Se eu sei alguma coisa?

A dúvida entre ficar no lugar possuída pela paralisia e o ímpeto de sair correndo é a mesma. O que faço? Bailo pianinho, hora dando passadas miúdas de gueixa, ora me arriscando em passos ousados de dançarinos de tango. Assim prossigo. É certo que diante do inesperado ou desconhecido, finjo-me de Inês é morta e aguardo pacientemente a tormenta passar.

Enquanto espero, jogo cartas ou xadrez com o destino. Brejeira, solto meu charme sedutor para ganhar tempo e mudar minha rota, caso seja incerta ou infeliz. Às vezes saio no lucro, outras, nem tanto e em muitas, quebro a cara. Levanto, limpo as feridas e sigo em frente.

Se me perguntam se tenho uma fórmula para viver, nego e respondo que para viver, não existe fórmula ou equação. Viver, requer vontade e uma boa dose de resiliência, ou quem sabe, teimosia. Acrescentada de uma pitada de loucura sem esquecer que alegria é fundamental para a travessia. Ih…. Acho que sem querer tracei uma fórmula do bem viver! Siga quem achar pertinente ou, quem estiver mais perdida que eu.

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É preciso estar atento e forte…

Final da tarde de ontem, a caminho do metrô, presenciei uma das cenas mais bizarras e triste. Caminhava tranquila após um dia de trabalho exaustivo quando observei uma ação que chamou minha atenção e de todos que por ali circulavam. Um jovem casal passeava com seu cãozinho quando, de repente, sua dona vociferou contra uma senhora de meia idade que passava. Não contente, a moça iniciou um surto entre gritos, agressão física que foi impedida pelo companheiro que a todo custo tentava contê-la sem obter muito sucesso. A jovem gritava: Sua vaca, você chutou meu cãozinho! A senhora, acuada, tentava sair do campo de ataque e aos poucos, os pedestres e pessoas do comércio local formaram uma rede de proteção tentando trazer a moça à razão. Os mais assustados pelo que observei foram a senhora, vítima do ataque e o próprio cãozinho que preso à coleira, também estava sendo vítima. Em seu surto, ela segurando a coleira, empurrava o cãozinho pra lá e pra cá deixando-o confuso. Lamentei e prossegui antes que sobrasse para mim também.

Ao chegar a estação do metrô, logo que passei a catraca e estava prestes a descer a escada, um funcionário do metrô abordava um usuário sobre o uso da máscara. O rapaz dizia que não tinha máscara e aí começou outra cena de descontrole. Outro rapaz interviu e aí o funcionário perdeu de vez o controle. Aiaiai! Pensei comigo, outra cena. Isso já está começando a banalizar e isso não pode se tornar uma constante.

Mais tarde, na saída do prédio onde faço pilates, eis que outra cena de descontrole emocional. Agora, um homem de cerca de seus quarenta/cinquenta anos, esbravejando aparentemente com um inimigo oculto. Compreendo que todos passamos por momento de muito desgaste físico e mental devido a todo quadro econômico e de saúde pública que vivenciamos desde 2020. Famílias inteiras tentam infrutiferamente administrar perdas humanas e materiais. Mais que isso, a perda da dignidade tem ganho terreno em meio a miséria. Testemunhar o descontrole emocional de um ser humano, está cada dia mais comum em nosso cotidiano. Infelizmente. E isso, nós que ainda mantemos um pouco do equilíbrio mental/emocional, precisamos cuidar para que essa não seja nossa próxima pandemia.

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6 on 6 – Resquícios

Por onde passamos, deixamos rastros de nossas ações e, em sua maioria, o resultado do que deixamos de fazer. O planeta sofre as consequências dos excessos, do consumo exagerado e da falta de consciência e compromisso da sociedade. No geral, só nos preocupamos com os direitos e jamais refletimos sobre o cumprimento dos deveres. A conta de todo esse descaso tem sido alta, gerando perdas materiais e de vidas. Estou longe da perfeição e talvez jamais alcance tal meta. Tenho pensado muito a respeito e tento mudar alguns hábitos procurando fazer minha parte. Trabalho de formiguinha. Sempre que me deparo com uma imagem como essa abaixo, fico com certa revolta. Móveis e eletroeletrônicos podem ser consertados e reutilizados por outros. Jamais jogo fora dessa forma. Doo para instituições que consertam e vendem. Essa atitude, se adotado por todos, geraria bem menos lixo. Infelizmente, a maioria não pensa assim. A caminhada ainda será longa e talvez, não viva para ver tais mudanças.

