Estou sozinha no quarto, entre dois mundos

A semana atravessou minha realidade numa velocidade luz. Fui atropelada por cometas e quase não me mantenho ereta, em pé. A sexta-feira despertou trazendo-me à realidade, adoecida. Corpo dolorido, olhos ardendo, alma enfraquecida. Foi difícil cumprir com as tarefas. A responsabilidade gritou alto e cumpri, chegando ao término do dia, com tudo realizado. Sensação boa mas retornei para casa achando que permaneceria acamada, tal a indisposição que se apoderara de mim.

Qual não foi a surpresa, ao despertar no sábado e abrir as janelas da alma e do apartamento e me deparar com um dia ensolarado, convidando a sair da toca. Saí e retornei logo. Não queria me arriscar. Boba que sou, deixei o dia esparramar seu calor e curti ele de longe, preferindo ficar quieta no mundo abstrato dos livros e das séries coreanas que tanto amo.

Folheei mais uma vez seu livro e logo de cara, a frase inicial me sequestrou e me perdi não sei por quanto tempo dentro das palavras:

“Àqueles que lêem para salvar a realidade”

Essa frase calou fundo e tem sido meu mantra dos últimos cinco anos. A leitura tornou-se mais que prazer, uma tábua de salvação de uma realidade distorcida, injusta, feia, suja.

Entre tantas leituras, houve romances incríveis, contos fantásticos, distopias e…Poesia. Teve também, a leitura técnica — necessária no trabalho — e, através dela, conheci inúmeros livros infantis que massagearam minha alma. Quanta beleza ainda existe nesse mundo destruído pelo próprio homem!

Quero expressar aqui, cara poeta, que seus escritos são de uma beleza ímpar. Até eu, que nunca fui de muita poesia, mergulhei fundo em suas páginas (In) versos e li, reli, retornei a eles, os versos e a cada leitura, sentia que adentrava um mundo de possibilidades e belezas que a palavra simples não dá a verdadeira dimensão de seu valor.

Hoje, ao contrário de ontem, outonou e mesmo tendo saído desse mundo que ainda não sei o nome, almoçado com família, voltei rápido – para a sós -, acompanhada apenas da trilha sonora de Shania Twain, escrever-te. É a primeira carta e espero não ser a última.

“Perdeu-se no tom suave

daquela melodia que

cantarolava saudade.”

Como esse verso me representa!

Este texto faz parte das Missivas de Primavera. Estão comigo:

Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega Nuñes – Suzana Martins

Deixa o coração se apaixonar pelas paisagens

Querida Mariana,

Acompanho suas postagens ricamente ilustrada. Suas fotos da natureza que habita seu quintal, transporta-me para outro mundo. Você tem o dom e a varinha mágica para fazer isso acontecer.

Mansamente embarco ao seu lado, nos mundos que docemente desbrava e me apresenta. Através da foto de uma joaninha, viajo para minha infância.

Outras vezes, olhando para uma flor, sigo viagem para uma floresta ricamente florida, e observo o desenrolar do cotidiano dos personagens que ali, você delicadamente desenha e gera vida em abundância. Por ser uma pessoa urbana, cria do asfalto, do pixe e da fumaça que sai dos transportes, não tive o privilégio de crescer cercada de tanta natureza bruta. Graças a você, pude ter esse contato que é fundamental para a essência humana. Apreciar e respeitar a natureza. Ampliar nossa visão interior para alcançar a beleza de tudo que pulsa vida em nosso planeta.

A cada dia mais consciente da importância e necessidade de se preservar o verde, porque somos parte dessa cadeia alimentar que se desequilibra, graças a nossa irresponsabilidade e falta de informação.

Nesse exato momento em que termino a escrita dessa missiva, sou envolvida pelo aroma do café que está passando. Sonho com o dia em que nos encontraremos para um café acompanhado de bolo, pão de queijo e o requinte e simplicidade de sua conversa, seu doce olhar e riso fácil.

Espero que essa missiva te encontre bem de saúde e que possa te levar energias de carinho para você ter uma semana de muitas alegrias. Com carinho dessa canceriana que muito te admira.

Este texto faz parte das Missivas de Primavera. Estão comigo:

Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega Nuñes – Suzana Martins

Imagens licenciada: Shutterstock

As horas estão escritas num futuro impossível

Cara mia,

Hoje despertei na cidade de Oz, pensando sobre o que escreveria para você. Temos tanto em comum e ao mesmo tempo, vivenciamos coisas tão distintas que reflito: essa diversidade me acrescenta muito!

