Dia de festança no céu e na terra

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Ano de 1968, maio. Mais precisamente dia onze. Ano esse que ficou marcado na história do país e do mundo. Ano de muitas contestações, grandes mudanças de comportamento e cobranças. Enquanto por aqui, estudantes lutavam por melhores condições no ensino e contra uma ditadura que amarrava e amordaçava a liberdade de expressão, na França, a revolta de maio teve como protagonistas, universitários e polícia numa revolta onde imperou a violência. Só para variar. Muitas turbulências na América Latina, Estados Unidos arrasando com o Vietnã. A vida estava uma maravilha! Até parece que não tiramos o pé desse ano de tanta sensação de déjà vu.

No entanto, em plena Maternidade São Paulo, nascia um bebê que marcaria a vida da família que a acolhia. Criança que veio ao mundo sentada e de perninhas moles.

Recebi a chegada desse bebê com alegria achando que havia ganho uma boneca de verdade. Adorava trocar, pentear seus cabelinhos claros e finos feito seda. Da mesma forma que cuidava, tinha uma queda por fazer brincadeiras que a fazia chorar. Tudo só para depois pegá-la no colo e ninar. A vida não foi nada fácil para essa criança. Ela também mostrou-se imbatível diante das adversidades e obstáculos que teve que superar. E superou a todos! Destemida e teimosa. Essa é a perfeita definição para ela. Espírito de heroína, renasceu quantas vezes tornou-se necessário. E sempre se reinventando. Um dos grandes obstáculos em sua vida foi a saúde debilitada. Muitos em seu lugar teriam se entregue à doença e perecido pelo caminho. Não ela. Como uma cientista curiosa, teve seu olhar para a doença com sede de conhecer para combater. E assim, vem se superando a cada investida. Alma de artista, o traço sempre foi extensão de suas mãos talentosas. A arte sempre resgatando-a da doença. Amparando-a nos momentos de dor. Como Frida, transformou sua dor em amor ao próximo e as artes. Feito Khalo, imprime nas telas sua resistência.Incompreendida por muitos, admirada por outros tantos, segue sua vida acreditando no ser humano. E olha que esses humanos aprontaram muito com ela. Muitas pessoas abusaram de sua boa vontade e ingenuidade.

Mas ela segue seu caminho deixando-os de lado, não guardando mágoas nem rancor. Sabe que cada um colhe o que planta. Hoje, a mulher que amadurece mas não perde a ternura da menina, tornou-se motorizada. Anda pela cidade de cadeira elétrica. As rodas tornaram-se extensão de suas pernas. Destemida, não pára diante das mazelas que a cidade – despreparada para recebê-la, lhe apresenta. Com dificuldades, formou-se em Artes Visuais. Apenas um certificado para representar sua arte e talento que dispensa qualquer qualificação. De irmã mais velha, tornei-me sua melhor amiga. Somos grandes parceiras de vida. Somos confidentes e fortaleza uma da outra.

Irmã caçula, filha de coração, companheira de uma vida. Hoje é seu dia de abrir o coração para o Universo e agradecer por tudo e por todos que atravessaram seu caminho. Todos contribuíram para o que você é hoje. Essa é minha homenagem a você menina/mulher/guerreira, por fazer meus dias terem um colorido especial.

Feliz aniversário irmã!

roseli e lirio peteleco

Súplica

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Espera, não vá

O dia não clareou e o galo da vizinha ainda nem cantou

Mantenha-me aquecida

Volte a encostar seu hálito quente em meu pescoço,

relaxe

Sussurre que sou cheirosa e macia

Confesse ao pé do ouvido que valho a pena

Sabes o quanto sou insegura-

Fique!

Ature-me um pouco mais

Sei que exijo sua atenção

Contudo, desdobro-me em muitas para teu prazer

O que fazer?

