Sem raízes

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Pela enésima vez, arrumo meus parcos pertences e preparo para sumir no mundo. De criança, tornei-me uma espécie de cigano por não criar raízes em nenhum lugar. A cada mudança de vida, de lar, de pai, lá ia eu, juntando tralhas e caindo na estrada ao lado de minha mãe. Percorremos cidades, estados, vilarejos. Pernoitei em camas estranhas que – com o passar do tempo, tornaram-se minhas amigas confidentes.

Hoje, homem feito e barbado, ainda me pego ressuscitando o menino assustado que fui, cada vez que a decisão de partir se apresenta. Não aprendi a conviver com as pessoas.Trafego por vidas que passam pela minha sem deixar marcas. Muito cedo aprendi que amar nos faz sofrer e, por conta disso, não permito que germine em meu canteiro.

Prefiro ele árido, vazio. Mas, confesso que às vezes sinto uma pontada de inveja daqueles que, mesmo sabendo que amar dói, insistem e conquistam uma vida a dois. Observo casais que perambulam pelas avenidas de mãos dadas, corpos colados numa cumplicidade que jamais terei com ninguém. Nessas horas a solidão cala fundo e uma dor profunda atravessa meu coração. Outro dia cheguei a vomitar de tanto que doeu. Afoguei minha dor num litro de vodca e acordei num banco de praça depenado. Levaram tudo: celular, maço de cigarro, alguns trocados que defendi fazendo michê na Augusta e meu par de tênis surrado. Não liguei. Levantei, entrei num boteco suspeito, mijei num banheiro que nenhum ser humano entraria, lavei o rosto, mirei…

Meu reflexo num espelho embaçado. Não me reconheci. No que me transformei? Não sei.

Aqueles olhos sem vida, sem esperança que me olhava, incomodou. No passado, bonito que era, ganhava todas as moças das cidades por onde passava. Rosto perfeito, jovial, corpo atlético, papo garantido. Conquistei e sangrei muitos corações ingênuos. Acredito até que tenha descendentes por esse mundão que percorri. Conquistava, seduzia, transava e caía fora sem deixar pistas. Esse era meu modus operandi. Até que cansei disso também e passei a usar meu corpo apenas para conseguir dinheiro para me manter. Transformei-me numa verdadeira máquina do sexo. Bastava colocar algumas moedas e funcionava que era uma maravilha. Cheguei inclusive a ser chamado a fazer filme pornô. Um agente que foi meu cliente fez a tal proposta dizendo que poderia ficar rico com isso afinal, tinha corpo sarado, era bom de cama e tinha carisma diante de uma câmera. Topei. Fiz alguns, ganhei dinheiro mas em pouco tempo, isso também me desinteressou. Com o dinheiro ganho, comprei passagem para a Turquia e me mandei apenas com minha mochila. Ah! E claro, acompanhado de meu mais recente brinquedinho: um Iphone. Meu único luxo. No decorrer de minhas andanças, criei um museu particular onde deixo registrado lugares, pessoas, objetos que de alguma forma fizeram minha história. Foi a maneira que encontrei de me sentir inserido num contexto coletivo. Congelei sorrisos, abraços, paisagens. Quando a solidão e a depressão batem em minha porta, acesso meu álbum de fotos e navego recuperando uma falsa alegria. Pode ser falsa mas surte efeito na hora. E assim, tenho passado minha existência.

Acabo de chegar a Bodrum, outrora chamada Halikarnassos. Uma curiosidade sobre mim: adoro ler sobre os lugares que pretendo viver. Gosto de estudar sua cultura, povo e costumes. Passeio por suas ruas ensolaradas, observo as construções pintadas de branco, vislumbro os inúmeros barcos atracados e o mar lindo a me saudar e dar boas vindas.

Fiquei sabendo que a vida noturna por aqui é boa. Significa que terei clientela e diversão por uns tempos.

Que assim seja até a próxima crise me abater e sentir que devo partir novamente.

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Estado indefinível

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Choro uma dor sentida que ninguém é capaz de compreender. Para todos, encontro-me senil, débil, demente.
Ninguém compreende o que sinto e vejo ao meu redor. Tento falar, expor minha agonia, meu medo e ninguém me dá ouvido.
Pensam que não sei o que falam entre si. Acreditam que não ouço, não vejo, não sinto.
Acham que já me encontro em estado adiantado de putrefação física.
Pode até ser que em parte, isso seja verdade. No entanto, nunca estive tão lúcido.
Foi preciso viver um século para obter tal visão da vida e do mundo.
Agora eu jogo a pergunta a você: de que me serve tamanha clareza de tudo se ninguém me ouve? Ninguém acredita naquilo que falo.

