5.5

roseli tintin

Enquanto mastigo um pão de queijo e tomo um gole de café, faço uma retrospectiva de minha vida. Não sou dada a esse tipo de coisa mas hoje, em especial, senti esse ímpeto bater forte e parei para refletir.

5.5

Não é sempre que viramos o calendário e damos de frente com esse número. Esboço um sorriso ao lembrar que inferno passei ao me aproximar dos cinquenta. Sofri, chorei, praguejei, lamentei. Sentia que perdia algo de muito valor deixando para trás uma juventude que, na realidade nem aproveitei direito. Não plantei uma árvore, não casei, não tive filhos e também, não publiquei um livro. Pelo menos, não do jeito comercial e tradicional. Tinha tudo para cavar uma bela de uma frustração por tantos sonhos não realizados. Mas quer saber? Após a passagem da menopausa onde todo ritual e simbologia feminina escoou pelo ralo do tempo humano, pouco a pouco percebi que nada disso tinha importância. Observei que nem toda árvore plantada vinga e dá frutos. Confirmei que nem todo casamento é feliz. Aliás, vamos combinar, noventa e nove por cento dos relacionamentos, se resistiram foi por insistência do casal, falta de perspectiva em recomeçar vida nova, preguiça, conformismo e, em alguns bem raros casos, por amor e cumplicidade. Analisei e mais uma vez tive a certeza de que filho, é lindo em fotos retocadas mas, que no dia a dia, é uma eterna guerra para se moldar, criar, transformar uma mera massa de carne, ossos, artérias e cérebro em algo que dê certo. Caso contrário, será um fiasco a mais competindo com tantos outros seres humanos mal formados, desinformados e alienados como vemos diariamente atravessando nosso caminho. Ah! E também tem mais essa confirmação: filho nenhum é certeza de companhia, amor e carinho além de cuidados em nossa decrepitude.

Calma leitor! Não se desespere achando de antemão que me transformei num poço de azedume.

A vida me ensinou que devemos constantemente desenvolver um plano B para tudo. E eu, claro, sendo uma típica canceriana, sempre fui excelente estrategista. Não somente desenvolvi plano B mas o abecedário completo. Gosto de me sentir segura.

Aprendi desde cedo a enxergar a beleza de tudo. Isso não me transformou numa idiota que sorri a toa mas sim, numa pessoa que aposta sempre no melhor. No bom. No acertado. Mas também aprendi e aprendo muito com o erro. Ah! Esse é um grande mestre! Apesar da melancolia ser um traço marcante em mim, tomo cuidados para não transformá-lo num todo. Mergulho de vez em quando para retornar com ideias e personagens para minhas histórias. Procuro sempre cerrar a porta para que ela não saia de vez e tome conta de minha existência. Em doses homeopáticas, é de uma grandeza e serventia única para lembrarmos que somos seres humanos, frágeis e sensíveis. Ela, numa overdose, pode ser fatal.

Hoje, aqui, sentada de frente a tela do notebook, dou graças pela vida. Essa preciosidade. Conquistei coisas importantes em minha vida. Algumas materiais outras tantas ricas numa cifra diferente, mas que representa a minha real fortuna. Amar e ser amada por pessoas muito queridas. Amar sem amarras nem cobranças sabendo que tudo por aqui é passageiro e nada nos pertence de fato. Ao assimilarmos esse ensinamento, aprendemos a viver de forma mais leve, mais solta e com isso, alcançamos um pouquinho da tal sonhada e tão discutida felicidade.

5.5

Meio século e um cadinho mais percorrido. Isso nos dá um parâmetro do que foi nossas vidas e do quanto ainda teremos pela frente ou não, afinal, não sabemos a data de nossa validade não é mesmo?

Ontem à noite, saí para jantar com um amigo/irmão para comemorar antecipadamente meu aniversário. Fomos a um restaurante tailandês que há muito tínhamos vontade de conhecer. Foi uma opção acertada! Unir a arte de comer bem, a um bate-papo saudável e com quem se tem afinidades, é um prazer incrível que todo canceriano aprecia. Essa junção é alimento para a alma. Conversamos sobre trabalho, relacionamentos, vida e sobre nossa amizade de décadas. Voltei para casa de alma leve e radiante!

Amanhã, ao despertar e conscientizar-me da virada no calendário, sorrirei e elevarei meu pensamento em agradecimento por mais um ano de vida. Agradecer primeiramente aos meus pais que me geraram e me formaram esse ser que – se não perfeito – pelo menos em eterna construção. Obrigada Walter e Ilda pelo amor em me criar da melhor forma que puderam com seus valores. Obrigada Vida! Obrigada Deus ou quem quer que seja que criou esse Universo pleno de possibilidades e aprendizado! Obrigada a todos que foram e são meus mestres nessa caminhada terrena.

