Tentativa

Quero retornar. Juro. Se precisar até faço cruz e beijo pra selar meu desejo.

Mas não consigo. Está difícil sair dessa paralisia de vida. Acho que é porque quando morre alguém muito querido, boa parte de nós se vai junto. Olha só, está vendo como fico? Basta tentar e logo estou em prantos. Querendo trincar e virar pó para me perder no Universo. Talvez, quem sabe, virando poeira estelar deixe de sofrer.

É. Eu sei. Sei de tudo isso que você teima em me dizer. Agora te pergunto: quem manda no coração? Eu é que não. Ele – pelo menos o meu – tem vontade própria. Vive mandando às favas a lógica e o bom senso. Coração só quer saber de bater acelerado. Esse negócio de manter-se em equilíbrio não é com ele.

Varias vezes tentei sentar, focar e escrever algo que valha a pena publicar. No entanto, a tela, após horas, permanece em branco. Então desisto, levanto-me, desloco meu corpo para a frente de uma tela maior e ligando-a, desligo-me da realidade por mais algumas horas, anestesiando meus sentimentos e fingindo-me de feliz. Até consigo rir!

Outro dia chorei muito… Pensei até que morreria afogada em minhas próprias lágrimas. Uma revolta imensa tomou conta de mim. Revolta com a vida, com a morte, com Deus. Pela primeira vez contestei seu poder de decisão sobre nossas vidas. Pela primeira vez tive vontade de mandá-lo a merda. Pela primeira vez, ainda chorando, pedi perdão pelo grau da blasfêmia. Pela primeira vez tomei consciência de minha confusão mental e emocional. Pela primeira vez constatei minha pequenez. E chorei até esgotar toda água de meu organismo e me transformar numa rosa do deserto.

Há dias vivo, trabalho, como, bebo, durmo, defeco. Seca. Por dentro e por fora onde minha pele já demonstra rachaduras e meu interior, há muito se trincou e pouco a pouco, se esfarela por dentro.

Está vendo só? Ainda não estou pronta para voltar. Continuo não sabendo o que escrever e como escrever. Acho que minha pretensa carreira de escritora terminou antes mesmo de começar. Para se escrever bem é preciso ter alma, calor, vontade. No momento não tenho nenhum nem outro. Sou apenas uma sombra daquilo que um dia pensei ter sido.

Vou me afogar num destilado ali ao lado lendo Hemingway ao som de Chet Baker.

Se sobreviver, volto.

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Balanço geral

Todo ano a mesma coisa. Os mesmos rituais. Os mesmos rostos eufóricos a desejar o melhor. E assim, escapando do estresse que é enfrentar lojas e filas, além do mal humor de balconistas que trabalham cerca de dezoito horas em péssimas condições (sei bem porque já fui uma), perder horas preciosas no trânsito ou no aperto das conduções coletivas. É chato, é desgastante mas, quando nos reunimos para se confraternizar, tudo some: cansaço, nervosismo, mal humor, noites mal dormida.

Fica a leveza de espírito em saber que conseguimos finalizar mais um ano de muito trabalho, dissabores, perdas, falta de dinheiro e inúmeras incertezas. Mantêm-se a certeza de que, o que vale mesmo, são os momentos que passamos juntos aos que amamos e re-afirmamos mais um ano de contrato.

Esse ano, mais do que outros, tenho a certeza de que devemos nos esforçar para fazer cada momento único e rico em alegria, tolerância e amor. Não sejamos econômicos em expressar carinho e sorrisos. Como seres em eterna mutação, acredito que nossa permanência aqui no plano terreno é bem passageiro e – por conta disso mesmo – precisamos nos conscientizar que precisamos amar, mas amar muito. Não esse amor Doriana que a indústria marqueteira propaga e sim, o amor verdadeiro que a tudo suporta e nada cobra. Apenas aceita.

Estou parecendo piegas? Pode ser caro leitor. Quer saber? Bendito os que ainda têm a capacidade de ser piegas e não se envergonha de expressar o que pensa ou sente.

A humanidade está carente e precisa se despojar dessa roupagem fake no qual todos devemos aparecer belos, magros, bronzeados e felizes. Abaixo a maquiagem. Desejo homens e mulheres de cara e coração limpos. Sem artifícios. Apenas humanos.

