Livros

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Vivo entre livros de forma mais intensa desde 1991.No entanto, os livros sempre exerceram certo fascínio em mim.

Quando pequena, observava de longe os livros de capa de couro de um tio que lia muito e também os livros de latim e francês de outro tio. Achava isso de ter muitos livros o máximo!

Porém, a situação financeira da família tornava esse sonho um tanto quanto impossível. Quando papai começou a trabalhar numa empresa de mudanças, passou a trazer para casa livros largados de famílias que se mudavam e fez a festa da família toda. Muitos gibis, HQs do Fantasma, Aventuras de Tom Sawyer, Mary Poppins, Viagem ao Centro da Terra. Esses livros nos acompanharam por muitos anos até se desintegrarem.

Ao começar a trabalhar numa biblioteca por pura necessidade, não imaginava que se transformaria em meu lar. Passo mais tempo dentro dela acompanhada por mais de quarenta mil livros do que ao lado da família que só vejo por algumas horas aos domingos. Ouço suposições de que o livro vai acabar desde que entrei para a faculdade. As livrarias estão aí para desmentir pois nunca se produziu tantos livros como atualmente. Após duas décadas trabalhando em bibliotecas, presenciei a vinda dos e-books, conheci muitos textos incríveis e seus autores através de blogs e também passei a escrever neles. E os livros seguem firmes e cada vez mais bonitos e criativos. É claro que com a facilidade em se publicar, também surgiram muitos livros ruins mas, até nisso ele é democrático. Existe público para tudo, inclusive, para literatura considerada ruim.

E hoje, Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais, passei mais um dia cercada por Nietzsche, Drummond, Dante Alighieri, Rick Rordan e tantos outros que fazem desse espaço, um pedaço do paraíso onde você se instrui, se diverte e descansa a mente e o corpo desse frenesi que é viver.

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Mendacium

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Mentira. Palavra que tem como significado: enganar, iludir, ludibriar.

Seria hipócrita em afirmar que jamais menti na vida. Menti. E muito. Principalmente quando adolescente que desejava sair e fazer coisas que minha mãe não permitia. Até o dia em que tive uma conversa séria com ela e comentei que só mentia porque ela não confiava em mim. A partir do momento em que ela passou a confiar, parei com as mentiras e, confesso que minha vida melhorou.

Vivemos numa sociedade alicerçada na mentira. Em todas as esferas, seja no seio familiar, escolar, empresarial. Entre amigos e principalmente entre os inimigos. Aí então, a mentira encontra solo fértil para fincar raízes e causar danos.

Sou por natureza muito observadora . A tudo e a todos. Essa habilidade tem sido excelente para garimpar situações e histórias para meus escritos literários. Nesse sentido é perfeita! No entanto, em meu dia a dia isso passou a ser um peso a se arrastar deixando-me muitas vezes cansada, irritada, e descrente da humanidade.

Já perdi a conta das vezes que pensei : Deus! Por que não nasci burra? Assim, sofreria menos ou talvez nada. Passaria por essa vida flanando, só curtindo o que ela tem de melhor. E conseguiria mentir sem desviar os olhos ou ficar corada. Na cara dura…

Como fazem muitas vezes comigo e eu, sendo esperta ( oh grande coisa né?) , olho a pessoas nos olhos, penetrando sua escuridão da alma e mergulho no pântano onde boia a palavra “mentira!” “mentira!” “mentira!” “mentira!”

Entro no jogo, armo meu sorriso mais bonito e saio de cena fingindo ser a otária que pensam que sou. Só que não. Ah, se não fosse pelo meu verniz da civilidade, já teria exterminado meio mundo e livrado esse planeta de tanto lixo humano!

É caro leitor. Realmente estou irritada! Ando pelas tampas, como já dizia minha adorável avó Maria, que Deus a tenha ao seu lado. Chega uma hora em que são tantas as mentiras e falsidades que te rodeia que – ou você explode mandando tudo e todos pelos ares, e aí vai presa porque cometeu um crime, ou implode toda essa matéria mitomânica e adoece por engolir tanto veneno. Difícil escolha não?

