As horas estão escritas num futuro impossível

Cara mia,

Hoje despertei na cidade de Oz, pensando sobre o que escreveria para você. Temos tanto em comum e ao mesmo tempo, vivenciamos coisas tão distintas que reflito: essa diversidade me acrescenta muito!

Desde que te conheci lá…nos idos do Blogger, quando ainda alimentava meus filhotes Sonhos e Melodias e Bibliotequices e Afins, aos poucos, passei a te admirar. Como me arrependo dos inúmeros convites para participar de seus jantares literários. Mas tudo tem seu tempo e eu aprendi e continuo aprendendo com você. Sinto acima de tudo, gratidão por abrir seus braços e me aconchegar em seu valioso e restrito grupo de amigos. Sim, porque hoje sinto que somos amigas, parceiras de escrita e de vida.

Não sei me aventurar muito na poesia portanto, abstenho-me da tentativa por aqui. Acabei de passar um café e, na solidão abençoada de meu apartamento, escrevo essa carta abrindo meu coração e minha mente.

Essa semana não deu mais uma vez para nos encontrarmos. Não fiquei triste mas já antevejo nosso encontro regado a um café ou chá que perfume nosso espaço, onde traçaremos muitas conversas literárias e do dia a dia afinal, quando pensamos que as horas estão escritas num futuro impossível, garanto que para nós, isso não existe. Carregamos a essência de escritor que pode transformar e criar tudo o que desejar bastando abrir a mente para vivenciar uma história na qual tudo podemos. Lá, somos Deus e criaturas. Impossível? Essa palavra não faz parte de nosso vocabulário.

Daqui, mirando a paisagem urbana carregada na paleta cinza de um dia frio, observo e sinto o perfume de mais uma leva de pão de queijo crescendo dentro do forno quentinho. Ah, como gosto disso tudo. O simples é o que me alimenta.

Saboreio mais um gole de nossa bebida cafeinada e despeço-me com a pergunta para se pensar durante a semana: Nos veremos essa semana?

Beijo e um abraço carinhoso cara mia

Este texto faz parte das Missivas de Primavera. Estão comigo:

Lunna GuedesMariana GouveiaObdulio Ortega NuñesSuzana Martins

6 on 6 – Crepúsculo

Instante que dura tão pouco e que, no entanto, é um dos mais belos que se apresenta às nossas tão cansadas retinas.

Criança, gostava de observar o céu e, mesmo sem entender, sabia que ocorria alguma espécie de magia. Agradava saber que a vida não era somente em preto e branco. O que também carrega certa beleza mas, o conjunto de cores quentes que esse momento tinge o céu, me aquece intimamente. Até hoje gosto da sensação.

Percorrer a praia nesse exato instante, sentindo a maresia que chega em forma de afago, é uma das experiências que mais me agrada. Mirar a paisagem, sentir o calor mesclado com o sopro suave do vento, as narinas absorvendo os cheiros que o mar nos envia. Libertar a mente das preocupações mundanas

Tais instantes despertam minha imaginação. Passo a criar roteiros das vidas anônimas que mes olhos registram, juntamente com o clique de uma foto eternizada.

Compreender a mensagem silenciosa da natureza que reina sem nos impor nada. Apenas segue seu caminho deixando claro, que a luz do dia adormece para nós, para poder iluminar outros seres do outro lado. Isso é a verdadeira democracia: luz, calor, energia para todos. Esse é o ponto exato do equilíbrio. Nós humanos é que precisamos assimilar e aceitar os seus sábios conselhos.

A natureza utiliza a criatividade como ninguém. Sabe criar roteiros inovadores a cada encerramento da luz solar sem jamais nos deixar enfadonhos diante de tamanha beleza. Nunca me canso de apreciar os diversos nuances de cores e movimentos.

Após um descanso à tarde e um banho refrescante, sair para percorrer a orla que ladeia as praias, se integrando por completo à paisagem. Deixando de ser alguém para ser parte de algo maior.

Desconfio que o ser urbano que me habita, anda desesperada para integrar essa paisagem e absorver a luz que esparrama no mar. Posso sentir o cheiro, os sons, o vai e vem das ondas orquestradas por algo maior que nos mantém vivos. Fecho os olhos e me transporto para essa praia, desviando dos diversos turistas e colocando devagar meus pés descalços na areia ainda morna, até chegar a àgua salgada que me brinda com as suas espumas. Batizo novamente meu ser na água benta que, mesmo poluída por nós, recarrega meu ser de uma energia que a cidade envolta em toda sua brutalidade e secura me retira.

