Programação alterada

Tarde de sábado. Sinto como se estivesse estirada em uma grelha de churrasco. A carne a tostar – no caso, sou eu. Esse calor anormal que invadiu a cidade de São Paulo em pleno final de inverno está me prostrando.

Programei minha manhã para dar umas voltas pelas ruas em torno de minha residência. Sair um pouco do casulo que se transformou meu apartamento. Planos: ir até a farmácia de produtos naturais comprar geleia real e conhecer a feira livre, na rua paralela a minha.

Envelhecer é isso! Outras coisas passam a ser prioridades e aguçar nossa curiosidade. Quando que em minha juventude, conhecer novas feiras dos bairros seria programa matutino do sábado?

E a tal da geleia real? De nova pensaria em correr atrás e consumir essa gororoba das abelhas, em jejum pela manhã para fortalecer o sistema imunológico? E esse palavrão então? Na mocidade (hum, isso também é frase dos mais velhos), minha preocupação era tomar coca-cola, posar de fumante e paquerar. Muito!! Era tão bom paquerar! Nem sei mais como se faz. Esqueci.

Esquecimento também faz parte dessa nova fase. Para quem se gabava em ter uma memória de elefante, ultimamente esqueço até mesmo de escovar os cabelos. Depilar então, ficou no passado de mulher que está com tudo em dia. Meu empoderamento hoje é manter a saúde. E olha que a cada dia que passa, essa tarefa é das mais difíceis. Diria, hercúlea!

Agitação, aglomeração, faziam minha alegria na adolescência. Ver gente, estar com gente, encostar em gente! Era tudo de bom! Hoje, quero mais é distanciamento de gente. Reunião, só se for pelo Google meet, Zoom e afins. Encostar em mim, só se for álcool em gel. Bafo no cangote, somente do ventilador me refrescando as ondas de calor da menopausa.

E a essa altura da vida, passei a gostar até mesmo de caldo de pés de galinha. Uma iguaria dos Deuses! Além de saboroso, ajuda nas dores das tais “juntas” que enferrujam com o passar do tempo. Ah…Maldito tempo, que passa numa velocidade….ZÁS!!! Passou e esqueci o que ia complementar. Esquece.

Resumo da ópera ( que antigamente dizia ser programa de veio): envelhecer é simplesmente alterar a programação. Mas quer saber? Bendito seja os que conseguem chegar à terceira idade pois viver, mesmo que de forma limitada, ainda é o melhor programa!

Caloroso amante

Desde pequena, preferia a natureza aos humanos. Os adultos eram complicados e as crianças, idiotizadas. Na família, era tida como a caçula esquisita. Trocava qualquer brincadeira para ficar na companhia das galinhas e patos do terreiro, dos gatos vagabundos da vizinhança, dos cães de rua. No entanto, sua companhia preferida eram as plantas.

Sentia imensa alegria ao acompanhar o crescimento delas em vasos, horta e pomar. Traçava diálogos longos e animados com as margaridas do jardim, avencas, jiboias, lírios da paz. Era íntima das hortaliças. Ouvia com muita atenção as reclamações do pé de tomates, surpreendia-se com as confissões dos alfaces, as fofocas do pé de chuchu que adorava se esparramar contando tudo em detalhes.

Ao término de cada dia, permanecia petrificada admirando o pôr do sol. Aquela bola de fogo no céu a estasiava. Não cansava de assistir ao bonito espetáculo.

Seu sofrimento tornou-se constante ao ingressar na escola. As crianças mostraram diariamente o quanto podem ser más. Todo dia, uma brincadeira nova para humilhar a tal da “esquisitinha caipira”. Sua dor emocional começou a se manifestar em seu corpinho franzino. Brotoejas, resfriados, febre, noites mal dormidas, perda de apetite.

Retornava para casa e se refugiava em meio a plantação onde, entre lágrimas, expunha para suas companheiras seu drama.

Seus pais, preocupados, passavam as noites discutindo o que fazer sobre o comportamento da pobre menina. Sua mãe, amorosa, dizia que tinham que ter paciência com a pequena. Era de todos, a mais sensível. Seu pai, homem rude, discordava. Para ele, só mesmo uma boa sova resolve mimos. Caso não melhorasse, ele ameaçava retirá-la da escola. Afinal, pra que tanto estudo para uma menina? Melhor trabalhar sua personalidade para os afazeres de casa.

