Curiosidades literárias

O que dizer sobre minha vida literária? Alguns dirão que – assim como minha vida -, é uma bagunça. Outros, com certeza enxergarão riqueza e diversidade.

O que posso garantir, é que não consigo viver sem um livro sendo desvendado. Talvez seja uma Voyeur que ama espiar janelas e se deleitar com o cotidiano dos outros. Ler um livro é bem isso. Entrar sem pedir licença na história de pessoas fictícias que bem poderiam ser nossos familiares, vizinhos, conhecidos. É como ver a porta encostada e entrar sorrateiramente. Fazer um tour pela casa alheia observando hábitos, costumes, ouvir conversas íntimas, descobrir que usam tal marca de dentifrício e sabonete. Esse pensamento me remete a uma história de um dos contos do livro de Haruki Murakami: Homens sem mulheres. Aliás, esse é um de meus autores preferidos.

Faço leitura de quase tudo o que cai em minhas mãos. Quase tudo, pois também carrego alguns preconceitos. Não leio autoajuda muito menos romance tipo Sabrina ou Nora Roberts. Explico: quer me ganhar como leitora? Surpreenda-me. Detesto histórias previsíveis. Se após alguns capítulos já consigo sacar o final, esquece. Fecho o livro e perco todo interesse. Ah! Tem algo mais importante do que me surpreender: Escreva bem.

Um texto bem escrito, bem estruturado, envolve e dá um prazer incrível em mergulhar em suas linhas. Exemplo trago muitos mas posso indicar qualquer obra do escritor Josué Montello.

Ouço ecos: QUEMM???

Pois é amigos leitores, sempre que verbalizo alguns nomes da nossa tão desvalorizada e rica Literatura Brasileira, ouço essa frase. E muito me entristece saber que nossos escritores tão talentosos são desvalorizados por nós mesmos. Trabalhando em bibliotecas há quase trinta anos, abracei essa causa e sempre divulgo e tento sensibilizar meus usuários para se permitir conhecer as obras nacionais. Nomes conhecidos como o próprio Montello, Guimarães Rosa, Carlos Heitor Cony, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Rubem Fonseca, José Lins do Rego, Érico Verissimo e tantos outros. Não dá para citar todos. O espaço seria pequeno apesar de infinito.

Contudo, minha vida literária tem muito mais. Lembro que em meados de 1995, quando era recém contratada do Colégio onde ainda me encontro trabalhando, minha primeira leitura de impacto foi a saga As brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley. Fiquei meses impactada pelos personagens e roteiro das histórias vividas pelo rei Artur e seus cavaleiros. A seguir, a saga de Penélope Keeling me absorveu por completo através da narrativa cativante de Rosamunde Pilcher. Que história! Que personagem! E por falar em personagem, sou uma perseguidora de personagens femininos fortes, marcantes. A Penélope foi talvez a primeira que descobri mas depois, vieram muitas outras como a serial killer mais conhecida como Beleza Mortal, Gretchen Lowell, do livro Coração partido de Chelsea Cain. Citando personagens de Josué Montello, do livro Uma sombra na parede, nos apresenta duas mulheres Malu e Ariana. Anos mais tarde, tiver o prazer de conhecer outra dupla de deixar marcas para quem lê: Alexandra e Raissa, do livro Lua de papel, de Lunna Guedes. Adoráveis e inesquecíveis!

Outra curiosidade das minhas aventuras literárias é escolher livros que me apresentem lugares e culturas desconhecidas. Conheci o Afeganistão e sua cultura através do belo Mulheres de Cabul, de Harriet Logan, a Índia através do olhar (novamente feminino), de Tilo (personagem) desenvolvido de forma magistral pela escritora Chitra B. Divakaruni. Pude conhecer um pouco da idílica Provence, região da França, pela ótica do inglês Peter Mayle no excelente livro Um ano na Provence, e também do ótimo e mais atual livro A livraria mágica de Paris, a escritora alemã Nina George. Um mergulho numa cultura que nos envolve e nos faz sentir vontade de se aposentar e fixar moradia por lá.

