Lero com Toninho

santo antonio

 

Esse texto escrevi em maio de 2015 com o título Devaneios juninos. Deixo minha homenagem a esse Santo que – mesmo não sendo católica – nutro uma simpatia. Como estou atarefada essa semana, republico pois sei que muitas pessoas ainda não leram. Aos que já leram, tenham um pouquinho de paciência que em breve escrevo algo inédito.

 

“Eu pedi a São João, ao querido São João que me desse um matrimônio…”

Todo aniversário ouvia essa música. Fazia parte da trilha sonora das festas que faziam em meu aniversário.

Pequena, até gostava de cantar mas não entendia seu enredo. Simplesmente reproduzia a cantoria.

Adolescente, cantava com todo fervor mentalizando o Santo e pedindo de coração essa graça.

Jovem adulta, ansiava por esse tão cantado matrimônio enxergando o pretendente em todo homem que cruzava meu caminho.

Madura…

Parei de ir às festas juninas, tapo os ouvidos diante dessa canção e das demais. Nunca mais fui a quermesse, nem pisei o solo de uma igreja…

Falando em igreja, lembrei que entrei na igreja de Santo Antonio, em Portugal em 2006. Sim, a casa real do Santo casamenteiro e bati uma “papo com ele”. Falei:

– Seguinte meu Santo, vou te bater a real: tô encalhada sim, a situação tá difícil mas para quem faz milagre, é fichinha. Concorda? Então, ôh meu santinho, vim de tão longe! Conceda-me a graça de conhecer um bom homem e com ele me casar. Só pra desempatar esse jogo que continua no zero a zero. Entende? Pôxa! Sou boa de cozinha, ótima na cama (alguns assim disseram), excelente administradora, bonita, inteligente, carinhosa. Que mais me falta meu Santo? Fale agora ou se cale para todo o sempre!

Esperei um tempo e nada do mardito me responder. Sua imagem ficou lá, olhando para o horizonte, ignorando-me na cara dura. Ora pois!

Fiz minhas preces ajoelhada, acendi velas, fiz o pai nosso, contribui com a igreja (em euros) e voltei feliz da vida para o Brasil com a certeza que o Santo faria a parte dele no acordo estabelecido.

O tempo foi passando e a situação necas de mudar. Ah tá! Vai, Confesso que até conheci alguns homens interessantes. Tudo bem que todos de início são príncipes que como passar do tempo vão transformando-se pouco a pouco em sapos. Alguns sapos até que me cativaram mas, como são escorregadios, escaparam por entre meus dedos.

A raiva foi tomando conta de meu ser até que decidi mudar de endereço. Saí do condomínio pantanoso e regressei para o solo urbano.

Fechei o estabelecimento antes mesmo de sua inauguração oficial. Piso duro nesse solo embrutecido revestido de concreto, piche e pedras. Olho firme o horizonte, feito o Santo que se dizia casamenteiro.

Outro dia em sonho, tive um dedo de prosa com o tal e ele, desconsolado pedia desculpas. Confessou não saber quem foi o sacana que espalhou ser ele, o santo casamenteiro. “Nunca fui nada disso dona. Isso foi intriga da oposição. Aposto que foi Pedro que – ganancioso – deve ter espalhado isso aos quatro cantos para ganhar pontos com o Senhor e obter a responsabilidade e as chaves do Paraíso. Uma vez confidenciou que não tinha muita paciência com a mulherada.

Maldito pescador! Essa ele me deve! Um dia ele me paga. Nem que eu espere a eternidade se findar, acerto as contas com esse senhor das lorotas!”

Despertei com esse pedaço de sonho claro como a luz da manhã. Fiquei penalizada com Toninho. Coitado!

Tendo de aguentar o mulherio todo desesperado atrás de um casamento sem nem saber fazer o tal milagre.

Sua orelha deve arder feito labaredas do inferno de Dante. E não ter ninguém para ajudá-lo a desfazer tal engano.

Sensibilizada, comprei uma imagem dele e montei um altar onde rezo todas as noites. Não para pedir casamento.

Não! Isso não desejo mais. Rezo pela sua paz de espírito. Rogo a Deus e ao menino Jesus clemência para esse pobre e injustiçado Santo.

