BEDA – Partidas

Hoje, logo pela manhã a caminho do trabalho, recebi a notícia. Me senti estranha diante da mensagem. Li várias vezes, guardei o celular para sair do metrô e encontro-me anestesiada até agora, com um vazio imenso. Uma página querida de meu passado virou colocando fim não ao capítulo mas a uma história inteira. Minha homenagem a você, mulher incrível, batalhadora, amorosa, linda que foi inspiração para mim.

Semelhança. Certa vez, um primo mais velho comentou que eu era parecida com uma de nossas tias do lado paterno. Achei que tinha dito a coisa mais absurda do mundo.

O tempo fluiu. Cresci. Num final de semana na casa de minha mãe, pegamos o baú de álbuns de fotografia. É como entrar num túnel do tempo. Entre tantas fotos preto e branco, encontrei uma de tia Ruth, nova e com os cabelos escuros. Foi um choque. Ali, era meu rosto impresso numa roupagem dos anos 50. Não é que Chiquinho tinha razão?

Irmã mais velha de papai, tia Ruth puxou o gênio bom do vô Dito. Vaidosa sem jamais ter sido fútil. Dona de uma elegância natural. Cabelo oxigenado impecável, na altura dos ombros, maquiagem suave. Acessórios obrigatórios: brincos e anéis que enfeitavam suas mãos com unhas esmaltadas. Assim a conheci desde que me entendo por gente. Achava-a muito bonita.

Nunca conheci seu marido. Um italiano rico, de Lucca, uma cidade à beira do rio Secchio, região de Toscana. Esse casamento foi cercado de muito mistério.

Os adultos nunca conversavam tais assuntos perto das crianças. Tiveram uma filha, Dóris que foi cercada de muito zelo por ela e avós. Mimo mesmo. Até demais. No afã de protege-la, esqueceram de prepará-la para a vida.

Anos mais tarde veio à tona, sua dolorosa realidade de uma relação abusiva e violenta. Morando na Itália, abortou seu segundo filho por conta dos pontapés que recebeu no ventre, de “tuo marito”. A família italiana – inconformada – ajudou-a a fugir para o Brasil.

No navio, jogou no oceano, seus sonhos de um casamento feliz. Nunca mais quis saber de se relacionar com ninguém.

Seu semblante suave, sua voz firme com sotaque carregado nos erres. Seu sorriso fácil. Recordo das vezes em que fui à sua casa, e era recebida com bolos deliciosos e, nas tardes frias, seu bolinho de chuva com raspas de limão ou laranja acompanhados de café forte, chá preto e leite. Hum, que lembranças boas!

Resiliente, viu partir todos os demais sonhos de sua mocidade, incluindo, a vontade de dirigir.

Madura, tirou carta de habilitação, comprou um carro popular, dirigiu feliz. Por pressão de sua mãe, mulher rigorosa e dominadora que não suportava a felicidade alheia, acabou cedendo e vendeu o carro. Passou o resto de sua existência andando a pé.

Após a venda da casa — para divisão da herança entre os irmãos — ela, seu irmão mais novo e sua filha Dóris, tornaram-se nômades. Por alguns anos, perdemos contato sem saber seus destinos.

Anos mais tarde, minha prima apareceu na casa de minha mãe. Suja, esfarrapada, esquelética. Portadora de notícias tristes. Tio faleceu e sua mãe, por conta da diabetes, perdeu a visão e encontrava-se senil. Viveram na rua esses anos todos.

Dá um aperto do peito, saber que parte de nossa história familiar, desmorona sem que saibamos, deixando sabor de fel no lugar dos momentos alegres e festivos que um dia desfrutamos juntos. Trago uma única certeza: a semelhança entre nós ficou apenas no físico e no espírito apaziguador.

Ao contrário dela, aprendi a fazer valer minha vontade. Minha felicidade e realização em primeiro lugar. E isso, jamais será um ato egoísta, mas sim, de amor próprio.

Essa crônica se encontra no livro Quinta das especiarias, lançado em 2021 pela Scenarium Livros Artesanais

Esse texto faz parte da blogagem coletiva BEDA Blog Every Day August

Participam comigo:

Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega Nuñes – Suzana Martins

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3 comentários sobre “BEDA – Partidas

  1. Eu sei o que é isso, Roseli. Hoje, estou vivenciando uma das partidas mais doloridas. Nem tive essa estrutura que você teve de transformar em palavras e poesias sua dor.
    Ontem, eu tive a oportunidade de despedir-me pessoalmente. nem sei bem se é despedida ou se é um até logo. A gente nunca sabe o que vai no instante seguinte.
    É um momento que, mesmo passando por tantas perdas, fica difícil descrever.
    Que o espírito apaziguador te abrace.
    Beijo meu

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