Visita dominical

Acordei com você em meu pensamento. Pensei: Será que sonhei contigo? Será que estive em espírito ao seu lado?

Não sei. Só sei que retornei a essa minha realidade, impregnada de você.

Levantei, fui para a cozinha fazer meu café para despertar de vez minhas células e você continuou a me seguir. Não coloquei resistência. Deixei você chegar, se aproximar, sentar ao meu lado à mesa e fazer o desjejum comigo.

Faz tempo não é mesmo? Sorrindo, lembrei das inúmeras vezes em que te provoquei. De pequena, confesso, era minha distração preferida. Nutria um prazer indescritível ao te tirar do sério comigo. Ao final das contas, apanhava. Mas apanhava de gosto. Será que sou masoquista?

Nada disso. No fundo, em minha mente infantil, sabia que mesmo numa atitude mais agressiva, estava lá, o toque de seu amor. Não guardei mágoas de você.

Do outro lado da mesa, observo seus olhos embaçarem. Desviam de mim mirando os prédios através da janela.

Bebericando mais um pouco do café, recordo da vez em que – solitário tomando conta de três crianças pequenas -, preocupado com a esposa hospitalizada, levou-nos ao parque de diversões. Fiquei tão feliz! Tão feliz, que essa lembrança ganhou matiz mais colorido e sempre se destaca quando abro as gavetas da memória. Não conseguia compreender porque minha irmã mais velha só chorava e meu irmãozinho mais novo, quase um bebê, chamava por minha mãe.

Também sentia falta dela mas, aquele momento era único para mim afinal, era tão raro você sair conosco para se divertir. Trabalhar para trazer o pão de cada dia para casa, impedia de você ter mais contato com a gente.

Recordei do dia em que te fiz chorar. Te provoquei o dia todo. Estava com a “macaca” e de alguma forma, precisava chamar sua atenção. Você quis me pegar, bater. Corri para a casa da vovó, você foi atrás. Vovó ponderou, orientou você a ter paciência comigo e eu, por trás dela, fazia caretas e micagens para você. É, eu sei. Fui cruel. Admito.

De noitinha, após o jantar, mandou todos se deitarem. Menos eu. Até mamãe saiu de perto. Olhando profundamente para mim, perguntou se estava contente com tudo o que havia aprontado durante o dia. Mantive o olhar firme em você. Não respondi. Apenas continuei a olhar. Sem piscar.

Apanhei. Uma. Duas. Três…Perdi a conta. mantive o olhar fixo e não derramei uma única lágrima. Em compensação, você saiu. Somente vinte e tantos anos depois de sua partida, soube por mamãe que você chorou a noite toda por ter me batido. Saber disso me doeu mais que as cintadas que levei nas pernas. Sangrou meu coração.

Na adolescência, tornei-me mais rebelde. Entrava e saía de casa e mal te olhava. Gótica que fui, vesti meu corpo, meus olhos e minha alma de preto.

Diante dessas lembranças, você levanta e vai para junto da janela não permitindo que veja sua expressão. Mas sei qual é.

Ironia das ironias, somente em sua doença, me aproximei desarmada e por um tempo, nos tornamos grandes amigos compartilhando piadas, risos, lágrimas, cerceadas por silêncios que diziam muito.

Você partiu muito cedo. E por muito tempo, ao final da tarde ainda ouvia seu assovio alegre de quando voltava para casa.

O que mais sinto, é não ter fotos ao seu lado, tipo um selfie, de nós dois rindo de algo. Que pena afinal, hoje, gostaria demais de estar ao seu lado rindo de todas as besteiras e palhaçadas que fiz em criança. Ah, fuçando por aqui, encontrei algumas fotos que “roubei” da caixa da mamãe. Ela que me perdoe mas queria ter você aqui comigo, de alguma forma.

Distraída que fiquei com as lembranças e esse texto e as lágrimas que me embaçam enquanto digito, dou conta que me encontro novamente só.

Você se foi sorrateiro, silencioso, da mesma maneira que chegou.

Um esboço de sorriso melancólico se desenha em meu rosto, hoje maduro, repleto de manchas senis e rugas. Obrigada pai, pela visita, por esse encontro como forma de reatar, aparar as arestas do passado e reforçar nossos laços de amor incondicional. Volto a dizer: você foi muito cedo.

Vê se da próxima vez fica para o almoço.

O “barato” de se viver

Ao me deparar com a possibilidade da finitude ao qual todos estamos fadados, passei algumas noites refletindo: se souber que tenho apenas alguns dias de vida ou apenas umas horas, o que vou procurar fazer?