De que me serve uma experiência de vida que adquiri através da labuta incessante, de pegar no cabo da enxada logo cedo, aprender mil ofícios para crescer, tornar-me homem de verdade, ajudar meus pais, meus irmãos? De que adiantou abdicar de uma vida adulta com família formada, mulher, filhos, netos?
Abri mão de tudo isso para ajudar papai e mamãe e o que ganhei em troca? Abandono.
Primeiro foi papai que partiu sem nem despedir da gente. A seguir, mamãe, inconformada com seu sumiço, abandonou a gente e nunca mais deu notícias…
Dá uma revolta pensar nisso!!
Levei uma vida inteira formando minha persona, fortalecendo-a na fé, no exemplo a ser seguido por todos. Tornei-me um guru para os mais novos. Um líder a ser seguido. Ganhei com o tempo muitos adeptos de meu estilo de vida. Fiz também muitos desafetos por ser inflexível com aqueles que não “rezavam pela minha cartilha”.
Quando mais novo, nem liguei para tais desafetos. Mas hoje, olhando para meu passado, confesso que fico incomodado.
Afastei de mim amigos que através de minha conduta, criaram reservas, se afastaram falando mal de mim.

Alguns chegaram inclusive a espalhar que eu havia me transformado num mascarado, num santo do pau oco, num falso cristão.
Logo eu, que transformei minha vida num eterno refazer espiritual, num ser moldável pelas palavras e exemplos de Cristo.
Assim como ele, fui incompreendido. Jogaram-me pedras morais que arranharam minha imagem. Por mais que tenha lutado, enfraqueci. Fui pouco a pouco diminuindo em essência e com o avançar dos anos, até minha estatura diminuiu.
Meus cabelos fartos foram rareando, platinando, meus olhos embaçando, minha pele perdeu o viço de outrora até que um dia, sucumbi.
De acordo com a medicina dos homens, tive um acidente vascular. Mas sei que foi minha alma que quedou do alto de meu orgulho de homem feito. A queda foi grande, o estrago imenso.
De lá pra cá, só decaindo ladeira abaixo.
Hoje, aos noventa anos, sinto que minha vida foi em vão. Toda energia empregada numa filosofia de vida que achei certa, corroborou, faliu, desmoronou feito castelo de areia.
Ruiu deixando a mostra, uma estrutura frágil de um ser humano prestes a deixar esse mundo da mesma forma que chegou: sem fala, sem movimentos equilibrados, mijando, defecando, babando e chorando muito. Um bebê crescido e fragilizado que só deseja retornar para o ventre aquecido e familiar de sua mãe. Seu verdadeiro lar.
Nascer dói por isso o bebê ao nascer chora. Um esforço sub-humano que fazemos para se deslocar expulsos da adorável placenta.

Morrer dói mais ainda porque ao cair nas malhas da matéria, nos iludimos uma vida inteira crendo que conquistou posição, bens, status.
Ledo engano.
Aos poucos tudo nos é tirado e ao término da vida, até a passagem é feita de forma solitária.
Sinto-me cansado. O esqueleto pesa, respirar cansa, comer – de um prazer, passou a uma tortura sem fim.
Hoje posso compreender as pessoas que desejam eutanásia. Sempre fui contra, mas só mesmo passando por tudo isso, é que se torna um simpatizante dessa atitude.
Não desejo mais viver. Não assim. Não nesse estado indefinível entre o lá e o cá.

 

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Dieta certeira

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Maria das Dores Eterno, mais conhecida como Dorinha, desde que se conhecia por gente vivia em dietas. A partir dos dezoito anos não parou mais de passar de uma para outra de forma maratonal. Se é que isso é possível. Ela fazia ser! Fazia assinatura das revistas que tratavam do assunto, assistia na TV tudo o que passava.

O que não dava tempo, gravava para ver depois. Com o advento da internet, virou internauta das mais fissuradas. Se especializou tanto no assunto que se transformou na guru das amigas e colegas de trabalho. Passou a dar consultoria em seu horário de almoço em pleno refeitório. Olhava as marmitas como verdadeira arqueóloga analisando calorias, proteínas, vitaminas e tudo o que faz de uma boa refeição um prato saudável. Muitas moças seguiram seus conselhos à risca e conseguiram bons resultados.

Em pouco tempo ganhou fama, notoriedade, até um blog criou e de lambança, muitos quilos extras. Já beirando os 110 quilos muito bem distribuídos ao redor de seus pneus bem calibrados e de seu pescoço inflado, procurou desesperadamente ajuda médica.

Expôs detalhadamente sua eterna batalha contra o peso e seu conhecimento aplicado que de nada lhe adiantava.

O médico – em silêncio analítico – após uns segundos recomendou tratamento a base de medicação e ao término aconselhou-a:

– Dona Maria das Dor…

– Dorinha, por favor! Eu prefiro.

– Perfeitamente Dorinha, siga minha orientação e aproveite e marque uma consulta com um bom terapeuta.

Se não conhecer ninguém, posso indicar uns três de minha confiança e que já trabalho junto com alguns pacientes.

Com expressão de estranhamento, Dorinha inquiriu o porquê do médico endócrino recomendar um acompanhamento terapêutico afinal, ela não era doida!

– Dorinha, muitas vezes, nosso excesso de peso está ligado diretamente ao emocional que por ene motivos se encontra em desequilíbrio. Se você já seguiu inúmeras dietas e nada conseguiu, pode ser que a chance de seu excesso de peso esteja ligado ao emocional. Não se trata de loucura mas sim de acertas as arestas do suas emoções e de como lidar com elas. Compreende?

