Dedo de prosa com Chicão

Hoje, em especial, oro pelo animal ao qual faço parte da matilha e, que muito me tem envergonhado. Oro, Francisco, gritando a agonia de ver tantos de nossa espécie, agir sem a delicadeza e respeito que observo nos animais irracionais. Esses, nem precisam de proteção, pois vivem em respeito a si próprios, ao próximo e à natureza que os cercam. Natureza essa, que sofre com ações do animal/homem.

Esse, deveria ter ficado lá atrás, andando de quatro. Chafurdando na lama e cumprindo poucos anos de vida. Com certeza, o planeta estaria em melhores condições.

Francisco, cá entre nós, porque Deus nos criou? Somos verdadeira ofensa a todo modo de vida.

Ao contrário de você, que optou pelo voto de pobreza, nossa população tem passado fome, dormido ao relento, vestido andrajos. Não pela liberdade de opção, mas sim, porque outros que se acham acima dos demais e têm uma mente e coração tomados pela vilania, se apropriaram do país e querem mais é ver a população morrer à mingua. Infelizmente, sou obrigada a dizer que estão tendo pleno êxito do projeto “Ruína brasileira S/A.”

De anônima não tem nada, pois sabemos os nomes de cada boi dessa boiada que assola pastagens que até bem pouco tempo, eram matas nativas que enriqueciam solo brasileiro. As matas verdejantes de outrora, encontram esturricadas, cheirando a chão defumado. Incêndios criminosos assolam, matam nossa natureza.

Boiada burra que não compreende uma simples equação: a destruição de nossas matas, matam o verde, animais, eliminam as nascentes, afeta a agricultura, gera fome, desemprego, amplia a miséria, aumenta a desigualdade social,gera violência e o resultado final, é o que presenciamos.

Chico, posso te chamar carinhosamente assim? Acompanhe meu raciocínio. Você que tem intimidades com nosso criador, num dedo de prosa, assim como quem não quer nada, insinue que deu PT (perda total) na raça humana e que ele deve – para manter o equilíbrio geral – dar um reset no animal/homem. Eliminar de vez, o erro…

Não, melhor se expressar de forma mais suave para não despertar sua ira. Aconselhe-o a eliminar os humanos temporariamente. Fazer um recall, até chegar a um protótipo mais aperfeiçoado que venha a enriquecer a natureza do planeta Terra.

Assis, vai por mim. Se souber se expressar de forma eloquente com o criador, tenho fé que ganha muitos pontos pelo resto da eternidade. Você passará ao topo do Top 10 ++, do rol das santidades.

É ou não é, uma proposta interessante?

Imagem: Conversas Sagradas ( São Francisco de Assis, 
Santo Antônio de Pádua e São Boaventura de Bagnoregio) –
Andrea Lilli – Exposição MAB FAAP “São Francisco de Assis, na arte de mestres italianos” – 2019
Foto Solange Albinati

Fado moderno

Ao som do fado, na voz de Mariza, Maria da Soledad passeia os olhos pela vegetação ao redor da Fonte dos Amores. Após ouvir as inúmeras lendas a respeito do amor de D.Pedro e Inês de Castro, não poderia partir de Coimbra sem visitar o local.

A professora de educação infantil de férias em terras lusitanas, pensativa, absorve a atmosfera medieval da fonte.

No dia seguinte, seguiria com as amigas, para a cidade de Porto, depois Guimarães e Braga, retornando por fim, à Lisboa para embarcarem de volta a São Paulo.

Romântica, fora capturada por essa linda e triste história de amor que ganhou o mundo. Desconfiava que jamais seria amada dessa forma. Hoje, os relacionamentos são tão voláteis. Se Pedro e Inês tivessem vivido em nossos tempos, curtiriam apenas um amor de verão. Ao término da estação, cada um seguiria seus destinos guardando por breve tempo, lembranças que se esmaeceriam até sumir e nem lembrarem da fisionomia um do outro.