Desde que te conheci lá…nos idos do Blogger, quando ainda alimentava meus filhotes Sonhos e Melodias e Bibliotequices e Afins, aos poucos, passei a te admirar. Como me arrependo dos inúmeros convites para participar de seus jantares literários. Mas tudo tem seu tempo e eu aprendi e continuo aprendendo com você. Sinto acima de tudo, gratidão por abrir seus braços e me aconchegar em seu valioso e restrito grupo de amigos. Sim, porque hoje sinto que somos amigas, parceiras de escrita e de vida.

Não sei me aventurar muito na poesia portanto, abstenho-me da tentativa por aqui. Acabei de passar um café e, na solidão abençoada de meu apartamento, escrevo essa carta abrindo meu coração e minha mente.

Essa semana não deu mais uma vez para nos encontrarmos. Não fiquei triste mas já antevejo nosso encontro regado a um café ou chá que perfume nosso espaço, onde traçaremos muitas conversas literárias e do dia a dia afinal, quando pensamos que as horas estão escritas num futuro impossível, garanto que para nós, isso não existe. Carregamos a essência de escritor que pode transformar e criar tudo o que desejar bastando abrir a mente para vivenciar uma história na qual tudo podemos. Lá, somos Deus e criaturas. Impossível? Essa palavra não faz parte de nosso vocabulário.

Daqui, mirando a paisagem urbana carregada na paleta cinza de um dia frio, observo e sinto o perfume de mais uma leva de pão de queijo crescendo dentro do forno quentinho. Ah, como gosto disso tudo. O simples é o que me alimenta.

Saboreio mais um gole de nossa bebida cafeinada e despeço-me com a pergunta para se pensar durante a semana: Nos veremos essa semana?

Beijo e um abraço carinhoso cara mia

Este texto faz parte das Missivas de Primavera. Estão comigo:

Lunna GuedesMariana GouveiaObdulio Ortega NuñesSuzana Martins

Muié decidida é o bicho!

Se tem uma pessoa decidida e firme em suas convicções, esse alguém sou eu. Ontem, antes de desmaiar pela segunda vez de sono, tomei a resolução de hoje despertar, sentar e colocar meus escritos e leituras em dia. Gosto quando assim procedo. Sou exemplo a seguir…Ao contrário.

Despertador berrou em meus ouvidos dormentes às cinco horas da manhã. Quase enfartei de susto e ódio. Como ousa me acordar de madrugada em pleno feriado? Não tem amor por mim, ser inanimado e frio? Só não atirei o celular longe porque sei o quanto custa comprar um novinho. Vida não está fácil para quem é salário.

Silenciei, virei pro lado com um sorriso pensando “Hoje é feriado”…Despertei quase dez horas, zonza de fome. Corpo preguiçoso pedia mais cama mas, resoluta que sou, ergui a carcaça e fui para a cozinha. Por que fui inventar de fazer mingau de aveia? Perante o estômago revoltado por estar vazio a tanto tempo, pareceu levar horas até ficar no ponto. Preparei um bowl de mingau no capricho picando banana e acrescentando canela em pó. Humm, parecia delicioso.

Fui para a sala, liguei TV e me coloquei sentada no sofá em posição de lótus. Na mesinha em frente, descansei meu desjejum e me distraí com as besteiras televisivas. Resultado: comi mingau frio, bláth!

Almocei tarde pois me perdi aqui, em meus parcos metros quadrados. O que estava fazendo? Sei lá. Decidi assar uma batata doce mas, que decepção ao cortar e ver que estava estragada. Buáá!!

Mudança de planos, decidi preparar um pouco de arroz, uma salada e iniciei a tarefa. No meio do cozimento do arroz, num impulso, decidi misturar tudo e sujar apenas uma panela. Vida prática benhê!

Até que o falso risoto ficou gostoso. Comi com prazer. Após deixar a cozinha em ordem, decidi passar um cafezinho e iniciar minhas leituras. Ah doce momento das leituras! Com esse frio que hoje impera na terra da garoa, fui pra baixo das mantas, me acomodei nas inúmeras almofadas, saboreei duas xícaras de café e mergulhei na leitura de Goethe… Desencarnei.

Dormi o resto da tarde. Nem ouvi o rufar dos coturnos desfilando no sete de setembro. Socorro!

