B.E.D.A. – Porcelana chinesa

A alma é uma porcelana chinesa casca de ovo. Se não cuidamos, quebra e nunca mais se recupera. Atravessei a noite de sexta-feira, testemunhando uma quebradeira de um jogo completo. Não sobrou nada intacto.

Nunca fui dada a prestar atenção no cotidiano da vizinhança. Mas, diante desse isolamento social, passar 24 horas no apartamento, não tem como evitar. Ouve-se de tudo!

No prédio em frente ao meu, um casal jovem, mudou-se ano passado. Um estúdio moderno com panos de vidro que, de minha janela vê-se toda movimentação.

O que a princípio foi a constatação de um casal amoroso, bonito de se presenciar no dia a dia, aos poucos, a situação passou por mudanças drásticas. De um vinho rosé suave, frutado, por descuido, avinagrou.

Conviver é uma arte – alguém já disse isso. Vou além: conviver é tarefa hercúlea e requer muita elasticidade da alma. Adequar os gostos, hábitos e esquisitices de cada lado, não é fácil. Se apenas um recua para que o outro se esparrame, chega uma hora, que haverá confronto ou anulação total de uma das partes.

Foi o que acompanhei por aqui, deu-se a explosão da relação, não sobrando nada da beleza e delicadeza que vi no início da relação.

Gritos, ofensas de ambas as partes, quebra de objetos próximos e por último, violência física que terminou com a chegada da polícia.

A vizinhança assistindo de seus camarotes, gritavam de suas janelas, tentando chamá-los à razão. Impossível retirá-los da bolha emocional em que se encontravam. Não ouviam nem a si mesmos, o que dirá, ouvir os outros.

Com a chegada da polícia, cerrei minhas cortinas para esse espetáculo de horrores. Que tristeza ver humanos descer tão baixo em suas atitudes. Ontem, sábado, uma calmaria atravessou a rua. Quase nenhum som a não ser de alguns carros circulando e cães latindo. As persianas cerradas para o mundo aqui fora.

Acordei tarde nesse domingo. Ao abrir minha janela, dei de cara com o estúdio com suas persianas levantadas e… vazio. Restaram apenas caixas esparramadas pelo cômodo, alguns panos de chão abandonados na varanda, um rodo e uma vassoura em repouso, encostados na parede e – os cacos de uma relação – varridos e acomodados próximo à porta da saída.

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

Imagem licenciada: Shutterstock

6 comentários sobre “B.E.D.A. – Porcelana chinesa

  1. Está acontecendo muito isso e algumas pessoas “culpam” a pandemia…mas, eu imagino que já acontecia e a gente fingia não ver, ou não tinha tempo para ver.

  2. Eu tenho ouvido gritos e sons de louça quebrando na vizinhança e confesso que me incomodo. Nunca fui dada a frase “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Fico aflita. Ainda mais nesses tempos pandêmicos em que as distâncias nos impede de agir.

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