B.E.D.A. – Desdobro-me

Tenho sofrido surtos. Preocupada, busquei ajuda médica. Pobre doutor, calejado sobre conheceres anatômicos/acadêmicos, ficou sem diagnóstico diante de minha narrativa.

Olhos esbugalhados, embaçados – talvez por noites insones – levantou, caminhou pelo consultório; ora coçando a calva, ora massageando a cervical. Dirigiu-se a sua vasta biblioteca médica e a consultou.

Ensimesmado, leu, fez anotações mentais, voltou para a mesa e – pegando da caneta e bloco -, fez uma receita e me despachou.

Emputecidinha, piquei a tal receita e joguei no cesto de lixo da recepção. Saí sem olhar para trás. Percorri caminhos nunca traçados até que parei numa praça e, sentei. Boca querendo fazer muxoxo, olhos com vontade de esparramar; coração bombeando insatisfações.

Nem percebi o personagem sentado no banco ao lado, com livro em mãos a me observar. Levantou-se, deu uns passos miudos e iniciou um poema em voz alta.

Envolta por desassossegos, pensei com minhas pregas: Coitado, mais um surtado. O mundo está perdido…

Seus olhos sorriram em minha direção e uma pergunta brotou: Qual motivo de sua tristeza?

Num impulso, contei todo sofrimento pelo qual tenho passado. Ao término, pedi desculpas por ter falado tanto. Talvez o pobre senhor só estivesse tentando ser educado. Pediu licença para dividir o banco comigo. Pensativo, decretou: Desdobre-se caso contrário, morre.

Não entendendo, interroguei-o. Suspirando, soltou sua grave voz explicando que devemos desenvolver o hábito do desdobramento. Segundo ele, desdobrar para se manter são. Encerrou a conversação, olhou o relógio de bolso antigo, levantou e partiu deixando sentada, uma pessoa com mais dúvidas para carregar.

Voltei para casa achando que havia sido perda de tempo sair em busca de ajuda. Não foi. Pesquisei, li artigos diversos sobre tal fenômeno que é muito mais comum do que imaginava.

Hoje, quando a realidade me sufoca, desdobro e parto em busca de paisagens que acalentem minh’alma cansada. Quase sempre, sigo para mar aberto. O vai e vem do mar acalma, repõe minhas energias. Nessas andanças, coleto histórias, processo vivências, registro belezas. percebo fauna e flora deixando de lado, registros humanos. Esses, na realidade tenho em excessos.

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Imagem: Ilha de Itaparica (Acervo pessoal)

B.E.D.A. – Solo árido

Uma breve pausa para repousar. Era tudo o que desejava na vida. Desde que se entendia por gente, sua vida sempre foi essa loucura de nunca fincar raízes. Cada hora, mudando para cidade diferente, casa estranha, vizinhos desconhecidos. Tudo muito desgastante. Por que sua mãe não entendia isso? Nunca obteve uma resposta. Sua mãe sempre foi assim. Calada. Sisuda.

Mulher amarga, arisca, olhar seco e profundo. Árida feito o solo da região. Petrônio nunca soube o que fizera sua mãe se tornar assim. Conversavam pouco. Falavam apenas o necessário.

Aos quinze anos, Petrônio parecia bem mais velho. Herdou, talvez pela convivência, a sisudez característica de sua mãe. Raras vezes mostrava os dentes num sorriso.

Trabalhava no que aparecia, porém, o que mais gostava era de lidar com couro. Desde que, aos doze anos, conheceu seu Julião e ajudou-o nos afazeres do curtume, tomou gosto. Adorava o cheiro do couro! O pouco de sonho que se permitia, era de um dia, trabalhar de vez num curtume. Já se daria por satisfeito. Sonhar em ser dono de um, era exagero e fora de sua dura realidade. Enquanto isso não acontecia, fazia biscates.

Durante as inúmeras mudanças, Petrônio se encarregava de armazenar os parcos pertences. Jamais se aproximava das coisas de sua mãe. Desde a mais tenra idade fora instruído a nunca tocar em suas coisas pessoais. Apesar da curiosidade de menino, não desobedeceu. Acatava cegamente suas ordens. Sabia que ela mantinha uma mala fechada a sete chaves e, guardava entre seus mirrados seios, a chave, num cordão de couro. Não se separava dele por nada. O menino imaginava o que ela devia ter na mala…

Em sua minguada imaginação chegou a pensar que ela mantinha prisioneiro, a alma de seu suposto pai, que nunca conhecera.