Só de raiva por perder meu feriado, fui pra cozinha e assei uns pãezinhos de queijo. Em vez do café, uma farta xícara de chá. Paciência, eu bem que tentei mas…

Experimenta a suave melancolia de uma manhã feliz

Hoje acordei envolta numa preguiça marota. Abri a janela e se apresentou uma pintura em tons de cinza. A cidade parecia adormecida. Nem carros pelas ruas, nem pessoas circulando pelas calçadas ainda úmidas da chuva noturna. Lembrei que nunca havia escrito uma carta à você. Passei um café, sentei e ao ligar meu note, fui surpreendida pelo seu não funcionamento. Isso me tirou do sério. Tomei posse de meus livros que por hora leio.

Mastigando um suculento pão de queijo, folheio o livro Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe. Ainda não havia me aventurado nas linhas desse alemão. Não posso ainda dizer que estou gostando mas está sendo uma curiosa aventura literária. Você já leu? Fiquei curiosa.

Outubro se aproximando e uma ansiedade se enraiza em meu coração. O que nos reserva o futuro ditado pelas eleições? Melhor nem pensar.

Prefiro me agarrar a nossa escrita e as nossas leituras. A magia é terapêutica e por hora é o que me resta enquanto não se resolve o resto. Fiquei feliz em saber que tem trabalhado bastante. Eu também. Chego em casa esgotada mas satisfeita com minha atuação no que faço de melhor: trabalhar com os livros e com as crianças e adolescentes. Me rejuvenesce.

Apesar do frio, me preparo para sair e enfrentar a suave melancolia dessa manhã feliz. Já experimentou? Manhãs cinzentas e frias são carregadas dessa sensação e, ao contrário do que se imagina, trás boas novas. Fico por aqui amigo Obdulio, desejando um excelente domingo.

Abraço

Esse texto faz parte das Missivas de setembro

Participam comigo:

Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega Nuñes – Suzana Martins

BEDA – Você viu ele passar?

Agosto chega ao fim, contrariando a lenda de que é o mês mais longo do calendário. Sou obrigada a discordar. O meu agosto passou numa velocidade luz me atropelando, deixando-me zonza até agora. Perdi vários compromissos pois minha mente não acompanhou essa velocidade. Talvez o problema esteja comigo e não com ele.

Trago como argumento de defesa, o estudo feito por cientistas que concordam sobre a aceleração do tempo, reduzindo nossos já parcas vinte e quatro horas. Acordo mais cedo, durmo mais tarde e não tenho dado conta do que preciso realizar. Tenho vivido numa ansiedade infinda e isso gera mal estar, cansaço físico e mental. Tenho consicência de que a idade também colabora afinal, a energia que temos aos vinte anos não é a mesmo aos cinquenta, quase beirando os sessenta. Por mais que tenha me cuidado, sei que o ritmo não será mais o mesmo.

Quando o sociólogo italiano, Domenico De Masi surgiu em 2000 com seu Ócio criativo, fiquei entusiasmada com o conceito: equilibrar os três elementos trabalho, estudo e jogo (ou lazer). Na teoria isso é a perfeição, o ideal para se viver bem. Pena que a realidade joga em nossas caras que não estamos inclusos e preparados. A realidade da maioria é sufocante e apoiada apenas no trabalho, com o agravante de ser mal remunerado. Muitos adoecem, comprometendo ainda mais o parco salário.

Hoje a tarde, lembrei de um clássico lido há uns vinte anos. Momo e o senhor do tempo, de Michael Ende tem como temática o roubo do precioso tempo nas vidas dos moradores daquele local. A situação da fantasia me faz refletir que, infelizmente, retrata o que vivenciamos na atualidade. Somos encurralados pelos “Homens cinzentos” que roubam nosso tempo, nosso prazer em viver e nossa paz de espírito. Anseio pela vinda de Momo, a garotinha que tinha o dom de ouvir as pessoas e através dessa qualidade, perdida entre os demais, resgatou a alegria e o poder de cada um controlar o uso de seu tempo.

Penso que acabei me perdendo em divagações e desperdiçei o pouco de meu tempo tentando escrever minha última postagem do mês que, por falta de tempo, infelizmente deixei de postar diariamente. E meu cérebro teima em cantarolar a canção de Caetano:

Tempo, tempo, tempo, teempooo…

Esse texto faz parte da blogagem coletiva BEDA Blog Every Day August

Participam comigo:

Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega Nuñes – Suzana Martins

Por pura falta de tempo, essa postagem não terá uma imagem.

