Confesso: eu vivi

Imagem licenciada: Shutterstock

Saio da minha terceira ida ao cinema para assistir Bohemian Rapsody, filme sobre a banda de rock inglês Queen, liderado pelo performático vocalista Freddie Mercury. Caminho lentamente pelos corredores lotados do shopping lotado de famílias e casais passeando. Feito autômato, mal ouço os comentários entusiasmados de minha irmã, também fã da banda. Mas não uma fã como eu.

Sorrio ao lembrar a experiência que jamais contei a ninguém. Tornou-se todos esses anos, meu, nosso segredo. Até mesmo porque, se contasse ninguém acreditaria. Uma vez que já tinha a fama de doida, preferi me poupar e manter esse segredo só para mim.

Após todos esses anos, relembrar, mais parece uma sonho. Talvez tenha sido mesmo e eu é que preferi acreditar que aconteceu. Mas no fundo, bem no fundo, sei que aconteceu.

Março de 1981, encontrava-me em meu segundo emprego, e desabrochava para a vida adulta aos dezoito anos. Esse mês ficou marcado pois vivi algumas experiência que se tornaram únicas e foram divisores de água no que fui e o que passei a ser depois. Trabalho, dinheiro próprio, primeiro show na vida. E abri minha temporada de shows com nada mais, nada menos que o show internacional que abalou São Paulo: Queen. Aconteceu nos dias 20 e 21 de março no estádio do Morumbi. Fui com minha irmã no dia 20. Aquela data foi mágica. A euforia de se ir a um estádio pela primeira vez, a massa humana seguindo o mesmo rumo com as mesmas expressões de alegria e ansiedade, o atravessar os portões e adentrar um campo que se tornaria por algumas horas, uma fantasia plena de melodia, dança, alegria, emoção. Consegui me embrenhar na multidão arrastando minha irmã e conseguimos assistir todo o show bem na frente do palco. Uauuuu!!!

Mas não é do show que desejo falar. Foi estupendo, quase consegui chegar até eles, para entregar meu inocente desenho que fiz de toda a banda. Tinha como meta, entregar em mãos no camarim. Driblei forte esquema de seguranças e com ajuda de uma jornalista camarada, cheguei até a porta do camarim, onde estavam concentrados após o show. Morri na praia. Não me deixaram entrar mas, garantiram que entregariam em mãos para Freddie. Resignada e frustrada, sai ao encontro de minha irmã que ficou do lado de fora me aguardando.

Naquela semana, trabalhando, ouvi uma conversa de minha chefe com seu marido que mantinha uma galeria de artes bem ao lado da boutique onde trabalhava. Ele confidenciava à ela que ficaria na galeria até mais tarde para receber uma visita internacional que havia demonstrado interesse em conhecer obras de artistas paulistanos. Ela perguntou quem era e ele respondeu: um vocalista de uma banda de rock que está em São Paulo. Na hora fiquei alerta e procurando ficar mais invisível, me aproximei da porta para escutar mais. Meu coração subiu para a boca tamanha expectativa de achar que poderia ser mesmo Freddie Mercury a visitar a galeria ao lado do meu trabalho e – mais ainda – , ao lado de minha casa! Era sorte demais!

Às dezoito horas, despedi-me de todos e segui para casa. Mantinha uma cópia das chaves da loja pois costumava abri-la pela manhã. Aguardei todos saírem e, após alguns minutos, me certificando que a loja estava vazia por completo, retornei e entrei sorrateiramente me escondendo no forro da loja que tinha ligação com a galeria afinal, era uma construção única. Pela primeira vez, não me importei com a possibilidade de estar dividindo o mesmo espaço com diversas lagartixas, minha grande fobia. Soube através da conversa do galerista, que a condição para ele vir seria ter acesso a ela sem ninguém por perto. Inclusive ele, que deixaria a porta aberta e esperaria no bar em frente. Só retornaria após o cantor escolher as obras de arte que levaria como souvenir para Londres. Soube que era um hábito dele fazer esses passeios e compras por todo lugar que fazia turnê. Acocorada no forro, respirando ar mofo e empoeirado, retive a respiração ao ouvir a porta principal se abrindo. Algumas vozes dialogaram em inglês e depois, silêncio. Não conseguia enxergar ninguém. Por instantes pensei que tivessem ido embora mas, quando já pensava em sair daquela posição incômoda, eis que a figura ímpar surge em meu campo de visão segurando um quadro Naif com os olhos brilhantes. Parecia hipnotizado pelo que via. Também me encontrava em estado hipnótico quando aconteceu o que não esperava: do nada, ele elevou seu olhar em minha direção. Perguntou: Quem está aí? Saia!

