Leitura escondidinha

A leitura faz parte de meu cotidiano há muito tempo e posso dizer que já li praticamente de tudo: de revista de banca de jornal Sabrina, passando por romances mediúnicos, namorando romances best seller como os de Sidney Sheldon e Danielle Steell a livros de filosofia, psicologia, biografias.

Ah claro, li alguns romances eróticos também. Nunca tive problemas em ler em público, contudo, três livros confesso que li na surdida. Bem escondidinho.

O primeiro, foi um clássico de nossa ficção científica do autor que hoje – apesar de esquecido no limbo -, é altamente cultuado pelos amantes do gênero Ficção Científica: André Carneiro.

amorquia1

O livro Amorquia, eu encontrei por acaso numa liquidação na livraria Nobel da rua Maria Antonia. Fazia faculdade e era caminho. Sempre estava por lá garimpando boas promoções. Algo nesse livro chamou minha atenção e não hesitei. Comprei.

Não conhecia o autor e muito menos a história do livro logo, foi um mergulho noturno no lago negro. Considerada uma utopia-anarco-erótica (palavras de meu mestre Nelson Oliveira), nos apresenta uma sociedade hedonista onde as crianças têm aulas de prática sexual desde cedo e a religião reforça o tempo todo o sentido sagrado do prazer carnal.
A morte e o trabalho foram abolidos assim como o amor, o casamento e a fidelidade. Confesso que página a página lida e virada, um incômodo fez moradia dentro de mim. Não sou puritana, mas a maneira como o sexo é tratado na história me causou mal-estar e passei a ler cada vez mais escondido com medo que despertasse a curiosidade nas pessoas ao meu redor. Apesar de tudo, cheguei ao final do livro e tenho de dizer, fiquei muito satisfeita. Tanto que indiquei sua leitura a várias pessoas e emprestei inúmeras vezes até que simplesmente sumiu. Quero comprar um novo exemplar e fazer uma nova leitura. Atenção esse livro você encontra somente em sebos.

Anos mais tarde, fazendo um curso de criação literária, numa discussão sobre literatura erótica, observei que não havia lido nada. Decidi ler alguns títulos sugeridos pelo professor.

a historia do olho

O livro escolhido foi A história do olho, de Georges Bataille. Não se enganem ao se deparar com um livro de apenas 144 páginas. A história mexe, incomoda, te faz perder o rumo muitas vezes, te dá tesão em outras. O livro me fez refletir sobre os personagens e sua condição humana em busca de se afirmação – seja no sexo e sua descoberta, na vida, na sociedade que tanto nos cobra determinada postura, mas nos afronta e nos oferece outras. Vivemos no fio da navalha entre o politicamente correto e o que nos proporciona prazer.

Ah, mas não parei aí. Recentemente, li uma obra escrita por uma querida escritora com o qual tenho amizade que muito bagunçou minha vida de leitora: o livro?

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A puta, de Marcia Barbieri. Só pelo título já dá o que pensar, mas a escrita mordaz e afiada feito uma lâmina de aço de Márcia, nos incita a seguir com a leitura. Numa linguagem visceral, ela retorce nossas vísceras e nos faz parar e pensar ou simplesmente parar e ficar no vácuo de suas palavras. É, desde que a conheci no curso de criação literária, uma voz que ecoa e que faz diferença nesse mar de mesmice literária atual. E claro, com esse texto, com esse título e capa, confesso que ficava incomodada (mais uma vez essa palavra) em ler em público. Daí, ler escondidinha no escurinho de meu quarto.

Enfim, os três livros de maneira muito diversa, mas abordando o tema sexo, vida, amor, morte, mexeu absurdamente comigo e isso faz deles, três grandes livros afinal, literatura para mim é isso. Tem de mexer e remexer nossas entranhas caso contrário, em nada contribui. E você já leu algum deles? Me conta!

Este post faz parte da postagem coletiva e participam deste projeto os escritores: Lunna Guedes –  Ale Helga – Fernanda Akemi  –Gustavo Barberá – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes – Fernanda Akemi –  Maria Vitória

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Caio em mim

O ano de 2018 foi corrido em vários sentidos (profissional, pessoal) e muito profícuo na leitura. Quem me conhece sabe que vivo cercada por livros. Além de bibliotecária, sou amante do objeto livro e sempre leio mais de um por vez. Contudo, ando em falta em comentar sobre tais leituras. Uma decisão tomada nesse início de 2019 é justamente expor minhas impressões sobre as leituras feitas.

