Mulher decidida é assim

Faço mea culpa: sou um ser que procrastina. Não tenho vergonha alguma dessa minha falha humana. Tenho consciência dela presente em meu dia a dia e, se muitas vezes ela me incomodou, hoje me faz companhia.

Atividades chatas, cansativas, encontros desagradáveis, rotinas estressantes me fazem apertar o botão da procrastinação: Click!

Ida aos bancos. Tem coisa mais chata e estressante que isso? É obvio que tem. Muitas, aliás. Contudo, essa é uma das coisas que mais procrastino fazer. Tanto que passei a fazer meus pagamentos e outras ações bancárias através do aplicativo do banco. Oh maravilha das maravilhas. Santa tecnologia. Amo muito tudo isso!

Mas, como alegria de pobre dura pouco, tem situações que exigem nossa presença nesses ambientes chatos. A começar pela travessia das portas giratórias. Odeio! Odeio! Odeio! As malditas sempre me brecam deixando-me exposta como se fosse uma terrorista Al-Qaeda. Todos os olhos se deslocam para mim.

Hoje, acordei e decretei meu dia D-ida ao banco resolver uns perrengues de vez.

Acordei mais cedo, tomei meu café displicentemente assistindo o Bom Dia SP e já iniciando meu dia com indigesta tapioca Coronavírus acompanhado de biscoitinhos de queda de árvores pela cidade e problemas na Linha Diamante. Desjejum bem leve. Coisa pouca.

Decidida a ir bem cedo para me ver livre dessa tarefa tediosa, me dirigi a cozinha para lavar a louça suja, deixar o balcão lustroso, aguar minhas plantinhas no beiral da janela, mirar a cidade repleta de edifícios, observar o que os vizinhos do prédio em frente fazem em seu cotidiano, ver o gordo do apartamento esquerdo que come e assisti TV pelado, sentado na cama… Percebe que estou procrastinando?

-Foca Roseli!

Decidida, saio da cozinha e vou arrumar a cama afinal, detesto cama desarrumada. Estico o lençol, dobro a coberta, entendo a colcha, arrumo os dois travesseiros e as almofadas de forma equilibrada afinal, adoro cenários de Casa Claudia.

-Foca Roseli!

Toda vez que tomo café puro após o desjejum da manhã, é batata: dá vontade de eliminar o 2. Hoje não seria diferente. Não entrarei em detalhes queridos leitores. Contudo, me perdi nas leituras no banheiro. Tenho por hábito, disponibilizar revistas de decoração para os momentos que requer maior tempo por lá. Ajuda.

-Foca Roseli!

Me arrumo e saio. Ao invés de ir direto para a agência que fica na Rua Augusta, desvio meu trajeto e vou para a agência da República. Lá, pergunto para a jovem recepcionista se posso fazer o que tenho de fazer por lá mesmo. É claro que já sabia a resposta. Sorrio através da máscara, agradeço sua gentileza e saio. Decido pegar um ônibus pois já está calor.

Entro, pergunto ao recepcionista sobre o que preciso fazer e ele me passa a senha. Meus cabelos cinzas me colocam como “preferencial”. Quis contestar porém, o jovem já entabulava uma conversa pelo celular.

Milagre dos milagres: passei pela porta sem ser bloqueada assim, de primeira! Uh!Úh!!!! Acho que hoje é meu dia.

Enquanto aguardava, notei que chamavam uma senha e ninguém respondia. Observei várias pessoas procurando o dono da tal senha solicitada e, nada. O próximo número foi chamado. Alguns minutos depois, uma mulher começa a dar escândalo gritando que haviam passado na sua frente.

Meu lado “Saraiva” falou mais alto e não contive um comentário em voz alta que fez várias pessoas caírem na risada. Pessoas que começam a navegar em seus smartphones e se desligam da realidade. Isso me irrita!!!

Em poucos minutos fui chamada e consegui resolver tudo a contento. Saí feliz da vida. Missão cumprida e nem foi assim tão sofrido. Já na calçada, permaneço na indecisão: subo até a avenida Paulista e dou um giro ou termino de descer à pé e retorno para o conforto e segurança de meu lar?

