6 on 6 – Crepúsculo

Instante que dura tão pouco e que, no entanto, é um dos mais belos que se apresenta às nossas tão cansadas retinas.

Criança, gostava de observar o céu e, mesmo sem entender, sabia que ocorria alguma espécie de magia. Agradava saber que a vida não era somente em preto e branco. O que também carrega certa beleza mas, o conjunto de cores quentes que esse momento tinge o céu, me aquece intimamente. Até hoje gosto da sensação.

Percorrer a praia nesse exato instante, sentindo a maresia que chega em forma de afago, é uma das experiências que mais me agrada. Mirar a paisagem, sentir o calor mesclado com o sopro suave do vento, as narinas absorvendo os cheiros que o mar nos envia. Libertar a mente das preocupações mundanas

Tais instantes despertam minha imaginação. Passo a criar roteiros das vidas anônimas que mes olhos registram, juntamente com o clique de uma foto eternizada.

Compreender a mensagem silenciosa da natureza que reina sem nos impor nada. Apenas segue seu caminho deixando claro, que a luz do dia adormece para nós, para poder iluminar outros seres do outro lado. Isso é a verdadeira democracia: luz, calor, energia para todos. Esse é o ponto exato do equilíbrio. Nós humanos é que precisamos assimilar e aceitar os seus sábios conselhos.

A natureza utiliza a criatividade como ninguém. Sabe criar roteiros inovadores a cada encerramento da luz solar sem jamais nos deixar enfadonhos diante de tamanha beleza. Nunca me canso de apreciar os diversos nuances de cores e movimentos.

Após um descanso à tarde e um banho refrescante, sair para percorrer a orla que ladeia as praias, se integrando por completo à paisagem. Deixando de ser alguém para ser parte de algo maior.

Desconfio que o ser urbano que me habita, anda desesperada para integrar essa paisagem e absorver a luz que esparrama no mar. Posso sentir o cheiro, os sons, o vai e vem das ondas orquestradas por algo maior que nos mantém vivos. Fecho os olhos e me transporto para essa praia, desviando dos diversos turistas e colocando devagar meus pés descalços na areia ainda morna, até chegar a àgua salgada que me brinda com as suas espumas. Batizo novamente meu ser na água benta que, mesmo poluída por nós, recarrega meu ser de uma energia que a cidade envolta em toda sua brutalidade e secura me retira.

Esse texto faz parte do Projeto Fotográfico 6 on 6. Fazem parte dessa blogagem coletiva:

Darlene Regina – Isabelle BrumLunna Guedes –  Mariana GouveiaObdulio Nuñes Ortega

Imagens: Arquivo pessoal

6 on 6 – Arte de rua

Desde minha adolescência que aprecio a arte de rua. Isso, quando o grafite. não tinha o estatus que tem hoje. No passado, considerado arte menor, arte marginal, hoje, esses artistas da rua, transformaram laterais de prédios e muros das metrópolis, em verdadeiro museu a céu aberto.

E essa arte está espalhada por todo o mundo. Exemplo disso, é o belíssimo mural em Nantes, França, feito pelo artista Braga Last One

Contudo, voltando meu olhar para meu quintal, na região central de São Paulo, sou rodeada por verdadeitas obras de arte. Como essa que não canso de apreciar toda vez que subo a rua da Consolação, quase chegando à Avenida Paulista.

Gostaria de ter encontrado uma foto com ângulo melhor. Apreciar ao vivo esse grafite “Viver de luz” da grafiteira Mona Caron, é de ficar de queixo caído diante de tamanha beleza e luminosidade. Simplesmente amo! Natural da Suiça, sua arte está espalhada por diversas cidades do mundo.

Ainda na região da República, temos esse outro belo grafite, feito por um grafiteiro anônimo que se intitula BIP.

Caçador de rosas foi baseado na figura real do menino Dudu Alves, na época, com 10 anos. O garoto dança com Michael Jackson, na Praça da República.

Bem próximo de casa, esse grafite é um dos meus queridinhos. Seja pela delicadeza do traço, seja pela força do tema da campanha mundial “educação não é crime”, lançada em 2014.

Nina, de Apolo Torres, encanta quem passeia pela região da rua da Consolação com a rua Amaral Gurgel.

Esse complexo de grafites estava me agradando tanto enquanto estava se formando. Acompanhei de perto sua evolução. Aquário urbano, do artista Felipe Yung (FLIP) em parceria com o produtor cultural Kleber Pagú. A esquina da rua Major Sertório com Bento Freitas, ganhou cor e vida com essa imensa tela.

