Nua

Há uma semana enclausurada em meus 42 metros quadrados sem direito a uma varanda gourmet. Minhas camisetas já estão mais justas e os músculos flácidos. Isso não é por conta do confinamento, é preguiça mesmo contudo, sei da necessidade de me exercitar. Ontem a noite percebi que alguns produtos básicos se encontravam no fim. Pensei: vou encomendar pela internet e eles me entregam.

Três grandes supermercados estão congestionados sem previsão para entrega. Bateu desespero.

Despertei por volta das sete horas e fui correndo tentar fechar uma compra num dos supermercado. Sem previsão de entrega. Nos três. Em minha rua, a poucos metros do meu prédio tem um supermercado, na rua paralela outro e mais a frente outro. Em minha rua tem padaria, farmácia, lojas. Todas fechadas com exceção da farmácia e do supermercado.

Fui protelando a hora de descer e fazer de vez as compras. Uma insegurança em colocar os pés para fora do meu apartamento. Pensei: ah, o que tenho aguenta mais uma semana. Não vou.

No entanto, uma semente do desespero abriu fendas em minha alma. Me troquei, peguei a bolsa, sacolas e desci para a rua. Vazia, estranha, desconhecida. Nem as putas da esquina se encontravam fazendo ponto.

Fui num fôlego só. Cheguei ao mercado, peguei o carrinho e saí desembestadamente pegando todos os itens necessários de minha lista. Os demais clientes, assim como eu, encontravam-se calados, olhar assustado, desviando seu carrinho do meu, ninguém ficando junto num mesmo corredor. Uma coreografia interessante. Um acordo mudo entre todos. Sorrisos tímidos sem mostrar os dentes de medo do tal vírus. Olhos baixos ou fixos nas mercadorias desejadas. Claro, não encontrei álcool. Somente os destilados enfileirados em suas gôndolas. Solitários. Fiquei tentada em fazer um estoque para me ajudar a passar as horas. A lógica superou a loucura e deixei-os de lado. Já me encontrava tempo demais fora de casa. Mais uma vez, bateu desespero. Tenho certa idade, meus cabelos platinados podem chamar a atenção do vírus, encontro-me fora de forma, estou sozinha… Foram tantos pensamentos desordenados a poluir minha mente que corri para o auto atendimento. Não queria nem chegar perto da moça do caixa. Coitada. Pelo que pude observar, ela silenciosamente me agradeceu a escolha. Reconheci o medo em seus olhos também.

Registrei as mercadorias, paguei, organizei as três sacolas lotadas em meus ombros e saí em disparada rumo à segurança de meu lar. Ao aguardar o semáforo abrir para o pedestre, dois sem teto se aproximaram pedindo ajuda para comprar algo para comerem. Vergonhosamente, disse não ter dinheiro e comecei a orar para que o sinal abrisse. Um deles se afastou mas o outro ficou emparelhado comigo, dizendo impropérios, me chamando de velha sovina, desejando que o tal vírus me acolhesse a alma não cristã. De olhos embaçados, atravessei a rua correndo risco de atropelo ou possível queda. Subi onze andares carregando o peso das sacolas e de minha alma encolhida, quase uma ervilha.

Ao girar a chave, deixei a realidade lá fora. Despi por completo e, nua, levei as roupas para a máquina de lavar, joguei o tênis no tanque, e corri para o chuveiro onde pude finalmente, deixar as lágrimas represadas virem à tona misturando-se à água do chuveiro. Soluços, engasgo, vergonha da minha humanidade tão mesquinha e medrosa.

Aos poucos, me acalmei. Consciente da água desperdiçada, levantei do chão, fechei o registro, me enrolei na toalha. Ao longe, ouço a voz potente da nossa “Pimentinha” cantando a oração do momento:

Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós/Tenho que apagar a luz…Tenho que ter mãos vazias/Ter a alma e o corpo nus…

Enquanto organizo os mantimentos na dispensa, constato a falta de um item: Droga, que merda, esqueci do café!

Deus!!! Olhai por nós!

Impermanência

Mais uma manhã chuvosa a decorar minha janela. Sozinha, porém não solitária, sento e sinto necessidade de escrever algo. Não tenho ideia mas o desejo bate forte e me entrego.

