Valor de mercado

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Um grito atravessa a noite me tirando de um sono profundo. Retorno à realidade confusa, acreditando ainda estar sonhando. O som de um choro desesperado, sofrido, permanece. É uma mulher. Diante do silêncio das primeiras horas da madrugada, apenas esse lamento. Movida pela curiosidade, levanto e vou à janela na tentativa de ver o que acontece. A rua, sempre movimentada, encontra-se vazia. No céu, nuvens encobrem o luar. Nos prédios, algumas luzes solitárias acesas.

A cantilena do choro aos poucos cessa até ouvir apenas uma respiração carregada. Silêncio.

Ao fechar a janela, capturo um movimento no canto de uma banca de jornal na esquina. Fixo o olhar para tentar identificar se é um cão perdido, ou gato vira-lata. A constatação de que é uma mulher me causa certo desconforto. Seminua, levanta-se ajeitando o vestido rasgado. Um dos seios à mostra. Ajeita os fartos cabelos e ao mirar o alto – com os olhos ainda úmidos e borrados pelo rímel vagabundo – nos enxergamos.

Por alguns segundos, não sei o que fazer nem o que pensar. Ela mantém seu olhar em mim numa muda súplica. Em seguida, abre um sorriso, acena, termina de ajeitar seus trapos, tira um espelho da minúscula bolsa e corrige a maquilagem. Atravessa a rua e para na esquina iniciando um diálogo com suas colegas:

-Amor, a noite está brava. Muito sofrimento e pouco faturamento. Estou de rabo ardendo e o filho da puta não me pagou. E ainda me deu uns tapas na cara. Fora que rasgou meu vestido. Bora faturar mais um para pagar o prejuízo! Oh vida! Quando será a minha vez de conhecer um bonitão que me fará sair dessa miséria? Quando?

-Ainda está nessa de sonhar acordada com príncipe encantado? Otária, acorda pra realidade! Nós estamos aqui para isso. Aliviar as taras desses monstros. Somos seus instrumentos de prazer. Jamais se interessarão em nos tirar da sarjeta. Isso minha filha, é contos de fadas. Aqui, no asfalto, é a vida real. E chega de conversa mole, atravessa e vai para a outra esquina trabalhar que a noite apenas começou!

Cerro a janela e retorno para o calor das minhas cobertas. Por alguns minutos reflito no quanto essas “mulheres” levam uma vida embrutecida, pobre em todos os sentidos. De “vida fácil” elas não têm nada. Por outro lado, apesar das diferenças, nós mulheres – seja aqui em São Paulo, Rio, Maceió ou Nova York. Seja no Ceilão, na Irlanda ou Rússia, a condição feminina sempre sofre. Muitas se prostituem para sobreviver. Não tiveram estudos, não têm outra profissão. São reféns da desigualdade social. Outras, fazem universidade e, mesmo assim, prostituem-se para usufruir de um luxo que – sendo simples balconista de shopping ou garçonete ou até mesmo escriturária – não teriam condições financeiras para tanto. Na realidade, há diversas formas de se “vender”. E todas, sem exceção, gravam sequelas profundas na alma feminina.

Adormeci pensando em mim mesma. De qual forma me deixei prostituir… E você? Já parou para pensar nisso?

Imagem: Pixabay

Vida marvada!

Preciso disfarçar melhor. Está muito evidente minha condição. Sei que não é correto muito menos profissional mas… Ai como é difícil! Mergulho minhas mãos uma na outra esfregando de forma inquieta dando a impressão que me aqueço nessa tarde fria de outono. Só eu sei que é uma busca ineficaz de me manter aqui. Já levantei diversas vezes, fui à janela na vã esperança de que a paisagem urbana me traga de volta. Não posso sair daqui. Faço parte disso tudo. Esse silêncio de vozes onde somente o tec!tec!tec de dedinhos nervosos feito os meus se ouve, isso causa uma reação dormente em mim.

tec!tec!tec!tec – irritada levanto e sigo para o banheiro. Abaixo a tampa do acento e, num gesto lento, sento apoiando o rosto entre as mãos. Fecho os olhos por alguns segundos.

