Fado moderno

Ao som do fado, na voz de Mariza, Maria da Soledad passeia os olhos pela vegetação ao redor da Fonte dos Amores. Após ouvir as inúmeras lendas a respeito do amor de D.Pedro e Inês de Castro, não poderia partir de Coimbra sem visitar o local.

A professora de educação infantil de férias em terras lusitanas, pensativa, absorve a atmosfera medieval da fonte.

No dia seguinte, seguiria com as amigas, para a cidade de Porto, depois Guimarães e Braga, retornando por fim, à Lisboa para embarcarem de volta a São Paulo.

Romântica, fora capturada por essa linda e triste história de amor que ganhou o mundo. Desconfiava que jamais seria amada dessa forma. Hoje, os relacionamentos são tão voláteis. Se Pedro e Inês tivessem vivido em nossos tempos, curtiriam apenas um amor de verão. Ao término da estação, cada um seguiria seus destinos guardando por breve tempo, lembranças que se esmaeceriam até sumir e nem lembrarem da fisionomia um do outro.

Ela mesma quase não lembrava detalhes do rosto de Gustavo, seu último grande amor, que partiu para a Austrália, no inverno passado. Chorou, teve insônia, perdeu o apetite por algumas semanas. Envolvida pela correria do término do semestre e os inúmeros relatórios a entregar para sua supervisora, foi esquecendo até quase não pensar mais nele.

Posicionou-se ao lado da fonte, tirou umas selfies esboçando falsa alegria. Aproveitou para registrar mais outras fotos, na escadaria da Quinta das Lágrimas, hoje um luxuoso hotel. Partiu para encontrar suas companheiras de viagem, que haviam disparado mensagens cobrando sua presença.

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No silêncio da casa

Duas e trinta da manhã. É domingo, ouço o silêncio que impera na casa. Olhos abertos na escuridão, espero paciente a vinda do sono. Enquanto aguardo, relembro momentos íntimos que ficaram no passado.

Recordo o primeiro encontro, após dois anos de conversas que adentraram a madrugada. Preparo gostoso, onde pudemos nos conhecer, nos desenhar, nos imaginar. A distância que nos separava, foi ingrediente importante para apimentar o desejo de unir corpos e saciar a fome um do outro.

Enquanto não o realizávamos, costurávamos a relação com muito bate-papo sobre literatura, cinema, teatro e música. Ah… de repente, bateu uma saudade de minha ingenuidade. Éramos tão jovens, tão cheios de sonhos, esperanças…tesão.

A lembrança de sua implicância por eu ser fã do Oswaldo Montenegro e do Jorge Vercillo… Lembrar, me fez rir alto.

E quando você me apresentou a canção Redondo Vocábulo, na voz da cantora portuguesa Cristina Branco? Fiquei seduzida por essa música por um bom tempo. Até hoje ouço seus fados.

A expectativa de nosso encontro foi cercado por ansiedade, frio no estômago, noites insones. Até que te vi – pela primeira vez – no saguão de desembarque. Saindo com olhos de menino assustado, me procurando, e eu ao longe, te observava roubando momentos que queria registrar somente para mim.

De lá pra cá, tantas aventuras, encontros, risos, brigas, reconciliações, novos encontros, mais desencontros…

Hiatos, onde cada um foi em busca de suas aspirações, separados pelo espaço geográfico e dificuldades em expressar os próprios sentimentos.

É… somos animais complicados não é mesmo? Te disse tantas imprecações, você devolveu arrancando lágrimas. Quantas vezes cansei os ouvidos de minha psicanalista, praguejando sua pessoa. Coitada, talvez seja por isso que me deu alta. Com certeza achou que era um caso perdido.

A casa hoje me parece tão grande e vazia. Ouço ao longe, a buzina estridente do segurança que faz a ronda noturna em sua velha moto.

O ronco e gemido assustadores do motor da geladeira são minha companhia.