Em pouco tempo sua ameaça se concretizou. Ao contrário de receber como castigo, a pobrezinha agradeceu imensamente a bondade do pai em dar por encerrado seu sofrimento. Jurou que nunca mais entraria em uma escola. Agradeceu também, junto ao pé de café, as orações que suas companheiras da flora fizeram, intercedendo por ela.

As folhas do calendário foram rolando uma a uma até chegar ao aniversário de dezoito anos. Aquela mirrada criança se transformou em uma bela moça. Uma beleza sem retoques artificiais. Cuidava dos afazeres domésticos com sorriso sempre presente no rosto que agora, adquirira cor pois passava horas ao sol, lavando, estendendo roupas no varal, levando comida aos porcos, galinhas, patos. Aguando a plantação.

Muitos pretendentes surgiram no entanto, nenhum despertava seu interesse. Seus irmãos foram se casando e mudando nas proximidades. Ela, firme na convicção de que não desejava casar com ninguém. Sua mãe apenas acenava com a cabeça e pensava: Nem todas vieram para casamento. Ela será nosso amparo na velhice. Confio em sua bondade.

Novas folhas do calendário rolaram. Muitas estações mudaram encerrando seus ciclos naturais. Agora, aos trinta e cinco anos, quase nada mudou em sua rotina. Alguns fios de cabelo branco surgiram em sua vasta cabeleira que mantém arrumado num coque. Ganhou alguns quilos que – ao contrário de suas irmãs agora mães -, trouxe-lhe sensualidade. O trabalho pesado fortaleceu sua musculatura. Ganhou pernas e braços torneados, belos. As rugas ao redor dos olhos e boca não a envelheceram, trouxeram-lhe uma aura de sabedoria. Aprendeu a arte e os benefícios medicinais das plantas e agora, recebe mães com suas crianças para benzer e passar medicações que a natureza oferece. Transformou-se numa guardiã e estudiosa das ervas.

Outro hábito adquirido com o passar dos anos, foi permanecer nua em seu quarto. Sentia-se integrada à natureza. Sabia ser parte dela. Como as demais pessoas jamais aceitariam tal comportamento, confina-se em seu espaço após a labuta e, toda tarde, antes do sol se pôr, desnuda-se, deita ao chão próximo da janela que, para seu deleite, é grande, e passa as horas finais do dia sentindo-se abraçada pelo calor. Despede-se dele como quem se despede do amante. Com olhar de quem deseja mais e mais. Hoje, pela primeira vez, sentiu algo diferente. Enquanto tomava seu banho de sol, mantendo os olhos fechados, ouviu uma voz masculina pedindo para que abrisse as pernas. Mesmo estranhando, obedeceu. Aos poucos, o calor do sol envolveu seu botão ainda intocável. Delicadamente, desabrochou abrindo-se.

Inexperiente, assustou-se querendo fechar as pernas contudo, a voz novamente disse-lhe: Não meu amor, confie em mim. Quero te fazer mulher e feliz. Relaxe e deixe-me penetrá-la. Desejo te conhecer por dentro também.

Entre contorções que a princípio foram suaves até o espasmo e o grito de prazer intenso, sua primeira experiência sexual foi na companhia desse, que se tornaria seu companheiro até a hora derradeira, quando retornaria à natureza, transformando suas moléculas em adubo para uma formosa quaresmeira e, continuar pela eternidade, a receber os carinhos de seu amante.

Imagem licenciada: Shutterstock

Sem amarras

Um belo dia acordei, olhei pro teto ainda no escuro e decidi: chega dessa essa vida! Não quero mais acordar às seis da manhã, fazer meu café, me trocar, pegar o metrô e chegar ao trabalho todo santo dia fazendo as mesmas coisas. Basta de rotina! Vou zerar essa minha vida burguesa de classe média.

Levanto, vou ao banheiro. Estou prestes a abrir o chuveiro para uma ducha quando paro e decido: se quero realmente mudar, devo começar por aqui.