O suficiente para ser interrompida por alguém que de fato está necessitado. Dou descarga, abro a porta e saio sem nem mesmo olhar quem bate à porta. Foi horrível de minha parte, eu sei, afinal, sempre levanto a bandeira da sociabilidade corporativa.

Foda-se! Hoje não estou pra ninguém. Decido dar uma volta pelos corredores. Não desejo voltar para minha baia. Não agora. É. Já sei. O serviço acumulado me espera mas – por hora, preciso de ar. O poluído mesmo e não o condicionado. Desse meus pulmões estão saturados. Penso, enquanto subo as escadas, nas inúmeras contas vencidas repousando em meu criado mudo que grita diariamente: Precisa pagar!Precisa pagar!

Foda-se 2. O dinheiro está curto, os juros dos cartões estão pela hora da morte e até meu desencarne – por hora, encontra-se em suspenso. Não tenho seguro de vida e acho sacanagem deixar as contas do enterro para familiares e amigos. Até mesmo porque, são todos feito eu, fodidamente duros. Oh vida marvada!

Hoje, decididamente não estou num bom dia. Senti isso assim que abri os olhos em plena 4h32 com o zumbido de um infeliz pernilongo a me perturbar. Irritada, tasquei um tapa na parede e saí engolindo meu grito para não acordar vizinhos. Sabe como é, morar em apartamento… Emputecida não me dei por vencida. Fui ao banheiro urinar minha frustração de ganhar mais um hematoma na palma da mão. Espero sinceramente que seja só hematoma e não uma luxação. Já basta o tornozelo esquerdo doendo da última queda livre no asfalto da semana retrasada. Dando descarga penso: Preciso me benzer!

Enfio-me debaixo das cobertas, apago a luz e finjo dormir novamente. Tenho certeza dos próximos passos do inimigo. Permaneço de tocaia.

Bzzzzzzzzz!!! – DA PUTA!

Pláft!! – Aiii! – estatelei a mesma mão no ouvido direito que me deixa temporariamente surda.

Bosta!Merda!Caraio! Quero dormir PORRA! Acendo as luzes e – feito ninja, acerto pra valer o inimigo da vez. A adrenalina toma conta do meu ser. Arregalo os olhos míopes e o que enxergo me deixa muito, mas muito satisfeita. Um borrão e fino filete carmim escorrendo pela minha linda parede água doce. Matei! Yes! Yes! YESSS!

Pulo no colchão festejando a vitória sobre o inimigo abatido até que escorrego no cobertor e caio de bunda no chão. Puta que o pariu! Lêlê!Lêlê!

Está decidido. Vou amanhã mesmo no centro espírita tomar um passe e pedir tratamento mediúnico. Devo estar com encosto dos bravos. Ai como dói!

Arrasto-me para a cama que já esfriou mas percebo o sangue – meu sangue, escorrendo pela parede. Não posso permitir que manche minha parede pintada recentemente. Saco! Preciso limpar isso. Levanto pisando duro e mancando por conta do tornozelo machucado e da bunda latejando. Molho um perfex e retorno limpando os restos mortais do pernilongo. Crime perfeito não deve deixar rastros. Isso me vem a mente ao lembrar de minha série favorita Dexter. Pela primeira vez desde que acordei, sorrio.

Andando pelos corredores da empresa, sem querer, encontro-me em pleno fumódromo. Uma forte neblina de fumaça fedida me envolve. Mal consigo reconhecer as pessoas por trás da fumaça. Chama os bombeiros! – recordo que sou da brigada de incêndio. Riso 2.

 – O que você Miss Certinha Pollyana da Silva faz aqui entre os pecadores da Torre dos Desajustados?

Respiro fundo, tusso um pouco e respondo:

– Preciso me perder para me encontrar. Não aguento de sono e desarranjo de vivência nesse tedioso serviço que prestamos diariamente. Arranja um cigarro? Preciso tragar.

Cética porém surpresa com meu discurso, Mariana pisca, abana a fumaça ao seu redor e, oferecendo um cigarro para mim diz:

– Bem vinda a Ordem dos Desajustados Assumidos e Suicidas Disfarçados. À propósito, você sabe tragar?

