Aceitação

mulher escrevendo2

Escrever. Há meses não consigo sentar e desenvolver nada que preste. Um vazio repleto de vozes díspares tomam conta de meu interior e esse barulho interno me impede a escrita.

Trago tantas histórias dentro de mim porém, nada se concretiza. Nada me agrada.

Aquela vontade que tinha em publicar algo só meu, dissipou como tantos outros sonhos não realizados. Não é amargor que trago comigo. Talvez, uma conscientização de que nada nesse mundo valha a pena se for apenas para lustrar nosso ego.

Para mim, escrever não significa – após a labuta com as letras e histórias -, brilhar na passarela das livrarias e bares para lançamentos fúteis cheios de pessoas mais vazias que eu, que satisfazem sua autoestima fingindo-se bem sucedidas nas letras. Nada contra se você se contenta com isso. Não eu. Detesto esse teatro pobre. Ando preferindo a vida real a essas encenações canastronas. Também não tenho mais idade para brincar ou fingir ser. Entrei na caminhada de ou é, ou não é.

E tive uma prova disso tudo, durante minhas viagens em férias. O contato com pessoas simples e verdadeiras em sua essência, despertou meu desejo de mergulhar fundo na alma humana.

Conheci seres encantadores, de sorriso fácil, que não temem o olho no olho. Aliás, essa foi uma das características que observei em todos.

A religiosidade levada a sério também me tocou de forma profunda. Eu, que no passado cheguei a ser grande seguidora e trabalhadora da espiritualidade mas, que depois, fui seduzida e sugada pela carreira acadêmica e carreira. Acabei por me afastar de tudo, inclusive de mim mesma. Por anos, fingi e acreditei ser aquela personagem criada: uma mulher bem sucedida, moderna, independente, que sabe o que quer. Sou isso tudo sem dúvida, mas sou muito mais. E esse mais, ando descobrindo aos poucos. Ao vivenciar de perto a finitude da vida, tornei-me mais obstinada em viver intensamente meu dia a dia.

Contudo, mesmo tendo a certeza de que não nasci para esse ofício, sinto uma necessidade que impera sobre o bom senso pegando-me pelas mãos e fazendo sentar e escrever. Dedos e mente nervosos em traduzir o que se passa aqui dentro dessa caixa craniana. Só me resta obedecer. Mesmo que contrarie minha convicção de nunca mais fazer isso. Talvez seja meu vício. Minha fraqueza e minha melhor parte.

 

Imagem: pxhere

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5.5

roseli tintin

Enquanto mastigo um pão de queijo e tomo um gole de café, faço uma retrospectiva de minha vida. Não sou dada a esse tipo de coisa mas hoje, em especial, senti esse ímpeto bater forte e parei para refletir.

5.5

Não é sempre que viramos o calendário e damos de frente com esse número. Esboço um sorriso ao lembrar que inferno passei ao me aproximar dos cinquenta. Sofri, chorei, praguejei, lamentei. Sentia que perdia algo de muito valor deixando para trás uma juventude que, na realidade nem aproveitei direito. Não plantei uma árvore, não casei, não tive filhos e também, não publiquei um livro. Pelo menos, não do jeito comercial e tradicional. Tinha tudo para cavar uma bela de uma frustração por tantos sonhos não realizados. Mas quer saber? Após a passagem da menopausa onde todo ritual e simbologia feminina escoou pelo ralo do tempo humano, pouco a pouco percebi que nada disso tinha importância. Observei que nem toda árvore plantada vinga e dá frutos. Confirmei que nem todo casamento é feliz. Aliás, vamos combinar, noventa e nove por cento dos relacionamentos, se resistiram foi por insistência do casal, falta de perspectiva em recomeçar vida nova, preguiça, conformismo e, em alguns bem raros casos, por amor e cumplicidade. Analisei e mais uma vez tive a certeza de que filho, é lindo em fotos retocadas mas, que no dia a dia, é uma eterna guerra para se moldar, criar, transformar uma mera massa de carne, ossos, artérias e cérebro em algo que dê certo. Caso contrário, será um fiasco a mais competindo com tantos outros seres humanos mal formados, desinformados e alienados como vemos diariamente atravessando nosso caminho. Ah! E também tem mais essa confirmação: filho nenhum é certeza de companhia, amor e carinho além de cuidados em nossa decrepitude.

