Ritual

Xícara devidamente posta, cookies de especiarias, descansam num pote de vidro.Toalha alisada, aroma cafeinado envolvendo o ambiente ao som de Sarah Vaughan. Cortinas cerradas, impedem a bruta realidade de entrar e estragar a energia trabalhada: paz.

No aparador, uma vela de jasmim acesa, complementa e perfuma a cenografia montada. Na solidão do apartamento, a mulher se veste sem pressa, mirando o espelho. Sorri ao ver o reflexo que a agrada.

Pega os apetrechos e segue para a sala. Liga seu All in one branco, acessa a aula pelo Youtube, desdobra o tapete de yoga, posiciona em lótus, fecha os olhos e agora – com trilha sonora de Kitaro – inicia a meditação diária.

Dentro de uma hora, “ele” estará online para mais uma relação virtual. Suspira profundamente esboçando tímido sorriso.

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Fado moderno

Ao som do fado, na voz de Mariza, Maria da Soledad passeia os olhos pela vegetação ao redor da Fonte dos Amores. Após ouvir as inúmeras lendas a respeito do amor de D.Pedro e Inês de Castro, não poderia partir de Coimbra sem visitar o local.

A professora de educação infantil de férias em terras lusitanas, pensativa, absorve a atmosfera medieval da fonte.

No dia seguinte, seguiria com as amigas, para a cidade de Porto, depois Guimarães e Braga, retornando por fim, à Lisboa para embarcarem de volta a São Paulo.

Romântica, fora capturada por essa linda e triste história de amor que ganhou o mundo. Desconfiava que jamais seria amada dessa forma. Hoje, os relacionamentos são tão voláteis. Se Pedro e Inês tivessem vivido em nossos tempos, curtiriam apenas um amor de verão. Ao término da estação, cada um seguiria seus destinos guardando por breve tempo, lembranças que se esmaeceriam até sumir e nem lembrarem da fisionomia um do outro.

Ela mesma quase não lembrava detalhes do rosto de Gustavo, seu último grande amor, que partiu para a Austrália, no inverno passado. Chorou, teve insônia, perdeu o apetite por algumas semanas. Envolvida pela correria do término do semestre e os inúmeros relatórios a entregar para sua supervisora, foi esquecendo até quase não pensar mais nele.

Posicionou-se ao lado da fonte, tirou umas selfies esboçando falsa alegria. Aproveitou para registrar mais outras fotos, na escadaria da Quinta das Lágrimas, hoje um luxuoso hotel. Partiu para encontrar suas companheiras de viagem, que haviam disparado mensagens cobrando sua presença.

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No silêncio da casa

Duas e trinta da manhã. É domingo, ouço o silêncio que impera na casa. Olhos abertos na escuridão, espero paciente a vinda do sono. Enquanto aguardo, relembro momentos íntimos que ficaram no passado.

Recordo o primeiro encontro, após dois anos de conversas que adentraram a madrugada. Preparo gostoso, onde pudemos nos conhecer, nos desenhar, nos imaginar. A distância que nos separava, foi ingrediente importante para apimentar o desejo de unir corpos e saciar a fome um do outro.

Enquanto não o realizávamos, costurávamos a relação com muito bate-papo sobre literatura, cinema, teatro e música. Ah… de repente, bateu uma saudade de minha ingenuidade. Éramos tão jovens, tão cheios de sonhos, esperanças…tesão.

A lembrança de sua implicância por eu ser fã do Oswaldo Montenegro e do Jorge Vercillo… Lembrar, me fez rir alto.

E quando você me apresentou a canção Redondo Vocábulo, na voz da cantora portuguesa Cristina Branco? Fiquei seduzida por essa música por um bom tempo. Até hoje ouço seus fados.

A expectativa de nosso encontro foi cercado por ansiedade, frio no estômago, noites insones. Até que te vi – pela primeira vez – no saguão de desembarque. Saindo com olhos de menino assustado, me procurando, e eu ao longe, te observava roubando momentos que queria registrar somente para mim.

De lá pra cá, tantas aventuras, encontros, risos, brigas, reconciliações, novos encontros, mais desencontros…

Hiatos, onde cada um foi em busca de suas aspirações, separados pelo espaço geográfico e dificuldades em expressar os próprios sentimentos.

É… somos animais complicados não é mesmo? Te disse tantas imprecações, você devolveu arrancando lágrimas. Quantas vezes cansei os ouvidos de minha psicanalista, praguejando sua pessoa. Coitada, talvez seja por isso que me deu alta. Com certeza achou que era um caso perdido.