Santa indecisão Batman!

2020 – apesar de tudo ou por tudo, eu li!

O ano de 2020 foi peculiar em muitos aspectos inclusive, em minhas leituras.

Por força da profissão e amor a leitura, todo ano costumava ler muitos livros. Infanto-juvenis, romances, suspense, contos, crônicas, ensaios.

Com a chegada da quarentena, presa em meu apartamento e sozinha, tive de me contentar com o que tinha em minhas estantes. Por sorte, trabalhando de forma remota, trouxe algumas caixas repletas de livros para analisar, fazer uma leitura técnica e registrar no acervo da biblioteca em que trabalhava.

Conforme foram passando os dias, arrastada pela monotonia e da conscientização da gravidade do que passávamos, fui ficando com meu foco na leitura comprometido. Iniciei vários livros e acabava abandonando-os pelo caminho.

Talvez esse comprometimento tenha acontecido pelo excesso de informação obtida através da internet e das redes sociais. Muitas lives a sobrecarregar a mente com tantas informações – o que na maioria -, conscientizei-me depois, desnecessárias. Parei com tudo!

Acalmando a mente e as emoções, avaliei o que tinha aqui comigo em minha estante e selecionei o que gostaria de ler de fato.

Acredito que foi o melhor que fiz e eis abaixo, minha lista de leituras de 2020, o ano que não aconteceu e ainda não terminou!

Primavera num espelho partido – Mario Benedetti

Escola de contos eróticos para viúvas – Balli Kaur Jaswal

O silêncio dos amantes – Lya Luft

Invenção e memória – Lygia Fagundes Telles

Secreções, excreções e desatinos – Rubem Fonseca

Amiga cozinha: crônicas & receitas – Sonia Hirsch

Só para mulheres – Sonia Hirsch

Antes que eu vá – Lauren Oliver

A vegetariana – Han Kang

Os trabalhos da mão – Alfredo Bosi

O gigante enterrado – Kazuo Ishiguro

O estalo – Luís Dill

Labirinto no escuro – Luís Dill

As memórias de Eugênia – Marcos Bagno

Marcéu – Marcos Bagno

Ah, fora os livros da Scenarium Livros Artesanais que aproveitei para ler alguns que ainda não havia lido por falta de tempo ou reler outros que gostei muito.

Esse texto faz parte da blogagem coletiva sobre o tema “As leituras de 2020”, proposta por Lunna Guedes.

Lunna Guedes Mariana Gouveia Obdulio Nuñes Ortega Suzana Martins

Ácida Cacilda

Cacilda, desperta. Seis horas da manhã de terça-feira. Dezoito de janeiro de 2021. Com certa dificuldade, senta-se na cama. Alonga seu esqueleto que range feito seus móveis velhos. Levanta, dá dois passos sentindo dores na sola de seu pé esquerdo. É a tal da fascite plantar.

Pragueja em voz alta pigarreando:

-Envelhecer é uma merda! Ai!

Vai para o banheiro urinar litros desse líquido morno.

-É o que mais tenho feito ultimamente. Mijar, cagar, peidar e sentir dores por todo o corpo. Arrê!

Entrando em seu cubículo chamado cozinha, acende o fogão e põe água para esquentar. Acende seu primeiro cigarro do dia. Puxa a fumaça para dentro de seus pulmões já carcomidos pela nicotina e, solta uma baforada que lhe enche os embaçados olhos de um brilho de prazer…

Ao deitar a água quente sobre o pó de café, o aroma que tanto gosta inunda o pequeno cômodo em que vive. Enche até a borda, uma xícara vermelha com logo Nescafé, que roubou da padaria que frequentava, quando ainda trabalhava. Cacilda sempre foi dada a essa fraqueza: pequenos furtos. Puxa uma cadeira próxima de sua janela do 16 andar. Um dos poucos prazeres é sentar-se pela manhã, acompanhada de sua xícara de café fresco e seu cigarro e observar o movimento de pessoas que pouco a pouco, tomam conta da rua em que mora. Aprecia olhar as janelas do prédio em frente e ver a rotina de seus moradores que – na pressa em se aprontarem para o trabalho -, nem imaginam serem alvo da curiosidade de uma velha moradora. Enquanto beberica sua dose de cafeína, entre uma tragada e outra, fala em voz alta:

– Ando mais ácida que limão siciliano. Sempre procurei ver o lado bom de tudo. Confesso que esse ano não estou tendo olhos para isso. Devo estar sofrendo de opacidade da retina da alma. Por onde passeio meus cansados olhos, só vejo merda. Peguei ranço da humanidade. Inclusive da minha que desandou em pensamentos impuros sobre tudo e todos. Mandei Pollyana pra puta que a pariu faz é tempo e ando tomando minhas doses com Bukowski e Hank Moody. A vida tomou um rumo sem me pedir permissão. Estou até agora pensando: Onde foi que errei? Nunca ferrei com ninguém. E olha que tive muitas chances e criaturas que mereciam minha rasteira. Contudo, meus valores jamais permitiram que assim agisse. Sempre procurei ser correta e muitas vezes sofri tropeços por conta de alguns pés em meu caminho colocados de forma mal intencionadas. Caía, levantava, chacoalhava o esqueleto dolorido e seguia em frente. Vingança? Deixava pra lá. O Universo que se encarregue disso lá na frente.

Desconfio que Deus se vingou de mim por ser tão otária. Chego a ouvi-lo rosnando : Deixa de ser besta mulher! Acorda pra vida que ela não é rosa não. Muito menos roteiro de novela global.

Completo hoje 69 anos e acordo para uma dura realidade. O que tenho presenciado e ouvido não me agrada em nada. Por conta dessa contrariedade, refugiei-me na criança pura que fui um dia e me recuso a sair de dentro dela. Só que está penoso mantê-la presa a essa velha amarga que me tornei. Não é justo com alguém que sempre me confortou, causar tamanho sofrimento. Por isso choro. O sal que escorre por minha derme repleta de manchas senis, não arde mais que o sal que escorre dentro, me corroendo a alma. Perdi a virgindade dela. Transforme-me num ser humano comum. Olho-me no espelho e o que vejo não me agrada. Não são as rugas e marcas de expressão que me atormentam. Não são as pálpebras flácidas e caídas que incomodam. Não é o vinco fino e fechado de minha boca – que outrora soube sorrir -, e que agora se lacra diante de tanta feiura mundana. É o que enxergo além do espelho. Transformei-me num monstro horrível!

O mergulho nesse lodaçal interior é doloroso. Fede. Anseio retornar à superfície e respirar um ar menos denso mas não dá. Sinto-me presa no fundo de mim mesma. Como fugir de nós mesmo? Como ignorar o que se é de fato? Lembro de minha terapeuta que cuidou de mim por quinze anos. Tento gritar por seu nome mas nenhum som sai dessa boca lacrada e garganta paralisada. Meu peito estufa ansiando por oxigênio porém, somente os gases emitidos pelo enxofre que me rodeia alimentam meus pulmões. Que pesadelo meu Deus!

A campainha toca trazendo Cacilda para a realidade. Bebe o restante do café- agora frio -, fazendo uma careta, finaliza o cigarro que já se encontra no toco apagando no chão. Gira a chave e abre a porta visualizando a figura detestável de seu vizinho Germano.

-Bom dia dona Cacilda. Falando sozinha de novo? Deve ser o “Alemão” rondando hein? Precisa se cuidar

-Vá se foder viado do caralho! – despeja com acidez, batendo a porta na cara do vizinho que apenas desejava ser atencioso com uma velhinha tão solitária quanto ele.

Imagem licenciada: Shutterstock

Mantendo o ritmo: vivendo

Saí para caminhar. Não foi uma caminhada qualquer. Havia um objetivo a alcançar. Contudo, recebendo o sol a banhar todo meu corpo frangido pelo isolamento social, expandi. Sorri, pisquei várias vezes, até arrisquei alguns passos de dança. Por alguns minutos, acreditei que a vida havia voltado ao antigo normal. A liberdade de ir e vir, mostrar o rosto sem o incômodo das máscaras, poder falar cuspindo – no máximo achariam falta de educação de minha parte -, poder tocar as pessoas sem se mostrar uma tuberculosa.