Para iniciar, vou falar sobre um livro que chegou a mim através de um dos blogs que sigo por aqui: RUBEM – revista da Crônica

Organizado por Rubem Penz, Caio em mim, é uma homenagem do grupo de escritores do projeto Santa Sede, coordenado pelo próprio Rubem. Quando li a postagem sobre o lançamento desse livro, fiquei bem curiosa, uma vez que sou apaixonada por Caio F. Encomendei o livro e fiquei na espera de sua chegada. Encantada com a beleza gráfica do livro.

Bela capa
Convite à leitura não?
Não é lindo? Olha ele te chamando à leitura

Após apreciar todo o trabalho gráfico, iniciei a leitura da coletânea e confesso, mergulhei toda noite antes de dormir e me emocionei muito a cada crônica terminada. Conhecer a escrita de escritores que não conhecia foi bom demais! Alguns já tinha lido algumas crônicas na página da Rubem porém, conhecer o lado Caio F. de cada um foi uma experiência única. Tenho certeza que todos que participaram desse projeto saiu mais experiente na arte de tecer histórias e criar personagens. Eu, enquanto leitora, saí mexida no bom sentido e com o espírito balançado diante da delicadeza e talento de cada um do grupo Santa Sede. Se você, assim como eu, é amante da escrita de Caio, deve conhecer esse trabalho. Se ainda não conhece, vale do mesmo jeito. Leia! Abaixo, tomei a liberdade de reproduzir um trecho do texto de Rubem Penz que praticamente abre a coletânea:

Se um cronista numa noite de terça-feira…

Suponha que Caio F. chegue à mesa numa terça-feira de 2018. Não se espante: suponha, apenas, que você não esteja só – ao contrário, tenha muita gente em sua companhia. Por fim, suponha que ninguém,você primeiro, estranhe essa chegada aparentemente tão pouco possível para uma noite de terça-feira num bar da Cidade Baixa em Porto Alegre, em que chove uma chuva fina ali na rua, na qual um mendigo sagitariano se esqueça de si e nem cogite lembrar-se de nós.

Dessa forma, assim como se fosse a coisa mais natural do mundo, chame o garçom e faça uma enquete sobre o que oferecer ao recém-chegado. O Felipe, creio, indicará um uísque. Ronaldo, um chope artesanal. Eu, o André e o Gian convidaremos a nos acompanhar na cerveja, ao que o Edgar pulará na frente: pago uma Coruja! Bebendo pelas beiradas, a Ana Luiza e a Patrícia sussurrarão um vinho ao seu ouvido, enquanto Camila dirá ser água a melhor pedida. Gabriel, que tem nome de anjo, um café, quem sabe um chá… Refrigerante parecerá a todos fora de questão – Caio F. não teria vindo de tão distante no tempo para beber água doce.

Não pergunte nada. Deixe as três marias – Isabel, Mercedes e Amélia – suponham que Caio F. trouxe um conto inédito para ler só para elas;…

Gostou do que leu até aqui? Ficou curioso(a)? Então vá atrás, compre o livro assim como eu e se delicie nas crônicas contidas nesse belo livro. Será uma experiência inesquecível! Eu garanto! Quer conhecer mais textos deles? Vá a página da revista.

Em tempo, os autores que participam dessa coletânea: Felipe Basso, Giancarlo Carvalho, Maria Isabel Arbo, Patrícia Franz, André Hofmeister, Maria Amélia Mano, Michele Justo Iost, Gabriel Lesz, Edgar Aristimunho, Maria Mercedes Bendati, Camila Z., Ana Luiza Rizzo, Rubem Penz, Clarice Jahn Ribeiro e Ronaldo Lucena. Com participação de Vitor Melo Ferreira Filho, como Caio F.

Título: Caio em mim

Autor: Vários

Editora: Buqui

Ano: 2018

ISBN: 978-85-8338-434-2

Páginas: 176

Trilha sonora de uma existência

Imagem licenciada

Quando a vida pesa demais, ouço música. Quando ela sorri para mim, comemoro ouvindo e cantando. Para dar conta das tarefas domésticas, som na caixa maestro.

