Parabólica ambulante

Acredita em encosto? Não? Ah, pois eu acredito. Já fui “cavalo” para muitos.

Na pré-adolescência, com todos os hormônios em ebulição, uma Pomba Gira se aproximou e deu o maior trabalho para minha mãe que morria de medo que sua pobre cria se desviasse do bom caminho.

Ela me levou a um terreiro onde fizeram de tudo para me salvar e fui proibida de passear por praças e parques públicos. Orientaram mamãe de que não poderia usar roupas, acessórios e esmalte carmim. Evitasse também maquiagem forte.

Logo eu, que desde pequena, fui vaidosa!

Por insistência dela, evitei por um tempo mas depois, com tantas reviravoltas na vida, caiu no esquecimento.

Como resultado, virei parabólica. Teve um Preto Velho que vivia me dando conselhos. Alguns até bem pertinentes. Pena que a teimosia e imaturidade da época me cegaram. Resultado? Muito murro em ponta de faca.

Certa vez, descobrindo a música erudita, fiquei fascinada com o talento e sensibilidade de Maria Callas. Ouvi tanto que acabei por atraí-la. Acredita nisso? Não é papo de pescador. É a mais pura verdade.

Do nada, passei a cantar feito a Diva. Dá-lhe Callas no banheiro, no metrô, nas filas dos postos de saúde, no pátio do colégio. A diretora, assustada com minhas intervenções musicais, decidiu chamar minha mãe para uma conversa.

Voltando para casa, ela olhando de lado, falou: Ou você trata de se cuidar e seguir o que os guias orientaram, ou te interno numa clínica de loucos. Entendeu?

Aos quatorze anos, assisti a uma apresentação de ballet na TV Cultura, e me apaixonei pela figura forte e ao mesmo tempo delicada da bailarina Maya Plisetskaia . No próprio quarto, comecei a dar os primeiros passos. Foi um tal de plies pra cá, grám plie pra lá, rond de jambes marcando o assoalho do quarto. Passava horas me exercitando na vã procura de me transformar numa bailarina de verdade. Mais uma vez, minha progenitora, desconfiada que só, buscou ajuda espiritual. Afastaram a entidade de Maya.

Passei uma temporada – como dizia minha mãe -, normal. Até chegar as Olimpíadas de Montreal e assistir as apresentações da menina prodígio Nadia Comaneci. O que aconteceu a seguir foi pior que encosto. Segundo a médium do centro que minha mãe frequentava, passei a sofrer de fascinação. E isso era bem pior que encosto, pois estava sofrendo fascinação de um ser vivo.

Queria de toda forma ser como Nadia. Esforçava-me para alcançar a excelência da ginasta. Por conta própria, fui numa escola de Ginástica Olímpica que descobri em meu bairro. Conversei com o técnico, fiz uma apresentação. Ele se empolgou com meu talento e me orientou: converse com sua mãe e peça para ela vir falar comigo. Você tem futuro menina!

Vi meu futuro de melhor ginasta brasileira, quiçá, mundial, avinagrar quando toquei no assunto em casa. Irada com mais essa maluquice, mamãe me deixou de castigo por tempo ilimitado. Boicotou todas as minhas investidas de me transformar numa ginasta.

Então descobri Elis Regina que foi um divisor de águas em minha vida. Iniciei ali, minha coleção e adoração a essa que – até hoje para mim -, é a maior cantora do Brasil. E também minha revolta com o destino afinal, por que ela tinha de morrer tão cedo? Antes mesmo de eu poder assistir um show dela?  A sua influência sobre minha pessoa foi tanta, que adotei seu cabelinho curto que usei por anos. Identificação total. Quando ela morreu, passei dias e dias sem dormir direito. Orava toda noite por ela chegando inclusive, a sonhar que nos encontrávamos. Desse encosto, nunca me curei. Virou crônico.

Minha vida com os livros, trouxe-me outros tantos encostos. Dessa vez, com os personagens que marcaram suas digitais em minha alma. De certa forma, são fantasmas que habitam meu interior. Faz com que não me sinta sozinha nesse mundo tão fragmentado e banal.

Meu mais novo, constante e talvez, para toda vida encosto, é a presença diária de Caio Fernando Abreu ou simplesmente Caio F.

Não passo um dia sem ler pelo menos duas crônicas sua. A conexão é tanta, que por vezes, chego a sentir sua presença, seu hálito lendo em voz alta o último texto escrito. Sinto alegria em poder ser privilegiada em ser a primeira a ouvir de sua boca, a crônica da hora.

Leio, releio, emociono-me. Choro.

Outro dia, flagrei minha mãe – agora já grisalha -, repousando seus cansados olhos em mim enquanto lia novamente Sapatinhos vermelhos.

Nada falou. Entrou no quarto, sentou-se ao meu lado e me envolveu num doce abraço. Como há muito não fazia. Afagando minha cabeça, disse:

-Filha, seu coração é tão cheio de amor que transborda e te afoga. Hoje reconheço que o que antes acreditava ser loucura, nada mais é que excesso de sensibilidade.

