6 on 6 – Crepúsculo

Instante que dura tão pouco e que, no entanto, é um dos mais belos que se apresenta às nossas tão cansadas retinas.

Criança, gostava de observar o céu e, mesmo sem entender, sabia que ocorria alguma espécie de magia. Agradava saber que a vida não era somente em preto e branco. O que também carrega certa beleza mas, o conjunto de cores quentes que esse momento tinge o céu, me aquece intimamente. Até hoje gosto da sensação.

Percorrer a praia nesse exato instante, sentindo a maresia que chega em forma de afago, é uma das experiências que mais me agrada. Mirar a paisagem, sentir o calor mesclado com o sopro suave do vento, as narinas absorvendo os cheiros que o mar nos envia. Libertar a mente das preocupações mundanas

Tais instantes despertam minha imaginação. Passo a criar roteiros das vidas anônimas que mes olhos registram, juntamente com o clique de uma foto eternizada.

Compreender a mensagem silenciosa da natureza que reina sem nos impor nada. Apenas segue seu caminho deixando claro, que a luz do dia adormece para nós, para poder iluminar outros seres do outro lado. Isso é a verdadeira democracia: luz, calor, energia para todos. Esse é o ponto exato do equilíbrio. Nós humanos é que precisamos assimilar e aceitar os seus sábios conselhos.

A natureza utiliza a criatividade como ninguém. Sabe criar roteiros inovadores a cada encerramento da luz solar sem jamais nos deixar enfadonhos diante de tamanha beleza. Nunca me canso de apreciar os diversos nuances de cores e movimentos.

Após um descanso à tarde e um banho refrescante, sair para percorrer a orla que ladeia as praias, se integrando por completo à paisagem. Deixando de ser alguém para ser parte de algo maior.

Desconfio que o ser urbano que me habita, anda desesperada para integrar essa paisagem e absorver a luz que esparrama no mar. Posso sentir o cheiro, os sons, o vai e vem das ondas orquestradas por algo maior que nos mantém vivos. Fecho os olhos e me transporto para essa praia, desviando dos diversos turistas e colocando devagar meus pés descalços na areia ainda morna, até chegar a àgua salgada que me brinda com as suas espumas. Batizo novamente meu ser na água benta que, mesmo poluída por nós, recarrega meu ser de uma energia que a cidade envolta em toda sua brutalidade e secura me retira.

Esse texto faz parte do Projeto Fotográfico 6 on 6. Fazem parte dessa blogagem coletiva:

Darlene Regina – Isabelle BrumLunna Guedes –  Mariana GouveiaObdulio Nuñes Ortega

Imagens: Arquivo pessoal

6 on 6 – Mas é Carnaval!

Trago boas lembranças do Carnaval em minha infância e pré-adolescência. Confesso: fui foliona, daquelas que não perdia as matinês do finado Clube Cobraseixos, que ficava de frente à minha casa. Tardes na bagunça boa, participando das correntes humanas que percorriam o salão ou, pegando confetes e serpentinas do chão e jogando em quem passasse por perto. Fiz muitas amizades por lá.

Na minha juventude, criou-se um hiato onde me afastei dos salões devido a violência e falta de respeito que passou a ser comum. Sempre acompanhei os desfiles das escolas de samba pela TV. Verdadeiros shows.

Em 2018, ao lado de meu amigo – parceiro de inúmeras viagens – conheci Salvador e lá, passei alguns momentos bem agradáveis no museu Casa do Carnaval. Com curadoria de Gringo Cardia, a casa oferece uma viagem sensorial e visual que encanta aos visitantes. Se for a Salvador, não deixe de conhecer esse museu, mesmo que não seja folião, vale a pena conhecer.

Essa foto acima, é o registro de minha última ida a um salão para brincar o Carnaval. Foi em 2020 e pulei como se não houvesse amanhã. Literalmente, suei a camiseta, saí com confetes grudados pelo corpo. De certa forma, foi uma despedida. Logo em seguida, foi decretado quarentena que se estendeu para o resto do ano e mudou a vida de todos, devido a pandemia do Coronavírus.

Em 2022, retorno à folia. Dessa vez, devidamente vacinada, troquei a máscara, maquiei os olhos, coloquei uns balangandãs e declaro a quem possa interessar que meu cordão de um, será dentro do apê. Não dá pra facilitar não!

…Na mesma máscara negra

Que esconde teu rosto

Eu quero matar a saudade…


Esse texto faz parte da blogagem coletiva Projeto fotográfico 6 on 6 promovido pela Scenarium Livros Artesanais.