Perguntei a mim mesma: está com medo?

É claro que o medo existe afinal, humana que sou, trago inseguranças de todo tipo. Mas, o que gostaria de fazer para servir de legado à minha partida ou que sirva de desfecho grandioso antes de pegar o trem para a eternidade?

Talvez, devido ao momento que vivemos – onde nos encontramos resguardados da possível contaminação pelo vírus -, falta-me imaginação para pensar em algo diferente.

Vasculhando meu interior através dessa reflexão, cheguei a uma conclusão:

se vou morrer hoje, amanhã ou daqui a vinte anos, não pensaria em fazer nada de extraordinário. Apenas viver. Vivenciar meu dia-a-dia de forma intensa. Enxergar beleza em todo lugar e em todo ser vivo. Continuar apreciando as notas musicais de meus compositores preferidos: Mozart, Vivaldi, Albion. Cantar mesmo que desafinadamente minhas canções da Bossa Nova, afinal, mestre João Gilberto abençoou os desafinados. Sorte a minha!

Sambar de cadeiras endurecidas as canções de Martinho da Vila, deixando-se contagiar por sua deliciosa malemolência. Permitir-se em alguns momentos a melancolia e o desespero da mulher abandonada tão bem retratada na potente voz de nossa eterna “Pimentinha”. Amo derramar litros de lágrimas ouvindo sua voz. Verdadeira terapia musical: vou ao fundo, do fundo, do fundo do poço e retorno de alma lavada.

Seguirei com minhas leituras apreciando anos de solidão de Gabriel García Márquez, passando pela narrativa afiada de Rubem Fonseca em Secreções, excreções e desatinos. Perceber inclusive que as 100 escovadas antes de ir para a cama, é muito mais que uma história sobre certa “Lolita”.

Continuarei meus rituais de bebericar meus cafés e minhas xícaras de chá nos horários que meu relógio biológico reclamar, mantendo o prazer sempre à frente no comando dessa vida que a qualquer hora pode cessar.

E a poesia? Ah, essa permanecerá sempre tatuada em minhas retinas e em minha alma pois ela, é o tempero especial que eleva e torna tudo mais bonito. Acompanhada de Pessoa, Leminsky, Drummond, Quintana e tantos que não li mas, que ainda terei tempo de conhecer. Caso não me seja permitido, já estarei em ótimas companhias. Nada a reclamar!

Quer saber? Tudo isso já faço portanto, não mudaria minha rotina em absolutamente nada a não ser, viver. Até o último suspiro. Viver!

Pela madrugada

Mês de julho de 2020. Durmo (quando consigo), acordo, faço minhas refeições, trabalho. Entre uma tarefa e outra, minhas necessidades fisiológicas afinal, faz parte da vida.

Uma solidão barulhenta toma conta do meu espaço físico e do meu emocional. Uma das vozes que gritam insanas é: Quero voltar para minha vida normal!

Em contrapartida, outra berra: Sua louca. Você odiava aquela vida. Essa está muito melhor. Sossega e se conforma.

Uma outra voz, mais tímida sussurra: Sinto saudades de meus amigos. Quero muito voltar a me encontrar com todos eles…

Saudades? – comenta uma voz que surge do nada, sarcástica -, Mentira. Você está muito bem sozinha sem ter de aguentar as aporrinhações de terceiros que sempre te usaram como pinico pra despejar suas sujeiras.

A voz do desejo reclama: Sinto falta de uma companhia que me envolva e sacie minhas vontades carnais.

Uma outra berra irritada: Cala a boca e resgate seus brinquedinhos do armário. Use e abuse. São mais eficazes e não te deixam sozinhas na cama depois do gozo.

A voz séria da profissional, reclama: Calem a boca suas inúteis. Não vê que estou trabalhando? Tenho muitos relatórios a entregar. Me poupe de suas lamúrias.

Hum! Sua ridícula. Querendo provar competência a quem? Nós todas te conhecemos muito bem e sabemos que está louca pra cair fora dessa. Além do mais, se liga. Hoje é sábado. Não é dia de trabalhar. Vá curtir a vida enquanto o vírus não te pega!

E todas caem na risada tumultuando ainda mais minha madrugada insone.

Imagem licenciada: Shutterstock

Tin-Tin para mim!