Sorrindo, acariciei seu rosto e, repousando minha cabeça em seu colo, falei:

-Mãe, a minha glândula pineal deve estar gasta. Não tenho tido mais nenhum contato com o além. Talvez esteja envelhecendo também ou sofra de excesso de realidade.

-E filha, crescer dá nisso!

Imagem licenciada: Shutterstock

Confesso: eu vivi

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Saio da minha terceira ida ao cinema para assistir Bohemian Rapsody, filme sobre a banda de rock inglês Queen, liderado pelo performático vocalista Freddie Mercury. Caminho lentamente pelos corredores lotados do shopping lotado de famílias e casais passeando. Feito autômato, mal ouço os comentários entusiasmados de minha irmã, também fã da banda. Mas não uma fã como eu.

Sorrio ao lembrar a experiência que jamais contei a ninguém. Tornou-se todos esses anos, meu, nosso segredo. Até mesmo porque, se contasse ninguém acreditaria. Uma vez que já tinha a fama de doida, preferi me poupar e manter esse segredo só para mim.

Após todos esses anos, relembrar, mais parece uma sonho. Talvez tenha sido mesmo e eu é que preferi acreditar que aconteceu. Mas no fundo, bem no fundo, sei que aconteceu.

Março de 1981, encontrava-me em meu segundo emprego, e desabrochava para a vida adulta aos dezoito anos. Esse mês ficou marcado pois vivi algumas experiência que se tornaram únicas e foram divisores de água no que fui e o que passei a ser depois. Trabalho, dinheiro próprio, primeiro show na vida. E abri minha temporada de shows com nada mais, nada menos que o show internacional que abalou São Paulo: Queen. Aconteceu nos dias 20 e 21 de março no estádio do Morumbi. Fui com minha irmã no dia 20. Aquela data foi mágica. A euforia de se ir a um estádio pela primeira vez, a massa humana seguindo o mesmo rumo com as mesmas expressões de alegria e ansiedade, o atravessar os portões e adentrar um campo que se tornaria por algumas horas, uma fantasia plena de melodia, dança, alegria, emoção. Consegui me embrenhar na multidão arrastando minha irmã e conseguimos assistir todo o show bem na frente do palco. Uauuuu!!!

Mas não é do show que desejo falar. Foi estupendo, quase consegui chegar até eles, para entregar meu inocente desenho que fiz de toda a banda. Tinha como meta, entregar em mãos no camarim. Driblei forte esquema de seguranças e com ajuda de uma jornalista camarada, cheguei até a porta do camarim, onde estavam concentrados após o show. Morri na praia. Não me deixaram entrar mas, garantiram que entregariam em mãos para Freddie. Resignada e frustrada, sai ao encontro de minha irmã que ficou do lado de fora me aguardando.

Naquela semana, trabalhando, ouvi uma conversa de minha chefe com seu marido que mantinha uma galeria de artes bem ao lado da boutique onde trabalhava. Ele confidenciava à ela que ficaria na galeria até mais tarde para receber uma visita internacional que havia demonstrado interesse em conhecer obras de artistas paulistanos. Ela perguntou quem era e ele respondeu: um vocalista de uma banda de rock que está em São Paulo. Na hora fiquei alerta e procurando ficar mais invisível, me aproximei da porta para escutar mais. Meu coração subiu para a boca tamanha expectativa de achar que poderia ser mesmo Freddie Mercury a visitar a galeria ao lado do meu trabalho e – mais ainda – , ao lado de minha casa! Era sorte demais!

Às dezoito horas, despedi-me de todos e segui para casa. Mantinha uma cópia das chaves da loja pois costumava abri-la pela manhã. Aguardei todos saírem e, após alguns minutos, me certificando que a loja estava vazia por completo, retornei e entrei sorrateiramente me escondendo no forro da loja que tinha ligação com a galeria afinal, era uma construção única. Pela primeira vez, não me importei com a possibilidade de estar dividindo o mesmo espaço com diversas lagartixas, minha grande fobia. Soube através da conversa do galerista, que a condição para ele vir seria ter acesso a ela sem ninguém por perto. Inclusive ele, que deixaria a porta aberta e esperaria no bar em frente. Só retornaria após o cantor escolher as obras de arte que levaria como souvenir para Londres. Soube que era um hábito dele fazer esses passeios e compras por todo lugar que fazia turnê. Acocorada no forro, respirando ar mofo e empoeirado, retive a respiração ao ouvir a porta principal se abrindo. Algumas vozes dialogaram em inglês e depois, silêncio. Não conseguia enxergar ninguém. Por instantes pensei que tivessem ido embora mas, quando já pensava em sair daquela posição incômoda, eis que a figura ímpar surge em meu campo de visão segurando um quadro Naif com os olhos brilhantes. Parecia hipnotizado pelo que via. Também me encontrava em estado hipnótico quando aconteceu o que não esperava: do nada, ele elevou seu olhar em minha direção. Perguntou: Quem está aí? Saia!

