B.E.D.A. – Irmãs da natureza

Ao ler a crônica de Rubem Alves intitulada Em defesa das flores, passei a manhã de hoje com ela reverberando em minha mente. Linda crônica!

Lembrei dos jardins de minha infância em casa de vovó Maria – local onde nasci e cresci -, brinquei, inventei!

Habitat de margaridas, roseiras, marias-sem-vergonha, crisântemos, cravos, onze-horas. Rodeada por essas irmãs da natureza, passava os dias de minha pureza embeveçida por sua beleza ímpar.

Um dia tudo mudou. Ao chegar do trabalho, abrindo o portão, encontrei dois túmulos secos e áridos de cimento bruto.

Silenciosa, fiquei olhando sem entender para a morte violenta da natureza. Decretei luto por minhas irmãs.

A partir daquele dia, saía e entrava em casa desviando o olhar dos túmulos. Difuntos nunca enterrados, denunciando a violência sofrida sem chances de se defenderem.

Passei dias calada até – que não aguentando -, perguntei: Por que isso? Por que acabar com um jardim tão lindo?

A resposta veio seca e direta: Planta dá trabalho. Não temos mais tempo para isso.

Minha porção “adolescente revoltada” nunca se curou; aquela cicatriz permaneceu até a venda da casa que – após nossa saída -, veio abaixo dando lugar a um condomínio.

Segui a vida, desenvolvi alergia à flores retiradas de sua morada. Continuo amante da natureza; adoro roseiras e toda espécie de flor mas, peguei asco de arranjos florais. Não suporto o cheiro das rosas num buquêt.

No ano seguinte ao término da faculdade, meu TCC foi premiado como um dos melhores do ano. Como prêmio, recebi uma estatueta, um botom e um ramalhete lindo de flores. No ônibus, voltando para casa, antes de descer, perguntei ao cobrador se era casado ou namorava. Era casado. Sorri, deixei o ramalhete para ele ofertar à amada; desci aliviada por me desfazer daquele cheiro de morte.

Não suporto velórios. Não por conta do defunto mas, devido ao odor das flores. Elas sim, me lembram da finitude da vida e não, aquela carcaça no caixão.

Mas, se me deparo com um jardim florido, ah… De imediato meus olhos ganham brilho, sorrio de felicidade ao reencontrar minhas irmãzinhas vivas. Na nova morada, mamãe tem um jardim repleto de flores e outras plantas, recebe visitas matinais de beija-flores, sabiás, rolinhas e quem mais de asas aparecer por lá.

Saudades do jardim de mamãe!

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

Imagens: Arquivo pessoal

4 comentários sobre “B.E.D.A. – Irmãs da natureza

  1. Roseli, também sou adepto mais de jardins do que de buquês. É como se morressem por serem belas. A minha mãe vivia repetir um daqueles versinhos populares: “Até nas flores se revela a sorte – umas celebram a vida, outras enfeitam a morte…”.

  2. Ah, que maravilha, minha cara. Que bom que Rubem Alves provocou essa narrativa. Sou grata a ele…
    Como você, também tenho horror a ramalhetes de rosas e tulipas por causa de um jardim destruído na minha juventude. Ainda me dói ver aquela cenária bárbara, do trator passando por cima de tudo. aff

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