Enquanto olho pela janela buscando inspiração, ouço cá dentro, as lamúrias do fado no CD de Mariza, Concerto em Lisboa. Bate uma saudade da terrinha lusitana. Já faz tanto tempo que por lá estive. Gosto de fado. Remete-nos a uma melancolia que considero boa. Vem do fundo da alma algo que não conseguimos detectar e que aquece o espírito. Após um tsunami emocional, encontro-me essa semana em paz comigo mesma e com o Universo. Terminei algumas leituras – de lazer e de estudos -, e retomei a leitura do livro de Lya Luft, O silêncio dos amantes.

O primeiro conto que li ontem à noite, antes de dormir, lembrou-me o sobrinho/filho que viajou para outra esfera. Confesso que abriu uma cratera funda de saudades de nossos papos e convivência que tivemos. No entanto, não fiquei triste. Apenas saudosa de um tempo que ficou para trás. Transformou-se em história de vida.

Estômago gritou alertando-me que já era hora do almoço. Lembrei do programa da Ana Maria Braga, pela manhã mostrando um chef ensinando os marmanjos globais a preparar uma carne moída. Achei graça.

Preparo desde criança, quando aprendi com minha avó e mãe, a arte de cozinhar. Os olhos atentos de todos me trouxe à reflexão, o quanto se perdeu da espontaneidade de um simples preparo de uma carne moída.

Abri minha geladeira e de imediato, optei pelo que tinha: filé de tilápia e bolinhas de espinafre congelados. Bingo! Decidi preparar o peixe grelhado e como acompanhamento, creme de espinafre. O arroz já tinha pronto. Era só esquentar. Em minutos, meu prato estava perfumado e saboroso!

Após almoço, satisfeita, saio para a rua. Chega de reclusão. Caminho alguns passos sentindo o ar gelado a queimar meu rosto e me encolho no agasalho pesado. De mãos aquecidas no bolso do casaco, olho de soslaio os inúmeros moradores de rua encolhidos debaixo de cobertores ralos ou papelão. Sinto vergonha por minha roupa boa e tão aquecida, meus calçados de marca e meu teto financiado porém, quentinho. Saí com a intenção de comprar alguns itens de supermercado que zeraram em minha despesa. Contudo, o olho gordo de consumidora que tento domesticar, compra guloseimas desnecessárias e retorno com a sacola lotada. Ao cruzar novamente com esses moradores das calçadas, envergonho-me mais ainda. Uma vontade imensa de sentar ao lado e chorar misérias alheias. De olhos marejados, tropeço e quase caio em cima de um dos pobres que, achando uma afronta minha, esboça um palavreado nada agradável. Lágrimas de indignação caem molhando meu cachecol peruano. Corro para o prédio, meu porto seguro diante de tantas mazelas humanas que compõe o centro velho de São Paulo.

Agora, ao som de Mornin’, na voz de All Jarreau, continuo mirando minha janela acompanhando o tempo se fechar entre nuvens carregadas e enegrecidas. Vem mais chuva e frio. Mastigo sem sentir o sabor do bolo de cenoura que comprei e quase nem sinto mais o aroma do café recém passado. Nas retinas de minha alma, permanece a imagem dos desvalidos que a cada dia aumenta nas ruas de nosso tão judiado país. A garganta se fecha diante da notícia que leio sobre a (mais uma) lamentável fala de nosso atual representante sobre o trabalho infantil.

Agarro-me à Pessoa e seus inúmeros heterônimos que me fazem companhia na xícara de café que trouxe de souvenir de Lisboa lembrando o início de Tabacaria:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é…

E tudo isso porque me deu vontade de escrever e nem sabia o quê.

Imagem: Arquivo pessoal

Trilha sonora de uma existência

Imagem licenciada

Quando a vida pesa demais, ouço música. Quando ela sorri para mim, comemoro ouvindo e cantando. Para dar conta das tarefas domésticas, som na caixa maestro.

Devo ouvir música desde o embrião. Meus pais sempre ouviam rádio e meu pai em especial, adorava boleros, tangos, salsas e chorinhos.

Em minha casa, durante a infância, podia faltar mantimentos no armário mas música jamais.

Cresci acumulando trilhas sonoras das mais variadas. Na infância, a turma da Jovem Guarda. Não perdia um programa e sabia cantar todas as canções e a coreografia da turma do Roberto. Mais tarde na adolescência, descobri as canções internacionais cantadas primeiro na vozes dos brasileiros Christian, Mark Davis, Tony Stevens e Morris Albert. Sabe quem são? Mocinha, em meados de 1977, no antigo ginásio, meu primeiro estremecimento musical: Pink Floyd. Ouvir o som do LP The dark side of the moon foi para aquela menina magricela, o primeiro divisor de águas sonora. Extasiei-me!

