Sornice

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Abro os olhos diariamente e observo. Nos últimos tempos, na medida do possível, mantenho minha boca cerrada. Precaução em tempos de censura mas também, pura preguiça. As pessoas andam nadando com fôlego de atleta olímpico na piscina da mediocridade e eu, preguiçosa que sou, não aprendi a nadar. Só boio.

O cansaço que sinto diante de tamanha realidade rasa causa náusea. Vomito.

Limpo os restos na manga de minha camisa de linho puro sintético comprado na lojinha do Ching Ling. Que mico!

Vomitar e usar essa porcaria made in Taiwan.

Imagem: Pixabay

Pausa para um cafezinho

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A humanidade é incrível. A humanidade é maldosa. A humanidade é engraçada. E eu me insiro nela, mosaico que sou de virtudes e defeitos.

Apesar de procurar a elevação espiritual através da moldagem de meus defeitos, não posso ouvir um buchicho que logo estendo minhas antenas. E quer lugar melhor para ouvir fofocas sobre o que rola por debaixo dos panos (às vezes por cima mesmo e muitas vezes, sem pano algum) do que o horário do cafezinho? Local propício para conversas amenas para se livrar do estresse do dia a dia e se inteirar dos acontecimentos da (na) empresa.

Chega um, pega seu café, aproxima-se outro colega que logo se senta segurando sua xícara fumegante e assim, entre um gole e outro, entre um comentário sobre o tempo e um apontamento sobre a atual política do país, o papo rola até que chega um(a) outro(a) colega mais bem informado trazendo notícias fresquinhas anunciadas pela rádio Peão que está sempre vigilante.

É incrível observar a transformação que todos sofrem quando se ouve:

-Já estão sabendo do mais recente babado?

É o suficiente para despertar nosso animalzinho da maledicência e coisas mal feitas. Impressionante ver os olhos de todos quase saltarem e brilharem de forma atípica quando um colega chega com as “fresquinhas”. Vozes se alteram, taquicardia se alastra, boca resseca e pede mais uma xícara de café. Até mesmo porque, se deseja saber mais e mais detalhes picantes sobre o assunto. E daí, para alguém lembrar de um episódio mais engraçado do passado é um pulo e assim, os minutos do cafezinho se estendem por minutos infindos. Até que o chefe ou o motivo da fofoca apareça pondo fim a um dos momentos mais descontraídos na empresa. E um acesso de tosse e pigarro coletivo toma conta do recinto fazendo todos saírem rapidamente voltando cada um pro seu cercadinho afinal, é preciso trabalhar!

E todos retornam aos seus afazeres com a certeza de que no próximo café, haverá mais novidades.

Imagem: Acervo da autora

Acordo doloroso

Uma sensação estranha se desenha aos poucos em meu interior. Minha mente busca – na vã tentativa de negação, pensar em coisas alegres. É lógico que fracasso.

À tarde tento fingir que trabalho, num esforço intenso de parecer concentrada. Descobri que sou excelente atriz! Ninguém percebe ou, por outro lado, todos agem da mesma forma que eu. Fingem na frustrada tentativa de sabotar a realidade.

Olhos caídos, andar pesado, dedos nervosos teclando em busca de notícias positivas.

É não deu. A vida vem e escarra em nossas caras que ela não é a tela do plin-plin. Não utiliza imagem HD, não se mascara muito menos te poupa se você for bom.

Por outro lado, a Morte, essa misteriosa dama que a todos assombra e fascina, também trabalha no mesmo esquema. Uma é o complemento da outra. Trabalham em parceria constante. E se respeitam quando finda o contrato de alguém.

Hoje, muitas pessoas tiveram seu contrato encerrado. Sinto por todos. Mas o término de contrato do Clown mexe com o emocional de todos.

O Clown é um personagem que habita o imaginário das pessoas. Figura constante na infância que se materializa na fase adulta resgatando a criança que um dia fomos.

Figura que trás no rosto, a alegria e a pureza do espírito, assombrada por um olhar melancólico que sabe que a vida não é só beleza.

A Morte resistiu bravamente. Aguentou paciente a espera da realização máxima do Clown para levá-lo consigo. Chegou inclusive a se emocionar – coisa rara de acontecer, com o talento do palhaço no picadeiro da vida.

