Maré de decisões

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Observando a movimentação dos pescadores, Luciana se encontra há horas, no pequeno porto. O vai e vem dos barcos e das ondas, acalentam seu coração – por hora -, conturbado. Em seu íntimo, várias questões se digladiam. Muitas decisões importantes a tomar. Decisões que mudarão definitivamente sua jovem vida. Enquanto pensa, uma doce brisa brinca com seus longos cabelos negros. Tenta assimilar sua nova realidade, se preocupa em como revelar à sua família. Sabe que não será fácil. Chuta a areia, levanta e segue pela orla resoluta em parar na primeira lanchonete que encontrar e comer umas fritas bem crocantes. A vontade surgiu do nada e fez a menina salivar de desejo. O primeiro, de muitos que terá até completar os nove meses. Após saciar essa vontade, ela pensará numa forma de contar para sua mãe.

“Prepara o lombo Luciana! Hoje a noite a jiripoca vai piar!”

 

Imagem: Freepik

Memória: universo intocável

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A manhã inicia envolta numa densa neblina. Ao abrir a porta que dá para o quintal, recebe uma lufada de vento gelado. Sorri! O galo da vizinha da rua debaixo canta animado. Alguns bem-te-vis e beija-flores voam ao redor do jardim e da horta que seu pai cuida tão bem. Há uma fina camada de gelo na plantação.

Com seus pezinhos envoltos numa alpargata gasta e uma meia listrada e rota, dá alguns passos no frio piso de cimento queimado. Quase escorrega, porém, consegue se equilibrar. Respira fundo e solta o ar pela boca. Diverte-se com a fumaça de ar quente que sai. Isso é inverno para ela! Corre para o balanço que seu pai instalou no fundo do quintal. Passa as pequenas mãozinhas na tábua molhada, esfrega-as na calça de flanela xadrez e senta balançando feliz. O dia promete!

Sua mãe grita da cozinha chamando todos para tomar o café da manhã. O aroma do café coado tira a pequena de seus devaneios infantis. Pula do balanço e entra pela cozinha para ocupar seu lugar a mesa. Todos reunidos, dá gosto ver seu pai – homem robusto, saudável, fartos bigodes negros – de olhos brilhantes feito os das crianças. Assobia de alegria ao ver as broas de milho quentinhas, o café aromático, o leite espumoso na jarra, a manteiga, o pão francês quentinho que sua mãe trouxe da padaria da esquina.

Sua mãe…

Figura ímpar. Mulher batalhadora que madruga para oferecer o pouco de conforto material aos seus. Mesmo com a renda escassa, prima por manter a família bem alimentada. É sua maneira de expressar seu amor.

Apesar de magricela, a menina é boa de garfo. Trata de comer sua broa, sua fatia de pão com manteiga, sua xícara de café com leite e a seguir, um pouco de achocolatado. Coisa rara que só acontece nessa época quando esfria. A criança estremece de contentamento ao sentir a quentura e o doce do chocolate. O dia promete!

O resto da manhã foi de muita tarefa na cozinha. Sua avó materna e mais duas tias chegam para reforçar as atividades. Forno aquecido, mais broas assando, um bolo com cobertura de pasta americana sendo confeccionado pelas mãos hábeis de sua tia, quituteira de fama no bairro. Do outro lado da cozinha, sua outra tia manipula a massa da bala de coco. A guria ama ficar sentada quieta olhando a destreza dela a esticar – com velocidade  – a tira de massa para não açucarar.

Sempre pensa: Minha família só tem artista!

A transformação da tira termina com as balas já cortadas descansando no frio mármore da pia, prontas para degustar.

Pura magia! A tia sempre oferece uma bala fresquinha à ela que, salivando, chupa bem devagarinho para que a bala não acabe nunca. Do lado de fora, no quintal, seu pai cozinha os pinhões. Outra iguaria que somente nesse mês do ano surge. Ela gosta de ver o pai mexendo no caldeirão com uma colher de pau e depois – com eles já cozidos e escorridos – descascar deixando-os peladinhos prontos para o banquete de logo mais. Sua avó, como sempre, se encarrega do feitio da paçoca. Posiciona o pilão centenário no meio do quintal e, munida de açúcar, amendoim torrado, farinha de mandioca e sal, deita o bastão para transformá-los em paçoca. Enquanto soca os ingredientes, dona Maria entoa uma cantoria que alegra o ambiente fazendo todos relembrar: Hoje é dia de festa!