Gosto de mexer com jardinagem mesmo não tendo uma formação mais técnica. Meu trato com as plantas é pura intuição acompanhada por algumas leituras informativas. Podar e dar forma ao jardim da casa de minha mãe sempre foi uma atividade prazerosa, acompanhada por silêncio e troca de carinhos com os seres vivos verdes e de outras tonalidades. Observar as plantas agradecendo, ficando mais bonitas e viçosas não tem preço. Pena que nos últimos tempos, quase não tem sobrado tempo ou disposição física para praticar essa troca.

Também sou adepta de uma boa bagunça causada por mudanças e reformas. Para quem não sabe, formei-me em design de interiores e por pouco, me tornei uma arquiteta. O passo a passo da pintura e decoração de meu apartamento foi curtido em cada etapa e todas foram importantes. Cá estou eu pensando numa próxima paleta de cores para tingir as paredes…Ando na pegada dos tons de verde.

Apreciar o fim de mais um dia, se extasiar com a beleza natural permeada pela intervenção humana através do concreto e vidro. Esse, é um dos momentos de maior encantamento para mim. Não canso de admirar o talento desse grande artista que criou tudo tão perfeito. Que nós humanos consigamos manter tudo isso antes que acabe em caos. Mais do que já se encontra…

Remexer baú de fotos é tocar com carinho no passado. Muitas fotos, puídas pela corrosão do tempo resiste bravamente e ei que me deparo com a Lilica pequena ao lado dos irmãos. O poder desses registros são verdadeiras fendas para um momento único de contentamento, alegrias e certa pureza que somente a infância proporciona. Vamos perdendo essa virtude com o passar dos anos mas, sempre que miro e admiro uma foto antiga, recupero minha alma infantil e me fortaleço. Sim, recordar é viver!

Assim como as plantas, também necessitamos de algumas podas para nos tornarmos mais viçosas e bonitas. Cortar minhas madeixas é sempre um ritual que me agrada. Pelo ato em si que representa cuidado e pelas mãos habilidosas e bom papo de minha profissional querida que me acompanha há alguns anos. E o que dizer do carinho expresso em formato de coração? Só mesmo a Juh querida para me fazer registro repleto de significados.

Esse texto faz parte do Projeto fotográfico mensal 6 on 6. Estão comigo nessa postagem coletiva:

Lunna GuedesMariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaSuzana Martins

Imagens: Arquivo pessoal com exceção da primeira que é licenciada: Shutterstock

Atleta em preparo

Esse ano tenho dois desejos que pretendo na medida do possível, realizar: ler mais e escrever na mesma proporção. Pode parecer estranho mas sempre que inicio um, o outro fica stand by. Parece até que não sei fazer as duas coisas juntas. Saber eu sei mas confesso que dá um cansaço mental muito grande daí, sempre optar por um ou por outro.

Como tenho projeto (s) de escrita para desenvolver, vou precisar me munir de muita disposição para manter a disciplina. Terminar meus cinco livros que repousam na cabeceira da cama desde novembro e olhar com carinho e determinação para os inúmeros inéditos novos e antigos que esperam pacientemente a vez de serem manuseados e acariciados.

Para dar conta de tanto exercício mental, já me encontro tomando complexo vitamínico e florais de Bach além do pilates que me ajuda a manter o pique. Preciso sempre lembrar que já não me encontro mais na casa dos vinte anos. Digamos que caminhei algumas casas à frente e esse ano, fico sex de vez…

Haja vitamina e colágeno para manter-me ativa. Não importa, lancei para o Universo esse desejo e vou maratonar e pular os obstáculos que atravessar meu caminho para concretizar todos eles. Ah, e claro, manter-me mais pontual nas escritas por aqui, afinal, o blog é meu porto seguro.

Mudando de assunto sem sair totalmente dele, fuçando os armários de mamãe, com a desculpa de organizá-los, tive a grata surpresa de descobrir, embalada em plástico bolha, minha velha Remington muito bem conservada. Nem me lembrava mais dela! Acho que nem sei mais datilografar. Ah, e qual não foi o espanto, ao encontrar minha máquina fotográfica também. Foram dias de muitas reencontros com o passado. Meu coração se aqueceu como se reencontrasse antigos namorados. Esse ano promete!

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Bem-vindo!

O mês de dezembro foi veloz, caótico com picos de estresse, melancolia, ansiedade e algumas pitadas de alegrias. Como sempre, continuo não morrendo de amores por esse mês. Mais uma vez, sobrevivi. Eis que na virada do calendário, nasce mais um janeiro e secretamente, dou as boas vindas.