Depois, saem às ruas exigindo reformas políticas e o diabo a quatro esquecendo-se que dentro de si mesmos é que deveria de ocorrer a maior das reformas: a íntima e moral.

Seres humanozinhos tenho algo a dizer: se não entenderem, a tia promete desenhar também. Reformulem-se. Humanizem-se. Vamos tratar de valorizar a verdade. As pequenas e as grandes. Garanto que darão um passo imenso em sua evolução.

Julguem-me se puderem!

 

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Decreto Lei

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Porque hoje é sexta-feira, deixarei de lado meu lado mais tenebroso. Empurrarei bem lá pro fundo meus pensamentos de ira, minhas convicções políticas, minhas críticas com relação a todos com quem convivo. Adormecerei minha vontade de explodir por qualquer razão. Sorrirei para a moça do caixa do banco que tanto enrola para trabalhar e nos atender no horário tão corrido e puxado que é nossa hora do almoço. Sorrirei inclusive, para aqueles velhinhos aposentados que – sem pressa alguma, puxam um papo que dura uma eternidade com a atendente pouco se importando que nós, trabalhadores ainda damos satisfação para nossos patrões caso atrasemos. Sorrirei. Mesmo que por dentro, o coração descompasse de ódio disfarçado de ansiedade por querer uma vida mais leve pagando menos impostos e obtendo o direito sagrado de ter acesso mais facilitado ao lazer cultural que, vamos combinar, está pela hora da morte.

E falando em morte, nem morrer se pode. O valor cobrado para nos enterrarem está algo em torno de…de…

Não. Não pensarei nem farei os cálculos sobre isso, caso contrário, meu esgar será de morte súbita de raiva e não o movimento muscular da face se abrindo num sorriso. E hoje, decididamente optei por sorrir. E não há situação ou pessoa nesse mundo que me fará mudar de ideia.

O congresso se desentende, brinca de cabo de guerra, vestem os personagens mais bizarros transformando nossa nação num imenso circo dos horrores. No entanto, hoje, não tenho olhos para eles. Até consigo rir de suas atrapalhadas nada inocentes. Não faz mal. Hoje meu dia será de pura leveza nem que para isso, congele meu raciocínio para não buscar lógica nas coisas diárias. Não quero.

Desejo somente sorrir para aqueles pobres que se encontram de estômago dobrado de fome na sarjeta e oferecer junto de um lanche, meu melhor sorriso. Talvez quem sabe um abraço porque hoje caro leitor, é sexta-feira, não é treze e meu espírito se encontra em jubilo. Motivos não tenho mas como decidi, que assim seja a minha vontade e assim está decretado no país das maravilhas Roselíssicas que hoje, somente hoje, absorverei toda a alegria do universo para amanhã, ter munição para atravessar essa escuridão que desceu sobre a humanidade. Sorria você também, por caridade.

Curiosidades literárias

O que dizer sobre minha vida literária? Alguns dirão que – assim como minha vida -, é uma bagunça. Outros, com certeza enxergarão riqueza e diversidade.

O que posso garantir, é que não consigo viver sem um livro sendo desvendado. Talvez seja uma Voyeur que ama espiar janelas e se deleitar com o cotidiano dos outros. Ler um livro é bem isso. Entrar sem pedir licença na história de pessoas fictícias que bem poderiam ser nossos familiares, vizinhos, conhecidos. É como ver a porta encostada e entrar sorrateiramente. Fazer um tour pela casa alheia observando hábitos, costumes, ouvir conversas íntimas, descobrir que usam tal marca de dentifrício e sabonete. Esse pensamento me remete a uma história de um dos contos do livro de Haruki Murakami: Homens sem mulheres. Aliás, esse é um de meus autores preferidos.