Por vezes, brincando com ossos de gado ou outro animal encontrado pelo sertão, imaginava-se filho de Lampião ou de outro personagem do imaginário popular.

Nem se arriscava mais a repetir a infame pergunta: Mãe, quem é meu pai?

A única vez em que o fez, tomou uma surra de reio. Nunca se esqueceu do ódio estampado nos olhos da mãe, enquanto vociferava que ele era cria do Tinhoso e, que se quisesse mesmo ser apresentado a ele, que repetisse a pergunta. Apanharia até a morte. Por dias e dias, Petrônio chorou em silêncio, sentindo dores horríveis no corpo e na alma.

Plaft!

–        Aíí!!

–        Vai moleque! Deixe de sonhá acordado e vamo segui em frente. Tem muita terra pra gente engoli antes de chega na cidade mais próxima.

Olhando com desânimo para o horizonte – que tremulava diante do sol escaldante -, Petrônio limpou o suor que escorria pelo rosto tostado. Respirou fundo. Desolado, pegou suas tralhas, arrumou em seu lombo castigado. Lado a lado de sua mãe, seguiram.

Deixam para trás um campo seco, para tentar uma nova/velha/conhecida vida, num novo solo árido.

Esse texto faz parte do livro de contos Recortes de vida, do projeto Exemplos, de 2014, pela Scenarium Livros Artesanais

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Imagem: Acervo pessoal

B.E.D.A. – Descarte

Quem me vê sentada trabalhando calada, não imagina o mecanismo que aciono.

Agora, me encontro sentada, cercada por livros retirando suas etiquetas. Dobro-as ao meio, sem pressa, jogando no cesto de lixo. Vou empilhando um a um, cada livro que sofreu desbaste e seguirá para reciclagem.

Alguns livros, seleciono e separo numa outra pilha. A esses, darei a chance de ficarem no acervo por mais um tempo.

Quem me vê nessa tarefa mecânica, pode pensar que eu me sinto enfastiada. Aos olhos da maioria, essa tarefa é sem graça.

Para mim não. É significativa. Abrange muito mais que os velhos e surrados livros que descarto.

Enquanto atuo, processo interiormente, outra tarefa. Essa de mais valia.

No manuseio dos livros velhos, faço outro tipo de descarte: de pessoas, atitudes, posturas.

De tempos em tempos, essa tarefa é necessária. Os espaços em nossos arquivos pessoais vão ficando apertados, empilhados, desorganizados. Isso nos causa sensação de angústia. Sabe aquele famoso aperto no coração? São excessos de gente desnecessária em nossas vidas, sentimentos exacerbados, encruados, atitudes erradas. Aos poucos, ocupam espaço precioso impedindo que o bem estar finque moradia.

Enquanto descarto o livro A declaração universal dos direitos humanos, analiso se meus direitos estão sendo violados, desrespeitados, pisoteados. Estão.

Pondero para ver o que causa tais sensações. Constato que a bola da vez é você.

É, meu caro, você se encontra na berlinda há tempos. Já esteve na fila do descarte em outras ocasiões. Caridosa que sou, te deixei “dormindo” na prateleira das repescagens.

Observo o seu descompasso comigo, nos últimos anos. Faz tempo que não caminhamos juntos, não acompanha nem reconhece mais minhas notas musicais.

Tornou-se um péssimo dançarino!

Na prateleira das emoções, olho analiticamente sua lombada que já não me atrai. Desbotou com o tempo, feito seus cabelos, que outrora reluzia entre meus dedos. Folheio sua história. Verifico que sua página de rosto se encontra rasurada, seu nome quase apagado. Talvez por culpa minha mesmo que tanto o acariciei. Suas palavras caíram em desuso, feito língua morta. Tornaram-se arcaicas. Nem mesmo seus poemas que tanto me emocionou um dia, hoje parecem rimas de colegial.

Não se culpe! Fui eu que mudei nessas minhas andanças biblioteconômicas.

