Tentativa

Quero retornar. Juro. Se precisar até faço cruz e beijo pra selar meu desejo.

Mas não consigo. Está difícil sair dessa paralisia de vida. Acho que é porque quando morre alguém muito querido, boa parte de nós se vai junto. Olha só, está vendo como fico? Basta tentar e logo estou em prantos. Querendo trincar e virar pó para me perder no Universo. Talvez, quem sabe, virando poeira estelar deixe de sofrer.

É. Eu sei. Sei de tudo isso que você teima em me dizer. Agora te pergunto: quem manda no coração? Eu é que não. Ele – pelo menos o meu – tem vontade própria. Vive mandando às favas a lógica e o bom senso. Coração só quer saber de bater acelerado. Esse negócio de manter-se em equilíbrio não é com ele.

Varias vezes tentei sentar, focar e escrever algo que valha a pena publicar. No entanto, a tela, após horas, permanece em branco. Então desisto, levanto-me, desloco meu corpo para a frente de uma tela maior e ligando-a, desligo-me da realidade por mais algumas horas, anestesiando meus sentimentos e fingindo-me de feliz. Até consigo rir!

Outro dia chorei muito… Pensei até que morreria afogada em minhas próprias lágrimas. Uma revolta imensa tomou conta de mim. Revolta com a vida, com a morte, com Deus. Pela primeira vez contestei seu poder de decisão sobre nossas vidas. Pela primeira vez tive vontade de mandá-lo a merda. Pela primeira vez, ainda chorando, pedi perdão pelo grau da blasfêmia. Pela primeira vez tomei consciência de minha confusão mental e emocional. Pela primeira vez constatei minha pequenez. E chorei até esgotar toda água de meu organismo e me transformar numa rosa do deserto.

Há dias vivo, trabalho, como, bebo, durmo, defeco. Seca. Por dentro e por fora onde minha pele já demonstra rachaduras e meu interior, há muito se trincou e pouco a pouco, se esfarela por dentro.

Está vendo só? Ainda não estou pronta para voltar. Continuo não sabendo o que escrever e como escrever. Acho que minha pretensa carreira de escritora terminou antes mesmo de começar. Para se escrever bem é preciso ter alma, calor, vontade. No momento não tenho nenhum nem outro. Sou apenas uma sombra daquilo que um dia pensei ter sido.

Vou me afogar num destilado ali ao lado lendo Hemingway ao som de Chet Baker.

Se sobreviver, volto.

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Balanço geral

Todo ano a mesma coisa. Os mesmos rituais. Os mesmos rostos eufóricos a desejar o melhor. E assim, escapando do estresse que é enfrentar lojas e filas, além do mal humor de balconistas que trabalham cerca de dezoito horas em péssimas condições (sei bem porque já fui uma), perder horas preciosas no trânsito ou no aperto das conduções coletivas. É chato, é desgastante mas, quando nos reunimos para se confraternizar, tudo some: cansaço, nervosismo, mal humor, noites mal dormida.

Fica a leveza de espírito em saber que conseguimos finalizar mais um ano de muito trabalho, dissabores, perdas, falta de dinheiro e inúmeras incertezas. Mantêm-se a certeza de que, o que vale mesmo, são os momentos que passamos juntos aos que amamos e re-afirmamos mais um ano de contrato.

Esse ano, mais do que outros, tenho a certeza de que devemos nos esforçar para fazer cada momento único e rico em alegria, tolerância e amor. Não sejamos econômicos em expressar carinho e sorrisos. Como seres em eterna mutação, acredito que nossa permanência aqui no plano terreno é bem passageiro e – por conta disso mesmo – precisamos nos conscientizar que precisamos amar, mas amar muito. Não esse amor Doriana que a indústria marqueteira propaga e sim, o amor verdadeiro que a tudo suporta e nada cobra. Apenas aceita.

Estou parecendo piegas? Pode ser caro leitor. Quer saber? Bendito os que ainda têm a capacidade de ser piegas e não se envergonha de expressar o que pensa ou sente.

A humanidade está carente e precisa se despojar dessa roupagem fake no qual todos devemos aparecer belos, magros, bronzeados e felizes. Abaixo a maquiagem. Desejo homens e mulheres de cara e coração limpos. Sem artifícios. Apenas humanos.

Difícil definição

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Mudar o verbo da noite para o dia transformando alguém tão caro e próximo num personagem do passado é doloroso. Alguém que dias atrás se encontrava ao nosso lado conversando, rindo, fazendo planos, enquanto traçava una bella  pizza ou un talharim ao pesto – seus pratos preferidos. Dói.

Agora, o que resta é um bolo indigesto parado na garganta diante do fato consumado. Nunca em minha vida senti tamanha dor. Nunca.

A inquietação que assola minha mente e coração parece que vai explodir a qualquer momento da mesma maneira que implodiu dentro de si, pondo término a um ser que tinha urgência em viver pois parecia saber que havia pouco tempo.

