Pela madrugada

Mês de julho de 2020. Durmo (quando consigo), acordo, faço minhas refeições, trabalho. Entre uma tarefa e outra, minhas necessidades fisiológicas afinal, faz parte da vida.

Uma solidão barulhenta toma conta do meu espaço físico e do meu emocional. Uma das vozes que gritam insanas é: Quero voltar para minha vida normal!

Em contrapartida, outra berra: Sua louca. Você odiava aquela vida. Essa está muito melhor. Sossega e se conforma.

Uma outra voz, mais tímida sussurra: Sinto saudades de meus amigos. Quero muito voltar a me encontrar com todos eles…

Saudades? – comenta uma voz que surge do nada, sarcástica -, Mentira. Você está muito bem sozinha sem ter de aguentar as aporrinhações de terceiros que sempre te usaram como pinico pra despejar suas sujeiras.

A voz do desejo reclama: Sinto falta de uma companhia que me envolva e sacie minhas vontades carnais.

Uma outra berra irritada: Cala a boca e resgate seus brinquedinhos do armário. Use e abuse. São mais eficazes e não te deixam sozinhas na cama depois do gozo.

A voz séria da profissional, reclama: Calem a boca suas inúteis. Não vê que estou trabalhando? Tenho muitos relatórios a entregar. Me poupe de suas lamúrias.

Hum! Sua ridícula. Querendo provar competência a quem? Nós todas te conhecemos muito bem e sabemos que está louca pra cair fora dessa. Além do mais, se liga. Hoje é sábado. Não é dia de trabalhar. Vá curtir a vida enquanto o vírus não te pega!

E todas caem na risada tumultuando ainda mais minha madrugada insone.

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Passeio pela minha estante (6)

Leio muito, contudo, impossível ler todos os que desejamos. Falta tempo, falta fôlego para leitura. Muitas vezes, somos desviados de nosso caminho por outro título que chega chegando, atropelando o escolhido e se fazendo necessário. Sempre digo que é o livro que nos escolhe e não o contrário, como muitas vezes achamos.

Entre tantos títulos aguardando meus olhos para uma leitura – tem um em especial -, que pacientemente aguarda a hora de se jogar para uma aventura comigo. Já li outros livros do autor e tenho ele com o um dos maiores escritores do século XX.

As pessoas se espantam quando digo que ainda não o li. Não tenho pressa, a hora dele há de chegar

E você? Já leu Cem anos de solidão? O que achou? Diz aí nos comentários. Quem sabe me convence e eu o inaugure de vez, resgatando-o do limbo dos livros que aguardam eternamente para serem lidos.

Esse post faz parte da maratona de maio e participam
 Alê Helga | Darlene Regina | Lunna Guedes |Mariana Gouveia 

Passeio pela minha estante (4)

E seguimos para o quarto desafio da maratona literária Minha estante de livros, promovida por Lunna Guedes. O desafio de hoje é a escolha de um livro ambientado em minha cidade-país. Logo de cara, surgiu um livro que li há alguns anos quando a temática “Vampiro” não fazia sucesso entre a massa leitora.

Lançado de forma independente em 2000, Os Sete, de André Vianco, conquistou uma multidão de fãs e se tornou um best-seller, vendendo mais de 100 mil exemplares. O sucesso foi tão grande que consagrou o autor como um dos mais importantes na literatura de fantasia nacional. É neste romance que Vianco atualiza o mito dos vampiros e o encaixa na realidade brasileira, apresentando ao leitor seres poderosos, cada um com uma característica única, porém, todos monstruosamente perversos.

Na trama ambientada em terras brasileiras, uma caravela portuguesa naufragada com mais de 500 anos é descoberta no litoral do país. Dentro dela, uma estranha caixa de prata lacrada esconde um segredo. Apesar do aviso grafado, com a recomendação de não abri-la, a equipe de mergulhadores que a descobriu decide seguir em frente, e encontra sete cadáveres. Esses corpos misteriosos são levados para estudos e tudo parece estar sob controle até o despertar do primeiro deles. O romance mistura diversos elementos já conhecidos na escrita de Vianco: terror, suspense, fantasia, sobrenatural, romance e o tema pelo qual o autor é reconhecido: VAMPIROS.