Quem me conhece sabe do quanto aprecio ler e escrever também crônicas. E claro, tenho uma lista enorme de cronistas que nos inspiram através de suas óticas, uma leitura primorosa do cotidiano. Rubem Braga, o mestre dos mestres. Contudo nomes como Moacyr Scliar, Carlos Drummond, Cecília Meireles, Fernando Sabino e entre tantos, o meu amado/idolatrado/salve-salve Caio Fernando Abreu. Ah! Como é bom ler as crônicas desses que citei e tantos outros.

E o que dizer de minhas descobertas na literatura juvenil? Quantas pérolas descobri através de uma ótica voltada para os mais jovens mas , que nem por isso, deixa de ser uma literatura rica e também diversificada. Livros que marcaram minha pré-adolescência e mesmo na fase adulta onde pude ter um contato maior com esse gênero e tive o prazer de ler histórias fascinantes. Exemplo? Muitos… A montanha partida, de Odette de Barros Mott. Foi minha primeira grande aventura juvenil. O gênio do crime, do recente falecido João Carlos Marinho. A saga do menino bruxo Harry Potter me encantou com seu mundo peculiar. O fantástico livro fantasia/juvenil Penumbra, de André Vianco. Marina, do espanhol Carlos Ruiz Zafón.

É com pesar que ponho um término nessa minha postagem. Poderia varar o resto da tarde e adentrar a noite tecendo meus pareceres literários. E as muitas curiosidades que cada leitura trás em si. Só posso dizer com certeza absoluta uma coisa: Ler é fundamental para o entendimento da vida e do ser humano. Ler, abre os olhos da alma para um turbilhão de emoções e percepções que nos abastece para as mais diversas situações. Ler, além de ampliar nosso vocabulário, nos proporciona condições de falar melhor, com mais clareza e nos posiciona num patamar que nos fornece condições e ferramentas para crescermos profissionalmente.

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Escrevente

O mestre disse: Escreva. Todo dia, escreva. Não importa o que aconteça, escreva. Não se deixe levar pelo cansaço, escreva. Mesmo que a tristeza te habite a alma, escreva. Aliás, segundo ele, é na tristeza que costumamos escrever mais e melhor.

Tenho minhas dúvidas…

Ando meio macambúzia. Saltitando de lado, evitando multidões, desejando o silêncio de meu quarto pois, somente lá, consigo dar vasão ao tanto de ruídos que habitam em mim.

De tanto chorar, meus olhos secaram. Dei agora de chorar por dentro. Minha alma transformou-se numa eterna nascente onde escoa de forma incessante, um mar sem fim.

Ninguém notou afinal, sou uma clown profissional e permaneço em estado de graça, sorrindo o tempo inteiro. Todos me acham o máximo! Essa sim sabe viver!

Ah, se soubessem! Sou treva. Pântano escuro onde se ouve coaxo dos inúmeros sapos que engoli no decorrer de minha vida e que hoje, os tenho como inquilinos. Nunca imaginei que me transformaria nessa estátua de sal. Houve tempos coloridos em que calcei meus sapatinhos vermelhos e acreditei que seria feliz para todo o sempre. Quando jovem, imaginava que os contos de fadas tinham final feliz. Meus pés cresceram, os sapatinhos passaram a machucar. Houve tropeços e muitas pedras pelo caminho que descascaram seu verniz. O couro enrijeceu feito minha pele de carcará até que, numa bela tarde de primavera, arrebentaram e tive de prosseguir descalça. Encontrei pela estrada algumas pedras de cal que mesmo queimando as mãos serviu para registrar minhas histórias. Tomei gosto! Hoje, desenvolvi olhos da alma para tudo registrar em forma de narrativas. Sou cronista de minha própria vida e da vida alheia.

Imagem licenciada: Shutterstock

Sem amarras

Um belo dia acordei, olhei pro teto ainda no escuro e decidi: chega dessa essa vida! Não quero mais acordar às seis da manhã, fazer meu café, me trocar, pegar o metrô e chegar ao trabalho todo santo dia fazendo as mesmas coisas. Basta de rotina! Vou zerar essa minha vida burguesa de classe média.

Levanto, vou ao banheiro. Estou prestes a abrir o chuveiro para uma ducha quando paro e decido: se quero realmente mudar, devo começar por aqui.

Pra que banho?

Volto pro quarto, visto um jeans, camiseta velha, coloco o tênis mais surrado que tenho. Começo a escovar meus cabelos e paro.

Fazer o de sempre Malú?

Desgrenho ele todinho. Olho-me no espelho e gosto do que vejo.