Acabei descendo e – muito envergonhada -, pedi desculpas num inglês bem sem vergonha.

Me encarou por alguns minutos num silêncio constrangedor analisando minha pessoa magricela e suja de pó. Até que movendo os lábios numa atitude de quem queria segurar o riso, posicionou o quadro que segurava ao lado de outros já selecionados e, colocando suas mãos na cintura, caiu numa gargalhada sem fim. De início fiquei sem graça mas, contagiada, caí na gargalhada.

Ficando sério, perguntou meu nome e idade. O que fazia lá em cima? Me espionava ou queria roubar a galeria? Rimos novamente. Fez uma mímica para que sentasse num sofá que havia na sala. Sentei e fiquei olhando para minhas mãos. Mal conseguia pensar. Meu Deus!!! Estava ao lado de meu ídolo e não sabia o que fazer nem dizer! Surreal.

Acendeu um cigarro e perguntou se queria fumar também. Sorri mas declinei no que ele respondeu: Faz muito bem menina. Cigarro mata.

Cantarolei baixinho Lily of the Valley e ele me olhou espantado. Sorriu e cantou em dueto comigo. Óbvio que não era páreo para ele mas cantamos a canção inteira e rimos novamente.

Mostrei algumas telas que gostava inclusive duas do marido de minha chefe e ele concordou comigo. Disse que eu tinha bom gosto. Ao finalizar suas escolhas, virou-se para mim e disse:

Do you know what? I like you a lot! – Dando uma última tragada em seu cigarro, apagou, virou-se e me envolveu num abraço caloroso. Despediu-se de mim e, da mesma forma que entrou, saiu. Fiquei parada no centro da sala de exposição entre inúmeros quadros Surrealistas e Naif separados por ele sem saber o que pensar ou fazer. Ouvindo vozes se aproximando, saí rapidamente de cena subindo para o forro e retornando para a boutique até que todos se foram. Observando a rua vazia, saí da loja e entrei em casa para levar uma bronca federal de minha mãe.

– Onde esteve até essa hora menina? Quer matar sua mãe de preocupação? O que fazia na rua?

Com os olhos marejados de emoção, sorri e disse a ela:

– Sonhando mãe, sonhando… Quer saber? Sonhei o sonho mais lindo de minha vida!

Peguei-a pelas mãos e cantando Seaside Rendezvous, dei alguns passos de dança com ela.

Balançando a cabeça sorrindo, disse que eu não tinha jeito mesmo.

– Deite de vez e continue sonhando na cama.

Essa noite não preguei os olhos.

Essa é minha homenagem a esse grande cantor e compositor e, acima de tudo, grande roqueiro que marcou minha adolescência. Homenagem também ao Rock enquanto estilo musical e filosofia de vida.

Trilha sonora de uma existência

Imagem licenciada

Quando a vida pesa demais, ouço música. Quando ela sorri para mim, comemoro ouvindo e cantando. Para dar conta das tarefas domésticas, som na caixa maestro.

Devo ouvir música desde o embrião. Meus pais sempre ouviam rádio e meu pai em especial, adorava boleros, tangos, salsas e chorinhos.

Em minha casa, durante a infância, podia faltar mantimentos no armário mas música jamais.

Cresci acumulando trilhas sonoras das mais variadas. Na infância, a turma da Jovem Guarda. Não perdia um programa e sabia cantar todas as canções e a coreografia da turma do Roberto. Mais tarde na adolescência, descobri as canções internacionais cantadas primeiro na vozes dos brasileiros Christian, Mark Davis, Tony Stevens e Morris Albert. Sabe quem são? Mocinha, em meados de 1977, no antigo ginásio, meu primeiro estremecimento musical: Pink Floyd. Ouvir o som do LP The dark side of the moon foi para aquela menina magricela, o primeiro divisor de águas sonora. Extasiei-me!

No ano seguinte, outro impacto. Esse, me causa arrepios até hoje: A night at the opera, da banda inglesa Queen. Pode parecer clichê mas, quando ouvi pela primeira vez Bohemian Rhapsody, simplesmente paralisei. A princípio não compreendi o que era aquela música mas, a necessidade de ouvi-la mais vezes me levou a atravessar a passagem da galeria onde trabalhava e entrar na loja de disco para perguntar que música era aquela e quem a cantava.