A casa hoje me parece tão grande e vazia. Ouço ao longe, a buzina estridente do segurança que faz a ronda noturna em sua velha moto.

O ronco e gemido assustadores do motor da geladeira são minha companhia.

Escuridão e silêncio a me envolver. Três e vinte e sete da manhã, o cursor do smartphone clareia o breu do quarto. Reluto em olhar, afinal, quem manda mensagem a essa hora da madrugada? Novamente o clarão e a curiosidade tomam conta de mim. Abro os olhos, que embaçados, enxergam a mensagem vinda de longe

Oi, está acordada também? Faz tempo…

Vamos conversar?

Me finjo de morta. Adormeço, jogando a pergunta à você, Destino Safado: o que apronta para mim a essa altura da vida hein?

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Depósito EH

Uma vida inteira de realizações para acabar aqui, nesse depósito de entulho humano.

Está vendo aquele lá, próximo à janela? É o Josué. Deve ter toda idade do mundo e, segundo dona Marcelina, está aqui há mais de vinte anos. Dizem que já enterrou muitos! Percebe como ele fica? O tempo todo olhando pela janela com os olhos embaçados pelo tempo, mas, ainda carrega uma fagulha de esperança de que venham visitá-lo. Mascando o tempo todo com sua boca murcha, algo imaginário. Ou talvez seja apenas um tique nervoso. Quase não fala.

Olha só dona Leopoldina, aquela ali, sentada na poltrona verde. Senhora que ainda mantém certa áurea de dignidade e sofisticação que teve no passado. Cabelos arrumados imaculadamente num coque preso aos seus seculares grampos de osso. Pele fina, de um branco quase translúcido. Olhos azuis, pequeninos e dóceis. Mãos finas de quem nunca trabalhou no pesado. Trêmulas, devido ao Parkinson, há muito deixou de lado seu hobby favorito: bordar e pintar. Já não consegue dominar o pincel nem a agulha com firmeza. Da mesma forma que seu pescoço, que não para de mexer também. Há momentos em que ela inicia um canto lamurioso em sua língua de origem. Me disseram que ela é polonesa. Não sei dizer se é verdade, afinal, todos aqui falam de um passado muitas vezes inventado por falta da memória. Então, simplesmente cria-se uma nova história. Melhor que nada!

Aquele ali sentado à mesa lendo… o que mesmo? Peraí, vou chegar mais perto. Meus olhos já não são mais os mesmos… Ah! Lendo Olavo Bilac, Alma inquieta – expremendo os olhos consigo ler por cima dos seus ombros:

Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
– Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava…

E, inquieta ando eu, que sei que meu filho jamais aparecerá com meu neto para uma visita. Simples assim, uma vida entregue na labuta diária para criar sozinha um filho e, ao chegar à velhice, tomaram minha casa, apossaram de minha aposentadoria e, numa simulação de viagem, desovaram esse monte de carne flácida e ossos fragilizados, nesse depósito. Só aguardando minha vez de receber o saco – roupa luxo/lixo – para a última viagem de ida, sem volta.

Não posso reclamar. Não é ruim de todo mas, perder o contato com tudo o que fez parte de um cotidiano de anos, não conversar mais com amigos nem saber sobre suas vidas, isso sim, entristece. Vive-se num vácuo, esperando a hora de sermos despachados para o universo.

O trecho do poema de Bilac ficou em minha retina cansada e opaca. Depois vou ver se o…Como é mesmo o nome desse velhinho? Ih, esqueci! Bom, se não esquecer também, depois pego para ler o resto do poema.

Por hora, sento meu quadril pesado e cansado na poltrona, de frente para a janela – elo com o exterior -, chove suavemente. Embalada por essa paisagem outonal, capricho no chachecol que faço, o inverno parece que virá forte esse ano. Minhas juntas dão o recado do que virá. Isso, se eu sobreviver até a próxima estação.

Esse texto faz parte do b.e.d.a — blog every day august.

Participam Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia — Obdulio Nuñes Ortega

Imagem: Pixabay

Beda 9 – Queijos e beijos

Saboreando o queijo de minas, lambendo os lábios, lembrei-me de você.

Recordei o sabor de seus beijos. Parecidos: o queijo e seus beijos. Ambos, salgados na medida certa, rigidez perfeita que se moldava aos meus lábios, se perdiam e se misturavam à saliva. Ambos, proporcionavam prazer, acalmando minha insaciável fome. 