A vida anda uma merda em todos os sentidos: políticos, econômicos, sociais mas, quer saber? O meu lema segue o que diz aquela canção de Claudio Zoli: Viver é bom demais!!!

E seguirei enquanto  me for permitido. Sorrindo, cantando, chorando, espalhando alegrias. Feliz aniversário Roseli! Tin-Tin!

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Contato com um dragão no paraíso: missiva

cartas caio

cartas caioCaríssimo C.F.A.,

São Paulo acordou envolta numa neblina que me fez lembrar sua região. Quando mais jovem, adorava esse clima frio afinal, nasci nesse período. Junho, mês de festividades, procissão, fogueira de São João. O Santo do meu dia de nascimento. Sabia que meu nome era pra ser Joanina, como reza a tradição de quem nasce nessa data? Ainda bem que meus pais tiveram outra ideia para me nominar. Gosto da sonoridade de meu nome. Nada contra porém, meu nome tem tudo a ver com minha personalidade.

Despertei pensando em você. Olha só que coisa! Tomei meu café e saí munida de casaco de lã, cachecol e luva. Coloquei também uma boina porque o vento está de lascar.

Saí caminhando pela Rêgo Freitas, atravessei a praça Roosevelt, entrei na rua Augusta. Minha intenção era chegar à Avenida Paulista. Caminhando lentamente lembrei que você costumava circular por aqui. Gostava de caminhar. Lembra? Dizia que caminhar te ajudava a pensar e desenvolver suas histórias. Também sou assim.

C., ando muito introspectiva. Talvez devido a idade, excesso de sensibilidade, tenho sentido certo receio – se é que posso chamar assim – de sair às ruas, de circular como fazia antes. Pode parecer papo saudosista, mas, antigamente era mais prazeroso sair à noite, andar pelas ruas, entrar nos locais públicos. Antes, saíamos para ver gente e – claro – ser vista por eles também. Atualmente, transformamo-nos em zumbis tecnológicos.

A “night” continua a mesma. Ferve. A diferença é que as pessoas não se encontram interessadas no ser humano ao lado e sim, nos likes que poderá ganhar em suas redes sociais. Só se preocupam com seus selfies. Aquele lance de sair e paquerar que tanto gostávamos de fazer quando jovens, deixou de ter importância nessa sociedade que privilegia o virtual em detrimento do real. Tenho certeza que, se aqui estivesse, ficaria indignado. Eu estou! O prazer que tínhamos em marcar encontros nos lugares badalados para conversar, se confraternizar, paquerar, não existe mais. É sério! Não estou inventando. Nas redes sociais temos centenas de amigos, porém, quando chamamos as pessoas para um encontro real, todos concordam e, conforme vai chegando o dia, vão comparecendo cheios de desculpas esfarrapadas. Ah! E os poucos que comparecem, dão mais atenção aos seus smartphones na mesa do que ao seu interlocutor ao lado. Broxante!

C., definitivamente estou encalhada feito baleia jubarte na praia. Não consigo me interessar por ninguém e ninguém se interessa por mim. Passei do ponto, tornei-me seletiva e chata. Sinais dos anos. Algumas vezes, quando bate certa solidão, penso em sair e conhecer pessoas mas… Quer saber? Bate uma preguiça! Então conto até dez, abro uma garrafa de vinho, encho uma taça, coloco uma seleção de Inger Marie Gundersen no Spotify, pego um bom livro e ponho pra correr a tal da solidão. Só sinto falta mesmo é de nossa amizade que, infelizmente não aconteceu.

Se tivéssemos nos conhecido, nossa amizade seria como a que tenho com R.P. Amigo-irmão que está ao meu lado há pelo menos vinte anos. Vou te contar uma coisa: se você tivesse tido oportunidade de conhecê-lo, também teria caído de paixão pela pessoa linda que ele é. Formaríamos uma tríade. Uau!! Teria sido massa!

Querido C., acredito que por conta da aproximação de meu aniversário, ando mais melancólica que nunca. Abro-me com você porque sei que de melancolia você entende como ninguém. Sei lá, a idade avançando, a juventude se esvaindo, as rugas e as pelancas se acentuando… Não ri não que isso é sério! Ai meu Deus! Olha só o que escrevo para você! Devo de estar mesmo muito doidona. Não ria! Sei que do outro lado você deve estar se divertindo com minha desgraça mundana. Quer saber? Também acho graça. Choro e rio ao mesmo tempo por saber que você não teve a chance de envelhecer feito eu. Cara, você foi embora muito cedo! Essa vida é mesmo muito injusta. Que merda! Estou deprimida novamente. Nem posso culpar os hormônios como fazia antes. Até eles me abandonaram. Foram-se assim como a melanina de meus cabelos que agora se encontram brancos feito flocos de neve. Mas…Sabe que gostei deles assim? Fiquei cool! Sempre gostei desse termo: Cool.