Pela primeira vez aposento minha fantasia usual das festas juninas e adoto um acessório que – mais que um adereço de moda -, tornou-se item fundamental para sobrevivência. Não que isso represente 100% de garantia. Aliás, vivemos uma era de grandes incertezas…

Trago comigo uma certeza: Sou grata ao Universo pela vida que me foi concedida. Agradeço diariamente a saúde, a família, os amigos, o emprego, o teto que me abriga, o alimento que me sustenta. Agradeço. Sempre.

E mesmo hoje, três meses afastada de meus entes queridos, vivendo sozinha porém, nunca solitária, sentindo falta de um abraço apertado e um beijo estralado, despertei agradecendo por mais um dia de vida.

O passar dos anos e as inúmeras experiências, me fizeram ficar resiliente e – como já dizia minha sábia avó Maria-, saber “sambar conforme a música”. Não é fácil. Aliás, viver nunca foi fácil. Se aprendemos a adquirir sabedoria através da dor e do sofrimento, tornamo-nos fortes, de aço. Tenho tido noites insones. Quase nem preciso usar máscara pois já tatuei uma de zorro ao redor de meus olhos cansados,atravessando noites de preocupação com a humanidade. E nessa humanidade, me incluo.

Contudo, persisto em apostar em dias melhores. Procuro fazer do meu dia, algo alegre, positivo. De gente negativa e baixo astral, lá fora já tem de sobra.

Cinquenta e sete anos vividos. Muitas histórias acumuladas, gavetas abarrotadas de lembranças. Álbum de fotografias de pessoas amadas que se apagaram na vida feito polaroid. Cantaram em outro universo. Talvez paralelo, talvez se extinguiram de vez. Quem sabe?

Quase me esqueço de meu aniversário, tamanho ritmo louco que tenho vivido diante de pandemia e afins. Mas, hoje ao despertar, orei. Fervorosamente, orei. Por mim, por uma querida que aniversariava na mesma data e que – só soube essa semana -, está comemorando seu niver em outro plano.

Gratidão é meu mantra e seguirá por mais cinquenta e sete anos. Se até lá estarei ainda utilizando essa máscara? Quem sabe. Encerro com a música de minha musa Rita Lee:

...”Se Deus quiser
Um dia eu morro bem velha
Na hora H, quando a bomba estourar
Quero ver da janela
E entrar no pacote
De camarote”

De bode

Hoje não acordei bem. Desde cedo, uma vontade absurda de apertar a tecla reset e encerrar de vez com toda essa realidade. Desde ontem sinto-me um grão minúsculo à esmo no universo. A paralisia ao qual estamos atrelados, o não poder se despedir dos que partem coletivamente, as desigualdades sociais cada vez mais acirradas, o retorno à escuridão da caverna. A luta incansável do exército da Saúde que esmorece pouco a pouco não conseguindo dar conta do inimigo invisível. A ignorância.

Essa senhora mais antiga que o mundo, tem dado as cartas e ganhado todas as jogadas. Com ela não há diálogos possíveis, não há argumentos. Sua espada é mais afiada e sua língua, ferina.

É. Decididamente hoje, especialmente hoje, não acordei bem. Talvez por varar a noite quietinha em minha cama quente, em meu pijama macio, com minhas meias felpudas, com a cabeça suavemente pousada num travesseiro ergonômico. Não dormi. No silêncio da noite, num raro horário em que nenhum carro passou espalhando seu ronco, pude ouvir a conversa de dois sem teto na calçada de frente ao prédio. Um deles tossia muito. Mas não foi a tosse ininterrupta do pobre coitado que me tirou o sono dos justos. Foi a injustiça da situação. Mais uma vez ela, a realidade brutal que me incomodava, tirando meu sossego. Duas, três, quatro horas. Finalmente o cansaço cerrou meus olhos vítreos diante de tudo.

Às oito horas acordei. E não acordei bem. Não mesmo. Não quero sair da cama mas algumas preocupações precisam ser sanadas. Tenho de sair à rua e isso tem me tirado a segurança. De momento prazeroso, sair do meu casulo pretensamente protegido e ganhar as ruas que tanto gostava, passou a ser algo protelado ao máximo. Preciso sair. Acabou pão francês, pão de queijo, café chegando ao final, verduras findaram. Levanto arrastando grilhões invisíveis que tem servidos de peso para a ginástica boa para manter os músculos firmes para a grande queda. Um, dois. Um, dois. Um dois. Feijão com arroz.