Meu menino que começava a amadurecer e cultivar ideias de fincar raízes, formar família, ter filhos. Esse era seu sonho. Contudo, ao mesmo tempo que alimentava tais quimeras, se jogava de cabeça em tudo o que pudesse fazer. Não quis seguir com os estudos mesmo sendo um Q.I. alto comprovado por especialistas. Contrariando a todos, dizia não poder perder tempo.

Tempo…

Sempre esse senhor a direcionar nossas vidas. E de alguma maneira que nos foge ao entendimento, ele sabia que precisava correr e dar conta de fazer sua história o mais completa possível. E deixou. Um Best Seller digno de aventuras Harry Potterianas, seu personagem preferido desde a infância. Havia total identificação, inclusive física.

Tornou-se precoce cidadão do mundo . Uma inquietação sem fim o movia a vários lugares. Viveu em constante busca de seu Graal.

Dono de mil talentos, desenhava quadrinhos e até se aventurou no mundo dos Tattoos. Aprendeu a cozinhar e sabia preparar pratos com requintes profissionais. Circulou por todas as esferas. De malandros e hippies da Avenida Paulista – sua favorita – ao mundo da moda, dos artistas de teatro, TV, aos grupos religiosos cristãos.

Família…

Essa, apesar de ser sempre um ponto de atritos e divergências, era também seu porto seguro. Todas as vezes que sentia-se perdido ou inseguro, era para ela que se voltava. Renovava suas forças, alimentava-se do amor incondicional que todos lhe tinham, respirava ares de amor e retornava para o mundo.

Em nosso último encontro, enquanto saboreávamos uma pizza, ele perguntou se eu já havia escrito algo sobre ele. Pensei e respondi que sim. Ele perguntou: Sério mesmo? Escreveu? O quê? Respondi sorrindo: se quiser saber vai ter de ler meu blog inteiro e se identificar. Tenho certeza que se reconhecerá. Mas terá de ler.

Não teve tempo. E eu, desde então sigo com o mesmo aperto na garganta e coronário e com os dedos enrijecidos pela dor de perdê-lo. Tão cedo…

Caso tivéssemos escolha, teria cedido de bom grado o tanto de vida que me resta. Já vivi bastante, conquistei muitas coisas, vivenciei tantas outras. Só pelo prazer de vê-lo se realizar, casar, ter filhos e levar uma vida simples no campo. Sem correrias nem atropelos.

Uma pena a vida não ser ficção caso contrário, já teria deletado essa parte da história e dado um rumo diferente. É meu menino, não deu.

Só deixo aqui uma pergunta que – por mais que busque resposta, não encontro uma que me satisfaça: quem ou o que preencherá essa imensa cratera de um metro e noventa e dois que se abriu em meu peito?

Talvez, repito novamente Talvez, daqui um tempo, a quantidade de lembranças que você espalhou por toda parte ao tombar inerte no chão frio me satisfaça. Talvez, com paciência e coração mais compassado, consiga montar o seu quebra-cabeças e perceba o quanto foi bonita sua passagem em nossas vidas. Mesmo que meteórica. Você passou. Sua luz permaneceu.

 

Imagem: Arquivo particular

Cadê o ouvinte?

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Sou uma sem noção assumida. É sério! No entanto, minha “sem noção” tem uma certa consciência das coisas e, mesmo assim, insisto. Exemplo?

Falar com determinadas pessoas sobre assuntos que não interessam a elas. Observar que enquanto narro entusiasmada, desviam o olhar de forma ansiosa querendo escapar de mim sem ter como e, mesmo assim, continuo a falar,falar,falar…Até que fico com dó de fazê-las sofrer e caio fora. Deve ser coisa de canceriana.

Contudo, confesso que às vezes fico chateada com a falta de interesse delas…

Quando dou por mim, percebendo que a criatura não está nem aí, calo-me para ver a reação da mesma. Não dão continuidade a conversa ou simplesmente saem deixando-me sozinha ou, pior, começam a falar de si demonstrando que realmente não prestou atenção numa única palavra que expressei. Minha casa cai.

Puta que o pariu!

Será que é tão difícil assim, ouvir o outro? Demonstrar o mínimo de interesse, nem que seja por educação? Eu consigo fazer isso brilhantemente e talvez, por isso mesmo, sou sempre solicitada como ouvinte. Tornei-me com o passar do tempo um verdadeiro pinico ambulante onde todos despejam seus excrementos existenciais sem nem ao menos olhar em meus olhos e saem aliviadas. Bom né? Vou te contar leitor. Ah! Desculpe, está interessado em me ler? Senão…Ah! Escrevo mesmo assim. Caso não desperte interesse é só mudar de blog ou sair para ler as baboseiras do Ofuxico. Garanto que eles têm mais leitores que eu por aqui.