Difícil definição

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Mudar o verbo da noite para o dia transformando alguém tão caro e próximo num personagem do passado é doloroso. Alguém que dias atrás se encontrava ao nosso lado conversando, rindo, fazendo planos, enquanto traçava una bella  pizza ou un talharim ao pesto – seus pratos preferidos. Dói.

Agora, o que resta é um bolo indigesto parado na garganta diante do fato consumado. Nunca em minha vida senti tamanha dor. Nunca.

A inquietação que assola minha mente e coração parece que vai explodir a qualquer momento da mesma maneira que implodiu dentro de si, pondo término a um ser que tinha urgência em viver pois parecia saber que havia pouco tempo.

Meu menino que começava a amadurecer e cultivar ideias de fincar raízes, formar família, ter filhos. Esse era seu sonho. Contudo, ao mesmo tempo que alimentava tais quimeras, se jogava de cabeça em tudo o que pudesse fazer. Não quis seguir com os estudos mesmo sendo um Q.I. alto comprovado por especialistas. Contrariando a todos, dizia não poder perder tempo.

Tempo…

Sempre esse senhor a direcionar nossas vidas. E de alguma maneira que nos foge ao entendimento, ele sabia que precisava correr e dar conta de fazer sua história o mais completa possível. E deixou. Um Best Seller digno de aventuras Harry Potterianas, seu personagem preferido desde a infância. Havia total identificação, inclusive física.

Tornou-se precoce cidadão do mundo . Uma inquietação sem fim o movia a vários lugares. Viveu em constante busca de seu Graal.

Dono de mil talentos, desenhava quadrinhos e até se aventurou no mundo dos Tattoos. Aprendeu a cozinhar e sabia preparar pratos com requintes profissionais. Circulou por todas as esferas. De malandros e hippies da Avenida Paulista – sua favorita – ao mundo da moda, dos artistas de teatro, TV, aos grupos religiosos cristãos.

Família…

Essa, apesar de ser sempre um ponto de atritos e divergências, era também seu porto seguro. Todas as vezes que sentia-se perdido ou inseguro, era para ela que se voltava. Renovava suas forças, alimentava-se do amor incondicional que todos lhe tinham, respirava ares de amor e retornava para o mundo.

Em nosso último encontro, enquanto saboreávamos uma pizza, ele perguntou se eu já havia escrito algo sobre ele. Pensei e respondi que sim. Ele perguntou: Sério mesmo? Escreveu? O quê? Respondi sorrindo: se quiser saber vai ter de ler meu blog inteiro e se identificar. Tenho certeza que se reconhecerá. Mas terá de ler.

Não teve tempo. E eu, desde então sigo com o mesmo aperto na garganta e coronário e com os dedos enrijecidos pela dor de perdê-lo. Tão cedo…

Caso tivéssemos escolha, teria cedido de bom grado o tanto de vida que me resta. Já vivi bastante, conquistei muitas coisas, vivenciei tantas outras. Só pelo prazer de vê-lo se realizar, casar, ter filhos e levar uma vida simples no campo. Sem correrias nem atropelos.

Uma pena a vida não ser ficção caso contrário, já teria deletado essa parte da história e dado um rumo diferente. É meu menino, não deu.

Só deixo aqui uma pergunta que – por mais que busque resposta, não encontro uma que me satisfaça: quem ou o que preencherá essa imensa cratera de um metro e noventa e dois que se abriu em meu peito?

Talvez, repito novamente Talvez, daqui um tempo, a quantidade de lembranças que você espalhou por toda parte ao tombar inerte no chão frio me satisfaça. Talvez, com paciência e coração mais compassado, consiga montar o seu quebra-cabeças e perceba o quanto foi bonita sua passagem em nossas vidas. Mesmo que meteórica. Você passou. Sua luz permaneceu.

 

Imagem: Arquivo particular

Cadê o ouvinte?

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Sou uma sem noção assumida. É sério! No entanto, minha “sem noção” tem uma certa consciência das coisas e, mesmo assim, insisto. Exemplo?

Falar com determinadas pessoas sobre assuntos que não interessam a elas. Observar que enquanto narro entusiasmada, desviam o olhar de forma ansiosa querendo escapar de mim sem ter como e, mesmo assim, continuo a falar,falar,falar…Até que fico com dó de fazê-las sofrer e caio fora. Deve ser coisa de canceriana.