No ano seguinte, outro impacto. Esse, me causa arrepios até hoje: A night at the opera, da banda inglesa Queen. Pode parecer clichê mas, quando ouvi pela primeira vez Bohemian Rhapsody, simplesmente paralisei. A princípio não compreendi o que era aquela música mas, a necessidade de ouvi-la mais vezes me levou a atravessar a passagem da galeria onde trabalhava e entrar na loja de disco para perguntar que música era aquela e quem a cantava.

Trago ótimas e carinhosas lembranças desse período. A amizade com os rapazes de lá e os discos que fui colecionando ao longo dos anos, foram muitos. Infelizmente, as pessoas se foram. Alguns se mudaram de cidade, outros partiram dessa esfera, outros, simplesmente evaporaram no ar. Nunca mais tive notícias. Restaram as lembranças que são muitas e os LPs que, mesmo amarelados pelo tempo, estão em perfeito estado e tocam que é uma beleza!

Fã ardorosa que me tornei, a espera por cada trabalho novo me deixava com uma palpitação boa. Trabalhava com gosto para ter um dinheirinho extra para comprar e aumentar minha coleção. Depois, claro, vieram muitos e muitos grupos musicais e cantores que fui descobrindo e me apaixonando pelo som que faziam.

No âmbito musical brasileiro, a descoberta de Elis Regina foi outro momento marcante. Que voz e interpretação era aquela? Trago em minha coleção basicamente toda obra que a doce “Pimentinha” lançou em vida. Que primor! Na mesma época comecei a comprar também os discos da desvairada “Ovelha Negra” Rita Lee. Identificação total com sua porralouquice. Mesmo que eu demonstre por fora ser uma pessoa clássica e reservada, meu instinto animal é roqueira e ela, representa maravilhosamente o rock brasileiro. Ainda mais na pele de mulher. Identificação total.

E o que dizer da minha descoberta e ingresso na música clássica? Mais nova, achava ópera e música instrumental uma chatice só. No entanto quando despertei para a beleza e riqueza delas, mergulhei fundo e fiz minha coleção com todos os compositores e suas obras. Um dos que mais me impactou foi Mozart com sua obra Réquiem em ré menor. O que é aquilo? Foi o que pensei ao ouvir pela primeira vez. Dormi muitas noites ao som desse réquiem. Que virtuose! Que talento para compor algo tão belo!

Independente de ser uma missa fúnebre, ela não me entristece. Pelo contrário, ela me leva para lugares que somente uma música pra lá de perfeita pode te levar. Não tenho nem palavras para descrever o que sinto ao ouvi-la.

Depois vieram tantos outros como por exemplo, Astor Piazzolla. com seu sofisticado bandoneon, a descoberta do jazz através do trompete de Chet Baker e Miles Davis, das vozes femininas do jazz como Billie Holiday, Nina Simone… Nossa são tantas que merece uma outra e única postagem até mesmo para falar de minhas mais recentes descobertas.

Enfim, não consigo conceber uma vida sem trilha sonora. E pensar que há pessoas no mundo que não ligam para música. Tenho dó. Suas vidas devem ser bem mais pobre do que a  minha. Que aliás, de pobre não tem nada a não ser a conta sempre no vermelho mas isso… Ah, isso é outra história! Minha moeda de troca é a arte na qual a música está inserida, é meu tesouro que ninguém rouba. Essa levo comigo.

Vida marvada!

Preciso disfarçar melhor. Está muito evidente minha condição. Sei que não é correto muito menos profissional mas… Ai como é difícil! Mergulho minhas mãos uma na outra esfregando de forma inquieta dando a impressão que me aqueço nessa tarde fria de outono. Só eu sei que é uma busca ineficaz de me manter aqui. Já levantei diversas vezes, fui à janela na vã esperança de que a paisagem urbana me traga de volta. Não posso sair daqui. Faço parte disso tudo. Esse silêncio de vozes onde somente o tec!tec!tec de dedinhos nervosos feito os meus se ouve, isso causa uma reação dormente em mim.

tec!tec!tec!tec – irritada levanto e sigo para o banheiro. Abaixo a tampa do acento e, num gesto lento, sento apoiando o rosto entre as mãos. Fecho os olhos por alguns segundos.