Calma leitor! Não se desespere achando de antemão que me transformei num poço de azedume.

A vida me ensinou que devemos constantemente desenvolver um plano B para tudo. E eu, claro, sendo uma típica canceriana, sempre fui excelente estrategista. Não somente desenvolvi plano B mas o abecedário completo. Gosto de me sentir segura.

Aprendi desde cedo a enxergar a beleza de tudo. Isso não me transformou numa idiota que sorri a toa mas sim, numa pessoa que aposta sempre no melhor. No bom. No acertado. Mas também aprendi e aprendo muito com o erro. Ah! Esse é um grande mestre! Apesar da melancolia ser um traço marcante em mim, tomo cuidados para não transformá-lo num todo. Mergulho de vez em quando para retornar com ideias e personagens para minhas histórias. Procuro sempre cerrar a porta para que ela não saia de vez e tome conta de minha existência. Em doses homeopáticas, é de uma grandeza e serventia única para lembrarmos que somos seres humanos, frágeis e sensíveis. Ela, numa overdose, pode ser fatal.

Hoje, aqui, sentada de frente a tela do notebook, dou graças pela vida. Essa preciosidade. Conquistei coisas importantes em minha vida. Algumas materiais outras tantas ricas numa cifra diferente, mas que representa a minha real fortuna. Amar e ser amada por pessoas muito queridas. Amar sem amarras nem cobranças sabendo que tudo por aqui é passageiro e nada nos pertence de fato. Ao assimilarmos esse ensinamento, aprendemos a viver de forma mais leve, mais solta e com isso, alcançamos um pouquinho da tal sonhada e tão discutida felicidade.

5.5

Meio século e um cadinho mais percorrido. Isso nos dá um parâmetro do que foi nossas vidas e do quanto ainda teremos pela frente ou não, afinal, não sabemos a data de nossa validade não é mesmo?

Ontem à noite, saí para jantar com um amigo/irmão para comemorar antecipadamente meu aniversário. Fomos a um restaurante tailandês que há muito tínhamos vontade de conhecer. Foi uma opção acertada! Unir a arte de comer bem, a um bate-papo saudável e com quem se tem afinidades, é um prazer incrível que todo canceriano aprecia. Essa junção é alimento para a alma. Conversamos sobre trabalho, relacionamentos, vida e sobre nossa amizade de décadas. Voltei para casa de alma leve e radiante!

Amanhã, ao despertar e conscientizar-me da virada no calendário, sorrirei e elevarei meu pensamento em agradecimento por mais um ano de vida. Agradecer primeiramente aos meus pais que me geraram e me formaram esse ser que – se não perfeito – pelo menos em eterna construção. Obrigada Walter e Ilda pelo amor em me criar da melhor forma que puderam com seus valores. Obrigada Vida! Obrigada Deus ou quem quer que seja que criou esse Universo pleno de possibilidades e aprendizado! Obrigada a todos que foram e são meus mestres nessa caminhada terrena.

A vida anda uma merda em todos os sentidos: políticos, econômicos, sociais mas, quer saber? O meu lema segue o que diz aquela canção de Claudio Zoli: Viver é bom demais!!!

E seguirei enquanto  me for permitido. Sorrindo, cantando, chorando, espalhando alegrias. Feliz aniversário Roseli! Tin-Tin!

Contato com um dragão no paraíso: missiva

cartas caio

Caríssimo C.F.A.,

São Paulo acordou envolta numa neblina que me fez lembrar sua região. Quando mais jovem, adorava esse clima frio afinal, nasci nesse período. Junho, mês de festividades, procissão, fogueira de São João. O Santo do meu dia de nascimento. Sabia que meu nome era pra ser Joanina, como reza a tradição de quem nasce nessa data? Ainda bem que meus pais tiveram outra ideia para me nominar. Gosto da sonoridade de meu nome. Nada contra porém, meu nome tem tudo a ver com minha personalidade.

Despertei pensando em você. Olha só que coisa! Tomei meu café e saí munida de casaco de lã, cachecol e luva. Coloquei também uma boina porque o vento está de lascar.