Um vento não sei de onde refresca o ambiente e faz a imagem cair. Pulo no afã de salvar o santo de se transformar em cacos.

Repousando em meu colo, tenho a nítida impressão que ele sorri para mim.

Reponho-o no altar, faço mais uma oração agradecendo por ter sido rápida evitando sua quebra e levanto-me para sair um pouco. Preciso respirar ares novos. De repente, deu-me uma vontade absurda de pegar um cinema. Faz tempo que não assisto a nenhum filme. Nem sei o que anda passando no circuito da cidade.

Tomo um banho e arrumo-me como há muito não fazia. Ao olhar no espelho, certifico que minha figura está bem interessante.

“Gata, se eu fosse um homem, hoje, com certeza me aproximaria de você. Está irresistível!” – caio na risada ao perceber que falei essa baboseira em voz alta.

Ao quase fechar a porta, já de luz apagada, vejo que esqueci a vela do altar acesa. Sua luz refletindo o rosto de Santo António me dá a nítida impressão de que o santo pisca o olho pra mim. Assopro a vela, olho mais uma vez incrédula para a imagem e saio de casa.

A idade avançada já deve estar fazendo estragos em meus neurônios. Penso enquanto me dirijo ao cinema. Sorrio diante desse pensamento.

Já de ingresso comprado, pipoca e refrigerante nas mãos, sigo para a sala de projeção. Ao entrar no corredor, com a sala já as escuras, tropeço e caio sentada no colo de um senhor.

Que vergonha!

Toda sem graça, peço desculpas.pela minha atrapalhação, levanto com o resto de dignidade que sobrou e vou ao encontro de minha poltrona. Sento-me, respiro fundo já pensando que fora uma péssima ideia ir ao cinema e olho de relance para o senhor que serviu de poltrona para mim.

Nossos olhos se encontram. Tenho certeza que fiquei da cor de cereja madura.

Que vergonha! O homem vai pensar que vim a cata de uma aventura! Vamos prestar atenção no filme. Ah! Está passando propaganda.

Importa-se de sentar ao seu lado? Vejo que está sozinha e como também estou só… Posso?

Hum!Hum!

Poesia sempre!

O Dia Nacional da Poesia é uma homenagem a data de aniversário do poeta Castro Alves. No entanto, a partir de 2015, foi sancionada a lei 13.131, que mudou a data para o aniversário de Carlos Drummond de Andrade em 31 de outubro. Ou seja, agora o dia nacional da poesia é em 31 de outubro. Mas, para pessoas que como eu, a poesia é celebrada todos os dias do ano, deixo aqui minha pequena homenagem a ela, Poesia, e aos poetas que conseguem lapidar com perfeição todos os sentimentos humanos em rimas, estrofes e versos. O mundo sem poesia seria sem dúvida, mais pobre e sem graça. Abaixo, apesar de não me considerar poeta, arrisquei e escrevi esse pequeno poema:

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Determinação

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É hoje. De hoje não passa. Traçei um plano para executar e mudar minha vida. Sei que amanhã agradecerei ter tomado essa decisão. Contarei com apoio e aprovação de todos. Daqui uns anos, olharei meu reflexo no espelho e sentirei orgulho de mim mesma. É isso. Não tem mais volta. Na realidade, não vejo a hora do dia correr. Trago a certeza de que sairei vencedora. Já conto com torcida organizada a planejar seu grito de guerra para me ver chegar à final. Vai ser lindo! Farei parte dos vencedores na vida. Dos sorrisos que moram no Olimpo. Consigo desfrutar a sensação desde já do dever cumprido…

18h26 – Starbucks, Alameda Santos.

– Por favor, dá uma chegada mais pro canto para eu sentar? Obrigada. Ah, não querendo abusar, mas já abusando, posso colocar meu frappuccino nessa mesa? Ah sim, Obrigada.

– Camila, você por aqui?.. Não era hoje que iria começar a frequentar a academia?

– Oi Jú! É…

– Escuta colega, não era você que espalhou para todo mundo no departamento que a partir de hoje seria uma nova pessoa, e que se transformaria numa vegana? Só comeria coisas naturais?