Devo ouvir música desde o embrião. Meus pais sempre ouviam rádio e meu pai em especial, adorava boleros, tangos, salsas e chorinhos.

Em minha casa, durante a infância, podia faltar mantimentos no armário mas música jamais.

Cresci acumulando trilhas sonoras das mais variadas. Na infância, a turma da Jovem Guarda. Não perdia um programa e sabia cantar todas as canções e a coreografia da turma do Roberto. Mais tarde na adolescência, descobri as canções internacionais cantadas primeiro na vozes dos brasileiros Christian, Mark Davis, Tony Stevens e Morris Albert. Sabe quem são? Mocinha, em meados de 1977, no antigo ginásio, meu primeiro estremecimento musical: Pink Floyd. Ouvir o som do LP The dark side of the moon foi para aquela menina magricela, o primeiro divisor de águas sonora. Extasiei-me!

No ano seguinte, outro impacto. Esse, me causa arrepios até hoje: A night at the opera, da banda inglesa Queen. Pode parecer clichê mas, quando ouvi pela primeira vez Bohemian Rhapsody, simplesmente paralisei. A princípio não compreendi o que era aquela música mas, a necessidade de ouvi-la mais vezes me levou a atravessar a passagem da galeria onde trabalhava e entrar na loja de disco para perguntar que música era aquela e quem a cantava.

Trago ótimas e carinhosas lembranças desse período. A amizade com os rapazes de lá e os discos que fui colecionando ao longo dos anos, foram muitos. Infelizmente, as pessoas se foram. Alguns se mudaram de cidade, outros partiram dessa esfera, outros, simplesmente evaporaram no ar. Nunca mais tive notícias. Restaram as lembranças que são muitas e os LPs que, mesmo amarelados pelo tempo, estão em perfeito estado e tocam que é uma beleza!

Fã ardorosa que me tornei, a espera por cada trabalho novo me deixava com uma palpitação boa. Trabalhava com gosto para ter um dinheirinho extra para comprar e aumentar minha coleção. Depois, claro, vieram muitos e muitos grupos musicais e cantores que fui descobrindo e me apaixonando pelo som que faziam.

No âmbito musical brasileiro, a descoberta de Elis Regina foi outro momento marcante. Que voz e interpretação era aquela? Trago em minha coleção basicamente toda obra que a doce “Pimentinha” lançou em vida. Que primor! Na mesma época comecei a comprar também os discos da desvairada “Ovelha Negra” Rita Lee. Identificação total com sua porralouquice. Mesmo que eu demonstre por fora ser uma pessoa clássica e reservada, meu instinto animal é roqueira e ela, representa maravilhosamente o rock brasileiro. Ainda mais na pele de mulher. Identificação total.

E o que dizer da minha descoberta e ingresso na música clássica? Mais nova, achava ópera e música instrumental uma chatice só. No entanto quando despertei para a beleza e riqueza delas, mergulhei fundo e fiz minha coleção com todos os compositores e suas obras. Um dos que mais me impactou foi Mozart com sua obra Réquiem em ré menor. O que é aquilo? Foi o que pensei ao ouvir pela primeira vez. Dormi muitas noites ao som desse réquiem. Que virtuose! Que talento para compor algo tão belo!

Independente de ser uma missa fúnebre, ela não me entristece. Pelo contrário, ela me leva para lugares que somente uma música pra lá de perfeita pode te levar. Não tenho nem palavras para descrever o que sinto ao ouvi-la.

Depois vieram tantos outros como por exemplo, Astor Piazzolla. com seu sofisticado bandoneon, a descoberta do jazz através do trompete de Chet Baker e Miles Davis, das vozes femininas do jazz como Billie Holiday, Nina Simone… Nossa são tantas que merece uma outra e única postagem até mesmo para falar de minhas mais recentes descobertas.

Enfim, não consigo conceber uma vida sem trilha sonora. E pensar que há pessoas no mundo que não ligam para música. Tenho dó. Suas vidas devem ser bem mais pobre do que a  minha. Que aliás, de pobre não tem nada a não ser a conta sempre no vermelho mas isso… Ah, isso é outra história! Minha moeda de troca é a arte na qual a música está inserida, é meu tesouro que ninguém rouba. Essa levo comigo.

Sentença final

Sabe aquele momento onde um resultado pode mudar radicalmente sua vida? Aqueles minutos que transcorrem após a notícia que ecoa em sua mente.