Pena que não vingou e hoje, um prédio construído no terreno, praticamente cobriu a beleza desse mural. Coisas de nossa “modernidade”…

Não poderia terminar essa postagem, falando em arte urbana, sem tocar no nome que praticamente elevou a arte do grafite a um patamar de respeito por todo o mundo. Já era fã de Eduardo Kobra, desde a década de 90 e acompanhei sua evolução artística. Difícil foi escolher entre tantas belezas produzidas por ele. Para fechar, optei pela delicadeza das bailarinas do Escadão da rua Alves Guimarães, Pinheiros.

Esse texto faz parte do projeto fotográfico 6 on 6 promovido pela Scenarium Livros Artesanais

Participam também:

Darlene ReginaIsabele BrumLunna GuedesMariana GouveiaObdulio Ortega Nuñes

6 on 6 – Mas é Carnaval!

Trago boas lembranças do Carnaval em minha infância e pré-adolescência. Confesso: fui foliona, daquelas que não perdia as matinês do finado Clube Cobraseixos, que ficava de frente à minha casa. Tardes na bagunça boa, participando das correntes humanas que percorriam o salão ou, pegando confetes e serpentinas do chão e jogando em quem passasse por perto. Fiz muitas amizades por lá.

Na minha juventude, criou-se um hiato onde me afastei dos salões devido a violência e falta de respeito que passou a ser comum. Sempre acompanhei os desfiles das escolas de samba pela TV. Verdadeiros shows.

Em 2018, ao lado de meu amigo – parceiro de inúmeras viagens – conheci Salvador e lá, passei alguns momentos bem agradáveis no museu Casa do Carnaval. Com curadoria de Gringo Cardia, a casa oferece uma viagem sensorial e visual que encanta aos visitantes. Se for a Salvador, não deixe de conhecer esse museu, mesmo que não seja folião, vale a pena conhecer.

Essa foto acima, é o registro de minha última ida a um salão para brincar o Carnaval. Foi em 2020 e pulei como se não houvesse amanhã. Literalmente, suei a camiseta, saí com confetes grudados pelo corpo. De certa forma, foi uma despedida. Logo em seguida, foi decretado quarentena que se estendeu para o resto do ano e mudou a vida de todos, devido a pandemia do Coronavírus.

Em 2022, retorno à folia. Dessa vez, devidamente vacinada, troquei a máscara, maquiei os olhos, coloquei uns balangandãs e declaro a quem possa interessar que meu cordão de um, será dentro do apê. Não dá pra facilitar não!

…Na mesma máscara negra

Que esconde teu rosto

Eu quero matar a saudade…


Esse texto faz parte da blogagem coletiva Projeto fotográfico 6 on 6 promovido pela Scenarium Livros Artesanais.

Participam:

Darlene Regina – Isabelle Brum – Lunna GuedesMariana GouveiaObdulio Nunes Ortega

Imagens: Acervo pessoal

6 on 6 – Em 2021 eu…

Abri a porta do ano e entrei com os dois pés juntos, crente que o ano não seria fácil. Mesmo assim, inflei meu peito de coragem e otimismo e mentalizei um ano de inúmeras possibilidades.

Comecei por avaliar meu acervo pessoal de livros e separar por temas. Reuni todos os livros referentes a escrita e suas técnicas, para facilitar consulta durante processo e exercícios da oficina literária. Foi um prazer e uma terapia.

Ainda reclusa, comemorei domingo de Páscoa à distância, com família online. Distantes porém juntos. Fiz questão de postar uma mesa bonita para celebrar a renovação.

Meu aniversário não passou em branco. Tive a grata surpresa de receber de meu irmão e cunhada, um mimo gastronômico que tanto amo, made in Sorocaba. Se gostei? Basta ver minha expressão.

Poder reencontrar após um ano, meu amigo/irmão, companheiro de tantas aventuras, foi bom demais. Ah…como tivemos assuntos para colocar em dia. É como digo sempre: quem tem amigos, tem tudo e esse, vale ouro. Te amo Rick!

Dedicar meses na oficina literária, promovida por Lunna Guedes e trabalhar e lançar o fruto materializado nesse belíssimo livro, foi a melhor experiência vivida, nesse ano atípico. Quantas emoções e momentos revividos.