Participam:

Darlene Regina – Isabelle Brum – Lunna GuedesMariana GouveiaObdulio Nunes Ortega

Imagens: Acervo pessoal

Retornando

Aceite: a vida jamais é linear. Está mais para uma imensa montanha russa. E quer saber? Gosto disso. A adrenalina que percorre nossas artérias quando enfrentamos altos e baixos nos faz sentir vivos. Tenho vivido desde 2017, uma maratona de acontecimentos que posso afirmar tragicômico. Perdas de pessoas amadas, estresse profissional, relacionamentos interpessoal difíceis. Sei que não estou sozinha nessas experiências. Sei também que tem pessoas que passam por situaçõrs bem mais dolorosas. Respeito e aceito.

Fora do mercado de trabalho desde dezembro de 2020, voltei-me para a escrita que sempre foi algo que pulsava dentro e eu abafava, não assumia. Foram meses gratificantes e conheci pessoas incríveis através das aulas das oficinas literárias, promovidas por Lunna Guedes.

Entre dois lançamentos pelo selo de livros artesanais Scenarium e idas e vindas à casa de minha mãe, para matar saudades e auxiliar a cuidar da casa e da tia doente, amadureci enquanto ser humano e escritora.

Andei bem sumida das redes sociais e daqui desse espaço que tanto prezo: o blogue. Estado de saúde de tia piorou, veio a falecer em vinte de dezembro. Antes mesmo de atravessar o luto, mamãe caiu doente e foi hospitalizada. Covid. O mundo caiu para mim e minhas irmãs e irmão. Por ter tomado as três doses da vacina e ter tomado também a da gripe, os médicos disseram que ela pegou uma “branda”.

De alta, em casa, ela tomou a resolução de curtir a vida como se deve e eu, virei mais fã dessa mulher que sempre foi um espelho e exemplo para mim.

Para iniciar o ano de 2022 mais feliz, amanhã inicio nova fase de vida profissional num colégio que – desde já – caí de amores. Um desafio a enfrentar e traçar meu nome por lá. Voltar a viver entre livros, para mim, é beber da água santa e me renovar diariamente.

É como disse: a vida não é linear. Sigamos. Convido a todos para trilhar comigo sorrindo e superando esse “bicho-papão” viral que tanto nos afastou. Claro, continuemos com os protocolos e os cuidados necessários. Em breve, nos encontramos presencialmente para um café e um bom batepapo.

Imagens: Acervo pessoal

Retrospectiva literária

O ano de 2021 foi bem agitado para mim. Dediquei mais tempo à escrita do que a leitura e mesmo assim, consegui ler livros bem interessantes que recomendo.

Fiz uma nova leitura de A elegância do ouriço, de Muriel Barbery. A cada passada de olhos por essa história, novas descobertas e deslumbramentos filosóficos. Sou totalmente fã dessa obra. Repleta de personagens ricos e humanos. Destaque para Renée, a zeladora do prédio e a jovem de doze anos, com ideias suicidas, Paloma.

Voltei a reler também, o livro de poesias Arrebatamentos e outros inventos, de Jorge Ricardo Dias. O dia a dia tão árduo que vivemos nesse ano, me fez voltar a ler poesias para dar uma leveza à realidade. O livro é um apanhado de poemas e sonetos do poeta carioca – que sabe manejar com maestria – as palavras e seus significados.

Continuando na pegada poética, tive o prazer de ler o livro Dentes moles não mastigam pedras de Manogon. Multiartista, atua na dramaturgia, é desenhista gráfico e escreve poemas com temas do cotidiano, através de notícias diárias. Poemas que retratam o duro cotidiano da periferia, com suas mazelas e belezas. Gostei demais da escrita dele, desde já, recomendadíssimo!

Iniciei a leitura do livro As ondas, de Virgínia Woolf e, confesso que ainda não consegui dar seguimento e término dele. Talvez não esteja preparada para a história. Talvez o momento não seja o certo. Mas, ler Woolf é sempre uma aventura então, recomendo a quem deseje conhecer essa escritora britânica.

Li as publicações da Scenarium Livros Artesanais que muito me encantaram. As antologias Casa Cheia, Casa de marimbondos, Roteiro imaginário, A quinze minutos do fim, do qual tive participação. Destaque especial para o belíssimo e recém lançado Colcha de retalhos de Mariana Gouveia. Livro de uma delicadeza e personagens muito bem traçadas que me emocionou ao término da leitura. Numa outra postagem, falarei mais dele.