De olhinhos vidrados na figura da avó com seu vestido florido azul marinho, avental e lenço prendendo os cabelos, chinelos nos pés – mesmo no inverno – balançando sua barriga cantando e rindo ao mesmo tempo. A garota sorri ao se aproximar da avó e pede o enorme bastão para socar um pouco. Arrisca cantar e ambas caem na risada com o desafino e a voz diminuta da menina. Quando terminam, comem a paçoca às colheradas. Coisa boa vó! – diz a garota com a boca cheia de doce.

Às dezesseis horas, a mãe surge à porta da cozinha chamando as crianças para o banho.

Está frio pra tomar banho mãe! – responde o irmão que não se dá muito bem com a água.

Não quero saber se está frio ou quente. Já pro banho moleque! Até as cinco quero todos de banho tomado e vestidos.

Quando a mãe fala nesse tom de voz não tem discussão. Gostando ou não, todos obedecem. Enquanto a gurizada está no banho, alguns homens da família – tios e primos – chegam trazendo lenha para montar a fogueira. Seu Pedro, o avó materno, passeia pelo quintal verificando tudo de mãos para trás pensativo. É seu jeito mineiro de ser. Confere tudo, afinal, também tem interesse que tudo saia perfeito.

Dezoito horas. Frio intenso, contudo, a temperatura entre todos os presentes encontra-se bem alto. No portão principal, seu Pedro recebe familiares que chegam abraçando-o. Ele é um dos aniversariantes do mês. A enorme mesa montada no quintal – na parte coberta – tem uma toalha estampada e uma vasta seleção de gostosuras juninas: bolo de fubá, de milho, broinhas, pé de moleque, paçoca, balas de coco, pinhão. Tudo distribuído ao redor do enorme bolo de aniversário coberto de massa americana colorido. Do outro lado, uma mesa menor com jarras de quentão, K-suco de uva e morango, garrafas térmicas com achocolatado e café. Na fogueira já ardendo em todo seu potencial, espetos com batata doce assando. Na vitrola, um disco entoa canções…

Capelinha de melão
é de São João.
É de cravo, é de rosa, é de manjericão.
São João está dormindo,
não me ouve não.
Acordai, acordai, acordai, João.
Atirei rosas pelo caminho.
A ventania veio e levou.
Tu me fizeste com seus espinhos uma coroa de flor.
Em pouco tempo a casa está lotada de familiares e amigos celebrando. O mês de junho é repleto de aniversariantes. A começar pelos avós, seu Pedro, seu Benedito, terminando pela neta, a menina magricela que hoje, resplandece de alegria por ver tantas guloseimas. Em frente ao bolo, seis pessoas felizes fazem seus pedidos antes de assoprarem as velinhas. O pedido da menina – talvez pela pureza infantil ainda não corrompida pelas mazelas de adulto – só deseja que o resto da vida seja uma grande e ininterrupta festa de aniversário.
Papai do céu, deixa eu ser eternamente criança!
Enquanto faz o pedido, uma estrela cadente atravessa a noite escura sacramentando sua solicitação.
Gente, lembrando dessas passagens de minha infância percebo que Papai do Céu atendeu meu pedido naquela noite fria: não perdi de vista minha menina magricela, sardenta e sonhadora. Não cresci muito no tamanho, continuo sonhadora e transformei meus sonhos em narrativas. E continuo amando festas juninas! Os balões, hoje solto na minha imaginação, afinal, consciência é necessário. E por aqui, eles continuam coloridos e belos a subir pelo céu de junho.

Reza mal feita

Angry-lady

Tem dias em que a melhor coisa a se fazer é…Não levantar da cama por nada!

Juro por todos os Santos que orei antes de me levantar hoje. Agradeci mais um dia de vida, pedi bençãos e proteção para mim e toda família, pelos amigos e colegas, pela humanidade que possa regressar para sua condição de apenas ser humanos.

Levantei desejando ficar mais um bocado debaixo das cobertas afinal, que frioo!!

Tinha intenção de ir direto para o banheiro tomar uma ducha para despertar de vez. Mudei de ideia bem na esquina do banheiro com a cozinha. Decidi adiantar ligando o forno para assar alguns pãezinhos de queijo para o café da manhã. Não contente, achei melhor colocar um pouco de água para esquentar e fazer um café bem quentinho afinal, o café passado na cafeteira não esquenta como gosto.

