BEDA – Brasa

Coração descompassado, olhos escapam mais uma vez para o relógio. Amaldiçoo os ponteiros que nunca chegam ao horário marcado. Anseio. Verifico se está tudo como planejado: mesa posta para dois, vinho na temperatura certa, assado pronto no forno, a salada com o molho especial, sua sobremesa preferida.

Retorno ao quarto. Observo de perto se a maquiagem está correta. Movo a boca vermelha sexy e mando um beijo para o reflexo no espelho. Analiso se o vestido valoriza minhas curvas. A cor escolhida me cai bem. Perfeito!

Ergo uma das pernas e pouso-a na beira da cama alisando para ver se a costura da meia está no lugar. Tenho belas pernas! Você se excita quando a giro no ar. Antevejo seus olhos brilhando de tesão, pronto para me pegar pelos cabelos do jeito que só você sabe fazer. Aliso a colcha de cetim. Sorrio pois sei que breve iremos desfazer.

Já ia me esquecendo! O perfume que você tanto gosta. Corro até o armário, pego o pequeno invólucro em formato de diamante, borrifo atrás das orelhas, entre os seios, atrás dos joelhos.

Coloco para tocar nosso CD, respiro fundo, sento no sofá. Chet Baker inunda o apartamento com seu solo de trompete. Logo mais a campainha tocará como sempre: dois toques rápidos. Transbordo de excitação.

Você é minha droga contra tudo o que esse mundo me causa de dor. Ao seu lado consigo esquecer a rotina desgastante, cotidiano sem graça. Sua presença amortece a dura realidade. No dia a dia, tenho de ser implacável, sem demonstrar emoção nem fraquezas. Ser delegada não é fácil. Só você para despir a vestimenta da mulher assexuada e deixar à mostra, a fêmea plena que sou. Em seus braços, torno-me moldável. Sigo seus instintos e transformo-me no que desejar. Saio renovada! Desvio mais uma vez meus olhos impacientes para os ponteiros do relógio. Você é sempre pontual. Um arrepio por todo corpo anuncia que sobe os andares que nos separa. Não vejo a hora de passar a noite inteira no seu corpo. O melhor asfalto para eu percorrer milhas de prazer. A campainha toca duas vezes. Levanto ajeitando o vestido, respiro fundo e abro.

A porta. A primeira coisa a visualizar são seus olhos felinos que percorrem meu corpo. Numa piscada de aprovação, me agarra ali mesmo empurra a porta com um dos pés e apoia meu corpo na parede fria — que em pouco tempo — irá esquentar.

– Amor, o jantar. Está tudo pronto…

Shuuuuh! O assado pode esperar. Quero primeiro saciar essa fome. Mais tarde saboreamos o assado. Agora, quero degustar você!

Esse texto faz parte da blogagem coletiva BEDA Blog Every Day August

Participam comigo:

Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega Nuñes – Suzana Martins

Imagem licenciada: Shutterstock

BEDA – Estreia

Quando surgi nesse mundão de Deus logo de cara percebi que tinha entrado numa fria. Pior do que entrar na fila do transplante. Pisquei algumas vezes, chorei acreditando que sentiriam dó daquele pequeno ser indefeso, até urinei e defequei para enfatizar minha fragilidade.

Não adiantou o teatrinho. A parteira experiente deu um tapa bem dado, marcando minha cara roxa feito casula do papa. Assustada diante de tamanha violência calei-me! Engoli o choro e orgulhosa, desde pequenina jurei: nunca mais farão isso comigo. Nunca mais me verão derramar lágrimas. Serei dura feito aço, maleável como bambu, escorregadia tal qual quiabo, maquiavélica feito…feito…

Mulher! Sim, serei uma mulher como poucas nesse mundo. Seduzirei, mostrarei meus inúmeros dotes, apresentarei ao mundo meu talento e criatividade. Farei beijarem meus pés diante de tamanha beleza, encanto e altruísmo…

…Não foi bem assim que as coisas sucederam, mas isso caro leitor, serão outras histórias!

Esse texto faz parte da blogagem coletiva BEDA Blog Every Day August

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Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega Nuñes – Suzana Martins

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BEDA – Quando falta o verbo

Talvez o cansaço físico aliado ao cansaço da vida medíocre que a humanidade toca, me fez despertar e pensar no que escreveria na postagem de hoje. Domingo era pra ser um dia leve, acariciado pela brisa da simplicidade, do amor e convívio familiar.