Ela mesma quase não lembrava detalhes do rosto de Gustavo, seu último grande amor, que partiu para a Austrália, no inverno passado. Chorou, teve insônia, perdeu o apetite por algumas semanas. Envolvida pela correria do término do semestre e os inúmeros relatórios a entregar para sua supervisora, foi esquecendo até quase não pensar mais nele.

Posicionou-se ao lado da fonte, tirou umas selfies esboçando falsa alegria. Aproveitou para registrar mais outras fotos, na escadaria da Quinta das Lágrimas, hoje um luxuoso hotel. Partiu para encontrar suas companheiras de viagem, que haviam disparado mensagens cobrando sua presença.

Imagem licenciada: Shutterstock

No silêncio da casa

Duas e trinta da manhã. É domingo, ouço o silêncio que impera na casa. Olhos abertos na escuridão, espero paciente a vinda do sono. Enquanto aguardo, relembro momentos íntimos que ficaram no passado.

Recordo o primeiro encontro, após dois anos de conversas que adentraram a madrugada. Preparo gostoso, onde pudemos nos conhecer, nos desenhar, nos imaginar. A distância que nos separava, foi ingrediente importante para apimentar o desejo de unir corpos e saciar a fome um do outro.

Enquanto não o realizávamos, costurávamos a relação com muito bate-papo sobre literatura, cinema, teatro e música. Ah… de repente, bateu uma saudade de minha ingenuidade. Éramos tão jovens, tão cheios de sonhos, esperanças…tesão.

A lembrança de sua implicância por eu ser fã do Oswaldo Montenegro e do Jorge Vercillo… Lembrar, me fez rir alto.

E quando você me apresentou a canção Redondo Vocábulo, na voz da cantora portuguesa Cristina Branco? Fiquei seduzida por essa música por um bom tempo. Até hoje ouço seus fados.

A expectativa de nosso encontro foi cercado por ansiedade, frio no estômago, noites insones. Até que te vi – pela primeira vez – no saguão de desembarque. Saindo com olhos de menino assustado, me procurando, e eu ao longe, te observava roubando momentos que queria registrar somente para mim.

De lá pra cá, tantas aventuras, encontros, risos, brigas, reconciliações, novos encontros, mais desencontros…

Hiatos, onde cada um foi em busca de suas aspirações, separados pelo espaço geográfico e dificuldades em expressar os próprios sentimentos.

É… somos animais complicados não é mesmo? Te disse tantas imprecações, você devolveu arrancando lágrimas. Quantas vezes cansei os ouvidos de minha psicanalista, praguejando sua pessoa. Coitada, talvez seja por isso que me deu alta. Com certeza achou que era um caso perdido.

A casa hoje me parece tão grande e vazia. Ouço ao longe, a buzina estridente do segurança que faz a ronda noturna em sua velha moto.

O ronco e gemido assustadores do motor da geladeira são minha companhia.

Escuridão e silêncio a me envolver. Três e vinte e sete da manhã, o cursor do smartphone clareia o breu do quarto. Reluto em olhar, afinal, quem manda mensagem a essa hora da madrugada? Novamente o clarão e a curiosidade tomam conta de mim. Abro os olhos, que embaçados, enxergam a mensagem vinda de longe

Oi, está acordada também? Faz tempo…

Vamos conversar?

Me finjo de morta. Adormeço, jogando a pergunta à você, Destino Safado: o que apronta para mim a essa altura da vida hein?

Imagem licenciada: Shutterstock

Momento filosófico/psicológico ou, simplesmente jogando conversa fora

Amanheci pensando no que leva uma pessoa a tornar-se opressora. Lembrei-me de algumas, com as quais convivi e, cheguei à seguinte conclusão: Todo opressor é solitário e deseja companhia. Só não sabe como conquistar.

Maus tratos na infância pode ser um sinalizador de tal comportamento. Porém, nem todo ser que sofreu quando criança, torna-se um adulto com essa natureza. Pessoas nascidas e criadas de forma saudável, podem apresentar – na fase adulta – tal distorção.  