Faço leitura de quase tudo o que cai em minhas mãos. Quase tudo, pois também carrego alguns preconceitos. Não leio autoajuda muito menos romance tipo Sabrina ou Nora Roberts. Explico: quer me ganhar como leitora? Surpreenda-me. Detesto histórias previsíveis. Se após alguns capítulos já consigo sacar o final, esquece. Fecho o livro e perco todo interesse. Ah! Tem algo mais importante do que me surpreender: Escreva bem.

Um texto bem escrito, bem estruturado, envolve e dá um prazer incrível em mergulhar em suas linhas. Exemplo trago muitos mas posso indicar qualquer obra do escritor Josué Montello.

Ouço ecos: QUEMM???

Pois é amigos leitores, sempre que verbalizo alguns nomes da nossa tão desvalorizada e rica Literatura Brasileira, ouço essa frase. E muito me entristece saber que nossos escritores tão talentosos são desvalorizados por nós mesmos. Trabalhando em bibliotecas há quase trinta anos, abracei essa causa e sempre divulgo e tento sensibilizar meus usuários para se permitir conhecer as obras nacionais. Nomes conhecidos como o próprio Montello, Guimarães Rosa, Carlos Heitor Cony, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Rubem Fonseca, José Lins do Rego, Érico Verissimo e tantos outros. Não dá para citar todos. O espaço seria pequeno apesar de infinito.

Contudo, minha vida literária tem muito mais. Lembro que em meados de 1995, quando era recém contratada do Colégio onde ainda me encontro trabalhando, minha primeira leitura de impacto foi a saga As brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley. Fiquei meses impactada pelos personagens e roteiro das histórias vividas pelo rei Artur e seus cavaleiros. A seguir, a saga de Penélope Keeling me absorveu por completo através da narrativa cativante de Rosamunde Pilcher. Que história! Que personagem! E por falar em personagem, sou uma perseguidora de personagens femininos fortes, marcantes. A Penélope foi talvez a primeira que descobri mas depois, vieram muitas outras como a serial killer mais conhecida como Beleza Mortal, Gretchen Lowell, do livro Coração partido de Chelsea Cain. Citando personagens de Josué Montello, do livro Uma sombra na parede, nos apresenta duas mulheres Malu e Ariana. Anos mais tarde, tiver o prazer de conhecer outra dupla de deixar marcas para quem lê: Alexandra e Raissa, do livro Lua de papel, de Lunna Guedes. Adoráveis e inesquecíveis!

Outra curiosidade das minhas aventuras literárias é escolher livros que me apresentem lugares e culturas desconhecidas. Conheci o Afeganistão e sua cultura através do belo Mulheres de Cabul, de Harriet Logan, a Índia através do olhar (novamente feminino), de Tilo (personagem) desenvolvido de forma magistral pela escritora Chitra B. Divakaruni. Pude conhecer um pouco da idílica Provence, região da França, pela ótica do inglês Peter Mayle no excelente livro Um ano na Provence, e também do ótimo e mais atual livro A livraria mágica de Paris, a escritora alemã Nina George. Um mergulho numa cultura que nos envolve e nos faz sentir vontade de se aposentar e fixar moradia por lá.

Quem me conhece sabe do quanto aprecio ler e escrever também crônicas. E claro, tenho uma lista enorme de cronistas que nos inspiram através de suas óticas, uma leitura primorosa do cotidiano. Rubem Braga, o mestre dos mestres. Contudo nomes como Moacyr Scliar, Carlos Drummond, Cecília Meireles, Fernando Sabino e entre tantos, o meu amado/idolatrado/salve-salve Caio Fernando Abreu. Ah! Como é bom ler as crônicas desses que citei e tantos outros.