Feliz daquele que ainda tem um prato com essa iguaria. Na rua, me afastando dos pedestres, evitando inclusive o olhar, sigo. Compra feita, conto com ajuda de um jovem funcionário do mercado que me acompanha com carrinho até meu endereço. Pergunto sobre sua rotina de trabalho, jovem responde. Silêncio até chegar ao prédio. Em outros tempos, ele subiria com a compra até meu apartamento. Hoje, peço para descarregar tudo na portaria enquanto um funcionário do condomínio surge. Outro anjo protetor que me ajuda a carregar as compras.

-Obrigada. Tchau. Se cuida meu jovem.

-Dona Roseli, entre no elevador social. Eu já subo com o restante das compras. Vou no elevador de serviço. Segregação necessária. Será? Meus olhos na solidão do elevador se embaçam. Minha boca de contorce para baixo feito emoji entristecido.

-Dona Roseli, vou deixar sua compra aqui do lado de fora. Não me leve a mal tá.

-Que isso. Agradeço sua ajuda. Tchau. Se cuida. Fique bem.

Maratona de limpeza, lavo ovo por ovo acariciando cada um como se fossem recém nascidos a me brindar com a vida. Fome. Lembrei que não comi mas preciso dar terminar essa tarefa toda antes de correr para o banheiro e tomar um banho que dê cabo de toda impureza que tenha trazido cá para dentro. Queria limpar a alma também. Arrê! Hoje está puxado.

É. Hoje não acordei bem mesmo. Prova disso é esse textão imenso que – até desejo escrever mais -, vomitar toda revolta e tristeza que trago cá no peito. Mas preciso colocar um ponto final. Pelo menos aqui.

Tomara que amanhã acorde melhor. Porque hoje, dia 13, quarta-feira, acordei bem não.

Benção minha mãe

Quando decidi falar sobre essa mulher, me peguei sem palavras afinal, como descrever um ser tão acima de mim e demais pessoas?

Certa vez, li em algum lugar, que quando os anjos foram criados por Deus, para descerem a Terra, deveriam vir disfarçados de mãe. Preciso dizer mais? Quem de nós, seres humanos comuns poderia ter essa forma de amar incondicionalmente?

Quem de nós pode ou tem condições de perdoar infinitas vezes? Mães são criaturas dotadas de um enorme senso das coisas, têm uma intuição fenomenal, têm o dom de esboçar o mais lindo sorriso quando muitas vezes, por dentro, estão sangrando.

Não se importam de atravessar noites ao nosso lado quando adoecemos. Deixam de comer para ter sempre o alimento para seus rebentos. Defendem suas crias com uma voracidade anormal.

Fazem sempre o impossível para ver seus filhos felizes (o possível, o resto da humanidade já faz). Vibram com cada conquista que seus filhos adquirem e sofrem ao vê-los aflitos, derrotados e infelizes. Todos esses adjetivos descritos acima fazem parte da personalidade única que é minha mãe.

Quando pequena, achava-a severa, brava. Na adolescência, tivemos sérios entraves.

Vivia pegando no meu pé. Muitas vezes desejei que ela fosse diferente. Com o passar dos anos e a aproximação da maturidade, descobri nela, outra mulher. Descobri a amiga, a confidente e assim, nossa relação tornou-se estável e hoje somos grandes companheiras.

De uns anos pra cá sempre digo que “Quando crescer quero ser igual à Dona Ilda” Adquirir sua sabedoria, paciência, tolerância e quero também seguir sua filosofia de vida: minha mãe veio a esse mundo para ser feliz!

E olha que, nesses anos de vida que ela tem, já passou por cada uma! Contudo, nada abala sua segurança, sua fé, sua postura rígida, porém suave diante da vida.

Independente dos sofrimentos que a vida lhe imputa, sua filosofia da felicidade não estremece. Ao invés de torná-la frágil, fortalece mais. E sempre sorrindo! Igual à minha avó Maria, sua mãe.

Se Deus permitir, desejo chegar à terceira idade mantendo o semblante sereno que ela carrega. E quero também despertar nos outros, o mesmo carinho, o mesmo respeito que hoje todos têm por ela.

Deixo aqui minha homenagem a essa grande mulher, Dona Ilda, minha mãe e a todas as mães desse planeta.

Sem vocês, posso dizer com segurança, que não existiria vida em nenhuma parte.

Sem mãe, o mundo seria em preto e branco e sem fundo musical.

Benção minha mãe!

Esse texto abre meu livro Receituário de uma expectadora, lançado pela Scenarium Livros Artesanais, em 2016.

