Qual foi o último livro comprado?

Acompanho a carreira de Daniel Lopez Guaccaluz desde a época do curso de criação literária que fizemos juntos, em 2010. De lá para cá, adquiri seus livros e li todos. Gosto demais de sua narrativa.

Seu primeiro livro publicado, Pianista boxeador, é uma coletânea de contos, lançado pela Confraria do Vento em 2011.

Em 2013, lançou seu primeiro romance, Fruta e a seguir, A delicadeza dos hipopótamos, pela editora Terracota. No céu com diamantes e Ménage a trois, lançou pela Alink Editora.

E esse ano, adquiri seu livro mais recente, Geraes, lançamento da Lavra Editora.

É uma saga familiar,

história fantástica de um mundo povoado por anjos,

demônios, encantamentos, ou ainda uma sensível história de amor, contada num poema prosa?

É um pouco de tudo isso. Escrita com coragem, vísceras, fibra e alma.

Um encantamento imperdível.

Como sempre faço ao receber os livros que compro, mergulhei no universo de Guaccaluz, já sabendo que me surpreenderia, como sempre fez.

“Cabelos raspados, tatuagens nas costas…Tinha um quê de anjo, onça machucada…Havia anos que partira para as capitais com o intuito de cantar… Voltava devido ao falecimento de sua mãe, Catarina, que suicidara”.

Uma aventura por dentro de uma família e suas histórias e personagens. Um passeio por Minas e suas cidades ricas de seres mitológicos e, por isso mesmo, repletos de humanidade.

A linguagem trabalhada, as referências filosóficas, as citações musicais são marcas de seu trabalho literário. É um escritor que sempre recomendo.

Vale muito a pena conhecer o universo literário desse professor, jardineiro e escritor – como ele mesmo se intitula.

Vale ainda salientar a bela editoração do livro e as delicadas ilustrações e projeto gráfico de nosso já conhecido colega de blog e escritas, Managon.

E você, já leu algum livro de Daniel Lopes Guaccaluz?

Esse texto faz parte da Maratona Literária Interative-se de Maio e, estão comigo nessa corrida:

Ale HelgaIsabelle BrumLunna GuedesMariana Gouveia

Que tipo de leitora eu sou?

Hoje iniciamos a maratona literária de maio, promovido pela Lunna Guedes, com o grupo #Interative-se, do Facebook.

E eis que me deparo com um pergunta ao mesmo tempo fácil e difícil de responder: Que tipo de leitora eu sou?

Sou do tipo que lê até bula de remédios do início ao fim. Sou aquela que não pode estar num transporte público e ver alguém com livro nas mãos. Fico em cólicas para saber qual título.

Quando tinha a liberdade de circular por toda parte, estava sempre com livro na mão ou, numa sacola especial para carregar livros.

Leio outdoors, panfletos distribuídos na calçada, leio inclusive, revistas velhas em exposição nas salas de espera, de consultórios médicos.

Na leitura de livros, leio de quase tudo também. Tenho prazer e curiosidade em ler autores de países distantes, conhecer a cultura. Através deles, me enriqueço.

Tenho prazer em mergulhar em nossa literatura brasileira, tão menosprezada pelos próprios brasileiros. Gosto demais de ler as escritoras nacionais. Antigas e atuais. Essas mulheres tiveram sempre tanto a dizer. E disseram. Com categoria, talento, sensibilidade.

A primeira escritora que li e gostei foi Raquel de Queiróz com seu livro O quinze. Depois, li A montanha partida de Odette de Barros Mott. Não parei mais.

Leio romances, contos, crônicas, poesia, biografia, diários…

Que tipo de leitora que sou? Voraz.

A realidade podia roubar um pouco da ficção

De criança, gostava muito de assistir Star Trek ou, Jornada nas Estrelas, como ficou conhecido aqui em terra brasilis. Desbravar o universo, se aventurar, se teletransportar…

Hoje, acordei pensando nisso.

A humanidade obteve tantas conquistas tecnológicas mas ainda não conseguimos alcançar essa possibilidade.

Que pena. Deve haver muitos interesses contrários a isso, ou já estariamos com mais essa vantagem conquistada.

Pararam para pensar? Eu consigo me imaginar usando um aparelho semelhante a um smartphone, que tem o poder de desintegrar todas as minhas moléculas e enviá-las onde desejar. Assim, em questão de segundos. Com isso em mãos, adeus filas em transportes públicos, aeroportos. Adeus engarrafamentos na descida para o litoral em feriados prolongados.