Trago ótimas e carinhosas lembranças desse período. A amizade com os rapazes de lá e os discos que fui colecionando ao longo dos anos, foram muitos. Infelizmente, as pessoas se foram. Alguns se mudaram de cidade, outros partiram dessa esfera, outros, simplesmente evaporaram no ar. Nunca mais tive notícias. Restaram as lembranças que são muitas e os LPs que, mesmo amarelados pelo tempo, estão em perfeito estado e tocam que é uma beleza!

Fã ardorosa que me tornei, a espera por cada trabalho novo me deixava com uma palpitação boa. Trabalhava com gosto para ter um dinheirinho extra para comprar e aumentar minha coleção. Depois, claro, vieram muitos e muitos grupos musicais e cantores que fui descobrindo e me apaixonando pelo som que faziam.

No âmbito musical brasileiro, a descoberta de Elis Regina foi outro momento marcante. Que voz e interpretação era aquela? Trago em minha coleção basicamente toda obra que a doce “Pimentinha” lançou em vida. Que primor! Na mesma época comecei a comprar também os discos da desvairada “Ovelha Negra” Rita Lee. Identificação total com sua porralouquice. Mesmo que eu demonstre por fora ser uma pessoa clássica e reservada, meu instinto animal é roqueira e ela, representa maravilhosamente o rock brasileiro. Ainda mais na pele de mulher. Identificação total.

E o que dizer da minha descoberta e ingresso na música clássica? Mais nova, achava ópera e música instrumental uma chatice só. No entanto quando despertei para a beleza e riqueza delas, mergulhei fundo e fiz minha coleção com todos os compositores e suas obras. Um dos que mais me impactou foi Mozart com sua obra Réquiem em ré menor. O que é aquilo? Foi o que pensei ao ouvir pela primeira vez. Dormi muitas noites ao som desse réquiem. Que virtuose! Que talento para compor algo tão belo!

Independente de ser uma missa fúnebre, ela não me entristece. Pelo contrário, ela me leva para lugares que somente uma música pra lá de perfeita pode te levar. Não tenho nem palavras para descrever o que sinto ao ouvi-la.

Depois vieram tantos outros como por exemplo, Astor Piazzolla. com seu sofisticado bandoneon, a descoberta do jazz através do trompete de Chet Baker e Miles Davis, das vozes femininas do jazz como Billie Holiday, Nina Simone… Nossa são tantas que merece uma outra e única postagem até mesmo para falar de minhas mais recentes descobertas.

Enfim, não consigo conceber uma vida sem trilha sonora. E pensar que há pessoas no mundo que não ligam para música. Tenho dó. Suas vidas devem ser bem mais pobre do que a  minha. Que aliás, de pobre não tem nada a não ser a conta sempre no vermelho mas isso… Ah, isso é outra história! Minha moeda de troca é a arte na qual a música está inserida, é meu tesouro que ninguém rouba. Essa levo comigo.

Delírios após o almoço

Todo mundo tem uma válvula de escape para suas neuroses, preocupações do dia a dia, medos etc. Como faço parte da humanidade, tenho as minhas. Duas delas, vocês leitores assíduos, já conhecem: a escrita e a leitura. Mas tenho outras: música, meditação, pensar. Pensar obsessivamente em algo.

No momento, tenho um pensamento único, repetitivo. Acordo pensando, passo o dia com esse pensamento indo e vindo, volto a deitar em minha cama pensando, pensando, pensando.

Ainda trago comigo, aos cinquenta e três anos, a fantasia de que, se pensar demais, com muita intensidade, ininterruptamente, a coisa se concretiza. E eu quero. Muito. Que se concretize. Quero. Ordeno. Não admito que o destino seja filho da puta e me sacaneie. Realize o que desejo e ponto.

Mas não foi nada disso que estava disposta a escrever por aqui. O que me trouxe mais uma vez aqui, no blog, foi um texto de Caio Fernando Abreu, do livro A vida gritando pelos cantos.

É. Não adianta fazer caretas e revirar os olhos. Vou falar nele de novo. Gosto dele uai! Bom, se não gosta dele pode parar a leitura por aqui e vá ver o que Anitta fez com sua boca. Por aqui, falo de Caio F. novamente.

E por que falo dele? Simples: tudo o que ele escreveu, bate direto aqui, em mio cuore que pulsa incessantemente. Ao término de mais uma crônica lida, paro e penso:

Puta que o pariu, tinha de morrer antes de nos cruzarmos na esquina da Rua Augusta com a Avenida Paulista? Ou, tinha de sumir do planeta antes de nos esbarrarmos na Frei Caneca, indo ao shopping comer e depois pegar um cinema? Caio, que fique registrado minha revolta: Não te perdoo! E nem adianta ficar me olhando dessa forma.