Cheguei ao final de 2021, tendo um saldo de ganhos e momentos de muita realização e alegrias mas, também vivenciei dias de sofrimentos e perdas. Titia Irene, minha segunda mãe, após longo período de doença, descansou. Partiu, deixando muitas saudades. Nem tivemos tempo hábil para atravessar o luto e, de repente, nos deparamos com mamãe, mulher fortaleza, sucumbindo como nunca vimos. Hospitalizada desde 26 de dezembro, somente uma semana depois, soubemos que seu quadro era de covid. Bateu desespero geral em mim e minhas irmãs e irmão. Eu e minha irmã Rose revezamos no acompanhamento hospitalar. Mamãe foi transferida para um hospital referência para ficar isolada e receber tratamento para esse mal. Eu e irmãs, fizemos teste e nos encontramos desde então, em isolamento na casa de minha mãe, procurando manter a paz de espírito, serenidade e observando se surge algum sintoma. Estamos bem. Os boletins diários dos médicos são otimistas e talvez até final de semana, mamãe recebe alta.

Essa foto de nós duas, foi tirada um dia antes de sabermos seu diagnóstico.

Diante de tudo que vivi no ano de 2021, sou pura gratidão por ter passado por ele e estar aqui, para narrar sua travessia. Eu…ainda aposto positivo na vida!

Esse texto faz parte da blogagem coletiva Projeto fotográfico 6 on 6, promovido pela Scenarium Livros Artesanais

Participam:

Darlene Regina – Isabelle Brum – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Nuñes Ortega

Retrospectiva literária

O ano de 2021 foi bem agitado para mim. Dediquei mais tempo à escrita do que a leitura e mesmo assim, consegui ler livros bem interessantes que recomendo.

Fiz uma nova leitura de A elegância do ouriço, de Muriel Barbery. A cada passada de olhos por essa história, novas descobertas e deslumbramentos filosóficos. Sou totalmente fã dessa obra. Repleta de personagens ricos e humanos. Destaque para Renée, a zeladora do prédio e a jovem de doze anos, com ideias suicidas, Paloma.

Voltei a reler também, o livro de poesias Arrebatamentos e outros inventos, de Jorge Ricardo Dias. O dia a dia tão árduo que vivemos nesse ano, me fez voltar a ler poesias para dar uma leveza à realidade. O livro é um apanhado de poemas e sonetos do poeta carioca – que sabe manejar com maestria – as palavras e seus significados.

Continuando na pegada poética, tive o prazer de ler o livro Dentes moles não mastigam pedras de Manogon. Multiartista, atua na dramaturgia, é desenhista gráfico e escreve poemas com temas do cotidiano, através de notícias diárias. Poemas que retratam o duro cotidiano da periferia, com suas mazelas e belezas. Gostei demais da escrita dele, desde já, recomendadíssimo!

Iniciei a leitura do livro As ondas, de Virgínia Woolf e, confesso que ainda não consegui dar seguimento e término dele. Talvez não esteja preparada para a história. Talvez o momento não seja o certo. Mas, ler Woolf é sempre uma aventura então, recomendo a quem deseje conhecer essa escritora britânica.

Li as publicações da Scenarium Livros Artesanais que muito me encantaram. As antologias Casa Cheia, Casa de marimbondos, Roteiro imaginário, A quinze minutos do fim, do qual tive participação. Destaque especial para o belíssimo e recém lançado Colcha de retalhos de Mariana Gouveia. Livro de uma delicadeza e personagens muito bem traçadas que me emocionou ao término da leitura. Numa outra postagem, falarei mais dele.

Enfim, essas foram minhas leituras do ano de 2021. Apesar de uma lista menor, a qualidade dos livros falam por si. E você, o que leu no ano de 2021?

Esse texto faz parte da blogagem coletiva promovida por Lunna Guedes. Participam:

Ale Helga Darlene ReginaLunna GuedesMariana Gouveia

6 on 6 – Ho Ho Ho

Vasculhando fotos de reuniões antigas, ficou difícil selecionar as que fariam parte dessa postagem. São tantos momentos que marcaram e se transformaram em doces lembranças natalinas. Parece que, ao escolher, as que ficaram de fora, não tiveram importância. Mas, ao contrário, todas foram registros de momentos muito especiais.

Momento registrado do Natal de 2007, ano em que minha família se mudou para a casa nova. Foi um misto de emoções. Sair da casa onde nasci e me criei. Lar que me forjou, paredes que presenciaram risos e lágrimas de uma menina sensível. No olhar, a expectativa do que viria a partir dali.

