Criador e criatura

Da janela de seu quarto, observa um recorte do mundo exterior. Do lado de cá, é ciente de sua realidade. É só isso que tem. Contudo, o que não sabem, é da riqueza de sua imaginação. Através dela, percorre mundos paralelos e inventados por sua mente criativa e alimentada por muitas leituras desde que se alfabetizou. A rica moldura para a realidade, pincela traços grotescos de concreto envelhecido, pinturas desgastadas pelo tempo, vidros repletos de adesivos de estudantes que vem e vão, neons anunciando noitadas quentes a preços convidativos, drinques e diversão garantida, jardins verticais e grafites.

Sirenes rasgam o parco silêncio da rua anunciando mais doentes chegando ao hospital no final da rua. São mais frequentes aos fins de semana acompanhados de muitas cheiradas e álcool. A existência de muitos terminam ali.

Enquanto isso, sua vida segue arrastada numa rotina medonha. Não reclama. Está bom assim. Tem tudo à mão. Somente o que necessita para manter-se viva…

Tudo mudou há seis anos. Era outra pessoa. Ousada, destemida, competente e conhecida. Teve fotos estampadas por diversas vezes em jornais. Uma celebridade. Ganhou dinheiro, viajou, adquiriu imóveis. Aqueceu seu corpo escultural ao lado de muitos homens.

O prazer físico era um de seus vícios que – na medida do possível e também do impossível -, saciava. Seu duplex, decorado por Sig Bergamin, fora palco de muitas orgias. De três em três meses, abria as portas para um grupo seleto. Com direito a roteiro, personagens, boa gastronomia, bebidas à vontade. Baixelas de prata repleta de pó espalhadas por toda parte ofertavam aos convidados, momentos de puro êxtase sensorial, corporal, acompanhados sempre por música clássica ou eletrônica além de trechos de poemas e contos de autores conhecidos ou anônimos. Tudo variando conforme o tema estabelecido por ela. Toda festa era sucesso absoluto e comentadas por semanas nas rodas de amigos. Amante de sexo grupal, seu clímax era o anal que a deixava louca de tesão e estimulava fila indiana da ala masculina para enrabá-la. As mulheres participantes sugavam seus peitos bem garantidos pela gravidade entre outras brincadeiras. Seus bicos chegavam a sangrar de tão chupados e mordidos. Não ligava. A dor fazia parte do jogo. Inúmeras vezes gozou equilibrando-se no parapeito da janela do vigésimo andar. Ali, nas alturas, nua, sentindo o vento a lhe abraçar o corpo junto com algum outro a lhe penetrar, sentia-se verdadeiramente livre e dona do mundo. Seu mundo. O sexo tornou-se seu vício maior. Mais que a cheiradas, picadas e destilados. O parceiro desse vício era o risco calculado. A adrenalina era altamente prazerosa. Foi ousando e se arriscando cada vez mais. Até o momento que seus parceiros de aventura começaram a sair de cena. Muita loucura. Sem maiores explicações, a vida lhe deu um xeque-mate antes que ela fosse responsável pela morte de alguém ou de si mesma. Certa manhã, despertou sentindo-se estranha. Não reconheceu ao mirar-se em seu espelho veneziano. Recolheu-se debaixo dos lençóis egípcios e permaneceu na penumbra por várias horas. Que se tornaram dias, meses, anos. Raras vezes saiu do edifício a não ser para ir ao médico da família que a acompanha desde então. Os amigos, de início até a visitavam mas, aos poucos se distanciaram. Ela não era mais divertida. Olhar ausente pairando sabe-se lá em que paisagens causava incômodo a quem se aventurasse a visitá-la. Muda. De mulher extrovertida e com os temas sempre atualizados sobre tudo, nada mais pronunciava. Sua articulação desembaraçada havia se perdido. Somente balbucias incompreensíveis. Sua beleza – antes admirada e invejada -, agora, apenas um punhado de pele flácida de coloração acinzentada. Seus cabelos volumosos, com brilho e sedosos, hoje, um emaranhado fosco e quebrado. Ela o arrebenta em momentos de crise…

Lê mais uma vez o que acabou de escrever com a ajuda do software Motrix, instalado em seu notebook, sorri satisfeita com sua mais recente história e personagem.

Assim como Álvares de Azevedo, nada viveu em sua limitada vida porém, o que consegue vivenciar através de leituras e escritas comprova sua experiência! Por hora é só. Seu corpo pede repouso.

