Poeminha amargo

Obscuro(antismo)

Paisagem

nebulosa

situação

vergonhosa

essa nossa

real(idade)

Sem direitos

só defeitos

sem moral

nem local

para viver

comer

trabalhar

morrer.

Esse é o país que

(não) deu certo!

Sigamos a procissão

Só nos resta orar

lamentar

vigiar

expurgar

a culpa

por não lutar

não se informar

não se responsabilizar

não

lutar,

lutar,

lutar…

rá tá tá tá Búm!!

calou Anderson,

tombou Marielle

se desfez Josés,

sumiu Amarildo,

anônimos

Esfacelou sonhos

esperanças

alegrias

carnavais

Caiu a máscara!

Amordaçaram a Bela

restou apenas a

Fera.

Esconde que ela vem aí!!!!!! 

 

 

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Visita inesperada

kinder ovoSeu assovio característico adentrou a janela e se instalou em cada célula de meu corpo que até então, encontrava-se anestesiado. Alerta geral.
Abaixei o volume da televisão e fiquei atenta. Ouvi novamente. Levantei de um salto único esquecendo as dores da fibromialgia e abri a janela. Olhei de um lado, de outro, até que o som chegou até mim revelando seu dono.
Do outro lado da calçada, equilibrado numa bicicleta, você sorrindo me olhava. E acenou fazendo mímica para abrir o portão do prédio para subir.
O misto de emoções que me assolou causou uma paralisia temporária. Não conseguia sair do lugar nem mover nenhum músculo. Só queria eternizar aquele momento te vendo de novo.
Tão lindo e sorridente como sempre. Pediu mais uma vez para abrir o portão e correndo para o interfone, acionei o dispositivo.
Tomada pela ansiedade do reencontro não esperado, destravei a tranca da porta e – de portas abertas -, olhava os andares que o elevador anunciava passar.
Impasse. O elevador parou e ninguém saiu. Aguardei com o coração descompassado. Silêncio. A luz cansada, apagou-se. Assim como minha esperança. Retornei e fechei a porta pensando no absurdo de tudo. Ao girar a chave, a campainha tocou.
Fiquei de respiração suspensa. Aguardei um segundo até a campainha soar pela segunda vez.
Abri. Do nada você surgiu à minha frente mantendo o sorriso tão amado e com olhos brilhantes de emoção. Assim como eu. Avançou em minha direção envolvendo-me num abraço apertado, quente. Exatamente como na nossa despedida.
Ficamos assim por um tempo que não sei precisar. Choramos em silêncio. Palavras eram desnecessárias e jamais traduziriam o que sentíamos.
Fiz sinal para sentarmos e vendo você se desvencilhar de mim e seguir para o sofá, te observei por trás. Não mudou nada!
– Sua bike?
– Deixei na portaria. Não pretendo nem posso demorar.
-Ah!…
– Estranho você aparecer assim, do nada, sem avisar…
– É. Resolvi assim, de última hora. Fiz mal? Desculpa…
– Não não…. Sem problemas. É que fui pega de surpresa mesmo.
Um silêncio tomou conta da sala e ambos, de olhos baixos não conseguíamos falar.
Vencendo a inibição do momento, você olhou para a TV ligada e disse:
-Ah! Está assistindo essa série. Legal. É divertida.
– É. Estou gostando. Tinha até me esquecido mas retomei essa semana. Começou a terceira temporada. Será que eles alcançam o céu? E será que realmente o céu é um Bom lugar? Tenho minhas dúvidas.
– Eu também. Se quer saber minha opinião. Mas é uma série divertida. Vale por isso.
– Senti saudades…
– Eu também. Muita.
– Sofri com sua ausência…
– Eu também. Acredite. Ainda sofro por isso te procurei.
– brigada…
– Quero que leve sua vida de boa. Não se prenda ao passado. O que passou, passou.
– Fácil falar…
– Sei… Mas é preciso. Eu também tenho de me esforçar ao máximo para vencer a tristeza que muitas vezes bati aqui óh! Cessabeonde.
– Sei… Desculpa se foquei apenas em mim e não vi o que estava escancarado na minha cara. Poderia ter sido diferente
– Não. Não poderia. Tenha certeza disso. Precisava partir. Mesmo não querendo, precisava. Não tem de sentir culpa alguma. Esse foi um dos motivos para essa minha visita.
– Ah é? E qual é o outro motivo além desse?
– Pura saudade de nossas conversas.
– Entendo. Também sinto.
– E também sinto falta de nossas experiências gastronômicas. Nunca mais fiz aquela massa ao molho pesti. Bom né? E você? Continua gostando e fazendo?
– Sim. Adoro massas. Sigo em frente fazendo minhas receitas. Com a diferença que agora, como sozinha…
-É.