Mais uma vez me pego com a seguinte questão: por quê ? Ainda não obtive resposta. Sigo estudando, analisando, refletindo sobre as nuances da natureza humana. É fascinante e, ao mesmo tempo, assustador. Todos temos a linha invisível que delimita ações conscientes de ações movidas pela loucura. Sei que também carrego essa linha e que posso ultrapassá-la. Tudo depende de nossa saúde mental, de nosso autoconhecimento, de nossas relações e do quanto interagimos com elas. Se somos ouvidos, compreendidos, aceitos, respeitados. 

A história nos mostra  inúmeros exemplos – seja na política, na religião – que são locais onde mais exemplos tivemos. Não paramos por aí. No âmbito familiar, é comum a presença de uma pessoa com tal perfil. Geralmente é na figura paterna que encontramos um maior número mas, pode se manifestar na figura da mãe, nos filhos, sogros, tios.

Essa reflexão é de uma pessoa leiga que gosta de ler e estudar sobre o comportamento humano. Posso ter expressado bobagens. E se falei, peço desculpas.Tenho aprendido muito sobre minhas próprias ações e isso, tem-me levado a ser mais tolerante com as falhas humanas. Mas, o opressor, ainda me causa asco e, procuro na medida do possível, manter certo distanciamento. 

Quem aqui é deficiente?

Viver e conviver com a deficiência – seja ela física ou mental – não é tarefa fácil. Acompanho minha irmã caçula em suas venturas e desventuras pela cidade de São Paulo. Ela, portadora da Síndrome Melas (miopatia mitocondrial , encefalopatia, acidose láctica e acidente vascular cerebral), Ufa!!!

Considerada rara raríssima, o acompanhamento para quem é portador da síndrome é complicada. A maioria dos médicos nunca ouviu falar, então, já viu o problemão que ela enfrenta.

Minha irmã passou por muitas etapas da doença, desde o princípio. Hoje, cadeirante, ela tornou-se um exemplo de ser humano resiliente que não se entrega ao pessimismo muito menos, ao conformismo de que é incurável. Ela vive intensamente o dia a dia.

Desde que se tornou cadeirante, passamos juntas por muitas dificuldades na locomoção: calçadas quebradas, sem rebaixo; quando há rebaixo, carros estacionados impedem; enfrentamos juntas muitas atitudes discriminatórias, preconceituosas de pessoas nos transportes públicos, na rua, em teatros, restaurantes, cinemas.

O cidadão deficiente enfrenta uma guerra diária para viver, trabalhar, ser respeitado pela sociedade e não contar apenas com atitudes caridosas para com eles. Conheço muitos deficientes físicos que são exemplo de profissionais incríveis: Rodrigo Mendes, que fundou o Instituto Rodrigo Mendes, foi a primeira pessoa de destaque que conheci, juntamente com minha irmã, que estudou lá por uns tempos. Exemplo de ser humano que fez de seu limão azedo, uma deliciosa limonada e não contente em tomar sozinho, oferta a todos que o procuram. A senadora Mara Gabrilli, também é outro exemplo de pessoa com deficiência física, que soube dar a volta por cima. Independente de concordarmos com sua postura política, temos de reconhecer sua luta, sua afirmação diante de todo o senado e dos olhares masculinos e preconceituosos que ela enfrenta diariamente.

O Ricardo Shimosakai, do blog Acessibilidade em foco , é outro exemplo de superação. Vale muito a pena conhecer sua página.

Minha irmã circula pela cidade numa cadeira motorizada ou como agora, num triciclo. Faz parte do corpo de dança e teatro da Associação Fernanda Bianchini. Atende pessoas com diversas deficiências mas seu diferencial, é o balé de cegos. Quando assisti pela primeira vez, no teatro Auditório Ibirapuera, fiquei encantada com a delicadeza e sensibilidade daquelas bailarinas sem visão.