– Não. Mas nunca é tarde para aprender né?

– Não. Nunca. Assim como também nunca é tarde para se perder. Bem vinda! A vida não anda fácil né?

– Não. Nada fácil. Aliás, não faço ideia do significado dessa palavra. Nos olhamos em sinal de reconhecimento e empatia. Juntas, caímos num riso sincero e nervoso.

Até me esqueci do sono que me consumia.

Benção minha mãe!

mamae e eu

 

O dia comercial das Mães foi ontem, domingo. No entanto, meu final de semana foi uma loucura tentando preencher as horas de minha mãe com muitos mimos e atenção que no dia a dia se torna impossível. Como para mim, dia de mãe são todos os dias, deixo registrado aqui minha homenagem a ela e a todas as mães desse planeta azul. Esse texto faz parte do livro de crônicas Receituário de uma espectadora que lancei ano passado pela Scenarium Plural.

Quando decidi falar sobre essa mulher, me peguei sem palavras afinal, como descrever um ser tão acima de mim e demais pessoas?

Certa vez, li em algum lugar, que quando os anjos foram criados por Deus, para descerem a Terra, deveriam vir disfarçados de mãe. Preciso dizer mais? Quem de nós, seres humanos comuns poderia ter essa forma de amar incondicionalmente?

Quem de nós pode ou tem condições de perdoar infinitas vezes? Mães são criaturas dotadas de um enorme senso das coisas, têm uma intuição fenomenal, têm o dom de esboçar o mais lindo sorriso quando muitas vezes, por dentro, estão sangrando.

Não se importam de atravessar noites ao nosso lado quando adoecemos. Deixam de comer para ter sempre o alimento para seus rebentos. Defendem suas crias com uma voracidade anormal.

Fazem sempre o impossível para ver seus filhos felizes (o possível, o resto da humanidade já faz). Vibram com cada conquista que seus filhos adquirem e sofrem ao vê-los aflitos, derrotados e infelizes. Todos esses adjetivos descritos acima fazem parte da personalidade única que é minha mãe.

Quando pequena, achava-a severa, brava. Na adolescência, tivemos sérios entraves.

Vivia pegando no meu pé. Muitas vezes desejei que ela fosse diferente. Com o passar dos anos e a aproximação da maturidade, descobri nela, outra mulher. Descobri a amiga, a confidente e assim, nossa relação tornou-se estável e hoje somos grandes companheiras.

De uns anos pra cá sempre digo que “Quando crescer quero ser igual à Dona Ilda” Adquirir sua sabedoria, paciência, tolerância e quero também seguir sua filosofia de vida: minha mãe veio a esse mundo para ser feliz!

E olha que, nesses anos de vida que ela tem, já passou por cada uma! Contudo, nada abala sua segurança, sua fé, sua postura rígida, porém suave diante da vida.

Independente dos sofrimentos que a vida lhe imputa, sua filosofia da felicidade não estremece. Ao invés de torná-la frágil, fortalece mais. E sempre sorrindo! Igual à minha avó Maria, sua mãe.

Se Deus permitir, desejo chegar à terceira idade mantendo o semblante sereno que ela carrega. E quero também despertar nos outros, o mesmo carinho, o mesmo respeito que hoje todos têm por ela.

Deixo aqui minha homenagem a essa grande mulher, Dona Ilda, minha mãe e a todas as mães desse planeta.

Sem vocês, posso dizer com segurança, que não existiria vida em nenhuma parte.

Sem mãe, o mundo seria em preto e branco e sem fundo musical.

Benção minha mãe!

 

 

Dia de festança no céu e na terra

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Ano de 1968, maio. Mais precisamente dia onze. Ano esse que ficou marcado na história do país e do mundo. Ano de muitas contestações, grandes mudanças de comportamento e cobranças. Enquanto por aqui, estudantes lutavam por melhores condições no ensino e contra uma ditadura que amarrava e amordaçava a liberdade de expressão, na França, a revolta de maio teve como protagonistas, universitários e polícia numa revolta onde imperou a violência. Só para variar. Muitas turbulências na América Latina, Estados Unidos arrasando com o Vietnã. A vida estava uma maravilha! Até parece que não tiramos o pé desse ano de tanta sensação de déjà vu.

