Saindo da rotina. Six to six

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Fui indicada pela querida comadre Lu Menezes, em seu blog Letras e Contos , a responder a tag Six to six. Consiste em listar seis coisas a realizar até o final do semestre e indicar seis blogs para dar continuidade a brincadeira, avisando aos mesmos de que foram marcados.

Well, lá vai:

1.Terminar a decoração do meu apê (adorando retomar meu lado design de interiores, rs);

2.Voltas às minhas leituras que andam bem devagar quase parando;

3.Retomar a revisão de uma seleção de contos para futura publicação;

4.Retomar (com garra e fôlego) o desenvolvimento de meu romance que está de rosca desde 2010 rsrs;

5.Voltar a fazer pilates que amo e musculação que odeio mas é necessário (sabe como é, depois dos 50…tudo começa a enferrujar e se não cuidar já viu né?;

6.Voltar a me apaixonar e quem sabe, encontrar um amor afinal…Gentem, tô VIVA!! rs

Bom, feito isso, estabelecido metas para esse semestre que já corre solto, passo a peteca para os blogueiros : Ana Lucia (Valise de palavras), Mariana Gouveia (O outro lado), Anisio (O lado escuro da Lua), Cris Campos (A parte e o todo de mim), Virginia (A casa inabitada), Adriano (Anovamente)

Conselhos de Fada Madrinha

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“Ai amor! Tu não tem idade pra vestir a roupagem de idosa! Fofaa!!  Tu não tem idade pra isso. Tem muita lenha pra queimar. Santa Maria da Periquita Sossegada! Acordaaa!!”

“Mapoa, não se faça de sonsa. Tô falando com vocezinha darling! Fazfavordemedaratenção. A Biba aqui não suporrta ser ignorada!”

Aii!! Tá maluco? Estou invisível por acaso? Ai que não se pode mais almoçar sossegada nesse refeitório senhor!…Tá doendo viu? Por que me cutucou?

Pra ver se desperta desse sono de princesa bela adormecida. Hellow!! Onde anda essa mente hein?

Cássio, por acaso bebeu, cheirou, aspirou muito pó de arroz vagabundo  foi? Não entendo absolutamente nada do que está falando homem! Aff! Me deixa almoçar que ainda tenho de correr até o supermercado para comprar algumas coisas pra casa e só tenho uma hora pra fazer tudo.

Homem? Por acaso, está vendo aqui algum homem conversando com você criatura? Quer dizer então que, além de deixar essas madeixas esbranquiçadas – que aliás, acho UÓ, você ainda sofre de miopia? Hellow again! Sou EU! Cassinha que fala contigo mocréia dos infernos. Não insulta não que o que disse é pro seu bem! Sai dessa vida de senhorinha antes do tempo! Você sempre foi linda, elegante, sexy e acima de tudo, GOSTOSA! Não te aceito por menos! Vamos marcar pra hoje a noite você ir até meu cafofo para eu realizar a grande transformação de te resgatar do limbo dos idosos e te transformar na rainha que sempre foi. Miga, tá sabendo que agora sou uma consultora legítima e sacramentada  da Mary Kay? Que fiz uns cursos de maquiagem que transforma em poucos minutos dragão em miss universo? Então…te quero arrasando a avenida novamente. Que depressão foi essa que te pegou hein? Homem nenhum merece esse desleixo todo amore.

Cássio querido, agradeço sua preocupação mas não me encontro deprimida. Pelo contrário, estou super de bem com a vida. Nunca estive tão bem como agora. E quanto aos meus cabelos, esquece que cansei de ser escrava da moda e dos salões de cabeleireiros. Pra mim já deu. Me dei alforria total dessa ditadura. Serei o que quiser daqui pra frente e se, meu desejo é assumir meus grisalhos, que assim o seja. Entendeu miguinha?

Jesuis é caso de obsessão mesmo! Terei de fazer reza brava no terreiro essa semana. Rogar aos exús que espantem esse espírito de sinhá polvorosa pra bem longe de minha rainha. Vou pedir de volta a Pomba Gira que te acompanhava nos áureos tempos. Ela sim te fazia brilhar nas passarelas da Dama Xoc e da Madame Satã. Lembra? Foi lá, na Dama Xoc, que te vi pela primeira vez e se fosse homem ou lésbica, teria me apaixonado! Tão linda arrasando naquele macacão de lurex, cabelos cacheados, cheio de brilho…Natural e de gumex pra manter aquela onda na texta. Uau!!! Usava um batom ultravermelho na boca, ostentava um sorriso rodeado de covinhas e seu olhar emoldurado por sombra azul e rosa cintilantes e cílios postiços devastadores. Uau!Uau! Não tinha pra ninguém. A mulherada se mordia de inveja e os homens… Bom, os homens se banhavam de tesão por você. Otávia, amiga, volte a ser o que foi um dia. Essa estrela de eterno brilho. Estrelas não devem jamais envelhecer! Prontofalei!