Enfim, essas foram minhas leituras do ano de 2021. Apesar de uma lista menor, a qualidade dos livros falam por si. E você, o que leu no ano de 2021?

Esse texto faz parte da blogagem coletiva promovida por Lunna Guedes. Participam:

Ale Helga Darlene ReginaLunna GuedesMariana Gouveia

Ah, os domingos…

Estou prestes a fechar o ano de 2021 com a sentimento de dever cumprido e muitos escritos publicados. Além do livro de memórias Quinta das especiarias lançado há pouco, participei de alguns projetos que fazem parte do Scenarium 8 – clube de assinatura, da Scenarium Livros Artesanais.

O último a sair e fechar o ano com chave de ouro é Estrada para os domingos. Ao lado de excelentes escritores, companheiros constantes nos projetos literários.

Dá uma espiada nesse tira gosto:

Mais um coletivo que vale a pena adquirir e ler com o prazer de folhear um livro personalizado, confeccionado em papel de qualidade. Se desejar esse e conhecer os demais títulos da assinatura, clique aqui

Imagens: Lunna Guedes

Ritual

Xícara devidamente posta, cookies de especiarias, descansam num pote de vidro.Toalha alisada, aroma cafeinado envolvendo o ambiente ao som de Sarah Vaughan. Cortinas cerradas, impedem a bruta realidade de entrar e estragar a energia trabalhada: paz.

No aparador, uma vela de jasmim acesa, complementa e perfuma a cenografia montada. Na solidão do apartamento, a mulher se veste sem pressa, mirando o espelho. Sorri ao ver o reflexo que a agrada.

Pega os apetrechos e segue para a sala. Liga seu All in one branco, acessa a aula pelo Youtube, desdobra o tapete de yoga, posiciona em lótus, fecha os olhos e agora – com trilha sonora de Kitaro – inicia a meditação diária.

Dentro de uma hora, “ele” estará online para mais uma relação virtual. Suspira profundamente esboçando tímido sorriso.

Imagem licenciada: Shutterstock

E lá na Mooca…

Ela foi uma incógnita. Seu passado, um mistério que sempre pensei um dia, desvendar. Mulher simples, como a maioria de suas conterrâneas, poderia ter sido irmã gêmea do ator Flávio Migliaccio, tamanha semelhança. Apesar de semi analfabeta, lia bastante. Estava sempre com um livro nas mãos. Detalhe: aos noventa e seis anos, ainda lia sem óculos. 

Foi a primeira feminista que conheci. Em sua juventude, deve ter sido chamada por outros adjetivos. A pouca informação que trago é que saiu de casa muito jovem, em busca de trabalho.

Chegou a São Paulo em meados da década de 30. Fixou moradia na Mooca. Lá, formou sua verdadeira família entre vizinhos e conhecidos do Centro Espírita, que passou a frequentar. Tinha uma maneira peculiar de se expressar trancando o maxilar como se estivesse prendendo a dentadura para não sair do lugar. Talvez fosse isso mesmo. 

Trabalhou em diversas funções: copeira, lavadeira, faxineira… Outras tarefas que nunca soubemos ao certo o quê. Foi amparo de muitas prostitutas. Alcançou segurança financeira ao ser admitida no Senai. De lá só saiu aposentada.

Teve um único filho e enfrentou fome, incompreensão e discriminação de toda uma sociedade. Nunca se soube a identidade do pai. 

Recordo dos domingos em sua casa. Quando tia Irene me chamava para fazer companhia, ficava radiante. Gostava de apreciar — pela janela do ônibus — a paisagem urbana atravessando a cidade, de Osasco à Mooca. Para mim, um outro país!

Virgínia tinha paixão pela cozinha e recebia com prazer, quem quer que aparecesse em sua casa. Lembro-me de seu frango na cerveja. Algumas vezes ela preparava esse prato assado. Outras ocasiões, frito. Nunca soube definir qual ficava melhor!

O almoço acontecia, com trilha sonora de Roberto Carlos ou Agepê, tocando na vitrola. Após o prato principal, uma sobremesa. Caso fosse época, morangos suculentos acompanhado por Chantilly ou mosaico de gelatina. Nessas ocasiões, me sentia mais próxima do céu!

Esse texto faz parte do livro Quinta das especiarias, meu último livro, lançado pela Scenarium Livros Artesanais.