No entanto, em plena Maternidade São Paulo, nascia um bebê que marcaria a vida da família que a acolhia. Criança que veio ao mundo sentada e de perninhas moles.

Recebi a chegada desse bebê com alegria achando que havia ganho uma boneca de verdade. Adorava trocar, pentear seus cabelinhos claros e finos feito seda. Da mesma forma que cuidava, tinha uma queda por fazer brincadeiras que a fazia chorar. Tudo só para depois pegá-la no colo e ninar. A vida não foi nada fácil para essa criança. Ela também mostrou-se imbatível diante das adversidades e obstáculos que teve que superar. E superou a todos! Destemida e teimosa. Essa é a perfeita definição para ela. Espírito de heroína, renasceu quantas vezes tornou-se necessário. E sempre se reinventando. Um dos grandes obstáculos em sua vida foi a saúde debilitada. Muitos em seu lugar teriam se entregue à doença e perecido pelo caminho. Não ela. Como uma cientista curiosa, teve seu olhar para a doença com sede de conhecer para combater. E assim, vem se superando a cada investida. Alma de artista, o traço sempre foi extensão de suas mãos talentosas. A arte sempre resgatando-a da doença. Amparando-a nos momentos de dor. Como Frida, transformou sua dor em amor ao próximo e as artes. Feito Khalo, imprime nas telas sua resistência.Incompreendida por muitos, admirada por outros tantos, segue sua vida acreditando no ser humano. E olha que esses humanos aprontaram muito com ela. Muitas pessoas abusaram de sua boa vontade e ingenuidade.

Mas ela segue seu caminho deixando-os de lado, não guardando mágoas nem rancor. Sabe que cada um colhe o que planta. Hoje, a mulher que amadurece mas não perde a ternura da menina, tornou-se motorizada. Anda pela cidade de cadeira elétrica. As rodas tornaram-se extensão de suas pernas. Destemida, não pára diante das mazelas que a cidade – despreparada para recebê-la, lhe apresenta. Com dificuldades, formou-se em Artes Visuais. Apenas um certificado para representar sua arte e talento que dispensa qualquer qualificação. De irmã mais velha, tornei-me sua melhor amiga. Somos grandes parceiras de vida. Somos confidentes e fortaleza uma da outra.

Irmã caçula, filha de coração, companheira de uma vida. Hoje é seu dia de abrir o coração para o Universo e agradecer por tudo e por todos que atravessaram seu caminho. Todos contribuíram para o que você é hoje. Essa é minha homenagem a você menina/mulher/guerreira, por fazer meus dias terem um colorido especial.

Feliz aniversário irmã!

roseli e lirio peteleco

Blue jeans

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Tédio. Palavra curta com significância profunda. Causa um sabor – ora azedo, ora ácido de algo borrachudo que cresce em nossas bocas do estômago transformando-se num grande incômodo. Sofro de tédio muitas vezes. Agora mesmo. Nesse exato segundo em que escrevo essas linhas, um tédio absurdo toma conta de meu ser. Tento enganá-lo pensando em coisas prazerosas. Procuro lembrar de acontecimentos agradáveis em meu passado. Rememoro os traços de quem amo. Recordo passagens de viagens que fiz. Nada remove essa sensação de inoperância diante da vida. Incomoda o raso das existências alheias que presencio com olhar de voyeur e me questiono se não serei tão rasa quanto eles.

Hoje, pela manhã vindo ao trabalho no ônibus, ouvia Legião ao vivo pelo Spotify. Sorri de forma desencantada ao ouvir Renato Russo dizer, no show ao vivo, que ainda não era a vez do brasileiro ser feliz. Quem sabe daqui um tempo… – dizia ele numa voz firme e ainda esperançosa. É Renato, anos se passaram e ainda não chegou a nossa vez de ser feliz. Ainda não. Talvez nem chegue ou, quem sabe, tenhamos uma ideia errônea e idealizada do que vem a ser felicidade.

A vida, de tão líquida como o filósofo tão bem descreveu, escorreu. Por entre os dedos tortos pelo tempo, tento segurar um pouco dela e ver se ainda resta algum tipo de sentido. Desisto. Deixo pingar a última gota e seco minhas mãos na velha calça jeans.