-Preciso ir. Não posso demorar muito.
– Não. Não vá.
– Gostaria de ficar mais. Não posso. Por favor, não chore. Nunca mais. Foi por isso também que vim. Para pedir que não chore mais por mim. Acredite: estou bem. Tenho crescido, conhecido pessoas, aprendido ofícios novos. Nunca imaginei isso. Promete não chorar mais?
– Não me peça pra te esquecer. Não consigo.
– Não estou pedindo para me esquecer. Nem quero que isso aconteça. Só não quero que sofra.
– Vou tentar
– Tente. É importante para mim.
– Está bem. Vai me visitar de novo?
– Não. Não voltarei mais aqui.



– Por favor, não torne tudo mais difícil do que já é
– esculpa
– Te amo. Vou te amar sempre. Pra eternidade.
– Eu também.
– Já vou. Fica bem. Por favor, fica bem. Seja feliz.
– Seja feliz também e se, precisar, conta sempre comigo. Sabe que pode contar né?
– Oh se sei! Te amo! Te amo! Te amo! Fui!
– Espere! Vou te acompanhar até a portaria.
– Não. Você fica aqui. Não torne tudo mais difícil do que já é.
– Deixa eu ficar um pouco mais em sua companhia.
– Não. Desculpe, mas será pior. Para nós dois. Fica!

O barulho de uma porta batendo forte me despertou assustada. No escuro do quarto, compreendi que tudo não passou de um sonho. Um lindo sonho. Ao acender a luz e sentar, percebo um objeto depositado aos pés da cama. Toco e reconheço: um kinder ovo! Você sempre gostou. Desde bebê.
Confusa, levanto-me e percorro os metros quadrados de minha quitinete em busca de algo que possa explicar o surgimento desse brinquedo afinal, não recebi ninguém aqui esses dias. Muito menos uma criança. Ao abri-lo, junto ao brinquedo, cai um papel enrolado com a seguinte mensagem: Nunca duvide do impossível. O amor tudo pode.

 

Esse texto brotou da saudade que sinto do meu “Menino Maluquinho”. Hoje faria 24 anos. Saudade sem fim mas com paz no coração e um agradecimento eterno por ter convivido comigo por 23 anos de muita parceria e afinidade. Grata pelo kinder ovo que deixou de lembrança para mim em sua última visita. Guardo como tesouro nosso.

Imagem: Google

 

Salamandrei

Nunca gostei de retrospectivas. Para mim, o que passou, passou. Mesmo que tenha sido bom, não vale a pena ver de novo. Quem gosta disso é a Globo. Eu não.

Contudo, até como forma de retomar a escrita que anda bem parada, decidi escrever e discorrer sobre o ano de 2017. Nunca fui pessimista. Costumo ser até um pouco otária de tanto exalar otimismo. É minha filosofia de vida. Ninguém precisa concordar. Cada um, cada um. Também não é costume meu chorar fracassos e percalços.

Mas devo confessar que esse ano foi um ano de provação pessoal. Fui posta à prova em diversos setores. Quase fui reprovada nessa matéria. Ainda bem que na vida real, não existe isso caso contrário, repetir o ano de 2017 seria penalização máxima que – com certeza – me faria desistir. Sentir-se na corda bamba atravessando um precipício a querer lhe engolir, não costuma ser uma sensação agradável. Percorri o ano pisando numa linha invisível que a todo momento balançava e me trazia um sentimento de pânico. E a quem recorrer quando – de repente – sua confiança não encontra moradia em ninguém? Nem mesmo naqueles que tanto confiou?

