Lado B

Sabe aquele instante em que você põe tudo a perder ao se deparar com a ignorância de um interlocutor? Quando vem à tona sua característica primitiva e, quando menos espera, bota suas presas e garras de fora ansiando para destroçar o inimigo?

Pois é…Passei por uma situação dessas. Claro que toda essa introdução é mera ilustração. Não deixei vir à superfície o lado B Roselístico, no entanto, deixei-me envolver pela energia negra da criatura que chegou até mim disposta a uma boa briga. E eu, desarmada que estava, entrei no clima. E que clima!

Quem trabalha com o público sabe que nem todo dia são flores perfumadas. As pessoas descontam em você toda raiva e frustração que sentem na vida. Quem estiver mais perto, serve de alvo para suas disparadas. No passado já enfrentei coisas bem difíceis.

Acredito que a arrogância seja o pior traço de uma personalidade até mesmo porque, engloba outros defeitos como discriminação, preconceito, racismo, sentimento de superioridade , desdém.

No mundo que circulo, convivo diariamente com ela. Já presenciei cada situação! Nunca me curvei aos ataques para me sentir inferior. Nesse quesito, sou bem resolvida e reconheço meu valor. Nunca me senti menos. Nem mais.

Quando me deparo com pessoa arrogante, chego a ficar com pena pois é visível sua infelicidade. Daí o ataque que, temporariamente, a faz sentir-se melhor. Pelo olhar endurecido e fuças dilatadas além do suor que emana ferocidade, dá para reconhecer pessoas desse quilate.

Hoje, acredito, para infelicidade de ambas, travei um embate delicado e chato com uma mulher que, se pudesse, teria atacado minha jugular. Gritou e disparou sua ira em mim feito uma PK nas mãos de um terrorista. Fui alvejada por todos os lados e, claro, para me defender, agi sem pensar. Resultado: joguei merda no ventilador.

Caro leitor, desculpe meu palavreado chulo mas não tem outra coisa para dizer a não ser isso mesmo. Pega de surpresa,  irritei-me com a pobre senhora rica.

Logo eu, que costumo ser a Zen do pedaço. Sempre com um sorriso nos lábios e uma leveza no olhar.

Mais triste fiquei ao reconhecer que ainda tenho um longo percurso a percorrer no caminho da evolução. Ainda sou Terra. Minha essência é primitiva e animalesca e mesmo com todo verniz social, ainda sei grunhir e esfolar quem atravessa meu caminho.

Não sei quanto a tal senhora. Na realidade, acredito que deve ter dormido à noite o sono dos “justos” injustiçados achando que foi a grande vítima. Da minha parte, permaneci insone lamentando o ocorrido e pensando no quanto, muitas vez, vale mais a pena ser ignorante e não ter consciência de seus atos. Sofre-se menos.

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Poeminha amargo

Obscuro(antismo)

Paisagem

nebulosa

situação

vergonhosa

essa nossa

real(idade)

Sem direitos

só defeitos

sem moral

nem local

para viver

comer

trabalhar

morrer.

Esse é o país que

(não) deu certo!

Sigamos a procissão

Só nos resta orar

lamentar

vigiar

expurgar

a culpa

por não lutar

não se informar

não se responsabilizar

não

lutar,

lutar,

lutar…

rá tá tá tá Búm!!

calou Anderson,

tombou Marielle

se desfez Josés,

sumiu Amarildo,

anônimos

Esfacelou sonhos

esperanças

alegrias

carnavais

Caiu a máscara!

Amordaçaram a Bela

restou apenas a

Fera.

Esconde que ela vem aí!!!!!! 

 

 