Acabei descendo e – muito envergonhada -, pedi desculpas num inglês bem sem vergonha.

Me encarou por alguns minutos num silêncio constrangedor analisando minha pessoa magricela e suja de pó. Até que movendo os lábios numa atitude de quem queria segurar o riso, posicionou o quadro que segurava ao lado de outros já selecionados e, colocando suas mãos na cintura, caiu numa gargalhada sem fim. De início fiquei sem graça mas, contagiada, caí na gargalhada.

Ficando sério, perguntou meu nome e idade. O que fazia lá em cima? Me espionava ou queria roubar a galeria? Rimos novamente. Fez uma mímica para que sentasse num sofá que havia na sala. Sentei e fiquei olhando para minhas mãos. Mal conseguia pensar. Meu Deus!!! Estava ao lado de meu ídolo e não sabia o que fazer nem dizer! Surreal.

Acendeu um cigarro e perguntou se queria fumar também. Sorri mas declinei no que ele respondeu: Faz muito bem menina. Cigarro mata.

Cantarolei baixinho Lily of the Valley e ele me olhou espantado. Sorriu e cantou em dueto comigo. Óbvio que não era páreo para ele mas cantamos a canção inteira e rimos novamente.

Mostrei algumas telas que gostava inclusive duas do marido de minha chefe e ele concordou comigo. Disse que eu tinha bom gosto. Ao finalizar suas escolhas, virou-se para mim e disse:

Do you know what? I like you a lot! – Dando uma última tragada em seu cigarro, apagou, virou-se e me envolveu num abraço caloroso. Despediu-se de mim e, da mesma forma que entrou, saiu. Fiquei parada no centro da sala de exposição entre inúmeros quadros Surrealistas e Naif separados por ele sem saber o que pensar ou fazer. Ouvindo vozes se aproximando, saí rapidamente de cena subindo para o forro e retornando para a boutique até que todos se foram. Observando a rua vazia, saí da loja e entrei em casa para levar uma bronca federal de minha mãe.

– Onde esteve até essa hora menina? Quer matar sua mãe de preocupação? O que fazia na rua?

Com os olhos marejados de emoção, sorri e disse a ela:

– Sonhando mãe, sonhando… Quer saber? Sonhei o sonho mais lindo de minha vida!

Peguei-a pelas mãos e cantando Seaside Rendezvous, dei alguns passos de dança com ela.

Balançando a cabeça sorrindo, disse que eu não tinha jeito mesmo.

– Deite de vez e continue sonhando na cama.

Essa noite não preguei os olhos.

Essa é minha homenagem a esse grande cantor e compositor e, acima de tudo, grande roqueiro que marcou minha adolescência. Homenagem também ao Rock enquanto estilo musical e filosofia de vida.

Sem amarras

Um belo dia acordei, olhei pro teto ainda no escuro e decidi: chega dessa essa vida! Não quero mais acordar às seis da manhã, fazer meu café, me trocar, pegar o metrô e chegar ao trabalho todo santo dia fazendo as mesmas coisas. Basta de rotina! Vou zerar essa minha vida burguesa de classe média.

Levanto, vou ao banheiro. Estou prestes a abrir o chuveiro para uma ducha quando paro e decido: se quero realmente mudar, devo começar por aqui.

Pra que banho?

Volto pro quarto, visto um jeans, camiseta velha, coloco o tênis mais surrado que tenho. Começo a escovar meus cabelos e paro.

Fazer o de sempre Malú?

Desgrenho ele todinho. Olho-me no espelho e gosto do que vejo.

Maquiagem? Nem pensar!

Abro o guarda roupa e analiso. Não vou levar nenhum desses terninhos de trabalho. Não vou precisar mesmo! Sapatos de salto agulha?

Nunca mais! Alforria!

Abro as gavetas de lingeries. A primeira só tem conjuntos rendados, pra lá de cavados. Muito sexy.

Não me servem mais.

Chega de bancar Dita von Teese pra marmanjos que só babam pelos nossos orifícios nas terras baixas.

Abro a segunda gaveta e encontro minhas calcinhas de cotton. Brancas e beges. Aquelas que dão arrepios nos mesmos marmanjos. Só que arrepios de horror. Eles as acham horrorosas!

São essas que vou levar.

Numa mochila coloco lingeries básicos, meias soquetes, três camisetas e mais uma calça jeans.

É o suficiente.

Dou uma boa olhada em meu quarto me despedindo. Observo meus inúmeros vidros de perfumes, cremes hidratantes, óleos e sais pra banho.

Não me servem mais.

Ligo o note e redijo uma carta de demissão agradecendo pelos anos de confiança que depositaram em mim, desculpando por sair de forma tão abrupta e impessoal. Como não comparecerei ao escritório para tratar das formalidades que as leis trabalhistas impõem tanto ao contratante quanto a contratada, deixo claro que podem atestar abandono de emprego.

