Amargo despertar

Sorrio sentindo o calor do sol entrando pela janela. Ontem, confesso que passei um dia deprimida e o tempo ajudou bastante esse meu estado de espírito. Impressionante como a luz do sol e a coloração do céu nos influencia.

Minha depressão momentânea me levou a fazer algo que não faria em outra situação: correr. Com o corpo enferrujado e dolorido, após o café da manhã, decidi baixar um aplicativo de corrida e, devidamente vestida, fui para a frente da minha janela para o mundo e comecei a correr. Sem sair do lugar. O que começou como algo chato a se fazer, embalada pela música workout como trilha sonora, em minutos corria não somente de frente à janela mas pela cozinha, banheiro, sala/quarto. Entre corrida e pulos cada vez mais coordenados e alto, recuperei meu bom humor. Santa Serotonina!

Ao término da corrida, suada, descabelada e feliz, ainda fiz alguns alongamentos, agachamentos e fui para uma ducha merecida.

Almoço gostoso, café fresquinho, uma trilha sonora diferenciada, agora, na bela voz de Rumer. Abro meu sofá cama e munida de meus queridos livros e manta quentinha, leio até adormecer. A doce voz da cantora e o sax ao fundo me levou para longe.

Alguns minutos de puro deleite são interrompidos com meu despertar dizendo em voz alta: Cala a boca Bol…

Olhei a minha volta e cai na risada por uns minutos. É, o retorno à realidade sempre deixa um gosto amargo. Ainda mais despertando com esse ser a atormentar meus sonhos.

Mais um dia. Menos um dia.

Tempo de sobra

Não sei quanto a você leitor, mas ando numa gastura com esse isolamento. De início achei bem bom ficar em casa afinal, como boa canceriana que sou, amo curtir meu cantinho.

Passou primeira, segunda, terceira semana…

Já te contei que mudei a posição dos móveis três vezes? Pois é. Hoje, parti para a quarta vez. Acordei com espírito de faxina. Esvaziei armários, separei papéis, revi fotos antigas. Aliás, perdi boa parte da manhã mergulhando fundo nesses registros fotográficos. Isso sempre acontece.

Deixando as fotos de lado, reorganizei minha estante. Não tinha gostado do arranjo feito anteriormente. Reconheço que sou tradicional na arrumação.

E falando em arrumação, dei uma analisada em meu guarda roupa e constatei que tenho muitas roupas sem uso há muito tempo. Calçados idem.

Seleciono o que não quero mais em sacolas reutilizáveis. Tenho uma vasta coleção pois, apesar de desejar muito ser ecológica, sempre esqueço de levar sacola ao supermercado e, acabo comprando. Tenho umas bem bonitinhas!

No passado, fui uma colecionadora de calçados. Cheguei a ter mais de trezentos. Sim, isso não é lorota de escritor. Amava comprar modelos diferentes, de cores inusitadas: lilás, amarelo gema, vermelho sangue, rosa bebê, verde vômito, prata, branco. Coisas dos anos 80.

Decido separar alguns calçados. Afinal, pra que tantos em tempos de isolamento se só tenho usado chinelos ou sapatilha de pilates? Vamos liberar espaço no armário.

Parto para uma investigação nos armários da cozinha. Olho para eles e me pergunto: por que gastei uma pequena fortuna em marcenaria se boa parte deles se encontra vazio? Para que uma dúzia de pratos se só uso um? E copos, e xícaras, por que tantos? Para equilibrar, só tenho duas panelas. Ah, três, contando com a elétrica. Que quase não uso.

E esses DVDs e CDs? Beatles, Elvis, filmes que nem cheguei a assistir. CDs de Rod Stewart, Kid Abelha, Pedro Mariano, até fado da Marisa encontro entre eles. Olivia Newton John!! Nossa, nem recordava desse. Antes de me desfazer, vou assistir a todos afinal, tempo de sobra agora eu tenho né?

Final de tarde, me encontro zonza de ter visto e revisto tanta coisa por aqui. Baixou um cansaço bravo que só vai resolver após um café feito na hora.

Adoro esse aroma no ar! Munida de uma xícara, sento-me próxima a janela para apreciar o sol – hoje tímido -, e observo que choveu. Nossa, choveu?

Olho para o lado e vejo as inúmeras sacolas separadas com doações. Caramba! Quando vou me desfazer disso tudo se não estou saindo de casa? Invento cada uma! Humm… Esse café está bom. Tão bom que vou pegar mais! Está dando uma fome também. Acho que vou estourar uma pipoca. Adoro pipoca com café!

Gente, essa quarentena precisa terminar!

Dia do trabalho (r?)