Contudo, confesso que às vezes fico chateada com a falta de interesse delas…

Quando dou por mim, percebendo que a criatura não está nem aí, calo-me para ver a reação da mesma. Não dão continuidade a conversa ou simplesmente saem deixando-me sozinha ou, pior, começam a falar de si demonstrando que realmente não prestou atenção numa única palavra que expressei. Minha casa cai.

Puta que o pariu!

Será que é tão difícil assim, ouvir o outro? Demonstrar o mínimo de interesse, nem que seja por educação? Eu consigo fazer isso brilhantemente e talvez, por isso mesmo, sou sempre solicitada como ouvinte. Tornei-me com o passar do tempo um verdadeiro pinico ambulante onde todos despejam seus excrementos existenciais sem nem ao menos olhar em meus olhos e saem aliviadas. Bom né? Vou te contar leitor. Ah! Desculpe, está interessado em me ler? Senão…Ah! Escrevo mesmo assim. Caso não desperte interesse é só mudar de blog ou sair para ler as baboseiras do Ofuxico. Garanto que eles têm mais leitores que eu por aqui.

Olha só, desviei o assunto e acabei por esquecer o que ia falar. E agora?…Acho que estou envelhecendo. Minha memória não é mais a mesma. Apagão geral. Já sei, nem o Universo muito menos os milhões de bites do computador desejam ouvir meu nhé-nhé-nhé. Muito mi-mi-mi pra seres tão frios e sem sentimentos. Báh!

Esquece porque eu já esqueci e tenho mais o que fazer por aqui. Só resta lembrar o quê.

Orexia

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Mastigo de forma mecânica, meu sanduíche de peito de peru defumado e mussarela, acompanhado de sentimentos extensos de medo, salpicado com pitadas de desconfiança, alguns grânulos de autossabotagem e desilusão. Engulo nacos bem mastigados e deixo descer a seco. Sem coca-cola, nem suco, amaciado pela saliva raivosa de saber-se fraca, humana. Nunca imaginei que ser gente fosse tão sofrido. Se houver uma próxima existência, juro, desejo vir  na leveza de um beija-flor.

Imagem: Stocksnap

 

Talvez…

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Chego a essa altura de minha vida sem ainda saber o que desejo dela. Ou, por outro lado, o que ela espera de mim. Questão que, creio eu, seja difícil para qualquer ser humano responder. As religiões trazem respostas prontas que a grande maioria toma como verdades absolutas. Eu, de minha parte, refuto todas. Não que seja descrente, no entanto, talvez por pensar demais, encontre mil opções como possíveis respostas.

E como os antigos filósofos: penso, logo existo e quanto mais sei, mais sei que nada sei.

É bem por aí. É como tentar enxugar gelo. E por que cheguei a essas constatações filosóficas aqui expressas? Sabe que não sei? Mais uma para refletir e tentar chegar a uma (im)possível conclusão. Talvez movida pela minha eterna vontade de dominar a escrita. Essa maldita que se instalou em minhas entranhas e vive a se esconder nas brumas. Talvez…

Pode ser que instigada pelo desejo de registrar o que vai em meu interior. Aquilo que não confesso a ninguém mas, que através da escrita , torna-se mais fácil revelar. Contudo, confesso que quanto mais escrevo, mais confusa fico e nesse emaranhado de confusões, sigo tentando passar alguma mensagem – mesmo que boba – para meus leitores. Talvez eles se encontrem tão confusos quanto eu e isso tudo que deixo por aqui, sirva de conforto e a certeza de que não estamos sozinhos. Talvez…

 

Imagem: Maximo Mancini

Teatro e literatura se mesclam: ótima pedida!

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Quando iniciei esse blog, minha intenção era apenas postar textos de minha autoria. Seria uma plataforma de exposição de meus escritos de forma bem livre. Acredito que alcancei meu objetivo, uma vez que conquistei leitores que me seguem e aguardam sempre novos textos. É uma responsabilidade escrever de forma consciente, criativa e que sensibilize quem por aqui comparecer. Nesse mês de julho, não publiquei nada por conta de minhas férias no qual decidi fazer outras coisas. Entre essas coisas, a leitura estava em primeiro lugar. Com vários livros escolhidos, haviam outros tantos já iniciados e que por conta de inúmeros compromissos, encontravam-se abandonados aguardando minha volta à eles. E é de um deles que vou falar um pouco por aqui.