As consequências?

Não me importo.

Aproveito para também escrever uma carta de despedida à todos os conhecidos e familiares, os poucos que ainda mantenho contato. Explico que estou bem, que foi uma decisão sábia apesar de parecer loucura e que em breve mandarei notícias de onde estiver.

A única coisa que levo dessa antiga vida é o note e o celular. Vou radicalizar, mas ainda preciso deles.

Enfio-os na mochila e saio sem olhar para trás.

Fora do prédio sou batizada por uma boa garoa matinal simbolizando meu renascimento. Deixo para trás – o que para muitos -, é status de sucesso e conquistas.

Saio sem rumo certo.

Sigo para a rodoviária do Tietê e lá escolherei um itinerário qualquer. Viverei assim. Um dia por vez. Sem planos, sem compromissos a não ser comigo mesma.

Quero a liberdade plena de escolha. Não importa que elas me tragam dissabores. Fazem parte da vida.

Dessa que por hora optei.

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Sentença final

Sabe aquele momento onde um resultado pode mudar radicalmente sua vida? Aqueles minutos que transcorrem após a notícia que ecoa em sua mente.

O ingresso naquela universidade que tanto sonhou, o emprego disputado com vários profissionais que te intimidou, o primeiro pedido de namoro, a viagem que sempre idealizou, o telefonema anunciando que alguém amado morreu.

Essas são apenas algumas das situações em que nos vemos presos entre a realidade e um corredor para o nada que simboliza o desconhecido.

Mas nada se comparara a notícia que sacramenta sua finitude nessa existência. Ao cair em nossos ouvidos, a frase traça uma coreografia fora de compasso até chegar ao cérebro. Processar é outro movimento estranho.

Estou condenado. Vou morrer. Vou morrer. Vou morrer… Difícil assimilar essa sentença afinal, por mais que saibamos que todos temos prazo de validade, preferimos passar essa peteca para os outros. E quando não temos mais ninguém a quem passar, segurar essa bola de fogo nas mãos é trabalho penoso.

A mente, confusa, não processa o fato. Perde-se em milhares de sinapses que se batem entre si causando confusão. O coração, por instantes pára de bater e depois cavalga em descompasso dificultando a respiração. Uma sudorese se espalha por todo o corpo.

Em breve, não sei quando, esse corpo não mais estará aqui enfrentando o trânsito, adentrando metrô lotado, aguentando o mal humor das pessoas que como eu, temem esse momento.

Não mais provarei os sabores de pratos gastronômicos, nem os vinhos que tanto amo.

E o que dizer do meu futebol? Nunca mais a expectativa de acompanhar da arquibancada meu time de coração ganhar uma partida. Ou perder, que também faz parte do jogo. Nunca mais xingar o torcedor anônimo do time adversário nem chamar ele pra briga.

A música, meu segundo alimento, se perderá no espaço assim como minhas moléculas.

A leitura e a escrita também farão parte do que um dia fui. Será que deixarei lembranças naqueles que ficarem? E se deixar, serão boas ou más?

Alguém sentirá minha falta ou – em sete dias após a missa -, cairei assim como tantos, no vácuo do esquecimento? Pior, nem missa terei. Lembrei que não sou católico. Alguém irá chorar por mim?

Será que minha vida foi em vão? Afinal, nada fiz de excepcional para demarcar meu nome para posteridade. Fui medíocre. Tudo em minha vida foi mais ou menos. Tive preguiça de me esforçar para ser melhor em alguma coisa. Contentava-me com o mínimo.

Estranho saber que desde já, não pertenço mais a isso tudo chamado vida. Mais estranho ainda, é saber-se lembrança. Fragmentos de uma memória que com certeza criarão de mim e não o que fui de fato. Isso, nem a gente sabe. Partirei para um nada cósmico sem ter a certeza do que fui.

Finito. Repito. No pouco tempo que me resta, vou criando meu rito.

Finito… Mais uma vez repito para mim mesmo. Trabalho no sentido de fazer a passagem o mais leve possível. Menos dolorosa mesmo que a carne grite. Mesmo que a alma insista em permanecer aqui.

Finitude…Busco uma razão para gostar da partida. Imagino cenas novas na minha minissérie preferida no qual sou protagonista. Feito Cacilda Becker, desejo sair de cena no próprio palco. Altivo. Destemido. Ousado.

Oh Deus! Misericórdia! Sei que nesse processo, não sou nada. Apenas um saco de gordura, água, fluídos. Mas…E isso tudo que carrego aqui dentro? Emaranhados de sensações, emoções, desejos, lembranças? Isso tudo não é matéria para os vermes. É o que então?

Não tenho resposta para essa e tantas outras indagações que surgem filosoficamente nesse momento único. Como já disse lá atrás o filósofo dos filósofos: Só sei que nada sei.

E nessa total ignorância , me perderei retornando para o berço de tudo transformado em poeira cósmica anônima. Sem registro, sem CPF, sem documento algum que me identifique e diferencie dos demais que já partiram.