– Sim, acho que sim. Doutor, tenho um pouco de medo de lidar com essas coisas mas passe o endereço que prometo marcar.

Após alguns dias em dúvida se ligava ou não, Dorinha respirou fundo e ligou marcando para aquele final de dia mesmo. Ao chegar ao consultório, entrou ressabiada com o que encontraria lá. Em segundos acalmou-se pois o consultório era como tantos outros que já entrara. Silêncio na sala de espera e ao fundo, uma música de Norah Jones tornava o ambiente mais aconchegante. Um som de porta se abrindo e em pouco tempo, surge uma jovem mulher que se posiciona à sua frente e com delicadeza oriental pergunta:

– Maria das Dores?

– Só Dorinha, por favor.

– Perfeito! Dorinha é mais carinhoso e torna nosso primeiro encontro mais tranquilo. Meu nome é Sônia, sou psicanalista da linha yunguiana e a partir de hoje sou toda ouvidos para você. Me acompanhe.

As sessões foram passando juntamente com as semanas, meses, um ano. Algumas delas foram terrivelmente sofridas levando Dorinha a quase desistir da terapia. No entanto, Sônia foi sempre uma mão preciosa estendida à pobre e sofrida mulher. Outras tantas sessões foram leves, engraçadas e assim, pouco a pouco, o equilíbrio foi se estabelecendo.

Vinte e seis de agosto, terça-feira. Dia de mais uma terapia. Dorinha se encontra um pouco ansiosa. Sente que hoje será de alguma forma diferente. A porta se abre e uma voz chama Dorinha, que se levanta pesadamente e some por trás da porta.

– Como passou a semana?

– Mais ou menos. Tenho momentos de leveza permeado de tantos outros que parecem pesar mais que eu.

Sinto dores horríveis pelo corpo. À noite quase não tenho conseguido dormir por conta dessas dores.

Minha irmã mais nova, Maria dos Prazeres, vive rindo de mim dizendo que nossos pais escolheram nossos nomes a dedo. E que personifico muito bem o significado de meu nome. Assim como o dela.

Olhando-a profundamente por alguns segundos, Sônia sorri e diz calmamente:

– Dorinha, ainda vamos trabalhar muito essa sua relação com sua irmã e o significado de seus nomes. Hoje, o que tenho a dizer e que quero muito contar com sua ajuda, é o seguinte: acredito que descobri a origem de sua obesidade.

– Sério mesmo? Descobriu? Vou poder agora emagrecer e me sentir mais leve? Ahh… Graças a Deus! Graças à você. Mas me diz,o que descobriu?

– Nesses meses em que temos nos encontrado semanalmente, tenho formado um verdadeiro mosaico de você e sua vida(familiar, profissional, pessoal) e acredito ter achado um ponto em comum que liga todos.

– Fala Sônia!

– Seu nome, sem dúvida de alguma forma é um peso em você. Tanto que prefere ser chamada por Dorinha, que soa mais leve, mais amistoso. Você seguiu direitinho. Quanto a isso está de parabéns pois demonstra disciplina em tudo o que faz. No entanto, observei que desde sua infância você devora de forma constante um alimento que entope, que incha e que talvez seja o motivo de toda sua gordura: você se alimenta de forma quase instantânea de sapos.

– Como assim? Não entendi? Não costumo comer rãs.

– Não disse rãs Dorinha. Disse sapos. Você é uma tremenda devoradora de sapos. Engole todos. Isso está te fazendo mal. Silêncio absoluto na sala.

Dorinha parece uma estátua não movendo nenhum músculo. Nem mesmo sua respiração se percebe.

Sônia aguarda respeitando o momento de intervir. Somente o tic-tac do relógio se manifesta.

Gradualmente a máscara gélida vai se derretendo e, de pálida, passa a um colorido carmin. Lábios trêmulos e olhar apertado. Um choro manso e quase silencioso começa a brotar até transformar-se num desespero pleno.

Sônia continua em silêncio. Essa desintoxicação se faz necessária para que a paciente descarregue toda essa comilança mal digerida de atitudes que tanto lhe fizeram mal. Muitos de nós, no dia a dia faz dessa dieta certeira, o combustível nefasto para inflar nosso interior, nosso corpo que nada mais é, que reflexo de tudo o que nos faz bem ou mal.

 

Imagem: Fernando Botero

Despregando memórias

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Hoje amanheci com o coração aos pulos de alegria e uma felicidade que há muito não sentia. Acordei sentindo seu cheiro amadeirado, seu hálito quente, sua língua exploratória, seu toque inconfundível. Demorei a abrir os olhos pois não desejava retornar à realidade. Ali, na penumbra do quarto, mantive-me quietinha, inerte, quase sem respirar só para não quebrar o encantamento daquele momento.

Resgatar os instantes que passamos juntos é talvez, a melhor coisa que a memória faz por nós. Lembrei de uma frase sua:

‘É bom sentir saudade. É sinal que vivemos algo, construímos algo. Esses momentos são pedras preciosas que carregamos até o fim de nossas vidas. Guarde-as com carinho meu amor.”

Lembra disso? Eu gravei essa e muitas outras coisas suas. Nossas.