Hoje, primeiro dia útil do ano de 2023, no silêncio de meu apartamento, desliguei até a música que tocava. Algumas vezes necessitamos do som do silêncio a imperar por todos os nossos sentidos.

Tirei o último dia de descanso para tirar o pó dos móveis, mudar alguns de lugar, lavar as roupas acumuladas, organizar a bancada de trabalho e enquanto isso, internamente, organizar mente e emoções.

É bom fazer isso de vez em quando. Tirar os excessos e levar na bagagem somente o necessário. Afinal, se viver é a nossa maior aventura, que a mochila seja mais leve para darmos pulos para escapar das emboscadas e expressar contentamentos.

Não costumo planejar o ano promovendo listas de desejos. Prefiro me surpreender com o que ele me oferta e manobrar, desviando das intempéries desse mar agitado, parando nos portos, conhecendo pessoas, reencontrando outras e aceitando o que a vida me ofertar.

Esboço tímido sorriso a la Monalisa, sentindo o aroma perfumado do café coando. Sinto na boca, o pedaço de chocolate que se desmancha. Podemos ser felizes com tão pouco!

Como disse Mercedes Sosa: “Gracias a la vita que me ha dado tanto!”

Especiarias da Lapa

Tempo de desacelerar, entrar em ritmo de celebrações, encontros, abraços e beijos. Aproveito esses dias fora do eixo para ficar introspectiva, remexer baús da memória, selecionar e separar lembranças e transformar tudo em narrativas literárias. A escrita passou a fazer parte da minha vida mesmo que nem sempre consiga postar por aqui, em meu blog. Que deveria ser diário, como é a proposta de um blog mas, uma vez que é meu, utilizo-o da forma que dá e não da forma ideal.

Uma vez falando em lembranças e memórias, aproveito para divulgar mais uma vez, meu livro Quinta das especiarias. Um remexer de ingredientes gastroafetivos que deram um tempero a mais em minha infância. E que agora, divido com quem deseja mergulhar e se aventurar em outros sabores.

Também reforço o convite para estarem presentes ao meu bate-papo com Lunna Guedes e Suzana Martins, no dia 23/12, pelo Instagram da Scenarium Livros Artesanais. Traga sua xícara de chá ou café, se for de sua preferência, pode ser também uma taça de vinho e venha participar dessa conversa e leitura de textos meus. Será um prazer a mais! Enquanto isso, deixo um texto para leitura e aguçar sua vontade de ler o todo.

No passado, ela não foi figura presente em meu dia a dia. Prima de segundo grau, morava no bairro da Lapa de baixo e quase não tínhamos contato. Passou por muitas dificuldades materiais e grandes perdas.

Numa tarde, ela chegou para uma visita. Volumosa, barulhenta, escandalosa em sua maneira de se comunicar. Chegou acompanhada de uma amiga. Nessa época, eu era a típica adolescente invocada. Chata mesmo! Não gostei delas.

Suas visitas tornaram-se constantes. Ao ficar sabendo que viriam, fugia, ficando reclusa em meu quarto ou, simplesmente saía. Quando tentaram se aproximar, fui antipática, grosseira. Hoje, me arrependo. Ah, esses hormônios desequilibrados da juventude!

Na maturidade, descobri pessoas incríveis, divertidas, sábias em sua simplicidade. Permanecem juntas até hoje. Um casal como bem poucos a gente vê por aí. Brigam, discutem, riem mas, caminham sempre na mesma direção. Companheiras de viagens e de vida em comum.

A prima, descobri depois, foi cozinheira em diversos restaurantes. Numa de suas visitas, levou para o lanche da tarde, pão de mel feito por ela.

Eu, que nem sou de tanto doce, caí de amores por esses pães. Saborosos, macios por dentro. Aromáticos!

Ainda bem que ela levou em quantidade, pois todos se fartaram. Ninguém conseguiu comer apenas um. Aos poucos, através do doce de seus pães e de seu olhar, paciência, conversas e risadas, ela me conquistou. Aliás, elas. Consegui superar um preconceito besta, adoçando minha índole, abrindo meu coração e aceitando-as exatamente como são: seres humanos.

Recordo da última vez em que nos encontramos. Havia mudado da casa de mamãe fazia pouco tempo. Num final de domingo, após o lanche, ganhei uma carona até a estação de trem. Durante o trajeto conversamos como nunca havíamos conversado. Sem bloqueios, sem muros levantados. Apenas duas primas distantes a confidenciar conquistas, anseios, certezas. Soube que ela e sua companheira mudaram para o litoral.

