Súplica

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Espera, não vá

O dia não clareou e o galo da vizinha ainda nem cantou

Mantenha-me aquecida

Volte a encostar seu hálito quente em meu pescoço,

relaxe

Sussurre que sou cheirosa e macia

Confesse ao pé do ouvido que valho a pena

Sabes o quanto sou insegura-

Fique!

Ature-me um pouco mais

Sei que exijo sua atenção

Contudo, desdobro-me em muitas para teu prazer

O que fazer?

Anseio por seus toques. Para mim são vitais

Amo os momentos em que nos tornamos

animais

Coreografamos as preliminares

Insanos, nos devotamos, nos doamos,

não importa que para os vizinhos o que falamos

não tenha nexo

Entre galopadas, freios, gemidos e grunhidos

Nosso entendimento se faz

Nossos olhares – dois asteroides que se cruzam

e se reconhecem brilham

intensamente

como recompensa, ganhamos o ápice do prazer-

à dois, apagamos juntos

exaustos, suados, permanecemos colados –

derme contra derme

tal qual estrelas que morrem e continuam

a brilhar no universo sem fim

Assim somos, assim nos amamos, assim

nos encaixamos

Por isso, espera, não vá!

Fique um pouco mais.

Imagem: Pixabay

Estações

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Acordo primavera,

Alma florida, terra remexida

cheiro de novidade

Passo o dia exalando verão

Mãos quentes, sorriso luminoso,

olhos de tentação

A tarde baixa trazendo aroma de

café;

aspiro seu perfume que me leva à você

Forma-se tempestade

Fenômeno El Niño, viro geleira

enrigece meu coração;

Noite baixa com temperatura fria

encolhida na cama, aos poucos,

passa a tormenta; madrugada chega,

uma voz interna sopra na alma:

Alice, enfrenta!

Adormeço. Mais uma vez, despeço-me

da tua ausente presença. Amanhece.

Volto a ser jardim;

Floresço!

Imagem: Pexels

 

 

Perdas

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Parece

Que perdi a capacidade, pesa a idade

Perdi a sincronicidade com  esse mundo. Imundo.

Parece

Que desisti do amor

Relações emboloradas dão náuseas. Bebo sal de frutas.

Parece

Que a humanidade perdeu

o que tinha de melhor: sentimento

Hoje trazem no peito apenas um bloco de cimento

Parece

Que perdi de vez a fé. Enjoei até de meu amado café.

Nem água passa pela garganta

Que hoje não canta. Só lamenta.

Parece

Que não desejo mais viver nesse planeta.

Padeço.

Imagem: Danilo Martinis

Pintura poética

Autumn Rain

Pousa na sacada da janela, uma folha

amarelecida

caída da árvore que luta contra poluição do ar e fios

– que a sufocam.

Esquecida, é prenúncio do outono que

atrasado, reclama sua presença entre nós

O silêncio, cá dentro, dá o tom musical perfeito

para o encerramento do dia

Anoitece em Sampa.

 

Imagem: Google

Artesã

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Palavra

Parole

Word

Palabra

lavra

ideias

Para

pensar

Pensei

Achei,

Gostei!

Sorvi seu gosto

Absorvi os sentidos,

lidos…

Lapidei

Poli

Cortei

Transformei-as

num poema

Mas…

não sei

qual tema

colocar…

Volto a lavrar

Qual

palavra

usar?

Penso

Escrevo,

faço arte

com elas,

as palavras

sãs,

sã?

sou?

sou arte(sã)

Artesã

Ode a um mundo melhor

menina sonhando

Não. Hoje não desejo falar do corpo inerte do infante.

Por favor, pare. Não insista!

Prefiro falar dos que ainda terão alguma chance de vingar

Vivendo dia após dia, mesmo que em agonia, provando

Para esses “Doutos” da hipocrisia que vale a pena viver.

Falo dos que insistem em pular muros, quebrar amarras,

arrebentar suas cordas vocais, exigindo que os reconheçam.

Desejo ver loucos saindo às ruas, se permitindo abrir sorrisos

mesmo que diante do  pessimismo alheio,

Anseio ver germinar o canteiro dos desvalidos.

Sonho acordada com o dia em que uma multidão ressurja

arrebentando túmulos, rasgando suas roupas rotas,

abrindo o peito e extravasando a alegria em existir.

E que sua alegria envergonhe e intimide a quadrilha que rouba felicidade alheia,

Sonho com o dia em que verei ao lado deles, essa corja murchar provando

do próprio veneno e que suas carcaças caiam ao chão que se abrirá

sugando-os eliminando essa erva daninha do seio da sociedade.

E nesse dia, que felicidade!

Sonho! Porque sonhar ainda se pode, ainda é de graça

Não. Só por hoje não desejo falar do corpo inerte do infante.

Tal cena deixou-me inoperante. Por isso sonho.

Imagem: My little birds

Blue Moon

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Olhava aquela lua azul e perdia-se em

Lembranças…

Já havia se perdido em outros azuis

Tão imensos e profundos quanto a bela lua

Tão misteriosos quanto a dona da rua

Que nua, se mostrava sem pudores

toda sua beleza, nobreza

E ela ali, tonta de emoção sentia

Que assim como essa madonna lunar,

Aqueles faróis azuis que tanto

a iluminou, hoje aquece

Engrandece outros territórios

Fenômeno, o amor mudou

Saiu sem pagar aluguel,

Deixando apenas fel

E hoje, através desse Blue,

restaram somente

Lembranças…

Foto de Graziella Cannata

Em seu altar

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Pulso.

De segundo em segundo, latejo

Por entre as pernas, o desejo fala alto

Falo.

Tesão elevado a potência mil

Reviro os olhos, bicos entumecem

Almejo seu membro viril

Umedeço.

Passo a língua nos lábios, sugo seu lóbulo

Finco as mãos em seus cabelos

Arquejo.

Respiração alterada, pulsação descompassada

Em arcos fico, em arcos permaneço

De joelhos.

Louvando em seu altar, me perco

Sacerdotisa do amor, em suas mãos

sussurro línguas desconhecidas

Adormeço.

amanheço santa ensandecida

e murmuro agradecida:

Quero mais!

Imagem: Yooying.com