Alguns podem achar que seja loucura minha. E eu digo: pode até ser afinal, quem hoje não tem pelo menos um fio de neurose? Encontro-me na normalidade.

Minha zona de conforto perdeu  a estabilidade que até então mantinha-me segura. Minhas placas tectônicas moveram-se de forma transloucadas fazendo-me cair diversas vezes. Estou cheia de escoriações físicas e também na alma. O corpo, tratei de passar muito cataflan e bolsa de gelo. E na alma? O que devo aplicar para sanar as dores?

Muita respiração pausada. Muito mantra. Muito vinho para amaciar a carne e entorpecer as emoções. Muito hare khrisna, muito tambor batido. Contudo, o que mais tenho necessitado é de amor. A começar por mim mesma a se enternecer pelos cacos espalhados no chão após o vendaval. Mesmo em pedaços, essa sou eu que teimo em seguir adiante. E sigo tentando ser como a salamandra regenerando minhas partes danificadas.

Hoje, quase um ano, acredito que assimilei parte do aprendizado. Quase refeita, consigo andar de cabeça erguida e só fraquejo quando estou só. Até voltei a sorrir. Outro dia, chegando em meu apartamento, notei que meu vaso de violeta floriu. Fui tomada por uma alegria tão grande que lágrimas me fizeram companhia. O bom é que dessa vez foram lágrimas de alegria. E assim, volto a reconhecer a riqueza da vida. Hora sangramos diante de perdas e tristezas. Hora lacrimejamos de felicidade e assim, através das pequenas coisas que nos acontece no dia a dia, celebramos a graça de estarmos vivos.

E eu, que iniciei esse texto mergulhada na melancolia, termino com o coração palpitando ao som de Freddie Mercury : Show must go on!

Aceitação

mulher escrevendo2

Escrever. Há meses não consigo sentar e desenvolver nada que preste. Um vazio repleto de vozes díspares tomam conta de meu interior e esse barulho interno me impede a escrita.

Trago tantas histórias dentro de mim porém, nada se concretiza. Nada me agrada.

Aquela vontade que tinha em publicar algo só meu, dissipou como tantos outros sonhos não realizados. Não é amargor que trago comigo. Talvez, uma conscientização de que nada nesse mundo valha a pena se for apenas para lustrar nosso ego.

Para mim, escrever não significa – após a labuta com as letras e histórias -, brilhar na passarela das livrarias e bares para lançamentos fúteis cheios de pessoas mais vazias que eu, que satisfazem sua autoestima fingindo-se bem sucedidas nas letras. Nada contra se você se contenta com isso. Não eu. Detesto esse teatro pobre. Ando preferindo a vida real a essas encenações canastronas. Também não tenho mais idade para brincar ou fingir ser. Entrei na caminhada de ou é, ou não é.

E tive uma prova disso tudo, durante minhas viagens em férias. O contato com pessoas simples e verdadeiras em sua essência, despertou meu desejo de mergulhar fundo na alma humana.

Conheci seres encantadores, de sorriso fácil, que não temem o olho no olho. Aliás, essa foi uma das características que observei em todos.

A religiosidade levada a sério também me tocou de forma profunda. Eu, que no passado cheguei a ser grande seguidora e trabalhadora da espiritualidade mas, que depois, fui seduzida e sugada pela carreira acadêmica e carreira. Acabei por me afastar de tudo, inclusive de mim mesma. Por anos, fingi e acreditei ser aquela personagem criada: uma mulher bem sucedida, moderna, independente, que sabe o que quer. Sou isso tudo sem dúvida, mas sou muito mais. E esse mais, ando descobrindo aos poucos. Ao vivenciar de perto a finitude da vida, tornei-me mais obstinada em viver intensamente meu dia a dia.