Cássio, amigo querido, só você pra resgatar esse passado que ficou lá no túnel do tempo e me fazer rir tanto. Fala sério, a gente se divertiu muito naquele tempo não? Arrasamos quarteirão com nosso estilo de vida. Quanta gente boa conhecemos nessa época não?  Caio F. Abreu, os meninos da banda Titãs, a turma mais metidinha que andava nos Jardins e frequentavam a boite do Ricardo Amaral…A turma maluca do Marquinho que, infelizmente morreram todos de AIDS nos anos noventa. Marquinhos…Ainda sinto falta do seu astral contagiante e de sua beleza máscula e ao mesmo tempo andrógina. Lembra quando ele se montava de Streisand? Ficava irreconhecível! Uma diva! Ai, esquece tudo isso que relembrar doí muito. Foi uma época maravilhosa mas ficou lá atrás.

Cassío visivelmente comovido abraça Otávia deixando os demais no refeitório especulando o que acontecia com os dois.

Lindinha, passamos por muitas nessa vida não é mesmo? Seremos assim tão ruins que nem o inferno nos quis? Tanta gente boa, se foi tão jovem e nós dois aqui, firmes feito bambu que se enverga mas não quebra. Eu sei que estamos envelhecendo. É fato. Não tem como negar mas, olha, pode parecer piti de bicha véia, de tiona aposentada, enfim, chame do que quiser. Quero que nós dois envelheçamos com dignidade e beleza. E acima de tudo, que nossa amizade permaneça pra eternidade.

Passa lá em casa essa noite Tavinha. Vamos celebrar nossa amizade.

E…pelamordedeus deixa eu dar um jeito nesse cabelo! Fui!

Imagem: Eaiconteudo

Território demarcado

Sofia está deitada há pelo menos duas horas em total escuridão. Ao contrário de suas irmãs, a falta de luz não lhe causa pavor. Pelo contrário, sente-se confortada.

Ouve os inúmeros sons que vem da rua: carros com seus motores envenenados que passam pela avenida rasgando asfalto, travestis cantando, metendo bronca nos playboys que passam em seus tanques urbanos proferindo ofensas homofóbicas para encobrir suas taras em dar o rabo. Ouve a água escorrendo pela pia da vizinha e o barulho das louças repousando no suporte para secar. O som do elevador chama sua atenção. Passos pesados pelo corredor denunciam que o vizinho do apartamento à esquerda, chegou. Chaves tilintando, passando a trinca, luzes acendendo, TV ligada e a janela sendo aberta num movimento brusco que ensurdece ouvidos mais sensíveis. Não é o caso dela. Já calejados por tanto barulho, nem se importa mais. Mês passado chegou a marcar consulta num otorrino preocupada em estar perdendo audição. Mais tranquila, saiu do consultório após entregar exames feitos lá mesmo, com a afirmativa do especialista de que sua audição, apesar da idade, é perfeita. O que já não ocorre com a visão. Talvez, goste tanto da escuridão porque no fundo, já tenha a certeza de que num futuro próximo, terá ela, como companheira em tempo integral.

Deitada de bruços, mantém  a respiração tranquila, quase parada e adentra um mundo paralelo. Entra numa sintonia com algo desconhecido e sente, de repente, a presença de alguém que se aproxima da cama.

Percebe o colchão se afundar e uma energia a envolve. É desconhecida. A princípio, se assusta, no entanto, ao perceber o abraço invisível, o compasso de seu coração se normaliza. É do bem! Em pensamento, dá as boas vindas mas pede que respeite o espaço que, por hora, lhe pertence. Sente-se novamente abraçada e, numa lufada morna, a tal presença se esvai no ar deixando-a sozinha. Tem plena consciência de que jamais estamos sós. Em nenhum momento. Também sabe que fora do apartamento, encontram-se soldados do bem protegendo sua morada. Em pensamento, agradece.

Ao som de gritarias de jovens exaltados saindo da danceteria no final da rua, adormece sentindo-se em casa.

