Retrospectiva literária

O ano de 2021 foi bem agitado para mim. Dediquei mais tempo à escrita do que a leitura e mesmo assim, consegui ler livros bem interessantes que recomendo.

Fiz uma nova leitura de A elegância do ouriço, de Muriel Barbery. A cada passada de olhos por essa história, novas descobertas e deslumbramentos filosóficos. Sou totalmente fã dessa obra. Repleta de personagens ricos e humanos. Destaque para Renée, a zeladora do prédio e a jovem de doze anos, com ideias suicidas, Paloma.

Voltei a reler também, o livro de poesias Arrebatamentos e outros inventos, de Jorge Ricardo Dias. O dia a dia tão árduo que vivemos nesse ano, me fez voltar a ler poesias para dar uma leveza à realidade. O livro é um apanhado de poemas e sonetos do poeta carioca – que sabe manejar com maestria – as palavras e seus significados.

Continuando na pegada poética, tive o prazer de ler o livro Dentes moles não mastigam pedras de Manogon. Multiartista, atua na dramaturgia, é desenhista gráfico e escreve poemas com temas do cotidiano, através de notícias diárias. Poemas que retratam o duro cotidiano da periferia, com suas mazelas e belezas. Gostei demais da escrita dele, desde já, recomendadíssimo!

Iniciei a leitura do livro As ondas, de Virgínia Woolf e, confesso que ainda não consegui dar seguimento e término dele. Talvez não esteja preparada para a história. Talvez o momento não seja o certo. Mas, ler Woolf é sempre uma aventura então, recomendo a quem deseje conhecer essa escritora britânica.

Li as publicações da Scenarium Livros Artesanais que muito me encantaram. As antologias Casa Cheia, Casa de marimbondos, Roteiro imaginário, A quinze minutos do fim, do qual tive participação. Destaque especial para o belíssimo e recém lançado Colcha de retalhos de Mariana Gouveia. Livro de uma delicadeza e personagens muito bem traçadas que me emocionou ao término da leitura. Numa outra postagem, falarei mais dele.

Enfim, essas foram minhas leituras do ano de 2021. Apesar de uma lista menor, a qualidade dos livros falam por si. E você, o que leu no ano de 2021?

Esse texto faz parte da blogagem coletiva promovida por Lunna Guedes. Participam:

Ale Helga Darlene ReginaLunna GuedesMariana Gouveia

Ah, os domingos…

Estou prestes a fechar o ano de 2021 com a sentimento de dever cumprido e muitos escritos publicados. Além do livro de memórias Quinta das especiarias lançado há pouco, participei de alguns projetos que fazem parte do Scenarium 8 – clube de assinatura, da Scenarium Livros Artesanais.

O último a sair e fechar o ano com chave de ouro é Estrada para os domingos. Ao lado de excelentes escritores, companheiros constantes nos projetos literários.

Dá uma espiada nesse tira gosto:

Mais um coletivo que vale a pena adquirir e ler com o prazer de folhear um livro personalizado, confeccionado em papel de qualidade. Se desejar esse e conhecer os demais títulos da assinatura, clique aqui

Imagens: Lunna Guedes

Ritual

Xícara devidamente posta, cookies de especiarias, descansam num pote de vidro.Toalha alisada, aroma cafeinado envolvendo o ambiente ao som de Sarah Vaughan. Cortinas cerradas, impedem a bruta realidade de entrar e estragar a energia trabalhada: paz.

No aparador, uma vela de jasmim acesa, complementa e perfuma a cenografia montada. Na solidão do apartamento, a mulher se veste sem pressa, mirando o espelho. Sorri ao ver o reflexo que a agrada.

Pega os apetrechos e segue para a sala. Liga seu All in one branco, acessa a aula pelo Youtube, desdobra o tapete de yoga, posiciona em lótus, fecha os olhos e agora – com trilha sonora de Kitaro – inicia a meditação diária.

Dentro de uma hora, “ele” estará online para mais uma relação virtual. Suspira profundamente esboçando tímido sorriso.

Imagem licenciada: Shutterstock

E lá na Mooca…

Ela foi uma incógnita. Seu passado, um mistério que sempre pensei um dia, desvendar. Mulher simples, como a maioria de suas conterrâneas, poderia ter sido irmã gêmea do ator Flávio Migliaccio, tamanha semelhança. Apesar de semi analfabeta, lia bastante. Estava sempre com um livro nas mãos. Detalhe: aos noventa e seis anos, ainda lia sem óculos. 

Foi a primeira feminista que conheci. Em sua juventude, deve ter sido chamada por outros adjetivos. A pouca informação que trago é que saiu de casa muito jovem, em busca de trabalho.

Chegou a São Paulo em meados da década de 30. Fixou moradia na Mooca. Lá, formou sua verdadeira família entre vizinhos e conhecidos do Centro Espírita, que passou a frequentar. Tinha uma maneira peculiar de se expressar trancando o maxilar como se estivesse prendendo a dentadura para não sair do lugar. Talvez fosse isso mesmo. 

