Aprendi com as palavras o que eu não consegui com as asas: voar!

(Suzana Martins – (In) Versus)

A antiga sabedoria popular afirma que ninguém nasce pronto. É fato. Sou exemplo de que isso é a mais pura verdade. Nasci com todos os defeitos que um ser humano pode carregar em sua bagagem temporária. No decorrer da vida, no escoar das décadas, aprimorei quase todos eles. Só não me avisaram que era para limá-los e não acentuá-los. Desculpem-me. Em minha defesa digo que a falha não foi minha, mas sim, de quem me (des)orientou.

Rolando feito pedra solta do penhasco, o atrito me moldou, ganhei formas arredondadas, tornei-me macia como bumbum de bebê. Aprendi aos poucos a falar e, em seguida, as letras que brincavam no ar, me desafiando a decifrá-las. Símbolos desconhecidos que muito me fizeram sofrer por não os compreender. Burra não sou. Marrenta, dediquei uma existência para assimilar e nunca mais esquecer. Aprendi! Vivia pelos cantos dizendo em voz alta que era “alfabetizada”. Tornou-se meu mantra.

A realidade impunha desafios. Resiliente, me jogava de cabeça em cursos e especializações. Muitas leituras técnicas.

Frustrada, não conseguia entender a prisão que me mantinha imobilizada. Depois de muita resistência, fui em busca de apoio profissional. A terapia descortinou um mundo desconhecido até então. O despertar para mim mesma, fazer as pazes com meu interior, meu passado, meus antepassados. Todas essas descobertas desembocaram na técnica da escrita. Fui apresentada à escrita matinal. Esse foi o primeiro passo para a liberdade total. As primeiras escritas saíram rígidas, tímidas, pequenas.

Mais confiante, desfiava meu cotidiano, minhas rotinas, meus sonhos e anseios. Registrava meus medos, agora, sem medo. Fiquei sem vergonha. Facinha, facinha.

As palavras, sábias que são, tiveram a paciência de esperar meu amadurecimento natural. Jamais me forçaram nada. Hoje, somos parceiras e unidas, percorremos histórias, situações, escolhemos roteiro de viagem. Como um par de dançarinos afinados, um espera o outro para dar a passada correta, em sintonia. Se estou com a mente cansada, as palavras aguardam em silêncio. Não me pressionam. Caso eu me depare com ideias para uma boa história, de imediato elas saem da caixa da criatividade pulando como pipoca na panela quente. Soltam risos agudos de criança feliz e vêm ao meu encontro. Brincamos, voamos alto em nossas aspirações literárias e o resultado, cada vez mais satisfatório.

Hoje brinquei bastante, a mente limitada grita que está na hora de parar e descansar. Elas compreendem e, despedindo-se, somem no ar, aguardando o amanhecer, para que desperte renovada e as convide para novas incursões. Hora de apagar a luz e dormir.

Esse texto faz parte da blogagem coletiva Blogvember. Participam comigo:

Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Nuñes Ortega – Suzana Martins

Imagem gratuita: Pexels

E mil orações aos céus para a vida apagar de uma vez

(Flávia Côrtes – As Estações)

Tenho por hábito orar. Sempre agradeço. Dificilmente peço por algo, a não ser, força e discernimento para enfrentar os desafios da vida. Houve momentos em que elevei meu pensamento rogando por alguém. Solicitei clemência para aqueles que agonizavam e nada mais se poderia fazer a não ser, orar. Confio no poder das palavras e reverencio quem sabe usar com sabedoria e responsabilidade. A palavra proferida ou escrita pode elevar ou dizimar uma pessoa.

Observo que nos últimos anos, a humanidade retrocedeu em sua evolução, se é que houve uma. A mesquinhez, o egoísmo, o orgulho, a vilania. São primas de primeiro grau e costumam agir em conjunto. Elas sabem que a união faz a força e que unidas, vencem.