 

 

 

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Debut

elegant-silver-bridal-shoesDorothéa perdia-se na imagem refletida no espelho. Nunca se vira tão linda assim. Pela primeira vez, em treze anos, sentia-se parte da humanidade civilizada. Pela primeira vez, estava limpa, banho tomado numa imensa banheira, num cômodo forrado de mármore rosado e enormes espelhos por todas as paredes. Lembrou-se do toque prazeroso da toalha felpuda em seu corpo. Do cheiro adocicado de amêndoas. Do shampoo que transformou seus desgrenhados cabelos sem vida, numa cascata brilhosa e perfumada. Sorriu para sua imagem refletida mostrando dentes fortes e bem feitos que também ganhara vida após uma longa escovação. Sentia um gostinho de menta na boca. Uma senhora entrou no quarto trazendo um traje branco, bordado com pequenos vidrinhos que brilhavam conforme a luz batia neles. Trouxe também um par de calçados prateados e de salto. Seus olhos cresceram diante de tanta beleza. Afinal, para quem só andava descalça ou – quando muito -, num chinelo improvisado de papelão, ter agora em seus pés calçados tão finos era como entrar  no céu. Toda feliz, vestiu-se e calçou os sapatos. Caiu como uma luva. A mesma senhora voltou ao quarto trazendo agora, uma maleta de maquiagem realçando os belos olhos verdes, destacando as maçãs do rosto e colorindo os lábios carnudos da jovem.

Perfeito! – disse entre os dentes  a senhora que admirava o que via pela frente. Fruto de seu olhar clínico e experiência de vida.

Sorrindo disse à Dorothéa: Menina acredite hoje você fará história na própria vida e dos outros. Vire-se para eu ajeitar o laço do vestido e do seu cabelo. Lembre-se: Sorria sempre que a vida também lhe sorrirá!

Juntas, saíram abraçadas do quarto rumo ao destino que se abria para a jovem e promissora prostituta.

 

Imagem: Cherry Mary

Maré de decisões

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Observando a movimentação dos pescadores, Luciana se encontra há horas, no pequeno porto. O vai e vem dos barcos e das ondas, acalentam seu coração – por hora -, conturbado. Em seu íntimo, várias questões se digladiam. Muitas decisões importantes a tomar. Decisões que mudarão definitivamente sua jovem vida. Enquanto pensa, uma doce brisa brinca com seus longos cabelos negros. Tenta assimilar sua nova realidade, se preocupa em como revelar à sua família. Sabe que não será fácil. Chuta a areia, levanta e segue pela orla resoluta em parar na primeira lanchonete que encontrar e comer umas fritas bem crocantes. A vontade surgiu do nada e fez a menina salivar de desejo. O primeiro, de muitos que terá até completar os nove meses. Após saciar essa vontade, ela pensará numa forma de contar para sua mãe.

“Prepara o lombo Luciana! Hoje a noite a jiripoca vai piar!”

 

Imagem: Freepik

Cabra duro na queda!

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Definitivamente eles não me entendem! E definitivamente, não faço parte dessa turma. Por mais que me esforce, não consigo ser como eles. Tudo parece tão fácil. No entanto, para mim, soa como algo inatingível. Falo pouco, sou de poucos movimentos e mesmo esses poucos, desenvolvo bem devagar. Que posso fazer? É meu ritmo. Já disse, sou diferente. Caí do disco voador num passeio despretensioso pela via Láctea. Bem feito! Quem mandou viajar por aí. Deveria ter ficado no meu canto, em minha poeira espacial bem escondido.

Agora, peno diariamente sendo obrigado a conviver com essa raça humana, primitiva, rancorosa, grosseira e feia. Nesse exato momento, encontro-me num P.S. horroroso, que aqui, chamam de UPA. Horroroso até no nome. Onde já se viu um nome desse para designar centro de atendimento? Só perde para a falta de profissionalismo da equipe. Se tivesse lágrimas, acreditem, choraria diante do que vejo e ouço. Toda essa situação me faz lembrar dos anos lindos e felizes que passei lá nos Emirados do Satélite 9, dois sóis após a Nebulosa 3. Lá, é local de seres evoluídos, limpos, éticos e generosos. Bem diferente do que se vê aqui nesse planetinha de merda! Estão vendo só? Até meu linguajar refinado perdi convivendo com essa gentalha. Ah que saudades ( isso aprendi aqui também) de minha juventude brincando nas nuvens lilás que percorre o Planeta Ruffus 72A. Cercada por seres de luz, inteligência elevada, padrão indescritível que não cabe no vocabulário paupérrimo dos terrestres. Pouco a pouco estou perdendo a lucidez de minha mente brilhante. Estou me nivelando à eles. Triste destino o meu.

