Sismos

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Sonho. E no transe desse sonho, sinto tremores. A cama, mole feito gelatina me devolve à vida. A vida, por questão de segundos, mostra que tudo trepida. Lustres pendentes brincam de balanço. Vão pra lá e pra cá num ruído que amedronta. O quarto, uma grande montanha russa. O piso movimenta-se causando náusea sem fim no meu epicentro. Vomito.

A louça na cozinha mais parece pipoca pulando na panela. Cacos por todo lado e o som de tudo se movendo. É sinistro. Quadros são arremessados da parede, TV escorrega do rack, janelas explodem. A mistura de sons causam-me pânico mas não consigo pensar em nada. Muito menos, sair do lugar. Permaneço. Observo. Ouço. Sinto…

O mundo de outros desabando sobre meu mundo. Corpos tomando o espaço do meu corpo. É um peso muito grande! Ouço gemidos abafados ao meu redor. Trago a garganta fechada, seca e meus olhos serrados. Não tenho certeza se me encontro viva ou morta. Continuo inerte, submersa num mar de entulhos. Os sons que chegam até meus ouvidos empoeirentos são confusos. Nada distingo.

Aqui, onde me encontro, continuo a sentir tremores. Ao redor e dentro de mim. Tremo de medo pela primeira vez. Tremo por minha vida e dos outros que, reunidos, formamos um coro de desesperados.

Espero. Imóvel, aguardo ser resgatada. Não importando mais se viva ou morta.

Mais tremor. Agora promovido pelos tratores que vasculham os escombros do que um dia foi uma cidade. Curioso! Não sinto medo, não sinto frio, nem calor…Não sinto dor. Faço parte agora do imenso nada.Terei voltado a ser molécula no espaço? Confusa demais para filosofar, mantenho-me stand by. Não tenho escolha, portanto, mantenho-me calada. Boca e espírito . Não tenho ideia de quanto tempo permaneço nessa posição. Não sei se é dia ou noite. Não sei se desistiram de nós. Algumas vozes se calaram. Será a morte esse grande silêncccccc??..

Entrondo!

Ahhh!! ÚÚHh!!

Um sobrevivente! Um sobrevivente!! – grita um bombeiro acompanhado de um cão que teima em me lamber. É quente. É úmido. O medo volta com força total e, liberta do concreto que me oprimia, grito com todas as forças de meus falidos pulmões.

Deveria de me sentir feliz por ser resgatada mas, o medo toma conta de mim. Enquanto estava lá embaixo, tinha companhia. O que será de mim depois que a tormenta passar e não tiver restado nada nem ninguém? Como viver com esse peso da vida?

Choro. Pela primeira vez choro muito. Lágrimas misturadas com sangue e outros fluídos. Meus e dos outros que jamais se reerguerão. Braços me envolvem delicadamente, uma voz embargada pronuncia em meus ouvidos palavras de reconforto tentando me acalmar.

Tremo. De frio, de dor, de não saber meu futuro. Terei algum? Tremo novamente. Agora de convulsão. Sou colocada numa maca e sigo para hospital mais próximo. A estrada está péssima. Ambulância sacoleja.

Vida que segue t(r)emendo o amanhã.

Imagem: Google

 

Descobri-me carneiro

DSC01493Em plena manhã ensolarada, uma tormenta se aproxima de mim e em pouco tempo, deságuo. Tento disfarçar minha umidade, mas não obtenho sucesso e as pessoas ao meu redor começam a olhar e comentar baixinho entre si. Outras, mais discretas apenas me olham de soslaio e abaixam a cabeça ou desviam o olhar atravessando a janela do coletivo perdendo-se na paisagem urbana. Uma dor que não consigo medir nem descrever toma conta de meu peito que parece pequeno para acomodar um coração que está prestes a explodir. Estarei enfartando penso eu num breve momento de lucidez. Estarei prestes a morrer? Tantos morrem seguindo para seu trabalho. Farei parte dessa estatística?