Pra que banho?

Volto pro quarto, visto um jeans, camiseta velha, coloco o tênis mais surrado que tenho. Começo a escovar meus cabelos e paro.

Fazer o de sempre Malú?

Desgrenho ele todinho. Olho-me no espelho e gosto do que vejo.

Maquiagem? Nem pensar!

Abro o guarda roupa e analiso. Não vou levar nenhum desses terninhos de trabalho. Não vou precisar mesmo! Sapatos de salto agulha?

Nunca mais! Alforria!

Abro as gavetas de lingeries. A primeira só tem conjuntos rendados, pra lá de cavados. Muito sexy.

Não me servem mais.

Chega de bancar Dita von Teese pra marmanjos que só babam pelos nossos orifícios nas terras baixas.

Abro a segunda gaveta e encontro minhas calcinhas de cotton. Brancas e beges. Aquelas que dão arrepios nos mesmos marmanjos. Só que arrepios de horror. Eles as acham horrorosas!

São essas que vou levar.

Numa mochila coloco lingeries básicos, meias soquetes, três camisetas e mais uma calça jeans.

É o suficiente.

Dou uma boa olhada em meu quarto me despedindo. Observo meus inúmeros vidros de perfumes, cremes hidratantes, óleos e sais pra banho.

Não me servem mais.

Ligo o note e redijo uma carta de demissão agradecendo pelos anos de confiança que depositaram em mim, desculpando por sair de forma tão abrupta e impessoal. Como não comparecerei ao escritório para tratar das formalidades que as leis trabalhistas impõem tanto ao contratante quanto a contratada, deixo claro que podem atestar abandono de emprego.

As consequências?

Não me importo.

Aproveito para também escrever uma carta de despedida à todos os conhecidos e familiares, os poucos que ainda mantenho contato. Explico que estou bem, que foi uma decisão sábia apesar de parecer loucura e que em breve mandarei notícias de onde estiver.

A única coisa que levo dessa antiga vida é o note e o celular. Vou radicalizar, mas ainda preciso deles.

Enfio-os na mochila e saio sem olhar para trás.

Fora do prédio sou batizada por uma boa garoa matinal simbolizando meu renascimento. Deixo para trás – o que para muitos -, é status de sucesso e conquistas.

Saio sem rumo certo.

Sigo para a rodoviária do Tietê e lá escolherei um itinerário qualquer. Viverei assim. Um dia por vez. Sem planos, sem compromissos a não ser comigo mesma.

Quero a liberdade plena de escolha. Não importa que elas me tragam dissabores. Fazem parte da vida.

Dessa que por hora optei.

Imagem licenciada: Shutterstock

Valor de mercado

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Um grito atravessa a noite me tirando de um sono profundo. Retorno à realidade confusa, acreditando ainda estar sonhando. O som de um choro desesperado, sofrido, permanece. É uma mulher. Diante do silêncio das primeiras horas da madrugada, apenas esse lamento. Movida pela curiosidade, levanto e vou à janela na tentativa de ver o que acontece. A rua, sempre movimentada, encontra-se vazia. No céu, nuvens encobrem o luar. Nos prédios, algumas luzes solitárias acesas.

A cantilena do choro aos poucos cessa até ouvir apenas uma respiração carregada. Silêncio.

Ao fechar a janela, capturo um movimento no canto de uma banca de jornal na esquina. Fixo o olhar para tentar identificar se é um cão perdido, ou gato vira-lata. A constatação de que é uma mulher me causa certo desconforto. Seminua, levanta-se ajeitando o vestido rasgado. Um dos seios à mostra. Ajeita os fartos cabelos e ao mirar o alto – com os olhos ainda úmidos e borrados pelo rímel vagabundo – nos enxergamos.

Por alguns segundos, não sei o que fazer nem o que pensar. Ela mantém seu olhar em mim numa muda súplica. Em seguida, abre um sorriso, acena, termina de ajeitar seus trapos, tira um espelho da minúscula bolsa e corrige a maquilagem. Atravessa a rua e para na esquina iniciando um diálogo com suas colegas:

-Amor, a noite está brava. Muito sofrimento e pouco faturamento. Estou de rabo ardendo e o filho da puta não me pagou. E ainda me deu uns tapas na cara. Fora que rasgou meu vestido. Bora faturar mais um para pagar o prejuízo! Oh vida! Quando será a minha vez de conhecer um bonitão que me fará sair dessa miséria? Quando?