Esse texto faz parte do Projeto Fotográfico 6 on 6. Fazem parte dessa blogagem coletiva:

Darlene Regina – Isabelle BrumLunna Guedes –  Mariana GouveiaObdulio Nuñes Ortega

Imagens: Arquivo pessoal

6 on 6 – Mas é Carnaval!

Trago boas lembranças do Carnaval em minha infância e pré-adolescência. Confesso: fui foliona, daquelas que não perdia as matinês do finado Clube Cobraseixos, que ficava de frente à minha casa. Tardes na bagunça boa, participando das correntes humanas que percorriam o salão ou, pegando confetes e serpentinas do chão e jogando em quem passasse por perto. Fiz muitas amizades por lá.

Na minha juventude, criou-se um hiato onde me afastei dos salões devido a violência e falta de respeito que passou a ser comum. Sempre acompanhei os desfiles das escolas de samba pela TV. Verdadeiros shows.

Em 2018, ao lado de meu amigo – parceiro de inúmeras viagens – conheci Salvador e lá, passei alguns momentos bem agradáveis no museu Casa do Carnaval. Com curadoria de Gringo Cardia, a casa oferece uma viagem sensorial e visual que encanta aos visitantes. Se for a Salvador, não deixe de conhecer esse museu, mesmo que não seja folião, vale a pena conhecer.

Essa foto acima, é o registro de minha última ida a um salão para brincar o Carnaval. Foi em 2020 e pulei como se não houvesse amanhã. Literalmente, suei a camiseta, saí com confetes grudados pelo corpo. De certa forma, foi uma despedida. Logo em seguida, foi decretado quarentena que se estendeu para o resto do ano e mudou a vida de todos, devido a pandemia do Coronavírus.

Em 2022, retorno à folia. Dessa vez, devidamente vacinada, troquei a máscara, maquiei os olhos, coloquei uns balangandãs e declaro a quem possa interessar que meu cordão de um, será dentro do apê. Não dá pra facilitar não!

…Na mesma máscara negra

Que esconde teu rosto

Eu quero matar a saudade…


Esse texto faz parte da blogagem coletiva Projeto fotográfico 6 on 6 promovido pela Scenarium Livros Artesanais.

Participam:

Darlene Regina – Isabelle Brum – Lunna GuedesMariana GouveiaObdulio Nunes Ortega

Imagens: Acervo pessoal

6 on 6 – Ho Ho Ho

Vasculhando fotos de reuniões antigas, ficou difícil selecionar as que fariam parte dessa postagem. São tantos momentos que marcaram e se transformaram em doces lembranças natalinas. Parece que, ao escolher, as que ficaram de fora, não tiveram importância. Mas, ao contrário, todas foram registros de momentos muito especiais.

Momento registrado do Natal de 2007, ano em que minha família se mudou para a casa nova. Foi um misto de emoções. Sair da casa onde nasci e me criei. Lar que me forjou, paredes que presenciaram risos e lágrimas de uma menina sensível. No olhar, a expectativa do que viria a partir dali.

A biblioteca onde trabalhei por vinte e cinco anos, possibilitou muitas fotos nos finais de ano, onde a equipe se reunia para celebrar mais um ano a se encerrar e também para a troca de presentes do amigo secreto. Houve de tudo: momentos de espontânea alegria, situações desagradáveis afinal, o ser humano é complexo e nem sempre as coisas saem como planejamos. Mas, apesar dos pesares, as festas de finais de ano sempre me alegraram. Acima, eu no ano de 2014, fazendo pose.

Passear na Avenida Paulista no mês de dezembro e sentir a energia HoHoHo, do bom velhinho, sempre foi programa para mim. Na foto acima, eu posando ao lado do painel de fim de ano em frente ao Center 3. Isso, no ano de 2015. Tarde deliciosa!

Essa foto foi o registro de um passeio delicioso, ao lado de meu irmão e cunhada, no Natal Iluminado no Céu Sagrado, em Sorocaba, em 2016. Inesquecível!

Do mesmo ano, o click do almoço natalino em família. Alegria e certa melancolia em ver titia Irene, em nossa companhia, ainda gozando de saúde.

Tenho um olhar e um sentimento especial para essa foto. Primeiro, porque essa árvore de livros, foi feita por mim. Realizei um sonho de fazê-la na biblioteca. Foi um sucesso! Foi minha última foto natalina retirada lá afinal, em dezembro de 2020, já não fazia mais parte da equipe da biblioteca e devido a pandemia, não houve comemoração.

A vida passa, as pessoas surgem e partem, deixando um vazio que são preenchidos pelas inúmeras vezes em que olhamos e voltamos a viver esses momentos que se eternizaram numa fotografia.