– É…

– Cadê toda aquela determinação e discurso que nos infernizou a semana toda no refeitório só pregando a boa alimentação e bons hábitos? Não é bem isso que estou vendo por aqui…

– Jú, seguinte: vai ficar aí em pé me infernizando e tirando uma onda com a minha cara ou prefere sentar-se aqui e comer junto e colocar as fofocas em dia? Não sei se percebeu mas está atrapalhando.

– Fechado colega! Chega pra lá para eu sentar do seu lado. Ficou sabendo da Bernarda da contabilidade e do Alfredo da Tecnologia?

– Não mas você vai me contar tudinho. Moço, desculpa, pode se achegar um pouquinho mais pro canto. Ah, Jú coloca seu donuts do lado do meu. Isso aqui tá uma delícia!!!

Imagem: Pexels

Máscaras

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Como expressar o que sinto no momento? Não sei. Muitas perguntas sem respostas.

A única certeza que trago comigo é que nada sei.

Sorrio. Lembrei-me do filósofo que – segundo dizem, (não estava lá para saber) – dizia algo parecido. Simpatizo-me com ele. Nunca saberemos e quem afirma, engana-se a si mesmo.

O planeta gira numa velocidade “Sennica” e eu, nesse meu passar lento e miúdo, presencio flashs de acontecimentos e pessoas que percorrem a arena da vida desatinados correndo atrás de nem sei o quê.

Em minha lenta forma de viver, prefiro dar uma parada numa cafeteria e mergulhar numa xícara de café. Sou fiel a esse meu assumido vício. E claro, observar. Muito. Está certo. Assumo perante vocês que sou uma voyeur. Sofro de um prazer mórbido em desviar meus olhos e atenção à vidas alheias. Aprecio captar olhares, expressões, movimentos corporais que estimulam minha criatividade.

Amo a natureza. Flora e fauna trazem belezas indescritíveis. No entanto, nós humanos, trazemos conosco algo que nada na natureza contém. Essa capacidade de se expressar em gestos, ações, gritos, silêncios que nada se compara.

Apesar dos pesares, ainda aposto na natureza humana. Essa pedra embrutecida que carrega em seu interior, um diamante raro, de um brilho ímpar. Muitos, em poucas lapidadas se mostram em vida seu valor.

Outros, mais endurecidos, levam uma eternidade sendo moldado, raspado, amaciado e ao seu término, definha embaçado. Mesmo esses, que ninguém teve a capacidade de ver, trás em si, a beleza e valor encobertos por uma poluição da alma. Quem sabe, alguma mente mais elevada possa reconhecer seu valor.

Digo isso porque sentada na praça, após o almoço, admiro a movimentação, me deixo levar por esses pensamentos livres…

Olha só que graça a babá brincando com um bebê lindo, sorridente, em suas primeiras tentativas de andar…

Do outro lado, levemente encobertos por uma moita, um jovem casal em uniformes escolares, arriscam-se em carinhos mais ousados…

Mais adiante, outro jovem negocia drogas com um traficante. Achando que ninguém os vê…Ou, nem se importam que vejam. Tão comum.

O sol está ameno, convidativo a ficar. Mas, para quem é escravo do tempo, ele urge. Levanto-me de forma preguiçosa, refaço o caminho para a empresa.

Sempre de forma lenta afinal, para que a pressa? Tenho minha pequena dose de eternidade para brincar de ser gente. E brinco!

Hora do regresso: 12h53. Passo a catraca e transformo-me novamente na profissional séria e competente que todos conhecem.

Imagem: Google

Receituário de uma expectadora

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Convido a todos para conhecer meu livro de crônicas que lanço dia 19/11, próxima semana, pelo selo Scenarium Plural que produz numa série limitada, livros artesanais. Essa proposta é bem interessante pois o livro torna-se um objeto de colecionador, podemos assim dizer. É a segunda vez que sou convidada e participo dessa proposta. A primeira vez, participei com meus contos que se transformaram no livro Recortes de vidas, na série Exemplos. Dessa vez, participo com minhas crônicas que tanto gosto de escrever. Estou feliz demais e, quem estiver em São Paulo e puder e quiser me prestigiar, estaremos no seguinte endereço:

convite

Para quem não puder comparecer, mas desejar obter o livro, faça sua reserva pelo e-mail: scenariumplural@globo.com.