Pão de mel como os dela, nunca mais provei. Acabo de passar um café que perfumou todo o ambiente. Essa lembrança veio forte, embalada por aromas de erva-doce, cravos-da-Índia, cardamomo e pétalas de rosa. Resquícios de um sabor agridoce.

Esse texto e outros, se encontram no livro Quinta das especiarias que você pode adquirir através do site da Scenarium Livros Artesanais ou clicar na capa do próprio livro, na lateral do blog. Livro, sempre um prazer ler, ganhar e dar de presente.

Aguardo vocês na live, dia 23/12 às 19h30

6 0n 6 – Last six months

Em julho, fui prestigiar um grupo de artistas – incluindo minha irmã Edilene – mais conhecida no meio artístico como Lírio Paper. Uma mostra de trabalhos feito com papéis artísticos. As mais variadas técnicas. Foi uma grata surpresa conhecer o Museu Histórico Paulo Setúbal, os artistas expositores e um pouco da cidade de Tatuí.

Agosto iniciou com a volta às aulas e toda agitação gostosa dos alunos. As atividades seguiram e, entra dia, sai dia, sigo enrolada com minhas inúmeras atividades. Não tem jeito, eu traço minha linha de raciocínio e vou trilhando, semeando e cultivando a paciência para a colheita futura. Nessa entre safra, o prazer em receber livros novos da Scenarium e observar com muito orgulho, a beleza e criatividade dos livros e conferir o talento de cada autor(ra) publicado. É de encher os olhos e bater mais forte o coração

Setembro demarcou território, mantendo o clima mais frio. Nem me incomodei pois a biblioteca transpira calor humano e passar o dia a dia, envolta por esse cenário que une livros diversos a uma arquitetura que transpira história em cada detalhe, me faz sentir que o paraíso é aqui mesmo.

Chegou outubro trazendo muitas comemorações dentro de um único mês: mês internacional da biblioteca escolar, dia da criança, dia de Nossa Senhora Aparecida, dia do Professor, dia Nacional do Livro, dia do Saci, Dia das Bruxas e uma data para mim, muito especial: 31 de outubro Dia D “Drummond”. Difícil escolha das fotos. Havia escolhido a foto da decoração Halloween, que fiz na biblioteca. Confesso que na hora de escrever esse texto, meu coração saltou para a bela ilustração do livro infantil A máquina do poeta, sobre o poeta Drummond, através das mãos talentosas de Nelson Cruz. Simplesmente amo esse livro!

Ao virar a página do mês dez e inaugurar novembro, eis que fico de boca aberta ao me conscientizar que entramos no mês onze! Como assim? Pisquei os olhos e ano de 2022 em ritmo de véspera de encerramento? Entro no mês com os dois pés juntos e não tem como escapar do assunto que está na boca de todos os brasileiros e demais nacionalidades. O mundo basicamente respira e contempla a Copa do Mundo de Futebol e eu tratei de decorar a biblioteca com o tema. Os alunos adoraram!

Chegamos a Dezembro, mês conflitante para mim. Gosto da possibilidade dos reencontros, dos abraços, do carinho mas detesto cada vez mais a ida ao comércio e o estresse causado pelo excesso de pessoas descontroladas, deseducadas que desestimula a compra tranquila de uma lembrança para familiares e amigos mais próximos. Por conta dessa mudança em meu interior, que busca cada vez mais o simples, optei por representar o mês, um belo exemplar da natureza, que capturei no jardim de minha mãe, domingo passado: Neomarica candida ou, seu nome popular, Íris da praia. Não me canso de apreciar sua beleza e delicadeza!

Participam comigo desse projeto:

Lunna GuedesMariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaSuzana Martins

Aos cuidados do meio-dia…

Banho tomado, óleo distribuído pelo corpo, por hora, uma seda. Ajeita os cabelos num penteado despenteado, para ele desarrumar. Gosta de observar o prazer surgir na dilatação da íris do olhar amado. Verdes com pinceladas de marrom. Olhos de gato. Tem por hábito, felinamente, se aproximar, subir nela, dominando a cena e sua atenção. Em resposta, ronrona e suspira quando o hálito quente se aproxima de sua nuca, causando arrepios ininterruptos. A música deles impera no recinto, enquanto a coreografia se inicia, tornando-se mais rápida. Urros roucos de ambos se misturam à sedutora rouquidão de Seal

Na cama corpos ardentes, sobre o aparador, velas aromáticas de cereja e avelã se consomem, espalhando um perfume sensual. Quando se encontram, é como se fosse a primeira vez. O tempo não arrefeceu a atração de ambos.