Sorrio pela segunda vez ao me lembrar de uma canção publicitária tão antiga quanto eu:

Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada…

Se a canção for verdadeira, minha liberdade está me sufocando. Ainda resta essa velha calça jeans que, mesmo após quarenta anos, me serve como da primeira vez que a vesti e saí da loja carregada de sacolas e sonhos.

Os sonhos desbotaram tanto quanto a velha calça jeans. Ela mostrou-se mais resistente que eles que se esgarçaram no passar dos anos. E o tédio, essa epidemia contemporânea, assumiu seu lugar de destaque. Tornou-se companhia constante da velha jovem e seu jeans puído pelo tempo.

Imagem: Unsplash

I give up!

Minha avó materna, dona Maria, apesar de analfabeta sempre foi de uma sabedoria infinita. Dona de um espírito brincalhão, eterna menina, de vez em quando saía com umas tiradas filosóficas de fazer Nietzsche ou Marx ficarem de queixo caído pensando na profundidade de seu pensamento.

Uma de suas pérolas cai como luva para esses tempos tão nebulosos que passamos em Terra Brazilis: Não generalize.

Atravessamos uma turbulência econômica, política e moral como talvez nunca tenhamos passado. Pelo menos que me lembre. Ler as trocas de farpas nas redes sociais é de sentar e chorar. A raiva – pra não dizer ódio, está transformando algo que antes era prazeroso, num ringue de rinha da pior espécie. Confesso que tenho deixado de lado para não acirrar uma úlcera.

Hoje, li um desabafo de uma colega de profissão que é concursada, que me tocou profundamente. De forma delicada porém firme, ela se posicionou diante das pedradas recebidas por pessoas que andam espalhando que servidores públicos são vagabundos.

Eu a conheço. De vagabunda ela não tem absolutamente nada. Casada, mãe de família, escritora, mulher culta e sabedora de seu papel na sociedade. Luta por seus direitos e demais pessoas além de uma luta diária por ser portadora de deficiência física numa cidade, num país onde nunca se olha por esses “especiais”.

Sendo também mulher, trabalhadora desde os treze anos de idade, formada num curso superior com muita dificuldade, defensora dos direitos humanos, sinto-me também ofendida e entristecida em ver o quanto as pessoas se atiram às ofensas a quem nem conhece de forma tão vulgar.

A sociedade está se fragmentando em pseudo-grupos que se olham com animosidade e atiram-se uns aos outros destilando ódio. Uma total insanidade uma vez que, todos estamos no mesmo barco que se afunda. Mas vá tentar fazer entender! Como já disse Taiguara tão bem na letra da música Universo no teu corpo:

Eu desisto! Não existe essa manhã que eu perseguia/Um lugar que me dê trégua ou me sorria/E uma gente que não viva só pra si…

Décadas passaram desde que ele, alma sensível, escreveu essa bela canção. Nunca esteve tão atual!

Visão desfocada

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Do nada, o olho pisca ininterruptamente. Ora seca, ora lacrimeja. Em outros momentos, arde como se uma bomba de gás pimenta tivesse estourado à minha frente. E coçar então? Pior de tudo, é quando tudo isso acontece num momento em que não posso demostrar desconforto. Seja numa reunião importante ou num encontro amoroso. Afinal, nas duas situações queremos e precisamos mostrar nosso melhor. Provar que é competente naquilo que faz. Então, esse olho maldito, me entrega estragando toda mise-en-scéne.

Desde pequena sofro desse mal. Pior quando o estado do olho chega a criar remelas. Isso afasta as pessoas de mim. Ficam com medo que seja contagioso. Não é. Contudo, até provar vai um bom tempo de conversa e desgaste. Prefiro ficar de olhos baixos ou com óculos de sol. Pena que sempre esqueço de andar com eles na bolsa. E o que dizer da claridade do dia quando estou com eles irritados?

