Se eu sei alguma coisa?

A dúvida entre ficar no lugar possuída pela paralisia e o ímpeto de sair correndo é a mesma. O que faço? Bailo pianinho, hora dando passadas miúdas de gueixa, ora me arriscando em passos ousados de dançarinos de tango. Assim prossigo. É certo que diante do inesperado ou desconhecido, finjo-me de Inês é morta e aguardo pacientemente a tormenta passar.

Enquanto espero, jogo cartas ou xadrez com o destino. Brejeira, solto meu charme sedutor para ganhar tempo e mudar minha rota, caso seja incerta ou infeliz. Às vezes saio no lucro, outras, nem tanto e em muitas, quebro a cara. Levanto, limpo as feridas e sigo em frente.

Se me perguntam se tenho uma fórmula para viver, nego e respondo que para viver, não existe fórmula ou equação. Viver, requer vontade e uma boa dose de resiliência, ou quem sabe, teimosia. Acrescentada de uma pitada de loucura sem esquecer que alegria é fundamental para a travessia. Ih…. Acho que sem querer tracei uma fórmula do bem viver! Siga quem achar pertinente ou, quem estiver mais perdida que eu.

Imagem gratuita: Pexels

É preciso estar atento e forte…

Final da tarde de ontem, a caminho do metrô, presenciei uma das cenas mais bizarras e triste. Caminhava tranquila após um dia de trabalho exaustivo quando observei uma ação que chamou minha atenção e de todos que por ali circulavam. Um jovem casal passeava com seu cãozinho quando, de repente, sua dona vociferou contra uma senhora de meia idade que passava. Não contente, a moça iniciou um surto entre gritos, agressão física que foi impedida pelo companheiro que a todo custo tentava contê-la sem obter muito sucesso. A jovem gritava: Sua vaca, você chutou meu cãozinho! A senhora, acuada, tentava sair do campo de ataque e aos poucos, os pedestres e pessoas do comércio local formaram uma rede de proteção tentando trazer a moça à razão. Os mais assustados pelo que observei foram a senhora, vítima do ataque e o próprio cãozinho que preso à coleira, também estava sendo vítima. Em seu surto, ela segurando a coleira, empurrava o cãozinho pra lá e pra cá deixando-o confuso. Lamentei e prossegui antes que sobrasse para mim também.

Ao chegar a estação do metrô, logo que passei a catraca e estava prestes a descer a escada, um funcionário do metrô abordava um usuário sobre o uso da máscara. O rapaz dizia que não tinha máscara e aí começou outra cena de descontrole. Outro rapaz interviu e aí o funcionário perdeu de vez o controle. Aiaiai! Pensei comigo, outra cena. Isso já está começando a banalizar e isso não pode se tornar uma constante.

Mais tarde, na saída do prédio onde faço pilates, eis que outra cena de descontrole emocional. Agora, um homem de cerca de seus quarenta/cinquenta anos, esbravejando aparentemente com um inimigo oculto. Compreendo que todos passamos por momento de muito desgaste físico e mental devido a todo quadro econômico e de saúde pública que vivenciamos desde 2020. Famílias inteiras tentam infrutiferamente administrar perdas humanas e materiais. Mais que isso, a perda da dignidade tem ganho terreno em meio a miséria. Testemunhar o descontrole emocional de um ser humano, está cada dia mais comum em nosso cotidiano. Infelizmente. E isso, nós que ainda mantemos um pouco do equilíbrio mental/emocional, precisamos cuidar para que essa não seja nossa próxima pandemia.

Imagem gratuita: Pexels

Aos cuidados do meio-dia…

Banho tomado, óleo distribuído pelo corpo, por hora, uma seda. Ajeita os cabelos num penteado despenteado, para ele desarrumar. Gosta de observar o prazer surgir na dilatação da íris do olhar amado. Verdes com pinceladas de marrom. Olhos de gato. Tem por hábito, felinamente, se aproximar, subir nela, dominando a cena e sua atenção. Em resposta, ronrona e suspira quando o hálito quente se aproxima de sua nuca, causando arrepios ininterruptos. A música deles impera no recinto, enquanto a coreografia se inicia, tornando-se mais rápida. Urros roucos de ambos se misturam à sedutora rouquidão de Seal

Na cama corpos ardentes, sobre o aparador, velas aromáticas de cereja e avelã se consomem, espalhando um perfume sensual. Quando se encontram, é como se fosse a primeira vez. O tempo não arrefeceu a atração de ambos.