E o que dizer de minhas descobertas na literatura juvenil? Quantas pérolas descobri através de uma ótica voltada para os mais jovens mas , que nem por isso, deixa de ser uma literatura rica e também diversificada. Livros que marcaram minha pré-adolescência e mesmo na fase adulta onde pude ter um contato maior com esse gênero e tive o prazer de ler histórias fascinantes. Exemplo? Muitos… A montanha partida, de Odette de Barros Mott. Foi minha primeira grande aventura juvenil. O gênio do crime, do recente falecido João Carlos Marinho. A saga do menino bruxo Harry Potter me encantou com seu mundo peculiar. O fantástico livro fantasia/juvenil Penumbra, de André Vianco. Marina, do espanhol Carlos Ruiz Zafón.

É com pesar que ponho um término nessa minha postagem. Poderia varar o resto da tarde e adentrar a noite tecendo meus pareceres literários. E as muitas curiosidades que cada leitura trás em si. Só posso dizer com certeza absoluta uma coisa: Ler é fundamental para o entendimento da vida e do ser humano. Ler, abre os olhos da alma para um turbilhão de emoções e percepções que nos abastece para as mais diversas situações. Ler, além de ampliar nosso vocabulário, nos proporciona condições de falar melhor, com mais clareza e nos posiciona num patamar que nos fornece condições e ferramentas para crescermos profissionalmente.

Escrevente

O mestre disse: Escreva. Todo dia, escreva. Não importa o que aconteça, escreva. Não se deixe levar pelo cansaço, escreva. Mesmo que a tristeza te habite a alma, escreva. Aliás, segundo ele, é na tristeza que costumamos escrever mais e melhor.

Tenho minhas dúvidas…

Ando meio macambúzia. Saltitando de lado, evitando multidões, desejando o silêncio de meu quarto pois, somente lá, consigo dar vasão ao tanto de ruídos que habitam em mim.

De tanto chorar, meus olhos secaram. Dei agora de chorar por dentro. Minha alma transformou-se numa eterna nascente onde escoa de forma incessante, um mar sem fim.

Ninguém notou afinal, sou uma clown profissional e permaneço em estado de graça, sorrindo o tempo inteiro. Todos me acham o máximo! Essa sim sabe viver!

Ah, se soubessem! Sou treva. Pântano escuro onde se ouve coaxo dos inúmeros sapos que engoli no decorrer de minha vida e que hoje, os tenho como inquilinos. Nunca imaginei que me transformaria nessa estátua de sal. Houve tempos coloridos em que calcei meus sapatinhos vermelhos e acreditei que seria feliz para todo o sempre. Quando jovem, imaginava que os contos de fadas tinham final feliz. Meus pés cresceram, os sapatinhos passaram a machucar. Houve tropeços e muitas pedras pelo caminho que descascaram seu verniz. O couro enrijeceu feito minha pele de carcará até que, numa bela tarde de primavera, arrebentaram e tive de prosseguir descalça. Encontrei pela estrada algumas pedras de cal que mesmo queimando as mãos serviu para registrar minhas histórias. Tomei gosto! Hoje, desenvolvi olhos da alma para tudo registrar em forma de narrativas. Sou cronista de minha própria vida e da vida alheia.

Imagem licenciada: Shutterstock

Estátua!

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Ei! Você aí marmanjo que, feito eu, só leva a vida a sério não se permitindo mais parar e brincar.

A vida enrijece o adulto e aos poucos deixamos de fazer coisas lúdicas que amaciam nosso espírito tão judiado pelas preocupações do dia a dia.

Essa semana, reservei três dias para cuidar da saúde. Fazer uma bateria de exames por prevenção. Sabe como é, após os cinquenta não dá pra facilitar.

Exames clínicos, ecocardiograma, urina, rolter e, novidade! Nunca havia feito o tal do Mapa 24h. Meu cardiologista solicitou, achei legal ele se preocupar com meu bem estar e lá fui eu, pela manhã fazer o exame.

Laboratório lotado e aguardo, aguardo, aguardo… Que saco esperar! Aguardo mais um cadinho só para não perder o hábito tão brasileiro que temos. Amavelmente esperei. Sorrindo mansamente quando as funcionárias passavam me ignorando. Sorriso congelado que escondia a louca, desvairada, ensandecida Roseli que dentro do peito, lutava para eu a libertar. No entanto, meu lado civilizado continuava a imperar e aguardei mais um pouquinho.