Quem me conhece sabe o quanto admiro escritores nacionais. Sempre digo que temos grandes talentos por aqui. Muito mais que esses nomes estrangeiros que poluem as grandes redes de livros com mais do mesmo. Deixo claro que reconheço grandes nomes da literatura universal, no entanto, não é a esses que me refiro. Entendido?

Conheci o autor do livro, quando participei de um lançamento feito pela Scenarium Plural, sob o comando da sempre alegre e competente Lunna Guedes. Isso nos idos de setembro de 2014.

Emerson Braga, contista criativo e talentoso lançou seu livro de contos Amores, desafetos e outros despautérios acerca de Eros. Foi meu primeiro mergulho em sua escrita. Gostei demais da sua forma de comandar o rumo das histórias além da riqueza dos personagens. No entanto, minha surpresa – grata diga-se de passagem, se manifestou ao ler seu primeiro romance publicado em 2016, pela editora Penalux: A morte de um embusteiro viajante. Emerson mostrou um amadurecimento literário e uma segurança que só os grandes têm ao escrever uma obra envolvendo personagens famosos de Shakespeare ao lado de um velho ator em seu último ato. Lázaro Bardo revê sua vida ao lado de Hamlet, Rei Lear, Macbeth, Romeu e outras figuras fantásticas.

Homem destituído de qualquer simpatia devido ao seu alto grau de arrogância, aos poucos, vai retirando suas máscaras e se relevando apenas um ser humano comum, igual a mim, a você e a tantos outros que atravessam nossos caminhos. Emerson nos mostra ser grande conhecedor da obra shakesperiana e do teatro conseguindo percorrer os caminhos de uma peça teatral e seu mundo de forma familiar nos mostrando que sabe do que fala. Retomei a leitura e cheguei ao término num crescente de emoções que me levou a derramar algumas lágrimas ao final da leitura. A boa literatura é isso: nos emociona sem ser piegas. Emerson querido, Parabéns pelo belíssimo romance de estréia. Livro muito bem feito. Linda capa e diagramação do competente Ricardo A. O. Paixão, edição muito bem tratada pelas mãos de França & Gorj texto primoroso da orelha feita pelo escritor André Kondo. Agora, estou no aguardo do próximo romance que já está sendo desenvolvido por ele. Essa informação direta da fonte: o autor!

Voltei!

Protesto! O mês de julho passou numa velocidade absurda. Mal pisquei e agosto chegou. Apesar do protesto, não reclamo. Passei minhas férias sem nenhuma viagem, descansei bastante, dormi muito, gastei meus olhos nas leituras e filmes e séries que assisti na Netflix. Ah! E dei um tempo nas redes sociais o que significa que também deixei de lado meu blog. Sorry leitores amados. Foi por uma boa causa: minha saúde mental, espiritual, psicológica e física.

Bom demais! Contudo, a realidade me puxa pelos cabelos (que estão caindo) e grita para que eu viva intensamente a realidade. Impossível! Canceriana que se preze vive mais no mundo da Lua do que aqui, com os pés fincados na terra.

Iniciei um curso de contos que não levei adiante. Motivo? Não gostei. Não senti verdade nem dedicação. Resolvi curtir minhas férias e leituras que, com certeza, me inspiraram muito mais do que aquele blábláblá. Explico: não sou uma escritora que arrasa em seus textos. Tenho plena consciência de que tenho muito a aprender. Mas…Quer saber? O caminho das pedras eu já sei portanto, é arregaçar as mangas e escrever, reescrever, escrever novamente e assim,  lapidar meu trabalho. Como também não tenho nenhuma pretensão em ser um prêmio Nobel de literatura, sigo em frente desejando mais é ser feliz. Mesmo escrevendo fora dos parâmetros ditos “literários”. A vida já nos dita tantas regras que me recuso a seguir mais essas. Pelo menos por aqui, desejo mais é que seja um espaço de total liberdade para mim. É isso. Caros leitores, estou de volta e aos poucos, vou postando textos novos. Ou não. Aproveito para avisar que de vez em quando postarei meu parecer sobre os livros que tenho lido. São tantos. São incríveis e por isso mesmo, vou compartilhar com vocês meu parecer. Não me considero nenhuma crítica literária porém, tenho sensibilidade e é através dela que me guio nas leituras e em tudo o que faço. É isso. E que agosto nos traga ventos de renovação.