A biblioteca onde trabalhei por vinte e cinco anos, possibilitou muitas fotos nos finais de ano, onde a equipe se reunia para celebrar mais um ano a se encerrar e também para a troca de presentes do amigo secreto. Houve de tudo: momentos de espontânea alegria, situações desagradáveis afinal, o ser humano é complexo e nem sempre as coisas saem como planejamos. Mas, apesar dos pesares, as festas de finais de ano sempre me alegraram. Acima, eu no ano de 2014, fazendo pose.

Passear na Avenida Paulista no mês de dezembro e sentir a energia HoHoHo, do bom velhinho, sempre foi programa para mim. Na foto acima, eu posando ao lado do painel de fim de ano em frente ao Center 3. Isso, no ano de 2015. Tarde deliciosa!

Essa foto foi o registro de um passeio delicioso, ao lado de meu irmão e cunhada, no Natal Iluminado no Céu Sagrado, em Sorocaba, em 2016. Inesquecível!

Do mesmo ano, o click do almoço natalino em família. Alegria e certa melancolia em ver titia Irene, em nossa companhia, ainda gozando de saúde.

Tenho um olhar e um sentimento especial para essa foto. Primeiro, porque essa árvore de livros, foi feita por mim. Realizei um sonho de fazê-la na biblioteca. Foi um sucesso! Foi minha última foto natalina retirada lá afinal, em dezembro de 2020, já não fazia mais parte da equipe da biblioteca e devido a pandemia, não houve comemoração.

A vida passa, as pessoas surgem e partem, deixando um vazio que são preenchidos pelas inúmeras vezes em que olhamos e voltamos a viver esses momentos que se eternizaram numa fotografia.

Esse texto faz parte da blogagem coletiva 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais

Fazem parte dessa blogagem:

Lunna GuedesMariana GouveiaObdúlio Nuñes Ortega

Fotos: acervo pessoal

De que eu me lembro?

Numa vivência de mais de meio século, coleciono centenas de lembranças. Encontram-se dispostas em pastas denominadas: muita relevância, média relevância, nenhuma relevância e lixeira.

Em sua grande maioria, encontram-se recordações ligadas à família. Muitas, de amigos, escola, faculdade. Outras marcantes da vida profissional. Apesar de – em geral ser um ambiente tóxico – com inveja, competitividade e puxadas de tapete, consegui fazer poucos e fiéis amigos. Deles, possuo momentos carinhosos.

Tenho em minhas pastas, lembranças de momentos tensos de nossa vida em sociedade. O Brasil, celeiro de tantas desigualdades e injustiças é também, território que gera muitos talentos e riquezas. Oscilo entre amar e odiar ter nascido nesse solo que ultimamente, arde sob nossos cansados pés. A nação encontra-se fatigada de lutar, trabalhar e jamais sair do lugar: pobreza.

Enquanto uma minoria branca detém a riqueza muito bem protegida em paraísos fiscais, o grosso da população pena em empregos informacionais ou permanecendo invisíveis, em meio ao desemprego. O aumento de brasileiros com morada fixa debaixo de viadutos e em praças públicas é visível e não dá mais para fingir que não existem.

O número cada vez maior de jovem negros e pobres mortos pela polícia é gritante. Então, por alguns instantes paro, penso e de que me lembro?

De casos que se perderam em meio a tantos que se repetem diariamente em várias cidades e estados. Recordo de alguns jovens com os quais convivi bem próximo e que perderam suas vidas por serem negros, pobres, sem escolaridade. Só precisavam de um olhar mais atento e oportunidades para crescerem e passarem a fazer parte de uma estatística menos sombria.

Nasci pobre mas branca. Isso, fez um diferencial em minha trajetória. Obtive melhores chances de estudo e empregos. Muitas portas se abriram devido a minha cor. Tenho plena consciência de que, se fosse negra, talvez não tivesse alcançado o cargo que ocupei antes de me aposentar. Colegas que estudaram comigo na infância e adolescência, hoje vivem em condições precárias. Isso se ainda vivem. Muitos, infelizmente partiram. Viveram sem qualidade de vida, sem perspectivas de crescimento. Muitos aceitam isso como algo normal afinal, sempre foi assim.

E esse “sempre foi assim” é que me mata!