Senhora Roseli Venancio Pedroso!

Sou eu! Euzinha! Muito bom dia!

Bom dia senhora Roseli, meu nome é Celia e vou explicar direitinho os procedimentos para a implantação do aparelho em seu braço. Preste muita atenção para que não dê problemas e perca 24 horas de exame. Caso contrário, precisaremos marcar novamente e fazer tudo de novo.

Fazendo esse discurso, a amável e dedicada profissional foi preparando meu braço e instalando o aparelho de pressão que ficaria 24 horas ininterruptos comigo, apitando de quinze em quinze minutos me obrigando a parar tudo o que estivesse fazendo e ficando à sua mercê até completar…

Desculpe a interrupção, o aparelho apitou e tive de me paralisar. Então, vocês não sabem o inferno que foi passar a manhã toda com esse treco apitando o tempo todo e me fazendo parar e aguardar sua boa vontade em me dar permissão para respirar e seguir com os afazeres.

Na hora do almoço, enquanto fazia meu prato no bandeijão por kilo, parei a fila de pessoas por conta do apito. Piiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

Desgraça! Ouvi muitos impropérios e piadinhas sem graça.

Estão com pressa? Passem por cima! Que saco!

Atravessando a Avenida Paulista, o maldito aparelho volta a apitar e eu, louquinha atravesso correndo e paro instantaneamente fazendo cara de paisagem. Recebi inúmeros olhares curiosos e, novamente, piadinhas. Velha Louca essa aí hein? (risos) de um grupo de jovens estudantes. A louca aprisionada tenta sair da gaiola novamente mas, mantenho a pose de Bonequinha de Luxo versão Gray, e mirando o horizonte, sigo meu caminho até o trabalho.

Por volta das quinze horas já me encontrava babando de nervoso de tanto Pi!Pi!Pi! quando numa das paradas obrigatórias, lembrei de minha infância e do quanto gostava de brincar de Estátua.

Ah como era bom achar tudo engraçado. Tudo era tão leve e tão bom que nem sabia o que era gastrite. Descendo as escadas que dão acesso a Biblioteca onde trabalho, me conscientizei da importância de não se levar a vida tão a sério. E pensei com meu aparelho de pressão: Que tal transformar essa atividade enfadonha numa brincadeira legal? Topa?

O danado do aparelho parecendo compreender minha proposta maluca, apitou estridente me fazendo cair num riso…

…contido. Percebe que tive de ficar estátua de novo?

A partir desse nosso acordo, o resto das vinte e quatro horas passaram numa enorme brincadeira. Mais gostoso ainda foi contagiar as pessoas ao meu redor que aceitaram fazer parte da brincadeira. Cada vez que o aparelho apitava, eu me paralisava e as pessoas ao meu redor também. Olhos brilhantes, músculos intactos, respiração suspensa. Piiiiiiiiiiiiii!!! Todos caíamos num riso contagiante e assim, cheguei ao término de mais um dia de trabalho que – diferente dos outros -, foi transformado em pura nostalgia de criança onde nós adultos, deixamos por quinze minutos, vir a tona o que fomos no passado: crianças felizes e despreocupadas.

Nada como transformar situações cansativas e enfadonhas em algo lúdico e divertido.

Fundamental alimentar a criança que habita nosso interior.

O quê? Quer saber como terminou? Ah, confesso que não terminou muito bem não afinal, em pleno Valentine Day, tive de dar adeus a quem sabiamente me conquistou. Tive de dizer Goodbye ao aparelhinho Pi, deixando-o solitário aguardando um próximo paciente a utilizá-lo. Sei que ficou triste afinal, nem sempre os humanos entendem a piada e a transforma numa história com final feliz. Fazer o quê não é mesmo?

É seguir em frente e ver se numa próxima esquina alguém desperte esse brilho em nosso olhar e tenha o poder de aquecer o coração.