Olha só, desviei o assunto e acabei por esquecer o que ia falar. E agora?…Acho que estou envelhecendo. Minha memória não é mais a mesma. Apagão geral. Já sei, nem o Universo muito menos os milhões de bites do computador desejam ouvir meu nhé-nhé-nhé. Muito mi-mi-mi pra seres tão frios e sem sentimentos. Báh!

Esquece porque eu já esqueci e tenho mais o que fazer por aqui. Só resta lembrar o quê.

Talvez…

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Chego a essa altura de minha vida sem ainda saber o que desejo dela. Ou, por outro lado, o que ela espera de mim. Questão que, creio eu, seja difícil para qualquer ser humano responder. As religiões trazem respostas prontas que a grande maioria toma como verdades absolutas. Eu, de minha parte, refuto todas. Não que seja descrente, no entanto, talvez por pensar demais, encontre mil opções como possíveis respostas.

E como os antigos filósofos: penso, logo existo e quanto mais sei, mais sei que nada sei.

É bem por aí. É como tentar enxugar gelo. E por que cheguei a essas constatações filosóficas aqui expressas? Sabe que não sei? Mais uma para refletir e tentar chegar a uma (im)possível conclusão. Talvez movida pela minha eterna vontade de dominar a escrita. Essa maldita que se instalou em minhas entranhas e vive a se esconder nas brumas. Talvez…

Pode ser que instigada pelo desejo de registrar o que vai em meu interior. Aquilo que não confesso a ninguém mas, que através da escrita , torna-se mais fácil revelar. Contudo, confesso que quanto mais escrevo, mais confusa fico e nesse emaranhado de confusões, sigo tentando passar alguma mensagem – mesmo que boba – para meus leitores. Talvez eles se encontrem tão confusos quanto eu e isso tudo que deixo por aqui, sirva de conforto e a certeza de que não estamos sozinhos. Talvez…

 

Imagem: Maximo Mancini

Memória: universo intocável

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A manhã inicia envolta numa densa neblina. Ao abrir a porta que dá para o quintal, recebe uma lufada de vento gelado. Sorri! O galo da vizinha da rua debaixo canta animado. Alguns bem-te-vis e beija-flores voam ao redor do jardim e da horta que seu pai cuida tão bem. Há uma fina camada de gelo na plantação.

Com seus pezinhos envoltos numa alpargata gasta e uma meia listrada e rota, dá alguns passos no frio piso de cimento queimado. Quase escorrega, porém, consegue se equilibrar. Respira fundo e solta o ar pela boca. Diverte-se com a fumaça de ar quente que sai. Isso é inverno para ela! Corre para o balanço que seu pai instalou no fundo do quintal. Passa as pequenas mãozinhas na tábua molhada, esfrega-as na calça de flanela xadrez e senta balançando feliz. O dia promete!

Sua mãe grita da cozinha chamando todos para tomar o café da manhã. O aroma do café coado tira a pequena de seus devaneios infantis. Pula do balanço e entra pela cozinha para ocupar seu lugar a mesa. Todos reunidos, dá gosto ver seu pai – homem robusto, saudável, fartos bigodes negros – de olhos brilhantes feito os das crianças. Assobia de alegria ao ver as broas de milho quentinhas, o café aromático, o leite espumoso na jarra, a manteiga, o pão francês quentinho que sua mãe trouxe da padaria da esquina.

Sua mãe…

Figura ímpar. Mulher batalhadora que madruga para oferecer o pouco de conforto material aos seus. Mesmo com a renda escassa, prima por manter a família bem alimentada. É sua maneira de expressar seu amor.

Apesar de magricela, a menina é boa de garfo. Trata de comer sua broa, sua fatia de pão com manteiga, sua xícara de café com leite e a seguir, um pouco de achocolatado. Coisa rara que só acontece nessa época quando esfria. A criança estremece de contentamento ao sentir a quentura e o doce do chocolate. O dia promete!

O resto da manhã foi de muita tarefa na cozinha. Sua avó materna e mais duas tias chegam para reforçar as atividades. Forno aquecido, mais broas assando, um bolo com cobertura de pasta americana sendo confeccionado pelas mãos hábeis de sua tia, quituteira de fama no bairro. Do outro lado da cozinha, sua outra tia manipula a massa da bala de coco. A guria ama ficar sentada quieta olhando a destreza dela a esticar – com velocidade  – a tira de massa para não açucarar.

Sempre pensa: Minha família só tem artista!

A transformação da tira termina com as balas já cortadas descansando no frio mármore da pia, prontas para degustar.

Pura magia! A tia sempre oferece uma bala fresquinha à ela que, salivando, chupa bem devagarinho para que a bala não acabe nunca. Do lado de fora, no quintal, seu pai cozinha os pinhões. Outra iguaria que somente nesse mês do ano surge. Ela gosta de ver o pai mexendo no caldeirão com uma colher de pau e depois – com eles já cozidos e escorridos – descascar deixando-os peladinhos prontos para o banquete de logo mais. Sua avó, como sempre, se encarrega do feitio da paçoca. Posiciona o pilão centenário no meio do quintal e, munida de açúcar, amendoim torrado, farinha de mandioca e sal, deita o bastão para transformá-los em paçoca. Enquanto soca os ingredientes, dona Maria entoa uma cantoria que alegra o ambiente fazendo todos relembrar: Hoje é dia de festa!