BEDA – Alquimia

Os vapores sobem

No espargir dos aromas

Manuseia o tomilho

Que trata como um filho

Cantarola  enquanto refoga

Canções que improvisa

A bordo de permanente sorriso

Dois fios de azeite

Sobre dentes de alho esmagado

Acompanhados por

Dentes-de-leão

O refogado hipnotiza e seduz

Tragam o açafrão, a flor de sal

O estragão!

A salsaparrilha

O pulsar do coração

No panelão de ferro

Arte e alquimia

Degustadora poesia

Em silêncio

Condimentos

São sentimentos

(Jorge Ricardo Dias)

Esse texto faz parte da blogagem coletiva BEDA Blog Every Day August

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Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega Nuñes – Suzana Martins

Imagem licenciada: Shutterstock

BEDA – Futuro embaçado

Ando pensativa sobre os rumos da vida do brasileiro. Preocupada afinal, faço parte desse grupo de risco. Caminhando mecanicamente, cumprindo meus compromissos, de olho nas jogadas estratégicas de nossos políticos que teimam em brincar com o futuro da nação. Viver em Terra Brasilis tem sido permanecer ad eternum em danação.

Assisto os candidatos, sofro enjôos múltiplos a cada discurso vazio que cospem em nossas caras através do Plin-Plin.

Não alimento ilusões, nunca acreditei em “salvadores da pátria”. Tenho plena consciência de que ninguém ali é santo, perfeito, munido de boas intenções. A única certeza é em “QUEM” não votarei.

Quanto ao resto…

E a cada dia que passa, tropeço mais e mais em corpos desvalidos, sujos, desmaiados nas calçadas. A maioria, jovens judiados pela miséria. Desencantados! Meu coração se aperta diante de gerações perdidas que hoje, poderiam estar numa condição de vida aceitável, digna.

Nunca senti o peso da responsabilidade em votar tão presente, arqueando minhas costas pelo medo de mais uma vez, errar feio e comprometer de vez, o futuro dessa juventude que ainda não teve vez. Será que terá? Que futuro? Teremos um?

Esse texto faz parte da blogagem coletiva BEDA Blog Every Day August

Participam comigo:

Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega Nuñes – Suzana Martins

Imagem licenciada: Shutterstock

BEDA – Partidas

Hoje, logo pela manhã a caminho do trabalho, recebi a notícia. Me senti estranha diante da mensagem. Li várias vezes, guardei o celular para sair do metrô e encontro-me anestesiada até agora, com um vazio imenso. Uma página querida de meu passado virou colocando fim não ao capítulo mas a uma história inteira. Minha homenagem a você, mulher incrível, batalhadora, amorosa, linda que foi inspiração para mim.

Semelhança. Certa vez, um primo mais velho comentou que eu era parecida com uma de nossas tias do lado paterno. Achei que tinha dito a coisa mais absurda do mundo.

O tempo fluiu. Cresci. Num final de semana na casa de minha mãe, pegamos o baú de álbuns de fotografia. É como entrar num túnel do tempo. Entre tantas fotos preto e branco, encontrei uma de tia Ruth, nova e com os cabelos escuros. Foi um choque. Ali, era meu rosto impresso numa roupagem dos anos 50. Não é que Chiquinho tinha razão?

Irmã mais velha de papai, tia Ruth puxou o gênio bom do vô Dito. Vaidosa sem jamais ter sido fútil. Dona de uma elegância natural. Cabelo oxigenado impecável, na altura dos ombros, maquiagem suave. Acessórios obrigatórios: brincos e anéis que enfeitavam suas mãos com unhas esmaltadas. Assim a conheci desde que me entendo por gente. Achava-a muito bonita.

Nunca conheci seu marido. Um italiano rico, de Lucca, uma cidade à beira do rio Secchio, região de Toscana. Esse casamento foi cercado de muito mistério.

Os adultos nunca conversavam tais assuntos perto das crianças. Tiveram uma filha, Dóris que foi cercada de muito zelo por ela e avós. Mimo mesmo. Até demais. No afã de protege-la, esqueceram de prepará-la para a vida.

Anos mais tarde veio à tona, sua dolorosa realidade de uma relação abusiva e violenta. Morando na Itália, abortou seu segundo filho por conta dos pontapés que recebeu no ventre, de “tuo marito”. A família italiana – inconformada – ajudou-a a fugir para o Brasil.