Memória: universo intocável

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A manhã inicia envolta numa densa neblina. Ao abrir a porta que dá para o quintal, recebe uma lufada de vento gelado. Sorri! O galo da vizinha da rua debaixo canta animado. Alguns bem-te-vis e beija-flores voam ao redor do jardim e da horta que seu pai cuida tão bem. Há uma fina camada de gelo na plantação.

Com seus pezinhos envoltos numa alpargata gasta e uma meia listrada e rota, dá alguns passos no frio piso de cimento queimado. Quase escorrega, porém, consegue se equilibrar. Respira fundo e solta o ar pela boca. Diverte-se com a fumaça de ar quente que sai. Isso é inverno para ela! Corre para o balanço que seu pai instalou no fundo do quintal. Passa as pequenas mãozinhas na tábua molhada, esfrega-as na calça de flanela xadrez e senta balançando feliz. O dia promete!

Sua mãe grita da cozinha chamando todos para tomar o café da manhã. O aroma do café coado tira a pequena de seus devaneios infantis. Pula do balanço e entra pela cozinha para ocupar seu lugar a mesa. Todos reunidos, dá gosto ver seu pai – homem robusto, saudável, fartos bigodes negros – de olhos brilhantes feito os das crianças. Assobia de alegria ao ver as broas de milho quentinhas, o café aromático, o leite espumoso na jarra, a manteiga, o pão francês quentinho que sua mãe trouxe da padaria da esquina.

Sua mãe…

Figura ímpar. Mulher batalhadora que madruga para oferecer o pouco de conforto material aos seus. Mesmo com a renda escassa, prima por manter a família bem alimentada. É sua maneira de expressar seu amor.

Apesar de magricela, a menina é boa de garfo. Trata de comer sua broa, sua fatia de pão com manteiga, sua xícara de café com leite e a seguir, um pouco de achocolatado. Coisa rara que só acontece nessa época quando esfria. A criança estremece de contentamento ao sentir a quentura e o doce do chocolate. O dia promete!

O resto da manhã foi de muita tarefa na cozinha. Sua avó materna e mais duas tias chegam para reforçar as atividades. Forno aquecido, mais broas assando, um bolo com cobertura de pasta americana sendo confeccionado pelas mãos hábeis de sua tia, quituteira de fama no bairro. Do outro lado da cozinha, sua outra tia manipula a massa da bala de coco. A guria ama ficar sentada quieta olhando a destreza dela a esticar – com velocidade  – a tira de massa para não açucarar.

Sempre pensa: Minha família só tem artista!

A transformação da tira termina com as balas já cortadas descansando no frio mármore da pia, prontas para degustar.

Pura magia! A tia sempre oferece uma bala fresquinha à ela que, salivando, chupa bem devagarinho para que a bala não acabe nunca. Do lado de fora, no quintal, seu pai cozinha os pinhões. Outra iguaria que somente nesse mês do ano surge. Ela gosta de ver o pai mexendo no caldeirão com uma colher de pau e depois – com eles já cozidos e escorridos – descascar deixando-os peladinhos prontos para o banquete de logo mais. Sua avó, como sempre, se encarrega do feitio da paçoca. Posiciona o pilão centenário no meio do quintal e, munida de açúcar, amendoim torrado, farinha de mandioca e sal, deita o bastão para transformá-los em paçoca. Enquanto soca os ingredientes, dona Maria entoa uma cantoria que alegra o ambiente fazendo todos relembrar: Hoje é dia de festa!

De olhinhos vidrados na figura da avó com seu vestido florido azul marinho, avental e lenço prendendo os cabelos, chinelos nos pés – mesmo no inverno – balançando sua barriga cantando e rindo ao mesmo tempo. A garota sorri ao se aproximar da avó e pede o enorme bastão para socar um pouco. Arrisca cantar e ambas caem na risada com o desafino e a voz diminuta da menina. Quando terminam, comem a paçoca às colheradas. Coisa boa vó! – diz a garota com a boca cheia de doce.

Às dezesseis horas, a mãe surge à porta da cozinha chamando as crianças para o banho.