Happy Valentine’s Day for everyone!

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Defeito de fábrica

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Não me considero a perfeição em forma de gente. Aliás, estou bem longe disso. No geral, talvez tirando meu geniosinho do cão, sou um bom ser humano. Fui educada para ser cordial com as pessoas, respeitar a todos, fazer o bem sem ver a quem. Tenho um coração imenso que procuro na medida do possível, abraçar a todos que se aproximam de mim…

Mas sofro de um pequeno “defeito de fábrica” e, por conta dele, já entrei em algumas frias. Também já perdi amizades, amores e emprego.

É algo mais forte que minha consciência. Quanto menos espero, pá! Já foi. Aconteceu. E nem sempre dá para consertar. Fazer terapia não foi algo que me beneficiou muito nesse problema. Pelo contrário. Sabe, até por aqui tenho que me policiar para não cair no erro novamente. Só digo uma coisa: não é fácil. É cada saia justa que pelamor!

Quem não me conhece costuma fazer uma leitura errada sobre mim. Certa vez, um paquera – futuro namorado -, disse após algumas saídas que eu não era o que ele imaginou ao me conhecer. Que eu aparentava ser uma mulher frágil, delicada e no convívio, mostrei-me uma leoa e isso o assustou. Achei graça dessa confissão afinal, o rapaz estava assustado de verdade comigo! Segui meu caminho achando que ele havia usado essa desculpa para me descartar. Hoje, sei que realmente devo ter assustado o gajo. Depois dele, muitas outras pessoas se assustaram comigo. Algumas bateram de frente e eu mostrei minhas presas. Outras, tentaram puxar meu tapete. Com isso, aprendi a mergulhar e a dar saltos acrobáticos. Lei da sobrevivência. Com o passar das décadas, hoje, mais vivida e mais malhada pela vida, tenho um olhar desbotado com relação aos humanos. Não sou pessimista contudo, tenho uma ótica realista: o ser humano não evoluirá tão já. Fato!

Passei a usar a conduta que me dá um pouco de conforto e proteção: permanecer em silêncio. Nas últimas semanas tenho me sentido uma autêntica freira carmelita que fez seus votos de silêncio.

Pergunto: como elas aguentavam? Estou quase ficando louca com tanta conversa interior! São tantas Roselis conversando ininterruptamente sobre todos os assuntos tabus daqui do lado de fora que estão me enlouquecendo. Não durmo mais, não descanso, nem escrever consigo. Ler então, algo que me era tão prazeroso, hoje tornou-se castigo. E tudo por quê? Por conta da minha tramela cerrada e dessas vozes internas que não descansam um minuto sequer.

Não sei quanto tempo vou aguentar. Confesso aqui minha fraqueza: assim como o personagem do Luiz Fernando Guimarães que era sincero e não media as consequências do que falava, eu, num proporção menor porém não menos trabalhosa, falo o que penso sem pensar. Deu pra entender ou fui muito confusa? Se fui, é culpa dessas vozes que querem todas falar ao mesmo tempo. Vou respirar fundo e falar de forma bem de-va-gar…

Falo demais. Cursava a terceira série primária, quando recebi o convite e saí escondida com uma colega. Pulamos o muro  e fomos para a casa dela. Passamos a manhã assistindo os desenhos animados e comendo pipoca. Ao sairmos, do outro lado da rua, reconheci meu pai. Outra pessoa em meu lugar sabendo que está fazendo algo errado se esconderia. O que a boca aberta aqui fez? Assoviou e acenou para ele e ainda disse: Oi pai! Quicetafazenoaqui? Nem preciso dizer o final dessa história né? Ah, preciso? Apanhei e fiquei de castigo.

E assim, desde pequena fui atravessando os anos tropeçando na minha língua comprida que não cabe dentro da boca.

Recentemente, aconteceu algo que, se pudesse rebobinar a fita e voltar atrás, juro que faria isso. Minha língua foi mais rápida. O efeito delas chegou mais rápido ainda. Caros leitores, com o perdão da palavra: ME FODI!