Já conhecia a escrita de André Vianco através de título O senhor da chuva, uma saga entre anjos e demônios. Gostei demais! Mas, voltando ao Sete, o livro tem uma narrativa envolvente, personagens bem construídos e as cenas se passam em vários locais aqui no Brasil inclusive, minha cidade e a cidade do próprio André Vianco: Osasco. Sem dar spoilers mas, as cenas de perseguição em plena rua Dona Primitiva Vianco (reconhecem o sobrenome?), muito conhecida na cidade e bem movimentada com muito comércio são incríveis. Uma das melhores cenas da história. Como nasci e morei até pouco tempo lá, ler o livro e percorrer ruas tão familiares foi um deleite. A partir daí, li os demais livros que lançou: O sétimo, a continuação do Sete, narra a história do sétimo vampiro. O último a ser despertado e o mais temido. Até entre os próprios vampiros. Eh lêlê, aventura pra lá de boa.

Hoje, André Vianco tem uma legião de fãs espalhados por todo o país e onde vai, arrasta quarteirão. Essa é minha dica de leitura. Se nunca leu nada dele, essa é a hora de começar. Garanto que você vai ter momentos de muita aventura e fantasia. Bora lá?

Abaixo, outras capas do livro:

Esse post faz parte da maratona de maio e participam
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Benção minha mãe

Quando decidi falar sobre essa mulher, me peguei sem palavras afinal, como descrever um ser tão acima de mim e demais pessoas?

Certa vez, li em algum lugar, que quando os anjos foram criados por Deus, para descerem a Terra, deveriam vir disfarçados de mãe. Preciso dizer mais? Quem de nós, seres humanos comuns poderia ter essa forma de amar incondicionalmente?

Quem de nós pode ou tem condições de perdoar infinitas vezes? Mães são criaturas dotadas de um enorme senso das coisas, têm uma intuição fenomenal, têm o dom de esboçar o mais lindo sorriso quando muitas vezes, por dentro, estão sangrando.

Não se importam de atravessar noites ao nosso lado quando adoecemos. Deixam de comer para ter sempre o alimento para seus rebentos. Defendem suas crias com uma voracidade anormal.

Fazem sempre o impossível para ver seus filhos felizes (o possível, o resto da humanidade já faz). Vibram com cada conquista que seus filhos adquirem e sofrem ao vê-los aflitos, derrotados e infelizes. Todos esses adjetivos descritos acima fazem parte da personalidade única que é minha mãe.

Quando pequena, achava-a severa, brava. Na adolescência, tivemos sérios entraves.

Vivia pegando no meu pé. Muitas vezes desejei que ela fosse diferente. Com o passar dos anos e a aproximação da maturidade, descobri nela, outra mulher. Descobri a amiga, a confidente e assim, nossa relação tornou-se estável e hoje somos grandes companheiras.

De uns anos pra cá sempre digo que “Quando crescer quero ser igual à Dona Ilda” Adquirir sua sabedoria, paciência, tolerância e quero também seguir sua filosofia de vida: minha mãe veio a esse mundo para ser feliz!

E olha que, nesses anos de vida que ela tem, já passou por cada uma! Contudo, nada abala sua segurança, sua fé, sua postura rígida, porém suave diante da vida.

Independente dos sofrimentos que a vida lhe imputa, sua filosofia da felicidade não estremece. Ao invés de torná-la frágil, fortalece mais. E sempre sorrindo! Igual à minha avó Maria, sua mãe.

Se Deus permitir, desejo chegar à terceira idade mantendo o semblante sereno que ela carrega. E quero também despertar nos outros, o mesmo carinho, o mesmo respeito que hoje todos têm por ela.

Deixo aqui minha homenagem a essa grande mulher, Dona Ilda, minha mãe e a todas as mães desse planeta.

Sem vocês, posso dizer com segurança, que não existiria vida em nenhuma parte.

Sem mãe, o mundo seria em preto e branco e sem fundo musical.

Benção minha mãe!

Esse texto abre meu livro Receituário de uma expectadora, lançado pela Scenarium Livros Artesanais, em 2016.

Amargo despertar

Sorrio sentindo o calor do sol entrando pela janela. Ontem, confesso que passei um dia deprimida e o tempo ajudou bastante esse meu estado de espírito. Impressionante como a luz do sol e a coloração do céu nos influencia.

Minha depressão momentânea me levou a fazer algo que não faria em outra situação: correr. Com o corpo enferrujado e dolorido, após o café da manhã, decidi baixar um aplicativo de corrida e, devidamente vestida, fui para a frente da minha janela para o mundo e comecei a correr. Sem sair do lugar. O que começou como algo chato a se fazer, embalada pela música workout como trilha sonora, em minutos corria não somente de frente à janela mas pela cozinha, banheiro, sala/quarto. Entre corrida e pulos cada vez mais coordenados e alto, recuperei meu bom humor. Santa Serotonina!