Mastigo, estalo a boca, engulo. Termino esse pequeno prazer, saboreando uma xícara de café. Exatamente como fazíamos ao término do gozo mútuo. Após o descanso, seguíamos para a cozinha e lá, entre conversas, troca de mais beijos e afagos, saboreávamos nosso cafezinho. Complemento de nossos prazeres.

Você partiu. Parte do prazer, se esvaiu. O amargo de sua dispensa foi mais ácido que o pó extra-forte do café que bebíamos. Restou o velho ritual. Sobrevivo, comendo lascas do queijo mineiro, acompanhado de café amargo. 

Esse texto faz parte do b.e.d.a — blog every day august.

Participam Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia — Obdulio Nuñes Ortega

Imagens: acervo pessoal

Beda 5 – A sina de ser personagem Almodóvar

A vida de Carmen Maura iniciou conturbada. Sua jovem existência carregava na bagagem, muitas experiências negativas.

Conviveu com a acidez de uma vida avinagrada, pelo porre de vinho barato – ao lado de um Don Juan da periferia -, que amava filmes de Almodóvar e declamava poemas de Neruda. Apesar de boêmio, assumiu a paternidade. Daí, seu nome, que carregava como fardo. Voz aveludada e poemas não pagavam contas. A vida familiar perdeu o ritmo e a métrica.

Aturar o amargor de sua mãe, dia após dia, não foi fácil. Desenvolveu dispositivos para sobreviver. Em pouco tempo, fugiu dos maus tratos e mudou sua identidade.Trabalhou de babá, faxineira, lavou muita louça em botecos de beira de estrada até que conheceu Bartô, numa esquina duvidosa.

Bartô – misto de Dietrisch com Dercy Gonçalves – um travesti gasto pelo tempo, que mantinha o coração fortalecido pela crença no ser humano. Ajudava os mais necessitados. Uma verdadeira alma materna.

Vivendo sob o  mesmo teto, foi rebatizada como Josefina Beiker. Teve seus estudos financiados pela fada madrinha. Se formou em administração, passando a cuidar dos negócios da “Família”, ampliando a área de atuação e distribuindo cestas básicas para a população carente, que não para de crescer. 

Madrugada fria. Dominada por insônia, Josefina ligou a TV. Enquanto passava pelos canais, se deparou com o filme Tudo sobre minha mãe. Mais uma vez, Almodóvar regressou do passado, insistindo em libertar fantasmas. Meneando a cabeça, Josefina desligou a televisão, levantou dirigindo-se à cozinha. Afogou seus espectros, numa cachaça trazida de Paraty.

 

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Imagem licenciada: Shutterstock

Beda 4 – ConVivências

– Dona Renêee, segura o elevador! – grita a moradora do 43, carregada de sacolas de supermercado.

– Boa tarde, senhora Carmela. Não precisa correr, eu aguardo. Na nossa idade, devemos evitar os exageros, afinal, convênio médico está pela hora da morte. Falando em  morte, os hospitais encontram-se lotados. – Sorrindo de forma amistosa, a zeladora abre caminho no elevador, para que a inquilina entre e acomode suas sacolas.

– Agradecida. Enquanto ajeita suas compras, Carmela passeia os olhos nervosos e curiosos pelos pacotes ,organizadamente acomodados ao fundo do elevador. Pertencem aos vários moradores.

– Dona Renê, já tratou com o encanador sobre o barulho que a bomba tem feito à noite? Ah, antes que me esqueça, o morador do 64, aquele inquilino que mudou em agosto passado, óh, é muito esquisito. Tem recebido visitas de um certo homem mais velho, pelo menos umas duas vezes por semana. – Carmela abaixa o tom de voz e se aproxima da zeladora, levando a mão à boca numa clara intenção de fofoca.

– Acho que ele é uma bichinha. Mais um a morar nesse edifício. Daqui a pouco isso aqui vira uma putaria só!

– Dona Carmela, não deveria de se expressar assim. Soa como fofoca e preconceito de sua parte. Leia esse comunicado preso aqui : Proibido qualquer manifestação de discriminação e preconceito contra gênero, raça, e deficiência nas dependências desse condomínio. – Com olhos apaziguadores, a zeladora sorri, passando a mão no aviso.

– Arrê que a sociedade anda cada dia mais permissiva. Contra eles, nada pode falar ou fazer e eu? Como fico nessa história toda? Já não basta ter de dividir o elevador às vezes com as namoradinhas do 104 – que vira e mexe – se pegam aqui dentro. Não respeitam a gente que está presente. Falta de corretivo bem dado. Antigamente não se tolerava nada disso! O pau comia solto, isso sim! – com as bochechas tingidas, a moradora move os olhos brilhantes de indignação com essa tal “Modernidade”.