Livro: Receituário de uma expectadora

Autora: Roseli Pedroso

Valor para venda via pag seguro R$ 35,00

Dieta Paulistana

paulistanosAndo um pouco cansada do ser humano que teima em continuar patinando no mar de lama de sua própria ignorância. E quando digo ignorância, aponto a pobreza da alma e não da matéria. Sou de origem pobre. Minha infância e adolescência foi muito difícil e só não passamos fome porque sempre contamos com a caridade de almas bondosas. Toda essa minha introdução, é para apontar a postura de algumas pessoas que adoram apontar seus dedos em riste para aqueles que nem conhecem e julgam e condenam baseados em fatos (forjados ou não) bem rasos. Exemplo do que falo, é a atual situação político e econômica do país onde parece que a nação se dividiu. De um lado, os pseudo intelectuais esbravejando pensamentos esquerdistas pra lá de ultrapassados que não combinam com o momento atual. De outro, adoradores da direita que, embasados por uma filosofia emprestada e mal explicada, se posicionam contra os pobres, os desafortunados, os negros, homossexuais e mulheres esquecendo-se que fazem parte também desse grupo. Tenho lido nas redes sociais, muitos comentários maldosos e equivocados de pessoas de fora de São Paulo, expressando seu asco por o PSDB ter vencido e retirado o PT da prefeitura. Piadas infames ofendendo o povo que sua diariamente, trabalhando sem parar arrastando nas costas o crescimento da cidade, do estado, da nação.

Gente, só tenho a dizer que: o buraco é bem mais embaixo. Não abraço nem defendo nenhum partido, até mesmo porque, os políticos não respeitam a filosofia de seus partidos. Fazem o que querem.

Trabalhamos sem parar. Vivemos correndo para todos os lados. Somos considerados estressados, carrancudos, orgulhosos e sabe-se lá mais o que. Carregamos essa caricatura de “paulistanos” como se isso fosse uma mácula. Defendo o que sou, de onde venho e onde moro porque conheço a fundo nossos problemas. Para todos que não vivem aqui, não sabem um terço de nossa realidade e ainda acham graça em nosso perfil de povo, só tenho uma coisa a dizer: Acham que estamos na merda por tomarmos água de esgoto? Acham que detemos o rei na barriga e nos consideramos superiores ao resto do país? Se olharem para o próprio umbigo e suas realidades em cada Estado que vivem, verão que a situação não difere muito de São Paulo. Ou, por outro lado, alguns estão vivendo em situação calamitosa há décadas e reelegem os mesmos coronéis. Mas sempre a grama do vizinho salta aos nossos olhos não é mesmo? Mais fácil olhar e criticar o companheiro do lado do que observar os próprios defeitos e tentar superá-los. Nós paulistanos não temos a beleza natural das praias do Rio de Janeiro e de outras capitais do Nordeste. Temos como cenário, o asfalto, o concreto, o vidro e as chaminés de centenas de fábricas que empregam e dão o alimento às famílias. Fomos moldados para o trabalho seja em escritórios, fábricas, comércio, construção civil. Não temos quase tempo para o lazer, porque temos muito, mas muito mesmo a fazer.

Meu corpo, alquebrado aos cinquenta e três anos, não está tão exausto quanto minha alma que, diariamente, ouve e lê absurdos que só comprovam minha teoria de que nós – e nisso me incluo também pois não sou melhor que ninguém – ainda temos muito, mas muito a aprender. Só que para aprender a grande lição, teremos de comer literalmente muito capim até provarmos que já evoluímos um pouquinho. Brasil, pátria dos que pensam que são, dos que desejam ser, dos que acham-se superior aos demais…

São Paulo, terra da garoa que hoje, ressecada por tantas mãos que vieram de fora e sugaram suas riquezas, ainda assim, continua a abrir seus braços e abrigar todos que desejam encontrar aqui, um futuro melhor. Por favor, antes de pisar nesse solo, deixe de lado seus pensamentos preconceituosos e mal formados e entre desarmado. Aqui, encontrará além de oportunidades, solo fértil para amizades, amores e aconchego. Não julgue pela nossa cara sisuda. É pura preocupação em ofertar o melhor. Esse é nosso jeito.