Cara, tínhamos de ter nos esbarrado e fincado amizade. Trocarmos nosso parecer sobre a cultura, tricotar sobre os filmes da última mostra de cinema de São Paulo, trocar confidências sobre as paqueras do momento. Você se foi, antes mesmo de nossa primeira briga.

Mas também não era nada disso que queria escrever. Está vendo como você me tira dos trilhos?

O que queria mesmo, era dizer aos meus leitores, o quanto ler suas crônicas traz conhecimento geral sobre cultura, política, economia e o principal: conhecimento sobre as emoções humanas.

Só para citar um exemplo disso tudo que digo: na crônica Para embalar John Cheever, você me fez relembrar de um grupo musical que amava tanto que até hoje, tenho seu LP: Nouvelle Cuisine. Nunca mais soube nada dos músicos. Eram tão bons, talentosos, cool. Caio F. também me fez lembrar de Laurie Anderson (lembram dela?) e de Philip Glass (lembram dele?)

Caio me apresentou a canção Forgetting, letra de Laurie Anderson para a música de Philip Glass. Essa eu não conhecia e fui imediatamente buscar no Santo Google.

Esse cara (O Caio) sabia das coisas! Ouvi a primeira vez e não parei mais. Daí, busquei a obra de Philip Glass e, cá estou de fone de ouvido, absorvendo seu som maravilhoso no álbum com trilha sonora do filme As horas, baseado na obra de Michael Cunningham . Ah, não posso me esquecer de John Cheever que também foi apresentado à mim. Nunca li nada dele e agora, quero conhecer sua obra. Já vi que aqui na biblioteca não temos. Preciso providenciar.

Agora me responde: Caio é ou não é o Cara? Desde que comecei a ler sua obra, tenho aprendido tanto, relembrado tanta coisa que vivi nas décadas de oitenta e noventa e que foram engolidas pela rotina maçante que levamos. Só posso dizer que sou grata, por manter esse contato próximo através da leitura de suas crônicas e me enriquecer com tudo o que ele escreveu. Amo sua euforia, sua melancolia, sua ironia, sua tristeza com o rumo que o país tomava com toda a crise política e econômica que vivenciou. Vejo agora mais um ponto em comum entre nós.

Caio, nada mudou. A situação só foi maquiada por um tempo mas com o descuido, a máscara caiu revelando que nosso país ainda continua do mesmo jeito. Ou talvez pior.

Mas quer saber? Também não era nada disso que queria escrever. Mas foi bom falar do Caio pois assim, esqueci por alguns minutos daquele pensamento que tem me atormentado. Ih, voltou com tudo. Espera um pouco que vou ao banheiro ler mais um capítulo do livro afinal, minha vida também grita pelos cantos e percebi agora que meus cantos não andam nada arredondados. Estão de bico, pontudos e machucando. Será que chego viva até o final da semana? Haja coração!

PS: Alguém sabe do paradeiro dos rapazes do Nouvelle Cuisine? Laurie Anderson? Philip Glass?

 

Me acabo no Blues

blues

Com o som nas alturas, mergulho de cabeça na canção que traduz meu estado emocional.

My Melancholy blues…Na voz potente de Freddie Mercury…

Trago com a alma, a fumaça do cigarro que nunca fumei mas, que por hora, minha atormentada alma solicita. Assim como a canção que mexe com cada molécula do meu ser.

And meet my melancholy blues… O piano num acorde “The end” na canção, inspira em mim mais uma tragada e uma vontade imensa de aspirar a vida com tudo o que ela me brinda.

Tenho andado assim nos últimos dias. Choro a todo momento, diante de cada cena que presencio no cotidiano. Tudo me emociona.

Porra de coração amolecido que tenho!!!

Às vezes praguejo esse meu modo de ser. Por outro lado, não seria escritora se não tivesse esse lado melancólico. É ele que tempera meu ser para que penetre fundo nas emoções e retorne cheia de histórias para contar.

É na companhia dela que tomo coragem para encarar minhas neuras, meu lado B, minhas vergonhas transformando-as em literatura. Ficam bonitas até!

É encarnando-a que tenho olhos para enxergar o quanto a vida nos presenteia diariamente com belezas traduzidas em afago de mãe, carinho de filha, chamego de um amor qualquer.