-Ainda está nessa de sonhar acordada com príncipe encantado? Otária, acorda pra realidade! Nós estamos aqui para isso. Aliviar as taras desses monstros. Somos seus instrumentos de prazer. Jamais se interessarão em nos tirar da sarjeta. Isso minha filha, é contos de fadas. Aqui, no asfalto, é a vida real. E chega de conversa mole, atravessa e vai para a outra esquina trabalhar que a noite apenas começou!

Cerro a janela e retorno para o calor das minhas cobertas. Por alguns minutos reflito no quanto essas “mulheres” levam uma vida embrutecida, pobre em todos os sentidos. De “vida fácil” elas não têm nada. Por outro lado, apesar das diferenças, nós mulheres – seja aqui em São Paulo, Rio, Maceió ou Nova York. Seja no Ceilão, na Irlanda ou Rússia, a condição feminina sempre sofre. Muitas se prostituem para sobreviver. Não tiveram estudos, não têm outra profissão. São reféns da desigualdade social. Outras, fazem universidade e, mesmo assim, prostituem-se para usufruir de um luxo que – sendo simples balconista de shopping ou garçonete ou até mesmo escriturária – não teriam condições financeiras para tanto. Na realidade, há diversas formas de se “vender”. E todas, sem exceção, gravam sequelas profundas na alma feminina.

Adormeci pensando em mim mesma. De qual forma me deixei prostituir… E você? Já parou para pensar nisso?

Imagem: Pixabay

Sornice

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Abro os olhos diariamente e observo. Nos últimos tempos, na medida do possível, mantenho minha boca cerrada. Precaução em tempos de censura mas também, pura preguiça. As pessoas andam nadando com fôlego de atleta olímpico na piscina da mediocridade e eu, preguiçosa que sou, não aprendi a nadar. Só boio.

O cansaço que sinto diante de tamanha realidade rasa causa náusea. Vomito.

Limpo os restos na manga de minha camisa de linho puro sintético comprado na lojinha do Ching Ling. Que mico!

Vomitar e usar essa porcaria made in Taiwan.

Imagem: Pixabay

Conselhos de Fada Madrinha

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“Ai amor! Tu não tem idade pra vestir a roupagem de idosa! Fofaa!!  Tu não tem idade pra isso. Tem muita lenha pra queimar. Santa Maria da Periquita Sossegada! Acordaaa!!”

“Mapoa, não se faça de sonsa. Tô falando com vocezinha darling! Fazfavordemedaratenção. A Biba aqui não suporrta ser ignorada!”

Aii!! Tá maluco? Estou invisível por acaso? Ai que não se pode mais almoçar sossegada nesse refeitório senhor!…Tá doendo viu? Por que me cutucou?

Pra ver se desperta desse sono de princesa bela adormecida. Hellow!! Onde anda essa mente hein?

Cássio, por acaso bebeu, cheirou, aspirou muito pó de arroz vagabundo  foi? Não entendo absolutamente nada do que está falando homem! Aff! Me deixa almoçar que ainda tenho de correr até o supermercado para comprar algumas coisas pra casa e só tenho uma hora pra fazer tudo.

Homem? Por acaso, está vendo aqui algum homem conversando com você criatura? Quer dizer então que, além de deixar essas madeixas esbranquiçadas – que aliás, acho UÓ, você ainda sofre de miopia? Hellow again! Sou EU! Cassinha que fala contigo mocréia dos infernos. Não insulta não que o que disse é pro seu bem! Sai dessa vida de senhorinha antes do tempo! Você sempre foi linda, elegante, sexy e acima de tudo, GOSTOSA! Não te aceito por menos! Vamos marcar pra hoje a noite você ir até meu cafofo para eu realizar a grande transformação de te resgatar do limbo dos idosos e te transformar na rainha que sempre foi. Miga, tá sabendo que agora sou uma consultora legítima e sacramentada  da Mary Kay? Que fiz uns cursos de maquiagem que transforma em poucos minutos dragão em miss universo? Então…te quero arrasando a avenida novamente. Que depressão foi essa que te pegou hein? Homem nenhum merece esse desleixo todo amore.