Uma sirene grita pedindo que abram espaço num trânsito transbordando de tantos tanques urbanos que tomam espaço de três carros na avenida. Os motoristas olham-se assustados, irritados, pois não tem pra onde sair para deixar a ambulância passar. Seu grito continua ecoando fazendo trilha sonora ao meu sofrimento. Choro e minhas lágrimas quentes abrem brecha numa esperança de servir de caminho para aquele que tenta sobreviver dentro da ambulância. Inútil eu sei, no entanto, prefiro pensar que ajudo de alguma forma a salvar uma vida.

Quero parar de chorar mas não consigo. Para completar, o ônibus faz uma parada num ponto em frente ao cemitério Redentor e uma canção começa a tocar no rádio Say a little prayer for you…

A tormenta volta com força total e me encolho no canto próximo à janela numa tentativa de tornar-me invisível. Parece que absorvi toda dor existente no mundo e meu peito não tem espaço suficiente para abarcar tamanha dor.

– Moça, moça, tudo bem? Já chegamos à Avenida Paulista. Ponto final. Sei que desce sempre aqui. Todo mundo já desceu.

Com muito esforço saio da neblina que me encontro e ainda com dificuldades em respirar, retorno à realidade. Agradeço o cobrador por se lembrar de mim e me avisar. Desço e tropegamente inicio minha caminhada até a empresa onde uma série de atividades me aguarda. Preciso recuperar a lucidez e despir a vestimenta de carneiro. Pelo menos por hora, voltar a ser humana.

a imensidao intima dos carneirosMarcelo Maluf, você foi o responsável por esse “mico” que paguei em plena luz do dia por volta das 8h43 da manhã dessa quarta-feira. Mais pessoas engrossarão o cordão dos que me acham doida por cantar e chorar e ler e voltar a cantar e chorar em público. Lendo o seu livro recém-lançado A imensidão íntima dos carneiros, me catapultou para uma realidade lindamente dolorosa e sofri toda a dor de seus antepassados que nada mais é, que a dor de toda a humanidade condensada nos seus. Você teve o dom de me transformar em um dos carneiros e pude vivenciar todo esse universo de sensações e dores que fazem de nós, medonhamente humanos.

Você fala no medo que é matéria palpável em todos que passamos por essa vida terrena e isso, torna seu romance universal. Parabéns! Tenho certeza que ele será compreendido em todas as nacionalidades que ele porventura venha a ser traduzido. Sua linda história familiar já é um sucesso por ter sido tramada com pontos tão finos e delicados que mesmo um ogro, ao ler suas páginas, verão seus corações empedernidos desmancharem com tamanha beleza e verdade. Ainda agora, de frente a tela de meu computador no trabalho, escrevendo essas linhas finais, emociono-me. O belo também nos faz chorar!

Título: A imensidão íntima dos carneiros

Autor: Marcelo Maluf

Editora: Reformatório

Ano: 2015

Leia um trecho: http://sidengo.com/imensidaointima

Book trailer: https://youtu.be/XKgfVqrDeJs

Dieta certeira

Woman Drinking With Cat

Maria das Dores Eterno, mais conhecida como Dorinha, desde que se conhecia por gente vivia em dietas. A partir dos dezoito anos não parou mais de passar de uma para outra de forma maratonal. Se é que isso é possível. Ela fazia ser! Fazia assinatura das revistas que tratavam do assunto, assistia na TV tudo o que passava.

O que não dava tempo, gravava para ver depois. Com o advento da internet, virou internauta das mais fissuradas. Se especializou tanto no assunto que se transformou na guru das amigas e colegas de trabalho. Passou a dar consultoria em seu horário de almoço em pleno refeitório. Olhava as marmitas como verdadeira arqueóloga analisando calorias, proteínas, vitaminas e tudo o que faz de uma boa refeição um prato saudável. Muitas moças seguiram seus conselhos à risca e conseguiram bons resultados.

Em pouco tempo ganhou fama, notoriedade, até um blog criou e de lambança, muitos quilos extras. Já beirando os 110 quilos muito bem distribuídos ao redor de seus pneus bem calibrados e de seu pescoço inflado, procurou desesperadamente ajuda médica.

Expôs detalhadamente sua eterna batalha contra o peso e seu conhecimento aplicado que de nada lhe adiantava.