Chegamos a um ponto em que não dá mais para compactuar com esse pensamento. Simplesmente não dá mais para ser assim. Chances de nascer, crescer, estudar, trabalhar tem de ser igual para todos. Somente assim, teremos uma sociedade justa.

O que estamos fazendo para mudar o panorama da população negra que é maioria em nosso país? Desejo um país mais justo, com menos desigualdade, menos discriminação. Não trago respostas para essa situação, apenas muita inquietação em meu íntimo. O dia nacional da consciência negra foi ontem mas, a preocupação e reflexão devem ser constantes, um exercício diário. Então lanço a pergunta: o que podemos fazer de concreto?

Participam dessa blogagem coletiva:

Lunna GuedesMariana GouveiaObdulio Nuñes Ortega

Imagem licenciada: Shutterstock

O livro da minha vida (um dos…)

A tarde transcorre cinzenta lá fora. Aqui dentro, um silêncio morno, gostoso mesmo, me faz companhia. Assisti novamente, Mulheres à beira de um ataque de nervos, de Almodóvar. Recordei do impacto que tive ao assistir, pela primeira vez, no cinema em sua estréia. Hoje, achei-o até bobinho. Como mudamos!

Apesar de mudar muitos pontos de vista, no decorrer dessas décadas, permaneço fã de sua obra. Ao término do filme, recordei de um livro dele, que comprei, li, dei muitas risadas e perdi-o de vista. Sei que emprestei mas, não lembro para quem.

Fogo nas entranhas, pulp fiction da melhor qualidade, com uma narrativa que mistura sexo, feminismo, espionagem e assassinatos. História genial com um toque repugnante, hilário, bizarro.

A história de cinco mulheres: uma chinesa, uma frígida, uma ex-espiã disfarçada, uma figurante de faroestes europeus e uma assistente de laboratório químico, que um certo dia foge para Ibiza com um grupo de hippies.

Sempre com personagens incomuns e, ao mesmo tempo, tão comuns, nos leva a uma Madri que literalmente pega fogo.

Raimunda, Eulália, Katy, Diana e Lupe. Mulheres com perfis diferenciados, idades variadas e personalidades idem nos pegam pela mão e transportam para histórias pra lá de deliciosas. Todas elas têm em comum, o senhor Ming e sua fábrica de absorventes.

O gostoso de se ver nos filmes e, de se ler nos contos, é justamente a força visual que Pedro Almodóvar dá às suas mulheres. Ele trabalha e nos escancara a realidade delas: donas de casa enfadadas com sua rotina pesada e sem graça; mulheres que passaram uma vida inteira preservando sua virgindade e, que ao chegar aos setenta anos, deseja recuperar sua juventude e sexualidade. Mulheres que optaram pela homossexualidade. Mulheres que largam o hábito para se jogarem na vida.

Enfim, um verdadeiro mosaico de personalidades botando em xeque suas vidas, enfrentando seus demônios interiores, se jogando nas experiências sentimentais e sexuais.

Tudo isso regado a muito humor – algumas vezes negro – , muita sacanagem da boa e, com uma leveza, que só mesmo esse gênio espanhol poderia fazer.

Li muitos livros nessa minha vida de leitora e bibliotecária e, poderia escolher inúmeros títulos que marcaram essa caminhada. Esse livro pode não ser o melhor livro que li – observando a qualidade e o gênero literário – no entanto, foi esse título que me veio a mente, ao decidir participar da blogagem coletiva “O livro da minha vida”, promovida por Lunna Guedes, no grupo Interative-se.

Se não leu, leia. O difícil será encontrar para venda, pois encontra-se esgotado. Talvez, em algum bom sebo. Vale a pena além de garantir boas risadas.

Beda 31 – Meu ponto de partida

Sou cria genuína da terra de Oz. Passei minha infância percorrendo, correndo, pulando em suas ruas de terra pantanosa.

Garota moleca, subi em muitas árvores da pracinha local, para observar do alto, a cidade e, saborear das delícias azedas do cajueiro-japonês. Sem preocupações, pegava a fruta do pé ou as que descansavam no solo.

Pisei descalça a grama que havia – no que se tornaria futuramente – o clube Cobraseixos. Em seu ginásio, brinquei carnaval em suas matinês.

Berço que recebeu com carinho, imigrantes italianos que fincaram residência e transformou aquele pedaço de chão desprezível, em lar e perpetuação de sua cultura. Recebeu de António Agú, o nome em homenagem à sua terra natal, Itália. Da mesma forma, recebeu com coração de mãe, armênios, japoneses, coreanos, haitianos e tantos outros povos que encontraram em seu seio, abrigo e oportunidades de vida melhor.