O suficiente para ser interrompida por alguém que de fato está necessitado. Dou descarga, abro a porta e saio sem nem mesmo olhar quem bate à porta. Foi horrível de minha parte, eu sei, afinal, sempre levanto a bandeira da sociabilidade corporativa.

Foda-se! Hoje não estou pra ninguém. Decido dar uma volta pelos corredores. Não desejo voltar para minha baia. Não agora. É. Já sei. O serviço acumulado me espera mas – por hora, preciso de ar. O poluído mesmo e não o condicionado. Desse meus pulmões estão saturados. Penso, enquanto subo as escadas, nas inúmeras contas vencidas repousando em meu criado mudo que grita diariamente: Precisa pagar!Precisa pagar!

Foda-se 2. O dinheiro está curto, os juros dos cartões estão pela hora da morte e até meu desencarne – por hora, encontra-se em suspenso. Não tenho seguro de vida e acho sacanagem deixar as contas do enterro para familiares e amigos. Até mesmo porque, são todos feito eu, fodidamente duros. Oh vida marvada!

Hoje, decididamente não estou num bom dia. Senti isso assim que abri os olhos em plena 4h32 com o zumbido de um infeliz pernilongo a me perturbar. Irritada, tasquei um tapa na parede e saí engolindo meu grito para não acordar vizinhos. Sabe como é, morar em apartamento… Emputecida não me dei por vencida. Fui ao banheiro urinar minha frustração de ganhar mais um hematoma na palma da mão. Espero sinceramente que seja só hematoma e não uma luxação. Já basta o tornozelo esquerdo doendo da última queda livre no asfalto da semana retrasada. Dando descarga penso: Preciso me benzer!

Enfio-me debaixo das cobertas, apago a luz e finjo dormir novamente. Tenho certeza dos próximos passos do inimigo. Permaneço de tocaia.

Bzzzzzzzzz!!! – DA PUTA!

Pláft!! – Aiii! – estatelei a mesma mão no ouvido direito que me deixa temporariamente surda.

Bosta!Merda!Caraio! Quero dormir PORRA! Acendo as luzes e – feito ninja, acerto pra valer o inimigo da vez. A adrenalina toma conta do meu ser. Arregalo os olhos míopes e o que enxergo me deixa muito, mas muito satisfeita. Um borrão e fino filete carmim escorrendo pela minha linda parede água doce. Matei! Yes! Yes! YESSS!

Pulo no colchão festejando a vitória sobre o inimigo abatido até que escorrego no cobertor e caio de bunda no chão. Puta que o pariu! Lêlê!Lêlê!

Está decidido. Vou amanhã mesmo no centro espírita tomar um passe e pedir tratamento mediúnico. Devo estar com encosto dos bravos. Ai como dói!

Arrasto-me para a cama que já esfriou mas percebo o sangue – meu sangue, escorrendo pela parede. Não posso permitir que manche minha parede pintada recentemente. Saco! Preciso limpar isso. Levanto pisando duro e mancando por conta do tornozelo machucado e da bunda latejando. Molho um perfex e retorno limpando os restos mortais do pernilongo. Crime perfeito não deve deixar rastros. Isso me vem a mente ao lembrar de minha série favorita Dexter. Pela primeira vez desde que acordei, sorrio.

Andando pelos corredores da empresa, sem querer, encontro-me em pleno fumódromo. Uma forte neblina de fumaça fedida me envolve. Mal consigo reconhecer as pessoas por trás da fumaça. Chama os bombeiros! – recordo que sou da brigada de incêndio. Riso 2.

 – O que você Miss Certinha Pollyana da Silva faz aqui entre os pecadores da Torre dos Desajustados?

Respiro fundo, tusso um pouco e respondo:

– Preciso me perder para me encontrar. Não aguento de sono e desarranjo de vivência nesse tedioso serviço que prestamos diariamente. Arranja um cigarro? Preciso tragar.

Cética porém surpresa com meu discurso, Mariana pisca, abana a fumaça ao seu redor e, oferecendo um cigarro para mim diz:

– Bem vinda a Ordem dos Desajustados Assumidos e Suicidas Disfarçados. À propósito, você sabe tragar?

– Não. Mas nunca é tarde para aprender né?