O dia amanheceu estranho. Lento, mais do que o normal. Se é que podemos denominar o que vivemos atualmente, de normal. Ainda na cama, dominada por uma sonolência devido a noite mal dormia, reflito.

Dia do trabalho. Precisamos ressignificar isso. Não sou pessimista mas, diante do quadro mundial, observando um movimento que vem ocorrendo há alguns anos, tenho a certeza que precisamos mudar nosso comportamento enquanto massa trabalhadora.

Fato: faltará emprego para milhares de cidadãos no mundo inteiro. Muitas profissões se extinguiram. Em contra partida, outras tantas surgirão. O ser humano é um animal adaptável e, mais do que nunca, necessitamos ser mais maleáveis. Estudar e se informar será fundamental para enfrentar esse “Novo Normal” pós pandemia. Quem sobreviver, precisará ter olhos e mentes abertas para esse novo.

Cabe a nós, nação brasileira, acordar desse sonho/pesadelo de sermos eternos bebês chorões sempre na espera de que nosso pai maior nos mantenha alimentados e protegidos. A maturidade do povo grita a olhos vistos que estamos passando da hora de acordar, crescer, tomar as rédeas de nossos destinos nas mãos. É natural que tal atitude traga consequências. No entanto, chega de ficar no canto feito cria mimada choramingando por atenção de pais irresponsáveis.

Levanto, lavo o rosto para despertar de vez, faço meu café e enquanto saboreio, continuo minhas reflexões sobre o significado do dia. Ando muito pensativa nesse período de reclusão Acredito não ser a única.

Não trago respostas. Também não sou dona dela. Nem eu, nem ninguém ainda mais diante desse cenário apocalíptico onde nosso inimigo é invisível.

Que pena os super heróis não existirem para nos proteger com seus superpoderes. Na vida real, contamos apenas com seres humanos vestindo o espírito dos heróis de quadrinhos, munindo-se de coragem que muitas vezes não têm, saindo às ruas para tentar salvar vidas.

Hoje, minhas homenagens são para todos eles que se encontram na linha de frente lutando como verdadeiros soldados para salvar não uma nação, um povo mas, um planeta. Parabéns!!! E força, e coragem. Acreditem: vocês estão escrevendo a história.

#fiqueemcasa

Sonho ou pesadelo?

Fui logo ali, na esquina do universo espiar o que o Pequeno Príncipe aprontava. Moleque levado que é, está sempre me deixando de orelha em pé. No meio do caminho, encontrei com o Menino Maluquinho batendo panela e gritando Fora Bozo! Fora!

Chegando em Marte, onde fiz uma parada para descansar, ouço um maluco tentando convencer algumas extraterrestres de que Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus. Elas olhavam o mirrado ser de orelhas pontudas e comentavam entre si: Coitado, deve ter cheirado gasolina da Lua em excesso. Ficou lelé! Partiram gargalhando deixando o pobre palestrar ao vento.

Tratei de sair de fininho também. Segui viagem para Urano, interessada em saber das novidades. Qual não foi minha surpresa ao chegar num beco e dar de cara com Diógenes, o cínico. Discursava em voz potente, os últimos ensinamentos de Sócrates. Relatava aos cães, seus fiéis ouvintes, que a humanidade precisava aprender a se desapegar dos excessos. Após sua fala, mirou com olhos úmidos sua seleta platéia e agradeceu, pedindo licença para descansar dentro de sua barrica.

Decidi retornar à Terra após esse passeio pitoresco. No caminho, na esquina das Três Marias, fui derrubada por Alice que corria atrás do Coelho que sumiu na poeira estelar em átimo de segundos. Esse sabia ser rápido!

Chorosa, sentou-se ao meu lado, ajudou a limpar o barro brilhoso que grudou em minha roupa e perguntou se eu voltava para casa. Afirmei que sim. Sorrindo, pediu para me acompanhar pois sentia saudades de sua casa, de seus familiares.

Chegamos encontrando uma metrópole vazia, no qual pessoas batiam panela nas suas varandas gourmet gritando: Fora Bozo! Fora! Em outras varandas, alguns lunáticos cantavam o hino nacional ao microfone exigindo a volta da ditadura militar. Um sentimento de déjà-vu tomou conta de mim. Isso me era familiar…

Chorosa, Alice despediu e sumiu no cruzamento das avenidas Ipiranga com São João deixando-me confusa raciocinando com os botões da jaqueta de Sgt. Pepper’s : Que porra é essa?!

Bloqueio

E meu compromisso com a escrita em um projeto, como fica? Pergunta que faço a mim mesma na solidão de minha mansão de quarenta metros quadrados. Solitária, percebo meu boicote fazendo de tudo menos sentar, focar e escrever.