Ao término da corrida, suada, descabelada e feliz, ainda fiz alguns alongamentos, agachamentos e fui para uma ducha merecida.

Almoço gostoso, café fresquinho, uma trilha sonora diferenciada, agora, na bela voz de Rumer. Abro meu sofá cama e munida de meus queridos livros e manta quentinha, leio até adormecer. A doce voz da cantora e o sax ao fundo me levou para longe.

Alguns minutos de puro deleite são interrompidos com meu despertar dizendo em voz alta: Cala a boca Bol…

Olhei a minha volta e cai na risada por uns minutos. É, o retorno à realidade sempre deixa um gosto amargo. Ainda mais despertando com esse ser a atormentar meus sonhos.

Mais um dia. Menos um dia.

Sonho ou pesadelo?

Fui logo ali, na esquina do universo espiar o que o Pequeno Príncipe aprontava. Moleque levado que é, está sempre me deixando de orelha em pé. No meio do caminho, encontrei com o Menino Maluquinho batendo panela e gritando Fora Bozo! Fora!

Chegando em Marte, onde fiz uma parada para descansar, ouço um maluco tentando convencer algumas extraterrestres de que Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus. Elas olhavam o mirrado ser de orelhas pontudas e comentavam entre si: Coitado, deve ter cheirado gasolina da Lua em excesso. Ficou lelé! Partiram gargalhando deixando o pobre palestrar ao vento.

Tratei de sair de fininho também. Segui viagem para Urano, interessada em saber das novidades. Qual não foi minha surpresa ao chegar num beco e dar de cara com Diógenes, o cínico. Discursava em voz potente, os últimos ensinamentos de Sócrates. Relatava aos cães, seus fiéis ouvintes, que a humanidade precisava aprender a se desapegar dos excessos. Após sua fala, mirou com olhos úmidos sua seleta platéia e agradeceu, pedindo licença para descansar dentro de sua barrica.

Decidi retornar à Terra após esse passeio pitoresco. No caminho, na esquina das Três Marias, fui derrubada por Alice que corria atrás do Coelho que sumiu na poeira estelar em átimo de segundos. Esse sabia ser rápido!

Chorosa, sentou-se ao meu lado, ajudou a limpar o barro brilhoso que grudou em minha roupa e perguntou se eu voltava para casa. Afirmei que sim. Sorrindo, pediu para me acompanhar pois sentia saudades de sua casa, de seus familiares.

Chegamos encontrando uma metrópole vazia, no qual pessoas batiam panela nas suas varandas gourmet gritando: Fora Bozo! Fora! Em outras varandas, alguns lunáticos cantavam o hino nacional ao microfone exigindo a volta da ditadura militar. Um sentimento de déjà-vu tomou conta de mim. Isso me era familiar…

Chorosa, Alice despediu e sumiu no cruzamento das avenidas Ipiranga com São João deixando-me confusa raciocinando com os botões da jaqueta de Sgt. Pepper’s : Que porra é essa?!

Raça superior

Era madrugada quando acordou assustada. Levantou e saiu apressada em direção ao banheiro. O que será que havia comido no dia anterior para estar com tanta cólica? Repensou entre uma gemida e outra:

-Pela manhã tomei meu café e um pão francês na chapa acompanhado de ovo mexido. Sempre como isso nunca me fez mal.

-Depois, no almoço, um risoto com  ervas, salmão grelhado e salada de folhas e tomate cereja com um filete de azeite e vinagre balsâmico.

-À tarde, o lanche foi uma banana prata, mix de oleaginosas, uma xícara de chá de frutas vermelhas.

-Por volta das 20h, uma tapioca recheada de abobrinha refogada com cenouras e ervas acompanhada um copo de suco de uva. Antes de deitar-se, uma xícara de chá de hortelã.

Acalmou-se. Nesse meio tempo, seu olhar capturou uma microscópica formiga que acabara de sair do canto do banheiro. Esse ser tão pequenino a fez refletir o quanto a humanidade é tola em se achar o máximo da inteligência. Constatou que, além de arrogantes, são dotados de uma cegueira que os impede de ver o real tamanho diante do universo. Observou a perseverança da formiga em arrastar um micro pedaço de casca de pão.