Apresentação

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Detenho poderes que nenhum ser humano imagina existir

Manipulo energias que nenhum físico descobriu

Traço caminhos que nenhum engenheiro ousou construir

Crio mundos, gero vidas,

Determino seu fim.

Posso estar em muitos locais ao mesmo tempo

Sem jamais me perder de mim mesma

Sou essência

Matéria bruta da natureza

Em meu mundo, sou conhecida como

A rainha do castelo de livros

Criei mais uma história que,

com certeza te prenderá

Te farei meu escravo, de mim não se apartará

Até saber o significado dos segredos que detenho

Deseja arriscar? A caminhada é longa mas,

o aprendizado, é para sempre.

Adentre os aposentos de meu castelo e…

Aventure-se!

 

Imagem: Pexels

Descontos de fadas. Não te contei não?

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Ando sumida desse espaço que tanto amo e divido com pessoas que gosto. O motivo são vários. Trabalho me absorvendo muito, cansaço mental e físico pois já estou indo para um ano e meio sem férias (haja energia), questões pessoais que estão ocupando muito meu tempo livre. Resumo da ópera: uma pilha imensa de livros para ler, ansiedade subindo às alturas por não conseguir dar conta, meu projeto de livro que temporariamente está suspenso (sempre a maldita falta de tempo!).

descontos de fadas2Mas nem tudo é ruim, cansativo ou chato. Muito pelo contrário. Coisas boas têm acontecido e a maldita falta de tempo (ele novamente), me impediu de divulgar por aqui. Mas, como tudo tem jeito nessa vida, hoje, já com a ansiedade acalmada e sob controle, falo do evento que participei sábado no espaço Sensorial Discos, aqui em São Paulo. Aceitando o convite do amigo escritor e editor Gláuber Soares e com organização de Maria Esther Sammarone, participei da antologia DesContos de Fadas. Ao lado de grandes escritores e amigos, o encontro foi mais que uma reunião de inúmeras pessoas. Foi uma celebração agradável, alegre, onde pude reencontrar amigos que há tempos não via e conhecer outros que acredito, se tornarão meus novos amigos. O livro, uma releitura de alguns contos de fadas escolhidos por cada autor, tem ilustrações lindas de uma menina/moça/artista das boas que enriqueceu demais a obra, chamada Maria Miranda. Tarde boa, leve, repleta de abraços que adentrou a noite. O livro está lindo minha gente e para quem desejar um exemplar, por favor, pode encomendar o seu pelo site da editora: Descontos de Fadas

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Crédito das imagens:

Foto colorida: Ana Lúcia Santana

Fotos P&B: Fernando Rocha

Despedida

camelia jardimPara muitas pessoas que não me conhece direito, posso parecer fria, distante. No entanto, sou pura emoção. Apego-me as pessoas e objetos. Mas, com a mesmo a rapidez, desapego e sigo em frente. Aprendi a ser assim para sobreviver a tamanha carga de emoção que carrego comigo. Se assim não fizesse, explodiria.

Agora à tarde, recebi a notícia do falecimento de uma pessoa que foi muito importante em minha infância e juventude. Uma tia que trazia como marca registrada, uma gargalhada contagiante. Mesmo com tanto sofrimento que transportou consigo em sua vida familiar, nunca deixou de lado sua risada aberta e alegre.

Para mim, na verdade, ela morreu há sete anos, quando teve um mal estar súbito e nunca mais saiu do coma. Seu olhar brilhante, cheio de vida, sua risada, calaram juntos naquele dia. Ficou apenas o envólucro carnal que a nada respondia.

Que ela, sua família e Deus me perdoem por nunca ter feito uma visita. Apesar de tudo, sou covarde. Assumo. Não tive coragem de vê-la ali, mergulhada no silêncio. Um corpo apenas. E isso, definitivamente, não era ela.Preferi mantê-la viva e feliz em minha memória. Será um erro meu negar-me a encarar a realidade? Pode ser mas, se assim for, prefiro apegar-me à lembranças boas da minha infância e ao último contato que tive com ela um dia antes de entrar em coma. Sua visita à minha casa foi como sempre divertido, com direito a muitas risadas e o abraço recebido por ela, hoje sei que foi uma verdadeira despedida. Não nos veríamos mais em vida.

Despregou-se a bela camélia deixando cair suas pétalas perfumadas. Ficam as lembranças de uma vida. De certa forma, sinto uma alegria imensa em saber que sua essência está liberta dos despojos carnais. Livre para iniciar uma nova história. E isso me conforta. Siga em paz C.