Ando sentindo o que aqui  denominam depressão, melancolia, tristeza. Sinto falta dos sons equilibrados do espaço. Aqui, tudo muito barulhento. Meus sensíveis ouvidos já se encontram afetados por tamanha poluição sonora. São incapazes de apreciar o verdadeiro som da alma: o silêncio. Não sabem que é através dele que alcançamos outros níveis da alma e apaziguamos a mente tornando-a mais produtiva. Por conta disso, todos se encontram sempre cansados, sem energia para nada. Burros! Sim, todos por aqui são burros! Onde já se viu, estão acabando com a beleza natural desse planeta de terceira. O que de melhor tinham aqui, estão conseguindo liquidar. E enchem a boca de um imbecil orgulho autodenominando-se Raça Inteligente! Oh God! Quanta baboseira!

Pior de tudo é que, se pudesse, colocaria um ponto final na minha infeliz existência. Não posso. E acreditem, não é por covardia. Tenho coragem suficiente para fazer isso e muito mais. No entanto, fui confeccionado num material que não se destrói. Não finda. Viverei eternamente. O que para os humanos é algo sonhado em alcançar, para mim – confinado a esse bloco de terra e água superpopuloso de criaturas tacanhas e hostis – transformou-se no pior castigo.

Acompanho a saga desse povo há um bom tempo para saber que jamais se modificarão. Evolução aqui passa batido e reto. Logo, encontro-me totalmente desesperançado.

Tentei de tudo para definhar e colocar um ponto final em meu sofrimento. Nada adiantou. Alistei-me em grupos extremistas, fui homem bomba, estive em todas as guerras no século XX e nada. Nem um arranhão sequer. Experimentei drogas pesadas que arrasariam qualquer um. Comigo, o máximo que ganhei foi uma suave diarréia. LSD, cocaína, crack, drogas da felicidade, nada faz efeito em mim. Durante as campanhas espaciais, fiz de tudo para conseguir uma vaga num desses satélites e foguetes espaciais. Como dizem por aqui: a esperança é a última que morre e, movido por essa esperança, tinha intenção de conseguir uma vaga e me lançar no espaço. Rever um pouco da paisagem em que fui criado. Devo ter vindo com defeito de fabricação: azar em todos o meu material genético. Só pode. Tanto espaço me aguardando para explorar e rever, onde fui cair? Onde? Onde?

No deserto de Tarakum. Mais conhecido como A Porta do Inferno. Tinha que ser eu o agraciado dessa brincadeira de mal gosto do destino! Caí em pleno buraco de fogo que os cientistas russos tão graciosamente criaram sem querer querendo e que persiste pegando fogo até hoje. Saí da cratera literalmente pegando fogo. No corpo e na alma de tanta raiva pelo meu intento mal sucedido. E ainda por cima, com uma platéia a se espantar e me achar o máximo! Até hoje devem achar que fui um ator contratado para entreter os turistas imbecis que por lá aparecem.

Não pensem vocês que não tentei outras vezes sair daqui. Tentei. Juro. Muitas. Inúmeras vezes. Pelo teor de minha voz já sacaram que nenhuma deu certo – caso contrário -não estaria perdendo meu tempo aqui, desabafando com vocês.

Chego a seguinte conclusão: Meu confinamento foi decretado pelo Senhor do Universo. Talvez tenha sido apagado de meu chip o passado e atitudes contrárias às Leis Universais. Tenho pedido perdão diariamente na esperança (ela novamente) de que um dia, encontre uma boa alma que me tire dessa sentença tão amarga que é viver no planeta Terra

– Senhor Z, o senhor é um sortudo. Apesar do quadro, o senhor se safou do chikungunya. Entre tantas pessoas vítimas dessa febre que mata, o senhor saiu ileso. Caso de estudo hein? Homem sortudo! Vá para casa!

Go home

Imagem: Hypescience

 

Impermanência

Como permanecer lúcida, se a realidade mostra-se mais surreal que muitas de minhas viajadas? Como manter-me calma, se a humanidade grita e bate e mata numa histeria sem fim? Chego a parecer sem alma diante desse quadro anormal.