Basicamente vivenciei tudo isso na íntegra. De certa forma, cumpri com meu papel de cidadã de bem. Mas não fui a igreja, nem ao culto, nem ao centro, muito menos ao templo. Permaneci encolhida em minha insignificância mundana agindo como sempre. Estou bem, acredite. Tenho plena consciência de que os problemas que me rondam feito nuvem carregadas prestes a desaguar numa tempestade, não são meus. Sigo meu caminhar.

Contudo algo me incomodava e não conseguia precisar o quê. Então, esse livro maravilhoso de um escritor que tanto admiro, me veio à lembrança e procurei-o na estante. Encontrei e me perguntei: por onde anda querido escritor? Sinto falta de seus contos. Então, homenageio ele por aqui, com um conto que dá nome ao seu livro. Pequeno grande livro. Uma potência que ao se ler, mexe com nossas entranhas.

Deitado ali por um tempo que ninguém mais podia precisar, sentidos e sentimentos ausentes, esses já não mais o incomodavam, a vaidade e o orgulho tinham lhe abandonado, não se importava com o fato de alguns literalmente caminharem por cima dele, pois havia outros mais abusados que repousavam sobre seu corpo. Seu desapego era crescente, já não ligava mais para a boa aparência, despia-se de seu formato original para agora repousar no infinito nada, seu último verbo foi chegar, conjugado na primeira pessoa do singular, assim como vários outros já tinham feito, estes que em um tempo anterior poderiam formar a terceira do plural e agora, inconscientemente, são seus companheiros: somou-se a eles em um inseparável nós, chegou ao ponto final.

Esse texto faz parte da blogagem coletiva BEDA Blog Every Day August

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Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega Nuñes – Suzana Martins

Raça superior

Era madrugada quando acordou assustada. Levantou e saiu apressada em direção ao banheiro. O que será que havia comido no dia anterior para estar com tanta cólica? Repensou entre uma gemida e outra:

-Pela manhã tomei meu café e um pão francês na chapa acompanhado de ovo mexido. Sempre como isso nunca me fez mal.

-Depois, no almoço, um risoto com  ervas, salmão grelhado e salada de folhas e tomate cereja com um filete de azeite e vinagre balsâmico.

-À tarde, o lanche foi uma banana prata, mix de oleaginosas, uma xícara de chá de frutas vermelhas.

-Por volta das 20h, uma tapioca recheada de abobrinha refogada com cenouras e ervas acompanhada um copo de suco de uva. Antes de deitar-se, uma xícara de chá de hortelã.

Acalmou-se. Nesse meio tempo, seu olhar capturou uma microscópica formiga que acabara de sair do canto do banheiro. Esse ser tão pequenino a fez refletir o quanto a humanidade é tola em se achar o máximo da inteligência. Constatou que, além de arrogantes, são dotados de uma cegueira que os impede de ver o real tamanho diante do universo. Observou a perseverança da formiga em arrastar um micro pedaço de casca de pão.

-Coitada! Deve ser mãe solteira e se preocupa em levar alimento para sua cria. Como a maioria das mulheres. Fala sério! Se todos que tivessem uma dor de barriga pela madrugada, tirasse um segundo para refletir sobre as questões filosóficas que nos move, aposto que essa merda de mundo seria bem melhor.

Mais alguns minutos acocorada. Aliviada, optou por uma ducha quente e, em paz e sonolenta, retornou a maciez de sua cama. Quase dormindo teve um pensamento rápido:

-Amanhã antes de sair pro trabalho, preciso aplicar  o veneno em gel para formigas. Deus me livre de conviver com esses bichos. Deus me livre!

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Parabólica ambulante

Acredita em encosto? Não? Ah, pois eu acredito. Já fui “cavalo” para muitos.

Na pré-adolescência, com todos os hormônios em ebulição, uma Pomba Gira se aproximou e deu o maior trabalho para minha mãe que morria de medo que sua pobre cria se desviasse do bom caminho.

Ela me levou a um terreiro onde fizeram de tudo para me salvar e fui proibida de passear por praças e parques públicos. Orientaram mamãe de que não poderia usar roupas, acessórios e esmalte carmim. Evitasse também maquiagem forte.