Anseio por seus toques. Para mim são vitais

Amo os momentos em que nos tornamos

animais

Coreografamos as preliminares

Insanos, nos devotamos, nos doamos,

não importa que para os vizinhos o que falamos

não tenha nexo

Entre galopadas, freios, gemidos e grunhidos

Nosso entendimento se faz

Nossos olhares – dois asteroides que se cruzam

e se reconhecem brilham

intensamente

como recompensa, ganhamos o ápice do prazer-

à dois, apagamos juntos

exaustos, suados, permanecemos colados –

derme contra derme

tal qual estrelas que morrem e continuam

a brilhar no universo sem fim

Assim somos, assim nos amamos, assim

nos encaixamos

Por isso, espera, não vá!

Fique um pouco mais.

Imagem: Pixabay

Blue jeans

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Tédio. Palavra curta com significância profunda. Causa um sabor – ora azedo, ora ácido de algo borrachudo que cresce em nossas bocas do estômago transformando-se num grande incômodo. Sofro de tédio muitas vezes. Agora mesmo. Nesse exato segundo em que escrevo essas linhas, um tédio absurdo toma conta de meu ser. Tento enganá-lo pensando em coisas prazerosas. Procuro lembrar de acontecimentos agradáveis em meu passado. Rememoro os traços de quem amo. Recordo passagens de viagens que fiz. Nada remove essa sensação de inoperância diante da vida. Incomoda o raso das existências alheias que presencio com olhar de voyeur e me questiono se não serei tão rasa quanto eles.

Hoje, pela manhã vindo ao trabalho no ônibus, ouvia Legião ao vivo pelo Spotify. Sorri de forma desencantada ao ouvir Renato Russo dizer, no show ao vivo, que ainda não era a vez do brasileiro ser feliz. Quem sabe daqui um tempo… – dizia ele numa voz firme e ainda esperançosa. É Renato, anos se passaram e ainda não chegou a nossa vez de ser feliz. Ainda não. Talvez nem chegue ou, quem sabe, tenhamos uma ideia errônea e idealizada do que vem a ser felicidade.

A vida, de tão líquida como o filósofo tão bem descreveu, escorreu. Por entre os dedos tortos pelo tempo, tento segurar um pouco dela e ver se ainda resta algum tipo de sentido. Desisto. Deixo pingar a última gota e seco minhas mãos na velha calça jeans.

Sorrio pela segunda vez ao me lembrar de uma canção publicitária tão antiga quanto eu:

Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada…

Se a canção for verdadeira, minha liberdade está me sufocando. Ainda resta essa velha calça jeans que, mesmo após quarenta anos, me serve como da primeira vez que a vesti e saí da loja carregada de sacolas e sonhos.

Os sonhos desbotaram tanto quanto a velha calça jeans. Ela mostrou-se mais resistente que eles que se esgarçaram no passar dos anos. E o tédio, essa epidemia contemporânea, assumiu seu lugar de destaque. Tornou-se companhia constante da velha jovem e seu jeans puído pelo tempo.

Imagem: Unsplash

I give up!

Minha avó materna, dona Maria, apesar de analfabeta sempre foi de uma sabedoria infinita. Dona de um espírito brincalhão, eterna menina, de vez em quando saía com umas tiradas filosóficas de fazer Nietzsche ou Marx ficarem de queixo caído pensando na profundidade de seu pensamento.

Uma de suas pérolas cai como luva para esses tempos tão nebulosos que passamos em Terra Brazilis: Não generalize.

Atravessamos uma turbulência econômica, política e moral como talvez nunca tenhamos passado. Pelo menos que me lembre. Ler as trocas de farpas nas redes sociais é de sentar e chorar. A raiva – pra não dizer ódio, está transformando algo que antes era prazeroso, num ringue de rinha da pior espécie. Confesso que tenho deixado de lado para não acirrar uma úlcera.

Hoje, li um desabafo de uma colega de profissão que é concursada, que me tocou profundamente. De forma delicada porém firme, ela se posicionou diante das pedradas recebidas por pessoas que andam espalhando que servidores públicos são vagabundos.