– Não. Nunca. Assim como também nunca é tarde para se perder. Bem vinda! A vida não anda fácil né?

– Não. Nada fácil. Aliás, não faço ideia do significado dessa palavra. Nos olhamos em sinal de reconhecimento e empatia. Juntas, caímos num riso sincero e nervoso.

Até me esqueci do sono que me consumia.

Benção minha mãe!

mamae e eu

 

O dia comercial das Mães foi ontem, domingo. No entanto, meu final de semana foi uma loucura tentando preencher as horas de minha mãe com muitos mimos e atenção que no dia a dia se torna impossível. Como para mim, dia de mãe são todos os dias, deixo registrado aqui minha homenagem a ela e a todas as mães desse planeta azul. Esse texto faz parte do livro de crônicas Receituário de uma espectadora que lancei ano passado pela Scenarium Plural.

Quando decidi falar sobre essa mulher, me peguei sem palavras afinal, como descrever um ser tão acima de mim e demais pessoas?

Certa vez, li em algum lugar, que quando os anjos foram criados por Deus, para descerem a Terra, deveriam vir disfarçados de mãe. Preciso dizer mais? Quem de nós, seres humanos comuns poderia ter essa forma de amar incondicionalmente?

Quem de nós pode ou tem condições de perdoar infinitas vezes? Mães são criaturas dotadas de um enorme senso das coisas, têm uma intuição fenomenal, têm o dom de esboçar o mais lindo sorriso quando muitas vezes, por dentro, estão sangrando.

Não se importam de atravessar noites ao nosso lado quando adoecemos. Deixam de comer para ter sempre o alimento para seus rebentos. Defendem suas crias com uma voracidade anormal.

Fazem sempre o impossível para ver seus filhos felizes (o possível, o resto da humanidade já faz). Vibram com cada conquista que seus filhos adquirem e sofrem ao vê-los aflitos, derrotados e infelizes. Todos esses adjetivos descritos acima fazem parte da personalidade única que é minha mãe.

Quando pequena, achava-a severa, brava. Na adolescência, tivemos sérios entraves.

Vivia pegando no meu pé. Muitas vezes desejei que ela fosse diferente. Com o passar dos anos e a aproximação da maturidade, descobri nela, outra mulher. Descobri a amiga, a confidente e assim, nossa relação tornou-se estável e hoje somos grandes companheiras.

De uns anos pra cá sempre digo que “Quando crescer quero ser igual à Dona Ilda” Adquirir sua sabedoria, paciência, tolerância e quero também seguir sua filosofia de vida: minha mãe veio a esse mundo para ser feliz!

E olha que, nesses anos de vida que ela tem, já passou por cada uma! Contudo, nada abala sua segurança, sua fé, sua postura rígida, porém suave diante da vida.

Independente dos sofrimentos que a vida lhe imputa, sua filosofia da felicidade não estremece. Ao invés de torná-la frágil, fortalece mais. E sempre sorrindo! Igual à minha avó Maria, sua mãe.

Se Deus permitir, desejo chegar à terceira idade mantendo o semblante sereno que ela carrega. E quero também despertar nos outros, o mesmo carinho, o mesmo respeito que hoje todos têm por ela.

Deixo aqui minha homenagem a essa grande mulher, Dona Ilda, minha mãe e a todas as mães desse planeta.

Sem vocês, posso dizer com segurança, que não existiria vida em nenhuma parte.

Sem mãe, o mundo seria em preto e branco e sem fundo musical.

Benção minha mãe!

 

 

Início não renovado

E o ano de 2017 inicia trazendo em sua bagagem velhos hábitos, velhos costumes, velhos problemas. Percorro a cidade, entro nos vagões do metrô e o que observo é que nada, absolutamente nada mudou.

Seres humanos carregando em si, intolerância, impaciência, má educação. Jovens alienados, crianças mimadas e adultos infantiloides. Nas ruas, uma massa – misto de ressaca de final de ano e má digestão do princípio de um novo ano carregado de más notícias -, fazem da cidade, um panorama desagradável.

Ruas imundas, boeiros entupidos, calçadas quebradas, frota de ônibus precária e insuficiente para locomover levas imensas de transeuntes que circulam diariamente pela cidade. Aumento das tarifas: do IPTU, do IPVA, das absurdas listas escolares que todo ano inflacionam e comprometem a verba dos trabalhadores.