Para você que se espantou com meu linguajar, é isso mesmo. O que aconteceu não tem outra palavra  que expresse melhor. E por conta dessa minha língua larga e comprida é que estou aqui, num castigo imposto por mim mesma. Ficar calada por tempo indeterminado pensando: Por que fui falar isso?Por que fui falar isso?Por que fui falar isso?Por que fui falar isso?Por que fui falar isso?Por que fui falar isso?Por que fui falar isso?…

 

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Carta de apresentação

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Testo minha capacidade de continuar escrevendo. E escrevo para manter a lucidez.

Exercito a escrita, gerando força para seguir em frente com a vida. Essa mesma vida que hora está uma beleza, ora pesadelo.

E nesse exato momento, ela se encontra feito roteiro de Bergman. Introspecção total no qual me escondo para não encarar minha mediocridade.

Quisera eu ser uma pessoa genial. Não sou. Vivo meu dia a dia comandada pela mesquinhez, corroída pela falta de amor próprio, inveja e desejo de exterminar metade da população mundial.

Reconhecer a vileza e ignorância das pessoas que me rodeiam, me faz lembrar que não sou diferente delas. E isso acaba comigo. Dia após dia, durmo pensando em acordar uma pessoa melhor.

E sempre desperto sentindo que estou mais miserável, mais hipócrita, mais…

Desesperada por dar um fim a essa maratona desembestada tentando provar que sou melhor. Não. Não sou melhor que ninguém. Também não sou pior. Somente, minha humanidade pura, bruta, ressequida, fala mais alto. Salta aos olhos dos outros que, críticos feito eu, reconhece-se em mim e gera – neles também – , essa revolta que não tem fim.

 

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Marcelina – o retorno

Conhece o olhar “Estou farta do mundo”? Não? Então precisa conhecer uma figura que eu conheço. Mon Dieu, que ser é esse? Misto de Sei lá com Não sei o quê. Paizinho do céu você criou cada criatura que acredito que até você duvida.

Aliás, não conheço somente uma criatura dessa safra especial que o Senhor criou. Não! Passaram muitas por minha vida. Uns tenho a (in)felicidade de conviver até hoje. Talvez seja uma provação, ou uma missão,, ou quem sabe, uma provocação sua não é mesmo? Véio safado, o que você gosta mesmo é de ver o circo pegando fogo aqui embaixo.

Eh falta de uma boa Internet aí em cima onde nada acontece. Dá nisso: tédio celestial. Já ouvi as más línguas dizerem que esse é o pior de todos: ad aeternum…

Acredito!

Quem me acompanha já conhece a figura que cito: Marcelina. Fazia tempo que ela andava na surdina, quietinha, vestida com a capa da invisibilidade emprestada do menino Harry Potter. Talvez por influência da Lua cheia, talvez pela mudança da maré, ou quem sabe, por conta da nova (velha) política… Enfim, ela retornou com força total na peruca! Jesus! Que persona! Há momentos que tenho gana dela. Noutros, tenho de segurar a gargalhada para não ficar chato. Pura diversão. É cada careta, cada frase que solta que, como dizem os cristãos: Só Jesus na causa! Misericórdia!

Em breve mais relatos de suas tiradas afinal, o ano está só começando.

Quer conhecer as outras aventuras com a Marcelina? Espia só esses links abaixo:

Deu branco 

Mais uma da Marcelina

Exótica

 

Trilha sonora de uma existência

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Quando a vida pesa demais, ouço música. Quando ela sorri para mim, comemoro ouvindo e cantando. Para dar conta das tarefas domésticas, som na caixa maestro.

Devo ouvir música desde o embrião. Meus pais sempre ouviam rádio e meu pai em especial, adorava boleros, tangos, salsas e chorinhos.

Em minha casa, durante a infância, podia faltar mantimentos no armário mas música jamais.