Não tivemos a chance de construir muitas coisas. Muito pelo contrário, o tempo foi algoz, o destino atroz no entanto, o pouco que conseguimos, ficou.

E passado tantos anos…Pra falar a verdade, décadas,  parece que tudo aconteceu ontem.

Hoje, vivo sozinha numa bela casa de repouso. Não quis saber de morar com minha filha. Ela tem sua vida, sua família, seu trabalho. Seria um fardo pesado demais em suas costas. Como no decorrer dos anos soube investir meu dinheiro, hoje posso me dar o luxo de pagar por esse “depósito” de idosos. Aqui tenho tudo o que preciso: quarto individual com banheiro adaptado, refeições bem feitas e diversificadas, uma TV no quarto que dificilmente assisto. Somente quando perco o sono pela madrugada e busco esquecer a realidade é que ligo a fábrica de sonhos. Só que, pra falar a verdade quase nunca presto atenção. É mais pelo som, pela imagem que me faz sentir menos sozinha. Continuo a ler muito só que agora seleciono minhas leituras garimpando livros que tenha uma fonte maior para poder enxergar bem. Sabe como é, coisa da idade. Ah! Outra coisa que adquiri com o tempo: escrever.

Coleciono uma dezena de cadernos com manuscritos meus. São coisas bobas, do cotidiano. Um filtro que passo em tudo o que vivencio, vejo e transformo em narrativas. Não tenho e nunca tive pretensões literárias. Sei que não levo jeito pra competir com tanta gente talentosa mas, tornou-se um bom passatempo enquanto ela, a morte, não se lembra de vir me buscar.

O que? Você acha que tenho medo dela? Nem um pouco! No passado, quando jovem e com uma vida inteira pela frente, sentia sim. Mas hoje, no alto de meus oitenta e oito anos, penso nela como uma companheira atenciosa, prestativa, certeira. Talvez a única que tenha um real olhar para mim. Sim porque, velhos costumam ser invisíveis e recebem olhar que atravessam e não permanecem. Entende a diferença? Não? Pode ser porque você ainda é jovem. Quando chegar a minha idade saberá do que falo.

Osório, a única queixa que tenho sobre o tempo e a memória, é que aos poucos, todos os nossos arquivos de vida vão desbotando. Você, por exemplo, não consigo mais fixar os detalhes de sua figura que era tão bonita. Meu cérebro já não funciona tão bem como antes. Outro dia até caí na risa sozinha quando vi que estava trocando seu nome. Logo seu nome que foi tão importante pra mim. Escrevia sobre você em meu caderno e, quando parei para ler, vi que tinha te chamado de Tenório. Imagina só.

Que pena, a consciência vai dominando meu corpo enrugado e aos poucos, por mais que lute contra, sua imagem, seu cheiro e tudo o que te compõe vai sumindo. Ficando apenas uma vaga sensação delirante. Sinto que estou despregando memórias. Ao final, acho que nada se manterá, apenas um vazio de vida.

Envelhecer tem disso. Deve ser também a reação aos remédios. São tantos que nos fazem engolir!

“Acorda dona Tereza! O dia está lindo lá fora. Vamos tomar o café da manhã e depois, um pouco de sol” – dito isso, a cuidadora abriu as cortinas inundando o quarto de luz e de realidade.

Acumuladora

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Desde a mais longínqua lembrança, talvez pelos idos dos três anos, me transformei numa acumuladora.

Hoje, aos cinquenta anos, trago meus espaços lotados de coisas que fui catando e guardando sempre com o seguinte pensamento que ouvi muito de minha mãe e avó: Guarda que mais tarde pode precisar.

E assim fui seguindo a vida. Caminhando, abaixando-se para coletar coisas, pessoas, sentimentos, momentos, objetos. Com o espírito arquivista com que nasci, fui catalogando tudo. Nomeei, indexei, separei em diversas gavetas, armários, espaços que pouco a pouco fui abarrotando até que chegou um dado momento, bagunçou tudo!

Quando dei por mim, vi que havia se misturado alhos com bugalhos: lembranças, sentimentos, roupas, cartões postais, cartões de aniversário, papel de presente, roupas, calçados, lágrimas, amores perdidos, amores frustrados, jóias e minh’alma. Tudo junto e misturado. Sabe o que ganhei com tudo isso? Uma bela de uma camisa de força e férias por tempo indeterminado num spa que remodela a mente chamado “Hospício Sai dessa se for capaz”.

Nos primeiros dias fiz um tratamento de sonoterapia. Mandaram ver num sossega leão. Após uma semana, passei a conviver com outros acumuladores feito eu. Só que esses, acumulavam neuroses, esquizofrenias, doideira mesmo!

Bem diferentes de mim que só coleciono coisas boas, porque, vejam bem: louca eu não sou!

O coquetel de medicações fortes não conseguiram aplacar minha sede de catalogação. Em pouco tempo passei a colecionar e classificar tipos de doidos que haviam por lá afinal, tempo era o que mais tinha.