Eu a conheço. De vagabunda ela não tem absolutamente nada. Casada, mãe de família, escritora, mulher culta e sabedora de seu papel na sociedade. Luta por seus direitos e demais pessoas além de uma luta diária por ser portadora de deficiência física numa cidade, num país onde nunca se olha por esses “especiais”.

Sendo também mulher, trabalhadora desde os treze anos de idade, formada num curso superior com muita dificuldade, defensora dos direitos humanos, sinto-me também ofendida e entristecida em ver o quanto as pessoas se atiram às ofensas a quem nem conhece de forma tão vulgar.

A sociedade está se fragmentando em pseudo-grupos que se olham com animosidade e atiram-se uns aos outros destilando ódio. Uma total insanidade uma vez que, todos estamos no mesmo barco que se afunda. Mas vá tentar fazer entender! Como já disse Taiguara tão bem na letra da música Universo no teu corpo:

Eu desisto! Não existe essa manhã que eu perseguia/Um lugar que me dê trégua ou me sorria/E uma gente que não viva só pra si…

Décadas passaram desde que ele, alma sensível, escreveu essa bela canção. Nunca esteve tão atual!

Voltar

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Voltar àquela casa…

De frente ao portão. O mesmo portão de uma vida inteira. Sólido, retorcido em curvas e linhas. Tal qual nossas vidas. Pintado num azul envelhecido feito casco de velhos navios. Apesar da idade avançada, não continha nenhum ponto de ferrugem. “Coisa boa, de primeira” – diria seu velho avô Pierre, nascido na região Sudoeste da França. Berço da agricultura e do bom vinho.

…Vô Pierre…Quantas lembranças passaram pela mente de Marjorie.

Passando o pesado portão, percorreu o corredor que dava acesso a um novo lance de escadas. Cinco degraus. Quando pequena, gostava de pular um a um sentindo-se vitoriosa quando superando o medo, saltava os cinco de uma vez, aterrizando feito ave no solo de lajotas hidráulicas.

Lembrou de uma queda e do corte profundo no queixo. Mais que a dor física, ela sentiu o peso do olhar de sua mãe, sempre severa em não admitir desobediência. Seu pai, ao contrário. Homem com alma de criança, cairia na gargalhada vendo-a se esborrachar. Sempre gostou de coisa mal feita. Essa era a famosa frase de dona Dulce, mãe de seu pai. Outra mulher aristocrática que não admitia intimidades nem falta de etiquetas.

…Vó Dulce, uma chata e mal amada isso sim! Nunca gostei dela.

Do alto da escada, pôde vislumbrar a porta maciça de jacarandá sempre lustrosa. Visualizou o corredor ao lado que percorria toda a extensão da casa e desembocava na enorme cozinha. Um dos seus lugares favoritos da casa. Aspirou o aroma do forte café que sua avó materna Elisa sempre passava no coador de pano preso a um suporte de ferro fundido. Seu perfume se espalhava por toda casa!

Sentiu ímpeto de correr pelo corredor e cair direto na cozinha, como fazia de pequena. Conteve-se e, respirando fundo para controlar suas emoções, entrou pela porta da sala.

Nada havia mudado! À sua direita, o enorme sofá carmim. No centro, a mesa com sua base talhada cheirando a óleo de peroba repousando no tapete Aubusson. As cadeiras de espaldar alto lhe trouxe lembranças da infância quando tentava com dificuldades, escalar essas maravilhas. Os retratos pintados a óleo de seus avós ainda jovens lhe causou frisson no peito.