Ela, a melancolia, é uma ilha que permanece lá no fundo de minhas entranhas e que, volta e meia, regresso para banhar-me e beber de sua sabedoria retornando à superfície da vida com fôlego para encarar compromissos assumidos.

Interessante como é também através dela que conheci muitos autores que beberam de sua seiva. Pessoa, Lispector, Espanca, Cecilia Meireles, Virginia Woolf. Esses só pra citar alguns. Foram tantos nessa minha vida de leitora.

Aprendi muito com todos eles. Isso não significa que faço aqui uma apologia à depressão. Não mesmo!

No entanto, tenho absoluta certeza que, se estiver totalmente de boa, farei tudo  menos adentrar os meandros das emoções para escrever.

Mantenho-me submersa, de forma consciente, nas águas turbulentas e mornas da melancolia. Maestro, aumenta o som do Blues!

Imagem: Pinterest

Sonata ao luar

olhando-a-lua1

Querer nem sempre é poder. Sempre soube disso pois na infância, cheia das vontades de ter brinquedos, o máximo que consegui foi ter uma boneca com os dedos decepados e metade da cabeça careca e muitos brinquedos confeccionados por minha avó. Me contentava com o que tinha. Nunca fui criança de muitas querências.

A vida me dava, eu sorria e agradecia.

Sempre tive uma relação íntima com a lua e as estrelas. Sentava à noite na calçada e enquanto os mais velhos ficavam de prosa contando muitos causos, eu, sozinha na companhia de minha imaginação, subia ao céu e permanecia na companhia delas. De lá, pulávamos nuvem por nuvem em busca de aventuras. Quando nos cansávamos e sentíamos frio, o Sol majestoso, nos dava um abraço aquecido e lá íamos novamente brincando, se escondendo, saltando, dando cambalhotas no espaço. Minha voz se perdia por entre diversos buracos negros – que de negros não têm nada.

A Lua certa vez me confidenciou o quanto gosta do Sol. Disse que adoraria ter uma noite caliente ao lado do todo poderoso. Achei graça e perguntei o que ela esperava para fazer isso.

Pensativa, olhou a sua volta, pigarreou, colocou suas mãos gorduchas na cintura e sorrindo me disse:

– Oras! Oras! Menina, isso não é assunto para discutir com você. Ainda é uma infante! Venha, vamos brincar de brilhar com as estrelas.

Soube por Vega e Rigel, que novas estrelas nasceram e que o céu se encontra em festa. Pedi que me levassem para conhecer as estrelinhas no que foi negado imediatamente. Vega, impostando sua voz e ampliando sua luz como forma de se parecer mais respeitável, disse que ainda não tenho maturidade para entrar na maternidade estelar.

Não insisti pois sei que elas são mais experientes que eu e sabem das coisas. Como disse a sábia e iluminada Sirius, tudo a seu tempo! E tempo é  o que tenho de sobra e dá-lhe brincadeiras nas nuvens.

Roseliii!! Oh menina que vive ni mundo da Lua. Nunca vi coisa igual. Anda, levanta desse chão que começou a garoar. Não vê que o céu fechou, nublou e já começa a trovejar? Anda! Vem pra dentro que já é tarde e amanhã tem aula logo cedo.

…- Já vou mãe! Tô me despedindo de minhas amiguinhas!

Cresci, perdi contato com minhas companheiras de infância. Tempo, que achava que tinha de sobra, hoje faço das tripas coração para tê-lo com economia. Hoje em dia é iguaria rara, pouquíssimas pessoas tem em abundância.

As incumbências adultas, a responsabilidade em excesso, a brutalidade da realidade apagaram pouco a pouco a fantasia que habitava meu ser. Adulta, apenas executo, cumpro. Ligada no automático, acordo, trabalho, como, durmo. Minha vida tornou-se uma sucessão de liga/desliga.

Até ontem quando, voltando para casa, cansada, com sono, com fome, ela se manifestou para mim de forma esplendorosa. Mágica. Única. Como há muito tempo não via.

No topo de minha rua que é descida, deparei-me com ela imensa, radiante, espaçosa.  Teve o topete de afastar todas as nuvens, prédios, poluição para se manifestar para mim.

Em meio a rua, fiquei paralisada diante de tamanha beleza. Um reencontro mágico, especial entre duas companheiras que há muito não se viam.

Seu cumprimento foi se iluminar intensamente como forma de me dizer:

– Ei companheira, lembra-se de mim? Estou aqui! Aliás, sempre estive aqui

Eu entendia sua mensagem e emocionada, sorri por entre lágrimas que embaçavam minha visão tornando sua imagem  etérea feito aparição.