Na classificação FJ(Ficção infantil):

  • Nininha, da cara inchada com sua boneca de trapo;
  • Soladopé Bichado, com seu alicate de unha de plástico;
  • Suorembicas, com sua toalhinha rosa bordada com seu nome de batismo (Noeli);
  • Zéruela Frouxa, com seu carrinho de madeira

Na classificação 100 (Filosofia):

  • Sócrates no Latão, pinguço metido a filósofo que só fala coisa trash;
  • Sulamita Mente lerda, segundo soube, antiga professora de sociologia que pirou na batatinha quando largada no altar;
  • Voz da Razão, negro sério que viveu em Itapuã e gostava de discursar

Na classificação 200 (Religião):

Nessa classificação encontrei maior número de doidos. Não sei se tem alguma relação ou foi simplesmente coincidência.

  • Ruth, a enviada de Deus, senhora apática que passa o dia murmurando lições que o poderoso lhe passa;
  • Sarah, a pecadora, mulher de seus quarenta anos que deve ter sido bonita algum dia. Segundo dizem, prostituiu-se na rua Aurora, adquiriu gonorreia e sífilis que a fizeram endoidar de vez;
  • Jonathá, o iluminado. Albino de nascença que sabe a Biblía de trás pra frente e vice-versa;
  • Tião da bata, ex-seminarista que foi pego fazendo oral na meninada em fila no banheiro. A culpa e vergonha foram tamanha que despirocou o pobre de vez. Vive em penitência;
  • Celsinho de Iansã, meninomoça que servia os orixás e toda a gleba de seu terreiro. Segundo dizem, tem um encosto bravo de uma pomba gira. Vive se esfregando nos muros e nos homens;
  • Irmã Celeste da boca faminta, freirinha safada que não podia ver um padre que já saia babando e se molhando toda;
  • Mente Entorpecida de Sermão, evangélico chato que roubou até a mãe, se meteu em política, tomou uma coça de uns manos do Capão Redondo por extraviar dinheiro de drogas e de tanto apanhar, perdeu a razão. Passa os dias declamando sermão se achando Jesus Cristo na montanha;
  • Josué, o enviado de Jeová, cara chato como todos os fanáticos religiosos. Vive isolado porque não gosta de se misturar com os pecadores. A noite, em seu quarto bate punheta até se extasiar e sempre termina gritando: “Glória a Deus nas alturas e gozo eterno aos homens de boa vontade!”

Na classificação 500 (Ciências):

  • SantaFé, quando jovem cursou química e vive entre seus parcos livros desenvolvendo fórmulas e equações;

Na classificação 700 (Artes):

  • Bernardo Escultor, quando jovem percorreu a Europa, fixou moradia na Holanda, cheirou todas, fumou todas e acabou com sua massa cinzenta. Hoje passa seus dias lunático olhando o nada e esculpindo barro. Surta de vez em quando e vai para a solitária pensar na vida;
  • Catarina mãos de fada, cantora lírica, bailarina, atriz performática que afetou suas idéias de tanto beber. Ainda conserva sua bela voz e de vez em quando nos brinca com suas melodiosas e tristes canções

Na classificação 800 (Literatura):

Você leitor talvez me colocasse aqui nessa classificação mas eu não me coloco não afinal, doida não sou. Mas tem alguns escritores por aqui sim.

  • Luciano da Pena Corrida, escritor de cordel. Homem talentoso apesar de pirado;
  • Selena Vira Página, poeta ultrarromântica, depois que levou um pé na bunda de seu último partner, cortou os pulsos mas sobreviveu… ou não, sei lá;
  • Virgulino Dois Pontos, escritor macambúzio, vive pelos cantos. Escreveu tantos contos surrealistas e fantásticos que foi-se para o mundo da fantasia e nunca mais retornou. Ficou somente sua carcaça envelhecendo e apodrecendo nesse depósito de loucos

Caio num choro sem fim ao constatar que algum outro maluco talvez esteja me olhando, analisando e me catalogando como um ser estranho, mais uma maluca com mania de acumular lixo.

Mas em minha defesa, digo que minha loucura foi amar demais, viver demais, sentir demais…

É, acho que não tenho cura mesmo. Acumularei até afogar em minhas aquisições de vida. Muita vida.

 

Imagem: David Walker

Doce amargor

Receio esticar os braços e tentar alcançar as estrelas. Medo de me queimar com sua luminosidade.

Da mesma forma, tenho medo de te tocar e me queimar com sua temperatura siberiana.

Prefiro me ater aos sonhos no qual tudo posso. Inclusive amar e ser amada por você.

Loucura? Covardia? Sim, os dois, assumidamente.

Não me envergonho de ter medo de arriscar, de sair da zona de conforto. Já fiz isso anteriormente e me dei mal.

Até hoje o sal que destilei arde a pele, cozinha minhas entranhas, deixou viscoso meus sentimentos… Quisera ser forte para enfrentar a possibilidade de um não, quisera ter forças para te puxar pelo colarinho e te situar sobre meu amor.

Te fazer enxergar que sem mim não é ninguém, não é feliz. Quimera!

Aqui em meu cantinho, busco inspirações em canções para te fazer real. Um amor de verdade feito romance Sabrina. Doce feito brevidade de vovó. No entanto, a realidade é amarga num misto de docefel.

Duro feito rapadura que a gente segura e lambe até se arrepiar. De você não me enjoo.