Maquiagem? Nem pensar!

Abro o guarda roupa e analiso. Não vou levar nenhum desses terninhos de trabalho. Não vou precisar mesmo! Sapatos de salto agulha?

Nunca mais! Alforria!

Abro as gavetas de lingeries. A primeira só tem conjuntos rendados, pra lá de cavados. Muito sexy.

Não me servem mais.

Chega de bancar Dita von Teese pra marmanjos que só babam pelos nossos orifícios nas terras baixas.

Abro a segunda gaveta e encontro minhas calcinhas de cotton. Brancas e beges. Aquelas que dão arrepios nos mesmos marmanjos. Só que arrepios de horror. Eles as acham horrorosas!

São essas que vou levar.

Numa mochila coloco lingeries básicos, meias soquetes, três camisetas e mais uma calça jeans.

É o suficiente.

Dou uma boa olhada em meu quarto me despedindo. Observo meus inúmeros vidros de perfumes, cremes hidratantes, óleos e sais pra banho.

Não me servem mais.

Ligo o note e redijo uma carta de demissão agradecendo pelos anos de confiança que depositaram em mim, desculpando por sair de forma tão abrupta e impessoal. Como não comparecerei ao escritório para tratar das formalidades que as leis trabalhistas impõem tanto ao contratante quanto a contratada, deixo claro que podem atestar abandono de emprego.

As consequências?

Não me importo.

Aproveito para também escrever uma carta de despedida à todos os conhecidos e familiares, os poucos que ainda mantenho contato. Explico que estou bem, que foi uma decisão sábia apesar de parecer loucura e que em breve mandarei notícias de onde estiver.

A única coisa que levo dessa antiga vida é o note e o celular. Vou radicalizar, mas ainda preciso deles.

Enfio-os na mochila e saio sem olhar para trás.

Fora do prédio sou batizada por uma boa garoa matinal simbolizando meu renascimento. Deixo para trás – o que para muitos -, é status de sucesso e conquistas.

Saio sem rumo certo.

Sigo para a rodoviária do Tietê e lá escolherei um itinerário qualquer. Viverei assim. Um dia por vez. Sem planos, sem compromissos a não ser comigo mesma.

Quero a liberdade plena de escolha. Não importa que elas me tragam dissabores. Fazem parte da vida.

Dessa que por hora optei.

Imagem licenciada: Shutterstock

Mergulho nas úmidas paisagens

Quando soube do lançamento desse livro, fiquei curiosa. Organizado pela também escritora Luciana Iser Setúbal em parceria com o Clube da Escrita para Mulheres e a Editora Penalux, essa reunião de contos se materializou num belo livro.

Foi uma surpresa a cada texto lido. Escritoras que já conheço como Márcia Barbieri – no qual citei um livro numa postagem anterior -, Maria José Silveira, Aline Viana, Nanete Neves, Sonia Nabarrete, a própria Setúbal e Maria Esther Sammarone.  Mas conhecer escritoras novas (pelo menos para mim) e mergulhar em seu estilo literário foi uma feliz atividade. Todas exploraram o universo feminino na fase madura onde a vida sexual já declinou. Contudo, sabemos que continuamos a sentir desejo mesmo que a carne se torne flácida, que as rugas fixem moradia em nossos rostos, que os cabelos se platinem, o desejo e a vontade de atrair o olhar do outro (ou outra) permanece latente. Na realidade o que acontecia até bem pouco tempo, era sufocar o tesão e a vontade de continuar se relacionando porque segundo as convenções sociais, não era de bom tom uma mulher madura sentir “vontades”. Tinha de morrer em vida.

Hoje, o perfil da maioria das mulheres mudou. Assumiram as rédeas de suas vidas e desejos e fazem o que querem, como querem e com quem querem. A mulher atual, mesmo que assuma suas madeixas brancas, não tem mais a postura das avós ou tias do passado. O fato de se cuidar, bancar seus desejos sexuais, fazer suas próprias escolhas ao invés de esperar ser escolhida, faz toda a diferença. Nessa bela antologia, conheci mulheres incríveis (personagens e escritoras) que me transportaram para histórias deliciosas, alegres, otimistas, engraçadas, melancólicas, humanas.