– Sua louca! Está com a cabeça nas nuvens! Não vê que está no meio da rua? Quer morrer quer? Ei! Tá no mundo da Lua? Tá? Qualquer hora vai ser atropelada hein dona!

E dizendo isso, um motorista irritado acelerou seu carro e quase tirou uma fina de mim, que ainda tomada por essa letargia, enluarada me assumia e caindo numa gostosa gargalhada como há muito não tinha, terminei de atravessar a rua descendo a ladeira de olhos pregados nela. Minha amiga de tantas noites, de tantas infâncias, de tantas aventuras. Ao chegar no portão de casa, num ato de resistente despedida, olhei para o alto e vi que agora, ela não se encontrava mais sozinha. Estava rodeada de minúsculas luzes, minhas outras companheiras de traquinagem.

Abri o portão, entrei e sensibilizadas com minha comoção, as roseiras se viraram em minha direção exalando um perfume que me intoxicou de alegria. A magia havia voltado a habitar minha alma. Sentindo uma tremedeira nas pernas, sentei-me no degrau na área e chorei. Mas não foi um choro de tristeza não. Foi um choro de redenção, de compreensão da realidade fantástica que nunca havia se esgotado em mim. Apenas havia adormecido por um tempo. Estava salva da mediocridade.

Da casa vizinha, um som maravilhoso de trompete rasgou o espaço físico instalando-se em meu coração que por hora, batia num ritmo jazzístico de melancólica felicidade.

Imagem: Google

Ritual

Ai ai ai viu! Daqui a pouco me dão as contas. É vício, eu sei. Assumo. Mas por mais que eu tente ficar longe não tem jeito. É mais forte que eu. Hoje simplesmente estou completamente tomada pela fissura. É um gole de café e uma dose dela. Outro café, outradose e uma sensação absurda de boa toma conta de mim. Essa voz no ouvido me transmite um poder que às vezes, penso ser uma miragem. Perco a noção da realidade, embarco numa viagem naqual não desejo retornar. Aqui dentro, onde pulsa a vida, uma voz me diz o tempo todo: “Tem que ser agora”. Então te olho nos olhos e peço para você dar o nome a essa coisa insana que se agiganta aqui dentro. Sei lá… Desculpa, sei que já estou me tornando desagradável, repetitiva, chata mesmo! Mas…Perdoa! Perdoaaa!!

Então aconteceu. De novo, aconteceu. Já deveria de estar acostumada afinal, não era minha primeira vez.

O já famoso e conhecido frio na barriga. Como já disseram antes e não consigo precisar quem, sinto “borboletas” batendo suas asas aqui dentro, em meu centro. A respiração entrecortada causa-me uma certa fadiga, uma sensação de quase morte. Passo a suar frio. Na nuca, nas mãos, e, enquanto em alguns lugares escorro em bicas, minha boca seca. Torna-se árida feito sertão. Uma certa acidez se espalha por toda a língua me impedindo de falar. Só sinto.

Só penso.

Não, minto. Pensar é um ato consciente. O que ocorre comigo é algo que ultrapassa qualquer lógica. Reporto-me a um buraco negro no espaço e ali permaneço. Os minutos vão passando lentamente, minha ansiedade ultrapassa os limites do suportável. Penso: Acho que vou morrer! De hoje não passo!

Então observo pessoas olhando para os lados, risinhos nervosos, expectativa estampada no rosto. Pessoas se encontram, se abraçam, sorriem, trazem no olhar um brilho diferenciado.

Após sorrir para algumas pessoas, abraço tantas outras, pisco para algumas distantes e sorrateiramente saio de cena. Subo os degraus que me levarão ao meu lugar. Para alguns, sou louca, para outros, corajosa. Para mim, normal afinal, já fiz isso tantas e tantas vezes que é como retornar ao útero materno. Conhecido, aquecido, gostoso.

Na penumbra, assim como no útero da mãe, permaneço. Me aqueço para logo mais. Olhar fixo num ponto aguardo.

Escuridão total. Silêncio…

As cortinas se abrem e junto o som harmonioso da banda e orquestra anunciando a voz que tanto aguardamos.

Olha, paixão não se explica. Sente-se. Deixa-se levar pelas emoções que ela nos proporciona.

E música confesso, é um de meus vícios. E não luto contra não. Envolvo-me totalmente e por alguns minutos, horas, esqueço de tudo: violência, carência, guerra, pobreza, fome, injustiça, contas a pagar. Uma alegria toma conta de mim por constatar que não estou sozinha nessa. Tenho muita companhia.