Escuridão e silêncio a me envolver. Três e vinte e sete da manhã, o cursor do smartphone clareia o breu do quarto. Reluto em olhar, afinal, quem manda mensagem a essa hora da madrugada? Novamente o clarão e a curiosidade tomam conta de mim. Abro os olhos, que embaçados, enxergam a mensagem vinda de longe

Oi, está acordada também? Faz tempo…

Vamos conversar?

Me finjo de morta. Adormeço, jogando a pergunta à você, Destino Safado: o que apronta para mim a essa altura da vida hein?

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Momento filosófico/psicológico ou, simplesmente jogando conversa fora

Amanheci pensando no que leva uma pessoa a tornar-se opressora. Lembrei-me de algumas, com as quais convivi e, cheguei à seguinte conclusão: Todo opressor é solitário e deseja companhia. Só não sabe como conquistar.

Maus tratos na infância pode ser um sinalizador de tal comportamento. Porém, nem todo ser que sofreu quando criança, torna-se um adulto com essa natureza. Pessoas nascidas e criadas de forma saudável, podem apresentar – na fase adulta – tal distorção.  

Mais uma vez me pego com a seguinte questão: por quê ? Ainda não obtive resposta. Sigo estudando, analisando, refletindo sobre as nuances da natureza humana. É fascinante e, ao mesmo tempo, assustador. Todos temos a linha invisível que delimita ações conscientes de ações movidas pela loucura. Sei que também carrego essa linha e que posso ultrapassá-la. Tudo depende de nossa saúde mental, de nosso autoconhecimento, de nossas relações e do quanto interagimos com elas. Se somos ouvidos, compreendidos, aceitos, respeitados. 

A história nos mostra  inúmeros exemplos – seja na política, na religião – que são locais onde mais exemplos tivemos. Não paramos por aí. No âmbito familiar, é comum a presença de uma pessoa com tal perfil. Geralmente é na figura paterna que encontramos um maior número mas, pode se manifestar na figura da mãe, nos filhos, sogros, tios.

Essa reflexão é de uma pessoa leiga que gosta de ler e estudar sobre o comportamento humano. Posso ter expressado bobagens. E se falei, peço desculpas.Tenho aprendido muito sobre minhas próprias ações e isso, tem-me levado a ser mais tolerante com as falhas humanas. Mas, o opressor, ainda me causa asco e, procuro na medida do possível, manter certo distanciamento. 

Quem aqui é deficiente?

Viver e conviver com a deficiência – seja ela física ou mental – não é tarefa fácil. Acompanho minha irmã caçula em suas venturas e desventuras pela cidade de São Paulo. Ela, portadora da Síndrome Melas (miopatia mitocondrial , encefalopatia, acidose láctica e acidente vascular cerebral), Ufa!!!

Considerada rara raríssima, o acompanhamento para quem é portador da síndrome é complicada. A maioria dos médicos nunca ouviu falar, então, já viu o problemão que ela enfrenta.

Minha irmã passou por muitas etapas da doença, desde o princípio. Hoje, cadeirante, ela tornou-se um exemplo de ser humano resiliente que não se entrega ao pessimismo muito menos, ao conformismo de que é incurável. Ela vive intensamente o dia a dia.

Desde que se tornou cadeirante, passamos juntas por muitas dificuldades na locomoção: calçadas quebradas, sem rebaixo; quando há rebaixo, carros estacionados impedem; enfrentamos juntas muitas atitudes discriminatórias, preconceituosas de pessoas nos transportes públicos, na rua, em teatros, restaurantes, cinemas.