Amargo despertar

Sorrio sentindo o calor do sol entrando pela janela. Ontem, confesso que passei um dia deprimida e o tempo ajudou bastante esse meu estado de espírito. Impressionante como a luz do sol e a coloração do céu nos influencia.

Minha depressão momentânea me levou a fazer algo que não faria em outra situação: correr. Com o corpo enferrujado e dolorido, após o café da manhã, decidi baixar um aplicativo de corrida e, devidamente vestida, fui para a frente da minha janela para o mundo e comecei a correr. Sem sair do lugar. O que começou como algo chato a se fazer, embalada pela música workout como trilha sonora, em minutos corria não somente de frente à janela mas pela cozinha, banheiro, sala/quarto. Entre corrida e pulos cada vez mais coordenados e alto, recuperei meu bom humor. Santa Serotonina!

Ao término da corrida, suada, descabelada e feliz, ainda fiz alguns alongamentos, agachamentos e fui para uma ducha merecida.

Almoço gostoso, café fresquinho, uma trilha sonora diferenciada, agora, na bela voz de Rumer. Abro meu sofá cama e munida de meus queridos livros e manta quentinha, leio até adormecer. A doce voz da cantora e o sax ao fundo me levou para longe.

Alguns minutos de puro deleite são interrompidos com meu despertar dizendo em voz alta: Cala a boca Bol…

Olhei a minha volta e cai na risada por uns minutos. É, o retorno à realidade sempre deixa um gosto amargo. Ainda mais despertando com esse ser a atormentar meus sonhos.

Mais um dia. Menos um dia.

Tempo de sobra

Não sei quanto a você leitor, mas ando numa gastura com esse isolamento. De início achei bem bom ficar em casa afinal, como boa canceriana que sou, amo curtir meu cantinho.

Passou primeira, segunda, terceira semana…

Já te contei que mudei a posição dos móveis três vezes? Pois é. Hoje, parti para a quarta vez. Acordei com espírito de faxina. Esvaziei armários, separei papéis, revi fotos antigas. Aliás, perdi boa parte da manhã mergulhando fundo nesses registros fotográficos. Isso sempre acontece.

Deixando as fotos de lado, reorganizei minha estante. Não tinha gostado do arranjo feito anteriormente. Reconheço que sou tradicional na arrumação.

E falando em arrumação, dei uma analisada em meu guarda roupa e constatei que tenho muitas roupas sem uso há muito tempo. Calçados idem.

Seleciono o que não quero mais em sacolas reutilizáveis. Tenho uma vasta coleção pois, apesar de desejar muito ser ecológica, sempre esqueço de levar sacola ao supermercado e, acabo comprando. Tenho umas bem bonitinhas!

No passado, fui uma colecionadora de calçados. Cheguei a ter mais de trezentos. Sim, isso não é lorota de escritor. Amava comprar modelos diferentes, de cores inusitadas: lilás, amarelo gema, vermelho sangue, rosa bebê, verde vômito, prata, branco. Coisas dos anos 80.

Decido separar alguns calçados. Afinal, pra que tantos em tempos de isolamento se só tenho usado chinelos ou sapatilha de pilates? Vamos liberar espaço no armário.

Parto para uma investigação nos armários da cozinha. Olho para eles e me pergunto: por que gastei uma pequena fortuna em marcenaria se boa parte deles se encontra vazio? Para que uma dúzia de pratos se só uso um? E copos, e xícaras, por que tantos? Para equilibrar, só tenho duas panelas. Ah, três, contando com a elétrica. Que quase não uso.

E esses DVDs e CDs? Beatles, Elvis, filmes que nem cheguei a assistir. CDs de Rod Stewart, Kid Abelha, Pedro Mariano, até fado da Marisa encontro entre eles. Olivia Newton John!! Nossa, nem recordava desse. Antes de me desfazer, vou assistir a todos afinal, tempo de sobra agora eu tenho né?

Final de tarde, me encontro zonza de ter visto e revisto tanta coisa por aqui. Baixou um cansaço bravo que só vai resolver após um café feito na hora.

Adoro esse aroma no ar! Munida de uma xícara, sento-me próxima a janela para apreciar o sol – hoje tímido -, e observo que choveu. Nossa, choveu?

Olho para o lado e vejo as inúmeras sacolas separadas com doações. Caramba! Quando vou me desfazer disso tudo se não estou saindo de casa? Invento cada uma! Humm… Esse café está bom. Tão bom que vou pegar mais! Está dando uma fome também. Acho que vou estourar uma pipoca. Adoro pipoca com café!

Gente, essa quarentena precisa terminar!

