Valentine’s day

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O choque ao te rever não foi bem o que esperava sentir. É certo que passado tantos anos, ambos envelhecemos. Mas não foi a falta de cabelos ou a barriga proeminente, muito menos as rugas profundas em seu rosto que me incomodaram.

Ao contrário do que esperava encontrar, você manteve-se muito bem. Soube envelhecer. Corpo esguio, ainda lapidado pela musculação. Pele azeitonada pelo sol, cabelos com reflexos esbranquecidos te presentearam com certo charme que seduz qualquer mulher. Seus profundos olhos verdes mantiveram o brilho e a vivacidade que outrora me encantou.

Te observar a certa distância sentado com elegância fumando seu inseparável cigarro – ao mesmo tempo que me trouxe boas lembranças, novamente veio carregada de sensações que não soube muito bem traduzir. Titubiei.

A insegurança de enxergar através de seu límpido olhar minha carcaça envelhecida e desprovida daquela jovial menina de seus dezesseis anos, me fez dar dois passos atrás.

Sei que casou, teve filhos que hoje devem ser adultos feito nós. Também soube por conhecidos, que divorciou e novamente encontrou alguém. Ao contrário de você, não soube prosseguir. Passei décadas pulando de relação em relação. Fui incapaz de me entregar a outro após te perder. Hoje sei que fui fraca e teimosa em não romper de vez nosso cordão umbilical. Busquei insanamente seu corpo em outros corpos, seu sorriso em outras bocas, seu olhar em outros olhos. Luta vã. Perdi duplamente por não saber abrir mão de um amor juvenil e por deixar escoar tantos outros homens que poderiam e quiseram me fazer feliz. Fiquei presa a uma ilusão. A um amor inventado por minha mente ultra romântica. Fui incapaz de me desvencilhar da roupagem adolescente. E levei essa rebelde pro resto de minha vida emocional. Mesmo agora, portadora de uma carcaça envelhecida e craquelada pela osteoporose, carrego ainda essa menina que um dia te amou e se entregou ao jovem risonho e sensual que você me apresentou.

Te observo mais alguns minutos por trás de uma banca de flores. Talvez a mesma banca que você adquiriu o buquê de rosas que repousa na mesa. Você não se esqueceu das minhas preferidas: rosas silvestres! Estão lindas! Obrigada amor mas não poderei aceitar. Desculpe mais uma vez me acovardar diante de uma possível felicidade. Não sei lidar com isso. A solidão me é familiar e quente feito útero de mãe. Te observo mais uma vez e num roupante, saco meu smartphone e registro sua elegante pose no café.

Segurando uma lágrima que queima meus olhos, dou as costas à você e sigo meu caminho rumo ao metrô. Escondo-me na multidão. No vagão, vários casais se enamoram e muitos rapazes carregam seu arranjo de flor que em breve farão alguma namorada ou esposa se encher de alegria e transbordar de amor. Sentada olhando pela janela, reafirmo que esse dia não me pertence.

Imagem: Unsplash

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Diário de bordo: sem maiores acontecimentos

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Hoje foi um sábado abençoado. Do jeitinho que gosto. Céu azul de brigadeiro, sol ameno, muito iluminado. Dia de sair às ruas para compras, encontrar amigos, degustar guloseimas. E esse mês em especial é de muitas e deliciosas guloseimas. Junho, mês de festas juninas que – infelizmente nas grandes cidades perderam força. Contudo, ainda que de forma reduzida, surgem aqui e ali algumas amostras do que foi um dia essas festividades.

É o mês onde celebro meu nascimento. Há quem odeie aniversários. Eu amo afinal, viver é uma eterna festa. Mesmo que haja brigas, perdas, obstáculos, viver é sempre motivo de alegrias. E eu, mesmo que melancolicamente (sou canceriana lembra?), alegro-me com as pequenas coisas que a vida me oferta. Quer coisa mais prazerosa que ao acordar, ouvir o canto de diversos pássaros em sua janela? E o que me diz de abrir a mesma janela à noite e se deparar com a belezura da majestosa Lua? Ou então, ser pega de surpresa enquanto anda pela calçada preocupada com contas a pagar, por acordes afinados de um músico de rua. Aqui na região da Paulista tem a escolher. E eu me rendo!