Talvez essa seja a verdadeira democracia. É na morte que nos nivelamos e nos tornamos iguais perante o universo.

 

Imagem: Google (desconhecido)

Falta de visão

Noite chuvosa e uma ventania batucando na janela. Perfeita combinação para ficar debaixo de cobertas bem quentes. No entanto, Jussara, inquieta, levanta-se e despindo por completo, abre a janela de seu quarto. Abrindo os braços, sorri aliviada sentindo os pingos da chuva aliviar seu fogacho.

Há dois anos não sabe o que é dormir tranquila por conta dessas ondas de calor que lhe possui o corpo durante a noite. Não que durante o dia fique livre, contudo, são mais espaçadas. Agora à noite o bicho pega…

O sorriso a acompanha ao virar de costas e sentir além dos pingos, o vento assoprando e amenizando seu fogaréu interior. Uma felicidade inesperada a invade e inicia uma coreografia sem música ali mesmo, às 3 horas da manhã de uma terça-feira. Nem se dá conta que, de um prédio próximo, numa das janelas, alguém também com insônia a observa esquecendo seus próprios problemas.

Através da fumaça do cigarro e entre goles de uísque, um homem maduro abandona sua máscara diária de contrariedade e sofrimento deixando à mostra, o jovem saudável e cheio de sonhos que foi um dia. Tudo por conta dessa aparição na janela.

-Quem será ela? Não consigo enxergar direito mas ela parece ser linda! Estará dançando para algum sortudo? Quisera eu ser a platéia para essa dança.

No interior da sala, Jussara continua os passos coreografados, um misto de Ballet clássico com dança selvagem. Vem à lembrança a figura de Josephine Baker. É exatamente assim que ela se sente. Livre, leve e solta. Livre, principalmente dos calores que a sufocam.

Toda essa movimentação a faz lembrar de quando tinha quatorze anos e frequentava as aulas de Ballet de madame Remy.

Mulher mignon, refinada, delicada nos gestos porém, de uma rigidez na disciplina que a transformava numa déspota com suas pupilas. Jussara gostava de seu jeito. Sorriu satisfeita em ver que, mesmo após tantos anos sem dançar, ainda conseguia se movimentar com leveza.

Do outro lado, o homem encheu novamente o copo e acendeu mais um cigarro. Sorria entre a fumaça e os goles ao observar os seios ainda firmes que, soltos, se movimentavam com delicadeza acompanhando os braços delgados que se abriam como se quisessem alçar voo. Os cabelos da misteriosa mulher o encantou: longos, fartos e grisalhos.

-Preciso conhecer essa mulher! Onde esteve esse tempo todo que nunca a vi? Tão perto e tão distante. Essa cidade é mesmo muito louca! – dizendo isso, caiu numa risada rouca ao ver sua musa girar em frente a janela e parar de olhos fechados sentindo os pingos da chuva em sua face.

A dança durou  mais uns minutos até que satisfeita, Jussara cerrou a janela e após um banho, deitou e dormiu sentindo-se uma menina.

O homem, ainda permaneceu à janela, terminando seu cigarro e sua bebida, perdido em pensamentos que há muito não tinha: desejo.

A esperança de que ela voltasse acabou e, com suas expectativas frustradas, fechou as cortinas e retornou ao seu trabalho. Agora, sentindo-se revigorado com sua musa.

Amanheceu satisfeito com sua produção. Ela o fez esquecer as dívidas, o abandono e traição de sua última companheira , e devolveu a vontade de se reerguer afinal, ele, o grande e respeitado ilustrador precisava voltar a brilhar e a ganhar dinheiro.

Fez um café forte, tomou uma ducha revigorante. Ao se olhar no espelho, observou sua fisionomia envelhecida, sua barba grande e desalinhada, seus cabelos sem vida e suas olheiras que denunciavam noites mal dormidas e excesso de bebida e cigarro. Pensativo, sorriu e radicalizou: raspou a barba e cortou o cabelo bem curtinho.

-Assim sim! Estou irreconhecível!

Vestiu seu velho jeans, camisa xadrez e colete. Posicionou na cabeça sua boina e, satisfeito pegou o portfólio. Resoluto, partiu para o metrô rumo ao escritório de sua editora. Na plataforma lotada, ficou ao lado de uma senhora elegante num terninho rosa claro, com uma echarpe suave a envolver seu pescoço. Óculos clássico e dois livros nas mãos. Trem chegou, porta se abriu e os dois sentaram-se juntos. Ocupados com os próprios pensamentos, não imaginam que foram protagonistas de um possível futuro encontro. A vida oferece muitas oportunidades para as pessoas se encontrarem, se conhecerem e se amarem. Pena que são cegas para esses pequenos e preciosos presentes. E cada um desce nas respectivas estações e seguem seus destinos. Quem sabe amanhã ou depois?