O ingresso naquela universidade que tanto sonhou, o emprego disputado com vários profissionais que te intimidou, o primeiro pedido de namoro, a viagem que sempre idealizou, o telefonema anunciando que alguém amado morreu.

Essas são apenas algumas das situações em que nos vemos presos entre a realidade e um corredor para o nada que simboliza o desconhecido.

Mas nada se comparara a notícia que sacramenta sua finitude nessa existência. Ao cair em nossos ouvidos, a frase traça uma coreografia fora de compasso até chegar ao cérebro. Processar é outro movimento estranho.

Estou condenado. Vou morrer. Vou morrer. Vou morrer… Difícil assimilar essa sentença afinal, por mais que saibamos que todos temos prazo de validade, preferimos passar essa peteca para os outros. E quando não temos mais ninguém a quem passar, segurar essa bola de fogo nas mãos é trabalho penoso.

A mente, confusa, não processa o fato. Perde-se em milhares de sinapses que se batem entre si causando confusão. O coração, por instantes pára de bater e depois cavalga em descompasso dificultando a respiração. Uma sudorese se espalha por todo o corpo.

Em breve, não sei quando, esse corpo não mais estará aqui enfrentando o trânsito, adentrando metrô lotado, aguentando o mal humor das pessoas que como eu, temem esse momento.

Não mais provarei os sabores de pratos gastronômicos, nem os vinhos que tanto amo.

E o que dizer do meu futebol? Nunca mais a expectativa de acompanhar da arquibancada meu time de coração ganhar uma partida. Ou perder, que também faz parte do jogo. Nunca mais xingar o torcedor anônimo do time adversário nem chamar ele pra briga.

A música, meu segundo alimento, se perderá no espaço assim como minhas moléculas.

A leitura e a escrita também farão parte do que um dia fui. Será que deixarei lembranças naqueles que ficarem? E se deixar, serão boas ou más?

Alguém sentirá minha falta ou – em sete dias após a missa -, cairei assim como tantos, no vácuo do esquecimento? Pior, nem missa terei. Lembrei que não sou católico. Alguém irá chorar por mim?

Será que minha vida foi em vão? Afinal, nada fiz de excepcional para demarcar meu nome para posteridade. Fui medíocre. Tudo em minha vida foi mais ou menos. Tive preguiça de me esforçar para ser melhor em alguma coisa. Contentava-me com o mínimo.

Estranho saber que desde já, não pertenço mais a isso tudo chamado vida. Mais estranho ainda, é saber-se lembrança. Fragmentos de uma memória que com certeza criarão de mim e não o que fui de fato. Isso, nem a gente sabe. Partirei para um nada cósmico sem ter a certeza do que fui.

Finito. Repito. No pouco tempo que me resta, vou criando meu rito.

Finito… Mais uma vez repito para mim mesmo. Trabalho no sentido de fazer a passagem o mais leve possível. Menos dolorosa mesmo que a carne grite. Mesmo que a alma insista em permanecer aqui.

Finitude…Busco uma razão para gostar da partida. Imagino cenas novas na minha minissérie preferida no qual sou protagonista. Feito Cacilda Becker, desejo sair de cena no próprio palco. Altivo. Destemido. Ousado.

Oh Deus! Misericórdia! Sei que nesse processo, não sou nada. Apenas um saco de gordura, água, fluídos. Mas…E isso tudo que carrego aqui dentro? Emaranhados de sensações, emoções, desejos, lembranças? Isso tudo não é matéria para os vermes. É o que então?

Não tenho resposta para essa e tantas outras indagações que surgem filosoficamente nesse momento único. Como já disse lá atrás o filósofo dos filósofos: Só sei que nada sei.

E nessa total ignorância , me perderei retornando para o berço de tudo transformado em poeira cósmica anônima. Sem registro, sem CPF, sem documento algum que me identifique e diferencie dos demais que já partiram.

Talvez essa seja a verdadeira democracia. É na morte que nos nivelamos e nos tornamos iguais perante o universo.

 

Imagem: Google (desconhecido)

Falta de visão

Noite chuvosa e uma ventania batucando na janela. Perfeita combinação para ficar debaixo de cobertas bem quentes. No entanto, Jussara, inquieta, levanta-se e despindo por completo, abre a janela de seu quarto. Abrindo os braços, sorri aliviada sentindo os pingos da chuva aliviar seu fogacho.