Sinto-me a própria vampira Miriam Blaylock. Com muita fome de viver mas impossibilitada pela visão embaçada. Clamo pela escuridão. Nessas horas, a vontade de se encolher até ficar do tamanho de um átomo é grande. Perder-se por entre a poeira do universo e passar desapercebida. Fica só na ilusão. A cada encontro nos corredores da empresa, uma pessoa pergunta: Nossa, como está seu olho! É conjuntivite? Credo isso pega!

Só suspiro, sorrio amarelo e sigo meu caminhar ignorando os comentários desnecessários que as pessoas insistem em fazer.

A paciência foi algo que desenvolvi ao longo dos anos para poder viver por aqui. Como um discípulo de um mestre Kung Fu, através de muita humildade, fui moldando minha personalidade rebelde para sobreviver. Aprendi que somente quem se torna maleável feito aço quente, pode se moldar às situações e intempéries do tempo. Assim me fiz. Assim me tornei. E a paciência me dá condições de aguardar o momento de ficar novamente com os olhos curados e enxergar o mundo como ele é. Sem embaço, nem pontos escuros.

Desconfio que essa anomalia seja mais da minha alma que se nega a ver a feiura da vida. De perceber que ela não é como nos contos de fadas que tudo se resolve num piscar de olhos. Em dizer fórmulas mágicas e tudo retornar ao normal com os “Foram felizes para sempre”. A constatação de que felizes e sempre são invenções e não condizem com a realidade, talvez tenham me agredido a alma a tal ponto de, para sobreviver, de tempos em tempos, meu organismo se ataca para se defender. Freud deve explicar.

Imagem: Google

Fim de contrato

Um tropeço, um baque.

Como a vida é efêmera. Como é rápida e, mais rápida ainda se esvai deixando apenas rastros de incompreensão e…Saudades.

Como uma vida que mal começou, pode terminar sem aviso prévio, sem mensagens de despedida, sem um até breve num e-mail ou no WhatsApp?

Sendo ela uma senhora regida por regras que sempre existiram, por que insistimos em nos espantar diante de suas atitudes?

Qual o motivo de sofrermos e desistirmos dela se, desde nosso nascimento, já sabemos a que viemos?

E não adianta choro, nem promessas, muito menos barganha. O fim é inexorável para tudo. Para todos.

 

Surtada

A situação pela qual passo, não é novidade para ninguém. Quem nessa vida já não passou nervoso com prestação de serviços? Quem já não perdeu a esportiva diante de uma compra e o não recebimento da mercadoria? Quem nessa vida já não sofreu um golpe muito bem dado por espertalhões que, enxergam em você, o pato da vez?

Escrevo essas linhas no sentido de expor minha indignação e frustração que venho acumulando desde o  ano passado. Sofro de um mal: ser correta e honesta em dias atuais onde, ser esperto, ganancioso e mentiroso, é o lema da vez. Quem assim atuar ganha dinheiro e status de “Gente fina” ou “Celebridade”.

Num país onde impera a roubalheira sem fim, corrupção e outras cozitas más, nada mais natural que uma alma pura (quase) e crescida nos valores do bem que seus pais e avós exemplificaram, banque a Pata da vez.

E banquei. E estou Quá!QUá!Quá! até agora sem ver a resolução de meu problema. Desculpem meu desabafo caros leitores. Tampem os ouvidos ainda inocentes das crianças por perto:

Puta que o pariu! Caralho! Que merda! Estou possessa!

Respiração quase normalizada. Inspira!Expira!Inspira!Expira… Já já volto ao meu normal. Tenham um pouco de paciência comigo.

Respiração aprofundada e…Voltei ao normal. No entanto, ainda me encontro indignada com a postura “Foda-se” que a maioria das pessoas utilizam no seu dia a dia e em todas as esferas dessa nossa nação.

A pergunta que não quer se calar: Por que? Por que é tão difícil ser profissional e cumprir prazos nesse nosso Brasilzilzil? Por que?