Criador e criatura

Da janela de seu quarto, observa um recorte do mundo exterior. Do lado de cá, é ciente de sua realidade. É só isso que tem. Contudo, o que não sabem, é da riqueza de sua imaginação. Através dela, percorre mundos paralelos e inventados por sua mente criativa e alimentada por muitas leituras desde que se alfabetizou. A rica moldura para a realidade, pincela traços grotescos de concreto envelhecido, pinturas desgastadas pelo tempo, vidros repletos de adesivos de estudantes que vem e vão, neons anunciando noitadas quentes a preços convidativos, drinques e diversão garantida, jardins verticais e grafites.

Sirenes rasgam o parco silêncio da rua anunciando mais doentes chegando ao hospital no final da rua. São mais frequentes aos fins de semana acompanhados de muitas cheiradas e álcool. A existência de muitos terminam ali.

Enquanto isso, sua vida segue arrastada numa rotina medonha. Não reclama. Está bom assim. Tem tudo à mão. Somente o que necessita para manter-se viva…

Tudo mudou há seis anos. Era outra pessoa. Ousada, destemida, competente e conhecida. Teve fotos estampadas por diversas vezes em jornais. Uma celebridade. Ganhou dinheiro, viajou, adquiriu imóveis. Aqueceu seu corpo escultural ao lado de muitos homens.

O prazer físico era um de seus vícios que – na medida do possível e também do impossível -, saciava. Seu duplex, decorado por Sig Bergamin, fora palco de muitas orgias. De três em três meses, abria as portas para um grupo seleto. Com direito a roteiro, personagens, boa gastronomia, bebidas à vontade. Baixelas de prata repleta de pó espalhadas por toda parte ofertavam aos convidados, momentos de puro êxtase sensorial, corporal, acompanhados sempre por música clássica ou eletrônica além de trechos de poemas e contos de autores conhecidos ou anônimos. Tudo variando conforme o tema estabelecido por ela. Toda festa era sucesso absoluto e comentadas por semanas nas rodas de amigos. Amante de sexo grupal, seu clímax era o anal que a deixava louca de tesão e estimulava fila indiana da ala masculina para enrabá-la. As mulheres participantes sugavam seus peitos bem garantidos pela gravidade entre outras brincadeiras. Seus bicos chegavam a sangrar de tão chupados e mordidos. Não ligava. A dor fazia parte do jogo. Inúmeras vezes gozou equilibrando-se no parapeito da janela do vigésimo andar. Ali, nas alturas, nua, sentindo o vento a lhe abraçar o corpo junto com algum outro a lhe penetrar, sentia-se verdadeiramente livre e dona do mundo. Seu mundo. O sexo tornou-se seu vício maior. Mais que a cheiradas, picadas e destilados. O parceiro desse vício era o risco calculado. A adrenalina era altamente prazerosa. Foi ousando e se arriscando cada vez mais. Até o momento que seus parceiros de aventura começaram a sair de cena. Muita loucura. Sem maiores explicações, a vida lhe deu um xeque-mate antes que ela fosse responsável pela morte de alguém ou de si mesma. Certa manhã, despertou sentindo-se estranha. Não reconheceu ao mirar-se em seu espelho veneziano. Recolheu-se debaixo dos lençóis egípcios e permaneceu na penumbra por várias horas. Que se tornaram dias, meses, anos. Raras vezes saiu do edifício a não ser para ir ao médico da família que a acompanha desde então. Os amigos, de início até a visitavam mas, aos poucos se distanciaram. Ela não era mais divertida. Olhar ausente pairando sabe-se lá em que paisagens causava incômodo a quem se aventurasse a visitá-la. Muda. De mulher extrovertida e com os temas sempre atualizados sobre tudo, nada mais pronunciava. Sua articulação desembaraçada havia se perdido. Somente balbucias incompreensíveis. Sua beleza – antes admirada e invejada -, agora, apenas um punhado de pele flácida de coloração acinzentada. Seus cabelos volumosos, com brilho e sedosos, hoje, um emaranhado fosco e quebrado. Ela o arrebenta em momentos de crise…

Lê mais uma vez o que acabou de escrever com a ajuda do software Motrix, instalado em seu notebook, sorri satisfeita com sua mais recente história e personagem.

Assim como Álvares de Azevedo, nada viveu em sua limitada vida porém, o que consegue vivenciar através de leituras e escritas comprova sua experiência! Por hora é só. Seu corpo pede repouso.