E com tudo isso a nos rodear, ai do trabalhador que cai no abuso de ficar doente! Hoje em dia nem se pode dizer: segue o enterro, pois o caixão está pela hora da morte. Desculpem mas não resisti a essa brincadeira de mal gosto. Nem morrer em paz o cidadão está podendo. Até isso lhe foi tirado.

Violência fazendo parte da rotina de quase todo mundo. Banalizou-se. Acompanhamos os noticiários na TV fazendo nossas refeições e nem nos impressionamos com a matança fora e dentro das prisões. Se assustar pra quê? Morrer faz parte do pacote completo não é mesmo?

E assim, seguimos nessa imensa boiada rumo a não sei o quê, nem pra onde, ruminando tudo sem sentir gosto de nada. Mais um ano. Menos um ano. E por último deixo uma pergunta:

E a poesia da vida onde fica? E as artes? Onde se enquadram nessa loucura que ela se transformou? Ou será que sempre foi assim e nem percebemos?

Ah Roseli, deixa disso. Filosofia foi feito para poucos e mesmo esses poucos, jamais encontraram respostas para essas questões.

É, não tenho respostas para nada e ouvindo Oswaldo Montenegro, concluo com ele que a lógica da criação é totalmente ilógica para nossa limitada compreensão.

Tal qual ele, não entendi a equação da criação e por isso mesmo, sigo vivendo, cantando, dançando e escrevendo porque, se existe outra vida, será na outra que talvez dê tudo certo porque nessa, já percebi que é o tango do crioulo doido. Só nos resta dançar na garrafinha, surtar feito o Beijoqueiro na chegada das maratonas e brindar a cada ano que conseguirmos fechar vivos. Só o fato de chegarmos ilesos já será uma vitória a se comemorar.

Sornice

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Abro os olhos diariamente e observo. Nos últimos tempos, na medida do possível, mantenho minha boca cerrada. Precaução em tempos de censura mas também, pura preguiça. As pessoas andam nadando com fôlego de atleta olímpico na piscina da mediocridade e eu, preguiçosa que sou, não aprendi a nadar. Só boio.

O cansaço que sinto diante de tamanha realidade rasa causa náusea. Vomito.

Limpo os restos na manga de minha camisa de linho puro sintético comprado na lojinha do Ching Ling. Que mico!

Vomitar e usar essa porcaria made in Taiwan.

Imagem: Pixabay

Pausa para um cafezinho

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A humanidade é incrível. A humanidade é maldosa. A humanidade é engraçada. E eu me insiro nela, mosaico que sou de virtudes e defeitos.

Apesar de procurar a elevação espiritual através da moldagem de meus defeitos, não posso ouvir um buchicho que logo estendo minhas antenas. E quer lugar melhor para ouvir fofocas sobre o que rola por debaixo dos panos (às vezes por cima mesmo e muitas vezes, sem pano algum) do que o horário do cafezinho? Local propício para conversas amenas para se livrar do estresse do dia a dia e se inteirar dos acontecimentos da (na) empresa.

Chega um, pega seu café, aproxima-se outro colega que logo se senta segurando sua xícara fumegante e assim, entre um gole e outro, entre um comentário sobre o tempo e um apontamento sobre a atual política do país, o papo rola até que chega um(a) outro(a) colega mais bem informado trazendo notícias fresquinhas anunciadas pela rádio Peão que está sempre vigilante.

É incrível observar a transformação que todos sofrem quando se ouve:

-Já estão sabendo do mais recente babado?

É o suficiente para despertar nosso animalzinho da maledicência e coisas mal feitas. Impressionante ver os olhos de todos quase saltarem e brilharem de forma atípica quando um colega chega com as “fresquinhas”. Vozes se alteram, taquicardia se alastra, boca resseca e pede mais uma xícara de café. Até mesmo porque, se deseja saber mais e mais detalhes picantes sobre o assunto. E daí, para alguém lembrar de um episódio mais engraçado do passado é um pulo e assim, os minutos do cafezinho se estendem por minutos infindos. Até que o chefe ou o motivo da fofoca apareça pondo fim a um dos momentos mais descontraídos na empresa. E um acesso de tosse e pigarro coletivo toma conta do recinto fazendo todos saírem rapidamente voltando cada um pro seu cercadinho afinal, é preciso trabalhar!

E todos retornam aos seus afazeres com a certeza de que no próximo café, haverá mais novidades.