Visita inesperada

kinder ovoSeu assovio característico adentrou a janela e se instalou em cada célula de meu corpo que até então, encontrava-se anestesiado. Alerta geral.
Abaixei o volume da televisão e fiquei atenta. Ouvi novamente. Levantei de um salto único esquecendo as dores da fibromialgia e abri a janela. Olhei de um lado, de outro, até que o som chegou até mim revelando seu dono.
Do outro lado da calçada, equilibrado numa bicicleta, você sorrindo me olhava. E acenou fazendo mímica para abrir o portão do prédio para subir.
O misto de emoções que me assolou causou uma paralisia temporária. Não conseguia sair do lugar nem mover nenhum músculo. Só queria eternizar aquele momento te vendo de novo.
Tão lindo e sorridente como sempre. Pediu mais uma vez para abrir o portão e correndo para o interfone, acionei o dispositivo.
Tomada pela ansiedade do reencontro não esperado, destravei a tranca da porta e – de portas abertas -, olhava os andares que o elevador anunciava passar.
Impasse. O elevador parou e ninguém saiu. Aguardei com o coração descompassado. Silêncio. A luz cansada, apagou-se. Assim como minha esperança. Retornei e fechei a porta pensando no absurdo de tudo. Ao girar a chave, a campainha tocou.
Fiquei de respiração suspensa. Aguardei um segundo até a campainha soar pela segunda vez.
Abri. Do nada você surgiu à minha frente mantendo o sorriso tão amado e com olhos brilhantes de emoção. Assim como eu. Avançou em minha direção envolvendo-me num abraço apertado, quente. Exatamente como na nossa despedida.
Ficamos assim por um tempo que não sei precisar. Choramos em silêncio. Palavras eram desnecessárias e jamais traduziriam o que sentíamos.
Fiz sinal para sentarmos e vendo você se desvencilhar de mim e seguir para o sofá, te observei por trás. Não mudou nada!
– Sua bike?
– Deixei na portaria. Não pretendo nem posso demorar.
-Ah!…
– Estranho você aparecer assim, do nada, sem avisar…
– É. Resolvi assim, de última hora. Fiz mal? Desculpa…
– Não não…. Sem problemas. É que fui pega de surpresa mesmo.
Um silêncio tomou conta da sala e ambos, de olhos baixos não conseguíamos falar.
Vencendo a inibição do momento, você olhou para a TV ligada e disse:
-Ah! Está assistindo essa série. Legal. É divertida.
– É. Estou gostando. Tinha até me esquecido mas retomei essa semana. Começou a terceira temporada. Será que eles alcançam o céu? E será que realmente o céu é um Bom lugar? Tenho minhas dúvidas.
– Eu também. Se quer saber minha opinião. Mas é uma série divertida. Vale por isso.
– Senti saudades…
– Eu também. Muita.
– Sofri com sua ausência…
– Eu também. Acredite. Ainda sofro por isso te procurei.
– brigada…
– Quero que leve sua vida de boa. Não se prenda ao passado. O que passou, passou.
– Fácil falar…
– Sei… Mas é preciso. Eu também tenho de me esforçar ao máximo para vencer a tristeza que muitas vezes bati aqui óh! Cessabeonde.
– Sei… Desculpa se foquei apenas em mim e não vi o que estava escancarado na minha cara. Poderia ter sido diferente
– Não. Não poderia. Tenha certeza disso. Precisava partir. Mesmo não querendo, precisava. Não tem de sentir culpa alguma. Esse foi um dos motivos para essa minha visita.
– Ah é? E qual é o outro motivo além desse?
– Pura saudade de nossas conversas.
– Entendo. Também sinto.
– E também sinto falta de nossas experiências gastronômicas. Nunca mais fiz aquela massa ao molho pesti. Bom né? E você? Continua gostando e fazendo?
– Sim. Adoro massas. Sigo em frente fazendo minhas receitas. Com a diferença que agora, como sozinha…
-É.



-Preciso ir. Não posso demorar muito.
– Não. Não vá.
– Gostaria de ficar mais. Não posso. Por favor, não chore. Nunca mais. Foi por isso também que vim. Para pedir que não chore mais por mim. Acredite: estou bem. Tenho crescido, conhecido pessoas, aprendido ofícios novos. Nunca imaginei isso. Promete não chorar mais?
– Não me peça pra te esquecer. Não consigo.
– Não estou pedindo para me esquecer. Nem quero que isso aconteça. Só não quero que sofra.
– Vou tentar
– Tente. É importante para mim.
– Está bem. Vai me visitar de novo?
– Não. Não voltarei mais aqui.



– Por favor, não torne tudo mais difícil do que já é
– esculpa
– Te amo. Vou te amar sempre. Pra eternidade.
– Eu também.
– Já vou. Fica bem. Por favor, fica bem. Seja feliz.
– Seja feliz também e se, precisar, conta sempre comigo. Sabe que pode contar né?
– Oh se sei! Te amo! Te amo! Te amo! Fui!
– Espere! Vou te acompanhar até a portaria.
– Não. Você fica aqui. Não torne tudo mais difícil do que já é.
– Deixa eu ficar um pouco mais em sua companhia.
– Não. Desculpe, mas será pior. Para nós dois. Fica!

