A realidade podia roubar um pouco da ficção

De criança, gostava muito de assistir Star Trek ou, Jornada nas Estrelas, como ficou conhecido aqui em terra brasilis. Desbravar o universo, se aventurar, se teletransportar…

Hoje, acordei pensando nisso.

A humanidade obteve tantas conquistas tecnológicas mas ainda não conseguimos alcançar essa possibilidade.

Que pena. Deve haver muitos interesses contrários a isso, ou já estariamos com mais essa vantagem conquistada.

Pararam para pensar? Eu consigo me imaginar usando um aparelho semelhante a um smartphone, que tem o poder de desintegrar todas as minhas moléculas e enviá-las onde desejar. Assim, em questão de segundos. Com isso em mãos, adeus filas em transportes públicos, aeroportos. Adeus engarrafamentos na descida para o litoral em feriados prolongados.

Teria a felicidade de conhecer diversos lugares numa única férias. Dispensaríamos também as estadias salgadas em hotéis afinal, poderíamos passar o dia viajando, conhecendo lugares. Ao término, regressar e dormir no conforto de nossas camas, descansando nossas cabeças em travesseiros com nosso molde. Adormecer sentindo o cheirinho ao qual estamos acostumados. Seria a glória, não é mesmo?

Outra vantagem: não precisar nunca mais carregar malas lotadas daquilo não precisamos. Seria uma libertação!

Hoje, acordei pensando nisso.

Uma vontade absurda de me desintegrar e teletransportar – molécula por molécula – e me moldar inteirinha num abraço caloroso envolta pelo carinho e cheiro de minha mãe.

Por hora, contrariando nossas expectativas e desejos, o jeito é se consolar com nossos encontros formados por milhões de pixels, satisfazendo a vontade de estarmos juntos . Feliz Dia das Mães. Para todas, daqui e as que se encontram em outras esferas.

Pesar

Acordei mais pobre. Conta corrente com vazamento, escoando para pagamentos de inúmeras contas mensais. Isso não me assusta afinal, faz parte do cotidiano.

Preparar meu desjejum hoje, foi ato mecânico assim como me alimentar dele. O prazer em degustá-lo passou distante, diante de notícias tão tristes.

Esse nosso “novo normal” tem sido uma mescla de sentimentos – quase todos – provação diária.

Literalmente, nos encontramos numa temporada do programa No Limite. Só que sem a superprodução global. A vida como ela é, sem retoques, nem edição.

Perdas incalculáveis são acrescentadas às famílias brasileiras. Fome aumentando, famintos idem. E a fome gananciosa desses seres que não nos representam cresce deslavadamente. Sem máscaras no rosto e na alma. Se é que podemos dizer que tais criaturas têm alma. Creio que não.

Economia em descida vertiginosa, empresas demitindo, comércios fechando e festas clandestinas explodindo por toda parte.

Hoje, o que mais cresce entre nós, são covas abertas aguardando os próximos corpos. CPI da Covid, chacina de inocentes, gritos de louvação pela campeã Juliette, gritos na rua de anônimos enlouquecidos pelo crack, desacordos na quebra das batentes das vacinas…

Hoje, decididamente acordei mais pobre. Tiraram nosso riso fácil, mataram o que tínhamos de melhor – o humor!

B.E.D.A. – Cindy Crowford por um dia

Não sei quanto a você mas eu, aos dezenove anos, exalava vapores de fantasia, muita alegria e, zero de bom senso. Ou seja, totalmente na normalidade.

Para ajudar nas finanças da casa, comecei a trabalhar muito cedo. Meu primeiro emprego foi numa loja popular, onde ouvia o dia inteiro canções de Roberto Carlos. Nada contra o rei mas, ele era a paixão da minha patroa, aiaiai, haja romantismo!

Cinco anos mais tarde, meados de 1982, consegui um emprego numa boutique de calçados finos. Era só sair de casa, atravessar a rua e já estava no trabalho. Os donos, um casal de artistas que mantinham ao lado da loja, uma galeria de artes. Aprendi muito com eles e ouvi muitas histórias. Passei uns anos divertidos.

