Dia Nacional do Livro

O espaço da biblioteca foi para mim, extensão de minha casa. Aliás, devo dizer que passei mais tempo nela do que em casa. Tive o privilégio de viver cercada por livros. Muitos livros. Não contente em passar o dia cercada por eles, ao final do expediente, sempre dava uma passada pelas livrarias próximas: Livraria Cultura, Livraria Martins Fontes, Fnac (infelizmente não existe mais por aqui), e outras pequenas. Para ficar por dentro do que havia de novidades na área e, pelo puro e simples prazer em permanecer nesses espaços.

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Há quem me achasse louca. Quantas vezes não ouvi que deveria buscar outras formas de diversão e ocupação. Quer saber? Esses espaços sempre me preencheram : cultura, informação e lazer. Juntos, num único espaço. Nunca me arrependi.

Hoje, afastada de uma biblioteca, permaneço cercada por meu acervo pessoal, que ainda tem muitos livros a serem lidos e outros que pretendo reler.

Outubro é um mês fecundo em comemorações relativas ao livro: mês internacional da biblioteca escolar, Dia Nacional do Livro e Dia da poesia, no final do mês, em homenagem à Drummond.

Hoje, aproveito para homenagear a data, mas, principalmente, chamar a atenção dos leitores para se permitir ler e conhecer os autores nacionais que vivem no esquecimento. O Brasil é um celeiro ininterrupto de escritores talentosos, que vivem à margem, nas livrarias e bibliotecas.

Escritores que se tornaram clássicos como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade. Outros mais contemporâneos como Carlos Heitor Cony, Ignácio de Loyola Brandão, João Ubaldo Ribeiro, Josué Montello e tantos outros, que é impossível caber aqui, nessa postagem.

Existem os que lutam diariamente escrevendo e publicando e, mesmo assim, permanecem no anonimato. Existem os escritores feito eu, que publicaram poucas obras de forma artesanal e, que escrevem em seus blogs.

Em tempos pandêmicos, aumentou o número de escritores. Todos, sentindo necessidade em expressar sentimentos diversos dentro de seus metros quadrados. Tenho lido muita coisa boa!

Deixo aqui minha mensagem estendida a todos e, em especial, à minha editora e escritora, além de amiga, que tanto nos incentiva a escrita. Obrigada Lunna Guedes, por apostar na gente. Agradeço a amizade dos demais escritores do selo Scenarium Livros Artesanais. Iniciamos na escrita, nas oficinas e, hoje, formamos uma equipe de amigos que se apoiam, se fortalecem e dividem as alegrias da publicação.

Um Viva ao Dia Nacional do Livro. Sigamos na contramão daqueles que teimam em dizer que não somos um país de leitores. Lemos e escrevemos sim! Basta ter olhos para ver. Tin-Tin!

Imagens: acervo pessoal

Compasso de espera

Revendo textos meus antigos, observo o quanto evolui na escrita. Alguns, sinto um misto de vergonha e alegria por ter ousado, escrito e publicado. Trago vários iniciados e inacabados, que se encontram em rascunho. Servem de exercício, modelo, teste para algum tema. Muitos, retorno, retrabalho, reescrevo, moldo, atualizo e publico aqui no blog. Outros tantos, vão permanecer no limbo, guardados de mim mesma.

Agora mesmo, enquanto dedilho esse texto sobre a escrita, ouço uma música instrumental que preenche minha alma, observo pela janela, o tempo nublado, sinto aroma do café com um leve perfume do chocolate que acrescentei no pó e sinto um bem-estar se agigantando dentro de mim, como há um tempo não sentia.

Até mesmo o fato de minha conta bancária estar negativada, o calhamaço de contas vencidas sobre a bancada de trabalho, o desemprego e a vontade absurda de cair no mundo sem planejamento, diminui minha alegria por estar viva e saudável.

Vá entender, o ser humano é assim mesmo. Uma gangorra de emoções. Um vai e vem de sensações que alimenta, faz sofrer e gargalhar.

Olho para minhas estantes, repletas de livros. Muitos, aguardando pacientemente, sua vez de ser acariciado, explorado. Outros, já lidos, esperam minha vontade em selecioná-los e encaminhar para doação. Gosto de vê-los circular por mãos e olhos desconhecidos. Essa é a beleza dp processo. Livro bom não é o que decora estantes, mas sim, os que sofrem manuseios ansiosos pela descoberta de seu conteúdo. Preciso e quero mergulhar nas minhas leituras.

Imagens: acervo pessoal

O livro da minha vida (um dos…)

A tarde transcorre cinzenta lá fora. Aqui dentro, um silêncio morno, gostoso mesmo, me faz companhia. Assisti novamente, Mulheres à beira de um ataque de nervos, de Almodóvar. Recordei do impacto que tive ao assistir, pela primeira vez, no cinema em sua estréia. Hoje, achei-o até bobinho. Como mudamos!