Há dezoito anos, encontro marcado. Sempre no meio do dia, dois ponteiros se superpõem. Lá fora, barulho de buzinas, gritaria das crianças na saída da escola, conversas das babás e mães, do pipoqueiro estourando o ouro que paga as contas do mês.

Na penumbra do quarto, esparramados no leito, ressonam suave. Ele, nu em pelo, ela, coberta apenas pelo lençol de rendas do prazer, jorro do homem que ama.

Esse texto faz parte da blogagem coletiva Blogvember. Participam comigo: Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Nuñes Ortega – Suzana Martins Imagem gratuita: Pexels

Queria ver se chegava por extenso, ao contrário

(Helder)

Diminui diante de tamanha força e beleza. Não tive reação, não consegui expressar palavra.

Paralisei envolta pela brisa perfumada que se formou, assim que volitou em minha direção.

Seu perfume fixou na epiderme cansada de quem já não esperava nada da vida.

Um único encontro. Mais certo dizer um único cruzar de caminhos e, bastou.

Foi o suficiente para mudar a rota de uma existência errônea.

Segui, não olhando para trás. Jamais pensei em voltar e te procurar, tentar contato, te conhecer.

Preferi o colorido da fantasia que te torna perfeito, sem falhas, justo. Um deus!

Esse texto faz parte da blogagem coletiva Blogvember. Participam comigo:

Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Nuñes Ortega – Suzana Martins

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Aprendi com as palavras o que eu não consegui com as asas: voar!

(Suzana Martins – (In) Versus)

A antiga sabedoria popular afirma que ninguém nasce pronto. É fato. Sou exemplo de que isso é a mais pura verdade. Nasci com todos os defeitos que um ser humano pode carregar em sua bagagem temporária. No decorrer da vida, no escoar das décadas, aprimorei quase todos eles. Só não me avisaram que era para limá-los e não acentuá-los. Desculpem-me. Em minha defesa digo que a falha não foi minha, mas sim, de quem me (des)orientou.

Rolando feito pedra solta do penhasco, o atrito me moldou, ganhei formas arredondadas, tornei-me macia como bumbum de bebê. Aprendi aos poucos a falar e, em seguida, as letras que brincavam no ar, me desafiando a decifrá-las. Símbolos desconhecidos que muito me fizeram sofrer por não os compreender. Burra não sou. Marrenta, dediquei uma existência para assimilar e nunca mais esquecer. Aprendi! Vivia pelos cantos dizendo em voz alta que era “alfabetizada”. Tornou-se meu mantra.

A realidade impunha desafios. Resiliente, me jogava de cabeça em cursos e especializações. Muitas leituras técnicas.

Frustrada, não conseguia entender a prisão que me mantinha imobilizada. Depois de muita resistência, fui em busca de apoio profissional. A terapia descortinou um mundo desconhecido até então. O despertar para mim mesma, fazer as pazes com meu interior, meu passado, meus antepassados. Todas essas descobertas desembocaram na técnica da escrita. Fui apresentada à escrita matinal. Esse foi o primeiro passo para a liberdade total. As primeiras escritas saíram rígidas, tímidas, pequenas.

Mais confiante, desfiava meu cotidiano, minhas rotinas, meus sonhos e anseios. Registrava meus medos, agora, sem medo. Fiquei sem vergonha. Facinha, facinha.

As palavras, sábias que são, tiveram a paciência de esperar meu amadurecimento natural. Jamais me forçaram nada. Hoje, somos parceiras e unidas, percorremos histórias, situações, escolhemos roteiro de viagem. Como um par de dançarinos afinados, um espera o outro para dar a passada correta, em sintonia. Se estou com a mente cansada, as palavras aguardam em silêncio. Não me pressionam. Caso eu me depare com ideias para uma boa história, de imediato elas saem da caixa da criatividade pulando como pipoca na panela quente. Soltam risos agudos de criança feliz e vêm ao meu encontro. Brincamos, voamos alto em nossas aspirações literárias e o resultado, cada vez mais satisfatório.

Hoje brinquei bastante, a mente limitada grita que está na hora de parar e descansar. Elas compreendem e, despedindo-se, somem no ar, aguardando o amanhecer, para que desperte renovada e as convide para novas incursões. Hora de apagar a luz e dormir.

Esse texto faz parte da blogagem coletiva Blogvember. Participam comigo:

Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Nuñes Ortega – Suzana Martins

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