Contudo, mesmo tendo a certeza de que não nasci para esse ofício, sinto uma necessidade que impera sobre o bom senso pegando-me pelas mãos e fazendo sentar e escrever. Dedos e mente nervosos em traduzir o que se passa aqui dentro dessa caixa craniana. Só me resta obedecer. Mesmo que contrarie minha convicção de nunca mais fazer isso. Talvez seja meu vício. Minha fraqueza e minha melhor parte.

 

Imagem: pxhere

Com a “macaca”

Sou crica! Chata assumida e feliz. Já tem um tempinho que deixei de assistir TV aberta. Principalmente a Plin-Plin. Não tenho mais tolerância com as formas de interpretações globais. As “mocinhas” são irritantes, falsas, têm uma voz que agride meus ouvidos e quando no cio, costumam ter crises de bronquites que me dão enjôo.

Contudo, outro dia minha internet deu pane e não pude acessar minhas séries da Netflix.

Desespero total! Respirei fundo e, como tinha outros afazeres, deixei a TV ligada e saí da frente da telinha. Envolta por inúmeras atividades domésticas como preparar minha marmita (é people, eu como de marmita sim!), colocar roupa pra lavar na máquina, dar uma geral no apê (não teria tempo no feriado), aguar minhas plantinhas (adoro!)…

O tempo foi passando, aquelas vozes rolando na TV e eu, aos poucos fui me conscientizado. Como essas novas atrizes globais são chatas!

Pensei comigo: Cara, se fosse homem não me apaixonaria por nenhuma delas só pelo fato de terem essas vozes esganiçadas e esse eterno ar de, de, de…Ah, sei lá! Todas uns cocozinhos. Prontofalei! Veja bem, nada contra as pessoas em si que são. Não mesmo. Até porque, nem as conheço. Mas enquanto atrizes, Mon Dieu! Tão rasinhas nas interpretações de si mesmas. Afinal, todas elas são atrizes de um papel só. Pelo menos é essa a impressão que tive dos trabalhos passados que cheguei a tentar assistir. Não deu.

Essa da novela das 18h, me desculpe mas o único papel que gostei foi de Emília pequena. Boneca.

A Emília grande é chata. Tira o fôlego. Não por ser sensual mas, porque é canastrona. Boneca canastrona até se torna engraçadinha. Atriz adulta e canastrona, haja paciência!

Olhar vidrado e boquinhas em bicos, desculpem-me o termo mas, dá no saco!

A outra (mais experiente s.q.n.), da novela das 19h, com aquele eterno bocão escancarado, é dose pra leão…Matar! Oh coisinha irritante! Sorry a franqueza, não gosto! E a que faz papel de gêmeas (a boa e a má. sempre isso), verdadeiro mousse de chuchu sem sal. Affê!

O tempo passando, as novelas findando, eu me irritando até que passou uma cena da mini série que nem guardei o nome. A bonitinha da vez, aquela com nome francês (olha, até rimou!) só sabe fazer cara de cachorro caído da mudança e biquinhos (o eterno da BB). E o que falar dos gemidos e engasgos quando sofrem? Me desculpem, na vida real nunca vi ninguém sofrer dessa forma. Padrão Global! Somente nos estúdios Projac. E o que falar do assunto batido “Ditadura brasileira”? Sou cidadã consciente (na medida do possível), li muito sobre esse assunto quando fiz meu TCC e essa glamourização do assunto é inverossímil.  E o que dizer das trilhas sonoras? …Chato.

Enfim, ao término dos meus afazeres, tratei de desligar a televisão após uma busca infrutífera por alguma programação que não me ferisse mais a inteligência. Liguei o computador para escrever um pouco e acessei minha seleção musical no Spotify para acariciar um pouco meus ouvidos tão maltratados pela TV.

 

Escrevi essa crônica já tem um tempinho e estava perdida nos rascunhos. Publiquei porque ao ler, constatei que não mudou absolutamente nada. Tudo continua como antes ou seja, uma B…Ôpa! Tem criança por perto?