Por isso, minhas orações têm sido para apagar de vez a vida delas. Nunca desejei o mal a ninguém, mas, a essa família de perversos e desalmados, que mancham a alma humana, rogo aos céus que se dissolvam no ar.

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Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Nuñes Ortega – Suzana Martins

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Carta de amor para meus mortos

Olá divinos,

Entrei em minha página do Skoob. Há tanto tempo esquecida, acessei para atualizar minhas leituras. Contabilizando o tanto que já li, parei os olhos e a alma na capa do livro Cartas de amor aos mortos. Em segundos, todos vocês surgiram em minha tela mental. Depois de recuperar a respiração, dominei as emoções e até consegui sorrir dando as boas vindas a vocês, que tanto me fizeram feliz. Não cito nomes pois todos sabem que fizeram parte da minha constelação: familiar, cultural, círculo de amizades.

Espiritualista que sou, sempre que posso foco a figura daquele que desejo conectar e entabulo conversa desejando saber quais as últimas novidades do lado de lá. Nunca recebi respostas… Por que será? Enjoaram de mim? Me acham grudenta? Carente?

Amores, sou tudo isso e muito mais. Hoje estou aqui numa missão séria. Escrevo na intenção de que chegue até vocês minha gratidão e reconhecimento por tudo que plantaram nesse coração miúdo e imaturo mesmo já estando madura. Entre todos vocês, não existe preferencial. Em meu baú dos amores perdidos, vocês são medalhas de ouro que ganhei na dura competição do bem viver e faço questão de exibir no peito para quem quiser e tiver olhos para ver. Já comentei que adoro despertar inveja alheia? Pois é. Ah, certo, tem razão. Isso é muito errado de minha parte mas, vamos combinar: quem não sentiria orgulho em ter aqui, centralizados no dorso, o brilho de vocês?

Ei você aí, com esse bigodão a se mexer. É feio cochichar – tanto aqui no plano terreno – quanto aí. Pode se aprumar e ajeitar suas asinhas. Estão fofocando sobre mim, eu sei. Quer saber? Nem ligo.

Assim como a menina Laurel, do livro citado, vou escrever cartas para cada um, de tempos em tempos. É prazeroso pensar que elas chegarão a cada um e, talvez um dia, receba pelo menos uma cartinha ou cartão natalino desejando uma feliz passagem…De ano, afinal, ainda sou uma criança diante da eternidade e nem penso em passar dessa para… Ah, vocês melhor do que eu, sabem a que me refiro. Uma vez que me garantem que temos a eternidade a nossa disposição, não tenho pressa alguma em mudar de estado. Aqui meus amores, mesmo estando ruim, é bom demais!!!

Antes que me estenda demais nessa missiva, posiciono minha xícara de café, coloco o CD de George Michael (meu lindo/amado/salvesalve), pego da estante o livro Cartas, do meu querido Caio F. Abreu. Saboreando o aroma e a seguir o sabor da cafeína, respiro e aspiro relembrando a aventura gastronômica muito aloprada no restaurante mexicano, ao lado do meu inesquecível “compridão”. Ah menino, tivemos muitas aventuras por essas vias paulistanas. cada canto relembro um episódio em sua companhia. Quantas histórias!

Mudei de ideia, queira me desculpar George, mas agora, bateu uma baita vontade de ouvir Coldplay…

“Amazing Day, Amazing Day, Amazing Day, Oohohohohouhhhh”

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Imagem gratuita: Anna Tarazevich

Um caderno que colecionava relatos de personagens antigos

(Suzana Martins, Estações)

Por minhas mãos já passaram muitos cadernos. Os escolares com anotações das matérias, exercícios, bilhetinhos nunca enviados, rascunhos, desenhos. Muitos desenhos. Os diários que registraram boa parte de minha adolescência com meus sonhos, planos, desabafos, receberam minhas inseguranças, esperanças, confissões.