Há dezoito anos, encontro marcado. Sempre no meio do dia, dois ponteiros se superpõem. Lá fora, barulho de buzinas, gritaria das crianças na saída da escola, conversas das babás e mães, do pipoqueiro estourando o ouro que paga as contas do mês.

Na penumbra do quarto, esparramados no leito, ressonam suave. Ele, nu em pelo, ela, coberta apenas pelo lençol de rendas do prazer, jorro do homem que ama.

Esse texto faz parte da blogagem coletiva Blogvember. Participam comigo: Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Nuñes Ortega – Suzana Martins Imagem gratuita: Pexels

Queria ver se chegava por extenso, ao contrário

(Helder)

Diminui diante de tamanha força e beleza. Não tive reação, não consegui expressar palavra.

Paralisei envolta pela brisa perfumada que se formou, assim que volitou em minha direção.

Seu perfume fixou na epiderme cansada de quem já não esperava nada da vida.

Um único encontro. Mais certo dizer um único cruzar de caminhos e, bastou.

Foi o suficiente para mudar a rota de uma existência errônea.

Segui, não olhando para trás. Jamais pensei em voltar e te procurar, tentar contato, te conhecer.

Preferi o colorido da fantasia que te torna perfeito, sem falhas, justo. Um deus!

Esse texto faz parte da blogagem coletiva Blogvember. Participam comigo:

Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Nuñes Ortega – Suzana Martins

Imagem gratuita: Pexels

Aprendi com as palavras o que eu não consegui com as asas: voar!

(Suzana Martins – (In) Versus)

A antiga sabedoria popular afirma que ninguém nasce pronto. É fato. Sou exemplo de que isso é a mais pura verdade. Nasci com todos os defeitos que um ser humano pode carregar em sua bagagem temporária. No decorrer da vida, no escoar das décadas, aprimorei quase todos eles. Só não me avisaram que era para limá-los e não acentuá-los. Desculpem-me. Em minha defesa digo que a falha não foi minha, mas sim, de quem me (des)orientou.

Rolando feito pedra solta do penhasco, o atrito me moldou, ganhei formas arredondadas, tornei-me macia como bumbum de bebê. Aprendi aos poucos a falar e, em seguida, as letras que brincavam no ar, me desafiando a decifrá-las. Símbolos desconhecidos que muito me fizeram sofrer por não os compreender. Burra não sou. Marrenta, dediquei uma existência para assimilar e nunca mais esquecer. Aprendi! Vivia pelos cantos dizendo em voz alta que era “alfabetizada”. Tornou-se meu mantra.

A realidade impunha desafios. Resiliente, me jogava de cabeça em cursos e especializações. Muitas leituras técnicas.

Frustrada, não conseguia entender a prisão que me mantinha imobilizada. Depois de muita resistência, fui em busca de apoio profissional. A terapia descortinou um mundo desconhecido até então. O despertar para mim mesma, fazer as pazes com meu interior, meu passado, meus antepassados. Todas essas descobertas desembocaram na técnica da escrita. Fui apresentada à escrita matinal. Esse foi o primeiro passo para a liberdade total. As primeiras escritas saíram rígidas, tímidas, pequenas.

Mais confiante, desfiava meu cotidiano, minhas rotinas, meus sonhos e anseios. Registrava meus medos, agora, sem medo. Fiquei sem vergonha. Facinha, facinha.

As palavras, sábias que são, tiveram a paciência de esperar meu amadurecimento natural. Jamais me forçaram nada. Hoje, somos parceiras e unidas, percorremos histórias, situações, escolhemos roteiro de viagem. Como um par de dançarinos afinados, um espera o outro para dar a passada correta, em sintonia. Se estou com a mente cansada, as palavras aguardam em silêncio. Não me pressionam. Caso eu me depare com ideias para uma boa história, de imediato elas saem da caixa da criatividade pulando como pipoca na panela quente. Soltam risos agudos de criança feliz e vêm ao meu encontro. Brincamos, voamos alto em nossas aspirações literárias e o resultado, cada vez mais satisfatório.

Hoje brinquei bastante, a mente limitada grita que está na hora de parar e descansar. Elas compreendem e, despedindo-se, somem no ar, aguardando o amanhecer, para que desperte renovada e as convide para novas incursões. Hora de apagar a luz e dormir.