Num momento em que feminicídio tornou-se notícia diária, resgatar a importância da mulher, tornou-se fundamental. Discutir o feminino, urgente. Ler escritoras e saber o que cada uma tem a dizer, mais que necessário. 

Debater os direitos do sexo feminino, suas necessidades físicas, psicológicas, materiais, sentimentais, sempre será matéria a ser discutida. 

Fiquei encantada com o poder literário de todas as escritoras presentes na antologia. É um livro para ser lido por todos. Já aguardo um volume dois.

Lançado pela Editora Penalux, o livro tem um belo tratamento gráfico. Capa do competente Ricardo A. O. Paixão (sou fã). Quem já leu outros livros dessa editora, conhece seus trabalhos. Parabéns a todos os envolvidos nesse belo projeto!

Estátua!

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Ei! Você aí marmanjo que, feito eu, só leva a vida a sério não se permitindo mais parar e brincar.

A vida enrijece o adulto e aos poucos deixamos de fazer coisas lúdicas que amaciam nosso espírito tão judiado pelas preocupações do dia a dia.

Essa semana, reservei três dias para cuidar da saúde. Fazer uma bateria de exames por prevenção. Sabe como é, após os cinquenta não dá pra facilitar.

Exames clínicos, ecocardiograma, urina, rolter e, novidade! Nunca havia feito o tal do Mapa 24h. Meu cardiologista solicitou, achei legal ele se preocupar com meu bem estar e lá fui eu, pela manhã fazer o exame.

Laboratório lotado e aguardo, aguardo, aguardo… Que saco esperar! Aguardo mais um cadinho só para não perder o hábito tão brasileiro que temos. Amavelmente esperei. Sorrindo mansamente quando as funcionárias passavam me ignorando. Sorriso congelado que escondia a louca, desvairada, ensandecida Roseli que dentro do peito, lutava para eu a libertar. No entanto, meu lado civilizado continuava a imperar e aguardei mais um pouquinho.

Senhora Roseli Venancio Pedroso!

Sou eu! Euzinha! Muito bom dia!

Bom dia senhora Roseli, meu nome é Celia e vou explicar direitinho os procedimentos para a implantação do aparelho em seu braço. Preste muita atenção para que não dê problemas e perca 24 horas de exame. Caso contrário, precisaremos marcar novamente e fazer tudo de novo.

Fazendo esse discurso, a amável e dedicada profissional foi preparando meu braço e instalando o aparelho de pressão que ficaria 24 horas ininterruptos comigo, apitando de quinze em quinze minutos me obrigando a parar tudo o que estivesse fazendo e ficando à sua mercê até completar…

Desculpe a interrupção, o aparelho apitou e tive de me paralisar. Então, vocês não sabem o inferno que foi passar a manhã toda com esse treco apitando o tempo todo e me fazendo parar e aguardar sua boa vontade em me dar permissão para respirar e seguir com os afazeres.

Na hora do almoço, enquanto fazia meu prato no bandeijão por kilo, parei a fila de pessoas por conta do apito. Piiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

Desgraça! Ouvi muitos impropérios e piadinhas sem graça.

Estão com pressa? Passem por cima! Que saco!

Atravessando a Avenida Paulista, o maldito aparelho volta a apitar e eu, louquinha atravesso correndo e paro instantaneamente fazendo cara de paisagem. Recebi inúmeros olhares curiosos e, novamente, piadinhas. Velha Louca essa aí hein? (risos) de um grupo de jovens estudantes. A louca aprisionada tenta sair da gaiola novamente mas, mantenho a pose de Bonequinha de Luxo versão Gray, e mirando o horizonte, sigo meu caminho até o trabalho.

Por volta das quinze horas já me encontrava babando de nervoso de tanto Pi!Pi!Pi! quando numa das paradas obrigatórias, lembrei de minha infância e do quanto gostava de brincar de Estátua.

Ah como era bom achar tudo engraçado. Tudo era tão leve e tão bom que nem sabia o que era gastrite. Descendo as escadas que dão acesso a Biblioteca onde trabalho, me conscientizei da importância de não se levar a vida tão a sério. E pensei com meu aparelho de pressão: Que tal transformar essa atividade enfadonha numa brincadeira legal? Topa?

O danado do aparelho parecendo compreender minha proposta maluca, apitou estridente me fazendo cair num riso…

…contido. Percebe que tive de ficar estátua de novo?