Mas não teve jeito. Funcionária padrão do Senhor do Universo, ela não pestaneja diante das situações, muito menos das emoções que todo ser humano expressa. Calejada diante do sofrimento, criou uma couraça para se proteger caso contrário, não teria a competência que tem. Já traçou antecipadamente todos os passos para o desfecho do escolhido da vez.

Planejou com Mãe D’água, como seria o grand finale. O local era cenário perfeito para esse enredo. A Senhora das Águas garantiu que seria inesquecível. E foi.

Poucas vezes a Morte sentiu aperto no coronário ao carregar o dileto. Hoje, sentiu que também morria um pouco.

 

Aquarela borrada

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Sabe aquela inquietação, misto de ansiedade, medo e vazio, que toma conta da alma? Pois é, amanheci assim.

No desjejum da manhã chuvosa e fria, me alimentei de saudade acompanhado de ovos estralados. Mastiguei por um longo tempo relembrando nosso lindo encontro que jamais aconteceu.

Insisto em fantasiar. Uma maneira que encontrei de manter-te real ao meu lado nessa solidão que mergulhei.

Não reclamo. A solidão – que para muitos é o fim da rota, para mim, é boa companhia. Gosto de minha rotina, de meus silêncios pontilhados por trilha musical de Chet Baker e Cesar Camargo Mariano. Aprecio minha voz não pronunciada que permanece dentro de mim. Sou boa companhia. Converso bastante com meu eu e, através de nossas conversas, filosofamos noite adentro.

Relembrei a viagem a Paris que tanto sonhei ao teu lado. Você, como sempre, amarelou no último instante. Jamais assumiu o medo de avião. Medo esse, que te impediu de ser feliz e realizar seus sonhos diversas vezes na vida. Segui sozinha imaginando-te sempre ao meu lado. Descobrindo os becos da cidade luz, sorvendo o beau vin que as bodegas ofertam. Desvendei a cidade de metrô e em poucos dias, já me sentia uma legítima parisiense.Acho que nasci pra isso! Fui ficando. Em pouco tempo consegui emprego de garçonete num restaurante três estrelas frequentado por pseudos escritores e artistas de todos os gêneros. Pessoas incríveis que me acolheram com carinho legítimo. Me senti em casa! Os anos passaram muito rápido. Virei artista incentivada por todos. Primeiro, comecei a desenhar, depois pintar. Virei excelente retratista. Passei a vender meus quadros na Place du Tertre. Em pouco tempo fiquei conhecida. Fui apresentada à  Jean-Paul, músico, instrumentista e com ele, me aventurei. Descobri ao seu lado que cantava bem. Uma voz pequena como a de Nara Leão e fiz  sucesso cantando Bossa Nova misturada com Techno. Gravei dois CDs que ainda hoje fazem sucesso nas discotecas locais. Hoje, amadurecida, descobri a escrita. Escrevo memórias. Minhas e dos outros. Não alcancei o hall da fama muito menos virei Nobel da literatura. Não é meu objetivo. Escrevo mais pra mim do que para os outros. É a forma que encontrei de deixar minha marca nesse mundo.

Continua chovendo. A janela embaçada pelos respingos d’água mostram uma cidade mais cinzenta do que de costume. Gosto do que vejo!

Reponho mais café em minha caneca, aspiro seu aroma inconfundível e tento lembrar com mais nitidez seu rosto e contornos. Já passaram tantos anos e ainda não te esqueci. No entanto, sua imagem ganha tons esmaecidos. Assim como a paisagem na janela. Tento escrever sobre você como forma de te fixar a minha realidade. A memória que ainda guardo escorre feito tinta fresca em excesso se transformando num grande borrão do passado.

Imagem: Marion Bolognesi

 

Meu universo ruindo

A photo by Greg Rakozy. unsplash.com/photos/oMpAz-DN-9I

Tudo anda muito chato. Acontecimentos. Pessoas. Atitudes. Vida.

Um misto de depressão e vontade estúpida de viver. Mas não aqui. Não ao lado dessas pessoas. Percorro as vias públicas, desviando da massa que, envoltos na febre Pokémon, são atropelados por minha ira. Nem percebem. Não me notam. Não sou imagem holográfica.

Percorro a Paulista, num desejo raro de desviar de meus próprios pensamentos. Geralmente recorro à eles quando me sinto assim, cheia. Hoje, faço diferente.