O barulho de uma porta batendo forte me despertou assustada. No escuro do quarto, compreendi que tudo não passou de um sonho. Um lindo sonho. Ao acender a luz e sentar, percebo um objeto depositado aos pés da cama. Toco e reconheço: um kinder ovo! Você sempre gostou. Desde bebê.
Confusa, levanto-me e percorro os metros quadrados de minha quitinete em busca de algo que possa explicar o surgimento desse brinquedo afinal, não recebi ninguém aqui esses dias. Muito menos uma criança. Ao abri-lo, junto ao brinquedo, cai um papel enrolado com a seguinte mensagem: Nunca duvide do impossível. O amor tudo pode.

 

Esse texto brotou da saudade que sinto do meu “Menino Maluquinho”. Hoje faria 24 anos. Saudade sem fim mas com paz no coração e um agradecimento eterno por ter convivido comigo por 23 anos de muita parceria e afinidade. Grata pelo kinder ovo que deixou de lembrança para mim em sua última visita. Guardo como tesouro nosso.

Imagem: Google

 

Salamandrei

Nunca gostei de retrospectivas. Para mim, o que passou, passou. Mesmo que tenha sido bom, não vale a pena ver de novo. Quem gosta disso é a Globo. Eu não.

Contudo, até como forma de retomar a escrita que anda bem parada, decidi escrever e discorrer sobre o ano de 2017. Nunca fui pessimista. Costumo ser até um pouco otária de tanto exalar otimismo. É minha filosofia de vida. Ninguém precisa concordar. Cada um, cada um. Também não é costume meu chorar fracassos e percalços.

Mas devo confessar que esse ano foi um ano de provação pessoal. Fui posta à prova em diversos setores. Quase fui reprovada nessa matéria. Ainda bem que na vida real, não existe isso caso contrário, repetir o ano de 2017 seria penalização máxima que – com certeza – me faria desistir. Sentir-se na corda bamba atravessando um precipício a querer lhe engolir, não costuma ser uma sensação agradável. Percorri o ano pisando numa linha invisível que a todo momento balançava e me trazia um sentimento de pânico. E a quem recorrer quando – de repente – sua confiança não encontra moradia em ninguém? Nem mesmo naqueles que tanto confiou?

Alguns podem achar que seja loucura minha. E eu digo: pode até ser afinal, quem hoje não tem pelo menos um fio de neurose? Encontro-me na normalidade.

Minha zona de conforto perdeu  a estabilidade que até então mantinha-me segura. Minhas placas tectônicas moveram-se de forma transloucadas fazendo-me cair diversas vezes. Estou cheia de escoriações físicas e também na alma. O corpo, tratei de passar muito cataflan e bolsa de gelo. E na alma? O que devo aplicar para sanar as dores?

Muita respiração pausada. Muito mantra. Muito vinho para amaciar a carne e entorpecer as emoções. Muito hare khrisna, muito tambor batido. Contudo, o que mais tenho necessitado é de amor. A começar por mim mesma a se enternecer pelos cacos espalhados no chão após o vendaval. Mesmo em pedaços, essa sou eu que teimo em seguir adiante. E sigo tentando ser como a salamandra regenerando minhas partes danificadas.

Hoje, quase um ano, acredito que assimilei parte do aprendizado. Quase refeita, consigo andar de cabeça erguida e só fraquejo quando estou só. Até voltei a sorrir. Outro dia, chegando em meu apartamento, notei que meu vaso de violeta floriu. Fui tomada por uma alegria tão grande que lágrimas me fizeram companhia. O bom é que dessa vez foram lágrimas de alegria. E assim, volto a reconhecer a riqueza da vida. Hora sangramos diante de perdas e tristezas. Hora lacrimejamos de felicidade e assim, através das pequenas coisas que nos acontece no dia a dia, celebramos a graça de estarmos vivos.

E eu, que iniciei esse texto mergulhada na melancolia, termino com o coração palpitando ao som de Freddie Mercury : Show must go on!