Lamberia até se esvair de amor por mim.

Ai de mim! Nem me nota!

Invisibilidade

A telinha a mantinha sociável e bem acompanhada. Mas…Que vontade de botar a cara para fora de casa e explorar o mundo exterior. Tinha medo!

Lá, naquele mundo virtual, tudo era fácil, rápido, bonito. Em pouco tempo, havia angariado uma leva de amigos virtuais que curtiam tudo o que escrevia. Sentia-se feliz, estava se tornando popular.

Mas aquela vontade de sair de seu quadradinho e ganhar o mundo, vira e mexe voltava e a deixava inquieta, angustiada. Queria mas não tinha coragem de se expor.

Fora criada com excesso de proteção. Primeiro por seus pais que enchiam a menina de mimos, brinquedos, carinho.

Depois da morte súbita de ambos, passou  aos cuidados de sua avó materna que, temerosa de que algo prejudicasse a menina, passou a sufocar e a superproteger de tudo e de todos.

Aos onze anos Donatella não quis mais saber de estudar e vó Rita fez sua vontade. Até gostou de ter sua neta o tempo todo em casa, em segurança.

Passaram-se anos vivendo da mesma forma. Rotina caseira, afazeres domésticos, quase não saía de dentro de casa.

A vida até que era boa! Dormia até tarde, comia a hora que quisesse, colhia em sua casa todos os bichinhos que por ali aparecesse pedindo abrigo. Para que pedir mais da vida?

Só que ela, a vida, não pensa da mesma forma e tratou de sacudir aquela existência paralisada. Ela, a vida, não aceita pessoas que embarcam nela para passar férias. Aqui, temos de labutar muito e provar a que viemos. Ninguém ganha ingresso vip para passar por aqui em brancas nuvens.

Avó Rita morre deixando Donatella aos cuidados de tia Noêmia, irmã mais velha de seu pai. Não se dão bem. Brigam o tempo inteiro. Noêmia, após um ano ao lado daquela sobrinha birrenta, muda-se para uma cidade interiorana sem deixar endereço.

Novamente Donatella se vê abandonada e, contra vontade, vai para a casa de sua outra tia Ruthnéia, irmã de sua mãe. Encontra no coração da tia, uma figura materna que retomará os cuidados com a já não menina.

Para garantir sua estada dentro de casa, compra um computador e ensina a utilizar tal ferramenta.

Aos cinquenta e sete anos, já trazendo em sua têmpora, fios grisalhos, Dona, sente que perdeu alguma coisa mas não sabe bem o quê. Anda preocupada vendo sua tia pouco a pouco perder a visão, a audição, o andar que antes era ligeiro e que hoje, não passa de um arrastar de pés cansados de viver.

Ela mesma já sente sua visão drasticamente reduzida, sua pele não é mais vistosa e macia quanto antes. Tem perdido o sono pensando que em breve perderá a companhia de sua doce tia. O que será de sua vida depois disso? Não tem mais ninguém, não sabe fazer nada afinal, sempre teve quem fizesse tudo por ela. O medo torna-se presença constante por aquilo que está por vir.

Tarde de domingo, chuvoso, cinzento, frio. Donatella se arrumou como pode, e está há quase duas horas ensaiando para sair de casa. Já foi a té a porta inúmeras vezes, toca a maçaneta e retira a mão como se recebesse uma descarga elétrica. Coça a cabeça, pisca, geme e volta a se sentar no sofá roto pelo uso de tantas décadas. Tudo ao seu redor envelheceu assim como ela. Hoje faz seis meses que sua tia não acordou mais. Há seis meses que vive solitária tendo como companhia apenas o computador desligado devido as contas da internet não pagas que a impediram de continuar as conversas e a interação com seus amiguinhos virtuais e os três gatos que sobraram daqueles dezessete que teve um dia. A solidão lhe pesa. A fome lhe abate pois nos últimos dias só tem ingerido restos da despensa farta que sua tia deixou. Parece até que já adivinhava que em breve partiria e fez questão de deixar para a sobrinha, um estoque de guerra que a sustentou por um tempo mas, como tudo nessa vida acaba, chegou ao fim.

Sente-se fraca, cansada, com medo. Lembra-se de umas primas distantes que perdeu contato há muitos anos. Tenta por todas as vias lembrar do endereço delas. Não consegue. Nunca foi ligada nesses assuntos de anotar endereço de ninguém. Nunca precisou! Sempre teve quem fizesse e se preocupasse com isso!

Percebe tardiamente o quanto foi prejudicada em sua criação. A intenção de todos até que foi boa mas a deixaram aleijada diante da vida. Chora baixinho lamentando seu triste destino. Sabe muito bem qual é e apenas aguarda o desfecho. Aceita.

– Alô, é da polícia né? Por favor, tem algo estranho acontecendo no número 143 da rua das Ortigas. Tem gatos trancados lá dentro que miam há dias sem parar, arranham portas e, confesso que eu e meu marido temos sentido um cheiro estranho vindo de lá. Como? Se conheço os moradores? Olha seu policial, conhecia a senhora que morreu há meses. Sei que tinha mais alguém lá mas nunca vi. Meu marido diz que já tinha visto uma outra mulher que morava lá e dificilmente saía de casa. Mas eu mesma nunca vi tal pessoa.