Esses, se perderam com o tempo ou quem sabe, tenha alimentado uma fogueira no fundo do quintal. Não me recordo.

Depois vieram as agendas que nunca marcavam meus compromissos. Em suas áreas livres, preferia esboçar pequenas histórias, desenhava personagens, alinhavava situações.

Trago alguns cadernos artesanais feitos por minha irmã. Verdadeiras obras de arte, com suas folhas em branco aguardando pacientemente sua vez de serem usados, rabiscados, desenhados. Aprecio vê-los enfileirados ao lado dos livros artesanais que fazem parte de meu acervo.

Estação entra, estação sai e eles seguem sugerindo novos rumos para minha mente e meus dedos nervosos bailar no teclado transformando, criando possíveis vidas a delinear horizontes literários. Ou simplesmente registrar meus escritos matinais há tanto tempo abandonados que servem de terapia, descobertas e fortalecimento da escrita, minha redenção de um mundo cada vez mais insano.

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Enrolo em laços e fitas a linha do tempo presente

(Nirlei Maria Oliveira – Palav(Ar)

Nesse período festivo, sou assaltada por sentimentos contraditórios. Num dia, acordo com o coração pulsando de alegria, desejosa de realizar mil planos. No dia seguinte desperto de bode, cheia de ranço do período de festas. Amargo um mal humor no qual nem euzinha me aguento. Insuportável!

Numa sucessão de alegria, expectativa e melancolia, chego aos dias aguardados. Atravesso na alegria e acima de tudo, em paz por fechar mais um ano de vida e realizações. Sentir um pouco de tristeza é natural afinal, nessa época, gostaríamos de estar cercados daqueles que tanto amamos e que já não se encontram nesse plano.

Recordo um a um. Os momentos vivenciados, as risadas soltas, o cheiro que exalavam, a temperatura de seus corpos, a voz…Se por um lado sinto saudades, por outro, sou grata pelos anos vividos ao lado deles. Foi-se o ser, ficaram as lembranças e inúmeras histórias impressas na memória. Sou guardiã delas, portadora de um baú sem fim. Mas não vivo assombrada pelo passado. Trago os pés fincados no presente. Foi uma dura aprendizagem e hoje, posso afirmar que não vivo mais do passado, apenas transito em determinados períodos e saio renovada e ciente de que tiveram seus ciclos encerrados na hora correta. Também não sou daquelas pessoas que só vivem na ansiedade, agoniadas com o futuro. Nunca fui de ler cartas, borra de café muito menos jogar búzios. Como dizia minha sábia avó: “O futuro a Deus pertence”.

Meu barato é dormir consciente de que dei meu melhor. Desperto sorrindo, agradecendo por mais um dia de vida. Temos de desenvolver a sabedoria de respeitar o tempo e também saber usá-lo, caso contrário, seu novelo escorrega de nossas mãos e uma vez solto, perde-se. Falando nisso, enquanto penso, escrevo e reflito, quase perco essa beleza que a natureza diariamente nos oferta: a despedida da tarde e a chegada da noite. Ainda bem que fui rápida em registrar. Amanhã tem mais…

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Imagem: Kaboompics

Pode chover a qualquer hora e o sol surgir forte em minha manhã laranja

(Mariana Gouveia)

Retornei de uma noite sem sonhos e permaneci degustando o doce e raro silêncio da manhã. Na realidade, ainda no escuro, não fazia ideia e assim permaneci. Um pássaro solitário iniciou melancólico canto. O que despertou a ira canina da vizinhança. Respirei fundo, alonguei levantei antes que a preguiça assumisse o comando. Da janela, o mundo parecia foto antiga, sépia. Ando carente de vitamina D. Vontade absurda de caminhar pela orla. Não importa de qual litoral. Anseio pelo marulho, pelo abraço solar a formigar minhas células, a espantar a tal da depressão. Será impressão? Ando com saudades de você? Recaída ou o quê? No fundo quero mesmo é um encontro a sós comigo mesma. Sou ótima companhia para aqueles momentos de profunda imersão. Ligo a TV e o notíciário me brinda com a cúpula de discussões sobre o meio ambiente. Nessas paragens, receio que estamos com bem menos de meio. Ambiente? Somente os decorados para venda. Caso se interesse, use seu FGTS.