A partir desse nosso acordo, o resto das vinte e quatro horas passaram numa enorme brincadeira. Mais gostoso ainda foi contagiar as pessoas ao meu redor que aceitaram fazer parte da brincadeira. Cada vez que o aparelho apitava, eu me paralisava e as pessoas ao meu redor também. Olhos brilhantes, músculos intactos, respiração suspensa. Piiiiiiiiiiiiii!!! Todos caíamos num riso contagiante e assim, cheguei ao término de mais um dia de trabalho que – diferente dos outros -, foi transformado em pura nostalgia de criança onde nós adultos, deixamos por quinze minutos, vir a tona o que fomos no passado: crianças felizes e despreocupadas.

Nada como transformar situações cansativas e enfadonhas em algo lúdico e divertido.

Fundamental alimentar a criança que habita nosso interior.

O quê? Quer saber como terminou? Ah, confesso que não terminou muito bem não afinal, em pleno Valentine Day, tive de dar adeus a quem sabiamente me conquistou. Tive de dizer Goodbye ao aparelhinho Pi, deixando-o solitário aguardando um próximo paciente a utilizá-lo. Sei que ficou triste afinal, nem sempre os humanos entendem a piada e a transforma numa história com final feliz. Fazer o quê não é mesmo?

É seguir em frente e ver se numa próxima esquina alguém desperte esse brilho em nosso olhar e tenha o poder de aquecer o coração.

Happy Valentine’s Day for everyone!

Imagem licenciada: Shutterstock

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Defeito de fábrica

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Não me considero a perfeição em forma de gente. Aliás, estou bem longe disso. No geral, talvez tirando meu geniosinho do cão, sou um bom ser humano. Fui educada para ser cordial com as pessoas, respeitar a todos, fazer o bem sem ver a quem. Tenho um coração imenso que procuro na medida do possível, abraçar a todos que se aproximam de mim…

Mas sofro de um pequeno “defeito de fábrica” e, por conta dele, já entrei em algumas frias. Também já perdi amizades, amores e emprego.

É algo mais forte que minha consciência. Quanto menos espero, pá! Já foi. Aconteceu. E nem sempre dá para consertar. Fazer terapia não foi algo que me beneficiou muito nesse problema. Pelo contrário. Sabe, até por aqui tenho que me policiar para não cair no erro novamente. Só digo uma coisa: não é fácil. É cada saia justa que pelamor!

Quem não me conhece costuma fazer uma leitura errada sobre mim. Certa vez, um paquera – futuro namorado -, disse após algumas saídas que eu não era o que ele imaginou ao me conhecer. Que eu aparentava ser uma mulher frágil, delicada e no convívio, mostrei-me uma leoa e isso o assustou. Achei graça dessa confissão afinal, o rapaz estava assustado de verdade comigo! Segui meu caminho achando que ele havia usado essa desculpa para me descartar. Hoje, sei que realmente devo ter assustado o gajo. Depois dele, muitas outras pessoas se assustaram comigo. Algumas bateram de frente e eu mostrei minhas presas. Outras, tentaram puxar meu tapete. Com isso, aprendi a mergulhar e a dar saltos acrobáticos. Lei da sobrevivência. Com o passar das décadas, hoje, mais vivida e mais malhada pela vida, tenho um olhar desbotado com relação aos humanos. Não sou pessimista contudo, tenho uma ótica realista: o ser humano não evoluirá tão já. Fato!

Passei a usar a conduta que me dá um pouco de conforto e proteção: permanecer em silêncio. Nas últimas semanas tenho me sentido uma autêntica freira carmelita que fez seus votos de silêncio.

Pergunto: como elas aguentavam? Estou quase ficando louca com tanta conversa interior! São tantas Roselis conversando ininterruptamente sobre todos os assuntos tabus daqui do lado de fora que estão me enlouquecendo. Não durmo mais, não descanso, nem escrever consigo. Ler então, algo que me era tão prazeroso, hoje tornou-se castigo. E tudo por quê? Por conta da minha tramela cerrada e dessas vozes internas que não descansam um minuto sequer.

