B.E.D.A. – Vida passada a limpo

Eureka, sabe o que constatei? Um dos indicadores de que entramos na maturidade são as mudanças de hábitos. Um dos mais gritantes: passar roupas.

De criança, observava as atividades domésticas das mulheres adultas: escolher um dia da semana para trocar as roupas de cama. Um acúmulo de lençóis, fronhas, colchas, cobertores.

Também tinha o dia de lavar as toalhas de banho, de mesa, roupas da família, roupas de trabalho de meu pai.

Era uma trabalheira! Só de olhar, já ficava cansada. Corria pra rua brincar.

Recordo que minha avó, mãe e tia se reuniam para lavar no tanque, esfregar, torcer, enxaguar…Quarar!

Palavra antiga que hoje ninguém conhece e muito menos faz o uso prático: segundo o dicionário Caldas Aulete, que pousa aqui do meu lado: ato de branquear a roupa ao sol. Elas faziam isso!

Roupas secas, recolhidas, hora de passar e guardar. Achava isso uma perda de tempo enorme…

Amanheci doméstica. Após o café da manhã, abri o guarda roupa e vi uma pilha de roupas de cama limpas, prontas para? Passar é claro!

Gentem, envelheci! É sério. Dei de fazer isso e quer saber? Tomei gosto!

Enquanto faço carícias mornas no lençol cem por cento algodão egípcio, com quatrocentos fios – reflito.

Mudei muito nesses três últimos anos. Muito mais nesse isolamento imposto. Percebo que sou como esse tecido. Com o passar dos anos, amaciei. Ganhei vincos, muitos por sinal porém, ao contrário do lençol, meus vincos são prova de que estou viva . São marcas das inúmeras experiências obtidas, conquistadas.

Trago cicatrizes também. Da mesma forma que esse cerzido, no canto esquerdo da alva fronha, que peguei para passar. Fruto de um ato estabanado. Penso que somos assim. Carrego diversas cicatrizes pelo corpo. Registros de minha infância passada na rua de casa, ao lado de um número considerável de crianças da vizinhança.

Tenho uma caixinha repleta de cicatrizes n’alma. Fruto de escolhas mal sucedidas, decepções, traições. Essa caixinha, quase ninguém conhece. Mantenho-a trancada, longe de todos. Às vezes, esqueço sua existência.

Tenho feito dessa atividade, uma finalidade dupla: passar a limpo as roupas da casa e também a vida, observando pontos que ainda me incomodam, situações que se repetem. Terapia caseira que tem me ajudado. Acalma.

Minha mente vai longe e ainda encontro temas para meus escritos. Na falta de outras atividades a cumprir, tenho cuidado de cada cantinho do meu habitat. Converso com as plantas que têm me respondido satisfatórias, reluzindo em seus tons de verdes. A violeta, floresce sem parar me alegrando os dias. A jiboia, viçosa, os vasinhos de suculentas se proliferam alegremente no beiral da janela da cozinha.

É, nunca imaginei que uma leva de roupas passadas iriam me fazer sorrir. Viver é isso. Ontem, a melancolia poética de Renato Russo a embalar dia cinzento. Hoje, Vivaldi alegrando a tarde ensolarada. Vida que segue sem vincos.

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

4 comentários sobre “B.E.D.A. – Vida passada a limpo

  1. Fiquei cá a observar todos os seus movimentos e reflexões a respeito de si… gosto quando traçamos paralelos. Ontem eu estava a pensar em Eliot (poeta que eu deixei na prateleira nesse Abril, algo inédito) e hoje penso de novo em Mário, o dia seguinte ao Abril, o mês que também era o favorito do poeta paulistano. Ainda não sei porque, mas eu gosto de maio… e não passo roupas. Nem tenho ferro. Gosto do tecido amarrotado no corpo. rs

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