No barulho de meus silêncios

E elas – as pessoas – continuam a falar, falar, falar… E eu, continuo fechada de forma hermética num aquário invisível onde somente eu vejo. Habito nele quando sinto cansaço de vida. Dessa vida.

Suspiro!

Apaixonada benhê? – alguém grita de longe, logo aqui ao meu lado.

Respondo em meu interior: Não. Talvez a falta da paixão é que me deixe assim, desfragmentada, em pedaços nano espalhada por todo espaço que circulo.

No fone de ouvido, ouço “Universo no teu corpo”, Taiguara. Viajo para mais longe ainda. Imagino esse amor que nunca conheci a não ser nas letras musicais e folhetins. Miragem.

Agora ouço “Hoje” e sinto meus olhos se inundarem. Identifico-me com a melancolia dessa canção. Sou toda ela.

Meu eu interior se aperta num corselete antigo. Sou vintage assumida. A modernidade me cansa. Sinto exaustão.

Anseio retornar para meu mundo que ainda não descobri qual é. Com certeza não é esse que em vivo.

Algum desavisado, lendo isso pode julgar que estou depressiva, prestes a cortar os pulsos ou pular do alto de um prédio. Não seria corajosa a esse ponto!

Encolhida em minha pequenez, percorro os dias, catando migalhas de alegrias, colecionando sorrisos congelados num fash de instagran, interpretando e convencendo a todos que sou feliz. Feliz? Nem sei o que é isso!

No entanto, mantenho a pose de boa menina sendo cortês com todos, cumprindo minhas obrigações, pagando minhas contas, servindo de exemplo a quem procura algo que também não sabe o que, assim como eu.

Isso é viver? Vivo.

E as falas continuam num ritmo febril…

Gralhas… Elas são muitas e afoitas. É o desespero que as força a falar sem parar porque se calarem, ouvirão o mesmo silêncio que ouço e nem todos têm couraça endurecida para aguentar o tranco. O silêncio fere, rasga, sangra e pode até matar quem não está preparado para ele.

Olho o relógio. Quase hora de fechar mais um ciclo dessa modorrenta vida. Chego a lembrar dos livros de Clarice Lispector que nunca cheguei a ler. Alguém certa vez me disse que pareço personagem dela. Na época não entendi mas acho que posso tomar como elogio. Nem sei porque isso me veio à lembrança.

Talvez um dia me empolgue a ler algo dela. Quem sabe…

E elas continuam a falar, e a falar e a falar…

Mergulho no oceano escuro que se forma em minha mente. Aqui, é escuro, silencioso, suas águas são paradas e mornas.

Tenho paz.

Infância roubada

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Olhinhos orientais pousaram em mim e calados, diziam muito. Não, minto. Não diziam, gritavam de forma desesperadora pedindo socorro e um pouco de atenção.

Sentindo a força daquele olhar, parei o que fazia e olhei para o balcão vendo aquela cabecinha lustrosa.

Perguntei se desejava algum livro. Tive o silêncio como resposta mas aquele olhar…

Levantei-me, cheguei mais perto e olhando-a nos olhos perguntei novamente: Precisa de algo? Pode falar. E arrematei minha fala com um sorriso aberto. Surtiu efeito.

De forma quase inaudível, ela balbuciou:

– Não sei quem devo obedecer. Minha terapeuta ou minha mãe… – e deixando a frase no ar abaixou os olhinhos feito uma gueixa desconsolada.

– Por que diz isso? Obedecer em que?

– Minha terapeuta diz para eu fazer somente a lição do dia e o resto do tempo, brincar. Já minha mãe quer que eu faça todas as lições da semana de uma vez… Tia, não sei o que fazer…

Tocada pelas palavras e pelo tom que a pequena usou em sua fala, fiquei de coração apertado.

– Você não brinca?

– Não. Não tenho com quem brincar e minha mãe disse que já passei da idade de brincar… Mas eu queria tanto!

– Não tem irmãos? Primos? Amiguinhos?

– Não, sou sozinha tia. Não tenho ninguém, nenhum amiguinho…

– Você mora em prédio ou casa?

– Prédio tia… na Vila Madalena e não tem crianças por lá… Sou tão sozinha

E falando isso, a pobre garota começou a girar os olhinhos em suas órbitas me deixando agoniada pensando que pudesse estar tento algum surto.

– R, tudo bem? Por que não trás algum brinquedo para a escola? Você fica aqui o dia inteiro, poderia fazer suas lições e depois brincar um pouco.

– Tia, até o ano passado trazia meu ursinho e minha boneca mas minha mãe proibiu dizendo que já estou grande para isso e não deixa mais eu trazer. Sinto tanta vontade de brincar…

Pensativa perguntei:

– E nos finais de semana? Seus pais não te levam a parques para brincar, andar de bicicleta, de patins…

– Não. Eles não têm tempo para mim. Trabalham muito…

Esse desabafo me fez ficar dias seguidos pensando no quanto as crianças de hoje estão sendo “roubadas” de sua infância. Direito esse, fundamental para o futuro adulto. E no entanto, pais de hoje se preocupam tanto em manter seus filhos presos a uma agenda apertadíssima entre judô, natação, inglês, informática, espanhol e tantas matérias e coisas para prepará-los para o futuro, que esquecem que a infância é uma só vez na vida e que passa rápido demais.