Desejo amar no entanto, sou incapaz de me entregar. Carrego grilhões invisíveis que me impedem sair do lugar. Transito apenas locais que me é permitido: casa, trabalho. trabalho, casa. Quando muito, patrão Vida permite que tenha alguns minutos de prazer. Um cinema, um concerto, uma dramaturgia para anestesiar meus dias. Alguma orgia também, afinal, ninguém é de ferro. Mas sempre retorno mecanicamente para minha gaiola de luxo.

E o vazio faz moradia em meu interior. Serei eu também de lata? Estarei fadada a terminar meus dias num ferro velho tendo por companhia carros velhos e a ferrugem como carícia mais íntima?

Olho ao redor e nada reconheço como meu. Não pertenço a nada nem a ninguém. às vezes isso é bom, outras, nem tanto. Para que a gente vive mesmo? Gostaria de lembrar…Deixei cair o manual da boa sobrevivência ao estatelar de boca nesse mundão de meu Deus. Enxerguei tanta beleza que esqueci a parte prática. Me lasquei! E agora, sigo percorrendo vias, rastejando estradas vicinais da memória, sempre em busca de um porque.

Envelheci. Tudo isso é novidade para mim e, mais uma vez, vejo-me perdida sem saber que rumo tomar. Quem não me conhece – e olha que são todos, imagina que sou o ser humano mais feliz do planeta. Eu, por outro lado, me acho uma boba alegre que jamais saberá pra que isso tudo e o que é viver. Contudo, assim como a maioria, não desejo morrer…

Temo que o outro lado seja mais enfadonho que essa nossa realidade. Não quero pagar pra ver.

Voltar

porta macica

Voltar àquela casa…

De frente ao portão. O mesmo portão de uma vida inteira. Sólido, retorcido em curvas e linhas. Tal qual nossas vidas. Pintado num azul envelhecido feito casco de velhos navios. Apesar da idade avançada, não continha nenhum ponto de ferrugem. “Coisa boa, de primeira” – diria seu velho avô Pierre, nascido na região Sudoeste da França. Berço da agricultura e do bom vinho.

…Vô Pierre…Quantas lembranças passaram pela mente de Marjorie.

Passando o pesado portão, percorreu o corredor que dava acesso a um novo lance de escadas. Cinco degraus. Quando pequena, gostava de pular um a um sentindo-se vitoriosa quando superando o medo, saltava os cinco de uma vez, aterrizando feito ave no solo de lajotas hidráulicas.

Lembrou de uma queda e do corte profundo no queixo. Mais que a dor física, ela sentiu o peso do olhar de sua mãe, sempre severa em não admitir desobediência. Seu pai, ao contrário. Homem com alma de criança, cairia na gargalhada vendo-a se esborrachar. Sempre gostou de coisa mal feita. Essa era a famosa frase de dona Dulce, mãe de seu pai. Outra mulher aristocrática que não admitia intimidades nem falta de etiquetas.

…Vó Dulce, uma chata e mal amada isso sim! Nunca gostei dela.

Do alto da escada, pôde vislumbrar a porta maciça de jacarandá sempre lustrosa. Visualizou o corredor ao lado que percorria toda a extensão da casa e desembocava na enorme cozinha. Um dos seus lugares favoritos da casa. Aspirou o aroma do forte café que sua avó materna Elisa sempre passava no coador de pano preso a um suporte de ferro fundido. Seu perfume se espalhava por toda casa!

Sentiu ímpeto de correr pelo corredor e cair direto na cozinha, como fazia de pequena. Conteve-se e, respirando fundo para controlar suas emoções, entrou pela porta da sala.

Nada havia mudado! À sua direita, o enorme sofá carmim. No centro, a mesa com sua base talhada cheirando a óleo de peroba repousando no tapete Aubusson. As cadeiras de espaldar alto lhe trouxe lembranças da infância quando tentava com dificuldades, escalar essas maravilhas. Os retratos pintados a óleo de seus avós ainda jovens lhe causou frisson no peito.