Não sei quanto tempo vou aguentar. Confesso aqui minha fraqueza: assim como o personagem do Luiz Fernando Guimarães que era sincero e não media as consequências do que falava, eu, num proporção menor porém não menos trabalhosa, falo o que penso sem pensar. Deu pra entender ou fui muito confusa? Se fui, é culpa dessas vozes que querem todas falar ao mesmo tempo. Vou respirar fundo e falar de forma bem de-va-gar…

Falo demais. Cursava a terceira série primária, quando recebi o convite e saí escondida com uma colega. Pulamos o muro  e fomos para a casa dela. Passamos a manhã assistindo os desenhos animados e comendo pipoca. Ao sairmos, do outro lado da rua, reconheci meu pai. Outra pessoa em meu lugar sabendo que está fazendo algo errado se esconderia. O que a boca aberta aqui fez? Assoviou e acenou para ele e ainda disse: Oi pai! Quicetafazenoaqui? Nem preciso dizer o final dessa história né? Ah, preciso? Apanhei e fiquei de castigo.

E assim, desde pequena fui atravessando os anos tropeçando na minha língua comprida que não cabe dentro da boca.

Recentemente, aconteceu algo que, se pudesse rebobinar a fita e voltar atrás, juro que faria isso. Minha língua foi mais rápida. O efeito delas chegou mais rápido ainda. Caros leitores, com o perdão da palavra: ME FODI!

Para você que se espantou com meu linguajar, é isso mesmo. O que aconteceu não tem outra palavra  que expresse melhor. E por conta dessa minha língua larga e comprida é que estou aqui, num castigo imposto por mim mesma. Ficar calada por tempo indeterminado pensando: Por que fui falar isso?Por que fui falar isso?Por que fui falar isso?Por que fui falar isso?Por que fui falar isso?Por que fui falar isso?Por que fui falar isso?…

 

Imagem licenciada: Shutterstock

Carta de apresentação

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Testo minha capacidade de continuar escrevendo. E escrevo para manter a lucidez.

Exercito a escrita, gerando força para seguir em frente com a vida. Essa mesma vida que hora está uma beleza, ora pesadelo.

E nesse exato momento, ela se encontra feito roteiro de Bergman. Introspecção total no qual me escondo para não encarar minha mediocridade.

Quisera eu ser uma pessoa genial. Não sou. Vivo meu dia a dia comandada pela mesquinhez, corroída pela falta de amor próprio, inveja e desejo de exterminar metade da população mundial.

Reconhecer a vileza e ignorância das pessoas que me rodeiam, me faz lembrar que não sou diferente delas. E isso acaba comigo. Dia após dia, durmo pensando em acordar uma pessoa melhor.

E sempre desperto sentindo que estou mais miserável, mais hipócrita, mais…

Desesperada por dar um fim a essa maratona desembestada tentando provar que sou melhor. Não. Não sou melhor que ninguém. Também não sou pior. Somente, minha humanidade pura, bruta, ressequida, fala mais alto. Salta aos olhos dos outros que, críticos feito eu, reconhece-se em mim e gera – neles também – , essa revolta que não tem fim.

 

Imagem licenciada Shutterstock

Marcelina – o retorno

Conhece o olhar “Estou farta do mundo”? Não? Então precisa conhecer uma figura que eu conheço. Mon Dieu, que ser é esse? Misto de Sei lá com Não sei o quê. Paizinho do céu você criou cada criatura que acredito que até você duvida.

Aliás, não conheço somente uma criatura dessa safra especial que o Senhor criou. Não! Passaram muitas por minha vida. Uns tenho a (in)felicidade de conviver até hoje. Talvez seja uma provação, ou uma missão,, ou quem sabe, uma provocação sua não é mesmo? Véio safado, o que você gosta mesmo é de ver o circo pegando fogo aqui embaixo.

Eh falta de uma boa Internet aí em cima onde nada acontece. Dá nisso: tédio celestial. Já ouvi as más línguas dizerem que esse é o pior de todos: ad aeternum…

Acredito!

Quem me acompanha já conhece a figura que cito: Marcelina. Fazia tempo que ela andava na surdina, quietinha, vestida com a capa da invisibilidade emprestada do menino Harry Potter. Talvez por influência da Lua cheia, talvez pela mudança da maré, ou quem sabe, por conta da nova (velha) política… Enfim, ela retornou com força total na peruca! Jesus! Que persona! Há momentos que tenho gana dela. Noutros, tenho de segurar a gargalhada para não ficar chato. Pura diversão. É cada careta, cada frase que solta que, como dizem os cristãos: Só Jesus na causa! Misericórdia!