O cidadão deficiente enfrenta uma guerra diária para viver, trabalhar, ser respeitado pela sociedade e não contar apenas com atitudes caridosas para com eles. Conheço muitos deficientes físicos que são exemplo de profissionais incríveis: Rodrigo Mendes, que fundou o Instituto Rodrigo Mendes, foi a primeira pessoa de destaque que conheci, juntamente com minha irmã, que estudou lá por uns tempos. Exemplo de ser humano que fez de seu limão azedo, uma deliciosa limonada e não contente em tomar sozinho, oferta a todos que o procuram. A senadora Mara Gabrilli, também é outro exemplo de pessoa com deficiência física, que soube dar a volta por cima. Independente de concordarmos com sua postura política, temos de reconhecer sua luta, sua afirmação diante de todo o senado e dos olhares masculinos e preconceituosos que ela enfrenta diariamente.

O Ricardo Shimosakai, do blog Acessibilidade em foco , é outro exemplo de superação. Vale muito a pena conhecer sua página.

Minha irmã circula pela cidade numa cadeira motorizada ou como agora, num triciclo. Faz parte do corpo de dança e teatro da Associação Fernanda Bianchini. Atende pessoas com diversas deficiências mas seu diferencial, é o balé de cegos. Quando assisti pela primeira vez, no teatro Auditório Ibirapuera, fiquei encantada com a delicadeza e sensibilidade daquelas bailarinas sem visão.

No passado, ela criou o personagem Lírio Peteleko, ao fazer parte de um grupo de clowns da Operação Conta Gotas, visitavam hospitais, levando alegria e esperança às crianças doentes. Ela fazia o maior sucesso!

Poderia citar aqui muitas pessoas que fazem parte do grupo de deficientes espalhados por toda cidade. Contudo, o que desejo mesmo, é homenagear a todos que lutam, sofrem, riem, estudam, trabalham, vivem e que – apesar da deficiência – não são a deficiência. São seres humanos sensíveis, inteligentes, humanos e com muita garra de se superar. Exemplo para todos os demais que se acham “normais”.

O Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência não deve apenas ficar restrito ao calendário. Precisamos enquanto sociedade, olhar com mais carinho, atenção e dar visibilidade a todos afinal, amanhã, somos nós que podemos estar do outro lado. Pense nisso!

Imagem: Acervo pessoal e Google

Meu olhar e expectativa diante da educação

Trabalhei por trinta anos, em instituições educacionais. Da filosofia construtivista, ao conceito tradicional, com pitadas de Reggio Emilia. Nessa convivência diária, pude contar nos dedos das mãos, as vezes em que um professor chegava à biblioteca, solicitando os livros de Paulo Freire. Com excessão, das professoras em formação, que precisavam dos livros para seus trabalhos de faculdade.

Enquanto os demais pedagogos tinham seus livros relançados em edição mais moderna e luxuosa, a coleção de Paulo Freire permanecia parada na estante, relegada ao esquecimento, tornando suas páginas amareladas pelo tempo.

Estudiosos como Maria Montessori, Vygotsky, Piaget, Emilia Ferrero, José Pacheco, Fernando Hérnandez e Monteserrat Ventura.

Os queridinhos do momento, com muitos seguidores em suas redes sociais: Mario Sergio Cortella, Viviane Mosé, Rosely Sayão, Leo Fraiman.

O Brasil presenteou com nomes que fizeram muito pela educação: Anísio Teixeira, Dermeval Saviani, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, a quase esquecida Maria Nilde Mascellani e, esse, do qual desejo falar um pouco e prestar minha humilde homenagem: Paulo Freire.

Nossa sociedade tem por (péssimo) hábito, desmerecer os frutos da própria terra. Só tem valor, o que vem de fora. Com Paulo Freire, não foi diferente, afinal, onde já se viu um pernambucano, que teve visões e estudos voltados para a educação e o social? Louco? Lunático? Sem noção? Comunista?

Foram tantos adjetivos que recebeu na sua terra natal. Em contrapartida, foi reconhecido e muito respeitado no exterior.

