Depósito EH

Uma vida inteira de realizações para acabar aqui, nesse depósito de entulho humano.

Está vendo aquele lá, próximo à janela? É o Josué. Deve ter toda idade do mundo e, segundo dona Marcelina, está aqui há mais de vinte anos. Dizem que já enterrou muitos! Percebe como ele fica? O tempo todo olhando pela janela com os olhos embaçados pelo tempo, mas, ainda carrega uma fagulha de esperança de que venham visitá-lo. Mascando o tempo todo com sua boca murcha, algo imaginário. Ou talvez seja apenas um tique nervoso. Quase não fala.

Olha só dona Leopoldina, aquela ali, sentada na poltrona verde. Senhora que ainda mantém certa áurea de dignidade e sofisticação que teve no passado. Cabelos arrumados imaculadamente num coque preso aos seus seculares grampos de osso. Pele fina, de um branco quase translúcido. Olhos azuis, pequeninos e dóceis. Mãos finas de quem nunca trabalhou no pesado. Trêmulas, devido ao Parkinson, há muito deixou de lado seu hobby favorito: bordar e pintar. Já não consegue dominar o pincel nem a agulha com firmeza. Da mesma forma que seu pescoço, que não para de mexer também. Há momentos em que ela inicia um canto lamurioso em sua língua de origem. Me disseram que ela é polonesa. Não sei dizer se é verdade, afinal, todos aqui falam de um passado muitas vezes inventado por falta da memória. Então, simplesmente cria-se uma nova história. Melhor que nada!

Aquele ali sentado à mesa lendo… o que mesmo? Peraí, vou chegar mais perto. Meus olhos já não são mais os mesmos… Ah! Lendo Olavo Bilac, Alma inquieta – expremendo os olhos consigo ler por cima dos seus ombros:

Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
– Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava…

E, inquieta ando eu, que sei que meu filho jamais aparecerá com meu neto para uma visita. Simples assim, uma vida entregue na labuta diária para criar sozinha um filho e, ao chegar à velhice, tomaram minha casa, apossaram de minha aposentadoria e, numa simulação de viagem, desovaram esse monte de carne flácida e ossos fragilizados, nesse depósito. Só aguardando minha vez de receber o saco – roupa luxo/lixo – para a última viagem de ida, sem volta.

Não posso reclamar. Não é ruim de todo mas, perder o contato com tudo o que fez parte de um cotidiano de anos, não conversar mais com amigos nem saber sobre suas vidas, isso sim, entristece. Vive-se num vácuo, esperando a hora de sermos despachados para o universo.

O trecho do poema de Bilac ficou em minha retina cansada e opaca. Depois vou ver se o…Como é mesmo o nome desse velhinho? Ih, esqueci! Bom, se não esquecer também, depois pego para ler o resto do poema.

Por hora, sento meu quadril pesado e cansado na poltrona, de frente para a janela – elo com o exterior -, chove suavemente. Embalada por essa paisagem outonal, capricho no chachecol que faço, o inverno parece que virá forte esse ano. Minhas juntas dão o recado do que virá. Isso, se eu sobreviver até a próxima estação.

Esse texto faz parte do b.e.d.a — blog every day august.

Participam Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia — Obdulio Nuñes Ortega

Imagem: Pixabay

4 comentários sobre “Depósito EH

  1. Não é fácil mesmo envelhecer e parece que a pandemia aprofundou muito mais esse sentimento. Infelizmente! Texto reflexivo.

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