O médico – em silêncio analítico – após uns segundos recomendou tratamento a base de medicação e ao término aconselhou-a:

– Dona Maria das Dor…

– Dorinha, por favor! Eu prefiro.

– Perfeitamente Dorinha, siga minha orientação e aproveite e marque uma consulta com um bom terapeuta.

Se não conhecer ninguém, posso indicar uns três de minha confiança e que já trabalho junto com alguns pacientes.

Com expressão de estranhamento, Dorinha inquiriu o porquê do médico endócrino recomendar um acompanhamento terapêutico afinal, ela não era doida!

– Dorinha, muitas vezes, nosso excesso de peso está ligado diretamente ao emocional que por ene motivos se encontra em desequilíbrio. Se você já seguiu inúmeras dietas e nada conseguiu, pode ser que a chance de seu excesso de peso esteja ligado ao emocional. Não se trata de loucura mas sim de acertas as arestas do suas emoções e de como lidar com elas. Compreende?

– Sim, acho que sim. Doutor, tenho um pouco de medo de lidar com essas coisas mas passe o endereço que prometo marcar.

Após alguns dias em dúvida se ligava ou não, Dorinha respirou fundo e ligou marcando para aquele final de dia mesmo. Ao chegar ao consultório, entrou ressabiada com o que encontraria lá. Em segundos acalmou-se pois o consultório era como tantos outros que já entrara. Silêncio na sala de espera e ao fundo, uma música de Norah Jones tornava o ambiente mais aconchegante. Um som de porta se abrindo e em pouco tempo, surge uma jovem mulher que se posiciona à sua frente e com delicadeza oriental pergunta:

– Maria das Dores?

– Só Dorinha, por favor.

– Perfeito! Dorinha é mais carinhoso e torna nosso primeiro encontro mais tranquilo. Meu nome é Sônia, sou psicanalista da linha yunguiana e a partir de hoje sou toda ouvidos para você. Me acompanhe.

As sessões foram passando juntamente com as semanas, meses, um ano. Algumas delas foram terrivelmente sofridas levando Dorinha a quase desistir da terapia. No entanto, Sônia foi sempre uma mão preciosa estendida à pobre e sofrida mulher. Outras tantas sessões foram leves, engraçadas e assim, pouco a pouco, o equilíbrio foi se estabelecendo.

Vinte e seis de agosto, terça-feira. Dia de mais uma terapia. Dorinha se encontra um pouco ansiosa. Sente que hoje será de alguma forma diferente. A porta se abre e uma voz chama Dorinha, que se levanta pesadamente e some por trás da porta.

– Como passou a semana?

– Mais ou menos. Tenho momentos de leveza permeado de tantos outros que parecem pesar mais que eu.

Sinto dores horríveis pelo corpo. À noite quase não tenho conseguido dormir por conta dessas dores.

Minha irmã mais nova, Maria dos Prazeres, vive rindo de mim dizendo que nossos pais escolheram nossos nomes a dedo. E que personifico muito bem o significado de meu nome. Assim como o dela.

Olhando-a profundamente por alguns segundos, Sônia sorri e diz calmamente:

– Dorinha, ainda vamos trabalhar muito essa sua relação com sua irmã e o significado de seus nomes. Hoje, o que tenho a dizer e que quero muito contar com sua ajuda, é o seguinte: acredito que descobri a origem de sua obesidade.

– Sério mesmo? Descobriu? Vou poder agora emagrecer e me sentir mais leve? Ahh… Graças a Deus! Graças à você. Mas me diz,o que descobriu?

– Nesses meses em que temos nos encontrado semanalmente, tenho formado um verdadeiro mosaico de você e sua vida(familiar, profissional, pessoal) e acredito ter achado um ponto em comum que liga todos.

– Fala Sônia!

– Seu nome, sem dúvida de alguma forma é um peso em você. Tanto que prefere ser chamada por Dorinha, que soa mais leve, mais amistoso. Você seguiu direitinho. Quanto a isso está de parabéns pois demonstra disciplina em tudo o que faz. No entanto, observei que desde sua infância você devora de forma constante um alimento que entope, que incha e que talvez seja o motivo de toda sua gordura: você se alimenta de forma quase instantânea de sapos.

