De que eu me lembro?

Numa vivência de mais de meio século, coleciono centenas de lembranças. Encontram-se dispostas em pastas denominadas: muita relevância, média relevância, nenhuma relevância e lixeira.

Em sua grande maioria, encontram-se recordações ligadas à família. Muitas, de amigos, escola, faculdade. Outras marcantes da vida profissional. Apesar de – em geral ser um ambiente tóxico – com inveja, competitividade e puxadas de tapete, consegui fazer poucos e fiéis amigos. Deles, possuo momentos carinhosos.

Tenho em minhas pastas, lembranças de momentos tensos de nossa vida em sociedade. O Brasil, celeiro de tantas desigualdades e injustiças é também, território que gera muitos talentos e riquezas. Oscilo entre amar e odiar ter nascido nesse solo que ultimamente, arde sob nossos cansados pés. A nação encontra-se fatigada de lutar, trabalhar e jamais sair do lugar: pobreza.

Enquanto uma minoria branca detém a riqueza muito bem protegida em paraísos fiscais, o grosso da população pena em empregos informacionais ou permanecendo invisíveis, em meio ao desemprego. O aumento de brasileiros com morada fixa debaixo de viadutos e em praças públicas é visível e não dá mais para fingir que não existem.

O número cada vez maior de jovem negros e pobres mortos pela polícia é gritante. Então, por alguns instantes paro, penso e de que me lembro?

De casos que se perderam em meio a tantos que se repetem diariamente em várias cidades e estados. Recordo de alguns jovens com os quais convivi bem próximo e que perderam suas vidas por serem negros, pobres, sem escolaridade. Só precisavam de um olhar mais atento e oportunidades para crescerem e passarem a fazer parte de uma estatística menos sombria.

Nasci pobre mas branca. Isso, fez um diferencial em minha trajetória. Obtive melhores chances de estudo e empregos. Muitas portas se abriram devido a minha cor. Tenho plena consciência de que, se fosse negra, talvez não tivesse alcançado o cargo que ocupei antes de me aposentar. Colegas que estudaram comigo na infância e adolescência, hoje vivem em condições precárias. Isso se ainda vivem. Muitos, infelizmente partiram. Viveram sem qualidade de vida, sem perspectivas de crescimento. Muitos aceitam isso como algo normal afinal, sempre foi assim.

E esse “sempre foi assim” é que me mata!

Chegamos a um ponto em que não dá mais para compactuar com esse pensamento. Simplesmente não dá mais para ser assim. Chances de nascer, crescer, estudar, trabalhar tem de ser igual para todos. Somente assim, teremos uma sociedade justa.

O que estamos fazendo para mudar o panorama da população negra que é maioria em nosso país? Desejo um país mais justo, com menos desigualdade, menos discriminação. Não trago respostas para essa situação, apenas muita inquietação em meu íntimo. O dia nacional da consciência negra foi ontem mas, a preocupação e reflexão devem ser constantes, um exercício diário. Então lanço a pergunta: o que podemos fazer de concreto?

Participam dessa blogagem coletiva:

Lunna GuedesMariana GouveiaObdulio Nuñes Ortega

Imagem licenciada: Shutterstock

4 comentários sobre “De que eu me lembro?

  1. É a mesma pergunta que me faço… Texto necessário. A luta é diária, Roseli e como me disse uma ativista da causa dias desses: falar sobre já é uma forma de fazer algo.
    Abraço

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