Recordo com pesar, da última feira do livro do colégio em que trabalhei, no qual o peso da indignação de um único pai, fez retirarmos toda a coleção de Paulo Freire em exposição. Parecia que havíamos exposto uma obra do diabo à olhos vistos. Tenho certeza que ele nunca leu nenhum de seus livros. Lamentável, afinal, uma instituição educacional ignorar a força e a verdade de um pedagogo brasileiro, sério em seus estudos e motivo de orgulho, aceitar que sua obra saisse pelas portas do fundo como se fosse um bandido, inimigo da sociedade. Vergonha alheia…

Nunca tivemos muito do que orgulhar no que diz respeito à política educacional brasileira. Atualmente então, é vergonha atrás de vergonha. E muita tristeza em constatar o quanto nossas crianças serão prejudicadas em sua formação. Isso se refletirá lá na frente, em suas vidas adultas.

Hoje, faço parte de todos que lembraram e tiraram um momento em suas vidas para enaltecer, reconhecer e desejar que tudo o que Paulo Freire deixou de legado na área educacional, seja um dia, implantado massivamente em todo território nacional. Poder reconhecer uma sociedade educada, alfabetizada e encaminhada para uma vida de muitas possibilidades, é um sonho do qual não abro mão.

Que esses 100 anos relembrando o grande educador, não se restrinja apenas ao calendário Google 2021 e algumas postagens e lives pontuadas.

Que possamos mergulhar de cabeça em sua obra, compreender suas propostas e colocar em prática, entendendo que “social” não é palavrão muito menos ideia pejorativa. Ao contrário, social é a seriedade em tratar as questões de uma sociedade em constante formação e, respeitá-la nas igualdades e diferenças.

Imagem: Instituto Paulo Freire

Sexta em movimento

Da mesma maneira que preciso limpar a memória de meu pc para ficar mais ágil, minha mente também necessita – de tempos em tempos – ser arejada.

Para isso, a melhor coisa é caminhar. Enquanto caminho, minha mente acompanha as passadas e libero a imaginação. Seja para pensar em novas histórias, personagens, situações ou, refletir sobre questões emocionais e resolução de problemas cotidianos.

Para mim, são duas as formas de caminhar: ligada no automático, focada nas passadas cadenciadas e respiração, amortecendo a mente sem prestar atenção ao entorno ou, a que mais gosto de fazer: caminhar assimilando tudo ao meu redor, observando as pessoas, seu comportamento, apreciando a arquitetura, a natureza cada dia mais esmagada pelo concreto e sujeira.

Esse exercício é sem pressa, parando de vez em quando para recuperar o fôlego devido ao uso da máscara. Aproveitando para passear os olhos captando cenas, pessoas, registrando acontecimentos. O cotidiano é rico em material para escrita.

Um dos prazeres do caminhar, agora não é possível: ouvir música. Aliás, a música para mim é companhia, alimento, massagem na alma. E isso, devido à violência dos assaltos, me impede. Como já fui assaltada, não me arrisco saindo por aí ouvindo música no smartphone. Uma pena!

Hoje pela manhã, fiz uma caminhada de uma hora, ouvindo música, porque percorri as passadas dentro do apartamento. Aqui, em total segurança, comecei caminhando e me alongando, ouvindo a trilha sonora da série sul coreana Hotel del luna. Apesar de gostar da trilha sonora, não deu muito certo porque as canções me fizeram chorar. Baixou uma tristeza, uma angústia, uma saudade… Pensei: definitivamente choro não combina com caminhada e corrida alternadas. Coloquei Prince e a batida de suas canções e o som de sua guitarra, firmaram uma parceria perfeita com a atividade física. Meu estado de espírito mudou de imediato. Caminhei, corri, pulei, dancei e cantei. A tia louca do 102, cagou pro mundo lá fora e expurgou tudo o que lhe fazia mal.

Ao término da atividade física, olhei-me no espelho e o que vi foi: mulher de meia-idade, descabelada, suada, com a respiração ofegante, mas, com o brilho nos olhos restaurados e uma leveza reconquistada.

