Cela 102

Sensação estranha tem me feito companhia constante. Não é tristeza, nem melancolia. Não é descontentamento, apesar de termos motivos de sobra para tal. Parece que minha alma anda suspensa, no aguardo de algo que nunca se concretiza.

Essa prisão domiciliar com tornozeleira invisível, anda apertando e causando desconforto. Talvez seja cansaço de uma situação imposta por seres que nem conheço e nem faço questão de conhecer. De qualquer forma, sinto-me injustiçada.

Trabalhei desde os quatorze anos sem parar. Sou de uma geração que teve fartura de trabalho. Podia escolher sem nem mesmo ter experiência comprovada. Nunca pensei que um dia diria em voz alta: Bons tempos aqueles! Achava que só os velhos diziam isso. Envelheci! E quer saber? Agradeço todo dia ao abrir meus olhos, pois vejo que muitos, não têm tido essa chance e as próximas gerações, nem saberão o que significa trabalho remunerado e aposentadoria.

O sentimento de injustiça se deve ao fato de, apesar de hoje viver bem, sinto-me culpada diante de tanta miséria espalhada por território nacional. Como se eu fosse a causadora de tamanha desgraça.

Me pego desconfortável quando penso no quanto gostaria de estar aproveitando melhor minha vida de aposentada, viajando, conhecendo lugares e culturas enquanto milhares não têm um prato de comida para se alimentar e nem um teto para os abrigar.

Não estou alienada diante de tantos descasos e vilanias cometidas pelo nosso (des)governo. Sofro ao assistir os noticiários e constatar o quanto a desgraça humana dá ibope. Sofro mais ainda ao observar que a sociedade brasileira ainda sonha com um “Salvador da Pátria”.

A tristeza que tomou conta de mim ao ver uma geração inteira perder a chance de uma educação de qualidade e saber que isso reverberará num futuro bem próximo. Logo eu, que me dediquei boa parte da vida profissional a área escolar. Essa sensação de espoliação de bens, de roubo na cara dura, na certeza de impunição tem causado úlceras.

No entanto, sinto-me punida por algo que nem sei que cometi. A sentença é muito dura e todos nós estamos pagando sem nem mesmo termos tido a chance de defesa e recorrer dela. Fomos condenados a uma pena perpétua e isso me faz lembrar de Edmond Dantés e sua sede de vingança. Pena que na ficção ele encontrou um tesouro que o possibilitou realizar seus planos de punir seus opressores. Quanto a nós, pobres da realidade…

Sei lá… vou voltar para meus livros e fazer um pouco de terapia através da leitura. Por hora, aqui da minha cela, é o que me resta e conforta. Mesmo que lá no fundo, ainda lateje a dor dessa injustiça.

2 comentários sobre “Cela 102

  1. Entendo esse sentimento. E é bem isso. Uma tornozeleira invisível. Eu não sou uma pessoa muito sociável. Não tenho um círculo de amizades, de sair e tomar um café. Talvez porque dentro do círculo de conhecidos que tenho, não consigo dividir minhas leituras, minhas criações. A não ser com minha irmã que também partilha o gosto pelos livros. Sair para tomar um café com amigas, amigos, para mim, significa partilhar um tempo de conhecimento, além de diversão. Eu não sei falar de novela, não sei qual é a última moda em roupas, não sei de artistas televisivos. Fica complicado. Então, viajar é sempre uma opção que não está disponível no momento. E fico me perguntando quando estará. Está difícil aceitar essa situação toda na qual nos encontramos.
    Abraços!

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