Percorreu o corredor que levava aos quartos. O primeiro, de sua tia Aneli. Decoração espartana. Árido feito seu coração. Frio como sua alma. Nem entrou. Recuou e prosseguiu entrando no próximo. O de seus avós. Pôde sentir o perfume do talco de rosas que sua vó usava. Viu sobre a cômoda antiga, a escova de ossos que penteava suas longas madeixas. Gostava de apreciar esse ritual. Viu os enormes grampos de cabelo, pousados ao lado da escova. Percebeu do lado oposto à cômoda, um mancebo de madeira que trazia no alto, o chapéu de feltro de seu avô Pierre. Cinza chumbo.Uma de suas inúmeras camisas xadrez de flanela, encontrava-se displicentemente jogada aos pés da cama. Caminhou pelo quarto fazendo ruídos ao mudar seus passos miúdos na velha tábua do assoalho gasto pelo tempo. Parou. Ouviu vozes abafadas. Abaixou-se no chão e grudou os ouvidos tentando reconhecer as vozes que falavam sem parar. Lembrou-se de que embaixo dos quartos, ficavam os porões da casa. Doces recordações se elevaram no ar, feito fumaça produzida no fogão à lenha. Decidiu parar de explorar as dependências principais da casa . Saindo pelo corredor, desceu ao subsolo onde ficavam os tais porões. Resquícios de suas fantasias de menina. Local mágico, com personagens criados por ela naqueles anos difíceis de sua infância.

Ao ultrapassar a soleira da porta do primeiro porão – o maior dos três, sentiu-se arremessada a Storybrook. Respirou magia por toda parte. Cheiro de coisas eternamente guardadas por gerações. Potes, garrafas, brinquedos, bolas coloridas. Estranhamente repousavam nas prateleiras sem fim como que, esperando o momento de serem úteis na vida de alguém. Remexendo com certo zelo nas caixas, encontrou uma antiga pasta onde guardava seus desenhos. Quanta emoção ao abrir e vê-los intactos. Na adolescência, fora uma desenhista espetacular. Depois, com as cobranças da vida adulta, deixou de lado essa atividade que tanto prazer lhe proporcionava. Abrindo um sorriso “Monalisa”, pensou: Preciso voltar a fazer alguns rabiscos. Acho que não perdi a mão.

Por segundos pensou em levar consigo a pasta. No entanto, sua consciência acusou que deveria deixar lá afinal, ali, era seu lugar. Com certo pesar, repôs na prateleira e seguiu para o segundo porão.

Lá, encontrou diversas ferramentas do seu avô. Algo chamou sua atenção. O velho e querido pilão onde, nas tardes mornas de sua infância, vó Elisa convocava a todos para participar da festa que era moer amendoim até virar paçoca. Formava-se fila de crianças e adultos para a deliciosa farra de socar o amendoim e o açúcar enquanto sua avó puxava a cantoria batendo palmas e arrastando os velhos chinelos. Seus olhos, do brilho intenso da alegria, recebeu um descortinar sombrio ao desviar-se para o objeto ao lado pendurado na parede. O reio de cavalo trançado que servira um dia para surrá-la por uma traquinagem de criança. Nunca se esqueceu da dor que sentiu. Dor física e moral pois sabia em seu íntimo que o que fez, não era para tamanho castigo. Sentiu-se uma escrava castigada no tronco da senzala.

Tantas vivências naquela casa, tantos acontecimentos que foram responsáveis pelo que era agora. Voltar àquele universo, era quase como voltar os ponteiros do relógio do tempo e retroceder à infância.

..Oi, tudo bem? Já faz um tempo que observamos a senhora parada, olhando para o prédio. Por acaso está interessada em entrar e conhecer nosso belo e arrojado condomínio? Não se acanhe, será um prazer mostrar as dependências.

Retorno à realidade, Marjorie sorri.

-Obrigada. Não preciso entrar. Conheço cada pedacinho desse terreno e tudo o que existe debaixo desse emaranhado de concreto e vidro. Não se preocupe comigo, já estou de saída. Só parei aqui para resgatar algo valioso que um dia deixei aqui.

-Valioso? O que? Esqueceu alguma joia no condomínio?