– Seu andar dona Carmela.

Esse texto faz parte do b.e.d.a — blog every day august.


Participam Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia — Obdulio Nuñes Ortega

Imagem: Pinterest

B.E.D.A. – Desdobro-me

Tenho sofrido surtos. Preocupada, busquei ajuda médica. Pobre doutor, calejado sobre conheceres anatômicos/acadêmicos, ficou sem diagnóstico diante de minha narrativa.

Olhos esbugalhados, embaçados – talvez por noites insones – levantou, caminhou pelo consultório; ora coçando a calva, ora massageando a cervical. Dirigiu-se a sua vasta biblioteca médica e a consultou.

Ensimesmado, leu, fez anotações mentais, voltou para a mesa e – pegando da caneta e bloco -, fez uma receita e me despachou.

Emputecidinha, piquei a tal receita e joguei no cesto de lixo da recepção. Saí sem olhar para trás. Percorri caminhos nunca traçados até que parei numa praça e, sentei. Boca querendo fazer muxoxo, olhos com vontade de esparramar; coração bombeando insatisfações.

Nem percebi o personagem sentado no banco ao lado, com livro em mãos a me observar. Levantou-se, deu uns passos miudos e iniciou um poema em voz alta.

Envolta por desassossegos, pensei com minhas pregas: Coitado, mais um surtado. O mundo está perdido…

Seus olhos sorriram em minha direção e uma pergunta brotou: Qual motivo de sua tristeza?

Num impulso, contei todo sofrimento pelo qual tenho passado. Ao término, pedi desculpas por ter falado tanto. Talvez o pobre senhor só estivesse tentando ser educado. Pediu licença para dividir o banco comigo. Pensativo, decretou: Desdobre-se caso contrário, morre.

Não entendendo, interroguei-o. Suspirando, soltou sua grave voz explicando que devemos desenvolver o hábito do desdobramento. Segundo ele, desdobrar para se manter são. Encerrou a conversação, olhou o relógio de bolso antigo, levantou e partiu deixando sentada, uma pessoa com mais dúvidas para carregar.

Voltei para casa achando que havia sido perda de tempo sair em busca de ajuda. Não foi. Pesquisei, li artigos diversos sobre tal fenômeno que é muito mais comum do que imaginava.

Hoje, quando a realidade me sufoca, desdobro e parto em busca de paisagens que acalentem minh’alma cansada. Quase sempre, sigo para mar aberto. O vai e vem do mar acalma, repõe minhas energias. Nessas andanças, coleto histórias, processo vivências, registro belezas. percebo fauna e flora deixando de lado, registros humanos. Esses, na realidade tenho em excessos.

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

Imagem: Ilha de Itaparica (Acervo pessoal)

B.E.D.A. – Solo árido

Uma breve pausa para repousar. Era tudo o que desejava na vida. Desde que se entendia por gente, sua vida sempre foi essa loucura de nunca fincar raízes. Cada hora, mudando para cidade diferente, casa estranha, vizinhos desconhecidos. Tudo muito desgastante. Por que sua mãe não entendia isso? Nunca obteve uma resposta. Sua mãe sempre foi assim. Calada. Sisuda.

Mulher amarga, arisca, olhar seco e profundo. Árida feito o solo da região. Petrônio nunca soube o que fizera sua mãe se tornar assim. Conversavam pouco. Falavam apenas o necessário.

Aos quinze anos, Petrônio parecia bem mais velho. Herdou, talvez pela convivência, a sisudez característica de sua mãe. Raras vezes mostrava os dentes num sorriso.

Trabalhava no que aparecia, porém, o que mais gostava era de lidar com couro. Desde que, aos doze anos, conheceu seu Julião e ajudou-o nos afazeres do curtume, tomou gosto. Adorava o cheiro do couro! O pouco de sonho que se permitia, era de um dia, trabalhar de vez num curtume. Já se daria por satisfeito. Sonhar em ser dono de um, era exagero e fora de sua dura realidade. Enquanto isso não acontecia, fazia biscates.