Ah! Outro dia, sabe quem encontrei? Sua amiga Marcia Denser. Nossa! Conversei bastante com ela sobre literatura e sobre você. Sua orelha não ardeu? Falamos muito viu! Ela confessou que também sente demais sua falta.

Retornei ao meu apê e estou aqui, sentada de frente a janela do décimo andar observando a paisagem urbana de prédios e carros que passam sem cessar. Interessante, ao longe ouço um som de britadeira, buzinas, e outros sons que não consigo identificar. No entanto, a paisagem parece estática apesar de toda movimentação. E eu, aqui presa em mim mesma e nessa inquietação que não consigo identificar muito menos eliminar. Veja bem meu querido, não estou infeliz, contudo, também não me encontro em paz. O que será? Estarei com problemas psíquicos? Não desejo falar com ninguém. Lembrei  de quando pequena, às vezes tinha a sensação de que diminua, diminua até virar um nano grão no universo. Era uma sensação – ao mesmo tempo curiosa, mas que me dava temor de ir até o fim.

Ah! Voltei a reler seu livro Os dragões não conhecem o paraíso. Não canso de ler esse livro cara. Até baixei ele em meu note. Pela enésima vez me emociono diante da beleza do conto A beira do mar aberto. Cara! O que é esse conto? Mexe com minhas entranhas. Puta que o pariu! Falando nesse livro, sabia que fui apresentada à sua obra através de meu amigo R.P. (ele novamente), que me brindou com seu conto Os sapatinhos vermelhos. Diz ele que sentiu que esse conto bateria fundo em mim. E acertou!

Tinha muito mais a falar para você, mas, vou parando por aqui para não me tornar excessivamente carente e chata. Sabia que sou espírita? Pois é, sou. Muitas pessoas se admiram quando ficam sabendo desse meu lado espiritual uma vez que – escritor que se prese – deve ser ateu/atoa/existencialista. Só posso adiantar que sou tudo isso e muito mais. Você bem sabe que somos uma somatória de facetas. Para escrever temos de ser muitos, vários, jamais rasos. E sem medo de mergulhar. Mesmo que não se saiba nadar. Feito eu.

C., perdoe-me se fui extensa nessas linhas. Tenho uma coleção Britânica de assuntos que gostaria de trocar com você. Veja bem: sei que a vida continua desse outro lado. Sei também que tudo é infinito mesmo que a finitude seja nossa estação final. Um dia, se o Todo Poderoso permitir, quero sentar de frente a você e, sorrindo e abaixando o olhar de timidez inicial, começar nosso papo dizendo:

-Oi C., finalmente estamos tête-a-tête para oficializar aquilo que já estava decretado  por um Ser Superior Maior. Obrigada por me esperar. Trago muitas notícias da Terra. Tem um tempinho para me ouvir?

Olhando-me com seus olhos graúdos e devoradores me responderá:

-Guria, tenho todo o tempo do universo. Desembucha!

E juntos cairemos numa risada sem fim.

Anoitece em Sampa e a realidade grita por minha atenção.  Paro desejando esticar mais um bocado.

Tenha um resto de eternidade de muita paz e – faz um favor – , quando cruzar com Cazuza diz que também aguardo um dedo de prosa com ele . Ah! Favor nº2: caso trombe com meu Menino Maluquinho circulando de longboard por aí, diga-lhe que tia Lilica o ama eternamente e pra ele se comportar enquanto não chego. E que sinto saudades de suas aventuras na cozinha me preparando una pasta al pesto.

Com amor e carinho,

Roseli

 

Imagem: Google

Com a “macaca”

Sou crica! Chata assumida e feliz. Já tem um tempinho que deixei de assistir TV aberta. Principalmente a Plin-Plin. Não tenho mais tolerância com as formas de interpretações globais. As “mocinhas” são irritantes, falsas, têm uma voz que agride meus ouvidos e quando no cio, costumam ter crises de bronquites que me dão enjôo.

Contudo, outro dia minha internet deu pane e não pude acessar minhas séries da Netflix.

Desespero total! Respirei fundo e, como tinha outros afazeres, deixei a TV ligada e saí da frente da telinha. Envolta por inúmeras atividades domésticas como preparar minha marmita (é people, eu como de marmita sim!), colocar roupa pra lavar na máquina, dar uma geral no apê (não teria tempo no feriado), aguar minhas plantinhas (adoro!)…

O tempo foi passando, aquelas vozes rolando na TV e eu, aos poucos fui me conscientizado. Como essas novas atrizes globais são chatas!