No passado, ela criou o personagem Lírio Peteleko, ao fazer parte de um grupo de clowns da Operação Conta Gotas, visitavam hospitais, levando alegria e esperança às crianças doentes. Ela fazia o maior sucesso!

Poderia citar aqui muitas pessoas que fazem parte do grupo de deficientes espalhados por toda cidade. Contudo, o que desejo mesmo, é homenagear a todos que lutam, sofrem, riem, estudam, trabalham, vivem e que – apesar da deficiência – não são a deficiência. São seres humanos sensíveis, inteligentes, humanos e com muita garra de se superar. Exemplo para todos os demais que se acham “normais”.

O Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência não deve apenas ficar restrito ao calendário. Precisamos enquanto sociedade, olhar com mais carinho, atenção e dar visibilidade a todos afinal, amanhã, somos nós que podemos estar do outro lado. Pense nisso!

Imagem: Acervo pessoal e Google

Meu olhar e expectativa diante da educação

Trabalhei por trinta anos, em instituições educacionais. Da filosofia construtivista, ao conceito tradicional, com pitadas de Reggio Emilia. Nessa convivência diária, pude contar nos dedos das mãos, as vezes em que um professor chegava à biblioteca, solicitando os livros de Paulo Freire. Com excessão, das professoras em formação, que precisavam dos livros para seus trabalhos de faculdade.

Enquanto os demais pedagogos tinham seus livros relançados em edição mais moderna e luxuosa, a coleção de Paulo Freire permanecia parada na estante, relegada ao esquecimento, tornando suas páginas amareladas pelo tempo.

Estudiosos como Maria Montessori, Vygotsky, Piaget, Emilia Ferrero, José Pacheco, Fernando Hérnandez e Monteserrat Ventura.

Os queridinhos do momento, com muitos seguidores em suas redes sociais: Mario Sergio Cortella, Viviane Mosé, Rosely Sayão, Leo Fraiman.

O Brasil presenteou com nomes que fizeram muito pela educação: Anísio Teixeira, Dermeval Saviani, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, a quase esquecida Maria Nilde Mascellani e, esse, do qual desejo falar um pouco e prestar minha humilde homenagem: Paulo Freire.

Nossa sociedade tem por (péssimo) hábito, desmerecer os frutos da própria terra. Só tem valor, o que vem de fora. Com Paulo Freire, não foi diferente, afinal, onde já se viu um pernambucano, que teve visões e estudos voltados para a educação e o social? Louco? Lunático? Sem noção? Comunista?

Foram tantos adjetivos que recebeu na sua terra natal. Em contrapartida, foi reconhecido e muito respeitado no exterior.

Recordo com pesar, da última feira do livro do colégio em que trabalhei, no qual o peso da indignação de um único pai, fez retirarmos toda a coleção de Paulo Freire em exposição. Parecia que havíamos exposto uma obra do diabo à olhos vistos. Tenho certeza que ele nunca leu nenhum de seus livros. Lamentável, afinal, uma instituição educacional ignorar a força e a verdade de um pedagogo brasileiro, sério em seus estudos e motivo de orgulho, aceitar que sua obra saisse pelas portas do fundo como se fosse um bandido, inimigo da sociedade. Vergonha alheia…

Nunca tivemos muito do que orgulhar no que diz respeito à política educacional brasileira. Atualmente então, é vergonha atrás de vergonha. E muita tristeza em constatar o quanto nossas crianças serão prejudicadas em sua formação. Isso se refletirá lá na frente, em suas vidas adultas.

Hoje, faço parte de todos que lembraram e tiraram um momento em suas vidas para enaltecer, reconhecer e desejar que tudo o que Paulo Freire deixou de legado na área educacional, seja um dia, implantado massivamente em todo território nacional. Poder reconhecer uma sociedade educada, alfabetizada e encaminhada para uma vida de muitas possibilidades, é um sonho do qual não abro mão.

Que esses 100 anos relembrando o grande educador, não se restrinja apenas ao calendário Google 2021 e algumas postagens e lives pontuadas.