Aceitação

mulher escrevendo2

Escrever. Há meses não consigo sentar e desenvolver nada que preste. Um vazio repleto de vozes díspares tomam conta de meu interior e esse barulho interno me impede a escrita.

Trago tantas histórias dentro de mim porém, nada se concretiza. Nada me agrada.

Aquela vontade que tinha em publicar algo só meu, dissipou como tantos outros sonhos não realizados. Não é amargor que trago comigo. Talvez, uma conscientização de que nada nesse mundo valha a pena se for apenas para lustrar nosso ego.

Para mim, escrever não significa – após a labuta com as letras e histórias -, brilhar na passarela das livrarias e bares para lançamentos fúteis cheios de pessoas mais vazias que eu, que satisfazem sua autoestima fingindo-se bem sucedidas nas letras. Nada contra se você se contenta com isso. Não eu. Detesto esse teatro pobre. Ando preferindo a vida real a essas encenações canastronas. Também não tenho mais idade para brincar ou fingir ser. Entrei na caminhada de ou é, ou não é.

E tive uma prova disso tudo, durante minhas viagens em férias. O contato com pessoas simples e verdadeiras em sua essência, despertou meu desejo de mergulhar fundo na alma humana.

Conheci seres encantadores, de sorriso fácil, que não temem o olho no olho. Aliás, essa foi uma das características que observei em todos.

A religiosidade levada a sério também me tocou de forma profunda. Eu, que no passado cheguei a ser grande seguidora e trabalhadora da espiritualidade mas, que depois, fui seduzida e sugada pela carreira acadêmica e carreira. Acabei por me afastar de tudo, inclusive de mim mesma. Por anos, fingi e acreditei ser aquela personagem criada: uma mulher bem sucedida, moderna, independente, que sabe o que quer. Sou isso tudo sem dúvida, mas sou muito mais. E esse mais, ando descobrindo aos poucos. Ao vivenciar de perto a finitude da vida, tornei-me mais obstinada em viver intensamente meu dia a dia.

Contudo, mesmo tendo a certeza de que não nasci para esse ofício, sinto uma necessidade que impera sobre o bom senso pegando-me pelas mãos e fazendo sentar e escrever. Dedos e mente nervosos em traduzir o que se passa aqui dentro dessa caixa craniana. Só me resta obedecer. Mesmo que contrarie minha convicção de nunca mais fazer isso. Talvez seja meu vício. Minha fraqueza e minha melhor parte.

 

Imagem: pxhere

5.5

roseli tintin

Enquanto mastigo um pão de queijo e tomo um gole de café, faço uma retrospectiva de minha vida. Não sou dada a esse tipo de coisa mas hoje, em especial, senti esse ímpeto bater forte e parei para refletir.

5.5

Não é sempre que viramos o calendário e damos de frente com esse número. Esboço um sorriso ao lembrar que inferno passei ao me aproximar dos cinquenta. Sofri, chorei, praguejei, lamentei. Sentia que perdia algo de muito valor deixando para trás uma juventude que, na realidade nem aproveitei direito. Não plantei uma árvore, não casei, não tive filhos e também, não publiquei um livro. Pelo menos, não do jeito comercial e tradicional. Tinha tudo para cavar uma bela de uma frustração por tantos sonhos não realizados. Mas quer saber? Após a passagem da menopausa onde todo ritual e simbologia feminina escoou pelo ralo do tempo humano, pouco a pouco percebi que nada disso tinha importância. Observei que nem toda árvore plantada vinga e dá frutos. Confirmei que nem todo casamento é feliz. Aliás, vamos combinar, noventa e nove por cento dos relacionamentos, se resistiram foi por insistência do casal, falta de perspectiva em recomeçar vida nova, preguiça, conformismo e, em alguns bem raros casos, por amor e cumplicidade. Analisei e mais uma vez tive a certeza de que filho, é lindo em fotos retocadas mas, que no dia a dia, é uma eterna guerra para se moldar, criar, transformar uma mera massa de carne, ossos, artérias e cérebro em algo que dê certo. Caso contrário, será um fiasco a mais competindo com tantos outros seres humanos mal formados, desinformados e alienados como vemos diariamente atravessando nosso caminho. Ah! E também tem mais essa confirmação: filho nenhum é certeza de companhia, amor e carinho além de cuidados em nossa decrepitude.