Logo eu, que desde pequena, fui vaidosa!

Por insistência dela, evitei por um tempo mas depois, com tantas reviravoltas na vida, caiu no esquecimento.

Como resultado, virei parabólica. Teve um Preto Velho que vivia me dando conselhos. Alguns até bem pertinentes. Pena que a teimosia e imaturidade da época me cegaram. Resultado? Muito murro em ponta de faca.

Certa vez, descobrindo a música erudita, fiquei fascinada com o talento e sensibilidade de Maria Callas. Ouvi tanto que acabei por atraí-la. Acredita nisso? Não é papo de pescador. É a mais pura verdade.

Do nada, passei a cantar feito a Diva. Dá-lhe Callas no banheiro, no metrô, nas filas dos postos de saúde, no pátio do colégio. A diretora, assustada com minhas intervenções musicais, decidiu chamar minha mãe para uma conversa.

Voltando para casa, ela olhando de lado, falou: Ou você trata de se cuidar e seguir o que os guias orientaram, ou te interno numa clínica de loucos. Entendeu?

Aos quatorze anos, assisti a uma apresentação de ballet na TV Cultura, e me apaixonei pela figura forte e ao mesmo tempo delicada da bailarina Maya Plisetskaia . No próprio quarto, comecei a dar os primeiros passos. Foi um tal de plies pra cá, grám plie pra lá, rond de jambes marcando o assoalho do quarto. Passava horas me exercitando na vã procura de me transformar numa bailarina de verdade. Mais uma vez, minha progenitora, desconfiada que só, buscou ajuda espiritual. Afastaram a entidade de Maya.

Passei uma temporada – como dizia minha mãe -, normal. Até chegar as Olimpíadas de Montreal e assistir as apresentações da menina prodígio Nadia Comaneci. O que aconteceu a seguir foi pior que encosto. Segundo a médium do centro que minha mãe frequentava, passei a sofrer de fascinação. E isso era bem pior que encosto, pois estava sofrendo fascinação de um ser vivo.

Queria de toda forma ser como Nadia. Esforçava-me para alcançar a excelência da ginasta. Por conta própria, fui numa escola de Ginástica Olímpica que descobri em meu bairro. Conversei com o técnico, fiz uma apresentação. Ele se empolgou com meu talento e me orientou: converse com sua mãe e peça para ela vir falar comigo. Você tem futuro menina!

Vi meu futuro de melhor ginasta brasileira, quiçá, mundial, avinagrar quando toquei no assunto em casa. Irada com mais essa maluquice, mamãe me deixou de castigo por tempo ilimitado. Boicotou todas as minhas investidas de me transformar numa ginasta.

Então descobri Elis Regina que foi um divisor de águas em minha vida. Iniciei ali, minha coleção e adoração a essa que – até hoje para mim -, é a maior cantora do Brasil. E também minha revolta com o destino afinal, por que ela tinha de morrer tão cedo? Antes mesmo de eu poder assistir um show dela?  A sua influência sobre minha pessoa foi tanta, que adotei seu cabelinho curto que usei por anos. Identificação total. Quando ela morreu, passei dias e dias sem dormir direito. Orava toda noite por ela chegando inclusive, a sonhar que nos encontrávamos. Desse encosto, nunca me curei. Virou crônico.

Minha vida com os livros, trouxe-me outros tantos encostos. Dessa vez, com os personagens que marcaram suas digitais em minha alma. De certa forma, são fantasmas que habitam meu interior. Faz com que não me sinta sozinha nesse mundo tão fragmentado e banal.

Meu mais novo, constante e talvez, para toda vida encosto, é a presença diária de Caio Fernando Abreu ou simplesmente Caio F.

Não passo um dia sem ler pelo menos duas crônicas sua. A conexão é tanta, que por vezes, chego a sentir sua presença, seu hálito lendo em voz alta o último texto escrito. Sinto alegria em poder ser privilegiada em ser a primeira a ouvir de sua boca, a crônica da hora.

Leio, releio, emociono-me. Choro.

Outro dia, flagrei minha mãe – agora já grisalha -, repousando seus cansados olhos em mim enquanto lia novamente Sapatinhos vermelhos.