Pensei comigo: Cara, se fosse homem não me apaixonaria por nenhuma delas só pelo fato de terem essas vozes esganiçadas e esse eterno ar de, de, de…Ah, sei lá! Todas uns cocozinhos. Prontofalei! Veja bem, nada contra as pessoas em si que são. Não mesmo. Até porque, nem as conheço. Mas enquanto atrizes, Mon Dieu! Tão rasinhas nas interpretações de si mesmas. Afinal, todas elas são atrizes de um papel só. Pelo menos é essa a impressão que tive dos trabalhos passados que cheguei a tentar assistir. Não deu.

Essa da novela das 18h, me desculpe mas o único papel que gostei foi de Emília pequena. Boneca.

A Emília grande é chata. Tira o fôlego. Não por ser sensual mas, porque é canastrona. Boneca canastrona até se torna engraçadinha. Atriz adulta e canastrona, haja paciência!

Olhar vidrado e boquinhas em bicos, desculpem-me o termo mas, dá no saco!

A outra (mais experiente s.q.n.), da novela das 19h, com aquele eterno bocão escancarado, é dose pra leão…Matar! Oh coisinha irritante! Sorry a franqueza, não gosto! E a que faz papel de gêmeas (a boa e a má. sempre isso), verdadeiro mousse de chuchu sem sal. Affê!

O tempo passando, as novelas findando, eu me irritando até que passou uma cena da mini série que nem guardei o nome. A bonitinha da vez, aquela com nome francês (olha, até rimou!) só sabe fazer cara de cachorro caído da mudança e biquinhos (o eterno da BB). E o que falar dos gemidos e engasgos quando sofrem? Me desculpem, na vida real nunca vi ninguém sofrer dessa forma. Padrão Global! Somente nos estúdios Projac. E o que falar do assunto batido “Ditadura brasileira”? Sou cidadã consciente (na medida do possível), li muito sobre esse assunto quando fiz meu TCC e essa glamourização do assunto é inverossímil.  E o que dizer das trilhas sonoras? …Chato.

Enfim, ao término dos meus afazeres, tratei de desligar a televisão após uma busca infrutífera por alguma programação que não me ferisse mais a inteligência. Liguei o computador para escrever um pouco e acessei minha seleção musical no Spotify para acariciar um pouco meus ouvidos tão maltratados pela TV.

 

Escrevi essa crônica já tem um tempinho e estava perdida nos rascunhos. Publiquei porque ao ler, constatei que não mudou absolutamente nada. Tudo continua como antes ou seja, uma B…Ôpa! Tem criança por perto?

Exercitando

Vozes abafadas lá fora. Cá dentro, mentes focadas no estudo e em seus smartphones. Sons de páginas viradas. De livros, cadernos e revistas. Meus dedos desgastados de tanto manipular livros, encontram-se ressequidos e enrugados. Mas continuam a virar página a página do livro de Murakami. Romancista como vocação. Sua leitura me leva a um balanço tímido se devo aventurar-me num território tão árido. Devo ser leviana ou totalmente sem noção para me meter nesse meio. Sei de antemão que não serei bem recebida. Muitas críticas hão de cair sobre meus carcomidos ombros de balzaquiana. Caso tivesse bom senso, passaria longe. Recordo da leitura que fiz do livro de Stephen King sobre sua escrita. Lembro também de outros livros lidos: Para ser escritor, de Charles Kiefer, A arte de fazer artes, de Gloria Pondé, Truques da escrita, Howard S. Baker, Escrevendo com a alma, Natalie Goldberg – esse último, tenho grande estima por ele – lido  mais de uma vez. Se aprendi algo? Não sei dizer. Talvez sim. Talvez não. A única certeza que trago – agora de forma consciente – , é que não desejo copiar ninguém. Tenho imensa admiração pela escrita de centenas de escritores no entanto, não quero ser cópia de nenhum deles. Vivo em busca de um estilo próprio. Não almejo estar lado a lado dos grandes. Sou humilde ou talvez relaxada, destituída de um plano de vida literário. Na realidade, sinto-me até mal em pensar-me escritora. Dá a impressão de que estou profanando um espaço sagrado ao qual não faço parte. Sei lá. Paranoia? Quem pode dizer. Falta de comprometimento? Talvez. Preguiça? Com certeza. Insegurança? Todas confessas. Enfim, deixa eu encerrar minhas divagações diante dos alunos estudando aqui na biblioteca. Meus olhos cansados ardem após uma noite não dormida e meu corpo pede descanso. Mais um dia se encerra. Mais uma data no calendário roda e meu desejo de retomar a escrita parece aos poucos adquirir força após um período de inércia. Amanhã tentarei novamente.