Trabalhou em diversas funções: copeira, lavadeira, faxineira… Outras tarefas que nunca soubemos ao certo o quê. Foi amparo de muitas prostitutas. Alcançou segurança financeira ao ser admitida no Senai. De lá só saiu aposentada.

Teve um único filho e enfrentou fome, incompreensão e discriminação de toda uma sociedade. Nunca se soube a identidade do pai. 

Recordo dos domingos em sua casa. Quando tia Irene me chamava para fazer companhia, ficava radiante. Gostava de apreciar — pela janela do ônibus — a paisagem urbana atravessando a cidade, de Osasco à Mooca. Para mim, um outro país!

Virgínia tinha paixão pela cozinha e recebia com prazer, quem quer que aparecesse em sua casa. Lembro-me de seu frango na cerveja. Algumas vezes ela preparava esse prato assado. Outras ocasiões, frito. Nunca soube definir qual ficava melhor!

O almoço acontecia, com trilha sonora de Roberto Carlos ou Agepê, tocando na vitrola. Após o prato principal, uma sobremesa. Caso fosse época, morangos suculentos acompanhado por Chantilly ou mosaico de gelatina. Nessas ocasiões, me sentia mais próxima do céu!

Esse texto faz parte do livro Quinta das especiarias, meu último livro, lançado pela Scenarium Livros Artesanais.

Se gostou desse texto, tem muito mais no livro que você pode adquirir aqui

6 on 6 – Ho Ho Ho

Vasculhando fotos de reuniões antigas, ficou difícil selecionar as que fariam parte dessa postagem. São tantos momentos que marcaram e se transformaram em doces lembranças natalinas. Parece que, ao escolher, as que ficaram de fora, não tiveram importância. Mas, ao contrário, todas foram registros de momentos muito especiais.

Momento registrado do Natal de 2007, ano em que minha família se mudou para a casa nova. Foi um misto de emoções. Sair da casa onde nasci e me criei. Lar que me forjou, paredes que presenciaram risos e lágrimas de uma menina sensível. No olhar, a expectativa do que viria a partir dali.

A biblioteca onde trabalhei por vinte e cinco anos, possibilitou muitas fotos nos finais de ano, onde a equipe se reunia para celebrar mais um ano a se encerrar e também para a troca de presentes do amigo secreto. Houve de tudo: momentos de espontânea alegria, situações desagradáveis afinal, o ser humano é complexo e nem sempre as coisas saem como planejamos. Mas, apesar dos pesares, as festas de finais de ano sempre me alegraram. Acima, eu no ano de 2014, fazendo pose.

Passear na Avenida Paulista no mês de dezembro e sentir a energia HoHoHo, do bom velhinho, sempre foi programa para mim. Na foto acima, eu posando ao lado do painel de fim de ano em frente ao Center 3. Isso, no ano de 2015. Tarde deliciosa!

Essa foto foi o registro de um passeio delicioso, ao lado de meu irmão e cunhada, no Natal Iluminado no Céu Sagrado, em Sorocaba, em 2016. Inesquecível!

Do mesmo ano, o click do almoço natalino em família. Alegria e certa melancolia em ver titia Irene, em nossa companhia, ainda gozando de saúde.

Tenho um olhar e um sentimento especial para essa foto. Primeiro, porque essa árvore de livros, foi feita por mim. Realizei um sonho de fazê-la na biblioteca. Foi um sucesso! Foi minha última foto natalina retirada lá afinal, em dezembro de 2020, já não fazia mais parte da equipe da biblioteca e devido a pandemia, não houve comemoração.

A vida passa, as pessoas surgem e partem, deixando um vazio que são preenchidos pelas inúmeras vezes em que olhamos e voltamos a viver esses momentos que se eternizaram numa fotografia.

Esse texto faz parte da blogagem coletiva 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais

Fazem parte dessa blogagem:

Lunna GuedesMariana GouveiaObdúlio Nuñes Ortega

Fotos: acervo pessoal

Será que aprendemos?

Amanheci refletindo sobre nossa finitude. Não podemos prever quando iremos partir mas, acredito que enquanto aqui, podemos e precisamos deixar um legado. Seja ele qual for, que seja verdadeiro, que possa servir de acolhimento para almas que perderam seus caminhos, que possa dar esperanças aos desvalidos e que embeleze o dia daqueles que perderam o brilho do acreditar que – mesmo o planeta estando e sendo hostil – ainda dá tempo de torná-lo melhor. Não precisa de muito. Basta um olhar doce, um afago nos ombros, um sorriso e tudo muda.

Ser e exercer a empatia, é o caminho para vivermos melhor. Obvio que somente isso não basta. O importante é ter consciência de que não existe cartilha pronta do “Bem viver”.

Afinal, quem não gosta de ser bem tratado?

Não é somente por chegarmos a mais um final de ano. Praticar o bem nessas ocasiões ajuda muito alguns desfavorecidos, mas fazer isso o ano inteiro, é para poucos que compreenderam a mensagem.

Imagem licenciada: Shutterstock