De olhinhos vidrados na figura da avó com seu vestido florido azul marinho, avental e lenço prendendo os cabelos, chinelos nos pés – mesmo no inverno – balançando sua barriga cantando e rindo ao mesmo tempo. A garota sorri ao se aproximar da avó e pede o enorme bastão para socar um pouco. Arrisca cantar e ambas caem na risada com o desafino e a voz diminuta da menina. Quando terminam, comem a paçoca às colheradas. Coisa boa vó! – diz a garota com a boca cheia de doce.

Às dezesseis horas, a mãe surge à porta da cozinha chamando as crianças para o banho.

Está frio pra tomar banho mãe! – responde o irmão que não se dá muito bem com a água.

Não quero saber se está frio ou quente. Já pro banho moleque! Até as cinco quero todos de banho tomado e vestidos.

Quando a mãe fala nesse tom de voz não tem discussão. Gostando ou não, todos obedecem. Enquanto a gurizada está no banho, alguns homens da família – tios e primos – chegam trazendo lenha para montar a fogueira. Seu Pedro, o avó materno, passeia pelo quintal verificando tudo de mãos para trás pensativo. É seu jeito mineiro de ser. Confere tudo, afinal, também tem interesse que tudo saia perfeito.

Dezoito horas. Frio intenso, contudo, a temperatura entre todos os presentes encontra-se bem alto. No portão principal, seu Pedro recebe familiares que chegam abraçando-o. Ele é um dos aniversariantes do mês. A enorme mesa montada no quintal – na parte coberta – tem uma toalha estampada e uma vasta seleção de gostosuras juninas: bolo de fubá, de milho, broinhas, pé de moleque, paçoca, balas de coco, pinhão. Tudo distribuído ao redor do enorme bolo de aniversário coberto de massa americana colorido. Do outro lado, uma mesa menor com jarras de quentão, K-suco de uva e morango, garrafas térmicas com achocolatado e café. Na fogueira já ardendo em todo seu potencial, espetos com batata doce assando. Na vitrola, um disco entoa canções…

Capelinha de melão
é de São João.
É de cravo, é de rosa, é de manjericão.
São João está dormindo,
não me ouve não.
Acordai, acordai, acordai, João.
Atirei rosas pelo caminho.
A ventania veio e levou.
Tu me fizeste com seus espinhos uma coroa de flor.
Em pouco tempo a casa está lotada de familiares e amigos celebrando. O mês de junho é repleto de aniversariantes. A começar pelos avós, seu Pedro, seu Benedito, terminando pela neta, a menina magricela que hoje, resplandece de alegria por ver tantas guloseimas. Em frente ao bolo, seis pessoas felizes fazem seus pedidos antes de assoprarem as velinhas. O pedido da menina – talvez pela pureza infantil ainda não corrompida pelas mazelas de adulto – só deseja que o resto da vida seja uma grande e ininterrupta festa de aniversário.
Papai do céu, deixa eu ser eternamente criança!
Enquanto faz o pedido, uma estrela cadente atravessa a noite escura sacramentando sua solicitação.
Gente, lembrando dessas passagens de minha infância percebo que Papai do Céu atendeu meu pedido naquela noite fria: não perdi de vista minha menina magricela, sardenta e sonhadora. Não cresci muito no tamanho, continuo sonhadora e transformei meus sonhos em narrativas. E continuo amando festas juninas! Os balões, hoje solto na minha imaginação, afinal, consciência é necessário. E por aqui, eles continuam coloridos e belos a subir pelo céu de junho.

Reza mal feita

Angry-lady

Tem dias em que a melhor coisa a se fazer é…Não levantar da cama por nada!

Juro por todos os Santos que orei antes de me levantar hoje. Agradeci mais um dia de vida, pedi bençãos e proteção para mim e toda família, pelos amigos e colegas, pela humanidade que possa regressar para sua condição de apenas ser humanos.

Levantei desejando ficar mais um bocado debaixo das cobertas afinal, que frioo!!

Tinha intenção de ir direto para o banheiro tomar uma ducha para despertar de vez. Mudei de ideia bem na esquina do banheiro com a cozinha. Decidi adiantar ligando o forno para assar alguns pãezinhos de queijo para o café da manhã. Não contente, achei melhor colocar um pouco de água para esquentar e fazer um café bem quentinho afinal, o café passado na cafeteira não esquenta como gosto.

Sonolenta, acendi o fogo, coloquei a caneca com a água e encosto na pia esperando não sei o quê. Talvez despertar de vez. De repente, um cheiro de queimado toma conta de minhas narinas.