Levanto, sigo para a janela na ânsia de buscar inspiração. Rua deserta. Uma ambulância desce a rua quebrando o silêncio com seu trinado desesperado. Espanta alguns pássaros que se encontram na cobertura do prédio em frente.

Vocalize de dor que me causa náusea. Recuo cerrando as cortinas. A realidade de fora me assusta.

Volto para a frente da tela do computador na vã tentativa de iniciar o texto. Minha atenção é desviada para o livro que se encontra com leitura suspensa – assim como minha vida -, jogado na estante. A capa azul do Gigante adormecido, de Ishiguro, tenta me seduzir. Grita silenciosamente. implora minha atenção. Quero. Desejo. Juro que digo a verdade mas a paralisia me detém no lugar. Sinto um vento frio penetrar pela janela da cozinha que chega até mim causando arrepio. Quero. Desejo. Juro que anseio levantar e fechar a janela. Lembro que estamos em outono, rumando para o inverno. Meus pés, congelados, só de meia, repousa no chão de porcelanato.

Um aroma de temperos invade minhas narinas. Reconheço que meu vizinho está novamente fazendo berinjela com bacon e pimentão assado…

Esse aroma me transporta para infância. Mamãe preparava esse prato aos domingos. Adorava chochar pão no óleo que ficava na forma quando, depois de pronto, mamãe mudava para uma marinexsedlex que não quebrava nunca. Recordo que minha mãe ainda a tem, em meio a tantas louças guardadas em seus armários.

Meus olhos ardem, síndrome de olhos secos elevado a enésima potência. Sofro repentinos acessos de bocejos. Das duas uma: ou a noite mal dormida cobra descanso, ou estou com encosto bravo , segundo minha avó. No entanto, diagnóstico mais provável: sofro de tédio acompanhado de doses cavalares de solidão prejudicada por excesso de redes sociais que sugam o pouco de vida que ainda me resta.

Tudo isso desperta fome. A física e a emocional. Estouro pipoca, asso um bolo, faço tapioca, ou simplesmente uma vitamina de frutas? Que dúvida cruel!

Mas eu precisava tanto escrever…

Agridoce

Vigésimo dia de isolamento social. Sentada de frente à janela, o sol é uma carícia que envolve e aquece meu rosto nessa tarde já outonal. Beberico uma xícara de café que acabei de passar. Vem à lembrança, você.

A saudade bate forte. Um soco, não no estômago mas sim, no coração. Por segundos, sofro uma parada cardíaca. Seca a boca, derrubo a xícara, apago o agora, sofro tremores. Uma lágrima brota em meus olhos ressecados. Uma vontade incontrolável de te reencontrar, te abraçar, te beijar.

Impossível. Você se encontra léguas de distância. Não existe transporte que me leve até você nesse momento. Por acaso se lembra do motivo de nosso distanciamento? Foi alguma discussão boba? Traição? Não consigo recordar o motivo…

Gostaria de sentar e escrever uma longa carta mas, para onde encaminhar se perdi seu contato. Não sei mais onde mora. Por onde anda minha amiga? O que fez de sua vida? Desde nossa separação, muitas coisas aconteceram na minha. Segui com os estudos, trabalhei em muitas funções até chegar onde cheguei, fazendo algo que realmente gosto. Não me casei, nem tive filhos. Isso não foi problema. Também não tenho cão, nem gato, muito menos periquito. Com o passar dos anos, fui me desapegando de tudo e de todos mantendo apenas os vínculos necessários para sobreviver. Viajei muito. Conheci muitos lugares. Estava certa de que era o melhor caminho a seguir.

Envelhecer significa você constatar que só cometeu erros no decorrer de sua juventude. Cometi muitos e um deles foi deixar você partir. Deveria ter lutado com unhas e dentes para te segurar pelo menos mais próxima de mim. Simplesmente abri mão de sua necessária presença.

Pago agora um preço alto pela sua ausência. Através de seu olhar desprovido de qualquer maldade, conseguia enxergar um mundo mais bonito, colorido e alegre. Sua pureza me contagiava. Desaprendi até mesmo de assoviar como fazíamos juntas. Lembra? Aprendemos isso com a vovó que administrava aquela casa imensa de nossa infância, cantando e assoviando o tempo inteiro. Nossa, bateu saudades dela também. De seu cheiro, de seus carinhos e de sua risada espontânea.

Sento no chão, de olhos embaçados. Pego o pote de mel, abro e começo a comer em colheradas cada vez mais rápidas. Salgado misturado ao doce transformando-se numa iguaria única e um pensamento se expressa em minha voz embargada pela pasta de mel, saliva e lágrimas:

Como e onde te encontrar menina que fui um dia? Volta pra mim. Volta!