Foi opção sua permanecer estático. Inquieta, sigo adiante. Tenho sede de novidades.

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Imagem: Acervo próprio

B.E.D.A. – Chá entre amigas

Na sala de estar improvisada em seu quarto, Gabi serve chá e biscoitos para suas amiguinhas. Em sua mesa, estão dispostos, biscoitos de canela, croissants, bolinhos de chuva e bolo de milho que humm!… Só vó Dita sabe fazer e separou uns pedacinhos para que ela pudesse brincar.

Encontram-se numa roda de conversa e comilança sem igual quando de repente: TOC!TOC!

– Gabi, você espera mais alguém? – Maneca questiona a anfitriã

– Não… Ah! Vai ver, a Beca decidiu vir também.

– Oi … Nossa! O que aconteceu com você Beca?

– Olá, sou a Cacilda, sua nova vizinha. Acabei de mudar e ainda não me organizei. Os utensílios da cozinha então… Nossa! Está uma verdadeira zona lá em casa.

– Sei… –  Gabi avalia sua mais nova vizinha

– Quer que ajudemos a organizar sua cozinha dona Cacilda?

– Affê, criança! Por favor, sem essa de dona. Vou me sentir mais velha do que sou. Vamos deixar de lado as frescuras sociais. Pode me chamar de Cacilda mesmo.

– Ah, certo. O que deseja então?

– Querida, meus filhotes estão morrendo de fome e, como eu senti – sabem, tenho um olfato poderosíssimo! – o cheiro de coisa gostosa vindo daqui, pensei: E por que não? Afinal, vizinhos são para isso também. Uma mão lava a outra, hehe.

– Ah tá! É isso? Pode trazer seus filhotes e servir-se. Acredito que tenha para todos.

– Fofinha, agradeço a gentileza. Que doce de menina! Meus filhotes ainda são muito novinhos para sairem. Será que você poderia me arranjar um prato de biscoitos? Eles adoram biscoitos!

– Tá! Espera um pouquinho.

Em segundos, Gabi fez um prato sortido de biscoitos de canela. Sendo um coração generoso, foi até a dispensa e completou com biscoitos recheados de chocolates.

– Ah! Coração, Obrigada! Você é uma menina muito boa mesmo. Eles vão adorar! Assim que organizar minha casa, te convido para um chá e retribuo com todo o carinho, a atenção que teve comigo. Tchauzinho darling!

Voltando para o convívio das amigas, Sarita questionou:

– Gabi, onde você tá com a cabeça que atende, conversa e ainda dá biscoitos a uma, uma… Caramba! A um crocodilo fêmea?! Desde quando crocodilo come biscoitos? Pirou, foi?

As amigas caem na risada. Gabi, calmamente se serve de mais chá de maçã e saboreia um pedaço do bolo de milho. Após abocanhar um farto pedaço, mastigar e tomar um gole do chá, fez uma expressão de total enfado. Engolindo, explica:

– Meninas, se brincando posso inventar que vocês três são reais e não apenas bonecas, por que não inventar uma vizinha crocodilo fêmea e seus filhotes que gostam de biscoitos? Qual o problema? Relaxem. Tomem mais chá que a tarde está só começando.

Na cozinha, dona Dita que ouve a neta brincando, comenta com suas panelas:

– Ah, essa menina! Que imaginação! Que imaginação!

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Imagem: Pinterest

Esquece tudo agora

…E não pense em Deus. Finja que ele não existe. Nenhuma misericórdia. Nenhum ombro a te consolar. Nenhum pecado. Nenhum sermão. Nenhuma luz. E pronto. Deus fará cócegas em seus pés com penas de Arara Azul. Depois durma.

Marcelo Maluf

Espaço destinado ao ofício da escrita. Bonito, bem decorado. Pensado em cada detalhe. Mobiliário projetado pela própria dona, que entre tantos certificados, obteve o de design de interiores.

Bancada tomada por livros para pesquisa, para lazer, para ser objeto de decoração. Cadernos artesanais enfeitam a prateleira. Alguns já trazem em seu interior, histórias e projetos aguardando desenvolvimento e desfecho. Outros, esperam pacientemente sua vez de serem preenchidos. Enquanto não acontece, se conformam em ofertar beleza na imobilidade da estante.