Em passadas ligeiras, transformo-me em maratonista desviando de pessoas, carros, motos e bicicletas. Desvio inclusive, deles, os pensamentos. Assumo um nada total que se avoluma e toma conta do meu ser. Flutuo. Deixo para trás dores – da alma e das articulações desgastadas. Desapego-me de bolsa, identidade, dinheiro. Desço a Augusta, de forma veloz. Prestes a chegar à esquina com Caio Prado, percebo que só tenho metade de mim volitando pelas vias públicas. Desintegro-me para não me perder de vez. Moléculas roselianas sobrevoam o céu poluído de São Paulo. Prestes a chegar ao meu destino, já com chaves em punho, respiro aliviada. Sou apenas um esboço mal feito de mim mesma. Um rascunho feito às pressas por um retratista medíocre.

Giro a chave. Entro. Fecho a porta e escuto o silêncio do ambiente. Aos poucos tomo ciência do retumbar de meu coração. Ainda pulsa. Ainda vivo nessa carcaça decadente que teima em amar a vida. Mesmo que essa, muitas vezes se mostre inimiga.

Lágrimas descem por meu rosto cansado de mais um dia, menos um dia – como sempre diz uma querida amiga minha. Mais uma data riscada em meu calendário. Mais um passar de horas que apago de minha existência. Nada aconteceu. Nada acontece. Pela janela, observo as luzes nos prédios que me avizinham. Estrelas reluzentes em meu universo em constante caos.

Imagem: Unsplash

Saindo da rotina. Six to six

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Fui indicada pela querida comadre Lu Menezes, em seu blog Letras e Contos , a responder a tag Six to six. Consiste em listar seis coisas a realizar até o final do semestre e indicar seis blogs para dar continuidade a brincadeira, avisando aos mesmos de que foram marcados.

Well, lá vai:

1.Terminar a decoração do meu apê (adorando retomar meu lado design de interiores, rs);

2.Voltas às minhas leituras que andam bem devagar quase parando;

3.Retomar a revisão de uma seleção de contos para futura publicação;

4.Retomar (com garra e fôlego) o desenvolvimento de meu romance que está de rosca desde 2010 rsrs;

5.Voltar a fazer pilates que amo e musculação que odeio mas é necessário (sabe como é, depois dos 50…tudo começa a enferrujar e se não cuidar já viu né?;

6.Voltar a me apaixonar e quem sabe, encontrar um amor afinal…Gentem, tô VIVA!! rs

Bom, feito isso, estabelecido metas para esse semestre que já corre solto, passo a peteca para os blogueiros : Ana Lucia (Valise de palavras), Mariana Gouveia (O outro lado), Anisio (O lado escuro da Lua), Cris Campos (A parte e o todo de mim), Virginia (A casa inabitada), Adriano (Anovamente)

Sismos

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Sonho. E no transe desse sonho, sinto tremores. A cama, mole feito gelatina me devolve à vida. A vida, por questão de segundos, mostra que tudo trepida. Lustres pendentes brincam de balanço. Vão pra lá e pra cá num ruído que amedronta. O quarto, uma grande montanha russa. O piso movimenta-se causando náusea sem fim no meu epicentro. Vomito.

A louça na cozinha mais parece pipoca pulando na panela. Cacos por todo lado e o som de tudo se movendo. É sinistro. Quadros são arremessados da parede, TV escorrega do rack, janelas explodem. A mistura de sons causam-me pânico mas não consigo pensar em nada. Muito menos, sair do lugar. Permaneço. Observo. Ouço. Sinto…

O mundo de outros desabando sobre meu mundo. Corpos tomando o espaço do meu corpo. É um peso muito grande! Ouço gemidos abafados ao meu redor. Trago a garganta fechada, seca e meus olhos serrados. Não tenho certeza se me encontro viva ou morta. Continuo inerte, submersa num mar de entulhos. Os sons que chegam até meus ouvidos empoeirentos são confusos. Nada distingo.

Aqui, onde me encontro, continuo a sentir tremores. Ao redor e dentro de mim. Tremo de medo pela primeira vez. Tremo por minha vida e dos outros que, reunidos, formamos um coro de desesperados.

Espero. Imóvel, aguardo ser resgatada. Não importando mais se viva ou morta.