Paquerei muito também. A loja ficava numa esquina com visão total de duas ruas, uma praça e uma lanchonete que era o point da rapaziada bonita. Fiz muitas amizades no período em que trabalhei lá. Até um namoradinho mais sem noção que eu, arranjei.

Como não tínhamos celular na década de oitenta, nos comunicávamos olho no olho mesmo. Oh coisa boa! Certa tarde, estava eu sozinha na loja e a falta de movimento, me entediava. Até que estacionou uma Variant e, desceu o Boris. Alemão de dois metros de altura e um coração imenso. Recordo que ele – entre outras atividades – era um excelente fotógrafo.

Chegou com un sorriso, me cumprimentando e perguntou se eu queria fazer uns ensaios fotográficos. Queria me dar de presente de aniversário.

Topei na hora e foi lá, em pleno horário de trabalho, que minha porção Cindy Crowford se materializou. É claro que nunca tive o biotipo top model mas, como sonhar não paga imposto, me diverti pra valer naquela tarde fazendo caras, bocas e poses, muitas poses.

Perdi contato com o Boris. Hoje, não consigo nem mesmo lembrar seu sobrenome. Que lástima! Sobrou apenas o álbum de fotos e sua dedicatória.

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

B.E.D.A. – Vida passada a limpo

Eureka, sabe o que constatei? Um dos indicadores de que entramos na maturidade são as mudanças de hábitos. Um dos mais gritantes: passar roupas.

De criança, observava as atividades domésticas das mulheres adultas: escolher um dia da semana para trocar as roupas de cama. Um acúmulo de lençóis, fronhas, colchas, cobertores.

Também tinha o dia de lavar as toalhas de banho, de mesa, roupas da família, roupas de trabalho de meu pai.

Era uma trabalheira! Só de olhar, já ficava cansada. Corria pra rua brincar.

Recordo que minha avó, mãe e tia se reuniam para lavar no tanque, esfregar, torcer, enxaguar…Quarar!

Palavra antiga que hoje ninguém conhece e muito menos faz o uso prático: segundo o dicionário Caldas Aulete, que pousa aqui do meu lado: ato de branquear a roupa ao sol. Elas faziam isso!

Roupas secas, recolhidas, hora de passar e guardar. Achava isso uma perda de tempo enorme…

Amanheci doméstica. Após o café da manhã, abri o guarda roupa e vi uma pilha de roupas de cama limpas, prontas para? Passar é claro!

Gentem, envelheci! É sério. Dei de fazer isso e quer saber? Tomei gosto!

Enquanto faço carícias mornas no lençol cem por cento algodão egípcio, com quatrocentos fios – reflito.

Mudei muito nesses três últimos anos. Muito mais nesse isolamento imposto. Percebo que sou como esse tecido. Com o passar dos anos, amaciei. Ganhei vincos, muitos por sinal porém, ao contrário do lençol, meus vincos são prova de que estou viva . São marcas das inúmeras experiências obtidas, conquistadas.

Trago cicatrizes também. Da mesma forma que esse cerzido, no canto esquerdo da alva fronha, que peguei para passar. Fruto de um ato estabanado. Penso que somos assim. Carrego diversas cicatrizes pelo corpo. Registros de minha infância passada na rua de casa, ao lado de um número considerável de crianças da vizinhança.

Tenho uma caixinha repleta de cicatrizes n’alma. Fruto de escolhas mal sucedidas, decepções, traições. Essa caixinha, quase ninguém conhece. Mantenho-a trancada, longe de todos. Às vezes, esqueço sua existência.

Tenho feito dessa atividade, uma finalidade dupla: passar a limpo as roupas da casa e também a vida, observando pontos que ainda me incomodam, situações que se repetem. Terapia caseira que tem me ajudado. Acalma.

Minha mente vai longe e ainda encontro temas para meus escritos. Na falta de outras atividades a cumprir, tenho cuidado de cada cantinho do meu habitat. Converso com as plantas que têm me respondido satisfatórias, reluzindo em seus tons de verdes. A violeta, floresce sem parar me alegrando os dias. A jiboia, viçosa, os vasinhos de suculentas se proliferam alegremente no beiral da janela da cozinha.