Nossas crianças não sabem mais brincar! Desde cedo, têm sua ingenuidade e pureza arrancadas pela telinha da TV e do computador. São reféns da “modernidade” e passam sua infância enclausurados nos prédios onde moram e entre os muros das escolas. Observo isso nos olhos sem brilho das crianças do colégio onde trabalho. Se cansam de estudar e saem correndo pelo pátio, gritam avisando que não podem correr nem brincar. Se tentar entrar no playground, são expulsos alegando não terem mais idade para isso. Ficam totalmente deslocadas e perdidas restando apenas passarem na lanchonete, se empanturrarem de guloseimas engordativas para aplacar sua fome de vida, de atenção, de amor dos adultos voltando a seguir, para o reduto que lhes resta: a biblioteca. Depósito de livros e crianças órfãs de pais vivos e extremamente ocupados.

Desculpem-me esse texto desabafo mas é que, para quem foi criança até os dezenove anos, brincou na rua, se estourou inteira pulando muros e cercas, tomou boladas terríveis nas queimadas da vida, estourou seu couro andando de rolemã, ser testemunha de uma infância roubada, dói demais e me revolta.

Adultos, vamos devolver a infância para quem é de direito: Nossas crianças!

Feliz Dia das Crianças!

Imagem licenciada Sutterstock

Happy birthday to you!

Não é tristeza o que sinto no momento.

É… Não sei traduzir em palavras, mas chega quase a ser uma não existência. Uma sensação de morte em vida, pois vida, significa pulsar o coração, correr o sangue nas artérias, mover os músculos do corpo, piscar os olhos diante das novidades, o cérebro registrar tudo o que chega aos seus arquivos.

A data de hoje – piscando em neon – não causa nenhuma reação às minhas retinas embaçadas, sem lubrificação. Secas feito meu coração que emudeceu no instante em que matei você em minha vida.

E a tela continua a brilhar e a piscar me convidando para sua festa ao qual não fui convidada. Nem por você, nem por mim. Neguei minha participação em sua existência.

Pensei ser fácil te arrancar de minha vida zerando álbuns de fotografia, excluindo-te de minhas redes sociais, apagando nossas inúmeras e intensas conversas online, seu número de telefone do meu celular, queimando seus poemas que tanto amava ler e reler e reler…

Tudo em vão.

Ontem, ao deitar a cabeça no travesseiro, a primeira coisa que me veio à mente foi sua imagem. Nítida. Senti seu cheiro no ar como todas as vezes em que ficamos juntos sorvendo a intimidade de nossos corpos.

Teletransportei-me à sua casa, adentrei a intimidade de seu quarto, te vi sentado à cama, te envolvi e depositei carinhosamente um ósculo em sua testa. Como sempre gostava de fazer toda vez que nos amávamos.

Lembra?

Você ficava bravo com essa minha atitude. Dizia que isso era coisa de mãe e mãe, você já tinha uma.

Ria de sua indignação e tornava a pegar entre minhas mãos sua cabeça e, novamente te beijava até você amolecer diante de minha genuína demonstração de amor e se rendia de corpo e alma a mim, fêmea sedenta de seu corpo e alma.

Hoje, ao acordar, também foi meu primeiro pensamento: você, seu aniversário.

E o dia passou despertando várias vezes o desejo quase doentio de te ligar como se nada houvesse acontecido e compartilhar sua alegria comigo. Como fazíamos anos atrás.

Feito adicto, me peguei inúmeras vezes pegando o celular e teclando seu número que mesmo apagado da agenda, tenho gravado na memória. Mãos trêmulas, sudorese inundando a palma das mãos, respiração entrecortada, boca seca. Quando dava pelo ato falho, jogava longe o celular como se tivesse recebido um choque de 500 watts.

Desejava chorar, mas as lágrimas – até elas – se negam a me fazer companhia na data de hoje.

Cansada, deito-me encolhida abraçada a mim mesma. Só percebo que anoiteceu novamente por conta da penumbra que inundou o quarto. Um som de piano ao longe serve de trilha sonora para esse momento: um lamento.

A voz de Pedro Mariano cantando Roberto Carlos… seu cantor preferido.

Aos poucos uma comporta se abre no peito deixando vir a tona toda antiga tristeza que seu amor me trás. Uma tímida lágrima inaugura o percurso.

Em seguida outra, e outra e outra até se transformar num esgar intermitente de emoções represadas por meses tentando ser-te indiferente. Um grunhido animalesco sai de minhas entranhas e toma conta do ambiente.

Transformo-me em loba desesperada por sua prenha perdida. Grito até perder as forças caindo num estado de transe hipnótico.

Silêncio.

Olhos parados, secos, lágrimas escorridas, boca aberta babando saliva e uma frase inaudita:

Happy birthday to you!

 

Imagem: Dreamstime

vídeo: Youtube (Fátima Ferreira)