Percorreu o corredor que levava aos quartos. O primeiro, de sua tia Aneli. Decoração espartana. Árido feito seu coração. Frio como sua alma. Nem entrou. Recuou e prosseguiu entrando no próximo. O de seus avós. Pôde sentir o perfume do talco de rosas que sua vó usava. Viu sobre a cômoda antiga, a escova de ossos que penteava suas longas madeixas. Gostava de apreciar esse ritual. Viu os enormes grampos de cabelo, pousados ao lado da escova. Percebeu do lado oposto à cômoda, um mancebo de madeira que trazia no alto, o chapéu de feltro de seu avô Pierre. Cinza chumbo.Uma de suas inúmeras camisas xadrez de flanela, encontrava-se displicentemente jogada aos pés da cama. Caminhou pelo quarto fazendo ruídos ao mudar seus passos miúdos na velha tábua do assoalho gasto pelo tempo. Parou. Ouviu vozes abafadas. Abaixou-se no chão e grudou os ouvidos tentando reconhecer as vozes que falavam sem parar. Lembrou-se de que embaixo dos quartos, ficavam os porões da casa. Doces recordações se elevaram no ar, feito fumaça produzida no fogão à lenha. Decidiu parar de explorar as dependências principais da casa . Saindo pelo corredor, desceu ao subsolo onde ficavam os tais porões. Resquícios de suas fantasias de menina. Local mágico, com personagens criados por ela naqueles anos difíceis de sua infância.

Ao ultrapassar a soleira da porta do primeiro porão – o maior dos três, sentiu-se arremessada a Storybrook. Respirou magia por toda parte. Cheiro de coisas eternamente guardadas por gerações. Potes, garrafas, brinquedos, bolas coloridas. Estranhamente repousavam nas prateleiras sem fim como que, esperando o momento de serem úteis na vida de alguém. Remexendo com certo zelo nas caixas, encontrou uma antiga pasta onde guardava seus desenhos. Quanta emoção ao abrir e vê-los intactos. Na adolescência, fora uma desenhista espetacular. Depois, com as cobranças da vida adulta, deixou de lado essa atividade que tanto prazer lhe proporcionava. Abrindo um sorriso “Monalisa”, pensou: Preciso voltar a fazer alguns rabiscos. Acho que não perdi a mão.

Por segundos pensou em levar consigo a pasta. No entanto, sua consciência acusou que deveria deixar lá afinal, ali, era seu lugar. Com certo pesar, repôs na prateleira e seguiu para o segundo porão.

Lá, encontrou diversas ferramentas do seu avô. Algo chamou sua atenção. O velho e querido pilão onde, nas tardes mornas de sua infância, vó Elisa convocava a todos para participar da festa que era moer amendoim até virar paçoca. Formava-se fila de crianças e adultos para a deliciosa farra de socar o amendoim e o açúcar enquanto sua avó puxava a cantoria batendo palmas e arrastando os velhos chinelos. Seus olhos, do brilho intenso da alegria, recebeu um descortinar sombrio ao desviar-se para o objeto ao lado pendurado na parede. O reio de cavalo trançado que servira um dia para surrá-la por uma traquinagem de criança. Nunca se esqueceu da dor que sentiu. Dor física e moral pois sabia em seu íntimo que o que fez, não era para tamanho castigo. Sentiu-se uma escrava castigada no tronco da senzala.

Tantas vivências naquela casa, tantos acontecimentos que foram responsáveis pelo que era agora. Voltar àquele universo, era quase como voltar os ponteiros do relógio do tempo e retroceder à infância.

..Oi, tudo bem? Já faz um tempo que observamos a senhora parada, olhando para o prédio. Por acaso está interessada em entrar e conhecer nosso belo e arrojado condomínio? Não se acanhe, será um prazer mostrar as dependências.

Retorno à realidade, Marjorie sorri.

-Obrigada. Não preciso entrar. Conheço cada pedacinho desse terreno e tudo o que existe debaixo desse emaranhado de concreto e vidro. Não se preocupe comigo, já estou de saída. Só parei aqui para resgatar algo valioso que um dia deixei aqui.

-Valioso? O que? Esqueceu alguma joia no condomínio?

-Joia? É. Posso chamá-la assim também. Agora que reencontrei minha essência de criança, posso seguir com minha vida longe daqui. Desculpa o incômodo.

O segurança do condomínio não entendendo nada acompanhou a figura delicada da jovem senhora que sumiu na esquina da rua. Coçando a cabeça e realinhando seu boné, voltou à sua guarita pensando em voz alta:

-É cada doido que aparece por aqui que vou te contar. Dona mais esquisita!

Imagem: Pinterest

Aquarela borrada

aquarela-bolognesi

Sabe aquela inquietação, misto de ansiedade, medo e vazio, que toma conta da alma? Pois é, amanheci assim.

No desjejum da manhã chuvosa e fria, me alimentei de saudade acompanhado de ovos estralados. Mastiguei por um longo tempo relembrando nosso lindo encontro que jamais aconteceu.

Insisto em fantasiar. Uma maneira que encontrei de manter-te real ao meu lado nessa solidão que mergulhei.