Exercitando

Vozes abafadas lá fora. Cá dentro, mentes focadas no estudo e em seus smartphones. Sons de páginas viradas. De livros, cadernos e revistas. Meus dedos desgastados de tanto manipular livros, encontram-se ressequidos e enrugados. Mas continuam a virar página a página do livro de Murakami. Romancista como vocação. Sua leitura me leva a um balanço tímido se devo aventurar-me num território tão árido. Devo ser leviana ou totalmente sem noção para me meter nesse meio. Sei de antemão que não serei bem recebida. Muitas críticas hão de cair sobre meus carcomidos ombros de balzaquiana. Caso tivesse bom senso, passaria longe. Recordo da leitura que fiz do livro de Stephen King sobre sua escrita. Lembro também de outros livros lidos: Para ser escritor, de Charles Kiefer, A arte de fazer artes, de Gloria Pondé, Truques da escrita, Howard S. Baker, Escrevendo com a alma, Natalie Goldberg – esse último, tenho grande estima por ele – lido  mais de uma vez. Se aprendi algo? Não sei dizer. Talvez sim. Talvez não. A única certeza que trago – agora de forma consciente – , é que não desejo copiar ninguém. Tenho imensa admiração pela escrita de centenas de escritores no entanto, não quero ser cópia de nenhum deles. Vivo em busca de um estilo próprio. Não almejo estar lado a lado dos grandes. Sou humilde ou talvez relaxada, destituída de um plano de vida literário. Na realidade, sinto-me até mal em pensar-me escritora. Dá a impressão de que estou profanando um espaço sagrado ao qual não faço parte. Sei lá. Paranoia? Quem pode dizer. Falta de comprometimento? Talvez. Preguiça? Com certeza. Insegurança? Todas confessas. Enfim, deixa eu encerrar minhas divagações diante dos alunos estudando aqui na biblioteca. Meus olhos cansados ardem após uma noite não dormida e meu corpo pede descanso. Mais um dia se encerra. Mais uma data no calendário roda e meu desejo de retomar a escrita parece aos poucos adquirir força após um período de inércia. Amanhã tentarei novamente.

Tentativa

Quero retornar. Juro. Se precisar até faço cruz e beijo pra selar meu desejo.

Mas não consigo. Está difícil sair dessa paralisia de vida. Acho que é porque quando morre alguém muito querido, boa parte de nós se vai junto. Olha só, está vendo como fico? Basta tentar e logo estou em prantos. Querendo trincar e virar pó para me perder no Universo. Talvez, quem sabe, virando poeira estelar deixe de sofrer.

É. Eu sei. Sei de tudo isso que você teima em me dizer. Agora te pergunto: quem manda no coração? Eu é que não. Ele – pelo menos o meu – tem vontade própria. Vive mandando às favas a lógica e o bom senso. Coração só quer saber de bater acelerado. Esse negócio de manter-se em equilíbrio não é com ele.

Varias vezes tentei sentar, focar e escrever algo que valha a pena publicar. No entanto, a tela, após horas, permanece em branco. Então desisto, levanto-me, desloco meu corpo para a frente de uma tela maior e ligando-a, desligo-me da realidade por mais algumas horas, anestesiando meus sentimentos e fingindo-me de feliz. Até consigo rir!

Outro dia chorei muito… Pensei até que morreria afogada em minhas próprias lágrimas. Uma revolta imensa tomou conta de mim. Revolta com a vida, com a morte, com Deus. Pela primeira vez contestei seu poder de decisão sobre nossas vidas. Pela primeira vez tive vontade de mandá-lo a merda. Pela primeira vez, ainda chorando, pedi perdão pelo grau da blasfêmia. Pela primeira vez tomei consciência de minha confusão mental e emocional. Pela primeira vez constatei minha pequenez. E chorei até esgotar toda água de meu organismo e me transformar numa rosa do deserto.

Há dias vivo, trabalho, como, bebo, durmo, defeco. Seca. Por dentro e por fora onde minha pele já demonstra rachaduras e meu interior, há muito se trincou e pouco a pouco, se esfarela por dentro.