 

 

 

Debut

elegant-silver-bridal-shoesDorothéa perdia-se na imagem refletida no espelho. Nunca se vira tão linda assim. Pela primeira vez, em treze anos, sentia-se parte da humanidade civilizada. Pela primeira vez, estava limpa, banho tomado numa imensa banheira, num cômodo forrado de mármore rosado e enormes espelhos por todas as paredes. Lembrou-se do toque prazeroso da toalha felpuda em seu corpo. Do cheiro adocicado de amêndoas. Do shampoo que transformou seus desgrenhados cabelos sem vida, numa cascata brilhosa e perfumada. Sorriu para sua imagem refletida mostrando dentes fortes e bem feitos que também ganhara vida após uma longa escovação. Sentia um gostinho de menta na boca. Uma senhora entrou no quarto trazendo um traje branco, bordado com pequenos vidrinhos que brilhavam conforme a luz batia neles. Trouxe também um par de calçados prateados e de salto. Seus olhos cresceram diante de tanta beleza. Afinal, para quem só andava descalça ou – quando muito -, num chinelo improvisado de papelão, ter agora em seus pés calçados tão finos era como entrar  no céu. Toda feliz, vestiu-se e calçou os sapatos. Caiu como uma luva. A mesma senhora voltou ao quarto trazendo agora, uma maleta de maquiagem realçando os belos olhos verdes, destacando as maçãs do rosto e colorindo os lábios carnudos da jovem.

Perfeito! – disse entre os dentes  a senhora que admirava o que via pela frente. Fruto de seu olhar clínico e experiência de vida.

Sorrindo disse à Dorothéa: Menina acredite hoje você fará história na própria vida e dos outros. Vire-se para eu ajeitar o laço do vestido e do seu cabelo. Lembre-se: Sorria sempre que a vida também lhe sorrirá!

Juntas, saíram abraçadas do quarto rumo ao destino que se abria para a jovem e promissora prostituta.

 

Imagem: Cherry Mary

Maré de decisões

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Observando a movimentação dos pescadores, Luciana se encontra há horas, no pequeno porto. O vai e vem dos barcos e das ondas, acalentam seu coração – por hora -, conturbado. Em seu íntimo, várias questões se digladiam. Muitas decisões importantes a tomar. Decisões que mudarão definitivamente sua jovem vida. Enquanto pensa, uma doce brisa brinca com seus longos cabelos negros. Tenta assimilar sua nova realidade, se preocupa em como revelar à sua família. Sabe que não será fácil. Chuta a areia, levanta e segue pela orla resoluta em parar na primeira lanchonete que encontrar e comer umas fritas bem crocantes. A vontade surgiu do nada e fez a menina salivar de desejo. O primeiro, de muitos que terá até completar os nove meses. Após saciar essa vontade, ela pensará numa forma de contar para sua mãe.

“Prepara o lombo Luciana! Hoje a noite a jiripoca vai piar!”

 

Imagem: Freepik

Cabra duro na queda!

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Definitivamente eles não me entendem! E definitivamente, não faço parte dessa turma. Por mais que me esforce, não consigo ser como eles. Tudo parece tão fácil. No entanto, para mim, soa como algo inatingível. Falo pouco, sou de poucos movimentos e mesmo esses poucos, desenvolvo bem devagar. Que posso fazer? É meu ritmo. Já disse, sou diferente. Caí do disco voador num passeio despretensioso pela via Láctea. Bem feito! Quem mandou viajar por aí. Deveria ter ficado no meu canto, em minha poeira espacial bem escondido.

Agora, peno diariamente sendo obrigado a conviver com essa raça humana, primitiva, rancorosa, grosseira e feia. Nesse exato momento, encontro-me num P.S. horroroso, que aqui, chamam de UPA. Horroroso até no nome. Onde já se viu um nome desse para designar centro de atendimento? Só perde para a falta de profissionalismo da equipe. Se tivesse lágrimas, acreditem, choraria diante do que vejo e ouço. Toda essa situação me faz lembrar dos anos lindos e felizes que passei lá nos Emirados do Satélite 9, dois sóis após a Nebulosa 3. Lá, é local de seres evoluídos, limpos, éticos e generosos. Bem diferente do que se vê aqui nesse planetinha de merda! Estão vendo só? Até meu linguajar refinado perdi convivendo com essa gentalha. Ah que saudades ( isso aprendi aqui também) de minha juventude brincando nas nuvens lilás que percorre o Planeta Ruffus 72A. Cercada por seres de luz, inteligência elevada, padrão indescritível que não cabe no vocabulário paupérrimo dos terrestres. Pouco a pouco estou perdendo a lucidez de minha mente brilhante. Estou me nivelando à eles. Triste destino o meu.

Ando sentindo o que aqui  denominam depressão, melancolia, tristeza. Sinto falta dos sons equilibrados do espaço. Aqui, tudo muito barulhento. Meus sensíveis ouvidos já se encontram afetados por tamanha poluição sonora. São incapazes de apreciar o verdadeiro som da alma: o silêncio. Não sabem que é através dele que alcançamos outros níveis da alma e apaziguamos a mente tornando-a mais produtiva. Por conta disso, todos se encontram sempre cansados, sem energia para nada. Burros! Sim, todos por aqui são burros! Onde já se viu, estão acabando com a beleza natural desse planeta de terceira. O que de melhor tinham aqui, estão conseguindo liquidar. E enchem a boca de um imbecil orgulho autodenominando-se Raça Inteligente! Oh God! Quanta baboseira!