Há dois anos não sabe o que é dormir tranquila por conta dessas ondas de calor que lhe possui o corpo durante a noite. Não que durante o dia fique livre, contudo, são mais espaçadas. Agora à noite o bicho pega…

O sorriso a acompanha ao virar de costas e sentir além dos pingos, o vento assoprando e amenizando seu fogaréu interior. Uma felicidade inesperada a invade e inicia uma coreografia sem música ali mesmo, às 3 horas da manhã de uma terça-feira. Nem se dá conta que, de um prédio próximo, numa das janelas, alguém também com insônia a observa esquecendo seus próprios problemas.

Através da fumaça do cigarro e entre goles de uísque, um homem maduro abandona sua máscara diária de contrariedade e sofrimento deixando à mostra, o jovem saudável e cheio de sonhos que foi um dia. Tudo por conta dessa aparição na janela.

-Quem será ela? Não consigo enxergar direito mas ela parece ser linda! Estará dançando para algum sortudo? Quisera eu ser a platéia para essa dança.

No interior da sala, Jussara continua os passos coreografados, um misto de Ballet clássico com dança selvagem. Vem à lembrança a figura de Josephine Baker. É exatamente assim que ela se sente. Livre, leve e solta. Livre, principalmente dos calores que a sufocam.

Toda essa movimentação a faz lembrar de quando tinha quatorze anos e frequentava as aulas de Ballet de madame Remy.

Mulher mignon, refinada, delicada nos gestos porém, de uma rigidez na disciplina que a transformava numa déspota com suas pupilas. Jussara gostava de seu jeito. Sorriu satisfeita em ver que, mesmo após tantos anos sem dançar, ainda conseguia se movimentar com leveza.

Do outro lado, o homem encheu novamente o copo e acendeu mais um cigarro. Sorria entre a fumaça e os goles ao observar os seios ainda firmes que, soltos, se movimentavam com delicadeza acompanhando os braços delgados que se abriam como se quisessem alçar voo. Os cabelos da misteriosa mulher o encantou: longos, fartos e grisalhos.

-Preciso conhecer essa mulher! Onde esteve esse tempo todo que nunca a vi? Tão perto e tão distante. Essa cidade é mesmo muito louca! – dizendo isso, caiu numa risada rouca ao ver sua musa girar em frente a janela e parar de olhos fechados sentindo os pingos da chuva em sua face.

A dança durou  mais uns minutos até que satisfeita, Jussara cerrou a janela e após um banho, deitou e dormiu sentindo-se uma menina.

O homem, ainda permaneceu à janela, terminando seu cigarro e sua bebida, perdido em pensamentos que há muito não tinha: desejo.

A esperança de que ela voltasse acabou e, com suas expectativas frustradas, fechou as cortinas e retornou ao seu trabalho. Agora, sentindo-se revigorado com sua musa.

Amanheceu satisfeito com sua produção. Ela o fez esquecer as dívidas, o abandono e traição de sua última companheira , e devolveu a vontade de se reerguer afinal, ele, o grande e respeitado ilustrador precisava voltar a brilhar e a ganhar dinheiro.

Fez um café forte, tomou uma ducha revigorante. Ao se olhar no espelho, observou sua fisionomia envelhecida, sua barba grande e desalinhada, seus cabelos sem vida e suas olheiras que denunciavam noites mal dormidas e excesso de bebida e cigarro. Pensativo, sorriu e radicalizou: raspou a barba e cortou o cabelo bem curtinho.

-Assim sim! Estou irreconhecível!

Vestiu seu velho jeans, camisa xadrez e colete. Posicionou na cabeça sua boina e, satisfeito pegou o portfólio. Resoluto, partiu para o metrô rumo ao escritório de sua editora. Na plataforma lotada, ficou ao lado de uma senhora elegante num terninho rosa claro, com uma echarpe suave a envolver seu pescoço. Óculos clássico e dois livros nas mãos. Trem chegou, porta se abriu e os dois sentaram-se juntos. Ocupados com os próprios pensamentos, não imaginam que foram protagonistas de um possível futuro encontro. A vida oferece muitas oportunidades para as pessoas se encontrarem, se conhecerem e se amarem. Pena que são cegas para esses pequenos e preciosos presentes. E cada um desce nas respectivas estações e seguem seus destinos. Quem sabe amanhã ou depois?