Palco de sindicalistas, em seu passado, a cidade foi importante polo industrial. Fomentou a cultura e dela, saiu filhos famosos no teatro, cinema e artes plásticas.

Protagonizou passagens incríveis de lutas entre o bem e o mal, passarela para vampiros e outros seres, criados e eternizados, pelo talentoso escritor André Vianco.

Estabeleceu vínculos com sua também irmã japonesa, Osaka e, mantém relações culturais, expandindo conhecimentos e vivências.

Criança, fantasiei inúmeras histórias ao passar pelo casarão, que hoje, sedia o Museu Dimitri Sensaud de Lavaud, mais conhecido por Museu de Osasco.

São tantos os acontecimentos que vivi em minha terra de Oz, que me faz sentir a própria Alice, no país das maravilhas.

Hoje, não mais cidade pequena, transformou-se num polo comercial, local de grandes empreendimentos.

Mudei de endereço, mas sempre que retorno, ao descer as escadas da estação de trem, a persona Roseli criança, assume, percorrendo o calçadão com suas inúmeras lojas, sentindo o aroma dos carrinhos de cachorro quente espalhados em cada esquina, salivando de vontade de saborear os churros que retornaram após longo período ausentes. Desejo de voltar a correr por suas ruas, cantando, assoviando e chamando outras crianças para brincar de esconde-esconde ou, sentar no chão e brincar o jogo das 5 Marias.

Meu espírito osasquence despertou gritando: quero voltar a ser criança!

Esse texto faz parte do b.e.d.a — blog every day august.

Participam : Claudia Leonardi  – Lunna Guedes – Mariana Gouveia — Obdulio Nuñes Ortega

Imagens: Google e acervo pessoal

Beda 30 – A casa que habito

Talvez, por ter atravessado uma infância de parcos recursos materiais, carrego comigo uma atenção especial ao ambiente que habito.

Pequena, dividindo dois cômodos numa família de seis pessoas, passei a sonhar acordada com uma moradia maior e mais bonita.

Até que, na fase adulta, trabalhando e com condições financeiras melhor, nos mudamos para uma casa ampla, confortável e bonita.

Coisa mais estranha, a sensação de não pertencimento àquela habitação, afinal, era a realização de um sonho de infância então, por que o desconforto?

Ao adentrar a casa dos cinquenta, tomei coragem e as rédeas de minha vida e comprei um apartamento. Completamente o oposto da casa ampla. Optei por uma quitinete e adotei o estilo de vida minimalista. O que apliquei aos poucos, em minha vida. Descobri que não preciso de muito para viver e ser feliz.

Também passei a implantar o conceito japonês wabi-sabi. Ao ler um artigo sobre esse princípio, me encontrei. Enraizado na aceitação da transitoriedade e da imperfeição, passei a compreender a humanidade que me habita e habita os demais.

Hoje, sou mais paciente e tolerante com as falhas alheias e mais ainda, com minhas imperfeições. Com relação à imagem do que sou, me transformei nesses anos vividos. Reverencio os cabelos brancos, agradeço as rugas e manchas pelo rosto, braços e colo. Aceito a flacidez que representa minha maleabilidade diante das desventuras e obstáculos. Agradeço inclusive às dores – companhia constante de meus dias – que alertam para que me movimente mais e com mais graça. É a sinalização de que – quanto mais o tempo passa – mais devemos mirar nosso interior e cuidar com amor, carinho e respeito.

No Japão, as peças de cerâmica que são quebradas acidentalmente, são recuperadas utilizando a técnica Kintsugi, colando-as com pó de ouro, conferindo fortalecimento e renovação da peça. Faço o mesmo com minha existência.

A cada quebra, colo os cacos com pó de perdão, aceitação, acentuo com toque de brilho de um novo dia e sigo adiante, ressignificando-me.

Dia após dia, acordando uma nova pessoa. Se é fácil? Claro que não, mas acredite, vale muito a pena aplicar essa filosofia de vida.

Hoje, a casa que habito é menor, mais clara, menos entulhada e repleta de gratidão. O simples é grandioso!

Esse texto faz parte do b.e.d.a — blog every day august.

Participam : Claudia Leonardi  – Lunna Guedes – Mariana Gouveia — Obdulio Nuñes Ortega