Sonolenta, acendi o fogo, coloquei a caneca com a água e encosto na pia esperando não sei o quê. Talvez despertar de vez. De repente, um cheiro de queimado toma conta de minhas narinas.

Senhor!! Meu pijama encontrava-se em chamas na manga. Brigadista juramentada por três anos consecutivos, respirei fundo e com calma, coloquei meu braço inteiro debaixo da água que jorrou fortemente da torneira escancarada. Por segundos passou por minha mente um filme sobre minha vida e o trágico final dela se transformando em cinzas. Lembrei das inúmeras vítimas do incêndio em Portugal e assoprando o suave ardor em minha pele, imaginei a dor e desespero de quem morre torrado. Senti pelo pijama mas agradeci em pensamento e em fala alta pelo apartamento aos anjos protetores que mesmo me observando ainda sonolenta, livraram-me de um destino pra lá de quente. Assei os pãezinhos, ficaram no ponto. Passei o café, fiz um pouco de leite sem lactose e deixando de lado a ideia de um banho, optei por me alimentar antes. Com calma, tranquilidade e consciência de fazer o que fazia esquecendo um pouco o mundo da fantasia. Vivo por lá. Às vezes, a vida te grita para que retorne e finque os pés na realidade. Lembrei enquanto tomava um gole do café de que hoje teria logo cedo uma consulta com minha ortodontista. Humm! Não se esqueça de escovar muito bem os dentes! – pensei esboçando um sorriso cafeinado.

Num piscar de olhos embaçados, já havia se passado uma hora e eu precisava me apressar. Dei uma volta debaixo do chuveiro, saí tiritando de frio, me enrolei na toalha e ao sair quase caio escorregando numa poça de sabão que não havia diluído. Troquei-me em segundos quando me lembrei que não havia passado desodorante.

Sacoo!! – disparei correndo ao banheiro abrindo a camisa e passando o desodorante seco. Voltei ao quarto, caçando minhas botas. Peguei bolsa, celular, olhei ao redor e, Ah! Já ia me esquecendo: minha marmita na geladeira.

Pronto. Almoço garantido Quase na porta, sinto uma dor de barriga das boas. Fiquei na indecisão: volto? não volto? uso o banheiro do consultório, e se não der tempo? uso o banheiro do metrô…Eca! Voltei para meu banheiro branquinho, puro, limpinho e cheiroso. Para distrair, pego a última edição da revista Casa & Jardim. Adoro me distrair vendo casas bonitas enquanto o intestino trabalha. Não consigo me ocupar das belezas da arquitetura urbana da matéria principal. Minha matéria estava rebelde e se debatendo dentro de minhas entranhas. Senhor o que é isso? Um Alien dentro de mim? Vontade de gritar, contudo, tive de bancar a fina e gemer em silêncio para não acordar a vizinhança que ainda dormia. Entre a vontade de gritar e chorar de dor, veio-me a lembrança da famosa cena dos filmes As branquelas – quando uma delas que sofre de intolerância a lactose, experimenta um salgadinho numa festa e vai parar no banheiro. Jesuis essa cena é hilária! Quem já assistiu sabe do que falo. Iniciei um ritual louco para expurgar aquilo que me causava dores e barulho. O que era aquilo crescendo dentro de moi? Dobrei-me, botei a cara quase rente ao chão, cheguei a ficar tête-à-tête com uma formiguinha minúscula que circulava  desgarrada de seu bando. Até ela parecia desesperada para sair dali. Pressentia perigo assim como eu.

Passou… Chegou a calmaria e com ela, a consciência de que precisava sair de casa urgente. A consulta!

Saio correndo do apartamento, do elevador, do prédio. Chego driblando moradores de rua, adentro a estação de metrô. Driblo mais uma vez o mar de gente a minha frente se arrastando feito lesmas de olhos pregados em seus smartphones. Odeio-os!! Saiam de minha frente cambada! Numa tomada de cena típica de quem tem pressa, quando não havia mais espaço para alguém no vagão, entro com tudo e faço dar espaço para mim e mais meia dúzia que entra junto. Agora, respirar fundo, olhar para o infinito e seguir viagem. Uma estação apenas.