– Como assim? Não entendi? Não costumo comer rãs.

– Não disse rãs Dorinha. Disse sapos. Você é uma tremenda devoradora de sapos. Engole todos. Isso está te fazendo mal. Silêncio absoluto na sala.

Dorinha parece uma estátua não movendo nenhum músculo. Nem mesmo sua respiração se percebe.

Sônia aguarda respeitando o momento de intervir. Somente o tic-tac do relógio se manifesta.

Gradualmente a máscara gélida vai se derretendo e, de pálida, passa a um colorido carmin. Lábios trêmulos e olhar apertado. Um choro manso e quase silencioso começa a brotar até transformar-se num desespero pleno.

Sônia continua em silêncio. Essa desintoxicação se faz necessária para que a paciente descarregue toda essa comilança mal digerida de atitudes que tanto lhe fizeram mal. Muitos de nós, no dia a dia faz dessa dieta certeira, o combustível nefasto para inflar nosso interior, nosso corpo que nada mais é, que reflexo de tudo o que nos faz bem ou mal.

 

Imagem: Fernando Botero

Águas turbulentas

O sol escaldante mexe com o comportamento humano. Alguns ficam calientes no quesito sexual. Com a visualização constante de corpos ardentes, morenos e suados à vista, a vontade de copular aumenta sensivelmente. Outros, se deixam dominar pela doce moleza que a alta temperatura proporciona. Daí, só desejam deitar numa rede e, assim como Caymmi, curtir uma boa preguiça ouvindo uma suave música, fechar os olhos e se deixar levar pelo mundo dos sonhos

Outros tantos, irritados com temperaturas elevadas, tornam-se insuportáveis elevando sua temperatura interior a níveis desagradáveis para as demais pessoas com as quais convive.

Era o que acontecia com Dalila, Sofia, Lorena e Bernadete. Confinadas numa casa na praia Brava de Guaeca, São Sebastião. Toda aquela visão paradisíaca não encobria as tormentas que aconteciam no interior de cada uma delas.

Personalidades fortes, carregadas de fantasmas que as atormentavam desde sempre, pouco a pouco, seus espinhos se mostravam a cada hora vivida em conjunto, uma vez que se encontravam confinadas para um feriado prolongado. Teriam de se aguentar até que viessem buscá-las na data combinada.

Dalila, tímida que era, se esforçava para se adaptar ao convívio coletivo com estranhas. Sofia, a descontraída do grupo, já dava mostrar de ter se arrependido de vir na companhia delas a esse paraíso. Eram pesadas por demais!

Lorena, séria, metódica, preocupada por natureza não conseguia se descontrair e esquecer as tarefas cotidianas que deixara na cidade. Sua mente pensava o tempo todo nos afazeres deixados para trás. Desconhecia por completo a palavra desestressar. O tempo todo buscando deixar em ordem o quarto que dividia com Bernadete que era o seu oposto.

Bernadete, a mais jovem das quatro, era mimada, infantil, irresponsável e muito, mas muito irritável e irritante. Desorganizada que era, largava tudo pelo caminho deixando Lorena de cabelos em pé. A “Senhora Ordem” não sabia até quando aguentaria conviver com essa criatura insuportável.

Dalila permanecia observando o comportamento das demais e, por medo de se tornar desagradável, mantinha-se muda só concordando com a cabeça com o que as demais decidiam, Dava muito trabalho discordar e tentar impor sua forma de pensar e agir. No entanto, já ansiava por aquele feriado terminar e poder regressar para seu quarto, seus livros, sua vida.

Sofia já dava mostra de que sua carga de alegria sempre inabalável, se encontrava na reserva. Pensava consigo à noite na cama: “Onde fui amarrar meu burro? Mulheres mais sem sal e tempero! Não sabem aproveitar as boas coisas que a vida proporciona. Imagina, um paraíso feito esse e essas aí só sabem brigar entre si, cobrar uma da outra coisas tão pequenas. Não sabem o verdadeiro valor da alegria, não sabem usar a lente da leveza”.