Lado B

Sabe aquele instante em que você põe tudo a perder ao se deparar com a ignorância de um interlocutor? Quando vem à tona sua característica primitiva e, quando menos espera, bota suas presas e garras de fora ansiando para destroçar o inimigo?

Pois é…Passei por uma situação dessas. Claro que toda essa introdução é mera ilustração. Não deixei vir à superfície o lado B Roselístico, no entanto, deixei-me envolver pela energia negra da criatura que chegou até mim disposta a uma boa briga. E eu, desarmada que estava, entrei no clima. E que clima!

Quem trabalha com o público sabe que nem todo dia são flores perfumadas. As pessoas descontam em você toda raiva e frustração que sentem na vida. Quem estiver mais perto, serve de alvo para suas disparadas. No passado já enfrentei coisas bem difíceis.

Acredito que a arrogância seja o pior traço de uma personalidade até mesmo porque, engloba outros defeitos como discriminação, preconceito, racismo, sentimento de superioridade , desdém.

No mundo que circulo, convivo diariamente com ela. Já presenciei cada situação! Nunca me curvei aos ataques para me sentir inferior. Nesse quesito, sou bem resolvida e reconheço meu valor. Nunca me senti menos. Nem mais.

Quando me deparo com pessoa arrogante, chego a ficar com pena pois é visível sua infelicidade. Daí o ataque que, temporariamente, a faz sentir-se melhor. Pelo olhar endurecido e fuças dilatadas além do suor que emana ferocidade, dá para reconhecer pessoas desse quilate.

Hoje, acredito, para infelicidade de ambas, travei um embate delicado e chato com uma mulher que, se pudesse, teria atacado minha jugular. Gritou e disparou sua ira em mim feito uma PK nas mãos de um terrorista. Fui alvejada por todos os lados e, claro, para me defender, agi sem pensar. Resultado: joguei merda no ventilador.

Caro leitor, desculpe meu palavreado chulo mas não tem outra coisa para dizer a não ser isso mesmo. Pega de surpresa,  irritei-me com a pobre senhora rica.

Logo eu, que costumo ser a Zen do pedaço. Sempre com um sorriso nos lábios e uma leveza no olhar.

Mais triste fiquei ao reconhecer que ainda tenho um longo percurso a percorrer no caminho da evolução. Ainda sou Terra. Minha essência é primitiva e animalesca e mesmo com todo verniz social, ainda sei grunhir e esfolar quem atravessa meu caminho.

Não sei quanto a tal senhora. Na realidade, acredito que deve ter dormido à noite o sono dos “justos” injustiçados achando que foi a grande vítima. Da minha parte, permaneci insone lamentando o ocorrido e pensando no quanto, muitas vez, vale mais a pena ser ignorante e não ter consciência de seus atos. Sofre-se menos.

Poeminha amargo

Obscuro(antismo)

Paisagem

nebulosa

situação

vergonhosa

essa nossa

real(idade)

Sem direitos

só defeitos

sem moral

nem local

para viver

comer

trabalhar

morrer.

Esse é o país que

(não) deu certo!

Sigamos a procissão

Só nos resta orar

lamentar

vigiar

expurgar

a culpa

por não lutar

não se informar

não se responsabilizar

não

lutar,

lutar,

lutar…

rá tá tá tá Búm!!

calou Anderson,

tombou Marielle

se desfez Josés,

sumiu Amarildo,

anônimos

Esfacelou sonhos

esperanças

alegrias

carnavais

Caiu a máscara!

Amordaçaram a Bela

restou apenas a

Fera.

Esconde que ela vem aí!!!!!! 