-Joia? É. Posso chamá-la assim também. Agora que reencontrei minha essência de criança, posso seguir com minha vida longe daqui. Desculpa o incômodo.

O segurança do condomínio não entendendo nada acompanhou a figura delicada da jovem senhora que sumiu na esquina da rua. Coçando a cabeça e realinhando seu boné, voltou à sua guarita pensando em voz alta:

-É cada doido que aparece por aqui que vou te contar. Dona mais esquisita!

Imagem: Pinterest

Visão desfocada

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Do nada, o olho pisca ininterruptamente. Ora seca, ora lacrimeja. Em outros momentos, arde como se uma bomba de gás pimenta tivesse estourado à minha frente. E coçar então? Pior de tudo, é quando tudo isso acontece num momento em que não posso demostrar desconforto. Seja numa reunião importante ou num encontro amoroso. Afinal, nas duas situações queremos e precisamos mostrar nosso melhor. Provar que é competente naquilo que faz. Então, esse olho maldito, me entrega estragando toda mise-en-scéne.

Desde pequena sofro desse mal. Pior quando o estado do olho chega a criar remelas. Isso afasta as pessoas de mim. Ficam com medo que seja contagioso. Não é. Contudo, até provar vai um bom tempo de conversa e desgaste. Prefiro ficar de olhos baixos ou com óculos de sol. Pena que sempre esqueço de andar com eles na bolsa. E o que dizer da claridade do dia quando estou com eles irritados?

Sinto-me a própria vampira Miriam Blaylock. Com muita fome de viver mas impossibilitada pela visão embaçada. Clamo pela escuridão. Nessas horas, a vontade de se encolher até ficar do tamanho de um átomo é grande. Perder-se por entre a poeira do universo e passar desapercebida. Fica só na ilusão. A cada encontro nos corredores da empresa, uma pessoa pergunta: Nossa, como está seu olho! É conjuntivite? Credo isso pega!

Só suspiro, sorrio amarelo e sigo meu caminhar ignorando os comentários desnecessários que as pessoas insistem em fazer.

A paciência foi algo que desenvolvi ao longo dos anos para poder viver por aqui. Como um discípulo de um mestre Kung Fu, através de muita humildade, fui moldando minha personalidade rebelde para sobreviver. Aprendi que somente quem se torna maleável feito aço quente, pode se moldar às situações e intempéries do tempo. Assim me fiz. Assim me tornei. E a paciência me dá condições de aguardar o momento de ficar novamente com os olhos curados e enxergar o mundo como ele é. Sem embaço, nem pontos escuros.

Desconfio que essa anomalia seja mais da minha alma que se nega a ver a feiura da vida. De perceber que ela não é como nos contos de fadas que tudo se resolve num piscar de olhos. Em dizer fórmulas mágicas e tudo retornar ao normal com os “Foram felizes para sempre”. A constatação de que felizes e sempre são invenções e não condizem com a realidade, talvez tenham me agredido a alma a tal ponto de, para sobreviver, de tempos em tempos, meu organismo se ataca para se defender. Freud deve explicar.

Imagem: Google

Fim de contrato

Um tropeço, um baque.

Como a vida é efêmera. Como é rápida e, mais rápida ainda se esvai deixando apenas rastros de incompreensão e…Saudades.

Como uma vida que mal começou, pode terminar sem aviso prévio, sem mensagens de despedida, sem um até breve num e-mail ou no WhatsApp?

Sendo ela uma senhora regida por regras que sempre existiram, por que insistimos em nos espantar diante de suas atitudes?

Qual o motivo de sofrermos e desistirmos dela se, desde nosso nascimento, já sabemos a que viemos?

E não adianta choro, nem promessas, muito menos barganha. O fim é inexorável para tudo. Para todos.