Mais tremor. Agora promovido pelos tratores que vasculham os escombros do que um dia foi uma cidade. Curioso! Não sinto medo, não sinto frio, nem calor…Não sinto dor. Faço parte agora do imenso nada.Terei voltado a ser molécula no espaço? Confusa demais para filosofar, mantenho-me stand by. Não tenho escolha, portanto, mantenho-me calada. Boca e espírito . Não tenho ideia de quanto tempo permaneço nessa posição. Não sei se é dia ou noite. Não sei se desistiram de nós. Algumas vozes se calaram. Será a morte esse grande silêncccccc??..

Entrondo!

Ahhh!! ÚÚHh!!

Um sobrevivente! Um sobrevivente!! – grita um bombeiro acompanhado de um cão que teima em me lamber. É quente. É úmido. O medo volta com força total e, liberta do concreto que me oprimia, grito com todas as forças de meus falidos pulmões.

Deveria de me sentir feliz por ser resgatada mas, o medo toma conta de mim. Enquanto estava lá embaixo, tinha companhia. O que será de mim depois que a tormenta passar e não tiver restado nada nem ninguém? Como viver com esse peso da vida?

Choro. Pela primeira vez choro muito. Lágrimas misturadas com sangue e outros fluídos. Meus e dos outros que jamais se reerguerão. Braços me envolvem delicadamente, uma voz embargada pronuncia em meus ouvidos palavras de reconforto tentando me acalmar.

Tremo. De frio, de dor, de não saber meu futuro. Terei algum? Tremo novamente. Agora de convulsão. Sou colocada numa maca e sigo para hospital mais próximo. A estrada está péssima. Ambulância sacoleja.

Vida que segue t(r)emendo o amanhã.

Imagem: Google

 

Conselhos de Fada Madrinha

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“Ai amor! Tu não tem idade pra vestir a roupagem de idosa! Fofaa!!  Tu não tem idade pra isso. Tem muita lenha pra queimar. Santa Maria da Periquita Sossegada! Acordaaa!!”

“Mapoa, não se faça de sonsa. Tô falando com vocezinha darling! Fazfavordemedaratenção. A Biba aqui não suporrta ser ignorada!”

Aii!! Tá maluco? Estou invisível por acaso? Ai que não se pode mais almoçar sossegada nesse refeitório senhor!…Tá doendo viu? Por que me cutucou?

Pra ver se desperta desse sono de princesa bela adormecida. Hellow!! Onde anda essa mente hein?

Cássio, por acaso bebeu, cheirou, aspirou muito pó de arroz vagabundo  foi? Não entendo absolutamente nada do que está falando homem! Aff! Me deixa almoçar que ainda tenho de correr até o supermercado para comprar algumas coisas pra casa e só tenho uma hora pra fazer tudo.

Homem? Por acaso, está vendo aqui algum homem conversando com você criatura? Quer dizer então que, além de deixar essas madeixas esbranquiçadas – que aliás, acho UÓ, você ainda sofre de miopia? Hellow again! Sou EU! Cassinha que fala contigo mocréia dos infernos. Não insulta não que o que disse é pro seu bem! Sai dessa vida de senhorinha antes do tempo! Você sempre foi linda, elegante, sexy e acima de tudo, GOSTOSA! Não te aceito por menos! Vamos marcar pra hoje a noite você ir até meu cafofo para eu realizar a grande transformação de te resgatar do limbo dos idosos e te transformar na rainha que sempre foi. Miga, tá sabendo que agora sou uma consultora legítima e sacramentada  da Mary Kay? Que fiz uns cursos de maquiagem que transforma em poucos minutos dragão em miss universo? Então…te quero arrasando a avenida novamente. Que depressão foi essa que te pegou hein? Homem nenhum merece esse desleixo todo amore.

Cássio querido, agradeço sua preocupação mas não me encontro deprimida. Pelo contrário, estou super de bem com a vida. Nunca estive tão bem como agora. E quanto aos meus cabelos, esquece que cansei de ser escrava da moda e dos salões de cabeleireiros. Pra mim já deu. Me dei alforria total dessa ditadura. Serei o que quiser daqui pra frente e se, meu desejo é assumir meus grisalhos, que assim o seja. Entendeu miguinha?