Quantas asneiras penso pela manhã…Deve ser resquício do vinho vagabundo comprado no Extra. Pego no armário de medicações, um pantoprazol. Vamos negociar a saúde do estômago antes da primeira dose de café.

Volto para cama para dar uma guinada em minhas leituras acumuladas na cabeceira. Melhor mergulhar de cabeça na ficção porque a realidade está tóxica demais. Ah doce e poética Mariana, tão bom seria que o mundo fosse seu quintal… Garçom, vê para mim uma dose tripla de fantasia !

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Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Nuñes Ortega – Suzana Martins

Imagem: acervo pessoal

Em delírio me transporto ao limbo

(Katia Castañeda)

Me pego pensando: Sonho quando estou dormindo ou tenho vivido desperta, num pesadelo sem fim? O planeta passa por absurdos que seriam plausíveis apenas no campo ficcional de um escritor muito criativo.

Não posso fugir da análise de nossa realidade: a brasileira. Uma jovem nação que sofre com o efeito gangorra e a síndrome do Quase. Todos nós já fomos “quase” alguma coisa. De minha parte, já fui quase bailarina clássica, quase uma cópia da ginasta romena Nadia Comaneci, quase uma profissional das Letras, por um triz, deixei de ser arquiteta e design de interiores. Por pouco, muito pouco, um tantin assim, fui um ser humano quase perfeito. Ufa! Ainda bem que escapei, caso contrário, seria mais chata do que sou.

Contrariando o dito “normal”, fui uma das poucas pessoas da minha geração na família, que se formou no ensino superior. Fui vista como uma quase E.T….essa menina é esquisita, lê e estuda demais!

Cozinhando no caldeirão da vida, misturei especiarias da realidade, da ficção, tirei de minhas entranhas, sonhos tecidos por expectativas de dias melhores, acrescentei pitadas de quimeras alheias, deixei fumegar. Quem sabe dessa mistura surja um aroma de possível novidade no ar. Sigo em frente obstinada em viver bem comigo mesma porque só assim, consigo dar conta do entorno e dos que me cercam.

O que? Me transportar para o limbo? Não percebeu ainda Cara Pálida? No limbo nascemos e vivemos. Não importa se você nasceu nos Jardins, em Alphaville, no extremo do Jardim Angela, ou na Serra Gaúcha. De norte a sul, travamos luta insana para subir no pescoço dos demais e tentar sair desse fosso escuro. Utilizo do delírio da escrita e da leitura, para alçar voos e ir de encontro à claridade do Sol, nem que para isso, tenha minhas asas derretidas feito Ícaro. Se na queda cair nos braços de um dos perpétuos, estarei no lucro. Deixo avisado de antemão: só aceito se for nos braços de Morpheus, criação de Neil Gaiman afinal, se é para sonhar, que seja em grande estilo.

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Lunna Guedes – Mariana Gouveia –  Obdulio Nuñes Ortega – Suzana Martins

Imagem: Quadrinhos Sandman (Reprodução)

Missivas

Iniciei o ato de me corresponder, ainda na antiga sexta série, hoje, equivalente ao sexto ano do fundamental II. A professora de francês, Maria Vitória, chegou trazendo a novidade nos apresentando a International Youth Service (I.Y.S.). Foi um divisor de águas para mim, garota ingênua que não conhecia praticamente nada fora de meu mundinho na rua Gal. Bittencourt, 520. Em pouco tempo, passei a trocar cartas com jovens da França, Guiana Francesa, Cotê d’Ivoire, hoje mais conhecida por Costa do Marfim.