E nessa catarse coletiva, vou me despindo daquilo que não me serve, vou abrindo caminhos interiores através das notas musicais e da voz que me fascina e serve de fio condutor nesse meu nirvana.

Rio, choro, quase morro afinal, são tantas emoções desencadeadas que em alguns momentos penso que realmente meu coronário explodirá esparramando minha essência por todo o teatro.

Por algumas frações de segundos, retorno à realidade e vejo que muitas pessoas choram assim como eu.

Até os durões maridos e namorados que acompanham suas parceiras de forma contrariada, encontram-se emocionados. Não dá para disfarçar.

Ao término dessa sessão de descarrego do bom, voltamos para casa com a alma leve, sublimada, feliz.

Grata mais uma vez por esses representantes dos deuses servirem de ponte entre o sagrado e o humano.

Por algumas horas resgatamos nossa porção divina através da música, da dramaturgia, da sétima arte.

Esse texto é para você Pedro e para toda a galera que te ama!

Divagando sobre o menestrel

osvaldo-montenegro

Tem canções que nos embalam e transmitem coisas tão boas ao nosso espírito que, francamente, não sei como ainda existe pessoas que não gostam de ouvir música seja ela que ritmo for.

Nesse exato momento em que escrevo, ouço Oswaldo Montenegro, o menestrel do século 20.

Sou fã desde que ele surgiu pela primeira vez no Festival da música brasileira lá pelos idos de… Ah, deixa pra lá.

Bandolins, sua canção que pegou terceiro lugar no Festival que agora lembrei (minto, pesquisei no Santo Google), Festival 79 da extinta TV Tupi, que perdeu para a canção de Dominguinhos e Manduka “Quem me levará sou eu”, interpretada por Fagner (Roseli também é cultura)…Eita! Divaguei, o que falava mesmo?

Ah! Lembrei! Xiiii, tem alemão rondando a tia aqui! Xô deutsch! Xô!

Lembrei! Então, desde que o vi e ouvi na telinha – não da Plin!Plin! mas da outra, a concorrente, a Tupi, a do indinho – fiquei fascinada por sua voz potente e pela letra que é bárbara e por sua feiura bela – cabeludo, barbudo, másculo, ai,ai, pirei na batatinha! Virei fã!

De lá pra cá fui colecionando seus LPs, seus CDs, seus DVDs e shows e musicais. Quando nos idos da década de 90, fui convidada por uma colega da faculdade a ir com ela assistir ao musical  Noturno, simplesmente desbundei de vez. Saí de lá extasiada, com vontade de sair dançando pelas ruas da cidade e cantando feito seus personagens. E as canções desse musical então? E a interpretação e arranjo do grupo com a música But i still do U2? Delirante!

Gostei tanto desse musical que assisti mais duas vezes e ainda pretendo assistir mais. Identificação total!

Anos mais tarde pude ver o musical Léo e Bia e foi a mesma sensação de querer levantar do assento e subir ao palco para fazer parte do elenco e cantar e cantar e cantar. Pena que não tenho voz e seja tímida. Mas que maravilha!

Engraçado, lembrei de uma famosa frase dele, o Montenegro, em seus shows quando começa a falar com a platéia “Mas não era nada disso que queria falar” porque na realidade, já nem sei mais o que queria falar a não ser do quanto gosto do som que ele faz. Não vou discorrer mais não até mesmo porque, estou cansada, é final de sexta-feira e quase no meu horário de raspar daqui e iniciar meu fim de semana. Mas que gosto dele… Ahhhhhhh Gosto!

Fui galera!

Happy birthday to you!

Não é tristeza o que sinto no momento.

É… Não sei traduzir em palavras, mas chega quase a ser uma não existência. Uma sensação de morte em vida, pois vida, significa pulsar o coração, correr o sangue nas artérias, mover os músculos do corpo, piscar os olhos diante das novidades, o cérebro registrar tudo o que chega aos seus arquivos.

A data de hoje – piscando em neon – não causa nenhuma reação às minhas retinas embaçadas, sem lubrificação. Secas feito meu coração que emudeceu no instante em que matei você em minha vida.

E a tela continua a brilhar e a piscar me convidando para sua festa ao qual não fui convidada. Nem por você, nem por mim. Neguei minha participação em sua existência.