Jesuis é caso de obsessão mesmo! Terei de fazer reza brava no terreiro essa semana. Rogar aos exús que espantem esse espírito de sinhá polvorosa pra bem longe de minha rainha. Vou pedir de volta a Pomba Gira que te acompanhava nos áureos tempos. Ela sim te fazia brilhar nas passarelas da Dama Xoc e da Madame Satã. Lembra? Foi lá, na Dama Xoc, que te vi pela primeira vez e se fosse homem ou lésbica, teria me apaixonado! Tão linda arrasando naquele macacão de lurex, cabelos cacheados, cheio de brilho…Natural e de gumex pra manter aquela onda na texta. Uau!!! Usava um batom ultravermelho na boca, ostentava um sorriso rodeado de covinhas e seu olhar emoldurado por sombra azul e rosa cintilantes e cílios postiços devastadores. Uau!Uau! Não tinha pra ninguém. A mulherada se mordia de inveja e os homens… Bom, os homens se banhavam de tesão por você. Otávia, amiga, volte a ser o que foi um dia. Essa estrela de eterno brilho. Estrelas não devem jamais envelhecer! Prontofalei!

Cássio, amigo querido, só você pra resgatar esse passado que ficou lá no túnel do tempo e me fazer rir tanto. Fala sério, a gente se divertiu muito naquele tempo não? Arrasamos quarteirão com nosso estilo de vida. Quanta gente boa conhecemos nessa época não?  Caio F. Abreu, os meninos da banda Titãs, a turma mais metidinha que andava nos Jardins e frequentavam a boite do Ricardo Amaral…A turma maluca do Marquinho que, infelizmente morreram todos de AIDS nos anos noventa. Marquinhos…Ainda sinto falta do seu astral contagiante e de sua beleza máscula e ao mesmo tempo andrógina. Lembra quando ele se montava de Streisand? Ficava irreconhecível! Uma diva! Ai, esquece tudo isso que relembrar doí muito. Foi uma época maravilhosa mas ficou lá atrás.

Cassío visivelmente comovido abraça Otávia deixando os demais no refeitório especulando o que acontecia com os dois.

Lindinha, passamos por muitas nessa vida não é mesmo? Seremos assim tão ruins que nem o inferno nos quis? Tanta gente boa, se foi tão jovem e nós dois aqui, firmes feito bambu que se enverga mas não quebra. Eu sei que estamos envelhecendo. É fato. Não tem como negar mas, olha, pode parecer piti de bicha véia, de tiona aposentada, enfim, chame do que quiser. Quero que nós dois envelheçamos com dignidade e beleza. E acima de tudo, que nossa amizade permaneça pra eternidade.

Passa lá em casa essa noite Tavinha. Vamos celebrar nossa amizade.

E…pelamordedeus deixa eu dar um jeito nesse cabelo! Fui!

Imagem: Eaiconteudo

Território demarcado

Sofia está deitada há pelo menos duas horas em total escuridão. Ao contrário de suas irmãs, a falta de luz não lhe causa pavor. Pelo contrário, sente-se confortada.

Ouve os inúmeros sons que vem da rua: carros com seus motores envenenados que passam pela avenida rasgando asfalto, travestis cantando, metendo bronca nos playboys que passam em seus tanques urbanos proferindo ofensas homofóbicas para encobrir suas taras em dar o rabo. Ouve a água escorrendo pela pia da vizinha e o barulho das louças repousando no suporte para secar. O som do elevador chama sua atenção. Passos pesados pelo corredor denunciam que o vizinho do apartamento à esquerda, chegou. Chaves tilintando, passando a trinca, luzes acendendo, TV ligada e a janela sendo aberta num movimento brusco que ensurdece ouvidos mais sensíveis. Não é o caso dela. Já calejados por tanto barulho, nem se importa mais. Mês passado chegou a marcar consulta num otorrino preocupada em estar perdendo audição. Mais tranquila, saiu do consultório após entregar exames feitos lá mesmo, com a afirmativa do especialista de que sua audição, apesar da idade, é perfeita. O que já não ocorre com a visão. Talvez, goste tanto da escuridão porque no fundo, já tenha a certeza de que num futuro próximo, terá ela, como companheira em tempo integral.

Deitada de bruços, mantém  a respiração tranquila, quase parada e adentra um mundo paralelo. Entra numa sintonia com algo desconhecido e sente, de repente, a presença de alguém que se aproxima da cama.

Percebe o colchão se afundar e uma energia a envolve. É desconhecida. A princípio, se assusta, no entanto, ao perceber o abraço invisível, o compasso de seu coração se normaliza. É do bem! Em pensamento, dá as boas vindas mas pede que respeite o espaço que, por hora, lhe pertence. Sente-se novamente abraçada e, numa lufada morna, a tal presença se esvai no ar deixando-a sozinha. Tem plena consciência de que jamais estamos sós. Em nenhum momento. Também sabe que fora do apartamento, encontram-se soldados do bem protegendo sua morada. Em pensamento, agradece.