É minha gente, o ser humano foi talhado para o movimento. Com a endorfina liberada por todo o corpo, meu cérebro agilizou, o corpo despertou, as dores cessaram e um sorriso se instalou no rosto e na alma.

Xô preguiça. Xô tristeza. Bem-vindo alegria de viver! Prontinha para o final de semana. Que venha leve, alegre e cheio de graça.

Estou tentando

Estou vivenciando uma nova situação em minha vida adulta. Tenho passado por algumas situações dignas de comédia pastelão. Pena que na urgência, nem sempre sai de minha boca uma gargalhada, pelo contrário. Essa semana saí de uma unidade básica de saúde, cuspindo fogo nas ventas.

Em primeiro lugar, pelo excesso de pessoas aglomeradas e perdidas no hall de entrada, sem nenhum funcionário para auxiliar e orientar. Peguei minha senha e fiquei num degrau da escada, procurando manter certo distanciamento. O painel gritava o número seguinte e nada de aparecer a pessoa detentora da senha.

As pessoas aglomeradas conversavam como se estivessem numa churrascada informal. Riam, conversavam sem parar, baixavam suas máscaras abaixo do nariz, não prestando atenção ao painel que não parava de tocar e piscar a próxima senha a ser atendida. E nada de chamar a minha…

Uma jovem mãe com seu bebê recém nascido chegou e ninguém se ofereceu para ceder lugar. Meus olhos escaneavam algum banco vago para a coitada sentar, suava muito devido à alta temperatura.

Encontrei um local vago e a chamei para sentar. Ela me olhou com certo estranhamento, agradeceu e respondeu que eu poderia sentar, ela estava bem. Demorei a entender que ela queria muito se sentar, mas estava sem graça pois eu era “aparentemente” uma senhora de cabelos nevados. Sorri e insisti para que ela sentasse, afinal além do bebê, ela carregava sua bolsa mais uma sacola repleta de pertences da cria.

Finalmente minha senha foi chamada. Me apresentei e disse que gostaria de agendar uma consulta. Negativo. A moça da recepção falava rapidamente e a máscara, um obstáculo para quem tem uma dicção ruim.

Me senti a própria Velhinha da Praça, não conseguindo entender o que a jovem informava. A cada nova tentativa de se fazer entender, mais eu me enrolava na compreensão.

Resumo da opereta: saí frustrada, atravessando o viaduto do Chá falando sozinha, indignada. Tenho certeza que muitas das pessoas que cruzaram comigo devem ter pensado: mais uma louca solta no centro velho de São Paulo.

Engrossei as estatísticas. Como é difícil ser cidadão nesse país desmaravilhas.

Desabafo

Nem todos os dias, nem todas as horas, conseguimos manter o alto-astral e o otimismo. A vida nesse planetinha anda bem zoado. Claro, responsabilidade daqueles que se acham “animais racionais”. São tantos os absurdos desabando em efeito dominó, que decidi dar um basta por alguns dias. Retornei para o útero materno e pedi arrego. Queria colo morno, coração quente pulsando forte de tanto amor e, sentir suas mãos acariciando meus cabelos num declarado ato de acalmar a alma da filha “segundinha”.

Tenho seguido os dias com muitas dores. Dores que refletem minha alma conturbada e tudo o que me rodeia. Não foi esse país em chamas, de corações endurecidos e mentes impregnadas por fake news e tantos outros absurdos que escolhi viver.

Assistir pela TV, nossas matas em chamas, os mananciais secos, expondo seu solo rachado, animais silvestres correndo o risco de extinção e as ruas repletas de moradores de rua, têm gerado um nó em meu plexo solar.

Definitivamente, não foi isso que sonhei para meu futuro e o futuro da nação. Ler as notícias diárias tem sido tarefa penosa. Optei por ficar alienada por algum tempo, caso contrário, enlouqueço. Não tive energia para a escrita e a leitura. Abandonei tudo.