Senhor!! Meu pijama encontrava-se em chamas na manga. Brigadista juramentada por três anos consecutivos, respirei fundo e com calma, coloquei meu braço inteiro debaixo da água que jorrou fortemente da torneira escancarada. Por segundos passou por minha mente um filme sobre minha vida e o trágico final dela se transformando em cinzas. Lembrei das inúmeras vítimas do incêndio em Portugal e assoprando o suave ardor em minha pele, imaginei a dor e desespero de quem morre torrado. Senti pelo pijama mas agradeci em pensamento e em fala alta pelo apartamento aos anjos protetores que mesmo me observando ainda sonolenta, livraram-me de um destino pra lá de quente. Assei os pãezinhos, ficaram no ponto. Passei o café, fiz um pouco de leite sem lactose e deixando de lado a ideia de um banho, optei por me alimentar antes. Com calma, tranquilidade e consciência de fazer o que fazia esquecendo um pouco o mundo da fantasia. Vivo por lá. Às vezes, a vida te grita para que retorne e finque os pés na realidade. Lembrei enquanto tomava um gole do café de que hoje teria logo cedo uma consulta com minha ortodontista. Humm! Não se esqueça de escovar muito bem os dentes! – pensei esboçando um sorriso cafeinado.

Num piscar de olhos embaçados, já havia se passado uma hora e eu precisava me apressar. Dei uma volta debaixo do chuveiro, saí tiritando de frio, me enrolei na toalha e ao sair quase caio escorregando numa poça de sabão que não havia diluído. Troquei-me em segundos quando me lembrei que não havia passado desodorante.

Sacoo!! – disparei correndo ao banheiro abrindo a camisa e passando o desodorante seco. Voltei ao quarto, caçando minhas botas. Peguei bolsa, celular, olhei ao redor e, Ah! Já ia me esquecendo: minha marmita na geladeira.

Pronto. Almoço garantido Quase na porta, sinto uma dor de barriga das boas. Fiquei na indecisão: volto? não volto? uso o banheiro do consultório, e se não der tempo? uso o banheiro do metrô…Eca! Voltei para meu banheiro branquinho, puro, limpinho e cheiroso. Para distrair, pego a última edição da revista Casa & Jardim. Adoro me distrair vendo casas bonitas enquanto o intestino trabalha. Não consigo me ocupar das belezas da arquitetura urbana da matéria principal. Minha matéria estava rebelde e se debatendo dentro de minhas entranhas. Senhor o que é isso? Um Alien dentro de mim? Vontade de gritar, contudo, tive de bancar a fina e gemer em silêncio para não acordar a vizinhança que ainda dormia. Entre a vontade de gritar e chorar de dor, veio-me a lembrança da famosa cena dos filmes As branquelas – quando uma delas que sofre de intolerância a lactose, experimenta um salgadinho numa festa e vai parar no banheiro. Jesuis essa cena é hilária! Quem já assistiu sabe do que falo. Iniciei um ritual louco para expurgar aquilo que me causava dores e barulho. O que era aquilo crescendo dentro de moi? Dobrei-me, botei a cara quase rente ao chão, cheguei a ficar tête-à-tête com uma formiguinha minúscula que circulava  desgarrada de seu bando. Até ela parecia desesperada para sair dali. Pressentia perigo assim como eu.

Passou… Chegou a calmaria e com ela, a consciência de que precisava sair de casa urgente. A consulta!

Saio correndo do apartamento, do elevador, do prédio. Chego driblando moradores de rua, adentro a estação de metrô. Driblo mais uma vez o mar de gente a minha frente se arrastando feito lesmas de olhos pregados em seus smartphones. Odeio-os!! Saiam de minha frente cambada! Numa tomada de cena típica de quem tem pressa, quando não havia mais espaço para alguém no vagão, entro com tudo e faço dar espaço para mim e mais meia dúzia que entra junto. Agora, respirar fundo, olhar para o infinito e seguir viagem. Uma estação apenas.

Uma estação apenas no qual tenho de aguentar uma senhora vestida de debutante de quinze anos em plena oito horas da manhã que fica de cara grudada a minha e não para de me olhar e de me avaliar. Puta que o pariu! A vontade de xingar é grande mas, minha finesse passa por cima e mantenho-me estátua de sal. Nem piscar pisquei. Cerrei a boca caso contrário, mandaria aquela lá catar coquinho no mar Vermelho.

Finalmente chego ao consultório. E, para compensar toda a chateação daquela maldita maquininha lixando nossos dentes (odeio), minha ortodontista é um amor e me entretém com sua viagem à Irlanda. Graças a Deus fiquei compenetrada em suas narrativas de viagem e quase nem percebi sua tortura. Saio correndo do consultório. No elevador, olho o celular e vejo que se passou uma hora. Senhor! Vou chegar muito tarde no trabalho. Paciência.

