B.E.D.A. – Descarte

Quem me vê sentada trabalhando calada, não imagina o mecanismo que aciono.

Agora, me encontro sentada, cercada por livros retirando suas etiquetas. Dobro-as ao meio, sem pressa, jogando no cesto de lixo. Vou empilhando um a um, cada livro que sofreu desbaste e seguirá para reciclagem.

Alguns livros, seleciono e separo numa outra pilha. A esses, darei a chance de ficarem no acervo por mais um tempo.

Quem me vê nessa tarefa mecânica, pode pensar que eu me sinto enfastiada. Aos olhos da maioria, essa tarefa é sem graça.

Para mim não. É significativa. Abrange muito mais que os velhos e surrados livros que descarto.

Enquanto atuo, processo interiormente, outra tarefa. Essa de mais valia.

No manuseio dos livros velhos, faço outro tipo de descarte: de pessoas, atitudes, posturas.

De tempos em tempos, essa tarefa é necessária. Os espaços em nossos arquivos pessoais vão ficando apertados, empilhados, desorganizados. Isso nos causa sensação de angústia. Sabe aquele famoso aperto no coração? São excessos de gente desnecessária em nossas vidas, sentimentos exacerbados, encruados, atitudes erradas. Aos poucos, ocupam espaço precioso impedindo que o bem estar finque moradia.

Enquanto descarto o livro A declaração universal dos direitos humanos, analiso se meus direitos estão sendo violados, desrespeitados, pisoteados. Estão.

Pondero para ver o que causa tais sensações. Constato que a bola da vez é você.

É, meu caro, você se encontra na berlinda há tempos. Já esteve na fila do descarte em outras ocasiões. Caridosa que sou, te deixei “dormindo” na prateleira das repescagens.

Observo o seu descompasso comigo, nos últimos anos. Faz tempo que não caminhamos juntos, não acompanha nem reconhece mais minhas notas musicais.

Tornou-se um péssimo dançarino!

Na prateleira das emoções, olho analiticamente sua lombada que já não me atrai. Desbotou com o tempo, feito seus cabelos, que outrora reluzia entre meus dedos. Folheio sua história. Verifico que sua página de rosto se encontra rasurada, seu nome quase apagado. Talvez por culpa minha mesmo que tanto o acariciei. Suas palavras caíram em desuso, feito língua morta. Tornaram-se arcaicas. Nem mesmo seus poemas que tanto me emocionou um dia, hoje parecem rimas de colegial.

Não se culpe! Fui eu que mudei nessas minhas andanças biblioteconômicas.

Foi opção sua permanecer estático. Inquieta, sigo adiante. Tenho sede de novidades.

Participam dessa blogagem coletiva:

Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega

Imagem: Acervo próprio

12 comentários sobre “B.E.D.A. – Descarte

  1. Ah! Não há nada mais avassalador do que o desprezo de uma mulher! Por uma mulher letrada, então, o alvo ainda sofrerá o opróbrio eterno através da escrita…

  2. Que texto bom Roseli!!! De fato fazer a limpa em coisas resulta em certa paz, leveza. Desde roupas que não se usa, documentos que não servem, livros que não fazem sentido mais ou merecem seguir em frente para outros leitores(detalhe os livros preferidos mais do que merecem isso mas ai confesso, nesses casos o ciúme e apego fala mais alto rsssss). Não deletei redes sociais, mas diminui e muito o uso delas, aqui nos blogs me lembra mais a coisa de email, inicio de orkut, um comentário, a espera da resposta e nisso podem ir dias.

    Além do tema interessante é muito bem escrito seu texto, parabéns.

    Me lembrou em certo momento do filme “Amor sem escalas” em que o personagem de George Clooney dá palestras falando sobre desapego, e em certo momento ele diz que precisamos ter momento o que caberia em uma mochila, e o ato de carregar coisas e pessoas nas costas não é lá muito promissor. No entanto, nesse caso diferente do seu texto, tem um pouco daquele egoísmo que vai dominando e sendo disseminado pelos “coachs” onde o que importa é o eu eu eu eu e eu… ai daquela seja quem for que tentar impedir que eu alcance o sucesso, o primeiro lugar de que aliás sou extremamente merecedor… Mas isso já seria outra conversa rssss

    Até logo!!!

  3. No momento eu acabo de descartar um… por ser qualquer coisa aborrecida. Achei o infeliz amador demais e, o pior, foi ler as indicações “melhor obra de ficção”. Oi? Respiro fundo… fim do nosso contato imediato de páginas-história-autor.

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