Achava o máximo receber cartas diferentes numa língua que não a minha e saber da vida de alguém que não imaginava existir. Conhecer culturas, costumes, gostos musicais além, claro, de poder exercitar o aprendizado da língua francesa, que estudávamos na escola.

Após tantos anos, não consigo lembrar dos nomes dos garotos e meninas que troquei muitas cartas. Acredito que tenha algumas delas, guardadas em uma caixa na casa de minha mãe. Ah… lembrei do nome do rapaz de Cotê D’Ivoire: se não me falha a memória, seu nome era Lèaba…ou algo parecido. A memória prega peças na gente. De repente não é nada disso.

Minha irmã mais velha, trocou suas missivas com uma italiana de nome Francesca. Ela, assim como minha irmã, amava os Beatles e também lia fotonovelas. Minha irmã recebeu algumas que ela enviou. Tutti in italiani. Tinha cada italiano bonito!! Recordo de alguns: Franco Dani, Jean Mary Carletto, atrizes lindas como Paola Pitti e sua irmã Katiuscia, Claudia Rivelli (fiquei sabendo mais tarde que é irmã de Ornella Mutti. São bem parecidas…

Tinha também o galã mais lindo das fotonovelas italianas Franco Gasparri. Suspirei muito ao ler suas fotonovelas. Suspendi a respiração ao pesquisar no Google e descobrir que ele já passou dessa pro andar de cima…Madonna!

Recordo que fiz a felicidade do rapaz que era da Costa do Marfim, ao enviar junto de uma carta, um disco de Milton Nascimento. Ele ficou maravilhado com o presente. Quem não ficaria não é mesmo?

Anos mais tarde, trabalhando na primeira biblioteca escolar, meu diretor foi para Paris, fazer seu doutorado, trocamos algumas cartas onde ele me apresentou curiosidades da cidade que sempre sonhei conhecer. Tenho essas cartas até hoje. Canceriana, sabe que é, gosta de colecionar antiguidades…

Com a chegada dos e-mails e depois as redes sociais, pouco a pouco fui esquecendo a alegria em escrever uma missiva e aguardar a resposta que poderia demorar dias gerando uma doce ansiedade. Tempos modernos…

Tive por algum tempo, um resgate através de troca de correspondência literária com um amigo/irmão. Foi através de uma delas que li pela primeira vez, um texto de Caio Fernando Abreu: Sapatinhos vermelhos. Foi ali que minha paixão por esse escritor começou…

Hoje, escrevo por aqui aguardando com certa ansiedade, as visitas de meus leitores e seus comentários que equivalem a sensação gostosa que sentia ao trocar correspondência. E você escrevia ou escreve muitas missivas?

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Para fazer minha foto de ilustração, busquei em meus baús e…Achei uma carta de Lèaba Augustin!!!

Não dá para ser perfeito com defeito humano já vem ser: traço falho

(Rozana Gastaldi Cominal)

Em minha formação recebi o duro cajado da perfeição, que foi passado de geração para geração. Quanto estrago fez! Seres infelizes que carregaram o duro fardo de não falhar jamais. O peso de serem exemplos de bons seres humanos. Pessoas perfeitas, num mundo imperfeito. Resumo da opereta: muito sofrimento reprimido, imensas frustrações por não poderem expressar o que de fato pensavam e desejavam. Transtornos causados por um emocional não desenvolvido que culminou em doenças materializadas.

Para quebrar a corrente que me prendia a esse “pensar torto”, trabalho dobrado. Não foi fácil tomar a decisão de quebrar a algema que me impedia de ser eu mesma e não um simulacro do que desenharam lá no passado que nem vivi. As cobranças são muitas, as culpas maiores .

Precisei de ajuda profissional para me conhecer melhor e tomar a decisão de tomar as rédeas. Não sou mais criança e a vida adulta, cobra atitudes coerentes. Amadureci na marra.