-Coitada! Deve ser mãe solteira e se preocupa em levar alimento para sua cria. Como a maioria das mulheres. Fala sério! Se todos que tivessem uma dor de barriga pela madrugada, tirasse um segundo para refletir sobre as questões filosóficas que nos move, aposto que essa merda de mundo seria bem melhor.

Mais alguns minutos acocorada. Aliviada, optou por uma ducha quente e, em paz e sonolenta, retornou a maciez de sua cama. Quase dormindo teve um pensamento rápido:

-Amanhã antes de sair pro trabalho, preciso aplicar  o veneno em gel para formigas. Deus me livre de conviver com esses bichos. Deus me livre!

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Bon voyage pour moi

Viajar e conhecer novas paisagens para mim é terapia. Assim como caminhar. Nas viagens, dou um tempo na persona que visto no dia a dia. Deixo de lado a mulher séria e preocupada com tantas questões cotidianas. Assumo o ser que sou: livre e simples .

Estou prestes a mais uma aventura fora de meu círculo diário. Um friozinho já conhecido se manifesta no meu centro . É bom sinal. Mala pronta, pontos turísticos delineados e anotados. No entanto, o que mais me atrai, apesar de minha aparente timidez, é conhecer pessoas.

Gosto de observar os diversos rostos anônimos que farão parte de meus dias turísticos. Ouvir diferentes sotaques é canção para meus ouvidos. Conhecer histórias locais, tomar consciência que há vida pulsante e saudável fora dos centros urbanos ao qual estou familiarizada.

Quando viajo, não gasto dinheiro comprando lembrancinhas para num futuro, recordar esses dias. O que trago nem pesa na mala. Posso até fazer uma brincadeira dizendo que o que vivi e presenciei, salvei nas nuvens. As fotos digitais até podem ser salvas por lá. Contudo, a vivência desses dias e as experiências gastronômicas, sensoriais e visuais – essas -, armazeno nas inúmeras gavetas de minha memória.

-Atenção, senhores passageiros com destino a…

É minha vez. Até o retorno leitores queridos. Quando por aqui aparecerei para compartilhar com vocês algumas situações que vale a pena registrar numa bela crônica.

Bon voyage pour moi! À bientôt!

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Confesso: eu vivi

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Saio da minha terceira ida ao cinema para assistir Bohemian Rapsody, filme sobre a banda de rock inglês Queen, liderado pelo performático vocalista Freddie Mercury. Caminho lentamente pelos corredores lotados do shopping lotado de famílias e casais passeando. Feito autômato, mal ouço os comentários entusiasmados de minha irmã, também fã da banda. Mas não uma fã como eu.

Sorrio ao lembrar a experiência que jamais contei a ninguém. Tornou-se todos esses anos, meu, nosso segredo. Até mesmo porque, se contasse ninguém acreditaria. Uma vez que já tinha a fama de doida, preferi me poupar e manter esse segredo só para mim.

Após todos esses anos, relembrar, mais parece uma sonho. Talvez tenha sido mesmo e eu é que preferi acreditar que aconteceu. Mas no fundo, bem no fundo, sei que aconteceu.

Março de 1981, encontrava-me em meu segundo emprego, e desabrochava para a vida adulta aos dezoito anos. Esse mês ficou marcado pois vivi algumas experiência que se tornaram únicas e foram divisores de água no que fui e o que passei a ser depois. Trabalho, dinheiro próprio, primeiro show na vida. E abri minha temporada de shows com nada mais, nada menos que o show internacional que abalou São Paulo: Queen. Aconteceu nos dias 20 e 21 de março no estádio do Morumbi. Fui com minha irmã no dia 20. Aquela data foi mágica. A euforia de se ir a um estádio pela primeira vez, a massa humana seguindo o mesmo rumo com as mesmas expressões de alegria e ansiedade, o atravessar os portões e adentrar um campo que se tornaria por algumas horas, uma fantasia plena de melodia, dança, alegria, emoção. Consegui me embrenhar na multidão arrastando minha irmã e conseguimos assistir todo o show bem na frente do palco. Uauuuu!!!

Mas não é do show que desejo falar. Foi estupendo, quase consegui chegar até eles, para entregar meu inocente desenho que fiz de toda a banda. Tinha como meta, entregar em mãos no camarim. Driblei forte esquema de seguranças e com ajuda de uma jornalista camarada, cheguei até a porta do camarim, onde estavam concentrados após o show. Morri na praia. Não me deixaram entrar mas, garantiram que entregariam em mãos para Freddie. Resignada e frustrada, sai ao encontro de minha irmã que ficou do lado de fora me aguardando.