Esse texto faz parte da blogagem coletiva Blogvember. Participam comigo:

Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Nuñes Ortega – Suzana Martins

Imagem gratuita: Pexels

Entalhadas nas nervuras do corpo ser — semente — flor

(Nirlei Maria Oliveira, As estações)

Sou povoada por

— palavras

Percorrem a corrente sanguínea, inundam meu

— cérebro

Passeiam pelas retinas,

Se metamorfoseiam em

— saliva

Alimentam minha boca,

Aberta, inundam meu

— exterior

Sou pá, cavouco,

Sou lavra, trabalho, entalho

— Ideias

Nas dobras, se aquecem, aguardam

a hora certa de 

germinar.

 

 

Esse texto faz parte da blogagem coletiva Blogvember. Participam comigo:

Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Nuñes Ortega – Suzana Martins

Imagem gratuita: Pexels

A carta foi escrita com os espinhos que ninguém plantou

(Mariana Gouveia – As estações)

Janelas cerradas transforma o ambiente do escritório em uma câmara abafada. Somente a luz fraca de uma luminária sobre o papel de carta decorado, ainda em branco. Mãos nervosas se mexem, limpando um pó inexistente do tampo da mesa. Inquieta, se levanta, ajeita o excesso de tecido que forma a saia de seu vestido. Percorre a sala olhando para todos aqueles volumes de livros que compõe o ambiente mais querido de sua casa. Sua cela de luxo, refúgio das frustrações, das frases não ditas, dos olhares não mais trocados, dos silêncios gritantes.

Volta a sentar, se apruma mantendo a postura ereta . Com delicadeza que lhe é peculiar, pega a caneta tinteiro e tenta iniciar o texto tanto tempo ensaiado. Para no meio do caminho e uma dor fina se espalha por seu peito preso. Arfa por liberdade. Cada célula de seu corpo clama por ela. Não nasceu para ser dama da sociedade, representar o tempo inteiro uma falsa felicidade, imagem e reflexo da hipocrisia que todos vivem. Ela deseja mais que aquilo. A rotina doméstica, a solidão de uma dona de casa não lhe cabe.

Abaixa o olhar e percebe que a caneta vasou tinta por sobre o papel formando uma poça escura. Perfeita abertura representando o desconhecido. Sorri diante da ideia recém-nascida. Abandona a caneta e a sala. Horas depois, retorna. Cabelos soltos, calça comprida de seu marido, camisa solta que realça os seios libertos. Nós pés, um par de botas. Nas mãos, duas maletas pequenas que são temporariamente repousadas no chão enquanto rabisca apressada, no mesmo papel manchado a frase:

Prezados, cansei! Favor não me procurar pois não mais encontrarão quem um dia fui..

Esse texto faz parte da blogagem coletiva Blogvember. Participam comigo:

Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Nuñes Ortega – Suzana Martins

Imagem gratuita: Pexels

Coração transplantado procurando resquícios do que já foi humano

(Lua Souza)

Já fui bad, já fui boy. Hoje sou outro ser. Percorro corredores dentro de mim, no afã de ser apresentada a esse novo ser que habita em mim. Confuso? Também acho mas, posso explicar. Senta que a história é longa.

Meu avô sempre dizia que a vida é insana e que devemos ter olhos e espírito atentos, pois situações se apresentam que nos tiram o chão. Achava exagero da parte dele, respeitava por ser senhor idoso e um ser humano muito fofo. Nasci numa família abastada que, após negociações mal estudadas, perdemos boa parte da fortuna passando a sobreviver de aparências. Em pouco tempo, minha personalidade pendeu para a manipulação. Tudo em nome de garantir meu bem estar. Acreditava que esse era um excelente argumento. Em nome dos privilégios que ansiava obter, passei por cima de muitas pessoas, ganhei um fã-clube que competia com a galera da Gaviões. A cada dia crescia mais. Quebrei muitos corações femininos. Sabia ter bico doce e dizer o que elas queriam ouvir. Nunca foi sacrifício afinal, apreciava o jogo da sedução.

Ao completar quarenta anos, sofri um grave acidente. Por pouco não morri. Meus companheiros de viagem não tiveram a mesma sorte. Morte imediata. Passei meses em hospitais, correndo risco de ficar paraplégico. Após dois anos, totalmente integrado a rotina de trabalho, viagens, prazer, sofri um primeiro infarto. Mais dois seguidos, me nocauteando na lona da vida. A sentença veio à cavalo: ou você recebe um coração novo ou não vive até o final do ano.