Curvada diante da tela de seu notebook que permanece em branco, a escritora gostaria de escrever textos leves, poéticos. Textos que pudessem trazer ao olho leitor, uma dose de calmaria onde, as palavras pudessem atuar como gotas medicamentosas, aplacando sofreres.

Sua face se contorce numa expressão dolorosa. Algumas lágrimas cometem haraquiri. Partem em busca de redenção fora dos olhos, cansados da TV.

Ela sabe que ainda há tanta beleza a ser enaltecida pelo viés do escritor. Beleza nascida na natureza, beleza criada pelas mãos sensíveis dos homens. Infelizmente, alguns se perderam da humanidade e hoje, vociferam sua bestialidade sentindo prazer em causar e apreciar a dor alheia.

A sensibilidade da escritora é cancro aberto com moscas rondando. Ela esmurra a bancada, levanta. Percorre a sala silenciosa onde apenas seu grunhido de dor se ouve. Sozinha, somente ela pode se compadecer do próprio sofrimento.

Vai para a cozinha passar um café. Por alguns segundos seu olfato é presenteado com o aroma característico da bebida. Sorri, sentindo o amargor que sobe por sua garganta fechada para balanço. Não ouve a própria voz há duas semanas.

Num ritual do qual não abre mão, pega a pequena xícara que trouxe de uma de suas inúmeras viagens. Posiciona ao lado da cafeteira que cantarola alegre, avisando que ainda não terminou. Pacientemente, aguarda, olhando para o infinito. A cidade – princesa Aurora de tempos sombrios -, dorme silenciosa. Até quando, ninguém sabe.

Beberica o líquido absorvendo também seu perfume. Uma xícara. Duas xícaras. Na terceira, pousa no pires e retorna para sua zona de trabalho.

Se alonga um pouco. Na vã esperança do movimento despertar- aliado ao café -, sua mente para o texto a escrever.

Sua atenção é fisgada por um bloco de livros acomodados à sua direita. O título do livro que se encontra no topo, faz com que ela esboce um sorriso e um brilho acende seu olhar.

Livro de contos de um escritor que foi seu professor no passado e uma obra que muito a agrada. Serve de incentivo para que ela deixe de procrastinar e inicie o texto afinal, o prazo está se esgotando.

-É isso Marcelo! Obrigada. Mesmo à distância, continua a me dar a força que sempre necessitei. “Esquece tudo agora”. É isso! Vamos deixar todo o sofrimento lá fora e fazer emergir a beleza do existir aqui, impresso nas páginas que vou escrever. Porque escrever é criar vidas. Escrever é mudar a rota. Escrever, é resistir! Resisto. E persisto!

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Ácida Cacilda

Cacilda, desperta. Seis horas da manhã de terça-feira. Dezoito de janeiro de 2021. Com certa dificuldade, senta-se na cama. Alonga seu esqueleto que range feito seus móveis velhos. Levanta, dá dois passos sentindo dores na sola de seu pé esquerdo. É a tal da fascite plantar.

Pragueja em voz alta pigarreando:

-Envelhecer é uma merda! Ai!

Vai para o banheiro urinar litros desse líquido morno.

-É o que mais tenho feito ultimamente. Mijar, cagar, peidar e sentir dores por todo o corpo. Arrê!

Entrando em seu cubículo chamado cozinha, acende o fogão e põe água para esquentar. Acende seu primeiro cigarro do dia. Puxa a fumaça para dentro de seus pulmões já carcomidos pela nicotina e, solta uma baforada que lhe enche os embaçados olhos de um brilho de prazer…

Ao deitar a água quente sobre o pó de café, o aroma que tanto gosta inunda o pequeno cômodo em que vive. Enche até a borda, uma xícara vermelha com logo Nescafé, que roubou da padaria que frequentava, quando ainda trabalhava. Cacilda sempre foi dada a essa fraqueza: pequenos furtos. Puxa uma cadeira próxima de sua janela do 16 andar. Um dos poucos prazeres é sentar-se pela manhã, acompanhada de sua xícara de café fresco e seu cigarro e observar o movimento de pessoas que pouco a pouco, tomam conta da rua em que mora. Aprecia olhar as janelas do prédio em frente e ver a rotina de seus moradores que – na pressa em se aprontarem para o trabalho -, nem imaginam serem alvo da curiosidade de uma velha moradora. Enquanto beberica sua dose de cafeína, entre uma tragada e outra, fala em voz alta:

– Ando mais ácida que limão siciliano. Sempre procurei ver o lado bom de tudo. Confesso que esse ano não estou tendo olhos para isso. Devo estar sofrendo de opacidade da retina da alma. Por onde passeio meus cansados olhos, só vejo merda. Peguei ranço da humanidade. Inclusive da minha que desandou em pensamentos impuros sobre tudo e todos. Mandei Pollyana pra puta que a pariu faz é tempo e ando tomando minhas doses com Bukowski e Hank Moody. A vida tomou um rumo sem me pedir permissão. Estou até agora pensando: Onde foi que errei? Nunca ferrei com ninguém. E olha que tive muitas chances e criaturas que mereciam minha rasteira. Contudo, meus valores jamais permitiram que assim agisse. Sempre procurei ser correta e muitas vezes sofri tropeços por conta de alguns pés em meu caminho colocados de forma mal intencionadas. Caía, levantava, chacoalhava o esqueleto dolorido e seguia em frente. Vingança? Deixava pra lá. O Universo que se encarregue disso lá na frente.

Desconfio que Deus se vingou de mim por ser tão otária. Chego a ouvi-lo rosnando : Deixa de ser besta mulher! Acorda pra vida que ela não é rosa não. Muito menos roteiro de novela global.

Completo hoje 69 anos e acordo para uma dura realidade. O que tenho presenciado e ouvido não me agrada em nada. Por conta dessa contrariedade, refugiei-me na criança pura que fui um dia e me recuso a sair de dentro dela. Só que está penoso mantê-la presa a essa velha amarga que me tornei. Não é justo com alguém que sempre me confortou, causar tamanho sofrimento. Por isso choro. O sal que escorre por minha derme repleta de manchas senis, não arde mais que o sal que escorre dentro, me corroendo a alma. Perdi a virgindade dela. Transforme-me num ser humano comum. Olho-me no espelho e o que vejo não me agrada. Não são as rugas e marcas de expressão que me atormentam. Não são as pálpebras flácidas e caídas que incomodam. Não é o vinco fino e fechado de minha boca – que outrora soube sorrir -, e que agora se lacra diante de tanta feiura mundana. É o que enxergo além do espelho. Transformei-me num monstro horrível!

O mergulho nesse lodaçal interior é doloroso. Fede. Anseio retornar à superfície e respirar um ar menos denso mas não dá. Sinto-me presa no fundo de mim mesma. Como fugir de nós mesmo? Como ignorar o que se é de fato? Lembro de minha terapeuta que cuidou de mim por quinze anos. Tento gritar por seu nome mas nenhum som sai dessa boca lacrada e garganta paralisada. Meu peito estufa ansiando por oxigênio porém, somente os gases emitidos pelo enxofre que me rodeia alimentam meus pulmões. Que pesadelo meu Deus!

A campainha toca trazendo Cacilda para a realidade. Bebe o restante do café- agora frio -, fazendo uma careta, finaliza o cigarro que já se encontra no toco apagando no chão. Gira a chave e abre a porta visualizando a figura detestável de seu vizinho Germano.

-Bom dia dona Cacilda. Falando sozinha de novo? Deve ser o “Alemão” rondando hein? Precisa se cuidar

-Vá se foder viado do caralho! – despeja com acidez, batendo a porta na cara do vizinho que apenas desejava ser atencioso com uma velhinha tão solitária quanto ele.

Imagem licenciada: Shutterstock

Caloroso amante

Desde pequena, preferia a natureza aos humanos. Os adultos eram complicados e as crianças, idiotizadas. Na família, era tida como a caçula esquisita. Trocava qualquer brincadeira para ficar na companhia das galinhas e patos do terreiro, dos gatos vagabundos da vizinhança, dos cães de rua. No entanto, sua companhia preferida eram as plantas.

Sentia imensa alegria ao acompanhar o crescimento delas em vasos, horta e pomar. Traçava diálogos longos e animados com as margaridas do jardim, avencas, jiboias, lírios da paz. Era íntima das hortaliças. Ouvia com muita atenção as reclamações do pé de tomates, surpreendia-se com as confissões dos alfaces, as fofocas do pé de chuchu que adorava se esparramar contando tudo em detalhes.