Está vendo só? Ainda não estou pronta para voltar. Continuo não sabendo o que escrever e como escrever. Acho que minha pretensa carreira de escritora terminou antes mesmo de começar. Para se escrever bem é preciso ter alma, calor, vontade. No momento não tenho nenhum nem outro. Sou apenas uma sombra daquilo que um dia pensei ter sido.

Vou me afogar num destilado ali ao lado lendo Hemingway ao som de Chet Baker.

Se sobreviver, volto.

Teatro e literatura se mesclam: ótima pedida!

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Quando iniciei esse blog, minha intenção era apenas postar textos de minha autoria. Seria uma plataforma de exposição de meus escritos de forma bem livre. Acredito que alcancei meu objetivo, uma vez que conquistei leitores que me seguem e aguardam sempre novos textos. É uma responsabilidade escrever de forma consciente, criativa e que sensibilize quem por aqui comparecer. Nesse mês de julho, não publiquei nada por conta de minhas férias no qual decidi fazer outras coisas. Entre essas coisas, a leitura estava em primeiro lugar. Com vários livros escolhidos, haviam outros tantos já iniciados e que por conta de inúmeros compromissos, encontravam-se abandonados aguardando minha volta à eles. E é de um deles que vou falar um pouco por aqui.

Quem me conhece sabe o quanto admiro escritores nacionais. Sempre digo que temos grandes talentos por aqui. Muito mais que esses nomes estrangeiros que poluem as grandes redes de livros com mais do mesmo. Deixo claro que reconheço grandes nomes da literatura universal, no entanto, não é a esses que me refiro. Entendido?

Conheci o autor do livro, quando participei de um lançamento feito pela Scenarium Plural, sob o comando da sempre alegre e competente Lunna Guedes. Isso nos idos de setembro de 2014.

Emerson Braga, contista criativo e talentoso lançou seu livro de contos Amores, desafetos e outros despautérios acerca de Eros. Foi meu primeiro mergulho em sua escrita. Gostei demais da sua forma de comandar o rumo das histórias além da riqueza dos personagens. No entanto, minha surpresa – grata diga-se de passagem, se manifestou ao ler seu primeiro romance publicado em 2016, pela editora Penalux: A morte de um embusteiro viajante. Emerson mostrou um amadurecimento literário e uma segurança que só os grandes têm ao escrever uma obra envolvendo personagens famosos de Shakespeare ao lado de um velho ator em seu último ato. Lázaro Bardo revê sua vida ao lado de Hamlet, Rei Lear, Macbeth, Romeu e outras figuras fantásticas.

Homem destituído de qualquer simpatia devido ao seu alto grau de arrogância, aos poucos, vai retirando suas máscaras e se relevando apenas um ser humano comum, igual a mim, a você e a tantos outros que atravessam nossos caminhos. Emerson nos mostra ser grande conhecedor da obra shakesperiana e do teatro conseguindo percorrer os caminhos de uma peça teatral e seu mundo de forma familiar nos mostrando que sabe do que fala. Retomei a leitura e cheguei ao término num crescente de emoções que me levou a derramar algumas lágrimas ao final da leitura. A boa literatura é isso: nos emociona sem ser piegas. Emerson querido, Parabéns pelo belíssimo romance de estréia. Livro muito bem feito. Linda capa e diagramação do competente Ricardo A. O. Paixão, edição muito bem tratada pelas mãos de França & Gorj texto primoroso da orelha feita pelo escritor André Kondo. Agora, estou no aguardo do próximo romance que já está sendo desenvolvido por ele. Essa informação direta da fonte: o autor!

Voltei!

Protesto! O mês de julho passou numa velocidade absurda. Mal pisquei e agosto chegou. Apesar do protesto, não reclamo. Passei minhas férias sem nenhuma viagem, descansei bastante, dormi muito, gastei meus olhos nas leituras e filmes e séries que assisti na Netflix. Ah! E dei um tempo nas redes sociais o que significa que também deixei de lado meu blog. Sorry leitores amados. Foi por uma boa causa: minha saúde mental, espiritual, psicológica e física.