Nada falou. Entrou no quarto, sentou-se ao meu lado e me envolveu num doce abraço. Como há muito não fazia. Afagando minha cabeça, disse:

-Filha, seu coração é tão cheio de amor que transborda e te afoga. Hoje reconheço que o que antes acreditava ser loucura, nada mais é que excesso de sensibilidade.

Sorrindo, acariciei seu rosto e, repousando minha cabeça em seu colo, falei:

-Mãe, a minha glândula pineal deve estar gasta. Não tenho tido mais nenhum contato com o além. Talvez esteja envelhecendo também ou sofra de excesso de realidade.

-E filha, crescer dá nisso!

Imagem licenciada: Shutterstock

Mergulho nas úmidas paisagens

Quando soube do lançamento desse livro, fiquei curiosa. Organizado pela também escritora Luciana Iser Setúbal em parceria com o Clube da Escrita para Mulheres e a Editora Penalux, essa reunião de contos se materializou num belo livro.

Foi uma surpresa a cada texto lido. Escritoras que já conheço como Márcia Barbieri – no qual citei um livro numa postagem anterior -, Maria José Silveira, Aline Viana, Nanete Neves, Sonia Nabarrete, a própria Setúbal e Maria Esther Sammarone.  Mas conhecer escritoras novas (pelo menos para mim) e mergulhar em seu estilo literário foi uma feliz atividade. Todas exploraram o universo feminino na fase madura onde a vida sexual já declinou. Contudo, sabemos que continuamos a sentir desejo mesmo que a carne se torne flácida, que as rugas fixem moradia em nossos rostos, que os cabelos se platinem, o desejo e a vontade de atrair o olhar do outro (ou outra) permanece latente. Na realidade o que acontecia até bem pouco tempo, era sufocar o tesão e a vontade de continuar se relacionando porque segundo as convenções sociais, não era de bom tom uma mulher madura sentir “vontades”. Tinha de morrer em vida.

Hoje, o perfil da maioria das mulheres mudou. Assumiram as rédeas de suas vidas e desejos e fazem o que querem, como querem e com quem querem. A mulher atual, mesmo que assuma suas madeixas brancas, não tem mais a postura das avós ou tias do passado. O fato de se cuidar, bancar seus desejos sexuais, fazer suas próprias escolhas ao invés de esperar ser escolhida, faz toda a diferença. Nessa bela antologia, conheci mulheres incríveis (personagens e escritoras) que me transportaram para histórias deliciosas, alegres, otimistas, engraçadas, melancólicas, humanas.

Num momento em que feminicídio tornou-se notícia diária, resgatar a importância da mulher, tornou-se fundamental. Discutir o feminino, urgente. Ler escritoras e saber o que cada uma tem a dizer, mais que necessário. 

Debater os direitos do sexo feminino, suas necessidades físicas, psicológicas, materiais, sentimentais, sempre será matéria a ser discutida. 

Fiquei encantada com o poder literário de todas as escritoras presentes na antologia. É um livro para ser lido por todos. Já aguardo um volume dois.

Lançado pela Editora Penalux, o livro tem um belo tratamento gráfico. Capa do competente Ricardo A. O. Paixão (sou fã). Quem já leu outros livros dessa editora, conhece seus trabalhos. Parabéns a todos os envolvidos nesse belo projeto!

Criador e criatura

Da janela de seu quarto, observa um recorte do mundo exterior. Do lado de cá, é ciente de sua realidade. É só isso que tem. Contudo, o que não sabem, é da riqueza de sua imaginação. Através dela, percorre mundos paralelos e inventados por sua mente criativa e alimentada por muitas leituras desde que se alfabetizou. A rica moldura para a realidade, pincela traços grotescos de concreto envelhecido, pinturas desgastadas pelo tempo, vidros repletos de adesivos de estudantes que vem e vão, neons anunciando noitadas quentes a preços convidativos, drinques e diversão garantida, jardins verticais e grafites.

Sirenes rasgam o parco silêncio da rua anunciando mais doentes chegando ao hospital no final da rua. São mais frequentes aos fins de semana acompanhados de muitas cheiradas e álcool. A existência de muitos terminam ali.