Contos de fadas numa nova roupagem

FullSizeRenderConvido todos para comparecer  ao lançamento DesContos de Fadas, sob a organização de Maria Esther Sammarone, Alink Editora.

Um projeto primoroso do qual tenho muito orgulho em participar ao lado de outros dezesseis grandes escritores.

O projeto se propôs a repensar os contos de fadas de forma bem-humorada sob a ótica das desilusões, reflexões, neuroses e modos de vida da sociedade moderna. Em diferentes vozes e estilos, aventuras originais ou recriadas, os textos deram novas vidas a princesas, anões, bonecos, sereias, lobos, marinheiros…”

O evento de lançamento será no dia 14/05/16, um sábado, no espaço Sensorial Discos. Rua Augusta, 2389 – Jardins, São Paulo – SP. Das 15h às 19h.
@link editora.

Moça de fino trato

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Maria Eduarda, Duda para os íntimos, é uma jovem criada em seio familiar exemplar. Estuda num tradicional colégio de São Paulo. Desde pequena, preparada para futuro casamento com um dos mais cobiçados herdeiros quatrocentão.
Mas nada disso a atrai. O que lhe causa comichão entre as pernas, é passar em frente as obras e ser assediada por peões.
Todos os dias, chega do colégio, sobe para seu quarto onde sacia seu desejo com seu cão pastor.
Se joga na cama, tira a calcinha e, de cócoras, se oferece ao animal. Acostumado a essa oferenda, lambe o botão rosado que fica à mostra latejando de prazer. O som da banda Led Zepellin nas alturas, encobre seus gritinhos.
Mas isso já se tornou pouco. Quer mais. Está de olho em um dos peões da obra, próximo do colégio onde estuda.
Mulato sarado, lábios carnudos, genitália avantajada que se pronuncia, cada vez que passa, desfilando com lascívia pela calçada. Olhar faminto que observa a cadência de seu quadril que se movimenta de forma provocante toda vez que por ali passa. A saia curta do uniforme o deixa louco!
Ainda cato essa menina! – pensa Benê enquanto bate uma massa de concreto.

– Acorda hôme! Tem trabalho pela frente. Vá catá aqueles bloco pra gente levantá uma parede aqui. Anda! Oh hôme sonhadô.

-Já vai Tião. Para de implicar comigo. Vê se acha outro pra encher o saco!

-Qué sabê? Tô pelas tampa de aturá esse olhá sonhadô de quem vive em outro planeta. Aqui, quero gente com pé fincado no chão e que não tenha medo de trabalho pesado. Entendeu? E agora chega de papo furado que o engenheiro já pediu rapidez na obra.

Final de tarde, clima abafado prenunciando o forte verão que se aproxima. Maria Eduarda sai pela portaria do colégio acompanhada de um grupo de meninas. Riem de tudo e formam verdadeiro pelotão feminino exalando sensualidade. Já não são mais meninas.São verdadeiras bombas de progesterona e estrógeno em ebulição.

-Final de semana fui a uma festa com o Nivaldo. Lá, fisguei uma figura gostosézima chamado Luís Henrique. Depois de dar uma perdida no Ni, me embrenhei com Luís no armário de dispensa da casa. Entre sacos de farinha, arroz e feijão, transei pra caralho. Saí de lá dolorida mas satisfeita. Depois voltei e fiz a linha certinha para Nivaldo dizendo que tive um desarranjo intestinal por isso sumi. Pedi para ser levada pra casa e ele, gentilmente me levou. Otário! Esse acho que vai ser para casamento mesmo.

-Credo Jussara! Você é sacana demais com o pobre Nivaldo. Ele é amarradão em você desde a sexta série.

-Tá falando o que darling? Mais fdp do que você foi com o Alê ano passado, impossível! Aprendi com a mestra!

-Tem razão. Já havia me esquecido desse episódio Jú! Caramba, o Alê ficou tão furioso comigo que nem sei como não me desceu o braço. Deve ser porque ele foi criado para ser um lord. Coitado, tão maçante, tão sem imaginação, tão certinho!

-E você Duda? Sempre calada, nunca comenta sobre suas paqueras, suas conquistas. Vou acabar pensando que é lésbica amiga!

-Sai fora Jú! A fruta que gosto você já comeu até o talo.

-Uau! Nunca tinha ouvido a Duda falar assim! Conta aí seu segredo. Começa já!

-Até conto mas…Meninas, prometem não rir de mim? Caso contrário, nunca mais olho na cara de vocês.