Bom demais! Contudo, a realidade me puxa pelos cabelos (que estão caindo) e grita para que eu viva intensamente a realidade. Impossível! Canceriana que se preze vive mais no mundo da Lua do que aqui, com os pés fincados na terra.

Iniciei um curso de contos que não levei adiante. Motivo? Não gostei. Não senti verdade nem dedicação. Resolvi curtir minhas férias e leituras que, com certeza, me inspiraram muito mais do que aquele blábláblá. Explico: não sou uma escritora que arrasa em seus textos. Tenho plena consciência de que tenho muito a aprender. Mas…Quer saber? O caminho das pedras eu já sei portanto, é arregaçar as mangas e escrever, reescrever, escrever novamente e assim,  lapidar meu trabalho. Como também não tenho nenhuma pretensão em ser um prêmio Nobel de literatura, sigo em frente desejando mais é ser feliz. Mesmo escrevendo fora dos parâmetros ditos “literários”. A vida já nos dita tantas regras que me recuso a seguir mais essas. Pelo menos por aqui, desejo mais é que seja um espaço de total liberdade para mim. É isso. Caros leitores, estou de volta e aos poucos, vou postando textos novos. Ou não. Aproveito para avisar que de vez em quando postarei meu parecer sobre os livros que tenho lido. São tantos. São incríveis e por isso mesmo, vou compartilhar com vocês meu parecer. Não me considero nenhuma crítica literária porém, tenho sensibilidade e é através dela que me guio nas leituras e em tudo o que faço. É isso. E que agosto nos traga ventos de renovação.

Lero com Toninho

santo antonio

 

Esse texto escrevi em maio de 2015 com o título Devaneios juninos. Deixo minha homenagem a esse Santo que – mesmo não sendo católica – nutro uma simpatia. Como estou atarefada essa semana, republico pois sei que muitas pessoas ainda não leram. Aos que já leram, tenham um pouquinho de paciência que em breve escrevo algo inédito.

 

“Eu pedi a São João, ao querido São João que me desse um matrimônio…”

Todo aniversário ouvia essa música. Fazia parte da trilha sonora das festas que faziam em meu aniversário.

Pequena, até gostava de cantar mas não entendia seu enredo. Simplesmente reproduzia a cantoria.

Adolescente, cantava com todo fervor mentalizando o Santo e pedindo de coração essa graça.

Jovem adulta, ansiava por esse tão cantado matrimônio enxergando o pretendente em todo homem que cruzava meu caminho.

Madura…

Parei de ir às festas juninas, tapo os ouvidos diante dessa canção e das demais. Nunca mais fui a quermesse, nem pisei o solo de uma igreja…

Falando em igreja, lembrei que entrei na igreja de Santo Antonio, em Portugal em 2006. Sim, a casa real do Santo casamenteiro e bati uma “papo com ele”. Falei:

– Seguinte meu Santo, vou te bater a real: tô encalhada sim, a situação tá difícil mas para quem faz milagre, é fichinha. Concorda? Então, ôh meu santinho, vim de tão longe! Conceda-me a graça de conhecer um bom homem e com ele me casar. Só pra desempatar esse jogo que continua no zero a zero. Entende? Pôxa! Sou boa de cozinha, ótima na cama (alguns assim disseram), excelente administradora, bonita, inteligente, carinhosa. Que mais me falta meu Santo? Fale agora ou se cale para todo o sempre!

Esperei um tempo e nada do mardito me responder. Sua imagem ficou lá, olhando para o horizonte, ignorando-me na cara dura. Ora pois!

Fiz minhas preces ajoelhada, acendi velas, fiz o pai nosso, contribui com a igreja (em euros) e voltei feliz da vida para o Brasil com a certeza que o Santo faria a parte dele no acordo estabelecido.