Próximo ao meu aniversário costumo entrar no que chamam de “Inferno astral”. Acredito que Papai do Céu esse ano resolveu olhar com mais atenção e carinho para essa sua cria. Ando num momento muito feliz apesar das dificuldades que passo. Sem problemas afinal – assim como a maioria dos brasileiros, o que não falta são problemas financeiros e esses, conheço de longa data. Aliás, já fui concebida num período de maré baixa, bem rala. Talvez por isso mesmo, tiro de letra e sinto que sou excelente economista. Ou devo dizer equilibrista? Uma vez que consigo equilibrar com maestria as finanças mensais, penso que não sou ruim não! Nesse um ano vivendo sozinha, aprendi que posso perfeitamente atravessar trinta dias corridos sem um puto no bolso. E quer saber? Ando de boa! Sinto-me privilegiada afinal, tenho um espaço que aos poucos está ficando com minha identidade, tenho profissão e emprego, guarda roupa sortido (tá legal, tudo roupa antiga mas como é de boa qualidade, estão tinindo), calçados de couro, geladeira cheia e sortida de alimentos de qualidade. Levo muito a sério cuidar de minha saúde. No momento é meu único bem. Mas também, não radicalizo. Como o que me dá vontade. Sigo a linha “Mulheres francesas não engordam”. Como sem culpa. Deve dar certo pois sempre fui magra.

Não. Não possuo automóvel porque nunca me interessei em aprender a dirigir. Sempre preferi sentar na janelinha para apreciar a paisagem e sonhar. É caro leitor, nascer canceriana dá nisso. Sempre com a cabeça no mundo da Lua! Decididamente, não daria certo dirigir. Seria irresponsabilidade. Gosto de caminhar, atravessar ruas, alamedas, avenidas. Gosto de observar rostos, posturas, comportamentos. Esse é meu material de trabalho. Andar também é um ato de meditação. Enquanto caminho penso, reflito, oro. Aproveito esses momentos para vibrar pela humanidade. A situação no planeta azul anda bem preta não é mesmo? Faço minha parte mesmo que ela pareça ser insignificante. Junto minhas doações energéticas às demais doadas por aqueles que também desprendem um pouco de si ao próximo. Essa é minha religiosidade. Não necessito de templos.

No entanto, atravessei meio século e nunca tive alguém para chamar de meu amor. Algumas pessoas ( muitas) estranham. Acham que devo ter algum transtorno por não haver casado nem tido filhos. Creio que na realização da criação, Deus determinou assim: uns têm, outros não. O universo necessita desse equilíbrio. Aceito sem maiores encanações. Vivo de boa aceitando o que ela me oferece. Sei que ela é generosa com quem a respeita e eu a respeito muito. E sou grata sempre. Ah! Antes que pense, não. Não sou a chata do pedaço que vive a pregar ensinamentos. Em minha concepção, cada um que busque seu próprio método de aprendizagem. Faço o que acredito ser o melhor para mim. Respeito o livre arbítrio do próximo. Se não concordo apenas lamento e sigo em frente.

Enfim, sentei aqui e iniciei esse texto sem nem saber o que pretendia escrever. Apenas deixei fluir pensamentos e sentimentos de um dia que para mim foi perfeito. O que? Se aconteceu algo especial? Não. Absolutamente nada de especial. Meu dia foi até bem comum no entanto, a graça está justamente nisso. Em reconhecer que é no cotidiano que se encontra a felicidade tão procurada e aclamada por todos. Eu encontrei!

Valor de mercado

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Um grito atravessa a noite me tirando de um sono profundo. Retorno à realidade confusa, acreditando ainda estar sonhando. O som de um choro desesperado, sofrido, permanece. É uma mulher. Diante do silêncio das primeiras horas da madrugada, apenas esse lamento. Movida pela curiosidade, levanto e vou à janela na tentativa de ver o que acontece. A rua, sempre movimentada, encontra-se vazia. No céu, nuvens encobrem o luar. Nos prédios, algumas luzes solitárias acesas.

A cantilena do choro aos poucos cessa até ouvir apenas uma respiração carregada. Silêncio.

Ao fechar a janela, capturo um movimento no canto de uma banca de jornal na esquina. Fixo o olhar para tentar identificar se é um cão perdido, ou gato vira-lata. A constatação de que é uma mulher me causa certo desconforto. Seminua, levanta-se ajeitando o vestido rasgado. Um dos seios à mostra. Ajeita os fartos cabelos e ao mirar o alto – com os olhos ainda úmidos e borrados pelo rímel vagabundo – nos enxergamos.