-Fala aí Duda. Solta a língua que somos pura curiosidade.

-Está bem Paloma. Eu conto mas, espera um pouco. Vamos naquele bar que quero comprar um sorvete. Está muito quente hoje.

-Logo esse boteco? Só tem peão aí. Credo! Devem feder até!

-Cala a boca. Entra que vai entender.

Sem entenderem nada, as meninas concordam e, juntas, entram naquele recinto repleto de ogros.

Ambiente com luminosidade precária, sujo, mesas e cadeiras engorduradas e mal cheirosas. O rádio tocando Reginaldo Rossi. Ao fundo, um grupo de homens suados e sujos tomam cerveja e aguardente. Interrompem a conversa ao perceberem a presença das moças. Um silêncio anormal toma conta do bar, sempre tão barulhento. Duda olha atenciosamente para todos e pára ao reconhecer o “príncipe” mulato. Alguém mais observador veria que seus olhos ganham um brilho diferente e os bicos de seus pequenos seios entumescem. A camiseta branca do colégio não consegue esconder sua excitação. Suas mãos suam frio e um pequeno fenômeno nas partes baixas acontece deixando-a alterada.

As amigas olham-se sem entender o que está acontecendo e o porque de Duda ter escolhido entrar naquele lugar nada comum à elas.

Com esforço, Duda vai até a geladeira dos sorvetes Kibon e pega um picolé de morango com chocolate. Abre o envólucro com mãos trêmulas e dá uma lambida provocativa no sorvete. Olha para o peão que, de boca aberta pingando um pouco de cerveja, se paralisa diante de tamanha provocação.

Ainda cato essa menina. Tô ficando de pau duro só de ver ela lambendo esse sorvete. Ela tá me provocando e eu vou dar o que ela quer.

-Vocês não vão pegar um sorvete também? – Duda pergunta às amigas tentando disfarçar seu nervosismo.

-Não estamos com tanto calor assim Duda. Paga logo o sorvete que a gente te espera lá fora.

Assentindo, Duda se dirige ao caixa no final do bar. Paga e ao voltar-se, tropeça bem de frente ao mulato que, segurando-a pela fina cintura , vê seu rosto quase colado ao da branquinha cheirosa. Assusta-se ao ouvir sua voz rouca e baixa sussurrar em seu ouvido:

-Te quero moreno. Tô louca pra dar pra você.

Não acreditando no que tinha acabado de ouvir, vê a moça sair do bar rebolando na minúscula saia xadrez do uniforme. Chega a sentir dor de tanto tesão. Vira e vai para o banheiro bater uma punheta pensando na menina rica.

Que loucura, ela tá me dando bola!

Na calçada, caminham uns minutos em silêncio.

-Duda, é impressão minha ou você quis entrar naquele boteco por conta do peão de obra sarado que não tirava os olhos de você?

– É isso mesmo Duda? A Paloma está certa? Você ficou toda corada ao olhar para ele. E ele também ficou babando por você. Cara! Tá maluca? Um peão? Com tantos carinhas bonitos a nos paquerar e que são de nosso meio.

-Vocês não queriam saber meu segredo? Então, estou contando em primeira mão: quero perder minha virgindade com esse cara. Não aguento mais pensar nele e fantasiar que transo com ele até perder os sentidos. Vocês observaram o tamanho do pau dele? Está decidido. Já comuniquei à ele meu desejo e vou ficar na espera da sua decisão. Tenho certeza que ele também me quer.

-Natural que ele vai te querer Duda. Para um cara como ele, você será uma iguaria refinada para comer até se lambuzar. Talvez nem saiba como pegar em você.

-Tenho certeza que ele vai saber. Aliás, quero mais é que ele me trate feito putinha e não como uma princesa delicada e refinada. Quero me sentir o lixo, a escória. Puta de quinta. Entenderam minha fantasia?

Caminharam mais alguns metros em total silêncio. Cada uma imersa nos próprios pensamentos sobre a revelação de Duda. Esperavam tudo, menos isso.

-E eu me achando a mais louca da turma. Duda, Parabéns, me superou! Não esqueça de contar tudo depois. Nos mínimos detalhes.

 

Imagem: IMGMOB

Pequenas feras

crianca com raiva

Já pararam para refletir sobre a maldade infantil? Cada dia mais me convenço de que ela realmente existe e é alimentada diariamente pelas mídias e pela própria sociedade que, vamos combinar, está bem equivocada.