O tempo foi passando e a situação necas de mudar. Ah tá! Vai, Confesso que até conheci alguns homens interessantes. Tudo bem que todos de início são príncipes que como passar do tempo vão transformando-se pouco a pouco em sapos. Alguns sapos até que me cativaram mas, como são escorregadios, escaparam por entre meus dedos.

A raiva foi tomando conta de meu ser até que decidi mudar de endereço. Saí do condomínio pantanoso e regressei para o solo urbano.

Fechei o estabelecimento antes mesmo de sua inauguração oficial. Piso duro nesse solo embrutecido revestido de concreto, piche e pedras. Olho firme o horizonte, feito o Santo que se dizia casamenteiro.

Outro dia em sonho, tive um dedo de prosa com o tal e ele, desconsolado pedia desculpas. Confessou não saber quem foi o sacana que espalhou ser ele, o santo casamenteiro. “Nunca fui nada disso dona. Isso foi intriga da oposição. Aposto que foi Pedro que – ganancioso – deve ter espalhado isso aos quatro cantos para ganhar pontos com o Senhor e obter a responsabilidade e as chaves do Paraíso. Uma vez confidenciou que não tinha muita paciência com a mulherada.

Maldito pescador! Essa ele me deve! Um dia ele me paga. Nem que eu espere a eternidade se findar, acerto as contas com esse senhor das lorotas!”

Despertei com esse pedaço de sonho claro como a luz da manhã. Fiquei penalizada com Toninho. Coitado!

Tendo de aguentar o mulherio todo desesperado atrás de um casamento sem nem saber fazer o tal milagre.

Sua orelha deve arder feito labaredas do inferno de Dante. E não ter ninguém para ajudá-lo a desfazer tal engano.

Sensibilizada, comprei uma imagem dele e montei um altar onde rezo todas as noites. Não para pedir casamento.

Não! Isso não desejo mais. Rezo pela sua paz de espírito. Rogo a Deus e ao menino Jesus clemência para esse pobre e injustiçado Santo.

Um vento não sei de onde refresca o ambiente e faz a imagem cair. Pulo no afã de salvar o santo de se transformar em cacos.

Repousando em meu colo, tenho a nítida impressão que ele sorri para mim.

Reponho-o no altar, faço mais uma oração agradecendo por ter sido rápida evitando sua quebra e levanto-me para sair um pouco. Preciso respirar ares novos. De repente, deu-me uma vontade absurda de pegar um cinema. Faz tempo que não assisto a nenhum filme. Nem sei o que anda passando no circuito da cidade.

Tomo um banho e arrumo-me como há muito não fazia. Ao olhar no espelho, certifico que minha figura está bem interessante.

“Gata, se eu fosse um homem, hoje, com certeza me aproximaria de você. Está irresistível!” – caio na risada ao perceber que falei essa baboseira em voz alta.

Ao quase fechar a porta, já de luz apagada, vejo que esqueci a vela do altar acesa. Sua luz refletindo o rosto de Santo António me dá a nítida impressão de que o santo pisca o olho pra mim. Assopro a vela, olho mais uma vez incrédula para a imagem e saio de casa.

A idade avançada já deve estar fazendo estragos em meus neurônios. Penso enquanto me dirijo ao cinema. Sorrio diante desse pensamento.

Já de ingresso comprado, pipoca e refrigerante nas mãos, sigo para a sala de projeção. Ao entrar no corredor, com a sala já as escuras, tropeço e caio sentada no colo de um senhor.

Que vergonha!

Toda sem graça, peço desculpas.pela minha atrapalhação, levanto com o resto de dignidade que sobrou e vou ao encontro de minha poltrona. Sento-me, respiro fundo já pensando que fora uma péssima ideia ir ao cinema e olho de relance para o senhor que serviu de poltrona para mim.

Nossos olhos se encontram. Tenho certeza que fiquei da cor de cereja madura.

Que vergonha! O homem vai pensar que vim a cata de uma aventura! Vamos prestar atenção no filme. Ah! Está passando propaganda.

Importa-se de sentar ao seu lado? Vejo que está sozinha e como também estou só… Posso?

Hum!Hum!