P.S.: Desculpem o  texto longo mas, diante de tantas agressões gratuitas e desnecessárias afinal, se nós paulistanos tomamos suco de merda e fizemos tal “merda” ao eleger fulano ou sicrano, lembrem-se que é graças a esse poderoso adubo natural que carregamos o país inteiro nas costas. Mais uma vez digo: não sou nem me sinto melhor que ninguém apenas sigo trabalhando e não tenho tempo pra traçar comentários denegrindo sulistas, nordestinos e etc. Sou do povo. Sou paulistana. Sou brasileira. Ponto!

Haja merda pra tantos equívocos!

Imagem: Rafael Neddermeyer

Sornice

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Abro os olhos diariamente e observo. Nos últimos tempos, na medida do possível, mantenho minha boca cerrada. Precaução em tempos de censura mas também, pura preguiça. As pessoas andam nadando com fôlego de atleta olímpico na piscina da mediocridade e eu, preguiçosa que sou, não aprendi a nadar. Só boio.

O cansaço que sinto diante de tamanha realidade rasa causa náusea. Vomito.

Limpo os restos na manga de minha camisa de linho puro sintético comprado na lojinha do Ching Ling. Que mico!

Vomitar e usar essa porcaria made in Taiwan.

Imagem: Pixabay

Acordo doloroso

Uma sensação estranha se desenha aos poucos em meu interior. Minha mente busca – na vã tentativa de negação, pensar em coisas alegres. É lógico que fracasso.

À tarde tento fingir que trabalho, num esforço intenso de parecer concentrada. Descobri que sou excelente atriz! Ninguém percebe ou, por outro lado, todos agem da mesma forma que eu. Fingem na frustrada tentativa de sabotar a realidade.

Olhos caídos, andar pesado, dedos nervosos teclando em busca de notícias positivas.

É não deu. A vida vem e escarra em nossas caras que ela não é a tela do plin-plin. Não utiliza imagem HD, não se mascara muito menos te poupa se você for bom.

Por outro lado, a Morte, essa misteriosa dama que a todos assombra e fascina, também trabalha no mesmo esquema. Uma é o complemento da outra. Trabalham em parceria constante. E se respeitam quando finda o contrato de alguém.

Hoje, muitas pessoas tiveram seu contrato encerrado. Sinto por todos. Mas o término de contrato do Clown mexe com o emocional de todos.

O Clown é um personagem que habita o imaginário das pessoas. Figura constante na infância que se materializa na fase adulta resgatando a criança que um dia fomos.

Figura que trás no rosto, a alegria e a pureza do espírito, assombrada por um olhar melancólico que sabe que a vida não é só beleza.

A Morte resistiu bravamente. Aguentou paciente a espera da realização máxima do Clown para levá-lo consigo. Chegou inclusive a se emocionar – coisa rara de acontecer, com o talento do palhaço no picadeiro da vida.

Mas não teve jeito. Funcionária padrão do Senhor do Universo, ela não pestaneja diante das situações, muito menos das emoções que todo ser humano expressa. Calejada diante do sofrimento, criou uma couraça para se proteger caso contrário, não teria a competência que tem. Já traçou antecipadamente todos os passos para o desfecho do escolhido da vez.

Planejou com Mãe D’água, como seria o grand finale. O local era cenário perfeito para esse enredo. A Senhora das Águas garantiu que seria inesquecível. E foi.

Poucas vezes a Morte sentiu aperto no coronário ao carregar o dileto. Hoje, sentiu que também morria um pouco.

 

Aquarela borrada

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Sabe aquela inquietação, misto de ansiedade, medo e vazio, que toma conta da alma? Pois é, amanheci assim.

No desjejum da manhã chuvosa e fria, me alimentei de saudade acompanhado de ovos estralados. Mastiguei por um longo tempo relembrando nosso lindo encontro que jamais aconteceu.

Insisto em fantasiar. Uma maneira que encontrei de manter-te real ao meu lado nessa solidão que mergulhei.

Não reclamo. A solidão – que para muitos é o fim da rota, para mim, é boa companhia. Gosto de minha rotina, de meus silêncios pontilhados por trilha musical de Chet Baker e Cesar Camargo Mariano. Aprecio minha voz não pronunciada que permanece dentro de mim. Sou boa companhia. Converso bastante com meu eu e, através de nossas conversas, filosofamos noite adentro.