Está frio pra tomar banho mãe! – responde o irmão que não se dá muito bem com a água.

Não quero saber se está frio ou quente. Já pro banho moleque! Até as cinco quero todos de banho tomado e vestidos.

Quando a mãe fala nesse tom de voz não tem discussão. Gostando ou não, todos obedecem. Enquanto a gurizada está no banho, alguns homens da família – tios e primos – chegam trazendo lenha para montar a fogueira. Seu Pedro, o avó materno, passeia pelo quintal verificando tudo de mãos para trás pensativo. É seu jeito mineiro de ser. Confere tudo, afinal, também tem interesse que tudo saia perfeito.

Dezoito horas. Frio intenso, contudo, a temperatura entre todos os presentes encontra-se bem alto. No portão principal, seu Pedro recebe familiares que chegam abraçando-o. Ele é um dos aniversariantes do mês. A enorme mesa montada no quintal – na parte coberta – tem uma toalha estampada e uma vasta seleção de gostosuras juninas: bolo de fubá, de milho, broinhas, pé de moleque, paçoca, balas de coco, pinhão. Tudo distribuído ao redor do enorme bolo de aniversário coberto de massa americana colorido. Do outro lado, uma mesa menor com jarras de quentão, K-suco de uva e morango, garrafas térmicas com achocolatado e café. Na fogueira já ardendo em todo seu potencial, espetos com batata doce assando. Na vitrola, um disco entoa canções…

Capelinha de melão
é de São João.
É de cravo, é de rosa, é de manjericão.
São João está dormindo,
não me ouve não.
Acordai, acordai, acordai, João.
Atirei rosas pelo caminho.
A ventania veio e levou.
Tu me fizeste com seus espinhos uma coroa de flor.
Em pouco tempo a casa está lotada de familiares e amigos celebrando. O mês de junho é repleto de aniversariantes. A começar pelos avós, seu Pedro, seu Benedito, terminando pela neta, a menina magricela que hoje, resplandece de alegria por ver tantas guloseimas. Em frente ao bolo, seis pessoas felizes fazem seus pedidos antes de assoprarem as velinhas. O pedido da menina – talvez pela pureza infantil ainda não corrompida pelas mazelas de adulto – só deseja que o resto da vida seja uma grande e ininterrupta festa de aniversário.
Papai do céu, deixa eu ser eternamente criança!
Enquanto faz o pedido, uma estrela cadente atravessa a noite escura sacramentando sua solicitação.
Gente, lembrando dessas passagens de minha infância percebo que Papai do Céu atendeu meu pedido naquela noite fria: não perdi de vista minha menina magricela, sardenta e sonhadora. Não cresci muito no tamanho, continuo sonhadora e transformei meus sonhos em narrativas. E continuo amando festas juninas! Os balões, hoje solto na minha imaginação, afinal, consciência é necessário. E por aqui, eles continuam coloridos e belos a subir pelo céu de junho.

Cabra duro na queda!

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Definitivamente eles não me entendem! E definitivamente, não faço parte dessa turma. Por mais que me esforce, não consigo ser como eles. Tudo parece tão fácil. No entanto, para mim, soa como algo inatingível. Falo pouco, sou de poucos movimentos e mesmo esses poucos, desenvolvo bem devagar. Que posso fazer? É meu ritmo. Já disse, sou diferente. Caí do disco voador num passeio despretensioso pela via Láctea. Bem feito! Quem mandou viajar por aí. Deveria ter ficado no meu canto, em minha poeira espacial bem escondido.

Agora, peno diariamente sendo obrigado a conviver com essa raça humana, primitiva, rancorosa, grosseira e feia. Nesse exato momento, encontro-me num P.S. horroroso, que aqui, chamam de UPA. Horroroso até no nome. Onde já se viu um nome desse para designar centro de atendimento? Só perde para a falta de profissionalismo da equipe. Se tivesse lágrimas, acreditem, choraria diante do que vejo e ouço. Toda essa situação me faz lembrar dos anos lindos e felizes que passei lá nos Emirados do Satélite 9, dois sóis após a Nebulosa 3. Lá, é local de seres evoluídos, limpos, éticos e generosos. Bem diferente do que se vê aqui nesse planetinha de merda! Estão vendo só? Até meu linguajar refinado perdi convivendo com essa gentalha. Ah que saudades ( isso aprendi aqui também) de minha juventude brincando nas nuvens lilás que percorre o Planeta Ruffus 72A. Cercada por seres de luz, inteligência elevada, padrão indescritível que não cabe no vocabulário paupérrimo dos terrestres. Pouco a pouco estou perdendo a lucidez de minha mente brilhante. Estou me nivelando à eles. Triste destino o meu.