Apesar de mudar muitos pontos de vista, no decorrer dessas décadas, permaneço fã de sua obra. Ao término do filme, recordei de um livro dele, que comprei, li, dei muitas risadas e perdi-o de vista. Sei que emprestei mas, não lembro para quem.

Fogo nas entranhas, pulp fiction da melhor qualidade, com uma narrativa que mistura sexo, feminismo, espionagem e assassinatos. História genial com um toque repugnante, hilário, bizarro.

A história de cinco mulheres: uma chinesa, uma frígida, uma ex-espiã disfarçada, uma figurante de faroestes europeus e uma assistente de laboratório químico, que um certo dia foge para Ibiza com um grupo de hippies.

Sempre com personagens incomuns e, ao mesmo tempo, tão comuns, nos leva a uma Madri que literalmente pega fogo.

Raimunda, Eulália, Katy, Diana e Lupe. Mulheres com perfis diferenciados, idades variadas e personalidades idem nos pegam pela mão e transportam para histórias pra lá de deliciosas. Todas elas têm em comum, o senhor Ming e sua fábrica de absorventes.

O gostoso de se ver nos filmes e, de se ler nos contos, é justamente a força visual que Pedro Almodóvar dá às suas mulheres. Ele trabalha e nos escancara a realidade delas: donas de casa enfadadas com sua rotina pesada e sem graça; mulheres que passaram uma vida inteira preservando sua virgindade e, que ao chegar aos setenta anos, deseja recuperar sua juventude e sexualidade. Mulheres que optaram pela homossexualidade. Mulheres que largam o hábito para se jogarem na vida.

Enfim, um verdadeiro mosaico de personalidades botando em xeque suas vidas, enfrentando seus demônios interiores, se jogando nas experiências sentimentais e sexuais.

Tudo isso regado a muito humor – algumas vezes negro – , muita sacanagem da boa e, com uma leveza, que só mesmo esse gênio espanhol poderia fazer.

Li muitos livros nessa minha vida de leitora e bibliotecária e, poderia escolher inúmeros títulos que marcaram essa caminhada. Esse livro pode não ser o melhor livro que li – observando a qualidade e o gênero literário – no entanto, foi esse título que me veio a mente, ao decidir participar da blogagem coletiva “O livro da minha vida”, promovida por Lunna Guedes, no grupo Interative-se.

Se não leu, leia. O difícil será encontrar para venda, pois encontra-se esgotado. Talvez, em algum bom sebo. Vale a pena além de garantir boas risadas.

Na rodoviária da vida, o duro é aprender a se despedir

No decorrer de nossas vidas, vamos aprendendo a conviver com ausências. Pessoas vêm e vão, acompanham-nos por determinado trecho de nossa caminhada e, desviam suas rotas, partindo e deixando suas marcas e lembranças. Algumas boas, prazerosas, outras nem tanto.

Sua partida, foi uma das que mais senti. Pela primeira vez, questionei o “Todo Poderoso”. Por meses seguidos, travei briga com ele e me afastei. Fiquei de mal com o Divino. Não era pra ser. Era muito cedo para partir.

Certa manhã, ao acordar, lembrei de nossas inúmeras conversas pela madrugada – onde mais de uma vez – confidenciou que tinha certeza que não envelheceria. Partiria cedo. Talvez, por ter essa certeza, havia urgência em vivenciar tudo intensamente. Bebia da vida, goles sôfregos e em abundância.

Sua companhia foi bonita, tivemos grandes momentos juntos. Nosso quintal foi a Avenida Paulista. Lá, andou de skate, bike, caminhamos a passos largos, outras vezes bem lento para apreciar o caos urbano que tanto nos agradava. Observar os músicos de rua, fazer amizade com os hippies, ter um dedo de prosa com os moradores de rua. Você sempre tratou a todos como seus irmãos. Isso serviu de lição para mim, que muitas vezes passava por eles, batido. Assimilei sua humildade.

Sofri ao seu lado quando fracassava em algo. Te amparei nos momentos obscuros em que sua alma, clamava atenção e amor.

Amor que sempre tive desde seu nascimento e só cresceu nos vinte e três anos que convivemos. Com sua ausência física, esse amor se eternizou em algo bonito. Não mais sofrido como nos primeiros tempos de sua partida. Hoje, quando penso em você, imagino-te volitando pelo Universo sem fim, fazendo manobras com seu corpo esguio. Livre, sem bagagens materiais que tanto nos pesa e nos prendem, feito grilhões, numa prisão. Visualizo seu sorriso largo, seus olhos profundos, com brilho de serenidade. Finalmente encontrou paz.

Contudo, nessa data, um cinto invisível aperta minha caixa toráxica. Respiro fundo, pisco algumas vezes e sigo com as tarefas do cotidiano, afinal, preciso cumprir a promessa que te fiz: não mais chorar pra não te fazer sofrer nossa ausência.

Ausente meu menino, você hoje, está mais presente que nunca!

Imagem: acervo pessoal

Tá puxado no dendê!

Despertei no desespero. Esfregando os olhos repletos de ramela de sonhos. Decido retornar ao mercado de trabalho.