Saí caminhando pela Rêgo Freitas, atravessei a praça Roosevelt, entrei na rua Augusta. Minha intenção era chegar à Avenida Paulista. Caminhando lentamente lembrei que você costumava circular por aqui. Gostava de caminhar. Lembra? Dizia que caminhar te ajudava a pensar e desenvolver suas histórias. Também sou assim.

C., ando muito introspectiva. Talvez devido a idade, excesso de sensibilidade, tenho sentido certo receio – se é que posso chamar assim – de sair às ruas, de circular como fazia antes. Pode parecer papo saudosista, mas, antigamente era mais prazeroso sair à noite, andar pelas ruas, entrar nos locais públicos. Antes, saíamos para ver gente e – claro – ser vista por eles também. Atualmente, transformamo-nos em zumbis tecnológicos.

A “night” continua a mesma. Ferve. A diferença é que as pessoas não se encontram interessadas no ser humano ao lado e sim, nos likes que poderá ganhar em suas redes sociais. Só se preocupam com seus selfies. Aquele lance de sair e paquerar que tanto gostávamos de fazer quando jovens, deixou de ter importância nessa sociedade que privilegia o virtual em detrimento do real. Tenho certeza que, se aqui estivesse, ficaria indignado. Eu estou! O prazer que tínhamos em marcar encontros nos lugares badalados para conversar, se confraternizar, paquerar, não existe mais. É sério! Não estou inventando. Nas redes sociais temos centenas de amigos, porém, quando chamamos as pessoas para um encontro real, todos concordam e, conforme vai chegando o dia, vão comparecendo cheios de desculpas esfarrapadas. Ah! E os poucos que comparecem, dão mais atenção aos seus smartphones na mesa do que ao seu interlocutor ao lado. Broxante!

C., definitivamente estou encalhada feito baleia jubarte na praia. Não consigo me interessar por ninguém e ninguém se interessa por mim. Passei do ponto, tornei-me seletiva e chata. Sinais dos anos. Algumas vezes, quando bate certa solidão, penso em sair e conhecer pessoas mas… Quer saber? Bate uma preguiça! Então conto até dez, abro uma garrafa de vinho, encho uma taça, coloco uma seleção de Inger Marie Gundersen no Spotify, pego um bom livro e ponho pra correr a tal da solidão. Só sinto falta mesmo é de nossa amizade que, infelizmente não aconteceu.

Se tivéssemos nos conhecido, nossa amizade seria como a que tenho com R.P. Amigo-irmão que está ao meu lado há pelo menos vinte anos. Vou te contar uma coisa: se você tivesse tido oportunidade de conhecê-lo, também teria caído de paixão pela pessoa linda que ele é. Formaríamos uma tríade. Uau!! Teria sido massa!

Querido C., acredito que por conta da aproximação de meu aniversário, ando mais melancólica que nunca. Abro-me com você porque sei que de melancolia você entende como ninguém. Sei lá, a idade avançando, a juventude se esvaindo, as rugas e as pelancas se acentuando… Não ri não que isso é sério! Ai meu Deus! Olha só o que escrevo para você! Devo de estar mesmo muito doidona. Não ria! Sei que do outro lado você deve estar se divertindo com minha desgraça mundana. Quer saber? Também acho graça. Choro e rio ao mesmo tempo por saber que você não teve a chance de envelhecer feito eu. Cara, você foi embora muito cedo! Essa vida é mesmo muito injusta. Que merda! Estou deprimida novamente. Nem posso culpar os hormônios como fazia antes. Até eles me abandonaram. Foram-se assim como a melanina de meus cabelos que agora se encontram brancos feito flocos de neve. Mas…Sabe que gostei deles assim? Fiquei cool! Sempre gostei desse termo: Cool.

Ah! Outro dia, sabe quem encontrei? Sua amiga Marcia Denser. Nossa! Conversei bastante com ela sobre literatura e sobre você. Sua orelha não ardeu? Falamos muito viu! Ela confessou que também sente demais sua falta.