Calma leitor! Não se desespere achando de antemão que me transformei num poço de azedume.

A vida me ensinou que devemos constantemente desenvolver um plano B para tudo. E eu, claro, sendo uma típica canceriana, sempre fui excelente estrategista. Não somente desenvolvi plano B mas o abecedário completo. Gosto de me sentir segura.

Aprendi desde cedo a enxergar a beleza de tudo. Isso não me transformou numa idiota que sorri a toa mas sim, numa pessoa que aposta sempre no melhor. No bom. No acertado. Mas também aprendi e aprendo muito com o erro. Ah! Esse é um grande mestre! Apesar da melancolia ser um traço marcante em mim, tomo cuidados para não transformá-lo num todo. Mergulho de vez em quando para retornar com ideias e personagens para minhas histórias. Procuro sempre cerrar a porta para que ela não saia de vez e tome conta de minha existência. Em doses homeopáticas, é de uma grandeza e serventia única para lembrarmos que somos seres humanos, frágeis e sensíveis. Ela, numa overdose, pode ser fatal.

Hoje, aqui, sentada de frente a tela do notebook, dou graças pela vida. Essa preciosidade. Conquistei coisas importantes em minha vida. Algumas materiais outras tantas ricas numa cifra diferente, mas que representa a minha real fortuna. Amar e ser amada por pessoas muito queridas. Amar sem amarras nem cobranças sabendo que tudo por aqui é passageiro e nada nos pertence de fato. Ao assimilarmos esse ensinamento, aprendemos a viver de forma mais leve, mais solta e com isso, alcançamos um pouquinho da tal sonhada e tão discutida felicidade.

5.5

Meio século e um cadinho mais percorrido. Isso nos dá um parâmetro do que foi nossas vidas e do quanto ainda teremos pela frente ou não, afinal, não sabemos a data de nossa validade não é mesmo?

Ontem à noite, saí para jantar com um amigo/irmão para comemorar antecipadamente meu aniversário. Fomos a um restaurante tailandês que há muito tínhamos vontade de conhecer. Foi uma opção acertada! Unir a arte de comer bem, a um bate-papo saudável e com quem se tem afinidades, é um prazer incrível que todo canceriano aprecia. Essa junção é alimento para a alma. Conversamos sobre trabalho, relacionamentos, vida e sobre nossa amizade de décadas. Voltei para casa de alma leve e radiante!

Amanhã, ao despertar e conscientizar-me da virada no calendário, sorrirei e elevarei meu pensamento em agradecimento por mais um ano de vida. Agradecer primeiramente aos meus pais que me geraram e me formaram esse ser que – se não perfeito – pelo menos em eterna construção. Obrigada Walter e Ilda pelo amor em me criar da melhor forma que puderam com seus valores. Obrigada Vida! Obrigada Deus ou quem quer que seja que criou esse Universo pleno de possibilidades e aprendizado! Obrigada a todos que foram e são meus mestres nessa caminhada terrena.

A vida anda uma merda em todos os sentidos: políticos, econômicos, sociais mas, quer saber? O meu lema segue o que diz aquela canção de Claudio Zoli: Viver é bom demais!!!

E seguirei enquanto  me for permitido. Sorrindo, cantando, chorando, espalhando alegrias. Feliz aniversário Roseli! Tin-Tin!

Contato com um dragão no paraíso: missiva

cartas caio

Caríssimo C.F.A.,

São Paulo acordou envolta numa neblina que me fez lembrar sua região. Quando mais jovem, adorava esse clima frio afinal, nasci nesse período. Junho, mês de festividades, procissão, fogueira de São João. O Santo do meu dia de nascimento. Sabia que meu nome era pra ser Joanina, como reza a tradição de quem nasce nessa data? Ainda bem que meus pais tiveram outra ideia para me nominar. Gosto da sonoridade de meu nome. Nada contra porém, meu nome tem tudo a ver com minha personalidade.

Despertei pensando em você. Olha só que coisa! Tomei meu café e saí munida de casaco de lã, cachecol e luva. Coloquei também uma boina porque o vento está de lascar.

Saí caminhando pela Rêgo Freitas, atravessei a praça Roosevelt, entrei na rua Augusta. Minha intenção era chegar à Avenida Paulista. Caminhando lentamente lembrei que você costumava circular por aqui. Gostava de caminhar. Lembra? Dizia que caminhar te ajudava a pensar e desenvolver suas histórias. Também sou assim.