Não reclamo. A solidão – que para muitos é o fim da rota, para mim, é boa companhia. Gosto de minha rotina, de meus silêncios pontilhados por trilha musical de Chet Baker e Cesar Camargo Mariano. Aprecio minha voz não pronunciada que permanece dentro de mim. Sou boa companhia. Converso bastante com meu eu e, através de nossas conversas, filosofamos noite adentro.

Relembrei a viagem a Paris que tanto sonhei ao teu lado. Você, como sempre, amarelou no último instante. Jamais assumiu o medo de avião. Medo esse, que te impediu de ser feliz e realizar seus sonhos diversas vezes na vida. Segui sozinha imaginando-te sempre ao meu lado. Descobrindo os becos da cidade luz, sorvendo o beau vin que as bodegas ofertam. Desvendei a cidade de metrô e em poucos dias, já me sentia uma legítima parisiense.Acho que nasci pra isso! Fui ficando. Em pouco tempo consegui emprego de garçonete num restaurante três estrelas frequentado por pseudos escritores e artistas de todos os gêneros. Pessoas incríveis que me acolheram com carinho legítimo. Me senti em casa! Os anos passaram muito rápido. Virei artista incentivada por todos. Primeiro, comecei a desenhar, depois pintar. Virei excelente retratista. Passei a vender meus quadros na Place du Tertre. Em pouco tempo fiquei conhecida. Fui apresentada à  Jean-Paul, músico, instrumentista e com ele, me aventurei. Descobri ao seu lado que cantava bem. Uma voz pequena como a de Nara Leão e fiz  sucesso cantando Bossa Nova misturada com Techno. Gravei dois CDs que ainda hoje fazem sucesso nas discotecas locais. Hoje, amadurecida, descobri a escrita. Escrevo memórias. Minhas e dos outros. Não alcancei o hall da fama muito menos virei Nobel da literatura. Não é meu objetivo. Escrevo mais pra mim do que para os outros. É a forma que encontrei de deixar minha marca nesse mundo.

Continua chovendo. A janela embaçada pelos respingos d’água mostram uma cidade mais cinzenta do que de costume. Gosto do que vejo!

Reponho mais café em minha caneca, aspiro seu aroma inconfundível e tento lembrar com mais nitidez seu rosto e contornos. Já passaram tantos anos e ainda não te esqueci. No entanto, sua imagem ganha tons esmaecidos. Assim como a paisagem na janela. Tento escrever sobre você como forma de te fixar a minha realidade. A memória que ainda guardo escorre feito tinta fresca em excesso se transformando num grande borrão do passado.

Imagem: Marion Bolognesi

 

Sismos

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Sonho. E no transe desse sonho, sinto tremores. A cama, mole feito gelatina me devolve à vida. A vida, por questão de segundos, mostra que tudo trepida. Lustres pendentes brincam de balanço. Vão pra lá e pra cá num ruído que amedronta. O quarto, uma grande montanha russa. O piso movimenta-se causando náusea sem fim no meu epicentro. Vomito.

A louça na cozinha mais parece pipoca pulando na panela. Cacos por todo lado e o som de tudo se movendo. É sinistro. Quadros são arremessados da parede, TV escorrega do rack, janelas explodem. A mistura de sons causam-me pânico mas não consigo pensar em nada. Muito menos, sair do lugar. Permaneço. Observo. Ouço. Sinto…

O mundo de outros desabando sobre meu mundo. Corpos tomando o espaço do meu corpo. É um peso muito grande! Ouço gemidos abafados ao meu redor. Trago a garganta fechada, seca e meus olhos serrados. Não tenho certeza se me encontro viva ou morta. Continuo inerte, submersa num mar de entulhos. Os sons que chegam até meus ouvidos empoeirentos são confusos. Nada distingo.

Aqui, onde me encontro, continuo a sentir tremores. Ao redor e dentro de mim. Tremo de medo pela primeira vez. Tremo por minha vida e dos outros que, reunidos, formamos um coro de desesperados.

Espero. Imóvel, aguardo ser resgatada. Não importando mais se viva ou morta.

Mais tremor. Agora promovido pelos tratores que vasculham os escombros do que um dia foi uma cidade. Curioso! Não sinto medo, não sinto frio, nem calor…Não sinto dor. Faço parte agora do imenso nada.Terei voltado a ser molécula no espaço? Confusa demais para filosofar, mantenho-me stand by. Não tenho escolha, portanto, mantenho-me calada. Boca e espírito . Não tenho ideia de quanto tempo permaneço nessa posição. Não sei se é dia ou noite. Não sei se desistiram de nós. Algumas vozes se calaram. Será a morte esse grande silêncccccc??..