Retornei ao meu apê e estou aqui, sentada de frente a janela do décimo andar observando a paisagem urbana de prédios e carros que passam sem cessar. Interessante, ao longe ouço um som de britadeira, buzinas, e outros sons que não consigo identificar. No entanto, a paisagem parece estática apesar de toda movimentação. E eu, aqui presa em mim mesma e nessa inquietação que não consigo identificar muito menos eliminar. Veja bem meu querido, não estou infeliz, contudo, também não me encontro em paz. O que será? Estarei com problemas psíquicos? Não desejo falar com ninguém. Lembrei  de quando pequena, às vezes tinha a sensação de que diminua, diminua até virar um nano grão no universo. Era uma sensação – ao mesmo tempo curiosa, mas que me dava temor de ir até o fim.

Ah! Voltei a reler seu livro Os dragões não conhecem o paraíso. Não canso de ler esse livro cara. Até baixei ele em meu note. Pela enésima vez me emociono diante da beleza do conto A beira do mar aberto. Cara! O que é esse conto? Mexe com minhas entranhas. Puta que o pariu! Falando nesse livro, sabia que fui apresentada à sua obra através de meu amigo R.P. (ele novamente), que me brindou com seu conto Os sapatinhos vermelhos. Diz ele que sentiu que esse conto bateria fundo em mim. E acertou!

Tinha muito mais a falar para você, mas, vou parando por aqui para não me tornar excessivamente carente e chata. Sabia que sou espírita? Pois é, sou. Muitas pessoas se admiram quando ficam sabendo desse meu lado espiritual uma vez que – escritor que se prese – deve ser ateu/atoa/existencialista. Só posso adiantar que sou tudo isso e muito mais. Você bem sabe que somos uma somatória de facetas. Para escrever temos de ser muitos, vários, jamais rasos. E sem medo de mergulhar. Mesmo que não se saiba nadar. Feito eu.

C., perdoe-me se fui extensa nessas linhas. Tenho uma coleção Britânica de assuntos que gostaria de trocar com você. Veja bem: sei que a vida continua desse outro lado. Sei também que tudo é infinito mesmo que a finitude seja nossa estação final. Um dia, se o Todo Poderoso permitir, quero sentar de frente a você e, sorrindo e abaixando o olhar de timidez inicial, começar nosso papo dizendo:

-Oi C., finalmente estamos tête-a-tête para oficializar aquilo que já estava decretado  por um Ser Superior Maior. Obrigada por me esperar. Trago muitas notícias da Terra. Tem um tempinho para me ouvir?

Olhando-me com seus olhos graúdos e devoradores me responderá:

-Guria, tenho todo o tempo do universo. Desembucha!

E juntos cairemos numa risada sem fim.

Anoitece em Sampa e a realidade grita por minha atenção.  Paro desejando esticar mais um bocado.

Tenha um resto de eternidade de muita paz e – faz um favor – , quando cruzar com Cazuza diz que também aguardo um dedo de prosa com ele . Ah! Favor nº2: caso trombe com meu Menino Maluquinho circulando de longboard por aí, diga-lhe que tia Lilica o ama eternamente e pra ele se comportar enquanto não chego. E que sinto saudades de suas aventuras na cozinha me preparando una pasta al pesto.

Com amor e carinho,

Roseli

 

Imagem: Google

Presságio

Protegida da chuva

pelo alpendre – em seu terraço,

a dama observa

Pedestres passam apressados

numa única leva

Zumbis

Ninguém a vê. Nem mesmo

a equipe da TV – que ali,

grava pegadinhas para

programa de humor

A dama, que a tudo observa,

deixa uma sombra baixar

em seu sereno olhar

– por hora, preocupante

Sabe que em breve tudo mudará

O perigo se aproxima

não tardará

para que vidas inocentes

– crianças e idosos perecerão

E não haverá rima possível

que combine com esse final

O embate, somente ela sabe,

será mortal.

 

Maturação

pilatesroseli

Observar a juventude se esvaindo

Manter a mente e espírito jovem

Não  infantilizada

Remoçada nas linhas de raciocínio

Ar refrescado por novos aprendizados,

experiências, vivências

Permitir-se.

Envelhecer é voltar as costas ao novo

ao não testado.