Pior de tudo é que, se pudesse, colocaria um ponto final na minha infeliz existência. Não posso. E acreditem, não é por covardia. Tenho coragem suficiente para fazer isso e muito mais. No entanto, fui confeccionado num material que não se destrói. Não finda. Viverei eternamente. O que para os humanos é algo sonhado em alcançar, para mim – confinado a esse bloco de terra e água superpopuloso de criaturas tacanhas e hostis – transformou-se no pior castigo.

Acompanho a saga desse povo há um bom tempo para saber que jamais se modificarão. Evolução aqui passa batido e reto. Logo, encontro-me totalmente desesperançado.

Tentei de tudo para definhar e colocar um ponto final em meu sofrimento. Nada adiantou. Alistei-me em grupos extremistas, fui homem bomba, estive em todas as guerras no século XX e nada. Nem um arranhão sequer. Experimentei drogas pesadas que arrasariam qualquer um. Comigo, o máximo que ganhei foi uma suave diarréia. LSD, cocaína, crack, drogas da felicidade, nada faz efeito em mim. Durante as campanhas espaciais, fiz de tudo para conseguir uma vaga num desses satélites e foguetes espaciais. Como dizem por aqui: a esperança é a última que morre e, movido por essa esperança, tinha intenção de conseguir uma vaga e me lançar no espaço. Rever um pouco da paisagem em que fui criado. Devo ter vindo com defeito de fabricação: azar em todos o meu material genético. Só pode. Tanto espaço me aguardando para explorar e rever, onde fui cair? Onde? Onde?

No deserto de Tarakum. Mais conhecido como A Porta do Inferno. Tinha que ser eu o agraciado dessa brincadeira de mal gosto do destino! Caí em pleno buraco de fogo que os cientistas russos tão graciosamente criaram sem querer querendo e que persiste pegando fogo até hoje. Saí da cratera literalmente pegando fogo. No corpo e na alma de tanta raiva pelo meu intento mal sucedido. E ainda por cima, com uma platéia a se espantar e me achar o máximo! Até hoje devem achar que fui um ator contratado para entreter os turistas imbecis que por lá aparecem.

Não pensem vocês que não tentei outras vezes sair daqui. Tentei. Juro. Muitas. Inúmeras vezes. Pelo teor de minha voz já sacaram que nenhuma deu certo – caso contrário -não estaria perdendo meu tempo aqui, desabafando com vocês.

Chego a seguinte conclusão: Meu confinamento foi decretado pelo Senhor do Universo. Talvez tenha sido apagado de meu chip o passado e atitudes contrárias às Leis Universais. Tenho pedido perdão diariamente na esperança (ela novamente) de que um dia, encontre uma boa alma que me tire dessa sentença tão amarga que é viver no planeta Terra

– Senhor Z, o senhor é um sortudo. Apesar do quadro, o senhor se safou do chikungunya. Entre tantas pessoas vítimas dessa febre que mata, o senhor saiu ileso. Caso de estudo hein? Homem sortudo! Vá para casa!

Go home

Imagem: Hypescience

 

Impermanência

Como permanecer lúcida, se a realidade mostra-se mais surreal que muitas de minhas viajadas? Como manter-me calma, se a humanidade grita e bate e mata numa histeria sem fim? Chego a parecer sem alma diante desse quadro anormal.

Desejo amar no entanto, sou incapaz de me entregar. Carrego grilhões invisíveis que me impedem sair do lugar. Transito apenas locais que me é permitido: casa, trabalho. trabalho, casa. Quando muito, patrão Vida permite que tenha alguns minutos de prazer. Um cinema, um concerto, uma dramaturgia para anestesiar meus dias. Alguma orgia também, afinal, ninguém é de ferro. Mas sempre retorno mecanicamente para minha gaiola de luxo.

E o vazio faz moradia em meu interior. Serei eu também de lata? Estarei fadada a terminar meus dias num ferro velho tendo por companhia carros velhos e a ferrugem como carícia mais íntima?

Olho ao redor e nada reconheço como meu. Não pertenço a nada nem a ninguém. às vezes isso é bom, outras, nem tanto. Para que a gente vive mesmo? Gostaria de lembrar…Deixei cair o manual da boa sobrevivência ao estatelar de boca nesse mundão de meu Deus. Enxerguei tanta beleza que esqueci a parte prática. Me lasquei! E agora, sigo percorrendo vias, rastejando estradas vicinais da memória, sempre em busca de um porque.

Envelheci. Tudo isso é novidade para mim e, mais uma vez, vejo-me perdida sem saber que rumo tomar. Quem não me conhece – e olha que são todos, imagina que sou o ser humano mais feliz do planeta. Eu, por outro lado, me acho uma boba alegre que jamais saberá pra que isso tudo e o que é viver. Contudo, assim como a maioria, não desejo morrer…

Temo que o outro lado seja mais enfadonho que essa nossa realidade. Não quero pagar pra ver.