Uma estação apenas no qual tenho de aguentar uma senhora vestida de debutante de quinze anos em plena oito horas da manhã que fica de cara grudada a minha e não para de me olhar e de me avaliar. Puta que o pariu! A vontade de xingar é grande mas, minha finesse passa por cima e mantenho-me estátua de sal. Nem piscar pisquei. Cerrei a boca caso contrário, mandaria aquela lá catar coquinho no mar Vermelho.

Finalmente chego ao consultório. E, para compensar toda a chateação daquela maldita maquininha lixando nossos dentes (odeio), minha ortodontista é um amor e me entretém com sua viagem à Irlanda. Graças a Deus fiquei compenetrada em suas narrativas de viagem e quase nem percebi sua tortura. Saio correndo do consultório. No elevador, olho o celular e vejo que se passou uma hora. Senhor! Vou chegar muito tarde no trabalho. Paciência.

Na rua, além do frio desgraçado – percebo que não saí vestida de forma adequada – uma garoa maldita que me ataca por todos os lados. Não adianta sombrinha.

Chego molhada, descabelada, rosto cheio de massa branca (é eu sei, a dentista falou para eu limpar no banheiro. esqueci) e seca por cafeína. Meu reino por uma xícara de café extra forte!

Num minuto raro de paz interior saboreio esse néctar dos deuses quando meu celular toca e é minha irmã toda desesperada ( provavelmente descabelada também) para avisar que mamys estava no hospital e que o hospital se negava a atendê-la por falta de pagamento da mensalidade de janeiro. Fale com o financeiro!

O café entala na garganta, esfria e depois esquenta tal minha temperatura de braveza. Engasgo de indignação pois tenho tudo pago. Misericórdia! Esse povo só sabe falar em dinheiro! Tô garrando ódio pelo sistema capitalista. Sim senhor! Ódio!

Explico para a simpática moça que me atende que tenho tudo pago e juramentado. Nada devo…Quer dizer, até devo mas, fala sério quem não deve nesse país nénão?

Ela delicadamente diz que compreende minha situação, mas, que o sistema acusa não pagamento. Mas tenho tudo pago moça… O sistema acusa dona…Tenho tudo pago pôxa! Compreendo senhora, sinto muito sua mãe não poderá ser atendida. O sistema não libera…Tá tudo pago merda! Será que não entende? Preciso desenhar? Dona, tenha calma, tudo está sendo gravad…Quero mais é que grave ess aporra toda! Merda de capitalismo, só interessa o dinheiro, a porra da saúde do povo que se dane. Morram imbecis!!! Ouço um engasgo, um soluço do outro lado. Que foi? silêncio. Vai desligar na minha cara vai? Você tem mãe? Ficaria calma diante de uma cilada dessas? Há mais de vinte anos pago essa porra de convênio e quando preciso tiram o corpo fora?silêncio

Dona/Dona o caralho! Tenho nome./Certo, desculpa qual seu nome?Não interessa só quero que minha mãe seja atendida. Entendeu! Entendi. Calma senhora. Faz o seguinte: vá ao seu banco e peça um extrato do mês todo e verifique se eles não estornaram o valor para sua conta novamente. Cêbebeu foi? Desde quando o banco devolve dinheiro na conta de pobre? Acorda ALICE! Senhora, vou desligar. Vá ao banco e verifique. Caso contrário, o convênio de sua mãe será cancelado. Obrigada e tenha um bom dia!.

Filadaputa nem deu tempo de responder e já bateu o telefone. Transbordo-me em fel de tanta raiva. Lembro que ao acordar rezei. Oh meu Deuzinho, eu rezei. Não foi suficiente não? Precisava de mais ardor nas orações é? Fala sério: muita viadagem heim! Cê num era assim lá nos primórdios! Ah tátátá, entendi. Sorry. Vou conversar com meu gerente, fazer uma social, fingir que sou rica, perder minha hora de almoço num banco. Tudo o que mais gosto de fazer. Nossa quanta felicidade!

Tudo visto, nada resolvido retorno para a empresa e vou esquentar minha marmita. Nem tenho vontade de comer mas, assim que abro, o aroma que vem de dentro me faz esquecer um pouco tudo o que aconteceu até agora. Almoço, converso, chego até a rir um pouco da desgraça alheia afinal, ser humano é isso mesmo.

Cá estou eu entre risos e reflexões sobre esse dia tão conturbado que ainda não acabou. Ah! Minha mãezinha foi atendida por uma médica que solicitou uma série de exames. Fico mais tranquila mas..

O que mais virá pela frente heim?