Naquela semana, trabalhando, ouvi uma conversa de minha chefe com seu marido que mantinha uma galeria de artes bem ao lado da boutique onde trabalhava. Ele confidenciava à ela que ficaria na galeria até mais tarde para receber uma visita internacional que havia demonstrado interesse em conhecer obras de artistas paulistanos. Ela perguntou quem era e ele respondeu: um vocalista de uma banda de rock que está em São Paulo. Na hora fiquei alerta e procurando ficar mais invisível, me aproximei da porta para escutar mais. Meu coração subiu para a boca tamanha expectativa de achar que poderia ser mesmo Freddie Mercury a visitar a galeria ao lado do meu trabalho e – mais ainda – , ao lado de minha casa! Era sorte demais!

Às dezoito horas, despedi-me de todos e segui para casa. Mantinha uma cópia das chaves da loja pois costumava abri-la pela manhã. Aguardei todos saírem e, após alguns minutos, me certificando que a loja estava vazia por completo, retornei e entrei sorrateiramente me escondendo no forro da loja que tinha ligação com a galeria afinal, era uma construção única. Pela primeira vez, não me importei com a possibilidade de estar dividindo o mesmo espaço com diversas lagartixas, minha grande fobia. Soube através da conversa do galerista, que a condição para ele vir seria ter acesso a ela sem ninguém por perto. Inclusive ele, que deixaria a porta aberta e esperaria no bar em frente. Só retornaria após o cantor escolher as obras de arte que levaria como souvenir para Londres. Soube que era um hábito dele fazer esses passeios e compras por todo lugar que fazia turnê. Acocorada no forro, respirando ar mofo e empoeirado, retive a respiração ao ouvir a porta principal se abrindo. Algumas vozes dialogaram em inglês e depois, silêncio. Não conseguia enxergar ninguém. Por instantes pensei que tivessem ido embora mas, quando já pensava em sair daquela posição incômoda, eis que a figura ímpar surge em meu campo de visão segurando um quadro Naif com os olhos brilhantes. Parecia hipnotizado pelo que via. Também me encontrava em estado hipnótico quando aconteceu o que não esperava: do nada, ele elevou seu olhar em minha direção. Perguntou: Quem está aí? Saia!

Acabei descendo e – muito envergonhada -, pedi desculpas num inglês bem sem vergonha.

Me encarou por alguns minutos num silêncio constrangedor analisando minha pessoa magricela e suja de pó. Até que movendo os lábios numa atitude de quem queria segurar o riso, posicionou o quadro que segurava ao lado de outros já selecionados e, colocando suas mãos na cintura, caiu numa gargalhada sem fim. De início fiquei sem graça mas, contagiada, caí na gargalhada.

Ficando sério, perguntou meu nome e idade. O que fazia lá em cima? Me espionava ou queria roubar a galeria? Rimos novamente. Fez uma mímica para que sentasse num sofá que havia na sala. Sentei e fiquei olhando para minhas mãos. Mal conseguia pensar. Meu Deus!!! Estava ao lado de meu ídolo e não sabia o que fazer nem dizer! Surreal.

Acendeu um cigarro e perguntou se queria fumar também. Sorri mas declinei no que ele respondeu: Faz muito bem menina. Cigarro mata.

Cantarolei baixinho Lily of the Valley e ele me olhou espantado. Sorriu e cantou em dueto comigo. Óbvio que não era páreo para ele mas cantamos a canção inteira e rimos novamente.

Mostrei algumas telas que gostava inclusive duas do marido de minha chefe e ele concordou comigo. Disse que eu tinha bom gosto. Ao finalizar suas escolhas, virou-se para mim e disse:

Do you know what? I like you a lot! – Dando uma última tragada em seu cigarro, apagou, virou-se e me envolveu num abraço caloroso. Despediu-se de mim e, da mesma forma que entrou, saiu. Fiquei parada no centro da sala de exposição entre inúmeros quadros Surrealistas e Naif separados por ele sem saber o que pensar ou fazer. Ouvindo vozes se aproximando, saí rapidamente de cena subindo para o forro e retornando para a boutique até que todos se foram. Observando a rua vazia, saí da loja e entrei em casa para levar uma bronca federal de minha mãe.

– Onde esteve até essa hora menina? Quer matar sua mãe de preocupação? O que fazia na rua?