Por alguns segundos, não sei o que fazer nem o que pensar. Ela mantém seu olhar em mim numa muda súplica. Em seguida, abre um sorriso, acena, termina de ajeitar seus trapos, tira um espelho da minúscula bolsa e corrige a maquilagem. Atravessa a rua e para na esquina iniciando um diálogo com suas colegas:

-Amor, a noite está brava. Muito sofrimento e pouco faturamento. Estou de rabo ardendo e o filho da puta não me pagou. E ainda me deu uns tapas na cara. Fora que rasgou meu vestido. Bora faturar mais um para pagar o prejuízo! Oh vida! Quando será a minha vez de conhecer um bonitão que me fará sair dessa miséria? Quando?

-Ainda está nessa de sonhar acordada com príncipe encantado? Otária, acorda pra realidade! Nós estamos aqui para isso. Aliviar as taras desses monstros. Somos seus instrumentos de prazer. Jamais se interessarão em nos tirar da sarjeta. Isso minha filha, é contos de fadas. Aqui, no asfalto, é a vida real. E chega de conversa mole, atravessa e vai para a outra esquina trabalhar que a noite apenas começou!

Cerro a janela e retorno para o calor das minhas cobertas. Por alguns minutos reflito no quanto essas “mulheres” levam uma vida embrutecida, pobre em todos os sentidos. De “vida fácil” elas não têm nada. Por outro lado, apesar das diferenças, nós mulheres – seja aqui em São Paulo, Rio, Maceió ou Nova York. Seja no Ceilão, na Irlanda ou Rússia, a condição feminina sempre sofre. Muitas se prostituem para sobreviver. Não tiveram estudos, não têm outra profissão. São reféns da desigualdade social. Outras, fazem universidade e, mesmo assim, prostituem-se para usufruir de um luxo que – sendo simples balconista de shopping ou garçonete ou até mesmo escriturária – não teriam condições financeiras para tanto. Na realidade, há diversas formas de se “vender”. E todas, sem exceção, gravam sequelas profundas na alma feminina.

Adormeci pensando em mim mesma. De qual forma me deixei prostituir… E você? Já parou para pensar nisso?

Imagem: Pixabay

Vida marvada!

Preciso disfarçar melhor. Está muito evidente minha condição. Sei que não é correto muito menos profissional mas… Ai como é difícil! Mergulho minhas mãos uma na outra esfregando de forma inquieta dando a impressão que me aqueço nessa tarde fria de outono. Só eu sei que é uma busca ineficaz de me manter aqui. Já levantei diversas vezes, fui à janela na vã esperança de que a paisagem urbana me traga de volta. Não posso sair daqui. Faço parte disso tudo. Esse silêncio de vozes onde somente o tec!tec!tec de dedinhos nervosos feito os meus se ouve, isso causa uma reação dormente em mim.

tec!tec!tec!tec – irritada levanto e sigo para o banheiro. Abaixo a tampa do acento e, num gesto lento, sento apoiando o rosto entre as mãos. Fecho os olhos por alguns segundos.

O suficiente para ser interrompida por alguém que de fato está necessitado. Dou descarga, abro a porta e saio sem nem mesmo olhar quem bate à porta. Foi horrível de minha parte, eu sei, afinal, sempre levanto a bandeira da sociabilidade corporativa.

Foda-se! Hoje não estou pra ninguém. Decido dar uma volta pelos corredores. Não desejo voltar para minha baia. Não agora. É. Já sei. O serviço acumulado me espera mas – por hora, preciso de ar. O poluído mesmo e não o condicionado. Desse meus pulmões estão saturados. Penso, enquanto subo as escadas, nas inúmeras contas vencidas repousando em meu criado mudo que grita diariamente: Precisa pagar!Precisa pagar!

Foda-se 2. O dinheiro está curto, os juros dos cartões estão pela hora da morte e até meu desencarne – por hora, encontra-se em suspenso. Não tenho seguro de vida e acho sacanagem deixar as contas do enterro para familiares e amigos. Até mesmo porque, são todos feito eu, fodidamente duros. Oh vida marvada!