A revolta quase se transformou na pá de cal sobre minha existência. Era energia negativa demais num coração craquelado e frágil. Num momento de crise, levaram-me às pressas para sala cirúrgica e, trataram de trocar a peça avariada por uma que batia numa sonoridade que dava gosto. A cirurgia foi considerada um sucesso. A equipe médica vinha ao quarto com sorriso e brilho no olhar de profissionais vitoriosos. Jogavam sempre para ganhar e por isso, ganharam minha saúde numa cirurgia considerada de alto risco. Minha recuperação vou se materializando trazendo aos holofotes da vida, um ser humano diferente daquele que dera entrada numa emergência. Uma paz de espírito que não conhecia, aos poucos foi se instalando e passei a olhar para todos com mais atenção, gentileza. Era só sorrisos e mansuetude.

Mudei. Recuperada, tornei-me caseira. Sentia prazer em permanecer horas cuidando do jardim da mansão, conversava com o jardineiro, seu Benedito, que passou a ser íntimo da casa tomando café da manhã e almoçando ao meu lado. Aprendia a cada dia nova lição ao lado desse ser iluminado.

Minha mansão, antes cercada por cristais murano e pratarias frias, hoje é um reduto de calor humano. Passei a receber pessoas, a distribuir carinho, a ser boa ouvinte e, em troca, recebo em dobro algo que o dinheiro jamais havia comprado: o amor genuíno de seres humanos de verdade. Família não entendeu e se afastou de mim. Segundo eles, ao sofrer acidente, devo ter batido a cabeça e ficado pinel por ter mudado tanto.

Após muita conversa com seu Benedito sobre meus sentimentos atuais, contratei um detetive para descobrir a identidade de quem me doou o coração novo. Sabia que ali se encontrava a chave de minha mudança radical.

Os que ainda me odeiam, espalham por aí que minha transformação é castigo divino por tudo o que fiz no passado. Para mim, foi benção. Hoje, tenho uma família verdadeira e sou recebida com respeito, afeto, carinho legítimos. Herdei o orgão vital de Dalila, uma travesti famosa por ter um coração de mãe com todas as profissionais que viviam ao seu redor. Ao descobrir, fui visitá-las e após primeiro momento desconcertante, nos reconhecemos mutuamente. Na empresa, ainda preciso mostrar meus dentes alvos para me fazer respeitar por aqueles trogloditas de terno e gravata. Sou toda riso fácil, abraços e ombro amigo, com as secretárias executivas e demais meninas que compõem a área administrativa. Ano passado, fui aclamada como a empresária do ano e durante discurso, expressei ser grata a Deus pela chance dada de reiniciar uma vida mais humana, com coração embebido no amor de uma mulher de verdade.

Esse texto faz parte da blogagem coletiva Blogvember. Participam comigo:

Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Nuñes Ortega – Suzana Martins

Imagem: Pixabay

Me despi de tudo desisti do arrependimento faria tudo de novo.

(Adriana Aneli)

Em meio ao sufoco de um vagão do metrô em pleno horário de rush, lembrei de como nos conhecemos. Reconheço que de imediato, pensei: se cruzasse com esse homem num bar, não olharia duas vezes.

A vida muitas vezes nos prega peça e ainda senta no camarote vip para rir da gente. Observando nós dois nesses anos, ela deve ter se divertido a valer com nossas idas e vindas, brigas quase toda semana, desaforos cruzados e calmaria por meses. Troca de carinho, conversas estendidas pela madrugada, promessas de nunca mais brigar. Bastava a rotina se instalar entre nós e…Começava tudo de novo…

Te abandonei inúmeras vezes, jurei pra mim mesma partir para outra, porque nosso lance já nascera condenado ao fracasso. Conheci outros corpos, você não fez por menos. Bastava eu te ver cercado por alguma “perua” e meu sangue fervia. Primeiro por orgulho de ter sido passada para trás. Depois vinha a raiva em ver que você havia me esquecido rápido. A seguir, a saudade e indignação de imaginar que ao seu lado estaria outra mulher e não eu. Você também teve rompantes ao me ver cercada por outros. Sendo cortejada, desejada, alvo do tesão de outros olhares masculinos. Isso feriu sua masculinidade. Senti prazer ao te ver sofrer!

Madura, tomei a iniciativa de procurar terapia. Foi o que me salvou. Trabalhei arduamente várias questões que me tornava infeliz, inclusive, esse sentimento alimentado por você. Não era normal. Numa dessas encruzilhadas da vida, tornei a te encontrar e dessa vez, foi diferente. Ambos estávamos ressabiados, sem graça, sem saber onde colocar as mãos, o que dizer, como dizer. Optamos por trocar apenas amenidades, perguntar da família, dos amigos, do trabalho evitando entrar em terreno pantanoso de nosso passado. Café tomado, troca de telefones (novos), desejo de felicidades e tchau…Até nunca mais!