Enquanto isso, sua vida segue arrastada numa rotina medonha. Não reclama. Está bom assim. Tem tudo à mão. Somente o que necessita para manter-se viva…

Tudo mudou há seis anos. Era outra pessoa. Ousada, destemida, competente e conhecida. Teve fotos estampadas por diversas vezes em jornais. Uma celebridade. Ganhou dinheiro, viajou, adquiriu imóveis. Aqueceu seu corpo escultural ao lado de muitos homens.

O prazer físico era um de seus vícios que – na medida do possível e também do impossível -, saciava. Seu duplex, decorado por Sig Bergamin, fora palco de muitas orgias. De três em três meses, abria as portas para um grupo seleto. Com direito a roteiro, personagens, boa gastronomia, bebidas à vontade. Baixelas de prata repleta de pó espalhadas por toda parte ofertavam aos convidados, momentos de puro êxtase sensorial, corporal, acompanhados sempre por música clássica ou eletrônica além de trechos de poemas e contos de autores conhecidos ou anônimos. Tudo variando conforme o tema estabelecido por ela. Toda festa era sucesso absoluto e comentadas por semanas nas rodas de amigos. Amante de sexo grupal, seu clímax era o anal que a deixava louca de tesão e estimulava fila indiana da ala masculina para enrabá-la. As mulheres participantes sugavam seus peitos bem garantidos pela gravidade entre outras brincadeiras. Seus bicos chegavam a sangrar de tão chupados e mordidos. Não ligava. A dor fazia parte do jogo. Inúmeras vezes gozou equilibrando-se no parapeito da janela do vigésimo andar. Ali, nas alturas, nua, sentindo o vento a lhe abraçar o corpo junto com algum outro a lhe penetrar, sentia-se verdadeiramente livre e dona do mundo. Seu mundo. O sexo tornou-se seu vício maior. Mais que a cheiradas, picadas e destilados. O parceiro desse vício era o risco calculado. A adrenalina era altamente prazerosa. Foi ousando e se arriscando cada vez mais. Até o momento que seus parceiros de aventura começaram a sair de cena. Muita loucura. Sem maiores explicações, a vida lhe deu um xeque-mate antes que ela fosse responsável pela morte de alguém ou de si mesma. Certa manhã, despertou sentindo-se estranha. Não reconheceu ao mirar-se em seu espelho veneziano. Recolheu-se debaixo dos lençóis egípcios e permaneceu na penumbra por várias horas. Que se tornaram dias, meses, anos. Raras vezes saiu do edifício a não ser para ir ao médico da família que a acompanha desde então. Os amigos, de início até a visitavam mas, aos poucos se distanciaram. Ela não era mais divertida. Olhar ausente pairando sabe-se lá em que paisagens causava incômodo a quem se aventurasse a visitá-la. Muda. De mulher extrovertida e com os temas sempre atualizados sobre tudo, nada mais pronunciava. Sua articulação desembaraçada havia se perdido. Somente balbucias incompreensíveis. Sua beleza – antes admirada e invejada -, agora, apenas um punhado de pele flácida de coloração acinzentada. Seus cabelos volumosos, com brilho e sedosos, hoje, um emaranhado fosco e quebrado. Ela o arrebenta em momentos de crise…

Lê mais uma vez o que acabou de escrever com a ajuda do software Motrix, instalado em seu notebook, sorri satisfeita com sua mais recente história e personagem.

Assim como Álvares de Azevedo, nada viveu em sua limitada vida porém, o que consegue vivenciar através de leituras e escritas comprova sua experiência! Por hora é só. Seu corpo pede repouso.

 

 

 

Debut

elegant-silver-bridal-shoesDorothéa perdia-se na imagem refletida no espelho. Nunca se vira tão linda assim. Pela primeira vez, em treze anos, sentia-se parte da humanidade civilizada. Pela primeira vez, estava limpa, banho tomado numa imensa banheira, num cômodo forrado de mármore rosado e enormes espelhos por todas as paredes. Lembrou-se do toque prazeroso da toalha felpuda em seu corpo. Do cheiro adocicado de amêndoas. Do shampoo que transformou seus desgrenhados cabelos sem vida, numa cascata brilhosa e perfumada. Sorriu para sua imagem refletida mostrando dentes fortes e bem feitos que também ganhara vida após uma longa escovação. Sentia um gostinho de menta na boca. Uma senhora entrou no quarto trazendo um traje branco, bordado com pequenos vidrinhos que brilhavam conforme a luz batia neles. Trouxe também um par de calçados prateados e de salto. Seus olhos cresceram diante de tanta beleza. Afinal, para quem só andava descalça ou – quando muito -, num chinelo improvisado de papelão, ter agora em seus pés calçados tão finos era como entrar  no céu. Toda feliz, vestiu-se e calçou os sapatos. Caiu como uma luva. A mesma senhora voltou ao quarto trazendo agora, uma maleta de maquiagem realçando os belos olhos verdes, destacando as maçãs do rosto e colorindo os lábios carnudos da jovem.