Em breve mais relatos de suas tiradas afinal, o ano está só começando.

Quer conhecer as outras aventuras com a Marcelina? Espia só esses links abaixo:

Deu branco 

Mais uma da Marcelina

Exótica

 

Leitura escondidinha

A leitura faz parte de meu cotidiano há muito tempo e posso dizer que já li praticamente de tudo: de revista de banca de jornal Sabrina, passando por romances mediúnicos, namorando romances best seller como os de Sidney Sheldon e Danielle Steell a livros de filosofia, psicologia, biografias.

Ah claro, li alguns romances eróticos também. Nunca tive problemas em ler em público, contudo, três livros confesso que li na surdida. Bem escondidinho.

O primeiro, foi um clássico de nossa ficção científica do autor que hoje – apesar de esquecido no limbo -, é altamente cultuado pelos amantes do gênero Ficção Científica: André Carneiro.

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O livro Amorquia, eu encontrei por acaso numa liquidação na livraria Nobel da rua Maria Antonia. Fazia faculdade e era caminho. Sempre estava por lá garimpando boas promoções. Algo nesse livro chamou minha atenção e não hesitei. Comprei.

Não conhecia o autor e muito menos a história do livro logo, foi um mergulho noturno no lago negro. Considerada uma utopia-anarco-erótica (palavras de meu mestre Nelson Oliveira), nos apresenta uma sociedade hedonista onde as crianças têm aulas de prática sexual desde cedo e a religião reforça o tempo todo o sentido sagrado do prazer carnal.
A morte e o trabalho foram abolidos assim como o amor, o casamento e a fidelidade. Confesso que página a página lida e virada, um incômodo fez moradia dentro de mim. Não sou puritana, mas a maneira como o sexo é tratado na história me causou mal-estar e passei a ler cada vez mais escondido com medo que despertasse a curiosidade nas pessoas ao meu redor. Apesar de tudo, cheguei ao final do livro e tenho de dizer, fiquei muito satisfeita. Tanto que indiquei sua leitura a várias pessoas e emprestei inúmeras vezes até que simplesmente sumiu. Quero comprar um novo exemplar e fazer uma nova leitura. Atenção esse livro você encontra somente em sebos.

Anos mais tarde, fazendo um curso de criação literária, numa discussão sobre literatura erótica, observei que não havia lido nada. Decidi ler alguns títulos sugeridos pelo professor.

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O livro escolhido foi A história do olho, de Georges Bataille. Não se enganem ao se deparar com um livro de apenas 144 páginas. A história mexe, incomoda, te faz perder o rumo muitas vezes, te dá tesão em outras. O livro me fez refletir sobre os personagens e sua condição humana em busca de se afirmação – seja no sexo e sua descoberta, na vida, na sociedade que tanto nos cobra determinada postura, mas nos afronta e nos oferece outras. Vivemos no fio da navalha entre o politicamente correto e o que nos proporciona prazer.

Ah, mas não parei aí. Recentemente, li uma obra escrita por uma querida escritora com o qual tenho amizade que muito bagunçou minha vida de leitora: o livro?

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A puta, de Marcia Barbieri. Só pelo título já dá o que pensar, mas a escrita mordaz e afiada feito uma lâmina de aço de Márcia, nos incita a seguir com a leitura. Numa linguagem visceral, ela retorce nossas vísceras e nos faz parar e pensar ou simplesmente parar e ficar no vácuo de suas palavras. É, desde que a conheci no curso de criação literária, uma voz que ecoa e que faz diferença nesse mar de mesmice literária atual. E claro, com esse texto, com esse título e capa, confesso que ficava incomodada (mais uma vez essa palavra) em ler em público. Daí, ler escondidinha no escurinho de meu quarto.

Enfim, os três livros de maneira muito diversa, mas abordando o tema sexo, vida, amor, morte, mexeu absurdamente comigo e isso faz deles, três grandes livros afinal, literatura para mim é isso. Tem de mexer e remexer nossas entranhas caso contrário, em nada contribui. E você já leu algum deles? Me conta!