A avenida Paulista silenciosa. Poucos carros circulando pelas duas vias. Pessoas tranquilas passeando pelas calçadas, um clown se apresentando no semáforo fechado.

O céu parecia uma pintura com nuvens estáticas. O tempo mantendo um outro ritmo. Talvez seja por estar num outro momento onde não mais sou escrava do relógio. Subo no ônibus que me levará de volta para casa feliz em saber que apesar de tudo, de todos, do vírus e dos bossais, a vida continua bela!

Iniciando uma nova história

Ano de 2021 começou para mim de forma inédita: iniciei ele desempregada ou, como gosto de dizer: disponível para o mercado.

Foram mais de trinta anos trabalhando ininterruptamente. O ano de 2020, com toda a sua bizarrice, serviu de parada obrigatória onde aproveitei o tempo livre para botar na balança tudo o que vivenciei esses anos todos. Reconheço e sou grata por todas as minhas conquistas que não foram presentes do universo mas, preciosidades que lutei e trabalhei muito para conseguir. Analisei também meus fracassos, minhas falhas, minhas perdas. É importante encarar a tudo.

Aos poucos, fui me conscientizando de que – apesar de todo amor e gratidão que nutria pelo ambiente de trabalho e da equipe que se tornou minha segunda família -, era hora de zarpar e partir para singrar outros mares.

Vou confessar: talvez tenha sido a decisão mais difícil que tomei em toda minha vida. Já havia sentido isso antes: não pertencimento. Por mais que me esforçasse, não me sentia mais parte daquele contexto. Talvez porque minha alma já havia partido em busca de novos espaços, conquistas, desafios.

Nunca me casei mas, senti como se estivesse em um casamento de longa data, com filhos criados, casa bonita, carro do ano, férias anuais em interessantes lugares, companheiro parceiro, comprometido com você e leal, que te proporciona conforto, uma gorda mesada mensal e reconhecimento. No entanto, por mais que o meu carinho, reconhecimento e lealdade falasse alto, um desconforto já estava instalado em meu interior.

Deu-se o conflito!

O que fazer? Por que sinto isso? Será passageiro? Sou ingrata? Estarei em crise? Será que todos passam por isso?

Foram tantos questionamentos levantados que quase perdi a razão. A maioria das pessoas não compreenderam minha crise e meu desejo de sair, botar um ponto final em uma história tão bonita.

Talvez a minha veia de escritora tenha falado mais alto e como aprendi, toda história precisa de um começo, um meio e um fim. Minha história estava como costumam dizer “criando barriga” com “excesso de gordura”.

Por mais que gostasse dos personagens, era preciso encerrar para iniciar uma nova história. Coloquei um The End e encerrei a história que comecei a escrever em meados de 1995.

Cronometragem zerada. Comecei o ano vivenciando cada momento, cada segundo do meu dia que agora conta com muitas horas à minha disposição para aproveitá-las como bem quiser. Por enquanto, não desejo procurar nada. Quero me dar de presente, momentos de puro ócio – que como já bem intitulou o filósofo italiano Domenico De Masi -, ócio criativo. Estou aproveitando esses dias do primeiro mês de 2021, lendo bastante, assistindo filmes e séries, desenvolvendo projetos literários para futuras publicações pois desejo me entregar mais e mais a esse outro ofício: escrever.

E por falar em escrever, você que me lê, já encomendou seu exemplar do Equação Infinda? Ah… Não creio que ainda não tem em mãos! Corre que ainda dá tempo.

Aproveitei o dia de hoje, sábado, para dar uma senhora faxina e organizada no apartamento. Essa é outra atividade que muito me agrada pois uno o fato de limpar e jogar fora o que não mais me serve, com minhas emoções analisadas e desnecessárias que também jogo na lata do lixo. Mas sobre isso, falarei novamente em um outro texto.

É muito bom recomeçar!