 

 

Visita inesperada

kinder ovoSeu assovio característico adentrou a janela e se instalou em cada célula de meu corpo que até então, encontrava-se anestesiado. Alerta geral.
Abaixei o volume da televisão e fiquei atenta. Ouvi novamente. Levantei de um salto único esquecendo as dores da fibromialgia e abri a janela. Olhei de um lado, de outro, até que o som chegou até mim revelando seu dono.
Do outro lado da calçada, equilibrado numa bicicleta, você sorrindo me olhava. E acenou fazendo mímica para abrir o portão do prédio para subir.
O misto de emoções que me assolou causou uma paralisia temporária. Não conseguia sair do lugar nem mover nenhum músculo. Só queria eternizar aquele momento te vendo de novo.
Tão lindo e sorridente como sempre. Pediu mais uma vez para abrir o portão e correndo para o interfone, acionei o dispositivo.
Tomada pela ansiedade do reencontro não esperado, destravei a tranca da porta e – de portas abertas -, olhava os andares que o elevador anunciava passar.
Impasse. O elevador parou e ninguém saiu. Aguardei com o coração descompassado. Silêncio. A luz cansada, apagou-se. Assim como minha esperança. Retornei e fechei a porta pensando no absurdo de tudo. Ao girar a chave, a campainha tocou.
Fiquei de respiração suspensa. Aguardei um segundo até a campainha soar pela segunda vez.
Abri. Do nada você surgiu à minha frente mantendo o sorriso tão amado e com olhos brilhantes de emoção. Assim como eu. Avançou em minha direção envolvendo-me num abraço apertado, quente. Exatamente como na nossa despedida.
Ficamos assim por um tempo que não sei precisar. Choramos em silêncio. Palavras eram desnecessárias e jamais traduziriam o que sentíamos.
Fiz sinal para sentarmos e vendo você se desvencilhar de mim e seguir para o sofá, te observei por trás. Não mudou nada!
– Sua bike?
– Deixei na portaria. Não pretendo nem posso demorar.
-Ah!…
– Estranho você aparecer assim, do nada, sem avisar…
– É. Resolvi assim, de última hora. Fiz mal? Desculpa…
– Não não…. Sem problemas. É que fui pega de surpresa mesmo.
Um silêncio tomou conta da sala e ambos, de olhos baixos não conseguíamos falar.
Vencendo a inibição do momento, você olhou para a TV ligada e disse:
-Ah! Está assistindo essa série. Legal. É divertida.
– É. Estou gostando. Tinha até me esquecido mas retomei essa semana. Começou a terceira temporada. Será que eles alcançam o céu? E será que realmente o céu é um Bom lugar? Tenho minhas dúvidas.
– Eu também. Se quer saber minha opinião. Mas é uma série divertida. Vale por isso.
– Senti saudades…
– Eu também. Muita.
– Sofri com sua ausência…
– Eu também. Acredite. Ainda sofro por isso te procurei.
– brigada…
– Quero que leve sua vida de boa. Não se prenda ao passado. O que passou, passou.
– Fácil falar…
– Sei… Mas é preciso. Eu também tenho de me esforçar ao máximo para vencer a tristeza que muitas vezes bati aqui óh! Cessabeonde.
– Sei… Desculpa se foquei apenas em mim e não vi o que estava escancarado na minha cara. Poderia ter sido diferente
– Não. Não poderia. Tenha certeza disso. Precisava partir. Mesmo não querendo, precisava. Não tem de sentir culpa alguma. Esse foi um dos motivos para essa minha visita.
– Ah é? E qual é o outro motivo além desse?
– Pura saudade de nossas conversas.
– Entendo. Também sinto.
– E também sinto falta de nossas experiências gastronômicas. Nunca mais fiz aquela massa ao molho pesti. Bom né? E você? Continua gostando e fazendo?
– Sim. Adoro massas. Sigo em frente fazendo minhas receitas. Com a diferença que agora, como sozinha…
-É.



-Preciso ir. Não posso demorar muito.
– Não. Não vá.
– Gostaria de ficar mais. Não posso. Por favor, não chore. Nunca mais. Foi por isso também que vim. Para pedir que não chore mais por mim. Acredite: estou bem. Tenho crescido, conhecido pessoas, aprendido ofícios novos. Nunca imaginei isso. Promete não chorar mais?
– Não me peça pra te esquecer. Não consigo.
– Não estou pedindo para me esquecer. Nem quero que isso aconteça. Só não quero que sofra.
– Vou tentar
– Tente. É importante para mim.
– Está bem. Vai me visitar de novo?
– Não. Não voltarei mais aqui.



