Era uma vez…

Alfredo Augusto era um ser estranho para os padrões masculinos de sua época.
Seu destino fora fadado e sacramentado no dia em que seu pai, convencido pela rainha Augusta Leocádia Suprema, decretou que sua vontade tinha de ser atendida: o nome de seu rebento seria Alfredo Augusto Pompílio Acertatus Certinhus Obedientis at Mamys Seráfico I.
Não podia dar coisa boa recebendo um nome desses não é mesmo? Não precisa nem mesmo ser vidente ou feiticeiro para prever tal desastre.
O pobre menino rico, desde a mais tenra idade tornou-se o “Insuportável” do reino da Pedra Ilustrata.
As crianças da nobreza só toleravam o infante por severas prescrições da rainha que ameaçou mandar degolar quem desfizesse de seu filho.
Conclusão: todos o toleravam revirando os olhos pelas costas a cada piti que Alfredinho dava. E olha que não foram poucos que deu em sua vida.
À boca pequena, todos comentavam no reino que esse menino não daria boa coisa, logo, não seria um bom candidato a herdar o reino das mãos do pai Tertuliano Boa Pinta. Um bom rei para o seu povo, contudo, nulo no seio familiar, totalmente dominado pela rainha megera.
Os anos se passaram e ao chegar à pré-adolescência, Alfredinho conheceu uma jovem que transformou sua vida: a nobre Abelarda Mão Pesada, filha primogênita do Visconde de Parar o Tempo e sua esposa Dorotéia Minguou.
Abelarda, linda jovem com madeixas negras e lustrosa feito noite mais densa do universo, trazia em seu rosto lunar, um par de esmeraldas em forma de olhos. Menina bonita, mas que tinha um anseio dentro de si que os pais não conseguiam dominar: não era nada feminina.
Mamãe Dorotéia descabelava sua peruca cada vez que via sua linda filha toda suja de terra e de vestido de renda nobre rasgado. E quando ela voltava de seus passeios descalça? Desgosto total!
Mas a nobre já traçava planos para assegurar o futuro de sua primogênita. Após muitas pesquisas online em sua futuríssima bola de cristal Esvarosvisqui 8.1, ficaram sabendo que o melhor partido para Abelarda seria o filho do rei Tertuliano. O petit se encaixava perfeitamente à personalidade dominadora e forte de Abelarda. Formariam o par perfeito!
Abelarda seria a continuação da mãemandona que ele necessitava.
Na primavera daquele ano não notificado, as famílias se reuniram para as devidas apresentações e futuras negociações do enlace.
De início se estranharam um pouco, mas logo perceberam o quanto poderiam dar certo em sua convivência.
De imediato, Abelarda percebeu o quanto Alfredinho era acomodado e mimado. Um “frescalhão”, pensou.
Perfeito! É do jeito que gosto. Vou deitar e rolar e esse bobão nem vai notar.
Alfredo, após algumas conversações com Abelarda, refletiu e chegou a seguinte conclusão:
Perfeito! É do jeito que gosto. Vou deitar e rolar, ficar de boa e essa “sargentona” fará tudo por mim. Estarei no céu!
O casamento foi um dos mais comentados por toda região e por muitos anos as pessoas do reino se lembravam daquelas noites memoráveis de muita festa e bebida à vontade para celebrar a junção das duas importantes famílias.
Os anos passaram num piscar de olhos e eis que o casal teve uma pimpolha que se tornou o centro das atenções do casal e das famílias reais: Anabela.
Menina de brilho interior intenso, olhos espertos, sorriso fácil, inteligente como poucos naquele reino.
O casal, como todo casal que se preze, envelheceu. Cada um a sua maneira.
Abelarda, após a gravidez adquiriu um corpo arredondado e seu rosto que já era lunar, ganhou formato de eterna lua cheia. Seios fartos, traseiro de chamar a atenção, uma pança que ganhava vida própria cada vez que gargalhava.
Alfredo, ao contrário de Abelarda, pouco a pouco perdeu peso e arcou sua estatura se transformando numa triste imagem de homem derrotado pela vida.
Cabelos ralos, olhos caídos, boca em eterna curva para baixo traçava o que ia em seu interior: muita melancolia, enfado, tristeza de viver.
Homem de índole frágil, incapaz de tomar qualquer atitude sobre qualquer coisa. Uma eterna sombra de sua esposa e agora, também estendida a sua filha.
Após a perda de sua progenitora, tornou-se amargo e jamais aceitou o novo casamento de seu pai. Tornara-se um revoltado.
Sua vida agora era se lamentar pelos cantos do reino. Não se interessava pelos assuntos da administração real, não tinha vontade em estudar Relações Internacionais, não tinha nenhuma diplomacia nem interesse de interagir com os demais reinos para alicerçar seu futuro como dirigente. Seu pai se lastimava por ter um filho tão apático, tão sem graça. Apostara todas as fichas em Abelarda, mas no fundo, bem lá no fundo, seu sonho era ver o filho governando de forma brilhante seu reino que cuidara com tanto amor.

Seu único interesse era passar horas jogando na sua telinha mágica. O mundo ao seu redor podia ruir que ele não estava nem aí. Em suas dependências íntimas, Abelarda, já farta de tanta paralisia e falta de ambição do cônjuge, confabulava um destino melhor para si e seu reino. Planejava o sumiço físico de Alfredinho. Um nulo que não faria falta a ninguém.

Farei um favor inclusive ao seu pai que morre a cada dia de desgosto por ter gerado um inútil feito ele. E também farei um favor para Anabela que sempre se constrange toda vez que trago um pretendente para futuro enlace.

A vida seguia normalmente no reino da Pedra Ilustrata. Um mês, três, seis, um ano se passa até que certo dia, durante um festejo alguém faz a seguinte pergunta:

-Gente por onde anda Alfredinho?

Todos param, se olham interrogativamente e logo um burburinho toma conta do local gerando uma preocupação generalizada entre todos inclusive, entre a família real.

-Pois é…Alfredinho, nunca mais tomou o café da manhã comigo, nem me chamou mais para acompanhar com ele um jogo Second Life – balbuciou o pai, o rei Tertuliano Boa Pinta olhando de imediato para Abelarda.

-É mesmo. Ele nunca mais me perturbou com seus comentários insuportáveis sobre minha banha na barriga e minha voz de barítono – falou Abelarda olhando para Anabela.

-Nossa! Papito nunca mais entrou de sopetão em meu quarto para me assustar ou soltar uma de suas inúmeras piadinhas sem graça… Há quanto tempo ele não é visto por alguém?

Tertuliano Boa Pinta convocou todos do reino para que saíssem a procurar de Alfredinho. Semanas se passaram infrutiferamente. Alfredo Augusto, herdeiro do reino de Pedra Ilustrata evaporou sem deixar rastro. Seu pai entrou em contato com as embaixadas solicitando que procurassem nos reinos vizinhos estipulando uma gorda recompensa. Houve uma verdadeira corrida do ouro sem que ninguém conseguisse resultado positivo. Aos poucos a vida foi voltando a sua normalidade e a figura de Alfredo Augusto Pompílio Acertatus Certinhus Obedientis at Mamys Seráfico I foi desbotando até que caiu de vez no limbo do esquecimento de todo o reino. Triste destino de quem veio a essa vida para passá-la em branco. O que terá acontecido de fato ao nosso herdeiro?

Nessa história eu não sei dizer o que houve com nosso personagem. Talvez possamos reencontrá-lo numa próxima. Posso contar com sua audiência e leitura?

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4 comentários sobre “Era uma vez…

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