A arte de persistir

O eco das vozes ensurdecem minha alma calejada pelas dores. Vomito a indignação de tantas vidas caladas de forma abrupta e violenta.

Fomenta em meu espírito, um princípio de revolta que se afoga nas lágrimas que teimam em descer.

O alvorecer promete algo melhor do que vivenciamos ontem.

Antes de me levantar, agradeço a dádiva da vida. Da minha vida. Mesmo lamentando as tantas que pereceram.

Continuar a enxergar a beleza da existência humana está se tornando tarefa das mais árduas para as almas do século vinte e um. Venço pela teimosa!

E enquanto teimo, envelheço e deixo aqui um trecho do poema Envelhecer, do livro Com a maturidade fica-se mais jovem, de Hermann Hesse. É o finalzinho que super me identifiquei:

Para os velhos é bom e são/Borgonha tinto ao pé da lareira/E depois uma morte ligeira – Porém só mais tarde, hoje não!

Imagem free: Negativespace

Pausa

Dois metros e vinte por um e quarenta. Essa é a metragem que me foi dado para vislumbrar o mundo. Lá fora.

E sou grata, uma vez que a maioria dos apartamentos modernos têm janelas bem menores. Em confinamento há três semanas, no qual, nem chance de ver, abraçar, beijar e me despedir de minha família tive direito. Tudo foi tão rápido. Notificação na empresa de que a partir do dia seguinte, trabalharíamos em casa, organização do que traria para casa e a vinda, corrida e assustada sem saber ao certo o que aguardar dali para a frente.

Desde então, vivo numa bolha isolada. Optei por manter a rotina de outrora. Acordo as sete horas, levanto, preparo o café, esquento meu pãozinho, tomo meu banho, me arrumo como se fosse sair para trabalhar. Ah, antes de tudo isso, abro a janela e miro o horizonte observando a mudez dos edifícios e ouço o canto dos pássaros. Não sei ainda onde ficam mas ouço-os nitidamente como se estivessem no beiral de minha janela.

Sinto que sou um misto de personagem da obra de Chico Buarque com o filme norte americano O feitiço do tempo.

“Todo dia ela faz tudo sempre igual”…

Esse trecho da canção não me sai da cabeça. Decidi ouvir outras canções. Instrumentais são as que mais tem me feito companhia. Jazz.

Redescobri o prazer de cozinhar minhas próprias refeições. E constatei que, além de me dar prazer, sou boa nisso.

Assisto a séries coreanas na Netflix, outro dia descobri uma série sobre o Freud. O ator é bem bonitão. Agrada minhas retinas. Comecei a assistir também uma série dinamarquesa que se passa numa escola: Rita. Matando saudades da minha escola, da meninada, do barulho, da convivência. Leio muito. Feliz por ter uma estante repleta de livros que ainda não havia lido. Retomei a leitura do livro Se só me restasse uma hora de vida, de Roger-Pol Droit. Filosofia agradável em forma lírica. Como não tenho problemas com a temática, me ajuda a formar opinião e a me fortalecer.

Sou espiritualista e toda noite tenho dado uma pausa em minhas atividades terrenas. Medito. Oro. Vibro por mim e pela humanidade.

Esperança de dias melhores.

Esse texto faz parte da série de blogues que foram convidados para escrever sobre o tema. Convite feito pela Scenarium Plural, na pessoa de Lunna Guedes.

Nua

Há uma semana enclausurada em meus 42 metros quadrados sem direito a uma varanda gourmet. Minhas camisetas já estão mais justas e os músculos flácidos. Isso não é por conta do confinamento, é preguiça mesmo contudo, sei da necessidade de me exercitar. Ontem a noite percebi que alguns produtos básicos se encontravam no fim. Pensei: vou encomendar pela internet e eles me entregam.

Três grandes supermercados estão congestionados sem previsão para entrega. Bateu desespero.

Despertei por volta das sete horas e fui correndo tentar fechar uma compra num dos supermercado. Sem previsão de entrega. Nos três. Em minha rua, a poucos metros do meu prédio tem um supermercado, na rua paralela outro e mais a frente outro. Em minha rua tem padaria, farmácia, lojas. Todas fechadas com exceção da farmácia e do supermercado.

Fui protelando a hora de descer e fazer de vez as compras. Uma insegurança em colocar os pés para fora do meu apartamento. Pensei: ah, o que tenho aguenta mais uma semana. Não vou.