Cresci acumulando trilhas sonoras das mais variadas. Na infância, a turma da Jovem Guarda. Não perdia um programa e sabia cantar todas as canções e a coreografia da turma do Roberto. Mais tarde na adolescência, descobri as canções internacionais cantadas primeiro na vozes dos brasileiros Christian, Mark Davis, Tony Stevens e Morris Albert. Sabe quem são? Mocinha, em meados de 1977, no antigo ginásio, meu primeiro estremecimento musical: Pink Floyd. Ouvir o som do LP The dark side of the moon foi para aquela menina magricela, o primeiro divisor de águas sonora. Extasiei-me!

No ano seguinte, outro impacto. Esse, me causa arrepios até hoje: A night at the opera, da banda inglesa Queen. Pode parecer clichê mas, quando ouvi pela primeira vez Bohemian Rhapsody, simplesmente paralisei. A princípio não compreendi o que era aquela música mas, a necessidade de ouvi-la mais vezes me levou a atravessar a passagem da galeria onde trabalhava e entrar na loja de disco para perguntar que música era aquela e quem a cantava.

Trago ótimas e carinhosas lembranças desse período. A amizade com os rapazes de lá e os discos que fui colecionando ao longo dos anos, foram muitos. Infelizmente, as pessoas se foram. Alguns se mudaram de cidade, outros partiram dessa esfera, outros, simplesmente evaporaram no ar. Nunca mais tive notícias. Restaram as lembranças que são muitas e os LPs que, mesmo amarelados pelo tempo, estão em perfeito estado e tocam que é uma beleza!

Fã ardorosa que me tornei, a espera por cada trabalho novo me deixava com uma palpitação boa. Trabalhava com gosto para ter um dinheirinho extra para comprar e aumentar minha coleção. Depois, claro, vieram muitos e muitos grupos musicais e cantores que fui descobrindo e me apaixonando pelo som que faziam.

No âmbito musical brasileiro, a descoberta de Elis Regina foi outro momento marcante. Que voz e interpretação era aquela? Trago em minha coleção basicamente toda obra que a doce “Pimentinha” lançou em vida. Que primor! Na mesma época comecei a comprar também os discos da desvairada “Ovelha Negra” Rita Lee. Identificação total com sua porralouquice. Mesmo que eu demonstre por fora ser uma pessoa clássica e reservada, meu instinto animal é roqueira e ela, representa maravilhosamente o rock brasileiro. Ainda mais na pele de mulher. Identificação total.

E o que dizer da minha descoberta e ingresso na música clássica? Mais nova, achava ópera e música instrumental uma chatice só. No entanto quando despertei para a beleza e riqueza delas, mergulhei fundo e fiz minha coleção com todos os compositores e suas obras. Um dos que mais me impactou foi Mozart com sua obra Réquiem em ré menor. O que é aquilo? Foi o que pensei ao ouvir pela primeira vez. Dormi muitas noites ao som desse réquiem. Que virtuose! Que talento para compor algo tão belo!

Independente de ser uma missa fúnebre, ela não me entristece. Pelo contrário, ela me leva para lugares que somente uma música pra lá de perfeita pode te levar. Não tenho nem palavras para descrever o que sinto ao ouvi-la.

Depois vieram tantos outros como por exemplo, Astor Piazzolla. com seu sofisticado bandoneon, a descoberta do jazz através do trompete de Chet Baker e Miles Davis, das vozes femininas do jazz como Billie Holiday, Nina Simone… Nossa são tantas que merece uma outra e única postagem até mesmo para falar de minhas mais recentes descobertas.

Enfim, não consigo conceber uma vida sem trilha sonora. E pensar que há pessoas no mundo que não ligam para música. Tenho dó. Suas vidas devem ser bem mais pobre do que a  minha. Que aliás, de pobre não tem nada a não ser a conta sempre no vermelho mas isso… Ah, isso é outra história! Minha moeda de troca é a arte na qual a música está inserida, é meu tesouro que ninguém rouba. Essa levo comigo.