Falta de visão

Noite chuvosa e uma ventania batucando na janela. Perfeita combinação para ficar debaixo de cobertas bem quentes. No entanto, Jussara, inquieta, levanta-se e despindo por completo, abre a janela de seu quarto. Abrindo os braços, sorri aliviada sentindo os pingos da chuva aliviar seu fogacho.

Há dois anos não sabe o que é dormir tranquila por conta dessas ondas de calor que lhe possui o corpo durante a noite. Não que durante o dia fique livre, contudo, são mais espaçadas. Agora à noite o bicho pega…

O sorriso a acompanha ao virar de costas e sentir além dos pingos, o vento assoprando e amenizando seu fogaréu interior. Uma felicidade inesperada a invade e inicia uma coreografia sem música ali mesmo, às 3 horas da manhã de uma terça-feira. Nem se dá conta que, de um prédio próximo, numa das janelas, alguém também com insônia a observa esquecendo seus próprios problemas.

Através da fumaça do cigarro e entre goles de uísque, um homem maduro abandona sua máscara diária de contrariedade e sofrimento deixando à mostra, o jovem saudável e cheio de sonhos que foi um dia. Tudo por conta dessa aparição na janela.

-Quem será ela? Não consigo enxergar direito mas ela parece ser linda! Estará dançando para algum sortudo? Quisera eu ser a platéia para essa dança.

No interior da sala, Jussara continua os passos coreografados, um misto de Ballet clássico com dança selvagem. Vem à lembrança a figura de Josephine Baker. É exatamente assim que ela se sente. Livre, leve e solta. Livre, principalmente dos calores que a sufocam.

Toda essa movimentação a faz lembrar de quando tinha quatorze anos e frequentava as aulas de Ballet de madame Remy.

Mulher mignon, refinada, delicada nos gestos porém, de uma rigidez na disciplina que a transformava numa déspota com suas pupilas. Jussara gostava de seu jeito. Sorriu satisfeita em ver que, mesmo após tantos anos sem dançar, ainda conseguia se movimentar com leveza.

Do outro lado, o homem encheu novamente o copo e acendeu mais um cigarro. Sorria entre a fumaça e os goles ao observar os seios ainda firmes que, soltos, se movimentavam com delicadeza acompanhando os braços delgados que se abriam como se quisessem alçar voo. Os cabelos da misteriosa mulher o encantou: longos, fartos e grisalhos.

-Preciso conhecer essa mulher! Onde esteve esse tempo todo que nunca a vi? Tão perto e tão distante. Essa cidade é mesmo muito louca! – dizendo isso, caiu numa risada rouca ao ver sua musa girar em frente a janela e parar de olhos fechados sentindo os pingos da chuva em sua face.

A dança durou  mais uns minutos até que satisfeita, Jussara cerrou a janela e após um banho, deitou e dormiu sentindo-se uma menina.

O homem, ainda permaneceu à janela, terminando seu cigarro e sua bebida, perdido em pensamentos que há muito não tinha: desejo.

A esperança de que ela voltasse acabou e, com suas expectativas frustradas, fechou as cortinas e retornou ao seu trabalho. Agora, sentindo-se revigorado com sua musa.

Amanheceu satisfeito com sua produção. Ela o fez esquecer as dívidas, o abandono e traição de sua última companheira , e devolveu a vontade de se reerguer afinal, ele, o grande e respeitado ilustrador precisava voltar a brilhar e a ganhar dinheiro.

Fez um café forte, tomou uma ducha revigorante. Ao se olhar no espelho, observou sua fisionomia envelhecida, sua barba grande e desalinhada, seus cabelos sem vida e suas olheiras que denunciavam noites mal dormidas e excesso de bebida e cigarro. Pensativo, sorriu e radicalizou: raspou a barba e cortou o cabelo bem curtinho.

-Assim sim! Estou irreconhecível!

Vestiu seu velho jeans, camisa xadrez e colete. Posicionou na cabeça sua boina e, satisfeito pegou o portfólio. Resoluto, partiu para o metrô rumo ao escritório de sua editora. Na plataforma lotada, ficou ao lado de uma senhora elegante num terninho rosa claro, com uma echarpe suave a envolver seu pescoço. Óculos clássico e dois livros nas mãos. Trem chegou, porta se abriu e os dois sentaram-se juntos. Ocupados com os próprios pensamentos, não imaginam que foram protagonistas de um possível futuro encontro. A vida oferece muitas oportunidades para as pessoas se encontrarem, se conhecerem e se amarem. Pena que são cegas para esses pequenos e preciosos presentes. E cada um desce nas respectivas estações e seguem seus destinos. Quem sabe amanhã ou depois?