Perfeito! – disse entre os dentes  a senhora que admirava o que via pela frente. Fruto de seu olhar clínico e experiência de vida.

Sorrindo disse à Dorothéa: Menina acredite hoje você fará história na própria vida e dos outros. Vire-se para eu ajeitar o laço do vestido e do seu cabelo. Lembre-se: Sorria sempre que a vida também lhe sorrirá!

Juntas, saíram abraçadas do quarto rumo ao destino que se abria para a jovem e promissora prostituta.

 

Imagem: Cherry Mary

Cabra duro na queda!

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Definitivamente eles não me entendem! E definitivamente, não faço parte dessa turma. Por mais que me esforce, não consigo ser como eles. Tudo parece tão fácil. No entanto, para mim, soa como algo inatingível. Falo pouco, sou de poucos movimentos e mesmo esses poucos, desenvolvo bem devagar. Que posso fazer? É meu ritmo. Já disse, sou diferente. Caí do disco voador num passeio despretensioso pela via Láctea. Bem feito! Quem mandou viajar por aí. Deveria ter ficado no meu canto, em minha poeira espacial bem escondido.

Agora, peno diariamente sendo obrigado a conviver com essa raça humana, primitiva, rancorosa, grosseira e feia. Nesse exato momento, encontro-me num P.S. horroroso, que aqui, chamam de UPA. Horroroso até no nome. Onde já se viu um nome desse para designar centro de atendimento? Só perde para a falta de profissionalismo da equipe. Se tivesse lágrimas, acreditem, choraria diante do que vejo e ouço. Toda essa situação me faz lembrar dos anos lindos e felizes que passei lá nos Emirados do Satélite 9, dois sóis após a Nebulosa 3. Lá, é local de seres evoluídos, limpos, éticos e generosos. Bem diferente do que se vê aqui nesse planetinha de merda! Estão vendo só? Até meu linguajar refinado perdi convivendo com essa gentalha. Ah que saudades ( isso aprendi aqui também) de minha juventude brincando nas nuvens lilás que percorre o Planeta Ruffus 72A. Cercada por seres de luz, inteligência elevada, padrão indescritível que não cabe no vocabulário paupérrimo dos terrestres. Pouco a pouco estou perdendo a lucidez de minha mente brilhante. Estou me nivelando à eles. Triste destino o meu.

Ando sentindo o que aqui  denominam depressão, melancolia, tristeza. Sinto falta dos sons equilibrados do espaço. Aqui, tudo muito barulhento. Meus sensíveis ouvidos já se encontram afetados por tamanha poluição sonora. São incapazes de apreciar o verdadeiro som da alma: o silêncio. Não sabem que é através dele que alcançamos outros níveis da alma e apaziguamos a mente tornando-a mais produtiva. Por conta disso, todos se encontram sempre cansados, sem energia para nada. Burros! Sim, todos por aqui são burros! Onde já se viu, estão acabando com a beleza natural desse planeta de terceira. O que de melhor tinham aqui, estão conseguindo liquidar. E enchem a boca de um imbecil orgulho autodenominando-se Raça Inteligente! Oh God! Quanta baboseira!

Pior de tudo é que, se pudesse, colocaria um ponto final na minha infeliz existência. Não posso. E acreditem, não é por covardia. Tenho coragem suficiente para fazer isso e muito mais. No entanto, fui confeccionado num material que não se destrói. Não finda. Viverei eternamente. O que para os humanos é algo sonhado em alcançar, para mim – confinado a esse bloco de terra e água superpopuloso de criaturas tacanhas e hostis – transformou-se no pior castigo.

Acompanho a saga desse povo há um bom tempo para saber que jamais se modificarão. Evolução aqui passa batido e reto. Logo, encontro-me totalmente desesperançado.