Hoje, decididamente não estou num bom dia. Senti isso assim que abri os olhos em plena 4h32 com o zumbido de um infeliz pernilongo a me perturbar. Irritada, tasquei um tapa na parede e saí engolindo meu grito para não acordar vizinhos. Sabe como é, morar em apartamento… Emputecida não me dei por vencida. Fui ao banheiro urinar minha frustração de ganhar mais um hematoma na palma da mão. Espero sinceramente que seja só hematoma e não uma luxação. Já basta o tornozelo esquerdo doendo da última queda livre no asfalto da semana retrasada. Dando descarga penso: Preciso me benzer!

Enfio-me debaixo das cobertas, apago a luz e finjo dormir novamente. Tenho certeza dos próximos passos do inimigo. Permaneço de tocaia.

Bzzzzzzzzz!!! – DA PUTA!

Pláft!! – Aiii! – estatelei a mesma mão no ouvido direito que me deixa temporariamente surda.

Bosta!Merda!Caraio! Quero dormir PORRA! Acendo as luzes e – feito ninja, acerto pra valer o inimigo da vez. A adrenalina toma conta do meu ser. Arregalo os olhos míopes e o que enxergo me deixa muito, mas muito satisfeita. Um borrão e fino filete carmim escorrendo pela minha linda parede água doce. Matei! Yes! Yes! YESSS!

Pulo no colchão festejando a vitória sobre o inimigo abatido até que escorrego no cobertor e caio de bunda no chão. Puta que o pariu! Lêlê!Lêlê!

Está decidido. Vou amanhã mesmo no centro espírita tomar um passe e pedir tratamento mediúnico. Devo estar com encosto dos bravos. Ai como dói!

Arrasto-me para a cama que já esfriou mas percebo o sangue – meu sangue, escorrendo pela parede. Não posso permitir que manche minha parede pintada recentemente. Saco! Preciso limpar isso. Levanto pisando duro e mancando por conta do tornozelo machucado e da bunda latejando. Molho um perfex e retorno limpando os restos mortais do pernilongo. Crime perfeito não deve deixar rastros. Isso me vem a mente ao lembrar de minha série favorita Dexter. Pela primeira vez desde que acordei, sorrio.

Andando pelos corredores da empresa, sem querer, encontro-me em pleno fumódromo. Uma forte neblina de fumaça fedida me envolve. Mal consigo reconhecer as pessoas por trás da fumaça. Chama os bombeiros! – recordo que sou da brigada de incêndio. Riso 2.

 – O que você Miss Certinha Pollyana da Silva faz aqui entre os pecadores da Torre dos Desajustados?

Respiro fundo, tusso um pouco e respondo:

– Preciso me perder para me encontrar. Não aguento de sono e desarranjo de vivência nesse tedioso serviço que prestamos diariamente. Arranja um cigarro? Preciso tragar.

Cética porém surpresa com meu discurso, Mariana pisca, abana a fumaça ao seu redor e, oferecendo um cigarro para mim diz:

– Bem vinda a Ordem dos Desajustados Assumidos e Suicidas Disfarçados. À propósito, você sabe tragar?

– Não. Mas nunca é tarde para aprender né?

– Não. Nunca. Assim como também nunca é tarde para se perder. Bem vinda! A vida não anda fácil né?

– Não. Nada fácil. Aliás, não faço ideia do significado dessa palavra. Nos olhamos em sinal de reconhecimento e empatia. Juntas, caímos num riso sincero e nervoso.

Até me esqueci do sono que me consumia.

Impermanência

Como permanecer lúcida, se a realidade mostra-se mais surreal que muitas de minhas viajadas? Como manter-me calma, se a humanidade grita e bate e mata numa histeria sem fim? Chego a parecer sem alma diante desse quadro anormal.

Desejo amar no entanto, sou incapaz de me entregar. Carrego grilhões invisíveis que me impedem sair do lugar. Transito apenas locais que me é permitido: casa, trabalho. trabalho, casa. Quando muito, patrão Vida permite que tenha alguns minutos de prazer. Um cinema, um concerto, uma dramaturgia para anestesiar meus dias. Alguma orgia também, afinal, ninguém é de ferro. Mas sempre retorno mecanicamente para minha gaiola de luxo.

E o vazio faz moradia em meu interior. Serei eu também de lata? Estarei fadada a terminar meus dias num ferro velho tendo por companhia carros velhos e a ferrugem como carícia mais íntima?