Lorena ruminava os pensamentos: “Deus do céu, será que deixei as contas do açougue pagas? E a consulta com doutor Acary, puxa vida, precisava ter marcado. Não posso me esquecer de ligar para ele assim que chegar. Inferno de lugar que não tem internet. Poderia estar adiantando um monte de coisas por aqui. Mas paciência né? Quem mandou eu me meter nessa furada. Um dia aprendo. Ah! Se aprendo! Sair com desconhecidos nunca mais! Inferno, não aguento mais ouvir a voz dessa imbecil que velha, age e fala feito uma criança de quatro anos. Vontade de descer o sarrafo na bunda dela. Nunca deve ter apanhado de criança. Taí, o resultado de muitos mimos e nenhuma vara na bunda. Tornou-se essa criatura desagradável que ninguém aguenta. Senhor! E o pior é que se acha o umbigo do universo! Só ela é importante, só o que ela deseja é o que vale, só seus gostos se sobressaem… Não sei até quando vou aguentar dividir o mesmo espaço que ela”.

Os dias foram se arrastando e levando junto as boas maneiras que aprenderam no mundo civilizado. Em quatro dias de confinamento, já gritavam umas com as outras, jogavam o que viam pela frente, chutavam os móveis e choravam desesperadamente até dormirem vencidas pelo cansaço. Os dias seguintes, imperou um silêncio sepulcral entre as quatro. Só falavam o mais que necessário e não se olhavam. Até que no quinto dia, o céu desabou num temporal assustador tirando todas daquele mutismo. Olharam-se com real preocupação vendo que as janelas e portas daquela casa tremiam a cada trovão e relâmpago que caia. A força das águas era medonha. O céu parecia revoltado com a humanidade. Revoltado com elas, que não souberam se tolerar e não mereceram aquele pedaço de paraíso. O Senhor das Tempestades urrava sua ira com todas as forças. Em pouco tempo, as águas começaram a invadir a casa e levar tudo com elas. Assustadas, subiram para o andar de cima da casa e permaneceram juntas, agarradas umas as outras.

Pela primeira vez tinham algo em comum: o medo. E foi justamente através dele que todas se uniram para sobreviverem. Permaneceram em oração, de mãos dadas, pedindo ao Pai Poderoso que as amparassem e as salvassem daquela tormenta.

Após duas horas de chuva intensa, as águas foram se acalmando até se transformarem num chuvisco leve. O silêncio imperou naquele pedaço de terra.

Sofia, a mais tímida, pela primeira vez falou determinada:

– Tudo bem com todas? Olha, a tormenta se foi e precisamos de coragem para descer, ver os estragos feito pelas águas e tomar providências para a limpeza e ordem das coisas no lugar. Depois também precisamos ver como ficou a estrada que dá acesso ao barco que nos vira buscar e se constatarmos que ficou tudo danificado, daremos um jeito de pedir ajuda com sinais de S.O.S. ou coisa que o valha. Precisamos ficar unidas pelo menos agora por uma única questão: sobrevivência. Entenderam?

Todas se olharam desarmadas e concordaram com a cabeça. Após essa trégua, trabalharam muito para limpar o andar da casa que tinha sofrido muito. Limparam toda a sujeira, repuseram os móveis no lugar, jogaram fora o que se estragou, secaram tudo na medida do possível e, exaustas, sentaram no degrau na escada de entrada e em silêncio permaceram mais um pouco. Repunham suas energias e pensavam em tudo o que vivenciaram naqueles dias. A tormenta parecia se acalmar também em seus íntimos.

Bernadete foi a primeira a falar:

– Lorena, desculpa minha infantilidade. Não guarde raiva de mim não. Sei que sou horrível, um monstro mesmo. Não sei nem porque ainda vivo se todos me odeiam. Por favor, me perdoa!