Envelhecer, é voltar-se para dentro das entranhas

e nela – deixar-se apodrecer pela inércia

Percebo meu corpo perdendo a

elasssssssticidade

A derme ganha dia a dia flacidez

Luto para manter a postura reta

envergar, somente a alma para alcançar o inalcançável

Pilates, Yoga, meditação, alimentação natural

Num mundo de industrializados, mantenho meu

foco na terra, no adubo, na criação da natureza

Essa é a verdadeira beleza!

Hidrato a pele e, em contrapartida,

ela ganha manchas senis

Teimosas, desejam demarcar território

provando que muito vivi

 

Criador e criatura

Da janela de seu quarto, observa um recorte do mundo exterior. Do lado de cá, é ciente de sua realidade. É só isso que tem. Contudo, o que não sabem, é da riqueza de sua imaginação. Através dela, percorre mundos paralelos e inventados por sua mente criativa e alimentada por muitas leituras desde que se alfabetizou. A rica moldura para a realidade, pincela traços grotescos de concreto envelhecido, pinturas desgastadas pelo tempo, vidros repletos de adesivos de estudantes que vem e vão, neons anunciando noitadas quentes a preços convidativos, drinques e diversão garantida, jardins verticais e grafites.

Sirenes rasgam o parco silêncio da rua anunciando mais doentes chegando ao hospital no final da rua. São mais frequentes aos fins de semana acompanhados de muitas cheiradas e álcool. A existência de muitos terminam ali.

Enquanto isso, sua vida segue arrastada numa rotina medonha. Não reclama. Está bom assim. Tem tudo à mão. Somente o que necessita para manter-se viva…

Tudo mudou há seis anos. Era outra pessoa. Ousada, destemida, competente e conhecida. Teve fotos estampadas por diversas vezes em jornais. Uma celebridade. Ganhou dinheiro, viajou, adquiriu imóveis. Aqueceu seu corpo escultural ao lado de muitos homens.

O prazer físico era um de seus vícios que – na medida do possível e também do impossível -, saciava. Seu duplex, decorado por Sig Bergamin, fora palco de muitas orgias. De três em três meses, abria as portas para um grupo seleto. Com direito a roteiro, personagens, boa gastronomia, bebidas à vontade. Baixelas de prata repleta de pó espalhadas por toda parte ofertavam aos convidados, momentos de puro êxtase sensorial, corporal, acompanhados sempre por música clássica ou eletrônica além de trechos de poemas e contos de autores conhecidos ou anônimos. Tudo variando conforme o tema estabelecido por ela. Toda festa era sucesso absoluto e comentadas por semanas nas rodas de amigos. Amante de sexo grupal, seu clímax era o anal que a deixava louca de tesão e estimulava fila indiana da ala masculina para enrabá-la. As mulheres participantes sugavam seus peitos bem garantidos pela gravidade entre outras brincadeiras. Seus bicos chegavam a sangrar de tão chupados e mordidos. Não ligava. A dor fazia parte do jogo. Inúmeras vezes gozou equilibrando-se no parapeito da janela do vigésimo andar. Ali, nas alturas, nua, sentindo o vento a lhe abraçar o corpo junto com algum outro a lhe penetrar, sentia-se verdadeiramente livre e dona do mundo. Seu mundo. O sexo tornou-se seu vício maior. Mais que a cheiradas, picadas e destilados. O parceiro desse vício era o risco calculado. A adrenalina era altamente prazerosa. Foi ousando e se arriscando cada vez mais. Até o momento que seus parceiros de aventura começaram a sair de cena. Muita loucura. Sem maiores explicações, a vida lhe deu um xeque-mate antes que ela fosse responsável pela morte de alguém ou de si mesma. Certa manhã, despertou sentindo-se estranha. Não reconheceu ao mirar-se em seu espelho veneziano. Recolheu-se debaixo dos lençóis egípcios e permaneceu na penumbra por várias horas. Que se tornaram dias, meses, anos. Raras vezes saiu do edifício a não ser para ir ao médico da família que a acompanha desde então. Os amigos, de início até a visitavam mas, aos poucos se distanciaram. Ela não era mais divertida. Olhar ausente pairando sabe-se lá em que paisagens causava incômodo a quem se aventurasse a visitá-la. Muda. De mulher extrovertida e com os temas sempre atualizados sobre tudo, nada mais pronunciava. Sua articulação desembaraçada havia se perdido. Somente balbucias incompreensíveis. Sua beleza – antes admirada e invejada -, agora, apenas um punhado de pele flácida de coloração acinzentada. Seus cabelos volumosos, com brilho e sedosos, hoje, um emaranhado fosco e quebrado. Ela o arrebenta em momentos de crise…