Tentativa

Quero retornar. Juro. Se precisar até faço cruz e beijo pra selar meu desejo.

Mas não consigo. Está difícil sair dessa paralisia de vida. Acho que é porque quando morre alguém muito querido, boa parte de nós se vai junto. Olha só, está vendo como fico? Basta tentar e logo estou em prantos. Querendo trincar e virar pó para me perder no Universo. Talvez, quem sabe, virando poeira estelar deixe de sofrer.

É. Eu sei. Sei de tudo isso que você teima em me dizer. Agora te pergunto: quem manda no coração? Eu é que não. Ele – pelo menos o meu – tem vontade própria. Vive mandando às favas a lógica e o bom senso. Coração só quer saber de bater acelerado. Esse negócio de manter-se em equilíbrio não é com ele.

Varias vezes tentei sentar, focar e escrever algo que valha a pena publicar. No entanto, a tela, após horas, permanece em branco. Então desisto, levanto-me, desloco meu corpo para a frente de uma tela maior e ligando-a, desligo-me da realidade por mais algumas horas, anestesiando meus sentimentos e fingindo-me de feliz. Até consigo rir!

Outro dia chorei muito… Pensei até que morreria afogada em minhas próprias lágrimas. Uma revolta imensa tomou conta de mim. Revolta com a vida, com a morte, com Deus. Pela primeira vez contestei seu poder de decisão sobre nossas vidas. Pela primeira vez tive vontade de mandá-lo a merda. Pela primeira vez, ainda chorando, pedi perdão pelo grau da blasfêmia. Pela primeira vez tomei consciência de minha confusão mental e emocional. Pela primeira vez constatei minha pequenez. E chorei até esgotar toda água de meu organismo e me transformar numa rosa do deserto.

Há dias vivo, trabalho, como, bebo, durmo, defeco. Seca. Por dentro e por fora onde minha pele já demonstra rachaduras e meu interior, há muito se trincou e pouco a pouco, se esfarela por dentro.

Está vendo só? Ainda não estou pronta para voltar. Continuo não sabendo o que escrever e como escrever. Acho que minha pretensa carreira de escritora terminou antes mesmo de começar. Para se escrever bem é preciso ter alma, calor, vontade. No momento não tenho nenhum nem outro. Sou apenas uma sombra daquilo que um dia pensei ter sido.

Vou me afogar num destilado ali ao lado lendo Hemingway ao som de Chet Baker.

Se sobreviver, volto.

Balanço geral

Todo ano a mesma coisa. Os mesmos rituais. Os mesmos rostos eufóricos a desejar o melhor. E assim, escapando do estresse que é enfrentar lojas e filas, além do mal humor de balconistas que trabalham cerca de dezoito horas em péssimas condições (sei bem porque já fui uma), perder horas preciosas no trânsito ou no aperto das conduções coletivas. É chato, é desgastante mas, quando nos reunimos para se confraternizar, tudo some: cansaço, nervosismo, mal humor, noites mal dormida.

Fica a leveza de espírito em saber que conseguimos finalizar mais um ano de muito trabalho, dissabores, perdas, falta de dinheiro e inúmeras incertezas. Mantêm-se a certeza de que, o que vale mesmo, são os momentos que passamos juntos aos que amamos e re-afirmamos mais um ano de contrato.

Esse ano, mais do que outros, tenho a certeza de que devemos nos esforçar para fazer cada momento único e rico em alegria, tolerância e amor. Não sejamos econômicos em expressar carinho e sorrisos. Como seres em eterna mutação, acredito que nossa permanência aqui no plano terreno é bem passageiro e – por conta disso mesmo – precisamos nos conscientizar que precisamos amar, mas amar muito. Não esse amor Doriana que a indústria marqueteira propaga e sim, o amor verdadeiro que a tudo suporta e nada cobra. Apenas aceita.

Estou parecendo piegas? Pode ser caro leitor. Quer saber? Bendito os que ainda têm a capacidade de ser piegas e não se envergonha de expressar o que pensa ou sente.

A humanidade está carente e precisa se despojar dessa roupagem fake no qual todos devemos aparecer belos, magros, bronzeados e felizes. Abaixo a maquiagem. Desejo homens e mulheres de cara e coração limpos. Sem artifícios. Apenas humanos.

Difícil definição

henrique

Mudar o verbo da noite para o dia transformando alguém tão caro e próximo num personagem do passado é doloroso. Alguém que dias atrás se encontrava ao nosso lado conversando, rindo, fazendo planos, enquanto traçava una bella  pizza ou un talharim ao pesto – seus pratos preferidos. Dói.