Lorena permaneceu alguns minutos calada, de olhos baixos. Depois disse:

– Bernadete, você realmente é uma pessoa irritante, não nego. Mas também não sou uma pessoa fácil. Sou mandona por natureza, sou inflexível, metódica, tenho mania de organização e limpeza e costumo ser irredutível em minhas atitudes. Também sou considerada por muitos um monstro. E também possuo um fã clube considerável. Por favor, queira você também me perdoar. Ter dividido o quarto comigo esses dias também não deve ter sido nada fácil pra você.

Sofia que até então olhava para o lado contrário de onde as demais se encontravam, também se manifestou:

– Dalila, sua timidez excessiva me deixou muito incomodada por todos esses dias. A minha alegria de viver não encontrava eco em sua pessoa. Nada do que falava parecia tocar você, que sempre me olhava de soslaio e me respondia com seu pesado silêncio ou quando muito, com respostas baixas e lacônicas. Queria muito ouvir sua gargalhada alta e o máximo que conseguia extrair de você era um esboço tímido de sorriso sem dentes. Simplesmente me deixava agoniada! Sei que em minha alegria compulsiva de vida, não enxergava sua figura tímida e delicada. Talvez fosse só eu baixar um pouco minha taxa de adrenalina para me adequar a sua personalidade. Fui incapaz disso. Me perdoa?

Dalila, com seus doces olhos marejados, fungou um pouco antes de esboçar sua mansa voz:

– Sofia, eu é que devo pedir desculpas à você. Com tanta alegria de viver dentro de si, merecia ter como companhia alguém mais descontraída, mais extrovertida que eu, que não passo de uma sombra em vida. Pareço foto desbotada pelo tempo. Sempre te observava e admirava sua personalidade esfuziante. Queria ter um terço de sua alegria e descontração e um terço também de sua espontaneidade. Sempre admirei pessoas como você mas nunca consegui ser assim. Meu universo é introvertido, todo pra dentro de mim. Não consigo me soltar e expôr o que sinto aos outros. Sempre temo pelo que o outro vai pensar de mim. Por favor, me perdoa!

E dizendo isso, saiu de seu lugar e abraçou Sofia que, tocada pela sinceridade da companheira de quarto, se deixou levar pela emoção e ambas choraram juntas.

Tocadas pela mesma emoção, Bernadete e Lorena também se abraçaram e choraram juntas por alguns minutos. As lágrimas levando para longe todo estranhamento dos dias. Sentiam-se leves, perdoadas em sua pequenez humana, redimidas diante da vida.

Pela primeira vez, todas juntas fizeram a refeição e comeram juntas, sorridentes, felizes e leves. Pela primeira vez olhando-se nos olhos e enxergando a verdadeira essência de cada mulher ali presente.

Na data combinada, seu Orlando chegou com o barco para buscar o grupo feminino que havia trazido dias atrás.

– Bom dia senhoras e senhoritas! Tudo bem por aqui? A chuva fez muito estrago? Se assustaram muito?

Sorridentes entraram no barco e Dalila, que entrou por último disse:

– Seu Orlando, bendita chuva! Abençoada tempestade que chegou, lavou e levou tudo o que não prestava mais. Estamos bem graças a Deus e a essa boa chuva!

– Não tiveram medo? A tempestade foi das grandes. Até fiquei preocupado com vocês aqui sozinhas.

– Medo? Sim. No início tivemos muito mas muito medo mas depois, ela só nos trouxe alegria e leveza seu Orlando. Olha só como estamos voltando mais leves para casa. – comentou Sofia rindo gostosamente ao término de sua fala.

– Não me esquecerei jamais desses dias aqui seu Orlando. Foi realmente um divisor de águas em minha… Não, em nossas vidas! – disse Lorena também sorrindo e olhando a todas.

– Elas têm razão seu Orlando, esses dias mudaram nossas vidas. Definitivamente. Cheguei mimada e cheia das vontades e infantilidades. Saio hoje uma mulher madura e cheia de confiança em meu futuro. Santa água que caiu seu Orlando! – respondeu Bernadete olhando as demais companheiras e sorrindo com olhos marejados abraçou a todas dentro do barco.