Cássio querido, agradeço sua preocupação mas não me encontro deprimida. Pelo contrário, estou super de bem com a vida. Nunca estive tão bem como agora. E quanto aos meus cabelos, esquece que cansei de ser escrava da moda e dos salões de cabeleireiros. Pra mim já deu. Me dei alforria total dessa ditadura. Serei o que quiser daqui pra frente e se, meu desejo é assumir meus grisalhos, que assim o seja. Entendeu miguinha?

Jesuis é caso de obsessão mesmo! Terei de fazer reza brava no terreiro essa semana. Rogar aos exús que espantem esse espírito de sinhá polvorosa pra bem longe de minha rainha. Vou pedir de volta a Pomba Gira que te acompanhava nos áureos tempos. Ela sim te fazia brilhar nas passarelas da Dama Xoc e da Madame Satã. Lembra? Foi lá, na Dama Xoc, que te vi pela primeira vez e se fosse homem ou lésbica, teria me apaixonado! Tão linda arrasando naquele macacão de lurex, cabelos cacheados, cheio de brilho…Natural e de gumex pra manter aquela onda na texta. Uau!!! Usava um batom ultravermelho na boca, ostentava um sorriso rodeado de covinhas e seu olhar emoldurado por sombra azul e rosa cintilantes e cílios postiços devastadores. Uau!Uau! Não tinha pra ninguém. A mulherada se mordia de inveja e os homens… Bom, os homens se banhavam de tesão por você. Otávia, amiga, volte a ser o que foi um dia. Essa estrela de eterno brilho. Estrelas não devem jamais envelhecer! Prontofalei!

Cássio, amigo querido, só você pra resgatar esse passado que ficou lá no túnel do tempo e me fazer rir tanto. Fala sério, a gente se divertiu muito naquele tempo não? Arrasamos quarteirão com nosso estilo de vida. Quanta gente boa conhecemos nessa época não?  Caio F. Abreu, os meninos da banda Titãs, a turma mais metidinha que andava nos Jardins e frequentavam a boite do Ricardo Amaral…A turma maluca do Marquinho que, infelizmente morreram todos de AIDS nos anos noventa. Marquinhos…Ainda sinto falta do seu astral contagiante e de sua beleza máscula e ao mesmo tempo andrógina. Lembra quando ele se montava de Streisand? Ficava irreconhecível! Uma diva! Ai, esquece tudo isso que relembrar doí muito. Foi uma época maravilhosa mas ficou lá atrás.

Cassío visivelmente comovido abraça Otávia deixando os demais no refeitório especulando o que acontecia com os dois.

Lindinha, passamos por muitas nessa vida não é mesmo? Seremos assim tão ruins que nem o inferno nos quis? Tanta gente boa, se foi tão jovem e nós dois aqui, firmes feito bambu que se enverga mas não quebra. Eu sei que estamos envelhecendo. É fato. Não tem como negar mas, olha, pode parecer piti de bicha véia, de tiona aposentada, enfim, chame do que quiser. Quero que nós dois envelheçamos com dignidade e beleza. E acima de tudo, que nossa amizade permaneça pra eternidade.

Passa lá em casa essa noite Tavinha. Vamos celebrar nossa amizade.

E…pelamordedeus deixa eu dar um jeito nesse cabelo! Fui!

Imagem: Eaiconteudo

Um novo passo

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Danço. Por que a vida já é um imenso palco que, se você não seguir, te passam para trás, te derrubam e te jogam para escanteio. Aprendi meus primeiros passos dessa coreografia, logo cedo, bem novinha. Outra grande lição que levei pra vida, é dançar conforme a música. Assim minha avó ensinou para minha mãe, que repassou a lição para seus filhos. Pena que nem todos aprendem.

Com o tempo, passei a fazer passos mais ousados, mais bem sincronizados com meus parceiros de dança. Transformei-me numa virtuose das passadas rápidas, realizando espacates formidáveis. Minha elasticidade impressionava a todos. Dobrava-me feito bambu. Resistente feito eles. Vi-me obrigada a fortalecer para não quebrar.