C., ando muito introspectiva. Talvez devido a idade, excesso de sensibilidade, tenho sentido certo receio – se é que posso chamar assim – de sair às ruas, de circular como fazia antes. Pode parecer papo saudosista, mas, antigamente era mais prazeroso sair à noite, andar pelas ruas, entrar nos locais públicos. Antes, saíamos para ver gente e – claro – ser vista por eles também. Atualmente, transformamo-nos em zumbis tecnológicos.

A “night” continua a mesma. Ferve. A diferença é que as pessoas não se encontram interessadas no ser humano ao lado e sim, nos likes que poderá ganhar em suas redes sociais. Só se preocupam com seus selfies. Aquele lance de sair e paquerar que tanto gostávamos de fazer quando jovens, deixou de ter importância nessa sociedade que privilegia o virtual em detrimento do real. Tenho certeza que, se aqui estivesse, ficaria indignado. Eu estou! O prazer que tínhamos em marcar encontros nos lugares badalados para conversar, se confraternizar, paquerar, não existe mais. É sério! Não estou inventando. Nas redes sociais temos centenas de amigos, porém, quando chamamos as pessoas para um encontro real, todos concordam e, conforme vai chegando o dia, vão comparecendo cheios de desculpas esfarrapadas. Ah! E os poucos que comparecem, dão mais atenção aos seus smartphones na mesa do que ao seu interlocutor ao lado. Broxante!

C., definitivamente estou encalhada feito baleia jubarte na praia. Não consigo me interessar por ninguém e ninguém se interessa por mim. Passei do ponto, tornei-me seletiva e chata. Sinais dos anos. Algumas vezes, quando bate certa solidão, penso em sair e conhecer pessoas mas… Quer saber? Bate uma preguiça! Então conto até dez, abro uma garrafa de vinho, encho uma taça, coloco uma seleção de Inger Marie Gundersen no Spotify, pego um bom livro e ponho pra correr a tal da solidão. Só sinto falta mesmo é de nossa amizade que, infelizmente não aconteceu.

Se tivéssemos nos conhecido, nossa amizade seria como a que tenho com R.P. Amigo-irmão que está ao meu lado há pelo menos vinte anos. Vou te contar uma coisa: se você tivesse tido oportunidade de conhecê-lo, também teria caído de paixão pela pessoa linda que ele é. Formaríamos uma tríade. Uau!! Teria sido massa!

Querido C., acredito que por conta da aproximação de meu aniversário, ando mais melancólica que nunca. Abro-me com você porque sei que de melancolia você entende como ninguém. Sei lá, a idade avançando, a juventude se esvaindo, as rugas e as pelancas se acentuando… Não ri não que isso é sério! Ai meu Deus! Olha só o que escrevo para você! Devo de estar mesmo muito doidona. Não ria! Sei que do outro lado você deve estar se divertindo com minha desgraça mundana. Quer saber? Também acho graça. Choro e rio ao mesmo tempo por saber que você não teve a chance de envelhecer feito eu. Cara, você foi embora muito cedo! Essa vida é mesmo muito injusta. Que merda! Estou deprimida novamente. Nem posso culpar os hormônios como fazia antes. Até eles me abandonaram. Foram-se assim como a melanina de meus cabelos que agora se encontram brancos feito flocos de neve. Mas…Sabe que gostei deles assim? Fiquei cool! Sempre gostei desse termo: Cool.

Ah! Outro dia, sabe quem encontrei? Sua amiga Marcia Denser. Nossa! Conversei bastante com ela sobre literatura e sobre você. Sua orelha não ardeu? Falamos muito viu! Ela confessou que também sente demais sua falta.

Retornei ao meu apê e estou aqui, sentada de frente a janela do décimo andar observando a paisagem urbana de prédios e carros que passam sem cessar. Interessante, ao longe ouço um som de britadeira, buzinas, e outros sons que não consigo identificar. No entanto, a paisagem parece estática apesar de toda movimentação. E eu, aqui presa em mim mesma e nessa inquietação que não consigo identificar muito menos eliminar. Veja bem meu querido, não estou infeliz, contudo, também não me encontro em paz. O que será? Estarei com problemas psíquicos? Não desejo falar com ninguém. Lembrei  de quando pequena, às vezes tinha a sensação de que diminua, diminua até virar um nano grão no universo. Era uma sensação – ao mesmo tempo curiosa, mas que me dava temor de ir até o fim.