Ao término de cada dia, permanecia petrificada admirando o pôr do sol. Aquela bola de fogo no céu a estasiava. Não cansava de assistir ao bonito espetáculo.

Seu sofrimento tornou-se constante ao ingressar na escola. As crianças mostraram diariamente o quanto podem ser más. Todo dia, uma brincadeira nova para humilhar a tal da “esquisitinha caipira”. Sua dor emocional começou a se manifestar em seu corpinho franzino. Brotoejas, resfriados, febre, noites mal dormidas, perda de apetite.

Retornava para casa e se refugiava em meio a plantação onde, entre lágrimas, expunha para suas companheiras seu drama.

Seus pais, preocupados, passavam as noites discutindo o que fazer sobre o comportamento da pobre menina. Sua mãe, amorosa, dizia que tinham que ter paciência com a pequena. Era de todos, a mais sensível. Seu pai, homem rude, discordava. Para ele, só mesmo uma boa sova resolve mimos. Caso não melhorasse, ele ameaçava retirá-la da escola. Afinal, pra que tanto estudo para uma menina? Melhor trabalhar sua personalidade para os afazeres de casa.

Em pouco tempo sua ameaça se concretizou. Ao contrário de receber como castigo, a pobrezinha agradeceu imensamente a bondade do pai em dar por encerrado seu sofrimento. Jurou que nunca mais entraria em uma escola. Agradeceu também, junto ao pé de café, as orações que suas companheiras da flora fizeram, intercedendo por ela.

As folhas do calendário foram rolando uma a uma até chegar ao aniversário de dezoito anos. Aquela mirrada criança se transformou em uma bela moça. Uma beleza sem retoques artificiais. Cuidava dos afazeres domésticos com sorriso sempre presente no rosto que agora, adquirira cor pois passava horas ao sol, lavando, estendendo roupas no varal, levando comida aos porcos, galinhas, patos. Aguando a plantação.

Muitos pretendentes surgiram no entanto, nenhum despertava seu interesse. Seus irmãos foram se casando e mudando nas proximidades. Ela, firme na convicção de que não desejava casar com ninguém. Sua mãe apenas acenava com a cabeça e pensava: Nem todas vieram para casamento. Ela será nosso amparo na velhice. Confio em sua bondade.

Novas folhas do calendário rolaram. Muitas estações mudaram encerrando seus ciclos naturais. Agora, aos trinta e cinco anos, quase nada mudou em sua rotina. Alguns fios de cabelo branco surgiram em sua vasta cabeleira que mantém arrumado num coque. Ganhou alguns quilos que – ao contrário de suas irmãs agora mães -, trouxe-lhe sensualidade. O trabalho pesado fortaleceu sua musculatura. Ganhou pernas e braços torneados, belos. As rugas ao redor dos olhos e boca não a envelheceram, trouxeram-lhe uma aura de sabedoria. Aprendeu a arte e os benefícios medicinais das plantas e agora, recebe mães com suas crianças para benzer e passar medicações que a natureza oferece. Transformou-se numa guardiã e estudiosa das ervas.

Outro hábito adquirido com o passar dos anos, foi permanecer nua em seu quarto. Sentia-se integrada à natureza. Sabia ser parte dela. Como as demais pessoas jamais aceitariam tal comportamento, confina-se em seu espaço após a labuta e, toda tarde, antes do sol se pôr, desnuda-se, deita ao chão próximo da janela que, para seu deleite, é grande, e passa as horas finais do dia sentindo-se abraçada pelo calor. Despede-se dele como quem se despede do amante. Com olhar de quem deseja mais e mais. Hoje, pela primeira vez, sentiu algo diferente. Enquanto tomava seu banho de sol, mantendo os olhos fechados, ouviu uma voz masculina pedindo para que abrisse as pernas. Mesmo estranhando, obedeceu. Aos poucos, o calor do sol envolveu seu botão ainda intocável. Delicadamente, desabrochou abrindo-se.