 

Surtada

A situação pela qual passo, não é novidade para ninguém. Quem nessa vida já não passou nervoso com prestação de serviços? Quem já não perdeu a esportiva diante de uma compra e o não recebimento da mercadoria? Quem nessa vida já não sofreu um golpe muito bem dado por espertalhões que, enxergam em você, o pato da vez?

Escrevo essas linhas no sentido de expor minha indignação e frustração que venho acumulando desde o  ano passado. Sofro de um mal: ser correta e honesta em dias atuais onde, ser esperto, ganancioso e mentiroso, é o lema da vez. Quem assim atuar ganha dinheiro e status de “Gente fina” ou “Celebridade”.

Num país onde impera a roubalheira sem fim, corrupção e outras cozitas más, nada mais natural que uma alma pura (quase) e crescida nos valores do bem que seus pais e avós exemplificaram, banque a Pata da vez.

E banquei. E estou Quá!QUá!Quá! até agora sem ver a resolução de meu problema. Desculpem meu desabafo caros leitores. Tampem os ouvidos ainda inocentes das crianças por perto:

Puta que o pariu! Caralho! Que merda! Estou possessa!

Respiração quase normalizada. Inspira!Expira!Inspira!Expira… Já já volto ao meu normal. Tenham um pouco de paciência comigo.

Respiração aprofundada e…Voltei ao normal. No entanto, ainda me encontro indignada com a postura “Foda-se” que a maioria das pessoas utilizam no seu dia a dia e em todas as esferas dessa nossa nação.

A pergunta que não quer se calar: Por que? Por que é tão difícil ser profissional e cumprir prazos nesse nosso Brasilzilzil? Por que?

É a empresa de telefonia que te deixa no vácuo quando VOCÊ precisa dela, é a empresa dos correios que te deixa na mão quando não entrega no prazo a correspondência ou mercadoria que mandou ou comprou e nada de te reembolsar ou dar explicações, é o supermercado que anuncia uma promoção e quando você chega, a mercadoria não se encontra com preço anunciado e, ao reclamar, você é que se passa por idiota e que não compreendeu bem, é o atendente da boutique de luxo no shopping que te mede de cima a baixo quando adentra o templo e escaneia sua conta bancária para ver se sai do lugar para te dar atendimento. Se você tem cara de proletário, esqueça minha filha: você não levará nada se depender da boa(má/nenhuma) vontade da balconista. Logo ela, que deve ganhar bem menos que você mas se encontra montada na grife portanto, se acha.

Tudo isso, no decorrer dos dias, meses, anos, te corrói tanto a alma que, chega uma hora, você simplesmente surta e começa a achar natural terroristas fundamentalistas que amam estourar bombas onde se aglomeram seres humanos. Dá vontade de acabar com tudo!

No dia de hoje, chego a sentir certa simpatia por todos eles. Quase chego a compreendê-los!

É boi morto apodrecendo nas vitrines, é leite adulterado com água oxigenada e outros venenos, é pó de serra enriquecendo nosso tão amado e idolatrado cafezinho, É loja de grife usando mão de obra escravizada para confeccionar seus modelitos, é…

MARCENEIRO levando seu duro e suado dinheirinho e não executando nem instalando sua cozinha tão sonhada há exatos…deixe me ver, setembro, outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro, março..

AIMEUDEUSVOUSURTAR DE NOVO!!!!!!!!!!

Chamem a polícia, o PROCON, um advogado e uma camisa de força porque se me deixarem solta vou matar alguém!Aiqueódioódioódio!!

Mulher invisível

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Dizem que, ao envelhecer, encolhemos. Suspeito que tornei-me anciã e, pouco a pouco, torno-me invisível.

Nessa nossa sociedade patologicamente plugada ao seu smartphone, torna-se cada dia mais difícil manter uma convivência como nos “antigamente”. Sempre tive o hábito de cumprimentar a todos nas empresas onde trabalhei. Do porteiro ao diretor. Nunca fiz distinção. Fui educada por meus pais – que nem terminaram o primário, a usar de cortesia e sempre esboçar um sorriso sincero ao cumprimentar as pessoas assim que chego ao recinto.