Esse texto faz parte da blogagem coletiva 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais

Fazem parte dessa blogagem:

Lunna GuedesMariana GouveiaObdúlio Nuñes Ortega

Fotos: acervo pessoal

6 on 6 – Vistas

Já tive meus momentos de sair com uma câmera fotográfica em mãos, e fotografar tudo o que meus olhos captavam. Com o passar dos dias, meses, anos, deixei a máquina perdida na gaveta e o smartphone ganhou espaço em minhas mãos e olhos para registrar momentos, pessoas e situações interessantes. O medo de assalto fez eu perder esse hábito. Que pena…Deixei de registrar muitas coisas legais mas, ainda tenho muitas fotos arquivadas. São registros de meu olhar, do que compreendo e transformo em algo real ou irreal.

Em minhas viagens (que saudades!), o que mais gosto é a primeira impressão causada ao olhar da janela ou varanda do quarto de hotel, o que se descortina às minhas cansadas mas ainda curiosas retinas. Observar a paisagem a ser desbravada e conhecida. Sentir o ar, os cheiros, o novo. Depois, sair para caminhar a pé e conhecer de perto a cidade que me acolhe.

Olhar para essa imensidão de água, reverenciar a natureza e tudo o que ela nos oferta, sentir o cheiro salgado que vem dele e se embriagar de tamanha beleza. Nas águas da ilha de Itaparica, encharquei a alma e reconheci minha pequenez.

Num passeio solitário, em Paraty, a caminho da praia de Jabaquara, encontrei essa pedra curiosa e não resisti, registrei e ri muito. No meio do caminho tinha uma pedra… Pedra? E desde quando pedra tem rosto?

Esse clique foi de uma estadia na cidade do Rio de Janeiro, visita ao Museu da República. Frase que ainda permanece atual…Infelizmente.

Em minha urbanidade, sempre gostei de apreciar a arquitetura e suas linhas. Numa visita à Biblioteca Parque Villa-Lobos, passei minutos em silêncio, absorvendo sua beleza e o que tem a oferecer: leitura, lazer, conhecimento. Quero voltar lá!

Quinta-feira passada, acompanhei minha irmã até a Santa Casa de Misericórdia e, enquanto ela fazia um exame, saí para dar uma volta nos jardins e registrei essa beleza em meio aos conjuntos de tijolos em estilo gótico.

Sempre encontro a paz em meio a isso tudo!

Esse texto faz parte do Projeto Scenarium 6 on 6

Participam: Lunna GuedesMariana GouveiaObdulio Nuñes Ortega

Imagens: acervo pessoal

Beda 29 – Não sei se irá chover ou não

Querido amigo,

Enquanto aguardo a água ferver, cutuco o canto da unha. Hábito que carrego desde pequena quando algo não me agrada ou preocupa.

Saio de perto do fogão e sigo para o quarto. Abro e fecho gavetas. Organizo o que já se encontra organizado. Aliso os lençóis e fronhas. Acaricio as toalhas de banho e rosto.

Ao fechar a porta de correr do armário, pelo espelho, vejo o reflexo do vaso de lírio da paz. Preciso dar mais atenção à ele, que anda se sentindo solitário. Murcha a cada dia. Nunca mais floriu. Dizem que ele capta a energia ruim do ambiente. Serei eu, a culpada por estar definhando?

Meus olhos são desviados para o vaso de violetas que não para de florir, ao contrário do lírio. Suas folhas aveludadas e carnudas, saltam para fora do vaso. Lembro que preciso replantar algumas mudas em outro vaso, mas como sempre, deixo para depois.

Volto para a cozinha e desligo a jarra elétrica. Enquanto deito a água fervente na xícara, o perfume do chá de jasmim, envolve minhas narinas que se abrem em aprovação.

Sobre a mesa da sala, um bloco e caneta esperam pacientemente, eu terminar meu ritual, antes de sentar e escrever.

Bebericando o chá, abro as cortinas, recebendo a luz do dia que se encontra em matiz cinza. Hoje, nada de sol.

Lembra quando fomos juntos na excursão do cursinho para Paraty? Que aventura!

Tempos em que nossa única preocupação era ser feliz. Ríamos tanto… Tudo era motivo para risos. Lembra do passeio pelo centro histórico? Recorda o tombo que sofri naquelas pedras malditas? Arrancou meu couro do joelho que sangrou horrores. Em sua tranquilidade, se ajoelhou ao meu lado, tirou um lenço do bolso de sua bermuda e delicadamente, assoprando com suavidade, estancou o sangue. Sem pressa.