É, nunca imaginei que uma leva de roupas passadas iriam me fazer sorrir. Viver é isso. Ontem, a melancolia poética de Renato Russo a embalar dia cinzento. Hoje, Vivaldi alegrando a tarde ensolarada. Vida que segue sem vincos.

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

B.E.D.A. – Choque de realidade

Parece cocaína, mas é só tristeza…

Despertei Legião… Levantei como sempre, Urbana. E segui com minha rotina matinal: passar um café, deixar me envolver por seu aroma, tostar um pão com manteiga na chapa, separar um pouco de mamão com mel.

Mecanicamente, ligo a TV e uma leva de notícias ruins quase me tira a fome.

Ela se jogou da janela do quinto andar/Nada é facil de entender…

Eu, particularmente, não consigo entender muita coisa que tem acontecido. Impera uma lógica que não domino. Até mesmo porque nunca fui lógica. E dá-se a confusão.

De onde vem a indiferença

Temperada a ferro e fogo?

Quem guarda os portões da fábrica?

Esse imenso conglomerado chamado Brasil, tem sido território espinhoso de caminhar. Apenas se você calçar sapatos com solado de aço, progride. Caso contrário, fica pelo caminho sangrando. E ninguém vai te socorrer…

Nas favelas, no Senado

Sujeira pra todo lado

Ninguém respeita a Constituição

Mas todos acreditam no futuro da nação…

Que país é esse? Ainda não trago respostas. Talvez nunca encontre. O ar anda rarefeito. Empesteado de gases emanados pelos que desgovernam essa locomotiva descarrilada.

Os assassinos estão livres…

E cada vez mais ousados em suas vilanias. Quero muito crer que isso terá um fim que não seja o meu, nem o seu. Quero acreditar que haverá justiça. E que essa dama não seja cega como foi até agora.

Vamos sair

Mas não temos mais dinheiro

Os meus amigos todos estão

Procurando emprego…

Não podemos sair. Continuamos a não ter dinheiro e a maioria de meus amigos e dos seus também, procuram emprego. Engrossam as filas para receber cestas básicas ou um marmitex de mãos abençoadas e humanizadas.

Voltamos a viver

Como há dez anos atrás

E a cada hora que passa envelhecemos dez semanas…

Há dez anos atrás, vivia bem. Conquistei muitas coisas materiais e culturais. Bons tempos. Hoje, a cada segundo envelhecemos muito mais que dez semanas. Penso que quando tudo isso um dia acabar, serei uma anciã que mais parecerá um tronco de velha figueira com suas raízes cravadas no solo.

Já entregamos o alvo e a artilharia

Comparamos nossas vidas

E mesmo assim

Não tenho pena de ninguém…

Na realidade, foi entregue tudo, de mão beijada, sacramentada. Não temos nem como comparar nossas vidas. Encontramos todos no mesmo barco… Furado. Ainda resta um pouco de humanidade em mim e – mesmo assim – tenho pena. Tenho muita pena, de muitos ninguéns. De muitos alguéns que não tiveram a chance de lutar essa guerra tão desigual.

Hoje amanheci muito russo. Que país é esse? QUE PAÍS É ESSE?

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

Imagem licenciada: Shutterstock

B.E.D.A. – Porcelana chinesa

A alma é uma porcelana chinesa casca de ovo. Se não cuidamos, quebra e nunca mais se recupera. Atravessei a noite de sexta-feira, testemunhando uma quebradeira de um jogo completo. Não sobrou nada intacto.

Nunca fui dada a prestar atenção no cotidiano da vizinhança. Mas, diante desse isolamento social, passar 24 horas no apartamento, não tem como evitar. Ouve-se de tudo!

No prédio em frente ao meu, um casal jovem, mudou-se ano passado. Um estúdio moderno com panos de vidro que, de minha janela vê-se toda movimentação.

O que a princípio foi a constatação de um casal amoroso, bonito de se presenciar no dia a dia, aos poucos, a situação passou por mudanças drásticas. De um vinho rosé suave, frutado, por descuido, avinagrou.