Agora, o que resta é um bolo indigesto parado na garganta diante do fato consumado. Nunca em minha vida senti tamanha dor. Nunca.

A inquietação que assola minha mente e coração parece que vai explodir a qualquer momento da mesma maneira que implodiu dentro de si, pondo término a um ser que tinha urgência em viver pois parecia saber que havia pouco tempo.

Meu menino que começava a amadurecer e cultivar ideias de fincar raízes, formar família, ter filhos. Esse era seu sonho. Contudo, ao mesmo tempo que alimentava tais quimeras, se jogava de cabeça em tudo o que pudesse fazer. Não quis seguir com os estudos mesmo sendo um Q.I. alto comprovado por especialistas. Contrariando a todos, dizia não poder perder tempo.

Tempo…

Sempre esse senhor a direcionar nossas vidas. E de alguma maneira que nos foge ao entendimento, ele sabia que precisava correr e dar conta de fazer sua história o mais completa possível. E deixou. Um Best Seller digno de aventuras Harry Potterianas, seu personagem preferido desde a infância. Havia total identificação, inclusive física.

Tornou-se precoce cidadão do mundo . Uma inquietação sem fim o movia a vários lugares. Viveu em constante busca de seu Graal.

Dono de mil talentos, desenhava quadrinhos e até se aventurou no mundo dos Tattoos. Aprendeu a cozinhar e sabia preparar pratos com requintes profissionais. Circulou por todas as esferas. De malandros e hippies da Avenida Paulista – sua favorita – ao mundo da moda, dos artistas de teatro, TV, aos grupos religiosos cristãos.

Família…

Essa, apesar de ser sempre um ponto de atritos e divergências, era também seu porto seguro. Todas as vezes que sentia-se perdido ou inseguro, era para ela que se voltava. Renovava suas forças, alimentava-se do amor incondicional que todos lhe tinham, respirava ares de amor e retornava para o mundo.

Em nosso último encontro, enquanto saboreávamos uma pizza, ele perguntou se eu já havia escrito algo sobre ele. Pensei e respondi que sim. Ele perguntou: Sério mesmo? Escreveu? O quê? Respondi sorrindo: se quiser saber vai ter de ler meu blog inteiro e se identificar. Tenho certeza que se reconhecerá. Mas terá de ler.

Não teve tempo. E eu, desde então sigo com o mesmo aperto na garganta e coronário e com os dedos enrijecidos pela dor de perdê-lo. Tão cedo…

Caso tivéssemos escolha, teria cedido de bom grado o tanto de vida que me resta. Já vivi bastante, conquistei muitas coisas, vivenciei tantas outras. Só pelo prazer de vê-lo se realizar, casar, ter filhos e levar uma vida simples no campo. Sem correrias nem atropelos.

Uma pena a vida não ser ficção caso contrário, já teria deletado essa parte da história e dado um rumo diferente. É meu menino, não deu.

Só deixo aqui uma pergunta que – por mais que busque resposta, não encontro uma que me satisfaça: quem ou o que preencherá essa imensa cratera de um metro e noventa e dois que se abriu em meu peito?

Talvez, repito novamente Talvez, daqui um tempo, a quantidade de lembranças que você espalhou por toda parte ao tombar inerte no chão frio me satisfaça. Talvez, com paciência e coração mais compassado, consiga montar o seu quebra-cabeças e perceba o quanto foi bonita sua passagem em nossas vidas. Mesmo que meteórica. Você passou. Sua luz permaneceu.

 

Imagem: Arquivo particular

Cadê o ouvinte?

roseli falado

Sou uma sem noção assumida. É sério! No entanto, minha “sem noção” tem uma certa consciência das coisas e, mesmo assim, insisto. Exemplo?

Falar com determinadas pessoas sobre assuntos que não interessam a elas. Observar que enquanto narro entusiasmada, desviam o olhar de forma ansiosa querendo escapar de mim sem ter como e, mesmo assim, continuo a falar,falar,falar…Até que fico com dó de fazê-las sofrer e caio fora. Deve ser coisa de canceriana.

Contudo, confesso que às vezes fico chateada com a falta de interesse delas…

Quando dou por mim, percebendo que a criatura não está nem aí, calo-me para ver a reação da mesma. Não dão continuidade a conversa ou simplesmente saem deixando-me sozinha ou, pior, começam a falar de si demonstrando que realmente não prestou atenção numa única palavra que expressei. Minha casa cai.

Puta que o pariu!