Entrondo!

Ahhh!! ÚÚHh!!

Um sobrevivente! Um sobrevivente!! – grita um bombeiro acompanhado de um cão que teima em me lamber. É quente. É úmido. O medo volta com força total e, liberta do concreto que me oprimia, grito com todas as forças de meus falidos pulmões.

Deveria de me sentir feliz por ser resgatada mas, o medo toma conta de mim. Enquanto estava lá embaixo, tinha companhia. O que será de mim depois que a tormenta passar e não tiver restado nada nem ninguém? Como viver com esse peso da vida?

Choro. Pela primeira vez choro muito. Lágrimas misturadas com sangue e outros fluídos. Meus e dos outros que jamais se reerguerão. Braços me envolvem delicadamente, uma voz embargada pronuncia em meus ouvidos palavras de reconforto tentando me acalmar.

Tremo. De frio, de dor, de não saber meu futuro. Terei algum? Tremo novamente. Agora de convulsão. Sou colocada numa maca e sigo para hospital mais próximo. A estrada está péssima. Ambulância sacoleja.

Vida que segue t(r)emendo o amanhã.

Imagem: Google

 

Conselhos de Fada Madrinha

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“Ai amor! Tu não tem idade pra vestir a roupagem de idosa! Fofaa!!  Tu não tem idade pra isso. Tem muita lenha pra queimar. Santa Maria da Periquita Sossegada! Acordaaa!!”

“Mapoa, não se faça de sonsa. Tô falando com vocezinha darling! Fazfavordemedaratenção. A Biba aqui não suporrta ser ignorada!”

Aii!! Tá maluco? Estou invisível por acaso? Ai que não se pode mais almoçar sossegada nesse refeitório senhor!…Tá doendo viu? Por que me cutucou?

Pra ver se desperta desse sono de princesa bela adormecida. Hellow!! Onde anda essa mente hein?

Cássio, por acaso bebeu, cheirou, aspirou muito pó de arroz vagabundo  foi? Não entendo absolutamente nada do que está falando homem! Aff! Me deixa almoçar que ainda tenho de correr até o supermercado para comprar algumas coisas pra casa e só tenho uma hora pra fazer tudo.

Homem? Por acaso, está vendo aqui algum homem conversando com você criatura? Quer dizer então que, além de deixar essas madeixas esbranquiçadas – que aliás, acho UÓ, você ainda sofre de miopia? Hellow again! Sou EU! Cassinha que fala contigo mocréia dos infernos. Não insulta não que o que disse é pro seu bem! Sai dessa vida de senhorinha antes do tempo! Você sempre foi linda, elegante, sexy e acima de tudo, GOSTOSA! Não te aceito por menos! Vamos marcar pra hoje a noite você ir até meu cafofo para eu realizar a grande transformação de te resgatar do limbo dos idosos e te transformar na rainha que sempre foi. Miga, tá sabendo que agora sou uma consultora legítima e sacramentada  da Mary Kay? Que fiz uns cursos de maquiagem que transforma em poucos minutos dragão em miss universo? Então…te quero arrasando a avenida novamente. Que depressão foi essa que te pegou hein? Homem nenhum merece esse desleixo todo amore.

Cássio querido, agradeço sua preocupação mas não me encontro deprimida. Pelo contrário, estou super de bem com a vida. Nunca estive tão bem como agora. E quanto aos meus cabelos, esquece que cansei de ser escrava da moda e dos salões de cabeleireiros. Pra mim já deu. Me dei alforria total dessa ditadura. Serei o que quiser daqui pra frente e se, meu desejo é assumir meus grisalhos, que assim o seja. Entendeu miguinha?

Jesuis é caso de obsessão mesmo! Terei de fazer reza brava no terreiro essa semana. Rogar aos exús que espantem esse espírito de sinhá polvorosa pra bem longe de minha rainha. Vou pedir de volta a Pomba Gira que te acompanhava nos áureos tempos. Ela sim te fazia brilhar nas passarelas da Dama Xoc e da Madame Satã. Lembra? Foi lá, na Dama Xoc, que te vi pela primeira vez e se fosse homem ou lésbica, teria me apaixonado! Tão linda arrasando naquele macacão de lurex, cabelos cacheados, cheio de brilho…Natural e de gumex pra manter aquela onda na texta. Uau!!! Usava um batom ultravermelho na boca, ostentava um sorriso rodeado de covinhas e seu olhar emoldurado por sombra azul e rosa cintilantes e cílios postiços devastadores. Uau!Uau! Não tinha pra ninguém. A mulherada se mordia de inveja e os homens… Bom, os homens se banhavam de tesão por você. Otávia, amiga, volte a ser o que foi um dia. Essa estrela de eterno brilho. Estrelas não devem jamais envelhecer! Prontofalei!