Inexperiente, assustou-se querendo fechar as pernas contudo, a voz novamente disse-lhe: Não meu amor, confie em mim. Quero te fazer mulher e feliz. Relaxe e deixe-me penetrá-la. Desejo te conhecer por dentro também.

Entre contorções que a princípio foram suaves até o espasmo e o grito de prazer intenso, sua primeira experiência sexual foi na companhia desse, que se tornaria seu companheiro até a hora derradeira, quando retornaria à natureza, transformando suas moléculas em adubo para uma formosa quaresmeira e, continuar pela eternidade, a receber os carinhos de seu amante.

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Um entre tantos por aí

Ele reinou soberano entre as mulheres. Sempre foi assim e, pelo visto, será até chegar o dia de se aposentar dessa vida. A presença masculina nunca foi o forte em sua existência. É claro, teve pai, irmãos, primos. Contudo, a presença feminina foi marcante em seu dia a dia. A mais forte foi, sem dúvida, sua mãe. Mulher de atitude. Bonita a sua maneira. Não foi mulher de vaidades. Gostava de andar descalça, sentir a terra, esfregar a sola ressecada na canela e assoviar enquanto realizava as atividades do lar. Sempre alegre. Tinha também seus momentos de histeria e nervosismo. Seu marido, ralhava por não manter uma pose de mulher casada e séria. Gargalhando, saía rebolando e sempre respondia:

-Quem quiser falar de mim à vontade, pois quem fala por trás, o cu é quem escuta.

Ele, às escondidas para seu pai não ver, ouvia e saía sorrateiramente para o paiol da casa com um tímido sorriso pela ousadia e vitória de sua mãe. Sua adorada mãe.

A companhia constante dela moldou seu espírito simples, trouxe-lhe doçura e simplicidade. No entanto, seu pai teve um peso imenso e o engessou com orientações religiosas que fizeram dele, eterno infeliz. Amedrontado pelas idéias de pecado e tormentos no inferno, não ousou sentir prazeres.

Trabalhar, trabalhar e trabalhar sem se perder em coisas materiais. Esse foi o lema assumido e seguiu sem refletir se era o certo. Tinha de ser afinal, seu pai rezou por essa cartilha também!

Transformou sua existência num grande discurso de amor ao próximo. Todavia, foi incapaz de tolerar as diversidades na própria família. Que ironia!

Não permitiu se apaixonar. Cerziu o coração para o amor de uma mulher. Tão pouco deixou fresta para um amor homossexual. Deus castiga!

A vida passou, a juventude também. A maturidade trouxe o endurecimento das articulações e de seu coração.

Não casou, não teve filhos, não cultivou amigos e os poucos que fez, morreram.

A solidão é sua companheira constante. É ela que lhe faz companhia da hora que acorda a hora que cerra novamente os olhos numa fuga insana para o mundo dos sonhos. De onde não deseja mais regressar.

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Raça superior

Era madrugada quando acordou assustada. Levantou e saiu apressada em direção ao banheiro. O que será que havia comido no dia anterior para estar com tanta cólica? Repensou entre uma gemida e outra:

-Pela manhã tomei meu café e um pão francês na chapa acompanhado de ovo mexido. Sempre como isso nunca me fez mal.

-Depois, no almoço, um risoto com  ervas, salmão grelhado e salada de folhas e tomate cereja com um filete de azeite e vinagre balsâmico.

-À tarde, o lanche foi uma banana prata, mix de oleaginosas, uma xícara de chá de frutas vermelhas.

-Por volta das 20h, uma tapioca recheada de abobrinha refogada com cenouras e ervas acompanhada um copo de suco de uva. Antes de deitar-se, uma xícara de chá de hortelã.

Acalmou-se. Nesse meio tempo, seu olhar capturou uma microscópica formiga que acabara de sair do canto do banheiro. Esse ser tão pequenino a fez refletir o quanto a humanidade é tola em se achar o máximo da inteligência. Constatou que, além de arrogantes, são dotados de uma cegueira que os impede de ver o real tamanho diante do universo. Observou a perseverança da formiga em arrastar um micro pedaço de casca de pão.

-Coitada! Deve ser mãe solteira e se preocupa em levar alimento para sua cria. Como a maioria das mulheres. Fala sério! Se todos que tivessem uma dor de barriga pela madrugada, tirasse um segundo para refletir sobre as questões filosóficas que nos move, aposto que essa merda de mundo seria bem melhor.