Na rua, além do frio desgraçado – percebo que não saí vestida de forma adequada – uma garoa maldita que me ataca por todos os lados. Não adianta sombrinha.

Chego molhada, descabelada, rosto cheio de massa branca (é eu sei, a dentista falou para eu limpar no banheiro. esqueci) e seca por cafeína. Meu reino por uma xícara de café extra forte!

Num minuto raro de paz interior saboreio esse néctar dos deuses quando meu celular toca e é minha irmã toda desesperada ( provavelmente descabelada também) para avisar que mamys estava no hospital e que o hospital se negava a atendê-la por falta de pagamento da mensalidade de janeiro. Fale com o financeiro!

O café entala na garganta, esfria e depois esquenta tal minha temperatura de braveza. Engasgo de indignação pois tenho tudo pago. Misericórdia! Esse povo só sabe falar em dinheiro! Tô garrando ódio pelo sistema capitalista. Sim senhor! Ódio!

Explico para a simpática moça que me atende que tenho tudo pago e juramentado. Nada devo…Quer dizer, até devo mas, fala sério quem não deve nesse país nénão?

Ela delicadamente diz que compreende minha situação, mas, que o sistema acusa não pagamento. Mas tenho tudo pago moça… O sistema acusa dona…Tenho tudo pago pôxa! Compreendo senhora, sinto muito sua mãe não poderá ser atendida. O sistema não libera…Tá tudo pago merda! Será que não entende? Preciso desenhar? Dona, tenha calma, tudo está sendo gravad…Quero mais é que grave ess aporra toda! Merda de capitalismo, só interessa o dinheiro, a porra da saúde do povo que se dane. Morram imbecis!!! Ouço um engasgo, um soluço do outro lado. Que foi? silêncio. Vai desligar na minha cara vai? Você tem mãe? Ficaria calma diante de uma cilada dessas? Há mais de vinte anos pago essa porra de convênio e quando preciso tiram o corpo fora?silêncio

Dona/Dona o caralho! Tenho nome./Certo, desculpa qual seu nome?Não interessa só quero que minha mãe seja atendida. Entendeu! Entendi. Calma senhora. Faz o seguinte: vá ao seu banco e peça um extrato do mês todo e verifique se eles não estornaram o valor para sua conta novamente. Cêbebeu foi? Desde quando o banco devolve dinheiro na conta de pobre? Acorda ALICE! Senhora, vou desligar. Vá ao banco e verifique. Caso contrário, o convênio de sua mãe será cancelado. Obrigada e tenha um bom dia!.

Filadaputa nem deu tempo de responder e já bateu o telefone. Transbordo-me em fel de tanta raiva. Lembro que ao acordar rezei. Oh meu Deuzinho, eu rezei. Não foi suficiente não? Precisava de mais ardor nas orações é? Fala sério: muita viadagem heim! Cê num era assim lá nos primórdios! Ah tátátá, entendi. Sorry. Vou conversar com meu gerente, fazer uma social, fingir que sou rica, perder minha hora de almoço num banco. Tudo o que mais gosto de fazer. Nossa quanta felicidade!

Tudo visto, nada resolvido retorno para a empresa e vou esquentar minha marmita. Nem tenho vontade de comer mas, assim que abro, o aroma que vem de dentro me faz esquecer um pouco tudo o que aconteceu até agora. Almoço, converso, chego até a rir um pouco da desgraça alheia afinal, ser humano é isso mesmo.

Cá estou eu entre risos e reflexões sobre esse dia tão conturbado que ainda não acabou. Ah! Minha mãezinha foi atendida por uma médica que solicitou uma série de exames. Fico mais tranquila mas..

O que mais virá pela frente heim?

Imagem: Google

Valentine’s day

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O choque ao te rever não foi bem o que esperava sentir. É certo que passado tantos anos, ambos envelhecemos. Mas não foi a falta de cabelos ou a barriga proeminente, muito menos as rugas profundas em seu rosto que me incomodaram.

Ao contrário do que esperava encontrar, você manteve-se muito bem. Soube envelhecer. Corpo esguio, ainda lapidado pela musculação. Pele azeitonada pelo sol, cabelos com reflexos esbranquecidos te presentearam com certo charme que seduz qualquer mulher. Seus profundos olhos verdes mantiveram o brilho e a vivacidade que outrora me encantou.

Te observar a certa distância sentado com elegância fumando seu inseparável cigarro – ao mesmo tempo que me trouxe boas lembranças, novamente veio carregada de sensações que não soube muito bem traduzir. Titubiei.

A insegurança de enxergar através de seu límpido olhar minha carcaça envelhecida e desprovida daquela jovial menina de seus dezesseis anos, me fez dar dois passos atrás.