Durante as inúmeras mudanças, Petrônio se encarregava de armazenar os parcos pertences. Jamais se aproximava das coisas de sua mãe. Desde a mais tenra idade fora instruído a nunca tocar em suas coisas pessoais. Apesar da curiosidade de menino, não desobedeceu. Acatava cegamente suas ordens. Sabia que ela mantinha uma mala fechada a sete chaves e, guardava entre seus mirrados seios, a chave, num cordão de couro. Não se separava dele por nada. O menino imaginava o que ela devia ter na mala…

Em sua minguada imaginação chegou a pensar que ela mantinha prisioneiro, a alma de seu suposto pai, que nunca conhecera.

Por vezes, brincando com ossos de gado ou outro animal encontrado pelo sertão, imaginava-se filho de Lampião ou de outro personagem do imaginário popular.

Nem se arriscava mais a repetir a infame pergunta: Mãe, quem é meu pai?

A única vez em que o fez, tomou uma surra de reio. Nunca se esqueceu do ódio estampado nos olhos da mãe, enquanto vociferava que ele era cria do Tinhoso e, que se quisesse mesmo ser apresentado a ele, que repetisse a pergunta. Apanharia até a morte. Por dias e dias, Petrônio chorou em silêncio, sentindo dores horríveis no corpo e na alma.

Plaft!

–        Aíí!!

–        Vai moleque! Deixe de sonhá acordado e vamo segui em frente. Tem muita terra pra gente engoli antes de chega na cidade mais próxima.

Olhando com desânimo para o horizonte – que tremulava diante do sol escaldante -, Petrônio limpou o suor que escorria pelo rosto tostado. Respirou fundo. Desolado, pegou suas tralhas, arrumou em seu lombo castigado. Lado a lado de sua mãe, seguiram.

Deixam para trás um campo seco, para tentar uma nova/velha/conhecida vida, num novo solo árido.

Esse texto faz parte do livro de contos Recortes de vida, do projeto Exemplos, de 2014, pela Scenarium Livros Artesanais

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Imagem: Acervo pessoal

B.E.D.A. – Descarte

Quem me vê sentada trabalhando calada, não imagina o mecanismo que aciono.

Agora, me encontro sentada, cercada por livros retirando suas etiquetas. Dobro-as ao meio, sem pressa, jogando no cesto de lixo. Vou empilhando um a um, cada livro que sofreu desbaste e seguirá para reciclagem.

Alguns livros, seleciono e separo numa outra pilha. A esses, darei a chance de ficarem no acervo por mais um tempo.

Quem me vê nessa tarefa mecânica, pode pensar que eu me sinto enfastiada. Aos olhos da maioria, essa tarefa é sem graça.

Para mim não. É significativa. Abrange muito mais que os velhos e surrados livros que descarto.

Enquanto atuo, processo interiormente, outra tarefa. Essa de mais valia.

No manuseio dos livros velhos, faço outro tipo de descarte: de pessoas, atitudes, posturas.

De tempos em tempos, essa tarefa é necessária. Os espaços em nossos arquivos pessoais vão ficando apertados, empilhados, desorganizados. Isso nos causa sensação de angústia. Sabe aquele famoso aperto no coração? São excessos de gente desnecessária em nossas vidas, sentimentos exacerbados, encruados, atitudes erradas. Aos poucos, ocupam espaço precioso impedindo que o bem estar finque moradia.

Enquanto descarto o livro A declaração universal dos direitos humanos, analiso se meus direitos estão sendo violados, desrespeitados, pisoteados. Estão.

Pondero para ver o que causa tais sensações. Constato que a bola da vez é você.

É, meu caro, você se encontra na berlinda há tempos. Já esteve na fila do descarte em outras ocasiões. Caridosa que sou, te deixei “dormindo” na prateleira das repescagens.

Observo o seu descompasso comigo, nos últimos anos. Faz tempo que não caminhamos juntos, não acompanha nem reconhece mais minhas notas musicais.

Tornou-se um péssimo dançarino!

Na prateleira das emoções, olho analiticamente sua lombada que já não me atrai. Desbotou com o tempo, feito seus cabelos, que outrora reluzia entre meus dedos. Folheio sua história. Verifico que sua página de rosto se encontra rasurada, seu nome quase apagado. Talvez por culpa minha mesmo que tanto o acariciei. Suas palavras caíram em desuso, feito língua morta. Tornaram-se arcaicas. Nem mesmo seus poemas que tanto me emocionou um dia, hoje parecem rimas de colegial.

Não se culpe! Fui eu que mudei nessas minhas andanças biblioteconômicas.

Foi opção sua permanecer estático. Inquieta, sigo adiante. Tenho sede de novidades.

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Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

Imagem: Acervo próprio