Teria a felicidade de conhecer diversos lugares numa única férias. Dispensaríamos também as estadias salgadas em hotéis afinal, poderíamos passar o dia viajando, conhecendo lugares. Ao término, regressar e dormir no conforto de nossas camas, descansando nossas cabeças em travesseiros com nosso molde. Adormecer sentindo o cheirinho ao qual estamos acostumados. Seria a glória, não é mesmo?

Outra vantagem: não precisar nunca mais carregar malas lotadas daquilo não precisamos. Seria uma libertação!

Hoje, acordei pensando nisso.

Uma vontade absurda de me desintegrar e teletransportar – molécula por molécula – e me moldar inteirinha num abraço caloroso envolta pelo carinho e cheiro de minha mãe.

Por hora, contrariando nossas expectativas e desejos, o jeito é se consolar com nossos encontros formados por milhões de pixels, satisfazendo a vontade de estarmos juntos . Feliz Dia das Mães. Para todas, daqui e as que se encontram em outras esferas.

Pesar

Acordei mais pobre. Conta corrente com vazamento, escoando para pagamentos de inúmeras contas mensais. Isso não me assusta afinal, faz parte do cotidiano.

Preparar meu desjejum hoje, foi ato mecânico assim como me alimentar dele. O prazer em degustá-lo passou distante, diante de notícias tão tristes.

Esse nosso “novo normal” tem sido uma mescla de sentimentos – quase todos – provação diária.

Literalmente, nos encontramos numa temporada do programa No Limite. Só que sem a superprodução global. A vida como ela é, sem retoques, nem edição.

Perdas incalculáveis são acrescentadas às famílias brasileiras. Fome aumentando, famintos idem. E a fome gananciosa desses seres que não nos representam cresce deslavadamente. Sem máscaras no rosto e na alma. Se é que podemos dizer que tais criaturas têm alma. Creio que não.

Economia em descida vertiginosa, empresas demitindo, comércios fechando e festas clandestinas explodindo por toda parte.

Hoje, o que mais cresce entre nós, são covas abertas aguardando os próximos corpos. CPI da Covid, chacina de inocentes, gritos de louvação pela campeã Juliette, gritos na rua de anônimos enlouquecidos pelo crack, desacordos na quebra das batentes das vacinas…

Hoje, decididamente acordei mais pobre. Tiraram nosso riso fácil, mataram o que tínhamos de melhor – o humor!

B.E.D.A. – Cindy Crowford por um dia

Não sei quanto a você mas eu, aos dezenove anos, exalava vapores de fantasia, muita alegria e, zero de bom senso. Ou seja, totalmente na normalidade.

Para ajudar nas finanças da casa, comecei a trabalhar muito cedo. Meu primeiro emprego foi numa loja popular, onde ouvia o dia inteiro canções de Roberto Carlos. Nada contra o rei mas, ele era a paixão da minha patroa, aiaiai, haja romantismo!

Cinco anos mais tarde, meados de 1982, consegui um emprego numa boutique de calçados finos. Era só sair de casa, atravessar a rua e já estava no trabalho. Os donos, um casal de artistas que mantinham ao lado da loja, uma galeria de artes. Aprendi muito com eles e ouvi muitas histórias. Passei uns anos divertidos.

Paquerei muito também. A loja ficava numa esquina com visão total de duas ruas, uma praça e uma lanchonete que era o point da rapaziada bonita. Fiz muitas amizades no período em que trabalhei lá. Até um namoradinho mais sem noção que eu, arranjei.

Como não tínhamos celular na década de oitenta, nos comunicávamos olho no olho mesmo. Oh coisa boa! Certa tarde, estava eu sozinha na loja e a falta de movimento, me entediava. Até que estacionou uma Variant e, desceu o Boris. Alemão de dois metros de altura e um coração imenso. Recordo que ele – entre outras atividades – era um excelente fotógrafo.

Chegou com un sorriso, me cumprimentando e perguntou se eu queria fazer uns ensaios fotográficos. Queria me dar de presente de aniversário.

Topei na hora e foi lá, em pleno horário de trabalho, que minha porção Cindy Crowford se materializou. É claro que nunca tive o biotipo top model mas, como sonhar não paga imposto, me diverti pra valer naquela tarde fazendo caras, bocas e poses, muitas poses.

Perdi contato com o Boris. Hoje, não consigo nem mesmo lembrar seu sobrenome. Que lástima! Sobrou apenas o álbum de fotos e sua dedicatória.

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B.E.D.A. – Vida passada a limpo

Eureka, sabe o que constatei? Um dos indicadores de que entramos na maturidade são as mudanças de hábitos. Um dos mais gritantes: passar roupas.

De criança, observava as atividades domésticas das mulheres adultas: escolher um dia da semana para trocar as roupas de cama. Um acúmulo de lençóis, fronhas, colchas, cobertores.