Imagem: Google

Dia de festança no céu e na terra

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Ano de 1968, maio. Mais precisamente dia onze. Ano esse que ficou marcado na história do país e do mundo. Ano de muitas contestações, grandes mudanças de comportamento e cobranças. Enquanto por aqui, estudantes lutavam por melhores condições no ensino e contra uma ditadura que amarrava e amordaçava a liberdade de expressão, na França, a revolta de maio teve como protagonistas, universitários e polícia numa revolta onde imperou a violência. Só para variar. Muitas turbulências na América Latina, Estados Unidos arrasando com o Vietnã. A vida estava uma maravilha! Até parece que não tiramos o pé desse ano de tanta sensação de déjà vu.

No entanto, em plena Maternidade São Paulo, nascia um bebê que marcaria a vida da família que a acolhia. Criança que veio ao mundo sentada e de perninhas moles.

Recebi a chegada desse bebê com alegria achando que havia ganho uma boneca de verdade. Adorava trocar, pentear seus cabelinhos claros e finos feito seda. Da mesma forma que cuidava, tinha uma queda por fazer brincadeiras que a fazia chorar. Tudo só para depois pegá-la no colo e ninar. A vida não foi nada fácil para essa criança. Ela também mostrou-se imbatível diante das adversidades e obstáculos que teve que superar. E superou a todos! Destemida e teimosa. Essa é a perfeita definição para ela. Espírito de heroína, renasceu quantas vezes tornou-se necessário. E sempre se reinventando. Um dos grandes obstáculos em sua vida foi a saúde debilitada. Muitos em seu lugar teriam se entregue à doença e perecido pelo caminho. Não ela. Como uma cientista curiosa, teve seu olhar para a doença com sede de conhecer para combater. E assim, vem se superando a cada investida. Alma de artista, o traço sempre foi extensão de suas mãos talentosas. A arte sempre resgatando-a da doença. Amparando-a nos momentos de dor. Como Frida, transformou sua dor em amor ao próximo e as artes. Feito Khalo, imprime nas telas sua resistência.Incompreendida por muitos, admirada por outros tantos, segue sua vida acreditando no ser humano. E olha que esses humanos aprontaram muito com ela. Muitas pessoas abusaram de sua boa vontade e ingenuidade.

Mas ela segue seu caminho deixando-os de lado, não guardando mágoas nem rancor. Sabe que cada um colhe o que planta. Hoje, a mulher que amadurece mas não perde a ternura da menina, tornou-se motorizada. Anda pela cidade de cadeira elétrica. As rodas tornaram-se extensão de suas pernas. Destemida, não pára diante das mazelas que a cidade – despreparada para recebê-la, lhe apresenta. Com dificuldades, formou-se em Artes Visuais. Apenas um certificado para representar sua arte e talento que dispensa qualquer qualificação. De irmã mais velha, tornei-me sua melhor amiga. Somos grandes parceiras de vida. Somos confidentes e fortaleza uma da outra.

Irmã caçula, filha de coração, companheira de uma vida. Hoje é seu dia de abrir o coração para o Universo e agradecer por tudo e por todos que atravessaram seu caminho. Todos contribuíram para o que você é hoje. Essa é minha homenagem a você menina/mulher/guerreira, por fazer meus dias terem um colorido especial.

Feliz aniversário irmã!

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Mulher invisível

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Dizem que, ao envelhecer, encolhemos. Suspeito que tornei-me anciã e, pouco a pouco, torno-me invisível.

Nessa nossa sociedade patologicamente plugada ao seu smartphone, torna-se cada dia mais difícil manter uma convivência como nos “antigamente”. Sempre tive o hábito de cumprimentar a todos nas empresas onde trabalhei. Do porteiro ao diretor. Nunca fiz distinção. Fui educada por meus pais – que nem terminaram o primário, a usar de cortesia e sempre esboçar um sorriso sincero ao cumprimentar as pessoas assim que chego ao recinto.

Hoje em dia, sorrio e falo com o vento, as paredes, as janelas, o assoalho. As plantas me respondem avivando sua tonalidade verde. Algumas flores até se viram para mim, como que sorrindo e agradecendo minha atenção para com elas.

É. Além de tudo devo de estar sofrendo de alguma doença mental. Como diziam os antigos a quem tenho me referido, “mente fraca”. Se penso que as plantas me respondem a um cumprimento, a coisa deve de estar feia pro meu lado.