Imagem: Acervo da autora

Acordo doloroso

Uma sensação estranha se desenha aos poucos em meu interior. Minha mente busca – na vã tentativa de negação, pensar em coisas alegres. É lógico que fracasso.

À tarde tento fingir que trabalho, num esforço intenso de parecer concentrada. Descobri que sou excelente atriz! Ninguém percebe ou, por outro lado, todos agem da mesma forma que eu. Fingem na frustrada tentativa de sabotar a realidade.

Olhos caídos, andar pesado, dedos nervosos teclando em busca de notícias positivas.

É não deu. A vida vem e escarra em nossas caras que ela não é a tela do plin-plin. Não utiliza imagem HD, não se mascara muito menos te poupa se você for bom.

Por outro lado, a Morte, essa misteriosa dama que a todos assombra e fascina, também trabalha no mesmo esquema. Uma é o complemento da outra. Trabalham em parceria constante. E se respeitam quando finda o contrato de alguém.

Hoje, muitas pessoas tiveram seu contrato encerrado. Sinto por todos. Mas o término de contrato do Clown mexe com o emocional de todos.

O Clown é um personagem que habita o imaginário das pessoas. Figura constante na infância que se materializa na fase adulta resgatando a criança que um dia fomos.

Figura que trás no rosto, a alegria e a pureza do espírito, assombrada por um olhar melancólico que sabe que a vida não é só beleza.

A Morte resistiu bravamente. Aguentou paciente a espera da realização máxima do Clown para levá-lo consigo. Chegou inclusive a se emocionar – coisa rara de acontecer, com o talento do palhaço no picadeiro da vida.

Mas não teve jeito. Funcionária padrão do Senhor do Universo, ela não pestaneja diante das situações, muito menos das emoções que todo ser humano expressa. Calejada diante do sofrimento, criou uma couraça para se proteger caso contrário, não teria a competência que tem. Já traçou antecipadamente todos os passos para o desfecho do escolhido da vez.

Planejou com Mãe D’água, como seria o grand finale. O local era cenário perfeito para esse enredo. A Senhora das Águas garantiu que seria inesquecível. E foi.

Poucas vezes a Morte sentiu aperto no coronário ao carregar o dileto. Hoje, sentiu que também morria um pouco.

 

Meu universo ruindo

A photo by Greg Rakozy. unsplash.com/photos/oMpAz-DN-9I

Tudo anda muito chato. Acontecimentos. Pessoas. Atitudes. Vida.

Um misto de depressão e vontade estúpida de viver. Mas não aqui. Não ao lado dessas pessoas. Percorro as vias públicas, desviando da massa que, envoltos na febre Pokémon, são atropelados por minha ira. Nem percebem. Não me notam. Não sou imagem holográfica.

Percorro a Paulista, num desejo raro de desviar de meus próprios pensamentos. Geralmente recorro à eles quando me sinto assim, cheia. Hoje, faço diferente.

Em passadas ligeiras, transformo-me em maratonista desviando de pessoas, carros, motos e bicicletas. Desvio inclusive, deles, os pensamentos. Assumo um nada total que se avoluma e toma conta do meu ser. Flutuo. Deixo para trás dores – da alma e das articulações desgastadas. Desapego-me de bolsa, identidade, dinheiro. Desço a Augusta, de forma veloz. Prestes a chegar à esquina com Caio Prado, percebo que só tenho metade de mim volitando pelas vias públicas. Desintegro-me para não me perder de vez. Moléculas roselianas sobrevoam o céu poluído de São Paulo. Prestes a chegar ao meu destino, já com chaves em punho, respiro aliviada. Sou apenas um esboço mal feito de mim mesma. Um rascunho feito às pressas por um retratista medíocre.

Giro a chave. Entro. Fecho a porta e escuto o silêncio do ambiente. Aos poucos tomo ciência do retumbar de meu coração. Ainda pulsa. Ainda vivo nessa carcaça decadente que teima em amar a vida. Mesmo que essa, muitas vezes se mostre inimiga.

Lágrimas descem por meu rosto cansado de mais um dia, menos um dia – como sempre diz uma querida amiga minha. Mais uma data riscada em meu calendário. Mais um passar de horas que apago de minha existência. Nada aconteceu. Nada acontece. Pela janela, observo as luzes nos prédios que me avizinham. Estrelas reluzentes em meu universo em constante caos.

Imagem: Unsplash