Também tinha o dia de lavar as toalhas de banho, de mesa, roupas da família, roupas de trabalho de meu pai.

Era uma trabalheira! Só de olhar, já ficava cansada. Corria pra rua brincar.

Recordo que minh avó, mãe e tia se reuniam para lavar no tanque, esfregar, torcer, enxaguar…Quarar!

Palavra antiga que hoje ninguém conhece e muito menos faz o uso prático: segundo o dicionário Caldas Aulete, que pousa aqui do meu lado: ato de branquear a roupa ao sol. Elas faziam isso!

Roupas secas, recolhidas, hora de passar e guardar. Achava isso uma perda de tempo enorme…

Amanheci doméstica. Após o café da manhã, abri o guarda roupa e vi uma pilha de roupas de cama limpas, prontas para? Passar é claro!

Gentem, envelheci! É sério. Dei de fazer isso e quer saber? Tomei gosto!

Enquanto faço carícias mornas no lençol cem por cento algodão egípcio, com quatrocentos fios – reflito.

Mudei muito nesses três últimos anos. Muito mais nesse isolamento imposto. Percebo que sou como esse tecido. Com o passar dos anos, amaciei. Ganhei vincos, muitos por sinal porém, ao contrário do lençol, meus vincos são prova de que estou viva . São marcas das inúmeras experiências obtidas, conquistadas.

Trago cicatrizes também. Da mesma forma que esse cerzido, no canto esquerdo da alva fronha, que peguei para passar. Fruto de um ato estabanado. Penso que somos assim. Carrego diversas cicatrizes pelo corpo. Registros de minha infância passada na rua de casa, ao lado de um número considerável de crianças da vizinhança.

Tenho uma caixinha repleta de cicatrizes n’alma. Fruto de escolhas mal sucedidas, decepções, traições. Essa caixinha, quase ninguém conhece. Mantenho-a trancada, longe de todos. Às vezes, esqueço sua existência.

Tenho feito dessa atividade, uma finalidade dupla: passar a limpo as roupas da casa e também a vida, observando pontos que ainda me incomodam, situações que se repetem. Terapia caseira que tem me ajudado. Acalma.

Minha mente vai longe e ainda encontro temas para meus escritos. Na falta de outras atividades a cumprir, tenho cuidado de cada cantinho do meu habitat. Converso com as plantas que têm me respondido satisfatórias, reluzindo em seus tons de verdes. A violeta, floresce sem parar me alegrando os dias. A jiboia, viçosa, os vasinhos de suculentas se proliferam alegremente no beiral da janela da cozinha.

É, nunca imaginei que uma leva de roupas passadas iriam me fazer sorrir. Viver é isso. Ontem, a melancolia poética de Renato Russo a embalar dia cinzento. Hoje, Vivaldi alegrando a tarde ensolarada. Vida que segue sem vincos.

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B.E.D.A. – Choque de realidade

Parece cocaína, mas é só tristeza…

Despertei Legião… Levantei como sempre, Urbana. E segui com minha rotina matinal: passar um café, deixar me envolver por seu aroma, tostar um pão com manteiga na chapa, separar um pouco de mamão com mel.

Mecanicamente, ligo a TV e uma leva de notícias ruins quase me tira a fome.

Ela se jogou da janela do quinto andar/Nada é facil de entender…

Eu, particularmente, não consigo entender muita coisa que tem acontecido. Impera uma lógica que não domino. Até mesmo porque nunca fui lógica. E dá-se a confusão.

De onde vem a indiferença

Temperada a ferro e fogo?

Quem guarda os portões da fábrica?

Esse imenso conglomerado chamado Brasil, tem sido território espinhoso de caminhar. Apenas se você calçar sapatos com solado de aço, progride. Caso contrário, fica pelo caminho sangrando. E ninguém vai te socorrer…

Nas favelas, no Senado

Sujeira pra todo lado

Ninguém respeita a Constituição

Mas todos acreditam no futuro da nação…

Que país é esse? Ainda não trago respostas. Talvez nunca encontre. O ar anda rarefeito. Empesteado de gases emanados pelos que desgovernam essa locomotiva descarrilada.

Os assassinos estão livres…

E cada vez mais ousados em suas vilanias. Quero muito crer que isso terá um fim que não seja o meu, nem o seu. Quero acreditar que haverá justiça. E que essa dama não seja cega como foi até agora.

Vamos sair

Mas não temos mais dinheiro

Os meus amigos todos estão

Procurando emprego…

Não podemos sair. Continuamos a não ter dinheiro e a maioria de meus amigos e dos seus também, procuram emprego. Engrossam as filas para receber cestas básicas ou um marmitex de mãos abençoadas e humanizadas.