Para quem ainda não sabe, trabalho na área educacional há quase trinta anos. Tenho visto de tudo no ambiente infanto-juvenil. Birras, chantagem emocional, timidez, ingenuidade (cada dia mais rara) e, agressividade. Como já sabemos, a criança apenas reflete feito espelho, tudo o que observa ao seu redor, inclusive, o comportamento humano dos mais próximos. Num mundo rodeado pela violência que, tornou-se banal, a criança é bombardeada pela televisão em filmes, novelas, programas apelativos. Não tem por onde escapar.

Hoje, após almoçar, fui sentar num banco que fica próximo ao parque em que as crianças do maternal brincam todos os dias. Havia crianças jogando bola, outras brincando de amarelinha e, mais próximo à mim, um grupo de quatro meninas pulando corda. Tudo corria normalmente até que, surgiu um menino que se misturou às demais e tentou pular corda também.

Digo tentou, porque ao se aproximar da corda, foi imediatamente puxado por uma das meninas para longe do alcance da corda. Com sua força, o menino caiu ao chão. Não contente, a mesma garota neutralizou o pobre com seu pé fincado ele na lombar. Ainda não se sentindo satisfeita, a menina chamou uma de suas companheiras que se aproximou e deu um chute na lateral do menino fazendo-o se encolher. A essa altura, levantei-me e dei uma panorâmica pelo pátio em busca de um profissional da disciplina. Não achando ninguém, comecei a gritar com o grupo. Ou não me ouviram, ou me ignoraram por completo. O garoto conseguiu se safar e saiu correndo. Encontrava-me indignada com a atitude agressiva das meninas. Já havia me sentado e iniciava a leitura do livro quando ouvi de novo o grito do garoto. Olhei e vi que estava novamente caído com duas meninas chutando violentamente por todos os lados. A ira estampada nos rostos infantis das garotas me deixou assustada. Procurei algum bedel e vi que ali bem perto tinha um encostado numa cerca e nada percebia. Gritei novamente chamando o funcionário que nem se moveu. Estava só de corpo presente. Irritada com a situação, gritei com todas as forças com as meninas que parando, olharam para mim, mexeram os ombros numa atitude de desprezo e voltaram a pular corda. Enquanto isso, o menino chorando se levantou e saiu carregando sua alto estima amarrotada e dolorida feito seu corpinho. Inconformada com a situação, procurei um profissional e relatei o ocorrido. O dito simplesmente sorriu de forma zombeteira e disse: Isso não é nada. É a coisa mais comum aqui no parque.

Comum? Repeti não crendo no que ouvia. Como assim, comum? Isso não pode ser considerado comum meu senhor. A escola tem obrigação de trabalhar a atitude respeitosa em todos desde pequenos. O menino deve estar machucado.

O rapaz tornou a rir e já saindo de perto da “tia” da biblioteca, falou dando por encerrado essa conversa:

Não esquenta. Elas estão cobertas de razão e tem mais é que dar pontapé e bater se for o caso. Aprender a se defender desde cedo senhora! Virou as costas deixando-me de boca aberta diante da estupidez proferida como se fosse a coisa mais correta do mundo.

Depois disso, perdi a vontade de ler e retornei ao meu mundinho entre livros que é a biblioteca. Podem me chamar de ingênua, desatualizada, ultrapassada mas não consigo achar normal esse tipo de comportamento. Seja em meninas, em meninos, em adultos. O mundo já está saturado dela, a violência. Não precisamos fabricar novos futuros adultos que resolvam tudo a base de socos, gritos e pontapés. Se numa escola não se preocupam com isso, o que dirá aí fora, nas ruas, parques, shoppings e nos próprios lares onde se tornou banal, bater e apanhar imperando a lei do mais forte.

Não aceito!

Oração do cidadão perdido nesse mundo de meu Deus

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Senhor, no meio dessa Avenida Paulista,

envolta pela gritaria dos revoltosos, panelas se batendo,

helicóptero sobrevoando o coração financeiro,

gritos de crianças no parque,

solitária te rogo: tende piedade de nós que

ainda não sabemos distinguir o certo do errado,

o falso do verdadeiro, o amigo do inimigo.

Dai-nos lucidez de enxergar e seguir o caminho do bem

sem fazer diferenças entre pobres e ricos, estudados e analfabetos.

Porque diante de tua grandeza, ainda somos todos crianças em formação.

Seja feita a tua vontade e não a nossa.

Até porque, nada sabemos .

AINDA.

 

 

Imagem: Stocksnap