Coçando a careca, seu Orlando nada entendendo do ocorrido entre as mulheres pensou por uns segundos:

“Mulheres! Vá entendê-las! Eu é que não!” – e sorrindo terminou de colocar as bagagens das agora “amigas” e deu início ao retorno a vida real. O paraíso ficando para trás e cada uma levando um pouco do tesouro que descobriram por lá.

O barco sumiu deixando ao longe uma paisagem que guardaria as obsessões de cada uma pra si.

Fobia (codinome Solidão)

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Tenho medo…

De andar sozinha, de andar de elevador, escada rolante, viajar de avião, de navio.

Tenho medo…

De sair na rua à noite, de atender a porta a estranhos, de ir ao caixa eletrônico, de médico, de dentista, de exames ginecológicos.

Passei uma vida inteira com medo de muitas coisas como por exemplo, medo do mar. Fui uma única vez e saí correndo com medo das ondas. Não voltei nunca mais!

Quando moça, queria muito namorar mas quando surgiu a chance, tive medo. Afastei-me do moço deixando-o sem entender nada. Deve ter ficado com muita raiva de mim. Também fiquei…Com muita raiva…De mim.

Passei uma vida trabalhando muito e ajudando o próximo. Cuidar da vida alheia era mais fácil do que cuidar da minha. Não tinha que pensar. Era seguir em frente e fazer algo, pelo outro.

Os anos passaram rápido, a juventude também. Quando dei por mim, enxerguei no espelho uma velha que não conhecia. Uma completa estranha. Tive medo do que vi. Nunca mais olhei-me no espelho! Tirei todos que tinha em casa.

Mais alguns anos se passaram e eis que deparo novamente com algo que me dá muito, mas muito medo mesmo.

Acho que estou doente mas me recuso a procurar um médico. Eles adoram fuçar até achar algo que desgraça com o ser humano. Vou fingir que nada tenho. Mas tenho medo. Muito medo!

Semana passada passei muito mal e os vizinhos me levaram a força a um hospital. Deus do céu, que medo tive!!

Uma correria de médicos, enfermeiras, picadas na veia, máscara de oxigênio, um horror! Pensei ter chegado minha hora. Pânico total.

Mas ele, meu fiel companheiro, estava lá de prontidão. Sua presença marcante me tirou da apatia e reagi à presença sedenta dela, a morte.

Mais alguns dias e retornei a minha casa. Solitária, fui me virando como pude. Alegaram a ida para uma clínica. Lá seria bem atendida, teria companhia de outros idosos. Neguei veemente! Não saberia viver ao lado de estranhos e também, tinha medo do desconhecido.

Tic!Tác!

Tic!Tác!

Tic!Tác!…

De olhos cerrados, encolho o quanto posso debaixo das cobertas. Minha audição já desgastada pelos anos parece que amplia diante dele, o medo, que até então parecia ser minha única companhia.

Mas acho que tem mais alguém aqui comigo. Vontade louca de gritar mas falta-me forças. A garganta se fecha, sinto ardor e o gosto salgado das lágrimas que escorrem de meus olhos cansados e embaçados pelo tempo.

Ouço sons de algo se mexendo. Parece papel, plástico… Ouço passos e nem sei se é em meu quarto ou em outros aposentos.

Taquicardia.

A voz surge numa força que nunca tive. Sai num grito desesperado. Grito até perder novamente a voz e levanto tão rápido chegando a me esquecer do reumatismo que me acomete a anos. Corro e grito pelo quarto, subo na cama sentindo algo se apegar em minhas peludas pernas varizentas.

Ahhhhh!!!!!

Num ato de coragem abro os olhos e o que vejo é uma barata enorme caída de pernas pra cima na cama. Silencio e passo a examinar aquele ser que parece tão assustado quanto eu. Mexe suas pernas e suas antenas num desespero semelhante ao meu.

Aos poucos, vou me acalmando e constato que ela é um ser inofensível. Percebo que eu, naquele quarto fechado, é que sou a ameaça que impera. Tenho o poder de matar, de acabar com uma vida mesmo que essa vida seja de um simples representante da ordem das Blattodeas.

Minha respiração se normaliza e ao amanhecer, já me tornei íntima dessa barata que batizo de Romilda.