Tentei de tudo para definhar e colocar um ponto final em meu sofrimento. Nada adiantou. Alistei-me em grupos extremistas, fui homem bomba, estive em todas as guerras no século XX e nada. Nem um arranhão sequer. Experimentei drogas pesadas que arrasariam qualquer um. Comigo, o máximo que ganhei foi uma suave diarréia. LSD, cocaína, crack, drogas da felicidade, nada faz efeito em mim. Durante as campanhas espaciais, fiz de tudo para conseguir uma vaga num desses satélites e foguetes espaciais. Como dizem por aqui: a esperança é a última que morre e, movido por essa esperança, tinha intenção de conseguir uma vaga e me lançar no espaço. Rever um pouco da paisagem em que fui criado. Devo ter vindo com defeito de fabricação: azar em todos o meu material genético. Só pode. Tanto espaço me aguardando para explorar e rever, onde fui cair? Onde? Onde?

No deserto de Tarakum. Mais conhecido como A Porta do Inferno. Tinha que ser eu o agraciado dessa brincadeira de mal gosto do destino! Caí em pleno buraco de fogo que os cientistas russos tão graciosamente criaram sem querer querendo e que persiste pegando fogo até hoje. Saí da cratera literalmente pegando fogo. No corpo e na alma de tanta raiva pelo meu intento mal sucedido. E ainda por cima, com uma platéia a se espantar e me achar o máximo! Até hoje devem achar que fui um ator contratado para entreter os turistas imbecis que por lá aparecem.

Não pensem vocês que não tentei outras vezes sair daqui. Tentei. Juro. Muitas. Inúmeras vezes. Pelo teor de minha voz já sacaram que nenhuma deu certo – caso contrário -não estaria perdendo meu tempo aqui, desabafando com vocês.

Chego a seguinte conclusão: Meu confinamento foi decretado pelo Senhor do Universo. Talvez tenha sido apagado de meu chip o passado e atitudes contrárias às Leis Universais. Tenho pedido perdão diariamente na esperança (ela novamente) de que um dia, encontre uma boa alma que me tire dessa sentença tão amarga que é viver no planeta Terra

– Senhor Z, o senhor é um sortudo. Apesar do quadro, o senhor se safou do chikungunya. Entre tantas pessoas vítimas dessa febre que mata, o senhor saiu ileso. Caso de estudo hein? Homem sortudo! Vá para casa!

Go home

Imagem: Hypescience

 

Impermanência

Como permanecer lúcida, se a realidade mostra-se mais surreal que muitas de minhas viajadas? Como manter-me calma, se a humanidade grita e bate e mata numa histeria sem fim? Chego a parecer sem alma diante desse quadro anormal.

Desejo amar no entanto, sou incapaz de me entregar. Carrego grilhões invisíveis que me impedem sair do lugar. Transito apenas locais que me é permitido: casa, trabalho. trabalho, casa. Quando muito, patrão Vida permite que tenha alguns minutos de prazer. Um cinema, um concerto, uma dramaturgia para anestesiar meus dias. Alguma orgia também, afinal, ninguém é de ferro. Mas sempre retorno mecanicamente para minha gaiola de luxo.

E o vazio faz moradia em meu interior. Serei eu também de lata? Estarei fadada a terminar meus dias num ferro velho tendo por companhia carros velhos e a ferrugem como carícia mais íntima?

Olho ao redor e nada reconheço como meu. Não pertenço a nada nem a ninguém. às vezes isso é bom, outras, nem tanto. Para que a gente vive mesmo? Gostaria de lembrar…Deixei cair o manual da boa sobrevivência ao estatelar de boca nesse mundão de meu Deus. Enxerguei tanta beleza que esqueci a parte prática. Me lasquei! E agora, sigo percorrendo vias, rastejando estradas vicinais da memória, sempre em busca de um porque.

Envelheci. Tudo isso é novidade para mim e, mais uma vez, vejo-me perdida sem saber que rumo tomar. Quem não me conhece – e olha que são todos, imagina que sou o ser humano mais feliz do planeta. Eu, por outro lado, me acho uma boba alegre que jamais saberá pra que isso tudo e o que é viver. Contudo, assim como a maioria, não desejo morrer…

Temo que o outro lado seja mais enfadonho que essa nossa realidade. Não quero pagar pra ver.