Cada dia que passa, sinto-me mais e mais deslocada nessa comunidade a que pertenço mas que, ao que parece, devo estar me distanciando. Olho, ninguém me olha. Passam reto. Cumprimento e sorrio, as pessoas continuam com suas feições endurecidas e nem ao menos soltam um suave grunhido como fazem os tímidos. Silêncio absoluto! O que acontece? Cadê aquela animação para formar roda de amigos e conhecidos e passar horas de conversação, risadas, olho no olho e o desejo de se encontrar muito em breve para dar continuidade ao bate papo?

Outro dia, fui visitar família. Confesso que saí de lá ressentida e frustrada. Minha vontade era tanta em conversar e matar saudade no entanto, percebi que a programação da TV estava mais interessante que minha insistência em manter uma conversa animada e contar as novidades. Pouco a pouco, fui murchando. Silenciei e saí à francesa. Fui ao banheiro, lavei o rosto numa inútil intenção de expurgar o gosto ácido da frustração, peguei a bolsa e saí. Elas mal me olharam ao me despedir.

Ninguém mais tem interesse em saber das novidades do outro… A não ser pelas redes sociais que, se postar algo sobre o que anda fazendo, dependendo do que for, ganhará muitos likes e coraçõezinhos e Uaus.

Credo! Isso tudo anda muito chato! Quer saber? Não vejo a hora de completar meu horário aqui no trabalho e dar uma banana bem dada a todos, voltar correndo para meu ninho e me consolar com as séries favoritas da Netflix!

Aqui pra vocês!!

Imagem: Pocho

Vivas ao Peixinho!

Ano de 1965, dia treze de março. Para a maioria das pessoas que seguiam suas vidas, era um dia como qualquer outro. Sem novidades. Corriqueiro. Na minha família, era um dia especial pois chegava uma pessoa que enriqueceria a vida familiar. Meu irmão!

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Primeiro e único! Crescemos naquela rua comandada por um bando de crianças. Dividindo brinquedos, brincadeiras, aprontamos muito juntos, rimos muito também. Dividimos castigo um de frente ao outro onde revezávamos choro e risadas. Sendo briguenta desde cedo, o defendi da molecada muitas vezes na saída do colégio. eu e meu mano ricardoMexeu com meu irmão, mexeu comigo e dá-lhe bronca porque nunca fui menina de levar desaforo pra casa. Brigamos muito também afinal, quem nunca brigou com seus irmãos? Na adolescência, cheguei a achá-lo um chato! Chato mesmo, daqueles que pegam no seu pé. E eu estava descobrindo o sexo oposto e adorava paquerar. E lá vinha meu mano jogando água na minha fervura, falando mal do gajo visado da vez, ameaçando contar pro papai e pra mamãe. Chato! Houve um ano que ficamos sem nos falarmos. Sem nos olharmos. Foi um ano muito difícil para mim. E hoje, acredito que para ele também afinal, sei que por baixo daquela carcaça dura que criou ao seu redor, ele carrega um coração incrível e repleto de emoções. Na fase adulta nos reaproximamos e ano após ano, nos tornamos mais e mais amigos, companheiros, cúmplices. Apesar de morar em outra cidade e passarmos bons meses sem nos vermos, nossa sintonia emocional nos mantém conectados. E vamos combinar que a tecnologia ajuda muito a encurtar distâncias. O importante, é manter a chama do nosso amor sempre acesa alimentando com orações, mentalizações, troca de mensagens carinhosas e verdadeiras. Sinto-me privilegiada em ter irmãos tão queridos e que, independente das diferenças, respeitamos uns aos outros e procuramos ajudar no que for necessário. Mano Ricardo, acordei pensando em você e no quanto sou feliz em tê-lo ao meu lado. Que possamos percorrer essa caminhada da vida de forma alegre, sincronizados nos sentimentos e vez ou outra, nos abraçarmos fisicamente materializando todo nosso sentimento recíproco. Ter irmão é bom demais! Ter irmãomigo, é viver no paraíso aqui, em plena Terra! Saúde mano!!