Este post faz parte da postagem coletiva e participam deste projeto os escritores: Lunna Guedes –  Ale Helga – Fernanda Akemi  –Gustavo Barberá – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes – Fernanda Akemi –  Maria Vitória

Caio em mim

O ano de 2018 foi corrido em vários sentidos (profissional, pessoal) e muito profícuo na leitura. Quem me conhece sabe que vivo cercada por livros. Além de bibliotecária, sou amante do objeto livro e sempre leio mais de um por vez. Contudo, ando em falta em comentar sobre tais leituras. Uma decisão tomada nesse início de 2019 é justamente expor minhas impressões sobre as leituras feitas.

Para iniciar, vou falar sobre um livro que chegou a mim através de um dos blogs que sigo por aqui: RUBEM – revista da Crônica

Organizado por Rubem Penz, Caio em mim, é uma homenagem do grupo de escritores do projeto Santa Sede, coordenado pelo próprio Rubem. Quando li a postagem sobre o lançamento desse livro, fiquei bem curiosa, uma vez que sou apaixonada por Caio F. Encomendei o livro e fiquei na espera de sua chegada. Encantada com a beleza gráfica do livro.

Bela capa
Convite à leitura não?
Não é lindo? Olha ele te chamando à leitura

Após apreciar todo o trabalho gráfico, iniciei a leitura da coletânea e confesso, mergulhei toda noite antes de dormir e me emocionei muito a cada crônica terminada. Conhecer a escrita de escritores que não conhecia foi bom demais! Alguns já tinha lido algumas crônicas na página da Rubem porém, conhecer o lado Caio F. de cada um foi uma experiência única. Tenho certeza que todos que participaram desse projeto saiu mais experiente na arte de tecer histórias e criar personagens. Eu, enquanto leitora, saí mexida no bom sentido e com o espírito balançado diante da delicadeza e talento de cada um do grupo Santa Sede. Se você, assim como eu, é amante da escrita de Caio, deve conhecer esse trabalho. Se ainda não conhece, vale do mesmo jeito. Leia! Abaixo, tomei a liberdade de reproduzir um trecho do texto de Rubem Penz que praticamente abre a coletânea:

Se um cronista numa noite de terça-feira…

Suponha que Caio F. chegue à mesa numa terça-feira de 2018. Não se espante: suponha, apenas, que você não esteja só – ao contrário, tenha muita gente em sua companhia. Por fim, suponha que ninguém,você primeiro, estranhe essa chegada aparentemente tão pouco possível para uma noite de terça-feira num bar da Cidade Baixa em Porto Alegre, em que chove uma chuva fina ali na rua, na qual um mendigo sagitariano se esqueça de si e nem cogite lembrar-se de nós.

Dessa forma, assim como se fosse a coisa mais natural do mundo, chame o garçom e faça uma enquete sobre o que oferecer ao recém-chegado. O Felipe, creio, indicará um uísque. Ronaldo, um chope artesanal. Eu, o André e o Gian convidaremos a nos acompanhar na cerveja, ao que o Edgar pulará na frente: pago uma Coruja! Bebendo pelas beiradas, a Ana Luiza e a Patrícia sussurrarão um vinho ao seu ouvido, enquanto Camila dirá ser água a melhor pedida. Gabriel, que tem nome de anjo, um café, quem sabe um chá… Refrigerante parecerá a todos fora de questão – Caio F. não teria vindo de tão distante no tempo para beber água doce.

Não pergunte nada. Deixe as três marias – Isabel, Mercedes e Amélia – suponham que Caio F. trouxe um conto inédito para ler só para elas;…

Gostou do que leu até aqui? Ficou curioso(a)? Então vá atrás, compre o livro assim como eu e se delicie nas crônicas contidas nesse belo livro. Será uma experiência inesquecível! Eu garanto! Quer conhecer mais textos deles? Vá a página da revista.

Em tempo, os autores que participam dessa coletânea: Felipe Basso, Giancarlo Carvalho, Maria Isabel Arbo, Patrícia Franz, André Hofmeister, Maria Amélia Mano, Michele Justo Iost, Gabriel Lesz, Edgar Aristimunho, Maria Mercedes Bendati, Camila Z., Ana Luiza Rizzo, Rubem Penz, Clarice Jahn Ribeiro e Ronaldo Lucena. Com participação de Vitor Melo Ferreira Filho, como Caio F.

Título: Caio em mim

Autor: Vários

Editora: Buqui

Ano: 2018

ISBN: 978-85-8338-434-2

Páginas: 176