Será que é tão difícil assim, ouvir o outro? Demonstrar o mínimo de interesse, nem que seja por educação? Eu consigo fazer isso brilhantemente e talvez, por isso mesmo, sou sempre solicitada como ouvinte. Tornei-me com o passar do tempo um verdadeiro pinico ambulante onde todos despejam seus excrementos existenciais sem nem ao menos olhar em meus olhos e saem aliviadas. Bom né? Vou te contar leitor. Ah! Desculpe, está interessado em me ler? Senão…Ah! Escrevo mesmo assim. Caso não desperte interesse é só mudar de blog ou sair para ler as baboseiras do Ofuxico. Garanto que eles têm mais leitores que eu por aqui.

Olha só, desviei o assunto e acabei por esquecer o que ia falar. E agora?…Acho que estou envelhecendo. Minha memória não é mais a mesma. Apagão geral. Já sei, nem o Universo muito menos os milhões de bites do computador desejam ouvir meu nhé-nhé-nhé. Muito mi-mi-mi pra seres tão frios e sem sentimentos. Báh!

Esquece porque eu já esqueci e tenho mais o que fazer por aqui. Só resta lembrar o quê.

Talvez…

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Chego a essa altura de minha vida sem ainda saber o que desejo dela. Ou, por outro lado, o que ela espera de mim. Questão que, creio eu, seja difícil para qualquer ser humano responder. As religiões trazem respostas prontas que a grande maioria toma como verdades absolutas. Eu, de minha parte, refuto todas. Não que seja descrente, no entanto, talvez por pensar demais, encontre mil opções como possíveis respostas.

E como os antigos filósofos: penso, logo existo e quanto mais sei, mais sei que nada sei.

É bem por aí. É como tentar enxugar gelo. E por que cheguei a essas constatações filosóficas aqui expressas? Sabe que não sei? Mais uma para refletir e tentar chegar a uma (im)possível conclusão. Talvez movida pela minha eterna vontade de dominar a escrita. Essa maldita que se instalou em minhas entranhas e vive a se esconder nas brumas. Talvez…

Pode ser que instigada pelo desejo de registrar o que vai em meu interior. Aquilo que não confesso a ninguém mas, que através da escrita , torna-se mais fácil revelar. Contudo, confesso que quanto mais escrevo, mais confusa fico e nesse emaranhado de confusões, sigo tentando passar alguma mensagem – mesmo que boba – para meus leitores. Talvez eles se encontrem tão confusos quanto eu e isso tudo que deixo por aqui, sirva de conforto e a certeza de que não estamos sozinhos. Talvez…

 

Imagem: Maximo Mancini

Memória: universo intocável

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A manhã inicia envolta numa densa neblina. Ao abrir a porta que dá para o quintal, recebe uma lufada de vento gelado. Sorri! O galo da vizinha da rua debaixo canta animado. Alguns bem-te-vis e beija-flores voam ao redor do jardim e da horta que seu pai cuida tão bem. Há uma fina camada de gelo na plantação.

Com seus pezinhos envoltos numa alpargata gasta e uma meia listrada e rota, dá alguns passos no frio piso de cimento queimado. Quase escorrega, porém, consegue se equilibrar. Respira fundo e solta o ar pela boca. Diverte-se com a fumaça de ar quente que sai. Isso é inverno para ela! Corre para o balanço que seu pai instalou no fundo do quintal. Passa as pequenas mãozinhas na tábua molhada, esfrega-as na calça de flanela xadrez e senta balançando feliz. O dia promete!

Sua mãe grita da cozinha chamando todos para tomar o café da manhã. O aroma do café coado tira a pequena de seus devaneios infantis. Pula do balanço e entra pela cozinha para ocupar seu lugar a mesa. Todos reunidos, dá gosto ver seu pai – homem robusto, saudável, fartos bigodes negros – de olhos brilhantes feito os das crianças. Assobia de alegria ao ver as broas de milho quentinhas, o café aromático, o leite espumoso na jarra, a manteiga, o pão francês quentinho que sua mãe trouxe da padaria da esquina.

Sua mãe…

Figura ímpar. Mulher batalhadora que madruga para oferecer o pouco de conforto material aos seus. Mesmo com a renda escassa, prima por manter a família bem alimentada. É sua maneira de expressar seu amor.

Apesar de magricela, a menina é boa de garfo. Trata de comer sua broa, sua fatia de pão com manteiga, sua xícara de café com leite e a seguir, um pouco de achocolatado. Coisa rara que só acontece nessa época quando esfria. A criança estremece de contentamento ao sentir a quentura e o doce do chocolate. O dia promete!

O resto da manhã foi de muita tarefa na cozinha. Sua avó materna e mais duas tias chegam para reforçar as atividades. Forno aquecido, mais broas assando, um bolo com cobertura de pasta americana sendo confeccionado pelas mãos hábeis de sua tia, quituteira de fama no bairro. Do outro lado da cozinha, sua outra tia manipula a massa da bala de coco. A guria ama ficar sentada quieta olhando a destreza dela a esticar – com velocidade  – a tira de massa para não açucarar.