É a empresa de telefonia que te deixa no vácuo quando VOCÊ precisa dela, é a empresa dos correios que te deixa na mão quando não entrega no prazo a correspondência ou mercadoria que mandou ou comprou e nada de te reembolsar ou dar explicações, é o supermercado que anuncia uma promoção e quando você chega, a mercadoria não se encontra com preço anunciado e, ao reclamar, você é que se passa por idiota e que não compreendeu bem, é o atendente da boutique de luxo no shopping que te mede de cima a baixo quando adentra o templo e escaneia sua conta bancária para ver se sai do lugar para te dar atendimento. Se você tem cara de proletário, esqueça minha filha: você não levará nada se depender da boa(má/nenhuma) vontade da balconista. Logo ela, que deve ganhar bem menos que você mas se encontra montada na grife portanto, se acha.

Tudo isso, no decorrer dos dias, meses, anos, te corrói tanto a alma que, chega uma hora, você simplesmente surta e começa a achar natural terroristas fundamentalistas que amam estourar bombas onde se aglomeram seres humanos. Dá vontade de acabar com tudo!

No dia de hoje, chego a sentir certa simpatia por todos eles. Quase chego a compreendê-los!

É boi morto apodrecendo nas vitrines, é leite adulterado com água oxigenada e outros venenos, é pó de serra enriquecendo nosso tão amado e idolatrado cafezinho, É loja de grife usando mão de obra escravizada para confeccionar seus modelitos, é…

MARCENEIRO levando seu duro e suado dinheirinho e não executando nem instalando sua cozinha tão sonhada há exatos…deixe me ver, setembro, outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro, março..

AIMEUDEUSVOUSURTAR DE NOVO!!!!!!!!!!

Chamem a polícia, o PROCON, um advogado e uma camisa de força porque se me deixarem solta vou matar alguém!Aiqueódioódioódio!!

Mulher invisível

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Dizem que, ao envelhecer, encolhemos. Suspeito que tornei-me anciã e, pouco a pouco, torno-me invisível.

Nessa nossa sociedade patologicamente plugada ao seu smartphone, torna-se cada dia mais difícil manter uma convivência como nos “antigamente”. Sempre tive o hábito de cumprimentar a todos nas empresas onde trabalhei. Do porteiro ao diretor. Nunca fiz distinção. Fui educada por meus pais – que nem terminaram o primário, a usar de cortesia e sempre esboçar um sorriso sincero ao cumprimentar as pessoas assim que chego ao recinto.

Hoje em dia, sorrio e falo com o vento, as paredes, as janelas, o assoalho. As plantas me respondem avivando sua tonalidade verde. Algumas flores até se viram para mim, como que sorrindo e agradecendo minha atenção para com elas.

É. Além de tudo devo de estar sofrendo de alguma doença mental. Como diziam os antigos a quem tenho me referido, “mente fraca”. Se penso que as plantas me respondem a um cumprimento, a coisa deve de estar feia pro meu lado.

Cada dia que passa, sinto-me mais e mais deslocada nessa comunidade a que pertenço mas que, ao que parece, devo estar me distanciando. Olho, ninguém me olha. Passam reto. Cumprimento e sorrio, as pessoas continuam com suas feições endurecidas e nem ao menos soltam um suave grunhido como fazem os tímidos. Silêncio absoluto! O que acontece? Cadê aquela animação para formar roda de amigos e conhecidos e passar horas de conversação, risadas, olho no olho e o desejo de se encontrar muito em breve para dar continuidade ao bate papo?

Outro dia, fui visitar família. Confesso que saí de lá ressentida e frustrada. Minha vontade era tanta em conversar e matar saudade no entanto, percebi que a programação da TV estava mais interessante que minha insistência em manter uma conversa animada e contar as novidades. Pouco a pouco, fui murchando. Silenciei e saí à francesa. Fui ao banheiro, lavei o rosto numa inútil intenção de expurgar o gosto ácido da frustração, peguei a bolsa e saí. Elas mal me olharam ao me despedir.

Ninguém mais tem interesse em saber das novidades do outro… A não ser pelas redes sociais que, se postar algo sobre o que anda fazendo, dependendo do que for, ganhará muitos likes e coraçõezinhos e Uaus.

Credo! Isso tudo anda muito chato! Quer saber? Não vejo a hora de completar meu horário aqui no trabalho e dar uma banana bem dada a todos, voltar correndo para meu ninho e me consolar com as séries favoritas da Netflix!

Aqui pra vocês!!

Imagem: Pocho