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50 calendários rodados. Ou a danada está chegando. Ou simplesmente: virei a esquina da vida

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Fui adaptando meus sentidos aos barulhos matutinos. Primeiro ouvi o motor de um caminhão que subia a rua de forma ruidosa. Parecia que perdia o fôlego naquela subida íngreme. Depois, ouvi vozes de dois homens que desciam a rua numa conversa animada sobre o que fizeram no final de semana. Aos poucos as vozes foram se afastando até se transformarem num ruído incompreensível. Continuei de olhos fechados. Ainda não queria ter contato com a realidade de mais um dia.
Após leve soneca, voltei à realidade ouvindo o assobio de alguém que parecia feliz por mais um dia de vida.
Não era o meu caso.
Irritada, virei para o outro lado da cama e cobri a cabeça com o lençol. A claridade matutina já invadia meu território.

Por mais que cobrisse a cabeça e cerrasse meus olhos, não conseguia ficar protegida na escuridão.
Teimava em não retornar à vida cotidiana. Não queria abrir os olhos e ver que tudo continuava como ontem, anteontem, transdontem…
Queria ter o poder de evaporar naquele quarto. Desejava ardentemente que um buraco se abrisse e me engolisse levando-me para a Terra do Nunca. E que lá, fosse levada para a masmorra da solidão eterna. Talvez só assim conseguisse a paz tão sonhada.
A serenidade tão almejada.
O não ser.
O nada.
Gostaria imensamente de sofrer um súbito Mal de Alzheimer galopante que apagasse de vez toda a memória que guardo em meu íntimo.
Cabeça pensante sofre muito, não esquece nada. Isso é tortura!
Já pensou? Limpar completamente os espaços de nossa memória. Deixando os arquivos vazios, leves, onde soprasse uma suave brisa o tempo todo! Seria tão…Tão aliviante! Não sentir dor de espécie alguma. Nem física muito menos emocional.
Não quero pensar. Não por hora. Continuo de olhos cerrados e mentalizo o vazio do universo.
Por instantes consigo vagar pela ausência de coisas. Flutuando por entre nuvens, sentindo o bafo cósmico em minha nuca. Aprecio o som do nada. É belo e harmonioso!
Dura pouco.
O som estridente do despertador invade o quarto quebrando o tão almejado silêncio.
Permaneço de olhos fechados. Me recuso a voltar à realidade. Em pouco tempo meu quarto é invadido por vozes agudas e alegres de meus filhos:
– Acorda véia! Levanta pra completar seus anos de vida! – grita Gustavo, de 15 anos.
– Vai mãe! Abre os olhos! Quero te abraçar e desejar feliz aniversário! Tá ficando velhaaa!!!! – completa Gisele, minha princesa de 14.
– Ohhhhh minha véia querida! Vem pra realidade! Ou acha que só eu envelheço? – diz Francisco, meu marido,
E todos caem na cama abraçando, espalhando beijos por todo lado, fazendo cócegas, descabelando e me envolvendo num carinho sem fim.
Com tanto afeto, como posso estar me sentindo tão infeliz? Tenho o que muitas mulheres almejaram a vida inteira: casamento bem estruturado, filhos lindos e saudáveis, um companheiro que me ama e procura sempre dar o melhor pra mim, uma situação financeira senão invejável, pelo menos tranquila. Sou uma mulher bonita, bem cuidada, tenho uma profissão estável…
Onde foi que me perdi? Porque essa inquietação e vontade de sumir do planeta? De sair por essa porta e nunca mais voltar?
Uma vontade absurda de gritar me invade e aos poucos, uma careta vai se formando. Vontade de gritar ao mundo que a vida passou rápida demais. Em poucas piscadas ,cinquenta anos se passaram e nem tive tempo quase de absorver as coisas boas que ela, a vida, me proporcionou. E agora observo que não tem volta. Não é como um vídeo VHS que podemos voltar quantas vezes quiser e retornar ao momento mais lindo do filme. A vida não tem replay!

Casei, tive filhos, eles cresceram e eu quase não vi o dia a dia deles devido a minha dedicação à profissão. Ser médica é maravilhoso! Não me arrependo de nada em minhas escolhas, mas, como tudo na vida, tem seu preço. E o preço pago foi não ter visto de perto o crescimento de meus rebentos.