Com os olhos marejados de emoção, sorri e disse a ela:

– Sonhando mãe, sonhando… Quer saber? Sonhei o sonho mais lindo de minha vida!

Peguei-a pelas mãos e cantando Seaside Rendezvous, dei alguns passos de dança com ela.

Balançando a cabeça sorrindo, disse que eu não tinha jeito mesmo.

– Deite de vez e continue sonhando na cama.

Essa noite não preguei os olhos.

Essa é minha homenagem a esse grande cantor e compositor e, acima de tudo, grande roqueiro que marcou minha adolescência. Homenagem também ao Rock enquanto estilo musical e filosofia de vida.

Impermanência

Mais uma manhã chuvosa a decorar minha janela. Sozinha, porém não solitária, sento e sinto necessidade de escrever algo. Não tenho ideia mas o desejo bate forte e me entrego.

Enquanto olho pela janela buscando inspiração, ouço cá dentro, as lamúrias do fado no CD de Mariza, Concerto em Lisboa. Bate uma saudade da terrinha lusitana. Já faz tanto tempo que por lá estive. Gosto de fado. Remete-nos a uma melancolia que considero boa. Vem do fundo da alma algo que não conseguimos detectar e que aquece o espírito. Após um tsunami emocional, encontro-me essa semana em paz comigo mesma e com o Universo. Terminei algumas leituras – de lazer e de estudos -, e retomei a leitura do livro de Lya Luft, O silêncio dos amantes.

O primeiro conto que li ontem à noite, antes de dormir, lembrou-me o sobrinho/filho que viajou para outra esfera. Confesso que abriu uma cratera funda de saudades de nossos papos e convivência que tivemos. No entanto, não fiquei triste. Apenas saudosa de um tempo que ficou para trás. Transformou-se em história de vida.

Estômago gritou alertando-me que já era hora do almoço. Lembrei do programa da Ana Maria Braga, pela manhã mostrando um chef ensinando os marmanjos globais a preparar uma carne moída. Achei graça.

Preparo desde criança, quando aprendi com minha avó e mãe, a arte de cozinhar. Os olhos atentos de todos me trouxe à reflexão, o quanto se perdeu da espontaneidade de um simples preparo de uma carne moída.

Abri minha geladeira e de imediato, optei pelo que tinha: filé de tilápia e bolinhas de espinafre congelados. Bingo! Decidi preparar o peixe grelhado e como acompanhamento, creme de espinafre. O arroz já tinha pronto. Era só esquentar. Em minutos, meu prato estava perfumado e saboroso!

Após almoço, satisfeita, saio para a rua. Chega de reclusão. Caminho alguns passos sentindo o ar gelado a queimar meu rosto e me encolho no agasalho pesado. De mãos aquecidas no bolso do casaco, olho de soslaio os inúmeros moradores de rua encolhidos debaixo de cobertores ralos ou papelão. Sinto vergonha por minha roupa boa e tão aquecida, meus calçados de marca e meu teto financiado porém, quentinho. Saí com a intenção de comprar alguns itens de supermercado que zeraram em minha despesa. Contudo, o olho gordo de consumidora que tento domesticar, compra guloseimas desnecessárias e retorno com a sacola lotada. Ao cruzar novamente com esses moradores das calçadas, envergonho-me mais ainda. Uma vontade imensa de sentar ao lado e chorar misérias alheias. De olhos marejados, tropeço e quase caio em cima de um dos pobres que, achando uma afronta minha, esboça um palavreado nada agradável. Lágrimas de indignação caem molhando meu cachecol peruano. Corro para o prédio, meu porto seguro diante de tantas mazelas humanas que compõe o centro velho de São Paulo.

Agora, ao som de Mornin’, na voz de All Jarreau, continuo mirando minha janela acompanhando o tempo se fechar entre nuvens carregadas e enegrecidas. Vem mais chuva e frio. Mastigo sem sentir o sabor do bolo de cenoura que comprei e quase nem sinto mais o aroma do café recém passado. Nas retinas de minha alma, permanece a imagem dos desvalidos que a cada dia aumenta nas ruas de nosso tão judiado país. A garganta se fecha diante da notícia que leio sobre a (mais uma) lamentável fala de nosso atual representante sobre o trabalho infantil.

Agarro-me à Pessoa e seus inúmeros heterônimos que me fazem companhia na xícara de café que trouxe de souvenir de Lisboa lembrando o início de Tabacaria:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é…

E tudo isso porque me deu vontade de escrever e nem sabia o quê.

Imagem: Arquivo pessoal