Voltamos a viver

Como há dez anos atrás

E a cada hora que passa envelhecemos dez semanas…

Há dez anos atrás, vivia bem. Conquistei muitas coisas materiais e culturais. Bons tempos. Hoje, a cada segundo envelhecemos muito mais que dez semanas. Penso que quando tudo isso um dia acabar, serei uma anciã que mais parecerá um tronco de velha figueira com suas raízes cravadas no solo.

Já entregamos o alvo e a artilharia

Comparamos nossas vidas

E mesmo assim

Não tenho pena de ninguém…

Na realidade, foi entregue tudo, de mão beijada, sacramentada. Não temos nem como comparar nossas vidas. Encontramos todos no mesmo barco… Furado. Ainda resta um pouco de humanidade em mim e – mesmo assim – tenho pena. Tenho muita pena, de muitos ninguéns. De muitos alguéns que não tiveram a chance de lutar essa guerra tão desigual.

Hoje amanheci muito russo. Que país é esse? QUE PAÍS É ESSE?

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Imagem licenciada: Shutterstock

B.E.D.A. – Arrebatamentos e outros inventos

Sem ideias para escrever, busquei inspiração na poesia. Estamos precisando! Entre tantos poetas, veio-me a lembrança de um poeta que admiro muito. Talentoso, sarcástico, brincalhão e amigo. Velho amigo.

Andamos nesses últimos cinco anos distantes. Cada qual em seu Estado, levando a vida. É engraçado como mesmo as amizades tão fortes, se distanciam. Não por descuido mas, a vida é que nos direciona para outros caminhos.

Olhando minhas estantes de livros, deparei com seu único livro publicado em 2015.

Muito pouco do muito que tem escrito, guardado só para sí. Uma pena. Sua obra deveria ser toda publicada e conhecida por todos. Na mesma época em que criei meu blog, incentivei-o a criar um para registrar seus poemas. Assim como os meus antigos blogs, o dele também ficou largado, por aí nessa cidade digital chamada internet. Ah… Bateu saudades de nossos papos. Vou logo ali fazer uma ligação interurbana. Pronto, entreguei a idade!

Para quem se interessar, Blablablog

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Imagens: Graciosamente emprestadas do blog do autor

B.E.D.A. – Porcelana chinesa

A alma é uma porcelana chinesa casca de ovo. Se não cuidamos, quebra e nunca mais se recupera. Atravessei a noite de sexta-feira, testemunhando uma quebradeira de um jogo completo. Não sobrou nada intacto.

Nunca fui dada a prestar atenção no cotidiano da vizinhança. Mas, diante desse isolamento social, passar 24 horas no apartamento, não tem como evitar. Ouve-se de tudo!

No prédio em frente ao meu, um casal jovem, mudou-se ano passado. Um estúdio moderno com panos de vidro que, de minha janela vê-se toda movimentação.

O que a princípio foi a constatação de um casal amoroso, bonito de se presenciar no dia a dia, aos poucos, a situação passou por mudanças drásticas. De um vinho rosé suave, frutado, por descuido, avinagrou.

Conviver é uma arte – alguém já disse isso. Vou além: conviver é tarefa hercúlea e requer muita elasticidade da alma. Adequar os gostos, hábitos e esquisitices de cada lado, não é fácil. Se apenas um recua para que o outro se esparrame, chega uma hora, que haverá confronto ou anulação total de uma das partes.

Foi o que acompanhei por aqui, deu-se a explosão da relação, não sobrando nada da beleza e delicadeza que vi no início da relação.

Gritos, ofensas de ambas as partes, quebra de objetos próximos e por último, violência física que terminou com a chegada da polícia.

A vizinhança assistindo de seus camarotes, gritavam de suas janelas, tentando chamá-los à razão. Impossível retirá-los da bolha emocional em que se encontravam. Não ouviam nem a si mesmos, o que dirá, ouvir os outros.

Com a chegada da polícia, cerrei minhas cortinas para esse espetáculo de horrores. Que tristeza ver humanos descer tão baixo em suas atitudes. Ontem, sábado, uma calmaria atravessou a rua. Quase nenhum som a não ser de alguns carros circulando e cães latindo. As persianas cerradas para o mundo aqui fora.

Acordei tarde nesse domingo. Ao abrir minha janela, dei de cara com o estúdio com suas persianas levantadas e… vazio. Restou apenas caixas esparramadas pelo cômodo, alguns panos de chão abandonados na varanda, um rodo e uma vassoura em repouso, encostados na parede e – os cacos de uma relação – varridos, acomodados próximo à porta da saída.

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