Ah! Voltei a reler seu livro Os dragões não conhecem o paraíso. Não canso de ler esse livro cara. Até baixei ele em meu note. Pela enésima vez me emociono diante da beleza do conto A beira do mar aberto. Cara! O que é esse conto? Mexe com minhas entranhas. Puta que o pariu! Falando nesse livro, sabia que fui apresentada à sua obra através de meu amigo R.P. (ele novamente), que me brindou com seu conto Os sapatinhos vermelhos. Diz ele que sentiu que esse conto bateria fundo em mim. E acertou!

Tinha muito mais a falar para você, mas, vou parando por aqui para não me tornar excessivamente carente e chata. Sabia que sou espírita? Pois é, sou. Muitas pessoas se admiram quando ficam sabendo desse meu lado espiritual uma vez que – escritor que se prese – deve ser ateu/atoa/existencialista. Só posso adiantar que sou tudo isso e muito mais. Você bem sabe que somos uma somatória de facetas. Para escrever temos de ser muitos, vários, jamais rasos. E sem medo de mergulhar. Mesmo que não se saiba nadar. Feito eu.

C., perdoe-me se fui extensa nessas linhas. Tenho uma coleção Britânica de assuntos que gostaria de trocar com você. Veja bem: sei que a vida continua desse outro lado. Sei também que tudo é infinito mesmo que a finitude seja nossa estação final. Um dia, se o Todo Poderoso permitir, quero sentar de frente a você e, sorrindo e abaixando o olhar de timidez inicial, começar nosso papo dizendo:

-Oi C., finalmente estamos tête-a-tête para oficializar aquilo que já estava decretado  por um Ser Superior Maior. Obrigada por me esperar. Trago muitas notícias da Terra. Tem um tempinho para me ouvir?

Olhando-me com seus olhos graúdos e devoradores me responderá:

-Guria, tenho todo o tempo do universo. Desembucha!

E juntos cairemos numa risada sem fim.

Anoitece em Sampa e a realidade grita por minha atenção.  Paro desejando esticar mais um bocado.

Tenha um resto de eternidade de muita paz e – faz um favor – , quando cruzar com Cazuza diz que também aguardo um dedo de prosa com ele . Ah! Favor nº2: caso trombe com meu Menino Maluquinho circulando de longboard por aí, diga-lhe que tia Lilica o ama eternamente e pra ele se comportar enquanto não chego. E que sinto saudades de suas aventuras na cozinha me preparando una pasta al pesto.

Com amor e carinho,

Roseli

 

Imagem: Google

Presságio

Protegida da chuva

pelo alpendre – em seu terraço,

a dama observa

Pedestres passam apressados

numa única leva

Zumbis

Ninguém a vê. Nem mesmo

a equipe da TV – que ali,

grava pegadinhas para

programa de humor

A dama, que a tudo observa,

deixa uma sombra baixar

em seu sereno olhar

– por hora, preocupante

Sabe que em breve tudo mudará

O perigo se aproxima

não tardará

para que vidas inocentes

– crianças e idosos perecerão

E não haverá rima possível

que combine com esse final

O embate, somente ela sabe,

será mortal.

 

Maturação

pilatesroseli

Observar a juventude se esvaindo

Manter a mente e espírito jovem

Não  infantilizada

Remoçada nas linhas de raciocínio

Ar refrescado por novos aprendizados,

experiências, vivências

Permitir-se.

Envelhecer é voltar as costas ao novo

ao não testado.

Envelhecer, é voltar-se para dentro das entranhas

e nela – deixar-se apodrecer pela inércia

Percebo meu corpo perdendo a

elasssssssticidade

A derme ganha dia a dia flacidez

Luto para manter a postura reta

envergar, somente a alma para alcançar o inalcançável

Pilates, Yoga, meditação, alimentação natural

Num mundo de industrializados, mantenho meu

foco na terra, no adubo, na criação da natureza

Essa é a verdadeira beleza!

Hidrato a pele e, em contrapartida,

ela ganha manchas senis

Teimosas, desejam demarcar território

provando que muito vivi