Com o passar dos anos, corpo enferrou naturalmente. Era de se esperar, contudo, aprendi novas técnicas e pouco a pouco aprendi a dar elasticidade à alma.

Foi aí que tirei a sorte grande! E de lambuja, aprendi a cantar também. Veja bem, não tenho voz privilegiada mas, mesmo assim, canto para desafogar a pressão do dia a dia, libertar tudo o que trago preso no peito e me sentir leve feito folha ao vento. E funciona.

É, acredite! Tente sair dançando e cantando. Verá mudanças significativas em sua vida.

Já aviso que isso não é sabedoria barata de autoajuda. É minha vivência, minha experiência de vida.

E se serviu para mim, por que não para outros? Hoje, no alto de meus sessenta e seis anos, trago minha alma expandida, maleável, leve. Sorrio para a dificuldade, pisco de forma malandra para a dor – que aliás, são muitas, assovio para a dureza de um salário de aposentada, vejo as contas se acumulando e ao invés de desesperar, levanto com certa dificuldade nas juntas e dou banana pra elas e saio à rua em busca de alegria. Tristeza acumulei e curti na juventude pois lá, era legal ficar deprimida por amor ou falta dele. Hoje, ciente de que nada se leva dessa vida, quero mais é ser feliz, dar risada – muitas, diga-se de passagem, achar graça em meus micos que são diversos e bem cultivados.

Minha filosofia? “Infeliz daquele que evita os micos”. São eles o tempero de nosso cotidiano que dão um “que” em nossas vidas muitas vezes desbotadas pelas intempéries.

Durante muitos anos engessei minha essência para fazer parte de alguma turma, algum grupo, buscando a aceitação do próximo.

Me feri demais nessa tentativa que se mostrou inútil. Quando decidi  me libertar, foi a glória!

Quando jovens, somos ingênuos e tolos por achar que tudo se resume ao que se aparenta e não ao que se é de fato. Hoje sou. Joguei pro alto a preocupação com a aparência. Aparentar ser bonita, jovem, gostosa, sensual, sexy. Tudo ilusão! Mantive a vaidade de se cuidar o básico: higiene sempre pois ninguém merece sentir sua “sovaqueira”. Desagradável demais! Cuido de minhas roupas que por hora, são simples mas de boa qualidade e sempre limpas. Mantenho-me penteada, unhas bem aparadas porque ser velha já é um fardo, manter unhas longas se assemelhando às bruxas de contos de fadas, não dá. Esse personagem não visto. Com o ganho da experiência, adquiri o maravilhoso hábito de sorrir com os lábios e a alma. Por isso consigo tocar à todos. Sorrir, vai além de exercitar a musculatura facial. É transformar a alma num regozijo pleno.

De passo em passo, moldei meu espírito numa Ginger Rogers e hoje, bailo com a leveza dos astros. Para muitos, não passo de uma velha gagá precisando ser internada com urgência. Para outros, exemplo a ser seguido. Vai de cada um e não questiono opiniões. Acato e as respeito afinal, o livre arbítrio é uma benção que todos recebemos ao nascer e nosso maior tesouro. Só necessitamos de sabedoria para usá-lo. E eu, à minha moda, acredito que saiba utilizá-lo. Aceita ser meu partner nessa contra dança?

Imagem: Mattsko

Estações

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Acordo primavera,

Alma florida, terra remexida

cheiro de novidade

Passo o dia exalando verão

Mãos quentes, sorriso luminoso,

olhos de tentação

A tarde baixa trazendo aroma de

café;

aspiro seu perfume que me leva à você

Forma-se tempestade

Fenômeno El Niño, viro geleira

enrigece meu coração;

Noite baixa com temperatura fria

encolhida na cama, aos poucos,

passa a tormenta; madrugada chega,

uma voz interna sopra na alma:

Alice, enfrenta!

Adormeço. Mais uma vez, despeço-me

da tua ausente presença. Amanhece.

Volto a ser jardim;

Floresço!

