um cadinho só para não perder o hábito tão brasileiro que temos. Amavelmente esperei. Sorrindo mansamente quando as funcionárias passavam me ignorando. Sorriso congelado que escondia a louca, desvairada, ensandecida Roseli que dentro do peito, lutava para eu a libertar. No entanto, meu lado civilizado continuava a imperar e aguardei mais um pouquinho.

Senhora Roseli Venancio Pedroso!

Sou eu! Euzinha! Muito bom dia!

Bom dia senhora Roseli, meu nome é Celia e vou explicar direitinho os procedimentos para a implantação do aparelho em seu braço. Preste muita atenção para que não dê problemas e perca 24 horas de exame. Caso contrário, precisaremos marcar novamente e fazer tudo de novo.

Fazendo esse discurso, a amável e dedicada profissional foi preparando meu braço e instalando o aparelho de pressão que ficaria 24 horas ininterruptos comigo, apitando de quinze em quinze minutos me obrigando a parar tudo o que estivesse fazendo e ficando à sua mercê até completar…

Desculpe a interrupção, o aparelho apitou e tive de me paralisar. Então, vocês não sabem o inferno que foi passar a manhã toda com esse treco apitando o tempo todo e me fazendo parar e aguardar sua boa vontade em me dar permissão para respirar e seguir com os afazeres.

Na hora do almoço, enquanto fazia meu prato no bandeijão por kilo, parei a fila de pessoas por conta do apito. Piiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

Desgraça! Ouvi muitos impropérios e piadinhas sem graça.

Estão com pressa? Passem por cima! Que saco!

Atravessando a Avenida Paulista, o maldito aparelho volta a apitar e eu, louquinha atravesso correndo e paro instantaneamente fazendo cara de paisagem. Recebi inúmeros olhares curiosos e, novamente, piadinhas. Velha Louca essa aí hein? (risos) de um grupo de jovens estudantes. A louca aprisionada tenta sair da gaiola novamente mas, mantenho a pose de Bonequinha de Luxo versão Gray, e mirando o horizonte, sigo meu caminho até o trabalho.

Por volta das quinze horas já me encontrava babando de nervoso de tanto Pi!Pi!Pi! quando numa das paradas obrigatórias, lembrei de minha infância e do quanto gostava de brincar de Estátua.

Ah como era bom achar tudo engraçado. Tudo era tão leve e tão bom que nem sabia o que era gastrite. Descendo as escadas que dão acesso a Biblioteca onde trabalho, me conscientizei da importância de não se levar a vida tão a sério. E pensei com meu aparelho de pressão: Que tal transformar essa atividade enfadonha numa brincadeira legal? Topa?

O danado do aparelho parecendo compreender minha proposta maluca, apitou estridente me fazendo cair num riso…

…contido. Percebe que tive de ficar estátua de novo?

A partir desse nosso acordo, o resto das vinte e quatro horas passaram numa enorme brincadeira. Mais gostoso ainda foi contagiar as pessoas ao meu redor que aceitaram fazer parte da brincadeira. Cada vez que o aparelho apitava, eu me paralisava e as pessoas ao meu redor também. Olhos brilhantes, músculos intactos, respiração suspensa. Piiiiiiiiiiiiii!!! Todos caíamos num riso contagiante e assim, cheguei ao término de mais um dia de trabalho que – diferente dos outros -, foi transformado em pura nostalgia de criança onde nós adultos, deixamos por quinze minutos, vir a tona o que fomos no passado: crianças felizes e despreocupadas.

Nada como transformar situações cansativas e enfadonhas em algo lúdico e divertido.

Fundamental alimentar a criança que habita nosso interior.

O quê? Quer saber como terminou? Ah, confesso que não terminou muito bem não afinal, em pleno Valentine Day, tive de dar adeus a quem sabiamente me conquistou. Tive de dizer Goodbye ao aparelhinho Pi, deixando-o solitário aguardando um próximo paciente a utilizá-lo. Sei que ficou triste afinal, nem sempre os humanos entendem a piada e a transforma numa história com final feliz. Fazer o quê não é mesmo?

É seguir em frente e ver se numa próxima esquina alguém desperte esse brilho em nosso olhar e tenha o poder de aquecer o coração.

Happy Valentine’s Day for everyone!

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