Conviver é uma arte – alguém já disse isso. Vou além: conviver é tarefa hercúlea e requer muita elasticidade da alma. Adequar os gostos, hábitos e esquisitices de cada lado, não é fácil. Se apenas um recua para que o outro se esparrame, chega uma hora, que haverá confronto ou anulação total de uma das partes.

Foi o que acompanhei por aqui, deu-se a explosão da relação, não sobrando nada da beleza e delicadeza que vi no início da relação.

Gritos, ofensas de ambas as partes, quebra de objetos próximos e por último, violência física que terminou com a chegada da polícia.

A vizinhança assistindo de seus camarotes, gritavam de suas janelas, tentando chamá-los à razão. Impossível retirá-los da bolha emocional em que se encontravam. Não ouviam nem a si mesmos, o que dirá, ouvir os outros.

Com a chegada da polícia, cerrei minhas cortinas para esse espetáculo de horrores. Que tristeza ver humanos descer tão baixo em suas atitudes. Ontem, sábado, uma calmaria atravessou a rua. Quase nenhum som a não ser de alguns carros circulando e cães latindo. As persianas cerradas para o mundo aqui fora.

Acordei tarde nesse domingo. Ao abrir minha janela, dei de cara com o estúdio com suas persianas levantadas e… vazio. Restaram apenas caixas esparramadas pelo cômodo, alguns panos de chão abandonados na varanda, um rodo e uma vassoura em repouso, encostados na parede e – os cacos de uma relação – varridos e acomodados próximo à porta da saída.

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

Imagem licenciada: Shutterstock

B.E.D.A. – Uma vida entre livros

Culpa da moça que fez meu mapa astral. Lá, decretou meu futuro entre eles – os livros!

Década de oitenta, minha cabeça estava a milhas de distância desse universo. Ao ler esse mapa astral que nem queria fazer, dizia que trabalharia em biblioteca ou museu e, relacionado à educação. Achei tudo uma grande baboseira. Mesmo assim, não joguei fora, guardei.

Os anos passaram e quando dei por mim, fazendo uma faxina em caixas de documentos antigos, reencontro esse material e vejo que tudo se realizou. Exatamente como o mapa previu.

Trabalhar em uma biblioteca escolar não foi opção, foi necessidade. Assim o destino quis que eu acreditasse na época e eu, acreditei.

Contudo, esse Senhor Destino descortinou um cenário que me encantou. Através do contato diário com livros, me apaixonei e nunca mais larguei.

Após trinta anos trabalhando numa biblioteca, cercada por livros de todos os gêneros, mudei de cenário porém ele, o livro ainda é fonte de inspiração e amor. A diferença é que hoje não mais os registro. Escrevo!

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

B.E.D.A. – Irmãs da natureza

Ao ler a crônica de Rubem Alves intitulada Em defesa das flores, passei a manhã de hoje com ela reverberando em minha mente. Linda crônica!

Lembrei dos jardins de minha infância em casa de vovó Maria – local onde nasci e cresci -, brinquei, inventei!

Habitat de margaridas, roseiras, marias-sem-vergonha, crisântemos, cravos, onze-horas. Rodeada por essas irmãs da natureza, passava os dias de minha pureza embeveçida por sua beleza ímpar.

Um dia tudo mudou. Ao chegar do trabalho, abrindo o portão, encontrei dois túmulos secos e áridos de cimento bruto.

Silenciosa, fiquei olhando sem entender para a morte violenta da natureza. Decretei luto por minhas irmãs.

A partir daquele dia, saía e entrava em casa desviando o olhar dos túmulos. Difuntos nunca enterrados, denunciando a violência sofrida sem chances de se defenderem.

Passei dias calada até – que não aguentando -, perguntei: Por que isso? Por que acabar com um jardim tão lindo?

A resposta veio seca e direta: Planta dá trabalho. Não temos mais tempo para isso.

Minha porção “adolescente revoltada” nunca se curou; aquela cicatriz permaneceu até a venda da casa que – após nossa saída -, veio abaixo dando lugar a um condomínio.

Segui a vida, desenvolvi alergia à flores retiradas de sua morada. Continuo amante da natureza; adoro roseiras e toda espécie de flor mas, peguei asco de arranjos florais. Não suporto o cheiro das rosas num buquêt.