Meu marido, o Francisco, que outrora foi um jovem lindo com seus olhos verdes cristalinos e sorriso largo que me conquistou com seu corpo escultural de surfista, hoje não passa de um senhor de meia idade obeso, com uma perda de cabelos avançada e olhos cansados.
Mas seu sorriso continua largo e contagiante! Deus! Como ainda amo esse homem! E meus filhos então? Jovens lindos, cheios de vida, saudáveis e que só me dão alegrias! Minha família é linda e têm paciência comigo que vivo sempre enfurnada em meus casos difíceis da UTI em que trabalho.
A careta vai se intensificando até que se desmancha num choro esparramado. Todos param de sorrir e ficam a me olhar de forma espantada. Choro de forma desesperada e não consigo parar. Gesticulo chamando-os para perto de mim. Beijo e abraço cada um e, entre soluços intensos e uma fracassada tentativa de sorrir consigo dizer: Obrigada Meu Deus! Obrigada família linda!
Francisco sai de meu abraço em silêncio e se ausenta por alguns segundos do quarto. O choro pouco a pouco vai se acalmando. Meus filhos se revezam no acalento que fazem em minha cabeça tombada na cama. Sinto uma mescla de vergonha, alívio e alegria.
– Regina, meu amor, olhe pra mim. Feliz aniversário! Vida longa à mulher que me faz sentir o homem mais feliz do mundo!
Enxugo os olhos congestionados e olho para ele que trás em suas mãos um pequeno pacote luxuoso.
Abrindo, vejo um lindo brilhante. Volto a me emocionar.
– Regina, esse é apenas um pequeno mimo que representa todo meu amor e carinho por você. Obrigada por existir e me fazer feliz.
Uma última lágrima escorre pela face levando embora toda a tristeza, um sorriso se esboça e abrindo meus braços, recebo minha família .
– Estou ficando velha! Cinquenta anos! Nunca pensei que fosse chegar a essa idade!
– Eu já estou com cinquenta e sete! Qual o problema?
– Nenhum problema Chico! Foi só uma reação momentânea que tive. Vamos dizer que tive uma virose emocional! Passou!
– Mãe vai por mim, de velha você não tem nada! Lindona, de virar o pescoço dos homens e mulheres. Cheia de vida e pique total pra tudo.
– É isso mesmo mãe. Minhas amigas sempre comentam o quanto você é linda e conservada. Elas têm a maior admiração por você.
– Vamos deixar de papo furado e descer para tomarmos juntos o café da manhã? E olha, prepare-se, pois o desjejum será especial hoje em homenagem à você, guerreira!

Imagem: Google

Família…

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Administrar conflitos não é das tarefas mais fáceis nem das mais gostosas de se executar. No seio familiar então, quando todos têm uma intimidade maior, aí sim se dá embates homéricos. Certa vez alguém teve a seguinte sacada, não me recordo quem mas tornou-se verdade absoluta: Família só muda de endereço. Santa verdade Batman!!

Tenho observado o comportamento das pessoas mais próximas – mais especificamente, família, e tenho visto as atitudes que cada uma toma diante dos problemas enfrentados.

A tensão tornou-se uma constante na postura, nos gestos, nas feições endurecidas, no olhar desprovido de alegria e embaçado por lágrimas. Ataques verbais cada dia mais presentes, fúria contida pela dita “civilidade”.

Eu que sempre me achei ponderada, tranquila, otimista, tenho apresentado comportamento agressivo com determinadas pessoas que têm me irritado muito. Pessoas que tenho plena consciência, amo, no entanto, diante de suas fraquezas na qual enxergo a minha própria, desperta-me raiva.

Quero gritar minha ira, minha revolta, meu descontentamento porém, nem mesmo o hálito quente da garganta sai. E o sentimento inquieto, incômodo, indesejado cresce feito fermento biológico em descanso. Sinto que vai transbordar.

Tenho preso às pernas grilhões invisíveis que as teias familiares formam. Em alguns momentos, gostaria de me ver livre de todos, sair sozinha pelo mundo. Deixar para trás passado e presente. Arrancar a carcaça que vesti até agora e trocar por outra mais leve, menos embrutecida. Zerar.

Sair pelo mundo aprendendo coisas novas, língua nova, hábitos novos. Desvendar outras culturas.Degustar outros sabores.

Então, caio na real e vejo que a única lição a ser aprendida é Aceitação. Da vida como ela é e não como gostaríamos que fosse, das pessoas com o que elas têm a nos oferecer e não como réplicas de nós mesmo. Dos problemas que na realidade, são fases a serem superadas com sabedoria e não com chororô de criança mimada.

Diante desse insight, curvo-me envergonhada por tudo o que venho sentindo. Sei o que devo fazer mas ainda assim, emperro meus passos atrasando minha evolução