Mais alguns minutos acocorada. Aliviada, optou por uma ducha quente e, em paz e sonolenta, retornou a maciez de sua cama. Quase dormindo teve um pensamento rápido:

-Amanhã antes de sair pro trabalho, preciso aplicar  o veneno em gel para formigas. Deus me livre de conviver com esses bichos. Deus me livre!

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Amor padrão risca de giz

Em meio aos caos de início da noite, numa cafeteria frequentada por jovens, uma pessoa se destaca. Sentado sozinho numa mesa de canto, o homem saboreia seu café com o pensamento longe dali. Relembra sua mocidade constatando que lá atrás, já era um frequentador de cafeterias. Sempre foi o local preferido para pensar, observar e escrever. Muitos textos a princípio e depois, com carreira já consolidada, vários de seus livros foram escritos nessa ambiente. Sorri de forma desencantada ao relembrar que esses espaços eram cheio de charme e liberdade.

Hoje, transformadas em espaços glamourizados, pessoas circulam por elas munidas de seus notes, tablets, smartphones, isolando-se em seus mundos virtuais. O que antes era recinto para acolhimento e troca de ideias, hoje, tornou-se depósito de seres humanos robotizados e alienados.

Nem mesmo se tem a liberdade de acender um cigarro e, entre uma tragada e outra, liberar ideias e desenvolver roteiros para um novo romance ou conto.

Enquanto simula profunda tragada num cigarro imaginário, o senhor ajeita a flor na sua lapela, alisa o tecido da calça no padrão risca de giz e abre um envelope amarelado pelo tempo. Uma carta se abre diante de seus olhos cansados que – ao percorrer suas linhas -, ganha um brilho intenso.

Se alguém prestasse atenção, veria um personagem bem interessante saído de um filme noir.

Dobrando a carta e devolvendo-a ao envelope, saboreia mais um gole do café fazendo careta. Massageia o rosto flácido, coça a cabeça que ainda mantém uma cabeleira farta. Guarda o envelope no meio de um velho livro de capa de couro.

-Ana Maria… por onde andará a essa altura da vida? Será que ainda é viva?

-Senhor? Falou alguma coisa? Deseja mais café? – pergunta uma jovem garçonete que limpa a mesa ao lado.

-Não minha filha. Sou só um velho resmungão que tem por costume falar sozinho.

-O senhor é muito refinado. Sempre que aparece pede por favor, agradece. Um cavalheiro! Isso não existe mais não.

-E você minha jovem, demonstra ter um olhar para o próximo e está sempre com um sorriso nos lábios para atender a todos. Isso também é raro.

-Sim. Mas hoje, percebo que o senhor está triste. Desculpe se estou sendo invasiva mas, aconteceu alguma coisa?

-Além de jovem, bonita e atenciosa, ainda é observadora. Agora virei seu fã!. Tem razão mocinha. Hoje, acordei saudoso de um tempo que não volta mais. Coisa de velho solitário. Não liga não.

Dizendo isso, toma um último gole do café já frio, reúne seus pertences, ajeita o chapéu de feltro cinza na cabeça e sai, desejando boa noite para a moça.

Pensativa, a garçonete recolhe a xícara usada pelo senhor. É quando percebe algo caído próximo a cadeira: uma foto em preto e branco com um belo casal de jovens abraçados e sorridentes.

A moça, linda em seu vestido rodado e chapéu com véu cobrindo parcialmente seu rosto bem feito. O jovem, impecável em seu terno estruturado em risca de giz, chapéu de feltro e um cigarro acesso no canto da boca.

Romântica, a jovem guarda a foto em seu avental para, no dia seguinte, devolvê-la a seu dono. Não deseja tomar para si talvez o único elo de um passado feliz de um velho solitário. No fundo, sente uma pontada de inveja por não ser a moça feliz ao lado do jovem amoroso.

-É, já não se faz amor como antigamente…

-Falando sozinha Janaína? Deu para isso agora?

-É chefe. Às vezes tenho isso.

-Então deixa os devaneios de lado e vá atender a mesa 8.

-Ok!Ok! É vida que segue. É trabalho que chama!

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