Em pleno calor de 38 graus, tive calafrios, sentindo suas mãos em minha perna. Naquele momento de dor, senti desejo de alcançar sua boca e me deixar perder dentro dela. Mas foi tudo bem rápido. Da mesma forma que surgiu, sumiu aquela vontade de te ter ao meu lado não como um amigo/irmão, mas como homem.

Nem sei porque fui lembrar disso agora. Desculpe-me. Não quero causar constrangimento. Nossa amizade valeu muito mais que esses pequenos tesões da juventude. Desde que casou e partiu para o exterior, nunca mais soube de você. Mantenho sua página pelo Facebook mas nem entro para espiar suas experiências, suas conquistas, sua felicidade.

Só sei, que de tempos em tempos, sinto sua falta. Sua presença espirituosa e sábia deixou um buraco jamais preenchido. Nesses anos, fiz muitas amizades, alguns namorados, paixões desvairadas mas, igual a você, nenhum passou nem perto.

Rasgos no céu indicam possível temporal. Não sei se irá chover ou não. Aqui, algumas gotas salgadas indicam que por horas, haverá tempestade de saudade.

Engulo a bebida quente, rasgando mais uma carta que jamais receberá.

Esse texto faz parte do b.e.d.a — blog every day august.

Participam : Claudia Leonardi  – Lunna Guedes – Mariana Gouveia — Obdulio Nuñes Ortega

Essa carta faz parte do Projeto 52 Missivas – Scenarium Plural Livros Artesanais

Imagem: acervo pessoal

Desafio de Fevereiro – Decifre a equação

Mês de fevereiro iniciando com a aceitação de um desafio lançado por nossa editora Lunna Guedes, da Scenarium Livros Artesanais.

Posso discorrer sobre o cenário externo, descrevendo paisagens naturais ou urbanas ou, mergulhar fundo nas crateras internas das emoções, sentimentos que todos carregam durante suas vidas. Garanto que se mostram paisagens únicas onde fazemos surgir cavernas, labirintos, mares profundos onde muitas vezes, não temos coragem de entrar e permanecer. Criamos cenários áridos, estáticos, sem uma brisa para acalentar tamanha falta de algo que torne nossa existência menos amarga. As personagens dessa obra são exemplos desses cenários íntimos, por vezes, perturbadores. Contudo, suas histórias não contam apenas situações tingidas por melancolia e tristezas afinal, a vida não é somente isso. Somos uma somatória de movimentos onde a cada instante, estamos numa casa. Ora dominamos, ora somos dominados e por fim, a vida nos dá um xeque-mate.

Esses trechos fazem parte do meu livro Equação Infinda, livro artesanal lançado pela Scenarium Livros Artesanais

 

Imagem: Pinterest

Imagem: Pinterest

Imagem: Pinterest

 

Sim, eu escrevo diário

Comecei com essa brincadeira séria, por volta dos doze para treze anos. Virou febre entre a meninada assim como aqueles questionários que respondíamos e repassávamos.

Tomei gosto. Escrever sobre meu dia e o que acontecia, passou a ser um exercício que me acalmava, dava prazer. Contudo, sempre escrevendo sorrateiramente para que ninguém descobrisse. Nas páginas do caderno que adotei como diário, despejava minhas nuances mais íntimas que não revelava a mais ninguém.

Até que um dia, tornei-me adulta e a vida repleta de responsabilidades, tirou da minha rotina o prazer da escrita. Décadas mais tarde, retornei ao exercício de escrever. Diário nunca mais. Permaneceu no passado.

No início desse ano, recebi a proposta indecente de boa, de Lunna Guedes, para participar do projeto 4 Estações, em forma de diário.

Foi um prazer voltar a esse formato de escrita. Contudo, não escrevi minha rotina. Dei espaço para que três mulheres confiassem em mim e registrasse suas vidas, mazelas, conquistas e perdas. Fui apenas o fio condutor delas nessa história que, em breve se materializa num livro físico: Equação infinda.

Lançamento: 28/11/2020,

Local: Facebook pela página da Scenarium (ao vivo)

Horário:  17h (horário de Brasília).

Imagem licenciada: Shutterstock

Orexia

birdandreareiman.jpg

Mastigo de forma mecânica, meu sanduíche de peito de peru defumado e mussarela, acompanhado de sentimentos extensos de medo, salpicado com pitadas de desconfiança, alguns grânulos de autossabotagem e desilusão. Engulo nacos bem mastigados e deixo descer a seco. Sem coca-cola, nem suco, amaciado pela saliva raivosa de saber-se fraca, humana. Nunca imaginei que ser gente fosse tão sofrido. Se houver uma próxima existência, juro, desejo vir  na leveza de um beija-flor.

Imagem: Stocksnap