Olho ao redor e nada reconheço como meu. Não pertenço a nada nem a ninguém. às vezes isso é bom, outras, nem tanto. Para que a gente vive mesmo? Gostaria de lembrar…Deixei cair o manual da boa sobrevivência ao estatelar de boca nesse mundão de meu Deus. Enxerguei tanta beleza que esqueci a parte prática. Me lasquei! E agora, sigo percorrendo vias, rastejando estradas vicinais da memória, sempre em busca de um porque.

Envelheci. Tudo isso é novidade para mim e, mais uma vez, vejo-me perdida sem saber que rumo tomar. Quem não me conhece – e olha que são todos, imagina que sou o ser humano mais feliz do planeta. Eu, por outro lado, me acho uma boba alegre que jamais saberá pra que isso tudo e o que é viver. Contudo, assim como a maioria, não desejo morrer…

Temo que o outro lado seja mais enfadonho que essa nossa realidade. Não quero pagar pra ver.

Benção minha mãe!

mamae e eu

 

O dia comercial das Mães foi ontem, domingo. No entanto, meu final de semana foi uma loucura tentando preencher as horas de minha mãe com muitos mimos e atenção que no dia a dia se torna impossível. Como para mim, dia de mãe são todos os dias, deixo registrado aqui minha homenagem a ela e a todas as mães desse planeta azul. Esse texto faz parte do livro de crônicas Receituário de uma espectadora que lancei ano passado pela Scenarium Plural.

Quando decidi falar sobre essa mulher, me peguei sem palavras afinal, como descrever um ser tão acima de mim e demais pessoas?

Certa vez, li em algum lugar, que quando os anjos foram criados por Deus, para descerem a Terra, deveriam vir disfarçados de mãe. Preciso dizer mais? Quem de nós, seres humanos comuns poderia ter essa forma de amar incondicionalmente?

Quem de nós pode ou tem condições de perdoar infinitas vezes? Mães são criaturas dotadas de um enorme senso das coisas, têm uma intuição fenomenal, têm o dom de esboçar o mais lindo sorriso quando muitas vezes, por dentro, estão sangrando.

Não se importam de atravessar noites ao nosso lado quando adoecemos. Deixam de comer para ter sempre o alimento para seus rebentos. Defendem suas crias com uma voracidade anormal.

Fazem sempre o impossível para ver seus filhos felizes (o possível, o resto da humanidade já faz). Vibram com cada conquista que seus filhos adquirem e sofrem ao vê-los aflitos, derrotados e infelizes. Todos esses adjetivos descritos acima fazem parte da personalidade única que é minha mãe.

Quando pequena, achava-a severa, brava. Na adolescência, tivemos sérios entraves.

Vivia pegando no meu pé. Muitas vezes desejei que ela fosse diferente. Com o passar dos anos e a aproximação da maturidade, descobri nela, outra mulher. Descobri a amiga, a confidente e assim, nossa relação tornou-se estável e hoje somos grandes companheiras.

De uns anos pra cá sempre digo que “Quando crescer quero ser igual à Dona Ilda” Adquirir sua sabedoria, paciência, tolerância e quero também seguir sua filosofia de vida: minha mãe veio a esse mundo para ser feliz!

E olha que, nesses anos de vida que ela tem, já passou por cada uma! Contudo, nada abala sua segurança, sua fé, sua postura rígida, porém suave diante da vida.

Independente dos sofrimentos que a vida lhe imputa, sua filosofia da felicidade não estremece. Ao invés de torná-la frágil, fortalece mais. E sempre sorrindo! Igual à minha avó Maria, sua mãe.

Se Deus permitir, desejo chegar à terceira idade mantendo o semblante sereno que ela carrega. E quero também despertar nos outros, o mesmo carinho, o mesmo respeito que hoje todos têm por ela.

Deixo aqui minha homenagem a essa grande mulher, Dona Ilda, minha mãe e a todas as mães desse planeta.

Sem vocês, posso dizer com segurança, que não existiria vida em nenhuma parte.

Sem mãe, o mundo seria em preto e branco e sem fundo musical.

Benção minha mãe!