Relembrei a viagem a Paris que tanto sonhei ao teu lado. Você, como sempre, amarelou no último instante. Jamais assumiu o medo de avião. Medo esse, que te impediu de ser feliz e realizar seus sonhos diversas vezes na vida. Segui sozinha imaginando-te sempre ao meu lado. Descobrindo os becos da cidade luz, sorvendo o beau vin que as bodegas ofertam. Desvendei a cidade de metrô e em poucos dias, já me sentia uma legítima parisiense.Acho que nasci pra isso! Fui ficando. Em pouco tempo consegui emprego de garçonete num restaurante três estrelas frequentado por pseudos escritores e artistas de todos os gêneros. Pessoas incríveis que me acolheram com carinho legítimo. Me senti em casa! Os anos passaram muito rápido. Virei artista incentivada por todos. Primeiro, comecei a desenhar, depois pintar. Virei excelente retratista. Passei a vender meus quadros na Place du Tertre. Em pouco tempo fiquei conhecida. Fui apresentada à  Jean-Paul, músico, instrumentista e com ele, me aventurei. Descobri ao seu lado que cantava bem. Uma voz pequena como a de Nara Leão e fiz  sucesso cantando Bossa Nova misturada com Techno. Gravei dois CDs que ainda hoje fazem sucesso nas discotecas locais. Hoje, amadurecida, descobri a escrita. Escrevo memórias. Minhas e dos outros. Não alcancei o hall da fama muito menos virei Nobel da literatura. Não é meu objetivo. Escrevo mais pra mim do que para os outros. É a forma que encontrei de deixar minha marca nesse mundo.

Continua chovendo. A janela embaçada pelos respingos d’água mostram uma cidade mais cinzenta do que de costume. Gosto do que vejo!

Reponho mais café em minha caneca, aspiro seu aroma inconfundível e tento lembrar com mais nitidez seu rosto e contornos. Já passaram tantos anos e ainda não te esqueci. No entanto, sua imagem ganha tons esmaecidos. Assim como a paisagem na janela. Tento escrever sobre você como forma de te fixar a minha realidade. A memória que ainda guardo escorre feito tinta fresca em excesso se transformando num grande borrão do passado.

Imagem: Marion Bolognesi

 

Meu universo ruindo

A photo by Greg Rakozy. unsplash.com/photos/oMpAz-DN-9I

Tudo anda muito chato. Acontecimentos. Pessoas. Atitudes. Vida.

Um misto de depressão e vontade estúpida de viver. Mas não aqui. Não ao lado dessas pessoas. Percorro as vias públicas, desviando da massa que, envoltos na febre Pokémon, são atropelados por minha ira. Nem percebem. Não me notam. Não sou imagem holográfica.

Percorro a Paulista, num desejo raro de desviar de meus próprios pensamentos. Geralmente recorro à eles quando me sinto assim, cheia. Hoje, faço diferente.

Em passadas ligeiras, transformo-me em maratonista desviando de pessoas, carros, motos e bicicletas. Desvio inclusive, deles, os pensamentos. Assumo um nada total que se avoluma e toma conta do meu ser. Flutuo. Deixo para trás dores – da alma e das articulações desgastadas. Desapego-me de bolsa, identidade, dinheiro. Desço a Augusta, de forma veloz. Prestes a chegar à esquina com Caio Prado, percebo que só tenho metade de mim volitando pelas vias públicas. Desintegro-me para não me perder de vez. Moléculas roselianas sobrevoam o céu poluído de São Paulo. Prestes a chegar ao meu destino, já com chaves em punho, respiro aliviada. Sou apenas um esboço mal feito de mim mesma. Um rascunho feito às pressas por um retratista medíocre.

Giro a chave. Entro. Fecho a porta e escuto o silêncio do ambiente. Aos poucos tomo ciência do retumbar de meu coração. Ainda pulsa. Ainda vivo nessa carcaça decadente que teima em amar a vida. Mesmo que essa, muitas vezes se mostre inimiga.

Lágrimas descem por meu rosto cansado de mais um dia, menos um dia – como sempre diz uma querida amiga minha. Mais uma data riscada em meu calendário. Mais um passar de horas que apago de minha existência. Nada aconteceu. Nada acontece. Pela janela, observo as luzes nos prédios que me avizinham. Estrelas reluzentes em meu universo em constante caos.

Imagem: Unsplash