Hoje em dia, sorrio e falo com o vento, as paredes, as janelas, o assoalho. As plantas me respondem avivando sua tonalidade verde. Algumas flores até se viram para mim, como que sorrindo e agradecendo minha atenção para com elas.

É. Além de tudo devo de estar sofrendo de alguma doença mental. Como diziam os antigos a quem tenho me referido, “mente fraca”. Se penso que as plantas me respondem a um cumprimento, a coisa deve de estar feia pro meu lado.

Cada dia que passa, sinto-me mais e mais deslocada nessa comunidade a que pertenço mas que, ao que parece, devo estar me distanciando. Olho, ninguém me olha. Passam reto. Cumprimento e sorrio, as pessoas continuam com suas feições endurecidas e nem ao menos soltam um suave grunhido como fazem os tímidos. Silêncio absoluto! O que acontece? Cadê aquela animação para formar roda de amigos e conhecidos e passar horas de conversação, risadas, olho no olho e o desejo de se encontrar muito em breve para dar continuidade ao bate papo?

Outro dia, fui visitar família. Confesso que saí de lá ressentida e frustrada. Minha vontade era tanta em conversar e matar saudade no entanto, percebi que a programação da TV estava mais interessante que minha insistência em manter uma conversa animada e contar as novidades. Pouco a pouco, fui murchando. Silenciei e saí à francesa. Fui ao banheiro, lavei o rosto numa inútil intenção de expurgar o gosto ácido da frustração, peguei a bolsa e saí. Elas mal me olharam ao me despedir.

Ninguém mais tem interesse em saber das novidades do outro… A não ser pelas redes sociais que, se postar algo sobre o que anda fazendo, dependendo do que for, ganhará muitos likes e coraçõezinhos e Uaus.

Credo! Isso tudo anda muito chato! Quer saber? Não vejo a hora de completar meu horário aqui no trabalho e dar uma banana bem dada a todos, voltar correndo para meu ninho e me consolar com as séries favoritas da Netflix!

Aqui pra vocês!!

Imagem: Pocho

Ser humano: alimento de difícil digestão

Sou uma profissional da informação. Meu ofício exige estar informada sobre praticamente tudo o que se passa…

Pensando seriamente em sair da área. Ler notícias ultimamente tem sido uma tortura.

Meu emocional, por mais que o trabalhe na terapia, não está aguentando tantos absurdos. São imoralidades sem fim em nosso país e no exterior, que francamente, torna impossível a digestão. Causam náuseas. E quanto a essas náuseas, não há Pantoprazol e afins que resolva.

Retornei do meu almoço. Ainda com alguns minutos de folga, decido ler as notícias do dia. Leio uma matéria sobre os esquemas ilegais nos frigoríficos. Ao término da leitura, uma fermentação esquisita se formou no chackra esplênico. Até acredito que seja o alimento se revirando diante de tantos absurdos lido. Contudo, sei que a fermentação maior foi de indignação.

A humanidade ou grande parcela dela está insana e precisa com urgência ser trancafiada numa cela de cadeia ou hospício. Tais empresas utilizam substâncias cancerígenas para disfarçar carne podre. Decidi: se já estava de namoro com o vegetarianismo, agora diante de tamanho absurdo, vou comer alfafa e vou me alimentar apenas daquilo que plantar pois saberei que não estou colocando veneno naquilo que como e dou aos meus familiares.

Diante de tantos disparates e falcatruas sendo descobertas, permaneço com a pergunta sem resposta: Até quando o homem vai continuar a enganar e ser enganado? Quando a moral dos mesmos se elevará do subsolo imundo e lamacento em que se encontram?

Do meu lado, resta somente vergonha alheia. Envergonho-me pela raça humana que a cada dia demonstra ser a menos evoluída de todos os seres vivos.