 

 

Dia de festança no céu e na terra

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Ano de 1968, maio. Mais precisamente dia onze. Ano esse que ficou marcado na história do país e do mundo. Ano de muitas contestações, grandes mudanças de comportamento e cobranças. Enquanto por aqui, estudantes lutavam por melhores condições no ensino e contra uma ditadura que amarrava e amordaçava a liberdade de expressão, na França, a revolta de maio teve como protagonistas, universitários e polícia numa revolta onde imperou a violência. Só para variar. Muitas turbulências na América Latina, Estados Unidos arrasando com o Vietnã. A vida estava uma maravilha! Até parece que não tiramos o pé desse ano de tanta sensação de déjà vu.

No entanto, em plena Maternidade São Paulo, nascia um bebê que marcaria a vida da família que a acolhia. Criança que veio ao mundo sentada e de perninhas moles.

Recebi a chegada desse bebê com alegria achando que havia ganho uma boneca de verdade. Adorava trocar, pentear seus cabelinhos claros e finos feito seda. Da mesma forma que cuidava, tinha uma queda por fazer brincadeiras que a fazia chorar. Tudo só para depois pegá-la no colo e ninar. A vida não foi nada fácil para essa criança. Ela também mostrou-se imbatível diante das adversidades e obstáculos que teve que superar. E superou a todos! Destemida e teimosa. Essa é a perfeita definição para ela. Espírito de heroína, renasceu quantas vezes tornou-se necessário. E sempre se reinventando. Um dos grandes obstáculos em sua vida foi a saúde debilitada. Muitos em seu lugar teriam se entregue à doença e perecido pelo caminho. Não ela. Como uma cientista curiosa, teve seu olhar para a doença com sede de conhecer para combater. E assim, vem se superando a cada investida. Alma de artista, o traço sempre foi extensão de suas mãos talentosas. A arte sempre resgatando-a da doença. Amparando-a nos momentos de dor. Como Frida, transformou sua dor em amor ao próximo e as artes. Feito Khalo, imprime nas telas sua resistência.Incompreendida por muitos, admirada por outros tantos, segue sua vida acreditando no ser humano. E olha que esses humanos aprontaram muito com ela. Muitas pessoas abusaram de sua boa vontade e ingenuidade.

Mas ela segue seu caminho deixando-os de lado, não guardando mágoas nem rancor. Sabe que cada um colhe o que planta. Hoje, a mulher que amadurece mas não perde a ternura da menina, tornou-se motorizada. Anda pela cidade de cadeira elétrica. As rodas tornaram-se extensão de suas pernas. Destemida, não pára diante das mazelas que a cidade – despreparada para recebê-la, lhe apresenta. Com dificuldades, formou-se em Artes Visuais. Apenas um certificado para representar sua arte e talento que dispensa qualquer qualificação. De irmã mais velha, tornei-me sua melhor amiga. Somos grandes parceiras de vida. Somos confidentes e fortaleza uma da outra.

Irmã caçula, filha de coração, companheira de uma vida. Hoje é seu dia de abrir o coração para o Universo e agradecer por tudo e por todos que atravessaram seu caminho. Todos contribuíram para o que você é hoje. Essa é minha homenagem a você menina/mulher/guerreira, por fazer meus dias terem um colorido especial.

Feliz aniversário irmã!

roseli e lirio peteleco

Súplica

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Espera, não vá

O dia não clareou e o galo da vizinha ainda nem cantou

Mantenha-me aquecida

Volte a encostar seu hálito quente em meu pescoço,

relaxe

Sussurre que sou cheirosa e macia

Confesse ao pé do ouvido que valho a pena

Sabes o quanto sou insegura-

Fique!

Ature-me um pouco mais

Sei que exijo sua atenção

Contudo, desdobro-me em muitas para teu prazer

O que fazer?

Anseio por seus toques. Para mim são vitais

Amo os momentos em que nos tornamos

animais

Coreografamos as preliminares

Insanos, nos devotamos, nos doamos,

não importa que para os vizinhos o que falamos

não tenha nexo

Entre galopadas, freios, gemidos e grunhidos

Nosso entendimento se faz

Nossos olhares – dois asteroides que se cruzam

e se reconhecem brilham

intensamente

como recompensa, ganhamos o ápice do prazer-

à dois, apagamos juntos

exaustos, suados, permanecemos colados –

derme contra derme

tal qual estrelas que morrem e continuam

a brilhar no universo sem fim

Assim somos, assim nos amamos, assim

nos encaixamos

Por isso, espera, não vá!

Fique um pouco mais.