Hoje, acordei, levantei e tomei as rédeas de minha existência. Sim. Lembrei que ainda existo e, persisto na certeza de que superaremos mais essa onda ruim. Ficarão cicatrizes profundas. Mais algumas em nossa vasta coleção de muitos erros e ilusões. Que possam servir de maturidade e, que nossa sociedade aprenda de uma vez por todas que não existe “Salvador da Pátria”.

Para sairmos dessa enrascada, precisamos caminhar no mesmo compasso e com a mesma ideia de crescimento por igual.

Paro por aqui, pois o cansaço novamente toma conta de mim. Necessito respirar profundamente – sem máscaras – esse ar poluído que nos resta. Suspiro.

Hopper despertando histórias

É com prazer que informo fazer parte dessa galera de escritores que compõe o projeto Roteiro imaginário…

Baseado em telas de Edward Hopper, cada autor recebeu a imagem da tela e, através dela, teceu sua história.

O livro está lindo com o projeto gráfico de Lunna Guedes, mais um coletivo de peso para ler, apreciar as paisagens urbanas e humanas de Hopper e mergulhar nas histórias.

A tela que recebi Le pont des arts, Hopper tinha apenas 24 anos quando a pintou em 1907. Um de seus primeiros trabalhos.

Abaixo, um petisco de meu texto para você apreciar.

Participam desse coletivo:

Esse livro, lançamento de setembro, faz parte do Clube por assinatura Scenarium 8.

6 on 6 – Vistas

Já tive meus momentos de sair com uma câmera fotográfica em mãos, e fotografar tudo o que meus olhos captavam. Com o passar dos dias, meses, anos, deixei a máquina perdida na gaveta e o smartphone ganhou espaço em minhas mãos e olhos para registrar momentos, pessoas e situações interessantes. O medo de assalto fez eu perder esse hábito. Que pena…Deixei de registrar muitas coisas legais mas, ainda tenho muitas fotos arquivadas. São registros de meu olhar, do que compreendo e transformo em algo real ou irreal.

Em minhas viagens (que saudades!), o que mais gosto é a primeira impressão causada ao olhar da janela ou varanda do quarto de hotel, o que se descortina às minhas cansadas mas ainda curiosas retinas. Observar a paisagem a ser desbravada e conhecida. Sentir o ar, os cheiros, o novo. Depois, sair para caminhar a pé e conhecer de perto a cidade que me acolhe.

Olhar para essa imensidão de água, reverenciar a natureza e tudo o que ela nos oferta, sentir o cheiro salgado que vem dele e se embriagar de tamanha beleza. Nas águas da ilha de Itaparica, encharquei a alma e reconheci minha pequenez.

Num passeio solitário, em Paraty, a caminho da praia de Jabaquara, encontrei essa pedra curiosa e não resisti, registrei e ri muito. No meio do caminho tinha uma pedra… Pedra? E desde quando pedra tem rosto?

Esse clique foi de uma estadia na cidade do Rio de Janeiro, visita ao Museu da República. Frase que ainda permanece atual…Infelizmente.

Em minha urbanidade, sempre gostei de apreciar a arquitetura e suas linhas. Numa visita à Biblioteca Parque Villa-Lobos, passei minutos em silêncio, absorvendo sua beleza e o que tem a oferecer: leitura, lazer, conhecimento. Quero voltar lá!

Quinta-feira passada, acompanhei minha irmã até a Santa Casa de Misericórdia e, enquanto ela fazia um exame, saí para dar uma volta nos jardins e registrei essa beleza em meio aos conjuntos de tijolos em estilo gótico.

Sempre encontro a paz em meio a isso tudo!

Esse texto faz parte do Projeto Scenarium 6 on 6

Participam: Lunna GuedesMariana GouveiaObdulio Nuñes Ortega

Imagens: acervo pessoal