Ando sentindo o que aqui  denominam depressão, melancolia, tristeza. Sinto falta dos sons equilibrados do espaço. Aqui, tudo muito barulhento. Meus sensíveis ouvidos já se encontram afetados por tamanha poluição sonora. São incapazes de apreciar o verdadeiro som da alma: o silêncio. Não sabem que é através dele que alcançamos outros níveis da alma e apaziguamos a mente tornando-a mais produtiva. Por conta disso, todos se encontram sempre cansados, sem energia para nada. Burros! Sim, todos por aqui são burros! Onde já se viu, estão acabando com a beleza natural desse planeta de terceira. O que de melhor tinham aqui, estão conseguindo liquidar. E enchem a boca de um imbecil orgulho autodenominando-se Raça Inteligente! Oh God! Quanta baboseira!

Pior de tudo é que, se pudesse, colocaria um ponto final na minha infeliz existência. Não posso. E acreditem, não é por covardia. Tenho coragem suficiente para fazer isso e muito mais. No entanto, fui confeccionado num material que não se destrói. Não finda. Viverei eternamente. O que para os humanos é algo sonhado em alcançar, para mim – confinado a esse bloco de terra e água superpopuloso de criaturas tacanhas e hostis – transformou-se no pior castigo.

Acompanho a saga desse povo há um bom tempo para saber que jamais se modificarão. Evolução aqui passa batido e reto. Logo, encontro-me totalmente desesperançado.

Tentei de tudo para definhar e colocar um ponto final em meu sofrimento. Nada adiantou. Alistei-me em grupos extremistas, fui homem bomba, estive em todas as guerras no século XX e nada. Nem um arranhão sequer. Experimentei drogas pesadas que arrasariam qualquer um. Comigo, o máximo que ganhei foi uma suave diarréia. LSD, cocaína, crack, drogas da felicidade, nada faz efeito em mim. Durante as campanhas espaciais, fiz de tudo para conseguir uma vaga num desses satélites e foguetes espaciais. Como dizem por aqui: a esperança é a última que morre e, movido por essa esperança, tinha intenção de conseguir uma vaga e me lançar no espaço. Rever um pouco da paisagem em que fui criado. Devo ter vindo com defeito de fabricação: azar em todos o meu material genético. Só pode. Tanto espaço me aguardando para explorar e rever, onde fui cair? Onde? Onde?

No deserto de Tarakum. Mais conhecido como A Porta do Inferno. Tinha que ser eu o agraciado dessa brincadeira de mal gosto do destino! Caí em pleno buraco de fogo que os cientistas russos tão graciosamente criaram sem querer querendo e que persiste pegando fogo até hoje. Saí da cratera literalmente pegando fogo. No corpo e na alma de tanta raiva pelo meu intento mal sucedido. E ainda por cima, com uma platéia a se espantar e me achar o máximo! Até hoje devem achar que fui um ator contratado para entreter os turistas imbecis que por lá aparecem.

Não pensem vocês que não tentei outras vezes sair daqui. Tentei. Juro. Muitas. Inúmeras vezes. Pelo teor de minha voz já sacaram que nenhuma deu certo – caso contrário -não estaria perdendo meu tempo aqui, desabafando com vocês.

Chego a seguinte conclusão: Meu confinamento foi decretado pelo Senhor do Universo. Talvez tenha sido apagado de meu chip o passado e atitudes contrárias às Leis Universais. Tenho pedido perdão diariamente na esperança (ela novamente) de que um dia, encontre uma boa alma que me tire dessa sentença tão amarga que é viver no planeta Terra

– Senhor Z, o senhor é um sortudo. Apesar do quadro, o senhor se safou do chikungunya. Entre tantas pessoas vítimas dessa febre que mata, o senhor saiu ileso. Caso de estudo hein? Homem sortudo! Vá para casa!

Go home

Imagem: Hypescience