Pensei ser fácil te arrancar de minha vida zerando álbuns de fotografia, excluindo-te de minhas redes sociais, apagando nossas inúmeras e intensas conversas online, seu número de telefone do meu celular, queimando seus poemas que tanto amava ler e reler e reler…

Tudo em vão.

Ontem, ao deitar a cabeça no travesseiro, a primeira coisa que me veio à mente foi sua imagem. Nítida. Senti seu cheiro no ar como todas as vezes em que ficamos juntos sorvendo a intimidade de nossos corpos.

Teletransportei-me à sua casa, adentrei a intimidade de seu quarto, te vi sentado à cama, te envolvi e depositei carinhosamente um ósculo em sua testa. Como sempre gostava de fazer toda vez que nos amávamos.

Lembra?

Você ficava bravo com essa minha atitude. Dizia que isso era coisa de mãe e mãe, você já tinha uma.

Ria de sua indignação e tornava a pegar entre minhas mãos sua cabeça e, novamente te beijava até você amolecer diante de minha genuína demonstração de amor e se rendia de corpo e alma a mim, fêmea sedenta de seu corpo e alma.

Hoje, ao acordar, também foi meu primeiro pensamento: você, seu aniversário.

E o dia passou despertando várias vezes o desejo quase doentio de te ligar como se nada houvesse acontecido e compartilhar sua alegria comigo. Como fazíamos anos atrás.

Feito adicto, me peguei inúmeras vezes pegando o celular e teclando seu número que mesmo apagado da agenda, tenho gravado na memória. Mãos trêmulas, sudorese inundando a palma das mãos, respiração entrecortada, boca seca. Quando dava pelo ato falho, jogava longe o celular como se tivesse recebido um choque de 500 watts.

Desejava chorar, mas as lágrimas – até elas – se negam a me fazer companhia na data de hoje.

Cansada, deito-me encolhida abraçada a mim mesma. Só percebo que anoiteceu novamente por conta da penumbra que inundou o quarto. Um som de piano ao longe serve de trilha sonora para esse momento: um lamento.

A voz de Pedro Mariano cantando Roberto Carlos… seu cantor preferido.

Aos poucos uma comporta se abre no peito deixando vir a tona toda antiga tristeza que seu amor me trás. Uma tímida lágrima inaugura o percurso.

Em seguida outra, e outra e outra até se transformar num esgar intermitente de emoções represadas por meses tentando ser-te indiferente. Um grunhido animalesco sai de minhas entranhas e toma conta do ambiente.

Transformo-me em loba desesperada por sua prenha perdida. Grito até perder as forças caindo num estado de transe hipnótico.

Silêncio.

Olhos parados, secos, lágrimas escorridas, boca aberta babando saliva e uma frase inaudita:

Happy birthday to you!

 

Imagem: Dreamstime

vídeo: Youtube (Fátima Ferreira)

Trovadora do amor

cuore-musicale2

 

Busquei a Lua

perambulando pelas ruas,

tracejando calçadas, mirando o alto,

tropeçando no asfalto.

Encontrei luzes nos prédios

que te escondia

Deparei com nuvens que te camuflavam

procurei magia, não encontrei de dia.

Esperei a noite

só encontrei açoite.

Magoada, ferida, saí em busca do Sol

Encontrei trovadores a cantar e dançar

pelas ruas coloridas.

Juntei-me a trupe, aprendi as claves,

virei musicista.

Hoje tenho a Lua, o Sol, a natureza,

a me inspirar.

Trago você traduzido

em versos e notas musicais

 

Imagem: Google

EnCAnTTO!

Flutuei!

Por algum tempo – não sei precisar – saí de mim. Sugaram-me a alma.

Fui pega delicadamente pelas rebarbas do perispírito – se é que existe – e levada a um plano jamais imaginado existir.

Me senti leve feito pluma ao vento. Todo sofrimento se diluiu. Era como se atravessasse o espelho mágico que dá direito de acesso ao País das Maravilhas.

E que maravilha ouvir tal som! Brindada por aquele carinho sonoro, aquele gozo, aquela anunciação divina.

Mas, olhando para todos os lados me perguntava: De onde vinha?

Emocionada, percebia outras almas feito eu, arrancadas de suas vidas mundanas, trazidas a esse templo, a esse pedaço do céu. Todas, sem exceção, boquiabertas. Em êxtase total. O som fluía nos fazendo a todos, perder a noção das horas. Não importava afinal, ali era outro mundo.

Aquele som me remetia a outras lembranças, outros sons já ouvido mas nada se comparava. Era único. Era um anjo.

Era Catto!