Imagem: Pixabay

Blue jeans

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Tédio. Palavra curta com significância profunda. Causa um sabor – ora azedo, ora ácido de algo borrachudo que cresce em nossas bocas do estômago transformando-se num grande incômodo. Sofro de tédio muitas vezes. Agora mesmo. Nesse exato segundo em que escrevo essas linhas, um tédio absurdo toma conta de meu ser. Tento enganá-lo pensando em coisas prazerosas. Procuro lembrar de acontecimentos agradáveis em meu passado. Rememoro os traços de quem amo. Recordo passagens de viagens que fiz. Nada remove essa sensação de inoperância diante da vida. Incomoda o raso das existências alheias que presencio com olhar de voyeur e me questiono se não serei tão rasa quanto eles.

Hoje, pela manhã vindo ao trabalho no ônibus, ouvia Legião ao vivo pelo Spotify. Sorri de forma desencantada ao ouvir Renato Russo dizer, no show ao vivo, que ainda não era a vez do brasileiro ser feliz. Quem sabe daqui um tempo… – dizia ele numa voz firme e ainda esperançosa. É Renato, anos se passaram e ainda não chegou a nossa vez de ser feliz. Ainda não. Talvez nem chegue ou, quem sabe, tenhamos uma ideia errônea e idealizada do que vem a ser felicidade.

A vida, de tão líquida como o filósofo tão bem descreveu, escorreu. Por entre os dedos tortos pelo tempo, tento segurar um pouco dela e ver se ainda resta algum tipo de sentido. Desisto. Deixo pingar a última gota e seco minhas mãos na velha calça jeans.

Sorrio pela segunda vez ao me lembrar de uma canção publicitária tão antiga quanto eu:

Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada…

Se a canção for verdadeira, minha liberdade está me sufocando. Ainda resta essa velha calça jeans que, mesmo após quarenta anos, me serve como da primeira vez que a vesti e saí da loja carregada de sacolas e sonhos.

Os sonhos desbotaram tanto quanto a velha calça jeans. Ela mostrou-se mais resistente que eles que se esgarçaram no passar dos anos. E o tédio, essa epidemia contemporânea, assumiu seu lugar de destaque. Tornou-se companhia constante da velha jovem e seu jeans puído pelo tempo.

Imagem: Unsplash

I give up!

Minha avó materna, dona Maria, apesar de analfabeta sempre foi de uma sabedoria infinita. Dona de um espírito brincalhão, eterna menina, de vez em quando saía com umas tiradas filosóficas de fazer Nietzsche ou Marx ficarem de queixo caído pensando na profundidade de seu pensamento.

Uma de suas pérolas cai como luva para esses tempos tão nebulosos que passamos em Terra Brazilis: Não generalize.

Atravessamos uma turbulência econômica, política e moral como talvez nunca tenhamos passado. Pelo menos que me lembre. Ler as trocas de farpas nas redes sociais é de sentar e chorar. A raiva – pra não dizer ódio, está transformando algo que antes era prazeroso, num ringue de rinha da pior espécie. Confesso que tenho deixado de lado para não acirrar uma úlcera.

Hoje, li um desabafo de uma colega de profissão que é concursada, que me tocou profundamente. De forma delicada porém firme, ela se posicionou diante das pedradas recebidas por pessoas que andam espalhando que servidores públicos são vagabundos.

Eu a conheço. De vagabunda ela não tem absolutamente nada. Casada, mãe de família, escritora, mulher culta e sabedora de seu papel na sociedade. Luta por seus direitos e demais pessoas além de uma luta diária por ser portadora de deficiência física numa cidade, num país onde nunca se olha por esses “especiais”.

Sendo também mulher, trabalhadora desde os treze anos de idade, formada num curso superior com muita dificuldade, defensora dos direitos humanos, sinto-me também ofendida e entristecida em ver o quanto as pessoas se atiram às ofensas a quem nem conhece de forma tão vulgar.

A sociedade está se fragmentando em pseudo-grupos que se olham com animosidade e atiram-se uns aos outros destilando ódio. Uma total insanidade uma vez que, todos estamos no mesmo barco que se afunda. Mas vá tentar fazer entender! Como já disse Taiguara tão bem na letra da música Universo no teu corpo:

Eu desisto! Não existe essa manhã que eu perseguia/Um lugar que me dê trégua ou me sorria/E uma gente que não viva só pra si…

Décadas passaram desde que ele, alma sensível, escreveu essa bela canção. Nunca esteve tão atual!