Beda 29 – Não sei se irá chover ou não

Querido amigo,

Enquanto aguardo a água ferver, cutuco o canto da unha. Hábito que carrego desde pequena quando algo não me agrada ou preocupa.

Saio de perto do fogão e sigo para o quarto. Abro e fecho gavetas. Organizo o que já se encontra organizado. Aliso os lençóis e fronhas. Acaricio as toalhas de banho e rosto.

Ao fechar a porta de correr do armário, pelo espelho, vejo o reflexo do vaso de lírio da paz. Preciso dar mais atenção à ele, que anda se sentindo solitário. Murcha a cada dia. Nunca mais floriu. Dizem que ele capta a energia ruim do ambiente. Serei eu, a culpada por estar definhando?

Meus olhos são desviados para o vaso de violetas que não para de florir, ao contrário do lírio. Suas folhas aveludadas e carnudas, saltam para fora do vaso. Lembro que preciso replantar algumas mudas em outro vaso, mas como sempre, deixo para depois.

Volto para a cozinha e desligo a jarra elétrica. Enquanto deito a água fervente na xícara, o perfume do chá de jasmim, envolve minhas narinas que se abrem em aprovação.

Sobre a mesa da sala, um bloco e caneta esperam pacientemente, eu terminar meu ritual, antes de sentar e escrever.

Bebericando o chá, abro as cortinas, recebendo a luz do dia que se encontra em matiz cinza. Hoje, nada de sol.

Lembra quando fomos juntos na excursão do cursinho para Paraty? Que aventura!

Tempos em que nossa única preocupação era ser feliz. Ríamos tanto… Tudo era motivo para risos. Lembra do passeio pelo centro histórico? Recorda o tombo que sofri naquelas pedras malditas? Arrancou meu couro do joelho que sangrou horrores. Em sua tranquilidade, se ajoelhou ao meu lado, tirou um lenço do bolso de sua bermuda e delicadamente, assoprando com suavidade, estancou o sangue. Sem pressa.

Em pleno calor de 38 graus, tive calafrios, sentindo suas mãos em minha perna. Naquele momento de dor, senti desejo de alcançar sua boca e me deixar perder dentro dela. Mas foi tudo bem rápido. Da mesma forma que surgiu, sumiu aquela vontade de te ter ao meu lado não como um amigo/irmão, mas como homem.

Nem sei porque fui lembrar disso agora. Desculpe-me. Não quero causar constrangimento. Nossa amizade valeu muito mais que esses pequenos tesões da juventude. Desde que casou e partiu para o exterior, nunca mais soube de você. Mantenho sua página pelo Facebook mas nem entro para espiar suas experiências, suas conquistas, sua felicidade.

Só sei, que de tempos em tempos, sinto sua falta. Sua presença espirituosa e sábia deixou um buraco jamais preenchido. Nesses anos, fiz muitas amizades, alguns namorados, paixões desvairadas mas, igual a você, nenhum passou nem perto.

Rasgos no céu indicam possível temporal. Não sei se irá chover ou não. Aqui, algumas gotas salgadas indicam que por horas, haverá tempestade de saudade.

Engulo a bebida quente, rasgando mais uma carta que jamais receberá.

Esse texto faz parte do b.e.d.a — blog every day august.

Participam : Claudia Leonardi  – Lunna Guedes – Mariana Gouveia — Obdulio Nuñes Ortega

Essa carta faz parte do Projeto 52 Missivas – Scenarium Plural Livros Artesanais

Imagem: acervo pessoal

4 comentários sobre “Beda 29 – Não sei se irá chover ou não

  1. Também tenho várias cartas que não envio… umas, ficam aguardando o momento certo, outras, são rasgadas no momento certo. É uma sensação de nostalgia.

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