Que possamos mergulhar de cabeça em sua obra, compreender suas propostas e colocar em prática, entendendo que “social” não é palavrão muito menos ideia pejorativa. Ao contrário, social é a seriedade em tratar as questões de uma sociedade em constante formação e, respeitá-la nas igualdades e diferenças.

Imagem: Instituto Paulo Freire

Sexta em movimento

Da mesma maneira que preciso limpar a memória de meu pc para ficar mais ágil, minha mente também necessita – de tempos em tempos – ser arejada.

Para isso, a melhor coisa é caminhar. Enquanto caminho, minha mente acompanha as passadas e libero a imaginação. Seja para pensar em novas histórias, personagens, situações ou, refletir sobre questões emocionais e resolução de problemas cotidianos.

Para mim, são duas as formas de caminhar: ligada no automático, focada nas passadas cadenciadas e respiração, amortecendo a mente sem prestar atenção ao entorno ou, a que mais gosto de fazer: caminhar assimilando tudo ao meu redor, observando as pessoas, seu comportamento, apreciando a arquitetura, a natureza cada dia mais esmagada pelo concreto e sujeira.

Esse exercício é sem pressa, parando de vez em quando para recuperar o fôlego devido ao uso da máscara. Aproveitando para passear os olhos captando cenas, pessoas, registrando acontecimentos. O cotidiano é rico em material para escrita.

Um dos prazeres do caminhar, agora não é possível: ouvir música. Aliás, a música para mim é companhia, alimento, massagem na alma. E isso, devido à violência dos assaltos, me impede. Como já fui assaltada, não me arrisco saindo por aí ouvindo música no smartphone. Uma pena!

Hoje pela manhã, fiz uma caminhada de uma hora, ouvindo música, porque percorri as passadas dentro do apartamento. Aqui, em total segurança, comecei caminhando e me alongando, ouvindo a trilha sonora da série sul coreana Hotel del luna. Apesar de gostar da trilha sonora, não deu muito certo porque as canções me fizeram chorar. Baixou uma tristeza, uma angústia, uma saudade… Pensei: definitivamente choro não combina com caminhada e corrida alternadas. Coloquei Prince e a batida de suas canções e o som de sua guitarra, firmaram uma parceria perfeita com a atividade física. Meu estado de espírito mudou de imediato. Caminhei, corri, pulei, dancei e cantei. A tia louca do 102, cagou pro mundo lá fora e expurgou tudo o que lhe fazia mal.

Ao término da atividade física, olhei-me no espelho e o que vi foi: mulher de meia-idade, descabelada, suada, com a respiração ofegante, mas, com o brilho nos olhos restaurados e uma leveza reconquistada.

É minha gente, o ser humano foi talhado para o movimento. Com a endorfina liberada por todo o corpo, meu cérebro agilizou, o corpo despertou, as dores cessaram e um sorriso se instalou no rosto e na alma.

Xô preguiça. Xô tristeza. Bem-vindo alegria de viver! Prontinha para o final de semana. Que venha leve, alegre e cheio de graça.

Estou tentando

Estou vivenciando uma nova situação em minha vida adulta. Tenho passado por algumas situações dignas de comédia pastelão. Pena que na urgência, nem sempre sai de minha boca uma gargalhada, pelo contrário. Essa semana saí de uma unidade básica de saúde, cuspindo fogo nas ventas.

Em primeiro lugar, pelo excesso de pessoas aglomeradas e perdidas no hall de entrada, sem nenhum funcionário para auxiliar e orientar. Peguei minha senha e fiquei num degrau da escada, procurando manter certo distanciamento. O painel gritava o número seguinte e nada de aparecer a pessoa detentora da senha.

As pessoas aglomeradas conversavam como se estivessem numa churrascada informal. Riam, conversavam sem parar, baixavam suas máscaras abaixo do nariz, não prestando atenção ao painel que não parava de tocar e piscar a próxima senha a ser atendida. E nada de chamar a minha…

Uma jovem mãe com seu bebê recém nascido chegou e ninguém se ofereceu para ceder lugar. Meus olhos escaneavam algum banco vago para a coitada sentar, suava muito devido à alta temperatura.