No passado, sofri por exigir a perfeição em todos ao meu redor. Sofrimento maior foi a cobrança comigo mesma. Joguei a toalha e hoje, não exijo mais nada. Reconheço o limite alheio, respeito suas falhas e acima de tudo, procuro diariamente aceitar o pacote completo que sou: virtudes e falhas. São todos bem vindos. É obvio que trabalho dia após dia para superar aquilo que ainda incomoda. Os demais humanos, posso apenas lamentar pois sei o quanto suas falhas e imperfeições lhe causam dores emocionais. Hoje sei que não é problema meu…

Mas tem momentos em que alguns serumaninhos ME-DÁ-UMA-VON-TA-DE -DE-PE-GAR-PE-LAS-O-RE-LHAS-E…

Traço falho, ah, deixa pra lá!

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Imagem: arquivo pessoal

Ainda há silêncio nessas horas pequenas

(Nirlei Maria Oliveira)

A ausência de sons é cada vez mais raro num mundo repleto de barulho. Em alguns momentos, invejo o deficiente auditivo. Ele não sabe o quanto é feliz.

Enquanto tento esboçar esse texto, encontro-me sentada próximo a janela e minha rua é uma via importante para todo tipo de transporte. Vrhumm!! Uma moto com motor envenenado desceu a rua rasgando o solo de piche gasto e a barreira do som. Do alto do décimo andar, ouço como se a moto estivesse ligada no centro de minha sala.

Respiro e tento me concentrar. A música que toca na rádio fere meus ouvidos com as notas agudas da cantora. Desvio a atenção da tela, olho séria, levanto e desligo o som. Preciso me concentrar. Escrevo novas frases, encadeio ideias e… Um ônibus velho entra na rua e breca de forma perversa pois o semáforo fechou. O som é tamanho que nem consigo encontrar uma simbologia onomatopaica mas, encontro uma ótima para meus impropérios:

@#!%Z!!!

Dei um tempo, lembrei que não havia tomado minhas gotinhas de Florais de Bach.. Uma alquimia a base de Centaury (Erythraea Centaurium), Honeysuckle (Lonicera Caprifolium), Hornbeam (Carpinus Betulus), Oak (Quercus Robur), Olive (Olea Europaea) e complementando meu bem-estar e equilíbrio, Walnut (Juglans Regia). Ah…quase me esqueço do principal: esse maravilhoso coquetel numa perfeita harmonia com um pouco de conhaque. Ainda bem caso contrário, difícil se encontrar o tal do equilíbrio!

Fui salva pela voz potente de Ana Carolina vindo através da janela do vizinho que se encontra aberta.

“A canção tocou no rádio agora /mas você não pode ouvir por causa do temporal”…

Levanto e sigo dançando embalada pelo ritmo da bela canção…É tão bom se movimentar, deixar o corpo fluir, sentir toda energia percorrendo nosso corpo e…Droga, preciso terminar esse texto de uma vez! Ah, assim não dá! O bar da esquina colocou bem alto uma canção dancing Earth, Wind &Fire, September, apesar de já estarmos em meados de novembro, lembro que estamos à porta do Natal e, e, e, ihhhhhhhhhhhh

Foca no maldito texto Roseli!!!!

Espera, ouça, preste atenção: Silenciou geral! Até o motor da geladeira suspendeu seus gemidos orgásticos. O mundo parou para que eu pudesse terminar meu texto. Como disse há décadas, Mercedes Sosa “Gracias a la vida”, CON-SE-GUI!!!!

E o silêncio permanece inalterado…Gentem, acabou o mundo e ninguém me avisou? Socorro!!!!

OBS: Nirlei, adorada poeta, desculpa se não segui a beleza de seus versos que deram o mote para o título de hoje. Sacumé, não sei poetar não.

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Lunna Guedes –  Mariana Gouveia –  Obdulio Nuñes Ortega – Suzana Martins

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