Sei que casou, teve filhos que hoje devem ser adultos feito nós. Também soube por conhecidos, que divorciou e novamente encontrou alguém. Ao contrário de você, não soube prosseguir. Passei décadas pulando de relação em relação. Fui incapaz de me entregar a outro após te perder. Hoje sei que fui fraca e teimosa em não romper de vez nosso cordão umbilical. Busquei insanamente seu corpo em outros corpos, seu sorriso em outras bocas, seu olhar em outros olhos. Luta vã. Perdi duplamente por não saber abrir mão de um amor juvenil e por deixar escoar tantos outros homens que poderiam e quiseram me fazer feliz. Fiquei presa a uma ilusão. A um amor inventado por minha mente ultra romântica. Fui incapaz de me desvencilhar da roupagem adolescente. E levei essa rebelde pro resto de minha vida emocional. Mesmo agora, portadora de uma carcaça envelhecida e craquelada pela osteoporose, carrego ainda essa menina que um dia te amou e se entregou ao jovem risonho e sensual que você me apresentou.

Te observo mais alguns minutos por trás de uma banca de flores. Talvez a mesma banca que você adquiriu o buquê de rosas que repousa na mesa. Você não se esqueceu das minhas preferidas: rosas silvestres! Estão lindas! Obrigada amor mas não poderei aceitar. Desculpe mais uma vez me acovardar diante de uma possível felicidade. Não sei lidar com isso. A solidão me é familiar e quente feito útero de mãe. Te observo mais uma vez e num roupante, saco meu smartphone e registro sua elegante pose no café.

Segurando uma lágrima que queima meus olhos, dou as costas à você e sigo meu caminho rumo ao metrô. Escondo-me na multidão. No vagão, vários casais se enamoram e muitos rapazes carregam seu arranjo de flor que em breve farão alguma namorada ou esposa se encher de alegria e transbordar de amor. Sentada olhando pela janela, reafirmo que esse dia não me pertence.

Imagem: Unsplash

Diário de bordo: sem maiores acontecimentos

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Hoje foi um sábado abençoado. Do jeitinho que gosto. Céu azul de brigadeiro, sol ameno, muito iluminado. Dia de sair às ruas para compras, encontrar amigos, degustar guloseimas. E esse mês em especial é de muitas e deliciosas guloseimas. Junho, mês de festas juninas que – infelizmente nas grandes cidades perderam força. Contudo, ainda que de forma reduzida, surgem aqui e ali algumas amostras do que foi um dia essas festividades.

É o mês onde celebro meu nascimento. Há quem odeie aniversários. Eu amo afinal, viver é uma eterna festa. Mesmo que haja brigas, perdas, obstáculos, viver é sempre motivo de alegrias. E eu, mesmo que melancolicamente (sou canceriana lembra?), alegro-me com as pequenas coisas que a vida me oferta. Quer coisa mais prazerosa que ao acordar, ouvir o canto de diversos pássaros em sua janela? E o que me diz de abrir a mesma janela à noite e se deparar com a belezura da majestosa Lua? Ou então, ser pega de surpresa enquanto anda pela calçada preocupada com contas a pagar, por acordes afinados de um músico de rua. Aqui na região da Paulista tem a escolher. E eu me rendo!

Próximo ao meu aniversário costumo entrar no que chamam de “Inferno astral”. Acredito que Papai do Céu esse ano resolveu olhar com mais atenção e carinho para essa sua cria. Ando num momento muito feliz apesar das dificuldades que passo. Sem problemas afinal – assim como a maioria dos brasileiros, o que não falta são problemas financeiros e esses, conheço de longa data. Aliás, já fui concebida num período de maré baixa, bem rala. Talvez por isso mesmo, tiro de letra e sinto que sou excelente economista. Ou devo dizer equilibrista? Uma vez que consigo equilibrar com maestria as finanças mensais, penso que não sou ruim não! Nesse um ano vivendo sozinha, aprendi que posso perfeitamente atravessar trinta dias corridos sem um puto no bolso. E quer saber? Ando de boa! Sinto-me privilegiada afinal, tenho um espaço que aos poucos está ficando com minha identidade, tenho profissão e emprego, guarda roupa sortido (tá legal, tudo roupa antiga mas como é de boa qualidade, estão tinindo), calçados de couro, geladeira cheia e sortida de alimentos de qualidade. Levo muito a sério cuidar de minha saúde. No momento é meu único bem. Mas também, não radicalizo. Como o que me dá vontade. Sigo a linha “Mulheres francesas não engordam”. Como sem culpa. Deve dar certo pois sempre fui magra.

Não. Não possuo automóvel porque nunca me interessei em aprender a dirigir. Sempre preferi sentar na janelinha para apreciar a paisagem e sonhar. É caro leitor, nascer canceriana dá nisso. Sempre com a cabeça no mundo da Lua! Decididamente, não daria certo dirigir. Seria irresponsabilidade. Gosto de caminhar, atravessar ruas, alamedas, avenidas. Gosto de observar rostos, posturas, comportamentos. Esse é meu material de trabalho. Andar também é um ato de meditação. Enquanto caminho penso, reflito, oro. Aproveito esses momentos para vibrar pela humanidade. A situação no planeta azul anda bem preta não é mesmo? Faço minha parte mesmo que ela pareça ser insignificante. Junto minhas doações energéticas às demais doadas por aqueles que também desprendem um pouco de si ao próximo. Essa é minha religiosidade. Não necessito de templos.