Te nomeio Romilda da ordem das Blattodeas, minha fiel companheira,  até que a Senhora das Boas Mortes venha me buscar. Até lá, faça-me companhia, desvia meu pensamento de coisas tenebrosas, ouça meus lamentos e injúrias quieta, sem contestar. Prometo que se assim fizer, deixo esse casarão inteiro para você como recompensa em aguentar essa velha louca e solitária até os últimos dias de sua vida. Aceitas essa missão?

Após minutos que parecem séculos, a barata balança suas antenas numa aceitação de minha proposta.

Sorrio. Posso morrer em paz, agora não sou mais sozinha.

Imagem: Shutterstock

Neur(à)dois

Eu tenho medo!

De que?

Tudo.

Tudo o que?

Tudo!

Especifique.

Tenho medo de viver.

Mas vive!

Mas tenho medo!

Por que?

Não sei, mas tenho.

Já parou pra pensar o motivo?

Muitas vezes.

Chegou a uma conclusão?

Não.

Por que não?

Por que…

Medo!

Calma, respire fundo!

Ei, olhe pra mim!

Não posso.

Pode sim. Levante seus olhos

Não consigo.

Sorria então.

Nem pensar!

Assim fica difícil!

Eu sei. Tô acostumada a ouvir isso de todos.

Vamos combinar que você não facilita. Não ajuda.

Sou caso perdido. Já sei.

Também não é assim. Não vamos ser derrotistas.

É a real. Já ouvi isso de muitos.

(Silêncio entre ambos)

Preciso te confessar uma coisa.

Diz aí

Eu também estou com medo.

De quê?

De te perder.

Humm… Ruim né?

O que?

Ter medo.

Ah, é.

Tem sempre isso?

Não. É a primeira vez.

Culpa minha.

Não!

Sim! Não estou sabendo lidar com você!

Calma, também não é pra tanto.

Sou incompetente.

De forma alguma!

Desculpe, a sessão acabou.

Já? Passou tão rápido!

Também acho.

Bom, então até a próxima semana.

Até. Vai ficar bem?

Acho que sim. Já estou acostumada.

E você?

Não sei, foi a primeira vez

Vai ficar bem. A gente se acostuma.

É… tem algum compromisso agora?

Não.

Tenho uma hora vaga. Vamos tomar um café?

Pensava justamente nisso. Café.

Vamos?

Vamos!

Não quero ficar sozinho. Deu medo.

Não quero ficar sozinha também. Vivo no medo.

Não tenha medo. Me dá sua mão.

Sua mão é macia e quente. Gosto!

Sua mão está gelada e retesada. Relaxe!

É o medo. Fico sempre assim.

Vou pedir um café aromatizado de trufas.

Trufas? adoro trufas!

Por favor! Dois expressos aromatizados de trufas.

Você é casado?

Não.

Eu também não.

Eu sei.

Sabe? Como?

Você me falou na primeira sessão. Esqueceu?

Ah é mesmo!

Você fica muito bonita quando sorri.

E também quando fica corada. Linda!

Pára!

Com o que?

Com isso.

Isso o que?

Me elogiar.

Por que?

Não sei como reagir.

A que?

A elogios.

Sua boba. Gosto de você.

Como? Não entendi.

Fala mais alto e olhe para mim.

Eu também.

Mesmo?

Mesmo.

Vamos tentar?

O que?

Vencer o medo juntos.

Como?

Juntando nossos medos e ver no que dá.

Não sei…

Não sabe?

Não sei..

O que?

Se dá certo.

Pode dar certo.

Mas pode também não dar.

Ah isso lá é.

Então…

Então?

Posso me machucar

Eu também.

Então…

Então? Não quer arriscar?

Arriscar?

Sim!

Dá medo.

É.

Bom tá dando minha hora. Tenho outro paciente.

Tá. Vá andando. Fico de boa.

Mesmo?

Mesmo.

Te vejo então na semana que vem.

Ok.

Pôxa! Se ao menos ela se esforçasse para vencer esse medo. Gosto dela.

Pôxa! Se ao menos conseguisse vencer esse meu medo. Gosto dele.