Ao som de gritarias de jovens exaltados saindo da danceteria no final da rua, adormece sentindo-se em casa.

Um novo passo

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Danço. Por que a vida já é um imenso palco que, se você não seguir, te passam para trás, te derrubam e te jogam para escanteio. Aprendi meus primeiros passos dessa coreografia, logo cedo, bem novinha. Outra grande lição que levei pra vida, é dançar conforme a música. Assim minha avó ensinou para minha mãe, que repassou a lição para seus filhos. Pena que nem todos aprendem.

Com o tempo, passei a fazer passos mais ousados, mais bem sincronizados com meus parceiros de dança. Transformei-me numa virtuose das passadas rápidas, realizando espacates formidáveis. Minha elasticidade impressionava a todos. Dobrava-me feito bambu. Resistente feito eles. Vi-me obrigada a fortalecer para não quebrar.

Com o passar dos anos, corpo enferrou naturalmente. Era de se esperar, contudo, aprendi novas técnicas e pouco a pouco aprendi a dar elasticidade à alma.

Foi aí que tirei a sorte grande! E de lambuja, aprendi a cantar também. Veja bem, não tenho voz privilegiada mas, mesmo assim, canto para desafogar a pressão do dia a dia, libertar tudo o que trago preso no peito e me sentir leve feito folha ao vento. E funciona.

É, acredite! Tente sair dançando e cantando. Verá mudanças significativas em sua vida.

Já aviso que isso não é sabedoria barata de autoajuda. É minha vivência, minha experiência de vida.

E se serviu para mim, por que não para outros? Hoje, no alto de meus sessenta e seis anos, trago minha alma expandida, maleável, leve. Sorrio para a dificuldade, pisco de forma malandra para a dor – que aliás, são muitas, assovio para a dureza de um salário de aposentada, vejo as contas se acumulando e ao invés de desesperar, levanto com certa dificuldade nas juntas e dou banana pra elas e saio à rua em busca de alegria. Tristeza acumulei e curti na juventude pois lá, era legal ficar deprimida por amor ou falta dele. Hoje, ciente de que nada se leva dessa vida, quero mais é ser feliz, dar risada – muitas, diga-se de passagem, achar graça em meus micos que são diversos e bem cultivados.

Minha filosofia? “Infeliz daquele que evita os micos”. São eles o tempero de nosso cotidiano que dão um “que” em nossas vidas muitas vezes desbotadas pelas intempéries.

Durante muitos anos engessei minha essência para fazer parte de alguma turma, algum grupo, buscando a aceitação do próximo.

Me feri demais nessa tentativa que se mostrou inútil. Quando decidi  me libertar, foi a glória!

Quando jovens, somos ingênuos e tolos por achar que tudo se resume ao que se aparenta e não ao que se é de fato. Hoje sou. Joguei pro alto a preocupação com a aparência. Aparentar ser bonita, jovem, gostosa, sensual, sexy. Tudo ilusão! Mantive a vaidade de se cuidar o básico: higiene sempre pois ninguém merece sentir sua “sovaqueira”. Desagradável demais! Cuido de minhas roupas que por hora, são simples mas de boa qualidade e sempre limpas. Mantenho-me penteada, unhas bem aparadas porque ser velha já é um fardo, manter unhas longas se assemelhando às bruxas de contos de fadas, não dá. Esse personagem não visto. Com o ganho da experiência, adquiri o maravilhoso hábito de sorrir com os lábios e a alma. Por isso consigo tocar à todos. Sorrir, vai além de exercitar a musculatura facial. É transformar a alma num regozijo pleno.

De passo em passo, moldei meu espírito numa Ginger Rogers e hoje, bailo com a leveza dos astros. Para muitos, não passo de uma velha gagá precisando ser internada com urgência. Para outros, exemplo a ser seguido. Vai de cada um e não questiono opiniões. Acato e as respeito afinal, o livre arbítrio é uma benção que todos recebemos ao nascer e nosso maior tesouro. Só necessitamos de sabedoria para usá-lo. E eu, à minha moda, acredito que saiba utilizá-lo. Aceita ser meu partner nessa contra dança?

Imagem: Mattsko