Nunca mais brigas, nunca mais estresse, nunca mais ciúmes, nunca mais… Ai, assim também já é demais. Decidimos num acordo sem palavras, viver o resto de nossas vidas conversando muito, indo a cinemas, teatros, shows de cantores e bandas em comum e na calada da noite, assoprar as feridas ocultas que cada um carregava. Sexo? Nunca mais mesmo. Septuagenários, passamos mais tempo conversando e disputando quem tem mais dores pelo corpo e aconselhando novas terapias alternativas. Nunca mais perdemos tempo com tentativas vãs de contorcionismos exibicionistas da juventude. Chegamos ao ápice da maturidade e nos demos de presente a leveza de descer ao play para brincar, se divertir, azarar um com o outro e, ao término, trocas de beijinhos a distância afinal, vivemos em cidades e casa de repouso distantes uma da outra. Nosso caso poderia ter sido diferente? Pode apostar que sim mas, quer saber? Não nos arrependemos de absolutamente nada do que fizemos ou deixamos de fazer. Vivemos o agora e se o Todo Poderoso nos chamasse e desse uma nova chance, faríamos tudo igual só para podermos ficar como estamos agora, se divertindo criando avatar de nós mesmos e trocando mensagens: engraçadas, animadas, desbocadas.

Outro dia ele me fez rir muito mostrando suas pelancas, até passei mal e a cuidadora ralhou comigo. Comentou que estou ridícula agindo feito adolescente. Tive cólicas de tanto rir e fui parar no P.S. Ao ser interrogada pelo médico de plantão sobre o que causou a crise de riso, de olhos brilhando respondi: Doutor, o senhor ainda é novo. Rir é bom mas pode causar uma overdose e caso aconteça, deixe ela me levar porque morrer assim, deve com certeza deixar o caixão mais leve, quase uma pluma…

“Estação República, acesso a linha Verde e Vermelha”…

Moça, vai descer? Se não por favor dê passagem, credo parece que tá sonhando!

Esse texto faz parte da blogagem coletiva Blogvember. Participam comigo:

Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Nuñes Ortega – Suzana Martins

Imagem: Pixabay

Não dá para ser perfeito com defeito humano já vem ser: traço falho

(Rozana Gastaldi Cominal)

Em minha formação recebi o duro cajado da perfeição, que foi passado de geração para geração. Quanto estrago fez! Seres infelizes que carregaram o duro fardo de não falhar jamais. O peso de serem exemplos de bons seres humanos. Pessoas perfeitas, num mundo imperfeito. Resumo da opereta: muito sofrimento reprimido, imensas frustrações por não poderem expressar o que de fato pensavam e desejavam. Transtornos causados por um emocional não desenvolvido que culminou em doenças materializadas.

Para quebrar a corrente que me prendia a esse “pensar torto”, trabalho dobrado. Não foi fácil tomar a decisão de quebrar a algema que me impedia de ser eu mesma e não um simulacro do que desenharam lá no passado que nem vivi. As cobranças são muitas, as culpas maiores .

Precisei de ajuda profissional para me conhecer melhor e tomar a decisão de tomar as rédeas. Não sou mais criança e a vida adulta, cobra atitudes coerentes. Amadureci na marra.

No passado, sofri por exigir a perfeição em todos ao meu redor. Sofrimento maior foi a cobrança comigo mesma. Joguei a toalha e hoje, não exijo mais nada. Reconheço o limite alheio, respeito suas falhas e acima de tudo, procuro diariamente aceitar o pacote completo que sou: virtudes e falhas. São todos bem vindos. É obvio que trabalho dia após dia para superar aquilo que ainda incomoda. Os demais humanos, posso apenas lamentar pois sei o quanto suas falhas e imperfeições lhe causam dores emocionais. Hoje sei que não é problema meu…

Mas tem momentos em que alguns serumaninhos ME-DÁ-UMA-VON-TA-DE -DE-PE-GAR-PE-LAS-O-RE-LHAS-E…

Traço falho, ah, deixa pra lá!

Esse texto faz parte da blogagem coletiva Blogvember. Participam comigo:

Lunna Guedes –  Mariana Gouveia –  Obdulio Nuñes Ortega – Suzana Martins

Imagem: arquivo pessoal