Lê mais uma vez o que acabou de escrever com a ajuda do software Motrix, instalado em seu notebook, sorri satisfeita com sua mais recente história e personagem.

Assim como Álvares de Azevedo, nada viveu em sua limitada vida porém, o que consegue vivenciar através de leituras e escritas comprova sua experiência! Por hora é só. Seu corpo pede repouso.

 

 

 

Louca poesia

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Passar a vida ao lado dos mesmos

sentir-se estrangeira

Não reconhecer a língua falada

não conseguir fazer-se entender

Gritar tentando ser notada

Forçar sua presença

inútil – não notam sua carência

Que sociedade vivemos onde

todos sofrem solidão sem fim

e buscam aplicativos,

redes sociais,

desenvolvem até robôs,

sósias perfeitas de quem se foi

Cada ser em seu quadradinho

Lado a lado – um só mutismo

Cegueira de Saramago

Que enxergou o que ninguém deseja ver

O ser humano perdeu referencial

de sua humanidade

Tornou-se apenas um animal

tecnológico, pobre na alma

e infeliz.

E eu aqui, sussurrando para você

Que senta-se bem a minha frente

E não sente que estou aqui

forasteira renegada

Carta descartada de um baralho francês

Que insensatez!

Mulher, velha, sem família

Que domina as letras – que heresia!

É muita ousadia!

 

Imagem: Freeimages

 

Com a “macaca”

Sou crica! Chata assumida e feliz. Já tem um tempinho que deixei de assistir TV aberta. Principalmente a Plin-Plin. Não tenho mais tolerância com as formas de interpretações globais. As “mocinhas” são irritantes, falsas, têm uma voz que agride meus ouvidos e quando no cio, costumam ter crises de bronquites que me dão enjôo.

Contudo, outro dia minha internet deu pane e não pude acessar minhas séries da Netflix.

Desespero total! Respirei fundo e, como tinha outros afazeres, deixei a TV ligada e saí da frente da telinha. Envolta por inúmeras atividades domésticas como preparar minha marmita (é people, eu como de marmita sim!), colocar roupa pra lavar na máquina, dar uma geral no apê (não teria tempo no feriado), aguar minhas plantinhas (adoro!)…

O tempo foi passando, aquelas vozes rolando na TV e eu, aos poucos fui me conscientizado. Como essas novas atrizes globais são chatas!

Pensei comigo: Cara, se fosse homem não me apaixonaria por nenhuma delas só pelo fato de terem essas vozes esganiçadas e esse eterno ar de, de, de…Ah, sei lá! Todas uns cocozinhos. Prontofalei! Veja bem, nada contra as pessoas em si que são. Não mesmo. Até porque, nem as conheço. Mas enquanto atrizes, Mon Dieu! Tão rasinhas nas interpretações de si mesmas. Afinal, todas elas são atrizes de um papel só. Pelo menos é essa a impressão que tive dos trabalhos passados que cheguei a tentar assistir. Não deu.

Essa da novela das 18h, me desculpe mas o único papel que gostei foi de Emília pequena. Boneca.

A Emília grande é chata. Tira o fôlego. Não por ser sensual mas, porque é canastrona. Boneca canastrona até se torna engraçadinha. Atriz adulta e canastrona, haja paciência!

Olhar vidrado e boquinhas em bicos, desculpem-me o termo mas, dá no saco!

A outra (mais experiente s.q.n.), da novela das 19h, com aquele eterno bocão escancarado, é dose pra leão…Matar! Oh coisinha irritante! Sorry a franqueza, não gosto! E a que faz papel de gêmeas (a boa e a má. sempre isso), verdadeiro mousse de chuchu sem sal. Affê!