Sempre pensa: Minha família só tem artista!

A transformação da tira termina com as balas já cortadas descansando no frio mármore da pia, prontas para degustar.

Pura magia! A tia sempre oferece uma bala fresquinha à ela que, salivando, chupa bem devagarinho para que a bala não acabe nunca. Do lado de fora, no quintal, seu pai cozinha os pinhões. Outra iguaria que somente nesse mês do ano surge. Ela gosta de ver o pai mexendo no caldeirão com uma colher de pau e depois – com eles já cozidos e escorridos – descascar deixando-os peladinhos prontos para o banquete de logo mais. Sua avó, como sempre, se encarrega do feitio da paçoca. Posiciona o pilão centenário no meio do quintal e, munida de açúcar, amendoim torrado, farinha de mandioca e sal, deita o bastão para transformá-los em paçoca. Enquanto soca os ingredientes, dona Maria entoa uma cantoria que alegra o ambiente fazendo todos relembrar: Hoje é dia de festa!

De olhinhos vidrados na figura da avó com seu vestido florido azul marinho, avental e lenço prendendo os cabelos, chinelos nos pés – mesmo no inverno – balançando sua barriga cantando e rindo ao mesmo tempo. A garota sorri ao se aproximar da avó e pede o enorme bastão para socar um pouco. Arrisca cantar e ambas caem na risada com o desafino e a voz diminuta da menina. Quando terminam, comem a paçoca às colheradas. Coisa boa vó! – diz a garota com a boca cheia de doce.

Às dezesseis horas, a mãe surge à porta da cozinha chamando as crianças para o banho.

Está frio pra tomar banho mãe! – responde o irmão que não se dá muito bem com a água.

Não quero saber se está frio ou quente. Já pro banho moleque! Até as cinco quero todos de banho tomado e vestidos.

Quando a mãe fala nesse tom de voz não tem discussão. Gostando ou não, todos obedecem. Enquanto a gurizada está no banho, alguns homens da família – tios e primos – chegam trazendo lenha para montar a fogueira. Seu Pedro, o avó materno, passeia pelo quintal verificando tudo de mãos para trás pensativo. É seu jeito mineiro de ser. Confere tudo, afinal, também tem interesse que tudo saia perfeito.

Dezoito horas. Frio intenso, contudo, a temperatura entre todos os presentes encontra-se bem alto. No portão principal, seu Pedro recebe familiares que chegam abraçando-o. Ele é um dos aniversariantes do mês. A enorme mesa montada no quintal – na parte coberta – tem uma toalha estampada e uma vasta seleção de gostosuras juninas: bolo de fubá, de milho, broinhas, pé de moleque, paçoca, balas de coco, pinhão. Tudo distribuído ao redor do enorme bolo de aniversário coberto de massa americana colorido. Do outro lado, uma mesa menor com jarras de quentão, K-suco de uva e morango, garrafas térmicas com achocolatado e café. Na fogueira já ardendo em todo seu potencial, espetos com batata doce assando. Na vitrola, um disco entoa canções…

Capelinha de melão
é de São João.
É de cravo, é de rosa, é de manjericão.
São João está dormindo,
não me ouve não.
Acordai, acordai, acordai, João.
Atirei rosas pelo caminho.
A ventania veio e levou.
Tu me fizeste com seus espinhos uma coroa de flor.
Em pouco tempo a casa está lotada de familiares e amigos celebrando. O mês de junho é repleto de aniversariantes. A começar pelos avós, seu Pedro, seu Benedito, terminando pela neta, a menina magricela que hoje, resplandece de alegria por ver tantas guloseimas. Em frente ao bolo, seis pessoas felizes fazem seus pedidos antes de assoprarem as velinhas. O pedido da menina – talvez pela pureza infantil ainda não corrompida pelas mazelas de adulto – só deseja que o resto da vida seja uma grande e ininterrupta festa de aniversário.
Papai do céu, deixa eu ser eternamente criança!
Enquanto faz o pedido, uma estrela cadente atravessa a noite escura sacramentando sua solicitação.
Gente, lembrando dessas passagens de minha infância percebo que Papai do Céu atendeu meu pedido naquela noite fria: não perdi de vista minha menina magricela, sardenta e sonhadora. Não cresci muito no tamanho, continuo sonhadora e transformei meus sonhos em narrativas. E continuo amando festas juninas! Os balões, hoje solto na minha imaginação, afinal, consciência é necessário. E por aqui, eles continuam coloridos e belos a subir pelo céu de junho.