Imagem: Pexels

 

 

Apresentação

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Detenho poderes que nenhum ser humano imagina existir

Manipulo energias que nenhum físico descobriu

Traço caminhos que nenhum engenheiro ousou construir

Crio mundos, gero vidas,

Determino seu fim.

Posso estar em muitos locais ao mesmo tempo

Sem jamais me perder de mim mesma

Sou essência

Matéria bruta da natureza

Em meu mundo, sou conhecida como

A rainha do castelo de livros

Criei mais uma história que,

com certeza te prenderá

Te farei meu escravo, de mim não se apartará

Até saber o significado dos segredos que detenho

Deseja arriscar? A caminhada é longa mas,

o aprendizado, é para sempre.

Adentre os aposentos de meu castelo e…

Aventure-se!

 

Imagem: Pexels

Filosofando entre amigos

Outro dia, numa roda de amigos, discutíamos vários assuntos até chegar ao tema “relações amorosas”. Após todos falarem um pouco sobre suas experiências, olharam para mim e um silêncio pairou na sala.

Demorei a perceber que todos aguardavam uma palavra minha sobre o assunto. Sorrindo um pouco sem graça, disse que não tinha nada a declarar. Na hora, todos rebateram ao mesmo tempo dizendo não aceitar essa resposta. Eu tinha de sair de meu pedestal e abrir o coração para todos. Pensei na hora: Abrir meu coração? De que forma se ele já se encontra escancarado há anos!

Permaneci mais alguns minutos quieta e então falei: “Já sofri muito por amor. Já paguei micos em nome do amor. Já dei muitos foras em nome desse amor. Já derramei muitas lágrimas por amor. Já passei noites insone por conta de um amor. Já transei loucamente em nome do amor…

Silêncio e muitos pares de olhos em cima de mim aguardando um desfecho do que havia começado a falar.

– Continue, termine. Como é sua vida amorosa hoje? – pergunta uma nova amiga que ainda não sabe nada sobre minha vida privada. Seus olhos denunciam curiosidade.

-Hoje? Ah… Minha vida amorosa atualmente é bem tranquila, serena. Existe uma parceria incrível entre nós duas. Uma apoiando a outra. Não importa que situação se apresente. A harmonia, a sinceridade, o carinho é sempre mútuo.

Paulo, um amigo das antigas, do tempo da faculdade, coça a cabeça e olhando de forma indireta para mim comenta de forma quase inaudível:

-Poxa, não me leve a mal amiga mas…Nossa! Nunca imaginei que você fosse lésbica. Veja,  não estou sendo preconceituoso. Não mesmo. Mas é que, ah, sei lá! Você já namorou tantos caras… Até rolou uma paquera entre nós na faculdade. Mas, poxa! Afinal está feliz né? Então é o que interessa. Te amo mesmo assim viu! – E finalizando seu pensamento, levanta-se e vem ao meu encontro na intenção de um abraço.

Aceitei mas falei de imediato:

-Pessoal, vocês tiram conclusões muito apressadas. Não disse que tenho uma companheira nem disse que sou lésbica. Como você mesmo disse agorinha, também não tenho preconceitos. Aliás, tenho grandes amigas e conhecidas lésbicas.

-Ah não é não?

-Não Paulo. Não sou. O que quero dizer, é que hoje, do alto de meus cinquenta e três anos, encontrei um ponto de equilíbrio. Finalmente após décadas de brigas internas e muita terapia, encontrei a aceitação para muitas coisas e vivo numa paz imensa. Vivo sozinha mas jamais solitária. E sabem porque? Porque a solidão é minha aliada para muitas coisas. Exemplo: Refletir sobre meus aprendizados, minhas fraquezas, meus pontos positivos. Planejar meu dia a dia. Escrever. Ler. Fazer minha yoga. Ouvir minhas músicas e assistir aos filmes favoritos. Experimentar fazer os pratos que tanto gosto. E finalmente, me preparar para recepcionar os amigos que são fundamentais em minha vida. Não preciso mais de um amor carnal, sofrido, angustiado e desesperado. Isso foi bom quando tive meus vinte anos. Hoje, meu amor ganhou outras cores e sabores. Sou feliz assim. Acho que isso é maturidade. Tin!Tin!