O tempo passando, as novelas findando, eu me irritando até que passou uma cena da mini série que nem guardei o nome. A bonitinha da vez, aquela com nome francês (olha, até rimou!) só sabe fazer cara de cachorro caído da mudança e biquinhos (o eterno da BB). E o que falar dos gemidos e engasgos quando sofrem? Me desculpem, na vida real nunca vi ninguém sofrer dessa forma. Padrão Global! Somente nos estúdios Projac. E o que falar do assunto batido “Ditadura brasileira”? Sou cidadã consciente (na medida do possível), li muito sobre esse assunto quando fiz meu TCC e essa glamourização do assunto é inverossímil.  E o que dizer das trilhas sonoras? …Chato.

Enfim, ao término dos meus afazeres, tratei de desligar a televisão após uma busca infrutífera por alguma programação que não me ferisse mais a inteligência. Liguei o computador para escrever um pouco e acessei minha seleção musical no Spotify para acariciar um pouco meus ouvidos tão maltratados pela TV.

 

Escrevi essa crônica já tem um tempinho e estava perdida nos rascunhos. Publiquei porque ao ler, constatei que não mudou absolutamente nada. Tudo continua como antes ou seja, uma B…Ôpa! Tem criança por perto?

Debut

elegant-silver-bridal-shoesDorothéa perdia-se na imagem refletida no espelho. Nunca se vira tão linda assim. Pela primeira vez, em treze anos, sentia-se parte da humanidade civilizada. Pela primeira vez, estava limpa, banho tomado numa imensa banheira, num cômodo forrado de mármore rosado e enormes espelhos por todas as paredes. Lembrou-se do toque prazeroso da toalha felpuda em seu corpo. Do cheiro adocicado de amêndoas. Do shampoo que transformou seus desgrenhados cabelos sem vida, numa cascata brilhosa e perfumada. Sorriu para sua imagem refletida mostrando dentes fortes e bem feitos que também ganhara vida após uma longa escovação. Sentia um gostinho de menta na boca. Uma senhora entrou no quarto trazendo um traje branco, bordado com pequenos vidrinhos que brilhavam conforme a luz batia neles. Trouxe também um par de calçados prateados e de salto. Seus olhos cresceram diante de tanta beleza. Afinal, para quem só andava descalça ou – quando muito -, num chinelo improvisado de papelão, ter agora em seus pés calçados tão finos era como entrar  no céu. Toda feliz, vestiu-se e calçou os sapatos. Caiu como uma luva. A mesma senhora voltou ao quarto trazendo agora, uma maleta de maquiagem realçando os belos olhos verdes, destacando as maçãs do rosto e colorindo os lábios carnudos da jovem.

Perfeito! – disse entre os dentes  a senhora que admirava o que via pela frente. Fruto de seu olhar clínico e experiência de vida.

Sorrindo disse à Dorothéa: Menina acredite hoje você fará história na própria vida e dos outros. Vire-se para eu ajeitar o laço do vestido e do seu cabelo. Lembre-se: Sorria sempre que a vida também lhe sorrirá!

Juntas, saíram abraçadas do quarto rumo ao destino que se abria para a jovem e promissora prostituta.

 

Imagem: Cherry Mary

Maré de decisões

pes na praia

Observando a movimentação dos pescadores, Luciana se encontra há horas, no pequeno porto. O vai e vem dos barcos e das ondas, acalentam seu coração – por hora -, conturbado. Em seu íntimo, várias questões se digladiam. Muitas decisões importantes a tomar. Decisões que mudarão definitivamente sua jovem vida. Enquanto pensa, uma doce brisa brinca com seus longos cabelos negros. Tenta assimilar sua nova realidade, se preocupa em como revelar à sua família. Sabe que não será fácil. Chuta a areia, levanta e segue pela orla resoluta em parar na primeira lanchonete que encontrar e comer umas fritas bem crocantes. A vontade surgiu do nada e fez a menina salivar de desejo. O primeiro, de muitos que terá até completar os nove meses. Após saciar essa vontade, ela pensará numa forma de contar para sua mãe.

“Prepara o lombo Luciana! Hoje a noite a jiripoca vai piar!”

 

Imagem: Freepik