Que trabalheira!

Atravessei a manhã preenchendo cadastro que nada me representa. Subo arquivo de meu currículo. Anexo foto de meu exterior.

Tudo, para não dizer nada do que eu realmente executo ou, quem de fato sou.

Blá, Blá, Blá…

Como resumir uma vida inteira em poucas palavras? Não sofro de economias. Desde que aprendi a soletrar e a ter intimidades com elas, tornei-me faladora sem tréguas.

Às vezes me calo. Isso é muito raro. Em geral, saio aos borbotões deixando meu interlocutor zonzo. Está vendo só? Cá estou eu, fugindo do ponto inicial que era falar de minha decisão em retornar ao mercado de trabalho.

Coração acelera. Bate medo, desânimo em aguentar transporte cheio, pessoas difíceis, sistema engessado.

Mas a necessidade material e desejo de fazer algo, grita no silêncio de meu eu.

Para muitos, sou velha. Passei do ponto. Tenho mais é que me contentar com aposentadoria e comer – quando der – na comedoria do SESC/SP. Jogar gamão, dominó, xadrez cazamiga.

Ficar de frente à TV, gastar os olhos no “Vale a pena ver de novo”, tricotar e gastar os dedos nos grupos familiares e do condomínio, no ZAPZAP.

Credo, isso pra mim não é vida não!

Desejo sofrer de ansiedades, cruzar a cidade, trocar confidências, ampliar conhecimentos, exercitar massa cinzenta. Viver intensamente!

Sonho de olhos abertos com o dia em que somente com meu salário de aposentada, possa atravessar o mês, sem perder o sono ou gastar o dedo na calculadora, tentando esticar ao máximo, cada centavo… Quando restar centavos.

Tomei um banho, despertei pra valer, passei um café forte e recuperei a serenidade. A realidade assusta, mas é com ela e somente ela, que devo contar. Falando em contar, peraí que acho que esqueci de pagar a conta da Enel.

Misericórdia! Saldo negativo. Peraí que vou lá na esquina passar o chapéu e ver se consigo uns trocados. Tá puxado no dendê!

Dedo de prosa com Chicão

Hoje, em especial, oro pelo animal ao qual faço parte da matilha e, que muito me tem envergonhado. Oro, Francisco, gritando a agonia de ver tantos de nossa espécie, agir sem a delicadeza e respeito que observo nos animais irracionais. Esses, nem precisam de proteção, pois vivem em respeito a si próprios, ao próximo e à natureza que os cercam. Natureza essa, que sofre com ações do animal/homem.

Esse, deveria ter ficado lá atrás, andando de quatro. Chafurdando na lama e cumprindo poucos anos de vida. Com certeza, o planeta estaria em melhores condições.

Francisco, cá entre nós, porque Deus nos criou? Somos verdadeira ofensa a todo modo de vida.

Ao contrário de você, que optou pelo voto de pobreza, nossa população tem passado fome, dormido ao relento, vestido andrajos. Não pela liberdade de opção, mas sim, porque outros que se acham acima dos demais e têm uma mente e coração tomados pela vilania, se apropriaram do país e querem mais é ver a população morrer à mingua. Infelizmente, sou obrigada a dizer que estão tendo pleno êxito do projeto “Ruína brasileira S/A.”

De anônima não tem nada, pois sabemos os nomes de cada boi dessa boiada que assola pastagens que até bem pouco tempo, eram matas nativas que enriqueciam solo brasileiro. As matas verdejantes de outrora, encontram esturricadas, cheirando a chão defumado. Incêndios criminosos assolam, matam nossa natureza.

Boiada burra que não compreende uma simples equação: a destruição de nossas matas, matam o verde, animais, eliminam as nascentes, afeta a agricultura, gera fome, desemprego, amplia a miséria, aumenta a desigualdade social,gera violência e o resultado final, é o que presenciamos.

Chico, posso te chamar carinhosamente assim? Acompanhe meu raciocínio. Você que tem intimidades com nosso criador, num dedo de prosa, assim como quem não quer nada, insinue que deu PT (perda total) na raça humana e que ele deve – para manter o equilíbrio geral – dar um reset no animal/homem. Eliminar de vez, o erro…

Não, melhor se expressar de forma mais suave para não despertar sua ira. Aconselhe-o a eliminar os humanos temporariamente. Fazer um recall, até chegar a um protótipo mais aperfeiçoado que venha a enriquecer a natureza do planeta Terra.

Assis, vai por mim. Se souber se expressar de forma eloquente com o criador, tenho fé que ganha muitos pontos pelo resto da eternidade. Você passará ao topo do Top 10 ++, do rol das santidades.

É ou não é, uma proposta interessante?

Imagem: Conversas Sagradas ( São Francisco de Assis, 
Santo Antônio de Pádua e São Boaventura de Bagnoregio) –
Andrea Lilli – Exposição MAB FAAP “São Francisco de Assis, na arte de mestres italianos” – 2019
Foto Solange Albinati