B.E.D.A. – Desdobro-me

Tenho sofrido surtos. Preocupada, busquei ajuda médica. Pobre doutor, calejado sobre conheceres anatômicos/acadêmicos, ficou sem diagnóstico diante de minha narrativa.

Olhos esbugalhados, embaçados – talvez por noites insones – levantou, caminhou pelo consultório; ora coçando a calva, ora massageando a cervical. Dirigiu-se a sua vasta biblioteca médica e a consultou.

Ensimesmado, leu, fez anotações mentais, voltou para a mesa e – pegando da caneta e bloco -, fez uma receita e me despachou.

Emputecidinha, piquei a tal receita e joguei no cesto de lixo da recepção. Saí sem olhar para trás. Percorri caminhos nunca traçados até que parei numa praça e, sentei. Boca querendo fazer muxoxo, olhos com vontade de esparramar; coração bombeando insatisfações.

Nem percebi o personagem sentado no banco ao lado, com livro em mãos a me observar. Levantou-se, deu uns passos miudos e iniciou um poema em voz alta.

Envolta por desassossegos, pensei com minhas pregas: Coitado, mais um surtado. O mundo está perdido…

Seus olhos sorriram em minha direção e uma pergunta brotou: Qual motivo de sua tristeza?

Num impulso, contei todo sofrimento pelo qual tenho passado. Ao término, pedi desculpas por ter falado tanto. Talvez o pobre senhor só estivesse tentando ser educado. Pediu licença para dividir o banco comigo. Pensativo, decretou: Desdobre-se caso contrário, morre.

Não entendendo, interroguei-o. Suspirando, soltou sua grave voz explicando que devemos desenvolver o hábito do desdobramento. Segundo ele, desdobrar para se manter são. Encerrou a conversação, olhou o relógio de bolso antigo, levantou e partiu deixando sentada, uma pessoa com mais dúvidas para carregar.

Voltei para casa achando que havia sido perda de tempo sair em busca de ajuda. Não foi. Pesquisei, li artigos diversos sobre tal fenômeno que é muito mais comum do que imaginava.

Hoje, quando a realidade me sufoca, desdobro e parto em busca de paisagens que acalentem minh’alma cansada. Quase sempre, sigo para mar aberto. O vai e vem do mar acalma, repõe minhas energias. Nessas andanças, coleto histórias, processo vivências, registro belezas. percebo fauna e flora deixando de lado, registros humanos. Esses, na realidade tenho em excessos.

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

Imagem: Ilha de Itaparica (Acervo pessoal)

4 comentários sobre “B.E.D.A. – Desdobro-me

  1. Ôpa, ainda que não conhecesse o seu poeta-filósofo-gentil-homem-conselheiro, segui o seu decreto: “Desdobre-se caso contrário, morre”. O meu, encontrei na praça da minha mente. Belo texto, Roseli!

  2. Hoje foi um desses dias em que eu quase sufoquei, mas como não sou dada a remédio, fico apenas com o copo com água e o canto dos pássaros. Foi dificil conseguir silêncio por aqui. Acho que sentar-me em um banco de praça como o da foto seria agradável… mas,

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