Cássio, amigo querido, só você pra resgatar esse passado que ficou lá no túnel do tempo e me fazer rir tanto. Fala sério, a gente se divertiu muito naquele tempo não? Arrasamos quarteirão com nosso estilo de vida. Quanta gente boa conhecemos nessa época não?  Caio F. Abreu, os meninos da banda Titãs, a turma mais metidinha que andava nos Jardins e frequentavam a boite do Ricardo Amaral…A turma maluca do Marquinho que, infelizmente morreram todos de AIDS nos anos noventa. Marquinhos…Ainda sinto falta do seu astral contagiante e de sua beleza máscula e ao mesmo tempo andrógina. Lembra quando ele se montava de Streisand? Ficava irreconhecível! Uma diva! Ai, esquece tudo isso que relembrar doí muito. Foi uma época maravilhosa mas ficou lá atrás.

Cassío visivelmente comovido abraça Otávia deixando os demais no refeitório especulando o que acontecia com os dois.

Lindinha, passamos por muitas nessa vida não é mesmo? Seremos assim tão ruins que nem o inferno nos quis? Tanta gente boa, se foi tão jovem e nós dois aqui, firmes feito bambu que se enverga mas não quebra. Eu sei que estamos envelhecendo. É fato. Não tem como negar mas, olha, pode parecer piti de bicha véia, de tiona aposentada, enfim, chame do que quiser. Quero que nós dois envelheçamos com dignidade e beleza. E acima de tudo, que nossa amizade permaneça pra eternidade.

Passa lá em casa essa noite Tavinha. Vamos celebrar nossa amizade.

E…pelamordedeus deixa eu dar um jeito nesse cabelo! Fui!

Imagem: Eaiconteudo

Território demarcado

Sofia está deitada há pelo menos duas horas em total escuridão. Ao contrário de suas irmãs, a falta de luz não lhe causa pavor. Pelo contrário, sente-se confortada.

Ouve os inúmeros sons que vem da rua: carros com seus motores envenenados que passam pela avenida rasgando asfalto, travestis cantando, metendo bronca nos playboys que passam em seus tanques urbanos proferindo ofensas homofóbicas para encobrir suas taras em dar o rabo. Ouve a água escorrendo pela pia da vizinha e o barulho das louças repousando no suporte para secar. O som do elevador chama sua atenção. Passos pesados pelo corredor denunciam que o vizinho do apartamento à esquerda, chegou. Chaves tilintando, passando a trinca, luzes acendendo, TV ligada e a janela sendo aberta num movimento brusco que ensurdece ouvidos mais sensíveis. Não é o caso dela. Já calejados por tanto barulho, nem se importa mais. Mês passado chegou a marcar consulta num otorrino preocupada em estar perdendo audição. Mais tranquila, saiu do consultório após entregar exames feitos lá mesmo, com a afirmativa do especialista de que sua audição, apesar da idade, é perfeita. O que já não ocorre com a visão. Talvez, goste tanto da escuridão porque no fundo, já tenha a certeza de que num futuro próximo, terá ela, como companheira em tempo integral.

Deitada de bruços, mantém  a respiração tranquila, quase parada e adentra um mundo paralelo. Entra numa sintonia com algo desconhecido e sente, de repente, a presença de alguém que se aproxima da cama.

Percebe o colchão se afundar e uma energia a envolve. É desconhecida. A princípio, se assusta, no entanto, ao perceber o abraço invisível, o compasso de seu coração se normaliza. É do bem! Em pensamento, dá as boas vindas mas pede que respeite o espaço que, por hora, lhe pertence. Sente-se novamente abraçada e, numa lufada morna, a tal presença se esvai no ar deixando-a sozinha. Tem plena consciência de que jamais estamos sós. Em nenhum momento. Também sabe que fora do apartamento, encontram-se soldados do bem protegendo sua morada. Em pensamento, agradece.

Ao som de gritarias de jovens exaltados saindo da danceteria no final da rua, adormece sentindo-se em casa.