Anúncios

Um novo passo

fred_ginger

Danço. Por que a vida já é um imenso palco que, se você não seguir, te passam para trás, te derrubam e te jogam para escanteio. Aprendi meus primeiros passos dessa coreografia, logo cedo, bem novinha. Outra grande lição que levei pra vida, é dançar conforme a música. Assim minha avó ensinou para minha mãe, que repassou a lição para seus filhos. Pena que nem todos aprendem.

Com o tempo, passei a fazer passos mais ousados, mais bem sincronizados com meus parceiros de dança. Transformei-me numa virtuose das passadas rápidas, realizando espacates formidáveis. Minha elasticidade impressionava a todos. Dobrava-me feito bambu. Resistente feito eles. Vi-me obrigada a fortalecer para não quebrar.

Com o passar dos anos, corpo enferrou naturalmente. Era de se esperar, contudo, aprendi novas técnicas e pouco a pouco aprendi a dar elasticidade à alma.

Foi aí que tirei a sorte grande! E de lambuja, aprendi a cantar também. Veja bem, não tenho voz privilegiada mas, mesmo assim, canto para desafogar a pressão do dia a dia, libertar tudo o que trago preso no peito e me sentir leve feito folha ao vento. E funciona.

É, acredite! Tente sair dançando e cantando. Verá mudanças significativas em sua vida.

Já aviso que isso não é sabedoria barata de autoajuda. É minha vivência, minha experiência de vida.

E se serviu para mim, por que não para outros? Hoje, no alto de meus sessenta e seis anos, trago minha alma expandida, maleável, leve. Sorrio para a dificuldade, pisco de forma malandra para a dor – que aliás, são muitas, assovio para a dureza de um salário de aposentada, vejo as contas se acumulando e ao invés de desesperar, levanto com certa dificuldade nas juntas e dou banana pra elas e saio à rua em busca de alegria. Tristeza acumulei e curti na juventude pois lá, era legal ficar deprimida por amor ou falta dele. Hoje, ciente de que nada se leva dessa vida, quero mais é ser feliz, dar risada – muitas, diga-se de passagem, achar graça em meus micos que são diversos e bem cultivados.

Minha filosofia? “Infeliz daquele que evita os micos”. São eles o tempero de nosso cotidiano que dão um “que” em nossas vidas muitas vezes desbotadas pelas intempéries.

Durante muitos anos engessei minha essência para fazer parte de alguma turma, algum grupo, buscando a aceitação do próximo.

Me feri demais nessa tentativa que se mostrou inútil. Quando decidi  me libertar, foi a glória!

Quando jovens, somos ingênuos e tolos por achar que tudo se resume ao que se aparenta e não ao que se é de fato. Hoje sou. Joguei pro alto a preocupação com a aparência. Aparentar ser bonita, jovem, gostosa, sensual, sexy. Tudo ilusão! Mantive a vaidade de se cuidar o básico: higiene sempre pois ninguém merece sentir sua “sovaqueira”. Desagradável demais! Cuido de minhas roupas que por hora, são simples mas de boa qualidade e sempre limpas. Mantenho-me penteada, unhas bem aparadas porque ser velha já é um fardo, manter unhas longas se assemelhando às bruxas de contos de fadas, não dá. Esse personagem não visto. Com o ganho da experiência, adquiri o maravilhoso hábito de sorrir com os lábios e a alma. Por isso consigo tocar à todos. Sorrir, vai além de exercitar a musculatura facial. É transformar a alma num regozijo pleno.

De passo em passo, moldei meu espírito numa Ginger Rogers e hoje, bailo com a leveza dos astros. Para muitos, não passo de uma velha gagá precisando ser internada com urgência. Para outros, exemplo a ser seguido. Vai de cada um e não questiono opiniões. Acato e as respeito afinal, o livre arbítrio é uma benção que todos recebemos ao nascer e nosso maior tesouro. Só necessitamos de sabedoria para usá-lo. E eu, à minha moda, acredito que saiba utilizá-lo. Aceita ser meu partner nessa contra dança?

Imagem: Mattsko