Se gostou desse texto, tem muito mais no livro que você pode adquirir aqui

6 on 6 – Ho Ho Ho

Vasculhando fotos de reuniões antigas, ficou difícil selecionar as que fariam parte dessa postagem. São tantos momentos que marcaram e se transformaram em doces lembranças natalinas. Parece que, ao escolher, as que ficaram de fora, não tiveram importância. Mas, ao contrário, todas foram registros de momentos muito especiais.

Momento registrado do Natal de 2007, ano em que minha família se mudou para a casa nova. Foi um misto de emoções. Sair da casa onde nasci e me criei. Lar que me forjou, paredes que presenciaram risos e lágrimas de uma menina sensível. No olhar, a expectativa do que viria a partir dali.

A biblioteca onde trabalhei por vinte e cinco anos, possibilitou muitas fotos nos finais de ano, onde a equipe se reunia para celebrar mais um ano a se encerrar e também para a troca de presentes do amigo secreto. Houve de tudo: momentos de espontânea alegria, situações desagradáveis afinal, o ser humano é complexo e nem sempre as coisas saem como planejamos. Mas, apesar dos pesares, as festas de finais de ano sempre me alegraram. Acima, eu no ano de 2014, fazendo pose.

Passear na Avenida Paulista no mês de dezembro e sentir a energia HoHoHo, do bom velhinho, sempre foi programa para mim. Na foto acima, eu posando ao lado do painel de fim de ano em frente ao Center 3. Isso, no ano de 2015. Tarde deliciosa!

Essa foto foi o registro de um passeio delicioso, ao lado de meu irmão e cunhada, no Natal Iluminado no Céu Sagrado, em Sorocaba, em 2016. Inesquecível!

Do mesmo ano, o click do almoço natalino em família. Alegria e certa melancolia em ver titia Irene, em nossa companhia, ainda gozando de saúde.

Tenho um olhar e um sentimento especial para essa foto. Primeiro, porque essa árvore de livros, foi feita por mim. Realizei um sonho de fazê-la na biblioteca. Foi um sucesso! Foi minha última foto natalina retirada lá afinal, em dezembro de 2020, já não fazia mais parte da equipe da biblioteca e devido a pandemia, não houve comemoração.

A vida passa, as pessoas surgem e partem, deixando um vazio que são preenchidos pelas inúmeras vezes em que olhamos e voltamos a viver esses momentos que se eternizaram numa fotografia.

Esse texto faz parte da blogagem coletiva 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais

Fazem parte dessa blogagem:

Lunna GuedesMariana GouveiaObdúlio Nuñes Ortega

Fotos: acervo pessoal

Refrescando a memória

Sentada de frente a tela do notebook, saboreio um sorvete recordando as vezes em que recebi uma taça dessa sobremesa caseira, feito por minha tia Irene. Mulher das mil habilidades, fez nossa alegria em criança. Sorvetes, mousses de maracujá, goiaba ou chocolate. Bolos, rocamboles, pudins.

Quase me esquecia: a Maria-mole que ela preparava com aquela camada de coco fresco ralado que derretia na boca. Eu fazia questão de comer bem devagarinho para esticar o prazer o máximo.

Como pode nossa memória ser tão intensa, quase palpável ao trazer à superfície, tais momentos? Dá uma vontade de apertar o botão de retorno e voltar no tempo para reviver tudo de novo. E esticar também o sentimento de felicidade genuína. Felicidade de criança. Sei que minha criança interior, ainda se mantém quietinha aqui dentro de mim. Sempre que a realidade sufoca, grito por ela e de imediato, ela assume o controle até eu me acalmar.

Como agora, quando lamento a difícil realidade de titia, que tanto fez por todos, que tantas sobremesas ofereceu aos sobrinhos e agora, em total paralisia, não pode nem ao menos, saborear meus pratos – muitos deles aprendidos com ela – e adoçar um pouco sua amarga realidade.

Isso me lembra que a vida não tem roteiro pronto e – se Deus escreveu algum – não disponibilizou nas redes sociais para compartilhar conosco.

Com todo respeito mas, há momentos em que acho que o Todo Poderoso não passa de um velho sacana que adora aprontar com esses seres tão imperfeitos, mais conhecido como “Humanos”. Muitas de suas ações não soa lógico para meu raciocínio tão curto.

Ao término de meu sorvete, sinto gosto de sal no chocolate derretido. Olhos ardem e nariz congestiona. Terei me resfriado?

Lembrando que sábado, dia 27/11, a partir das 17h, será o lançamento do livro Quinta das especiarias. O lançamento online será através do instagram da Scenarium.

Para conseguir seu convite, solicite: scenariumplural@gmail.com

Reserve seu exemplar aqui