No entanto, uma semente do desespero abriu fendas em minha alma. Me troquei, peguei a bolsa, sacolas e desci para a rua. Vazia, estranha, desconhecida. Nem as putas da esquina se encontravam fazendo ponto.

Fui num fôlego só. Cheguei ao mercado, peguei o carrinho e saí desembestadamente pegando todos os itens necessários de minha lista. Os demais clientes, assim como eu, encontravam-se calados, olhar assustado, desviando seu carrinho do meu, ninguém ficando junto num mesmo corredor. Uma coreografia interessante. Um acordo mudo entre todos. Sorrisos tímidos sem mostrar os dentes de medo do tal vírus. Olhos baixos ou fixos nas mercadorias desejadas. Claro, não encontrei álcool. Somente os destilados enfileirados em suas gôndolas. Solitários. Fiquei tentada em fazer um estoque para me ajudar a passar as horas. A lógica superou a loucura e deixei-os de lado. Já me encontrava tempo demais fora de casa. Mais uma vez, bateu desespero. Tenho certa idade, meus cabelos platinados podem chamar a atenção do vírus, encontro-me fora de forma, estou sozinha… Foram tantos pensamentos desordenados a poluir minha mente que corri para o auto atendimento. Não queria nem chegar perto da moça do caixa. Coitada. Pelo que pude observar, ela silenciosamente me agradeceu a escolha. Reconheci o medo em seus olhos também.

Registrei as mercadorias, paguei, organizei as três sacolas lotadas em meus ombros e saí em disparada rumo à segurança de meu lar. Ao aguardar o semáforo abrir para o pedestre, dois sem teto se aproximaram pedindo ajuda para comprar algo para comerem. Vergonhosamente, disse não ter dinheiro e comecei a orar para que o sinal abrisse. Um deles se afastou mas o outro ficou emparelhado comigo, dizendo impropérios, me chamando de velha sovina, desejando que o tal vírus me acolhesse a alma não cristã. De olhos embaçados, atravessei a rua correndo risco de atropelo ou possível queda. Subi onze andares carregando o peso das sacolas e de minha alma encolhida, quase uma ervilha.

Ao girar a chave, deixei a realidade lá fora. Despi por completo e, nua, levei as roupas para a máquina de lavar, joguei o tênis no tanque, e corri para o chuveiro onde pude finalmente, deixar as lágrimas represadas virem à tona misturando-se à água do chuveiro. Soluços, engasgo, vergonha da minha humanidade tão mesquinha e medrosa.

Aos poucos, me acalmei. Consciente da água desperdiçada, levantei do chão, fechei o registro, me enrolei na toalha. Ao longe, ouço a voz potente da nossa “Pimentinha” cantando a oração do momento:

Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós/Tenho que apagar a luz…Tenho que ter mãos vazias/Ter a alma e o corpo nus…

Enquanto organizo os mantimentos na dispensa, constato a falta de um item: Droga, que merda, esqueci do café!

Deus!!! Olhai por nós!

Despertar

Encontro-me arrepiada nesse exato momento em que faço o registro . Um acontecimento que surgiu tímido e que pouco a pouco foi tomando corpo e gerou protesto gigantesco. Acredito que tudo o que andava engasgado na goela do cidadão comum, saiu com tudo agora. A paralisia, a apatia, o medo que sugava a energia da população pulou fora do peito apertado por tantas perdas e decepções. E agora mais essa? Perder a liberdade de ir e vir, de abraçar e beijar entes amados, de não dividir mais uma mesa de bar com amigos, até mesmo de não poder dividir o espaço apertado dos transportes públicos para mais um dia de trabalho? E nem mesmo curtir o time querido no estádio? Ah…

Não deu. Paciência tem limites. Bobeira também. O momento que vivemos não é para dizer que a direita ou a esquerda é que está com a razão. Isso é mentalidade de quem não entendeu nada até agora. O momento pede união para preservação. Estupidez está fora do jogo. O que importa agora, não é provar que minha linha de raciocínio é a correta ou que o meu Deus é o verdadeiro. No fundo, todas as verdades são falsas. Verdades são relativas e se movem conforme os interesses se mostram mais fortes. Eu mesma não sou detentora de nenhuma certeza. Pelo contrário, carrego muitas dúvidas comigo e não me envergonho de assumi-las.

Deixando de lado a filosofia, foi bonito demais ver os prédios da região central bater panelas e gritar suas insatisfações. E não me venham vocês me dizer que bater panela é coisa de coxinha ou rissoles. Oh coisa chata isso! O gostoso é ver o povo se expressando, mostrando que ainda pulsa o sangue quente nas veias abertas dessa tão usurpada, sofrida e desgastada America Latina.