No ano seguinte ao término da faculdade, meu TCC foi premiado como um dos melhores do ano. Como prêmio, recebi uma estatueta, um botom e um ramalhete lindo de flores. No ônibus, voltando para casa, antes de descer, perguntei ao cobrador se era casado ou namorava. Era casado. Sorri, deixei o ramalhete para ele ofertar à amada; desci aliviada por me desfazer daquele cheiro de morte.

Não suporto velórios. Não por conta do defunto mas, devido ao odor das flores. Elas sim, me lembram da finitude da vida e não, aquela carcaça no caixão.

Mas, se me deparo com um jardim florido, ah… De imediato meus olhos ganham brilho, sorrio de felicidade ao reencontrar minhas irmãzinhas vivas. Na nova morada, mamãe tem um jardim repleto de flores e outras plantas, recebe visitas matinais de beija-flores, sabiás, rolinhas e quem mais de asas aparecer por lá.

Saudades do jardim de mamãe!

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

Imagens: Arquivo pessoal

B.E.D.A. – Achados e perdidos

Organizando documentos antigos, me reencontrei! Em meio a contas pagas, fotos da equipe da biblioteca, cartão postal recebido de um amigo que conheci em Lisboa e tornei a perdê-lo no tempo e na distância, me reencontrei!

Ao pousar meus olhos na pequena foto em preto e branco, com as bordas oxidadas pelo tempo, me reencontrei!

Rever meus irmãos pequenos, distantes no caleidoscópio da existência, relembrei aquele exato momento e, me reencontrei!

Voltar aquela rua de terra batida, de frente a casa em que nasci e morei boa parte de minha vida, trouxe doces lembranças de uma infância pobre mas rica de fantasia, magia, descobertas.

Chronos, esse Senhor que adora nos testar, pregou uma peça em mim fazendo com que esquecesse quem registrou esse momento para a posteridade.

Mas não me esqueci da euforia do momento. Numa infância sem tecnologias digitais, não era comum posar para fotos; tenho bem poucos registros de meus tempos de criança.

Sem as preocupações com a perfeição de uma boa foto, ninguém se ocupava em fazer poses, bicos ou ajeitar a roupa e os cabelos. Saía de qualquer jeito e era exatamente nisso, que se escondia a beleza do ato: espontaneidade!

Eu – que sempre fui mico -, já gostava de fazer caras e caretas para fotos. Me reencontrei!

Tomada por dores nas articulações, bursite no ombro gritando em Lá Maior, unhas e cabelos enfraquecidos pela ausência dos hormônios, caminhando a passos largos para a terceira idade…Me reencontrei!

De início, chorei calculando quantos passos dei desde essa pose até chegar aqui, onde me encontro. Foi uma longa caminhada.

Passei a calcular quantas experiências, quantas pessoas passaram por minha vida, quantos cursos iniciados, quantos terminados, quantos largados pelo caminho.

Relembrei perdas, lágrimas derramadas, conquistas, reuniões familiares e as muitas risadas d(o)adas.

Uma vida inteira se apresentou – como num rolo de película cinematográfica – jogado ao chão; reconheci cada movimento.

Reencontrar essa foto perdida, foi um presente de um anjo que passou por aqui e decidiu me fazer feliz. Me reencontrei!

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

B.E.D.A. – Clausura

grilhões

impedem meu caminhar

rotina

me sufoca

mesmice laboral

ruína dos sonhos

planos esfacelados

de uma vida leve,

colorida

obrigações,

responsabilidades,

dívidas

transformam

ganhos em perdas

permaneço

nessa prisão

anseio sair

não sei

para onde ir

grito

por mudanças

não saio

do lugar

ralho

contra o sistema

contribuo

com passividade

falsa

sou

como todos

bulímica

mastigo

o dia a dia

não sinto

sabor

vomito

nada supre

a fome da alma

sigo

feito zumbi

nessa trilha

chamada vida

trago

dúvidas

vale a pena

prosseguir?

almejo

liberdade

só não sei

como ela é.

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega