Presságio

Protegida da chuva

pelo alpendre – em seu terraço,

a dama observa

Pedestres passam apressados

numa única leva

Zumbis

Ninguém a vê. Nem mesmo

a equipe da TV – que ali,

grava pegadinhas para

programa de humor

A dama, que a tudo observa,

deixa uma sombra baixar

em seu sereno olhar

– por hora, preocupante

Sabe que em breve tudo mudará

O perigo se aproxima

não tardará

para que vidas inocentes

– crianças e idosos perecerão

E não haverá rima possível

que combine com esse final

O embate, somente ela sabe,

será mortal.

 

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Maturação

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Observar a juventude se esvaindo

Manter a mente e espírito jovem

Não  infantilizada

Remoçada nas linhas de raciocínio

Ar refrescado por novos aprendizados,

experiências, vivências

Permitir-se.

Envelhecer é voltar as costas ao novo

ao não testado.

Envelhecer, é voltar-se para dentro das entranhas

e nela – deixar-se apodrecer pela inércia

Percebo meu corpo perdendo a

elasssssssticidade

A derme ganha dia a dia flacidez

Luto para manter a postura reta

envergar, somente a alma para alcançar o inalcançável

Pilates, Yoga, meditação, alimentação natural

Num mundo de industrializados, mantenho meu

foco na terra, no adubo, na criação da natureza

Essa é a verdadeira beleza!

Hidrato a pele e, em contrapartida,

ela ganha manchas senis

Teimosas, desejam demarcar território

provando que muito vivi

 

Louca poesia

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Passar a vida ao lado dos mesmos

sentir-se estrangeira

Não reconhecer a língua falada

não conseguir fazer-se entender

Gritar tentando ser notada

Forçar sua presença

inútil – não notam sua carência

Que sociedade vivemos onde

todos sofrem solidão sem fim

e buscam aplicativos,

redes sociais,

desenvolvem até robôs,

sósias perfeitas de quem se foi

Cada ser em seu quadradinho

Lado a lado – um só mutismo

Cegueira de Saramago

Que enxergou o que ninguém deseja ver

O ser humano perdeu referencial

de sua humanidade

Tornou-se apenas um animal

tecnológico, pobre na alma

e infeliz.

E eu aqui, sussurrando para você

Que senta-se bem a minha frente

E não sente que estou aqui

forasteira renegada

Carta descartada de um baralho francês

Que insensatez!

Mulher, velha, sem família

Que domina as letras – que heresia!

É muita ousadia!

 

Imagem: Freeimages

 

Súplica

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Espera, não vá

O dia não clareou e o galo da vizinha ainda nem cantou

Mantenha-me aquecida

Volte a encostar seu hálito quente em meu pescoço,

relaxe

Sussurre que sou cheirosa e macia

Confesse ao pé do ouvido que valho a pena

Sabes o quanto sou insegura-

Fique!

Ature-me um pouco mais

Sei que exijo sua atenção

Contudo, desdobro-me em muitas para teu prazer

O que fazer?

Anseio por seus toques. Para mim são vitais

Amo os momentos em que nos tornamos

animais

Coreografamos as preliminares

Insanos, nos devotamos, nos doamos,

não importa que para os vizinhos o que falamos

não tenha nexo

Entre galopadas, freios, gemidos e grunhidos

Nosso entendimento se faz

Nossos olhares – dois asteroides que se cruzam

e se reconhecem brilham

intensamente

como recompensa, ganhamos o ápice do prazer-

à dois, apagamos juntos

exaustos, suados, permanecemos colados –

derme contra derme

tal qual estrelas que morrem e continuam

a brilhar no universo sem fim

Assim somos, assim nos amamos, assim

nos encaixamos

Por isso, espera, não vá!

Fique um pouco mais.

Imagem: Pixabay

Estações

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Acordo primavera,

Alma florida, terra remexida

cheiro de novidade

Passo o dia exalando verão

Mãos quentes, sorriso luminoso,

olhos de tentação

A tarde baixa trazendo aroma de

café;

aspiro seu perfume que me leva à você

Forma-se tempestade

Fenômeno El Niño, viro geleira

enrigece meu coração;

Noite baixa com temperatura fria

encolhida na cama, aos poucos,

passa a tormenta; madrugada chega,

uma voz interna sopra na alma:

Alice, enfrenta!

Adormeço. Mais uma vez, despeço-me

da tua ausente presença. Amanhece.

Volto a ser jardim;

Floresço!

Imagem: Pexels

 

 

Perdas

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Parece

Que perdi a capacidade, pesa a idade

Perdi a sincronicidade com  esse mundo. Imundo.

Parece

Que desisti do amor

Relações emboloradas dão náuseas. Bebo sal de frutas.

Parece

Que a humanidade perdeu

o que tinha de melhor: sentimento

Hoje trazem no peito apenas um bloco de cimento

Parece

Que perdi de vez a fé. Enjoei até de meu amado café.

Nem água passa pela garganta

Que hoje não canta. Só lamenta.

Parece

Que não desejo mais viver nesse planeta.

Padeço.

Imagem: Danilo Martinis

Pintura poética

Autumn Rain

Pousa na sacada da janela, uma folha

amarelecida

caída da árvore que luta contra poluição do ar e fios

– que a sufocam.

Esquecida, é prenúncio do outono que

atrasado, reclama sua presença entre nós

O silêncio, cá dentro, dá o tom musical perfeito

para o encerramento do dia

Anoitece em Sampa.

 

Imagem: Google

Artesã

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Palavra

Parole

Word

Palabra

lavra

ideias

Para

pensar

Pensei

Achei,

Gostei!

Sorvi seu gosto

Absorvi os sentidos,

lidos…

Lapidei

Poli

Cortei

Transformei-as

num poema

Mas…

não sei

qual tema

colocar…

Volto a lavrar

Qual

palavra

usar?

Penso

Escrevo,

faço arte

com elas,

as palavras

sãs,

sã?

sou?

sou arte(sã)

Artesã

Ode a um mundo melhor

menina sonhando

Não. Hoje não desejo falar do corpo inerte do infante.

Por favor, pare. Não insista!

Prefiro falar dos que ainda terão alguma chance de vingar

Vivendo dia após dia, mesmo que em agonia, provando

Para esses “Doutos” da hipocrisia que vale a pena viver.

Falo dos que insistem em pular muros, quebrar amarras,

arrebentar suas cordas vocais, exigindo que os reconheçam.

Desejo ver loucos saindo às ruas, se permitindo abrir sorrisos

mesmo que diante do  pessimismo alheio,

Anseio ver germinar o canteiro dos desvalidos.

Sonho acordada com o dia em que uma multidão ressurja

arrebentando túmulos, rasgando suas roupas rotas,

abrindo o peito e extravasando a alegria em existir.

E que sua alegria envergonhe e intimide a quadrilha que rouba felicidade alheia,

Sonho com o dia em que verei ao lado deles, essa corja murchar provando

do próprio veneno e que suas carcaças caiam ao chão que se abrirá

sugando-os eliminando essa erva daninha do seio da sociedade.

E nesse dia, que felicidade!

Sonho! Porque sonhar ainda se pode, ainda é de graça

Não. Só por hoje não desejo falar do corpo inerte do infante.

Tal cena deixou-me inoperante. Por isso sonho.

Imagem: My little birds