No navio, jogou no oceano, seus sonhos de um casamento feliz. Nunca mais quis saber de se relacionar com ninguém.

Seu semblante suave, sua voz firme com sotaque carregado nos erres. Seu sorriso fácil. Recordo das vezes em que fui à sua casa, e era recebida com bolos deliciosos e, nas tardes frias, seu bolinho de chuva com raspas de limão ou laranja acompanhados de café forte, chá preto e leite. Hum, que lembranças boas!

Resiliente, viu partir todos os demais sonhos de sua mocidade, incluindo, a vontade de dirigir.

Madura, tirou carta de habilitação, comprou um carro popular, dirigiu feliz. Por pressão de sua mãe, mulher rigorosa e dominadora que não suportava a felicidade alheia, acabou cedendo e vendeu o carro. Passou o resto de sua existência andando a pé.

Após a venda da casa — para divisão da herança entre os irmãos — ela, seu irmão mais novo e sua filha Dóris, tornaram-se nômades. Por alguns anos, perdemos contato sem saber seus destinos.

Anos mais tarde, minha prima apareceu na casa de minha mãe. Suja, esfarrapada, esquelética. Portadora de notícias tristes. Tio faleceu e sua mãe, por conta da diabetes, perdeu a visão e encontrava-se senil. Viveram na rua esses anos todos.

Dá um aperto do peito, saber que parte de nossa história familiar, desmorona sem que saibamos, deixando sabor de fel no lugar dos momentos alegres e festivos que um dia desfrutamos juntos. Trago uma única certeza: a semelhança entre nós ficou apenas no físico e no espírito apaziguador.

Ao contrário dela, aprendi a fazer valer minha vontade. Minha felicidade e realização em primeiro lugar. E isso, jamais será um ato egoísta, mas sim, de amor próprio.

Essa crônica se encontra no livro Quinta das especiarias, lançado em 2021 pela Scenarium Livros Artesanais

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BEDA – Topázio azul

A palavra surgiu em minha mente feito neon reluzente. Indaguei a mim mesma o porquê e não obtive resposta. Passei o dia a todo momento com ela surgindo em meus pensamentos. Decidi ler a respeito e me surpreendi.

Segundo a mitologia grega, essa pedra reúne os deuses do céu e da terra, previne o portador contra falsos amigos, bruxarias e mau-olhado. Seus efeitos terapêuticos auxiliam em casos de inflamação no pescoço, nariz e garganta. Melhora dores de cabeça. Protege as vias respiratórias e o pâncreas. Atua em nossa psique despertando nossas capacidades musicais e é considerada pedra da sorte para artistas em geral. Indicado para esclarecimentos de ideias confusas, inspiração, clareza, limpeza, calma, sono, sensação de valor próprio.  Aumenta a capacidade telepática, a felicidade e o bom humor.

Tais informações me deixaram pensativa. Passei a manhã refletindo sobre esse “despertar” interior que minha psique desencadeou. Sempre fui espiritualizada. Desde pequena possuo uma intuição afiada que me livrou de muitas enrascadas. Um sexto sentido que soa quando algo me preocupa ou me coloca em risco. Se for contar cada situação que já vivi, os mais céticos poderão achar que é papo de pescador. Por isso mesmo, guardo para mim essas experiências. Pode ser que as transforme em histórias fantásticas e reúna num livro podendo se transformar num sucesso. Não tinha pensado ainda nisso… Olha só meu geniozinho interior se fazendo presente novamente!

Enfim, paro por aqui caso contrário, poderão pensar que não tenho todos os parafusos bem fixados. Quer saber? Acho que não tenho mesmo. Isso é maravilhoso afinal, escritor que se preze não deve ser normal, coerente, sereno. É necessário essa avalanche emocional para que tenhamos matéria para nossos escritos. No entanto, acho que vou agora mesmo à procura de uma pedra topázio azul e transformá-la num pingente que permanecerá em meu pescoço enfeitando e me protegendo. Ao mesmo tempo, espero que me dê um pouco de equilíbrio nesse tão tumultuado mundo em que vivemos. Afinal, as energias andam bem estranhas por toda parte e compete a nós, encontrar o equilíbrio para que não nos deixemos levar para o fundo do poço. Tudo é válido para encarar esse bicho papão mais conhecido pela alcunha de realidade.

Esse texto faz parte da blogagem coletiva BEDA Blog Every Day August

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