Beda 19 – Salv(oa)dor

Salvoador

de um povo oprimido

não reconhecido,

retumba o tambor

De um espírito forte

lutador, que rangeu de dor

nas senzalas de seu senhor

Quebrou grilhões, partiu

ainda não encontrou

nem provou seu valor

— Num lamento grave

foliões, sua o peito latejante

Seguem adiante, inovando

— passos

Nem Gabriela, nem Jorge

muito menos, Brown

O povo na rua

— clama

reconhecimento, respeito

Marias, Josés, Janainas,

tantos anônimos que

cedo, estômago vazio

— quando muito,

tapioca ou acarajé

Os estimulam a seguir

sobrevivendo, numa Salvador

árida, blue, suja, degradante,

No centro velho, ninguém se salva,

impera somente

ador.

Esse texto faz parte do b.e.d.a — blog every day august.

Participam Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia — Obdulio Nuñes Ortega

Imagem: acervo pessoal

Beda 3 – Muitos, nunca mais

Passei a noite em claro,

no escuro

com olhos estatelados

mirando o nada, fechados

para o mundo

os meses têm sido incômodos

movo-me, inquieta na paralisia

dos dias comandados pelo isolamento

lamento, a perda de tantas vidas

de nossas rotinas, de doces abraços, de hálitos quentes

hoje me irritei

com a felicidade alheia, escarrada

em minha janela

uma família brincando, a beira da piscina

cerrei a cortina, indignada

como conseguem sorrir

diante de tamanha dor?

sons uivantes rasgam a tarde

prenúncio de mais dissabor

e eles ali, sorridentes ao redor

da mesa farta de churrasco

recebendo a luz que o sol irradia

iluminando seus sorrisos de publicidade

odeio qualquer manifestação

de falsa felicidade

ofensa alheia, tal alegria desencadeia

um asco

engulo palavras em silêncio

praguejo a humanidade em fúria

alimentada pelo calor do final de verão

choro, pois muitos nunca mais

verão

nem luz, nem escuridão.

Esse texto faz parte do b.e.d.a — blog every day august.


Participam Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia — Obdulio Nuñes Ortega

Imagem: acervo pessoal

B.E.D.A. – Clausura

grilhões

impedem meu caminhar

rotina

me sufoca

mesmice laboral

ruína dos sonhos

planos esfacelados

de uma vida leve,

colorida

obrigações,

responsabilidades,

dívidas

transformam

ganhos em perdas

permaneço

nessa prisão

anseio sair

não sei

para onde ir

grito

por mudanças

não saio

do lugar

ralho

contra o sistema

contribuo

com passividade

falsa

sou

como todos

bulímica

mastigo

o dia a dia

não sinto

sabor

vomito

nada supre

a fome da alma

sigo

feito zumbi

nessa trilha

chamada vida

trago

dúvidas

vale a pena

prosseguir?

almejo

liberdade

só não sei

como ela é.

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

Peça quebrada

Abraço-me

tentativa de sentir a própria

solidão

Grito em meu mutismo

busca vã por

alguém

Me cerco por móveis

desmontados,

simbolizam meu interior

procuro solução para nova

montagem

Sou relógio faltando peças

Algo quebrado necessitando troca

Ouço um tic-tac confirmando:

existo!

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

Imagem licenciada: Shutterstock

B.E.D.A. – Descrença

O doce da rapadura é amargo

Assim como o amor day after

Seco, árido, vazio

Vazio são os diálogos soltos no ciberespaço

Muitos bits, raros momentos de sabedoria

não de bar mas, da vida

Vida rasa, falsa, frágil, empobrecida

Pobre de mim que suporto tanta mediocridade

Na minha idade, não tenho mais paciência

E a ciência? Perdendo tempo em prologar

essa merda de vida…

Báh!

Esse texto faz parte da blogagem coletiva “Blog Every Day April”. Participam também:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

 

Marulho

Navegar é preciso

viver não é preciso, dizia Pessoa

O que ele não soube, é o quanto amei navegar em seu mar

Corpo rígido a me levar em ondas intensas

A derramar em meu porto, seu prazer

Levando-me a esquecer a náusea de viver

em terra firme

Terapia da alma

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Quem sou eu?

No que me meta-morfoseei?

O que busquei nessa minha trajetória de vida?

O que e quanto conquistei?

E estas conquistas, foram coisas pelas quais

realmente sonhei, desejei?

Ou, simplesmente obedeci e aceitei o que a

sociedade impôs?

Sou feliz? Sou realizada? Estou em paz?

Quero continuar? Quero partir?

Quero calar? Quero falar?

Quero…

…Arrebentar os grilhões que me prendem

à situações cômodas mas prisionais

Cansei dessa máscara de boa moça

Nem vinte anos tenho mais

Chega de baixar a cabeça e dizer “tudo bem”, “Amém”

Não sou boba, muito menos demente,

Não minta!

Jogue na minha cara que não sirvo mais

à essa engrenagem ressequida

Chute minha bunda mas faça com dignidade, com verdade!

Liberte-me dessa rotina para que – mesmo chorando –

o não reconhecimento,

me possibilite trilhar o passo

para me Re-

Inventar.

 

Imagem licenciada: Shutterstock

Presságio

Protegida da chuva

pelo alpendre – em seu terraço,

a dama observa

Pedestres passam apressados

numa única leva

Zumbis

Ninguém a vê. Nem mesmo

a equipe da TV – que ali,

grava pegadinhas para

programa de humor

A dama, que a tudo observa,

deixa uma sombra baixar

em seu sereno olhar

– por hora, preocupante

Sabe que em breve tudo mudará

O perigo se aproxima

não tardará

para que vidas inocentes

– crianças e idosos perecerão

E não haverá rima possível

que combine com esse final

O embate, somente ela sabe,

será mortal.

 

Maturação

pilatesroseli

Observar a juventude se esvaindo

Manter a mente e espírito jovem

Não  infantilizada

Remoçada nas linhas de raciocínio

Ar refrescado por novos aprendizados,

experiências, vivências

Permitir-se.

Envelhecer é voltar as costas ao novo

ao não testado.

Envelhecer, é voltar-se para dentro das entranhas

e nela – deixar-se apodrecer pela inércia

Percebo meu corpo perdendo a

elasssssssticidade

A derme ganha dia a dia flacidez

Luto para manter a postura reta

envergar, somente a alma para alcançar o inalcançável

Pilates, Yoga, meditação, alimentação natural

Num mundo de industrializados, mantenho meu

foco na terra, no adubo, na criação da natureza

Essa é a verdadeira beleza!

Hidrato a pele e, em contrapartida,

ela ganha manchas senis

Teimosas, desejam demarcar território

provando que muito vivi