Dia do trabalho (r?)

O dia amanheceu estranho. Lento, mais do que o normal. Se é que podemos denominar o que vivemos atualmente, de normal. Ainda na cama, dominada por uma sonolência devido a noite mal dormia, reflito.

Dia do trabalho. Precisamos ressignificar isso. Não sou pessimista mas, diante do quadro mundial, observando um movimento que vem ocorrendo há alguns anos, tenho a certeza que precisamos mudar nosso comportamento enquanto massa trabalhadora.

Fato: faltará emprego para milhares de cidadãos no mundo inteiro. Muitas profissões se extinguiram. Em contra partida, outras tantas surgirão. O ser humano é um animal adaptável e, mais do que nunca, necessitamos ser mais maleáveis. Estudar e se informar será fundamental para enfrentar esse “Novo Normal” pós pandemia. Quem sobreviver, precisará ter olhos e mentes abertas para esse novo.

Cabe a nós, nação brasileira, acordar desse sonho/pesadelo de sermos eternos bebês chorões sempre na espera de que nosso pai maior nos mantenha alimentados e protegidos. A maturidade do povo grita a olhos vistos que estamos passando da hora de acordar, crescer, tomar as rédeas de nossos destinos nas mãos. É natural que tal atitude traga consequências. No entanto, chega de ficar no canto feito cria mimada choramingando por atenção de pais irresponsáveis.

Levanto, lavo o rosto para despertar de vez, faço meu café e enquanto saboreio, continuo minhas reflexões sobre o significado do dia. Ando muito pensativa nesse período de reclusão Acredito não ser a única.

Não trago respostas. Também não sou dona dela. Nem eu, nem ninguém ainda mais diante desse cenário apocalíptico onde nosso inimigo é invisível.

Que pena os super heróis não existirem para nos proteger com seus superpoderes. Na vida real, contamos apenas com seres humanos vestindo o espírito dos heróis de quadrinhos, munindo-se de coragem que muitas vezes não têm, saindo às ruas para tentar salvar vidas.

Hoje, minhas homenagens são para todos eles que se encontram na linha de frente lutando como verdadeiros soldados para salvar não uma nação, um povo mas, um planeta. Parabéns!!! E força, e coragem. Acreditem: vocês estão escrevendo a história.

#fiqueemcasa

Sonho ou pesadelo?

Fui logo ali, na esquina do universo espiar o que o Pequeno Príncipe aprontava. Moleque levado que é, está sempre me deixando de orelha em pé. No meio do caminho, encontrei com o Menino Maluquinho batendo panela e gritando Fora Bozo! Fora!

Chegando em Marte, onde fiz uma parada para descansar, ouço um maluco tentando convencer algumas extraterrestres de que Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus. Elas olhavam o mirrado ser de orelhas pontudas e comentavam entre si: Coitado, deve ter cheirado gasolina da Lua em excesso. Ficou lelé! Partiram gargalhando deixando o pobre palestrar ao vento.

Tratei de sair de fininho também. Segui viagem para Urano, interessada em saber das novidades. Qual não foi minha surpresa ao chegar num beco e dar de cara com Diógenes, o cínico. Discursava em voz potente, os últimos ensinamentos de Sócrates. Relatava aos cães, seus fiéis ouvintes, que a humanidade precisava aprender a se desapegar dos excessos. Após sua fala, mirou com olhos úmidos sua seleta platéia e agradeceu, pedindo licença para descansar dentro de sua barrica.

Decidi retornar à Terra após esse passeio pitoresco. No caminho, na esquina das Três Marias, fui derrubada por Alice que corria atrás do Coelho que sumiu na poeira estelar em átimo de segundos. Esse sabia ser rápido!

Chorosa, sentou-se ao meu lado, ajudou a limpar o barro brilhoso que grudou em minha roupa e perguntou se eu voltava para casa. Afirmei que sim. Sorrindo, pediu para me acompanhar pois sentia saudades de sua casa, de seus familiares.

Chegamos encontrando uma metrópole vazia, no qual pessoas batiam panela nas suas varandas gourmet gritando: Fora Bozo! Fora! Em outras varandas, alguns lunáticos cantavam o hino nacional ao microfone exigindo a volta da ditadura militar. Um sentimento de déjà-vu tomou conta de mim. Isso me era familiar…

Chorosa, Alice despediu e sumiu no cruzamento das avenidas Ipiranga com São João deixando-me confusa raciocinando com os botões da jaqueta de Sgt. Pepper’s : Que porra é essa?!