– Por favor, não torne tudo mais difícil do que já é
– esculpa
– Te amo. Vou te amar sempre. Pra eternidade.
– Eu também.
– Já vou. Fica bem. Por favor, fica bem. Seja feliz.
– Seja feliz também e se, precisar, conta sempre comigo. Sabe que pode contar né?
– Oh se sei! Te amo! Te amo! Te amo! Fui!
– Espere! Vou te acompanhar até a portaria.
– Não. Você fica aqui. Não torne tudo mais difícil do que já é.
– Deixa eu ficar um pouco mais em sua companhia.
– Não. Desculpe, mas será pior. Para nós dois. Fica!

O barulho de uma porta batendo forte me despertou assustada. No escuro do quarto, compreendi que tudo não passou de um sonho. Um lindo sonho. Ao acender a luz e sentar, percebo um objeto depositado aos pés da cama. Toco e reconheço: um kinder ovo! Você sempre gostou. Desde bebê.
Confusa, levanto-me e percorro os metros quadrados de minha quitinete em busca de algo que possa explicar o surgimento desse brinquedo afinal, não recebi ninguém aqui esses dias. Muito menos uma criança. Ao abri-lo, junto ao brinquedo, cai um papel enrolado com a seguinte mensagem: Nunca duvide do impossível. O amor tudo pode.

 

Esse texto brotou da saudade que sinto do meu “Menino Maluquinho”. Hoje faria 24 anos. Saudade sem fim mas com paz no coração e um agradecimento eterno por ter convivido comigo por 23 anos de muita parceria e afinidade. Grata pelo kinder ovo que deixou de lembrança para mim em sua última visita. Guardo como tesouro nosso.

Imagem: Google

 

Salamandrei

Nunca gostei de retrospectivas. Para mim, o que passou, passou. Mesmo que tenha sido bom, não vale a pena ver de novo. Quem gosta disso é a Globo. Eu não.

Contudo, até como forma de retomar a escrita que anda bem parada, decidi escrever e discorrer sobre o ano de 2017. Nunca fui pessimista. Costumo ser até um pouco otária de tanto exalar otimismo. É minha filosofia de vida. Ninguém precisa concordar. Cada um, cada um. Também não é costume meu chorar fracassos e percalços.

Mas devo confessar que esse ano foi um ano de provação pessoal. Fui posta à prova em diversos setores. Quase fui reprovada nessa matéria. Ainda bem que na vida real, não existe isso caso contrário, repetir o ano de 2017 seria penalização máxima que – com certeza – me faria desistir. Sentir-se na corda bamba atravessando um precipício a querer lhe engolir, não costuma ser uma sensação agradável. Percorri o ano pisando numa linha invisível que a todo momento balançava e me trazia um sentimento de pânico. E a quem recorrer quando – de repente – sua confiança não encontra moradia em ninguém? Nem mesmo naqueles que tanto confiou?

Alguns podem achar que seja loucura minha. E eu digo: pode até ser afinal, quem hoje não tem pelo menos um fio de neurose? Encontro-me na normalidade.

Minha zona de conforto perdeu  a estabilidade que até então mantinha-me segura. Minhas placas tectônicas moveram-se de forma transloucadas fazendo-me cair diversas vezes. Estou cheia de escoriações físicas e também na alma. O corpo, tratei de passar muito cataflan e bolsa de gelo. E na alma? O que devo aplicar para sanar as dores?

Muita respiração pausada. Muito mantra. Muito vinho para amaciar a carne e entorpecer as emoções. Muito hare khrisna, muito tambor batido. Contudo, o que mais tenho necessitado é de amor. A começar por mim mesma a se enternecer pelos cacos espalhados no chão após o vendaval. Mesmo em pedaços, essa sou eu que teimo em seguir adiante. E sigo tentando ser como a salamandra regenerando minhas partes danificadas.

Hoje, quase um ano, acredito que assimilei parte do aprendizado. Quase refeita, consigo andar de cabeça erguida e só fraquejo quando estou só. Até voltei a sorrir. Outro dia, chegando em meu apartamento, notei que meu vaso de violeta floriu. Fui tomada por uma alegria tão grande que lágrimas me fizeram companhia. O bom é que dessa vez foram lágrimas de alegria. E assim, volto a reconhecer a riqueza da vida. Hora sangramos diante de perdas e tristezas. Hora lacrimejamos de felicidade e assim, através das pequenas coisas que nos acontece no dia a dia, celebramos a graça de estarmos vivos.

E eu, que iniciei esse texto mergulhada na melancolia, termino com o coração palpitando ao som de Freddie Mercury : Show must go on!