No entanto, atravessei meio século e nunca tive alguém para chamar de meu amor. Algumas pessoas ( muitas) estranham. Acham que devo ter algum transtorno por não haver casado nem tido filhos. Creio que na realização da criação, Deus determinou assim: uns têm, outros não. O universo necessita desse equilíbrio. Aceito sem maiores encanações. Vivo de boa aceitando o que ela me oferece. Sei que ela é generosa com quem a respeita e eu a respeito muito. E sou grata sempre. Ah! Antes que pense, não. Não sou a chata do pedaço que vive a pregar ensinamentos. Em minha concepção, cada um que busque seu próprio método de aprendizagem. Faço o que acredito ser o melhor para mim. Respeito o livre arbítrio do próximo. Se não concordo apenas lamento e sigo em frente.

Enfim, sentei aqui e iniciei esse texto sem nem saber o que pretendia escrever. Apenas deixei fluir pensamentos e sentimentos de um dia que para mim foi perfeito. O que? Se aconteceu algo especial? Não. Absolutamente nada de especial. Meu dia foi até bem comum no entanto, a graça está justamente nisso. Em reconhecer que é no cotidiano que se encontra a felicidade tão procurada e aclamada por todos. Eu encontrei!

Valor de mercado

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Um grito atravessa a noite me tirando de um sono profundo. Retorno à realidade confusa, acreditando ainda estar sonhando. O som de um choro desesperado, sofrido, permanece. É uma mulher. Diante do silêncio das primeiras horas da madrugada, apenas esse lamento. Movida pela curiosidade, levanto e vou à janela na tentativa de ver o que acontece. A rua, sempre movimentada, encontra-se vazia. No céu, nuvens encobrem o luar. Nos prédios, algumas luzes solitárias acesas.

A cantilena do choro aos poucos cessa até ouvir apenas uma respiração carregada. Silêncio.

Ao fechar a janela, capturo um movimento no canto de uma banca de jornal na esquina. Fixo o olhar para tentar identificar se é um cão perdido, ou gato vira-lata. A constatação de que é uma mulher me causa certo desconforto. Seminua, levanta-se ajeitando o vestido rasgado. Um dos seios à mostra. Ajeita os fartos cabelos e ao mirar o alto – com os olhos ainda úmidos e borrados pelo rímel vagabundo – nos enxergamos.

Por alguns segundos, não sei o que fazer nem o que pensar. Ela mantém seu olhar em mim numa muda súplica. Em seguida, abre um sorriso, acena, termina de ajeitar seus trapos, tira um espelho da minúscula bolsa e corrige a maquilagem. Atravessa a rua e para na esquina iniciando um diálogo com suas colegas:

-Amor, a noite está brava. Muito sofrimento e pouco faturamento. Estou de rabo ardendo e o filho da puta não me pagou. E ainda me deu uns tapas na cara. Fora que rasgou meu vestido. Bora faturar mais um para pagar o prejuízo! Oh vida! Quando será a minha vez de conhecer um bonitão que me fará sair dessa miséria? Quando?

-Ainda está nessa de sonhar acordada com príncipe encantado? Otária, acorda pra realidade! Nós estamos aqui para isso. Aliviar as taras desses monstros. Somos seus instrumentos de prazer. Jamais se interessarão em nos tirar da sarjeta. Isso minha filha, é contos de fadas. Aqui, no asfalto, é a vida real. E chega de conversa mole, atravessa e vai para a outra esquina trabalhar que a noite apenas começou!

Cerro a janela e retorno para o calor das minhas cobertas. Por alguns minutos reflito no quanto essas “mulheres” levam uma vida embrutecida, pobre em todos os sentidos. De “vida fácil” elas não têm nada. Por outro lado, apesar das diferenças, nós mulheres – seja aqui em São Paulo, Rio, Maceió ou Nova York. Seja no Ceilão, na Irlanda ou Rússia, a condição feminina sempre sofre. Muitas se prostituem para sobreviver. Não tiveram estudos, não têm outra profissão. São reféns da desigualdade social. Outras, fazem universidade e, mesmo assim, prostituem-se para usufruir de um luxo que – sendo simples balconista de shopping ou garçonete ou até mesmo escriturária – não teriam condições financeiras para tanto. Na realidade, há diversas formas de se “vender”. E todas, sem exceção, gravam sequelas profundas na alma feminina.

Adormeci pensando em mim mesma. De qual forma me deixei prostituir… E você? Já parou para pensar nisso?

Imagem: Pixabay