Encontrei um local vago e a chamei para sentar. Ela me olhou com certo estranhamento, agradeceu e respondeu que eu poderia sentar, ela estava bem. Demorei a entender que ela queria muito se sentar, mas estava sem graça pois eu era “aparentemente” uma senhora de cabelos nevados. Sorri e insisti para que ela sentasse, afinal além do bebê, ela carregava sua bolsa mais uma sacola repleta de pertences da cria.

Finalmente minha senha foi chamada. Me apresentei e disse que gostaria de agendar uma consulta. Negativo. A moça da recepção falava rapidamente e a máscara, um obstáculo para quem tem uma dicção ruim.

Me senti a própria Velhinha da Praça, não conseguindo entender o que a jovem informava. A cada nova tentativa de se fazer entender, mais eu me enrolava na compreensão.

Resumo da opereta: saí frustrada, atravessando o viaduto do Chá falando sozinha, indignada. Tenho certeza que muitas das pessoas que cruzaram comigo devem ter pensado: mais uma louca solta no centro velho de São Paulo.

Engrossei as estatísticas. Como é difícil ser cidadão nesse país desmaravilhas.

Desabafo

Nem todos os dias, nem todas as horas, conseguimos manter o alto-astral e o otimismo. A vida nesse planetinha anda bem zoado. Claro, responsabilidade daqueles que se acham “animais racionais”. São tantos os absurdos desabando em efeito dominó, que decidi dar um basta por alguns dias. Retornei para o útero materno e pedi arrego. Queria colo morno, coração quente pulsando forte de tanto amor e, sentir suas mãos acariciando meus cabelos num declarado ato de acalmar a alma da filha “segundinha”.

Tenho seguido os dias com muitas dores. Dores que refletem minha alma conturbada e tudo o que me rodeia. Não foi esse país em chamas, de corações endurecidos e mentes impregnadas por fake news e tantos outros absurdos que escolhi viver.

Assistir pela TV, nossas matas em chamas, os mananciais secos, expondo seu solo rachado, animais silvestres correndo o risco de extinção e as ruas repletas de moradores de rua, têm gerado um nó em meu plexo solar.

Definitivamente, não foi isso que sonhei para meu futuro e o futuro da nação. Ler as notícias diárias tem sido tarefa penosa. Optei por ficar alienada por algum tempo, caso contrário, enlouqueço. Não tive energia para a escrita e a leitura. Abandonei tudo.

Hoje, acordei, levantei e tomei as rédeas de minha existência. Sim. Lembrei que ainda existo e, persisto na certeza de que superaremos mais essa onda ruim. Ficarão cicatrizes profundas. Mais algumas em nossa vasta coleção de muitos erros e ilusões. Que possam servir de maturidade e, que nossa sociedade aprenda de uma vez por todas que não existe “Salvador da Pátria”.

Para sairmos dessa enrascada, precisamos caminhar no mesmo compasso e com a mesma ideia de crescimento por igual.

Paro por aqui, pois o cansaço novamente toma conta de mim. Necessito respirar profundamente – sem máscaras – esse ar poluído que nos resta. Suspiro.

Hopper despertando histórias

É com prazer que informo fazer parte dessa galera de escritores que compõe o projeto Roteiro imaginário…

Baseado em telas de Edward Hopper, cada autor recebeu a imagem da tela e, através dela, teceu sua história.

O livro está lindo com o projeto gráfico de Lunna Guedes, mais um coletivo de peso para ler, apreciar as paisagens urbanas e humanas de Hopper e mergulhar nas histórias.

A tela que recebi Le pont des arts, Hopper tinha apenas 24 anos quando a pintou em 1907. Um de seus primeiros trabalhos.

Abaixo, um petisco de meu texto para você apreciar.

Participam desse coletivo:

Esse livro, lançamento de setembro, faz parte do Clube por assinatura Scenarium 8.