Mergulho no silêncio

O silêncio é tão bom. No mundo  de hoje tomado por vasta poluição sonora, notar que em alguns raríssimos momentos, a cidade silencia, é prazeroso demais! E claro, te leva a reflexão.

Sou dessas. Prefiro ouvir do que falar. Observar do que atuar. Talvez porque meu mundo interior seja muito rico e perceba que a realidade anda cada dia mais pobre e sem graça. Observo as pessoas. Ah… as pessoas!

Cada dia mais perdidas. Cada dia mais inseguras. Cada dia mais imaturas.

Ninguém deseja amadurecer nessa nossa contemporaneidade. Todos sofrem da síndrome de Peter Pan. Viralizou mais que a COVID 19.

E eu aqui, da minha poltrona, bocejando de tédio em constatar que nada, absolutamente nada, vai mudar.

E falando em bocejo, que vontade de tomar uma taça de vinho. Meu estoque acabou e a preguiça em sair para comprar é infinitamente maior que o desejo de sentir o aroma das uvas fermentadas em minhas mucosas da boca. Dominada por tamanha vontade em não sair de casa, pesquisei adegas que entregam a domicílio. Animada, aos poucos minha indignação se avolumou a ponto de quase atiçar longe meu note. Que absurdo!

As pessoas exploram demais aqueles que desejam comodidade. Fico sem meu vinho. Caso amanhã desperte mais animada para sair, desço e compro uma garrafa aqui mesmo no supermercado da rua. Essa história de Sommelier é muita viadagem. Para mim, o que importa é o vinho agradar meu paladar e ponto. Sem essa de rituais, acompanhado de água para purificar o paladar para uma próxima taça. Aff!

Mas por que vim parar no vinho minha gente? Comecei a falar sobre o silêncio da cidade e…

Esquece. O vizinho do andar de cima voltou a usar a furadeira, o semáforo abriu e ônibus, motos e outros motores envenenados descem a rua e a britadeira que trabalha vinte e quatro horas sem parar arrebentando o calçamento de toda vizinhança voltou com força total. Acabou o horário de descanso dos trabalhadores. Com licença que vou colocar de volta meu protetor auricular.

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O divã não é confortável mas, fundamental

Desde que nascemos, somos colocados em “formas”, através de convenções que moldam a família e a comunidade ao qual pertencemos. É nosso primeiro grilhão.

Ao longo de nossa existência, muitas outras surgirão. Na maioria das vezes, nem percebemos elas a nos prender e impedir que alcemos voos.

O conforto que representam nos cegam diante da verdadeira razão. Tais grilhões utilizam do ilusionismo para nos manter cativos. E assim a vida passa e chegamos num ponto em que sentimos sufocar e nem sabemos o porquê. É onde esse “sufocar” se manifesta no físico através de diversas fobias ou, através de AVCs e infarto.

Pode parecer exagero de minha parte mas tudo tem relação.

Na maioria das vezes, precisamos recorrer à terapia para descobrir o que causa sofrimento e paralisia diante das situações.

Tive uma passagem em minha vida: passei a tropeçar e cair a todo momento. Era constrangedor além de dolorido. Passava por situações incômodas e sentia carregar o planeta nas costas. Em uma semana, cai dez vezes. Pode isso? Foi quando uma conhecida, terapeuta corporal, me procurou e esclareceu que algumas emoções negativas refletem em nossa saúde física. Essa conversa abriu meus olhos para resolver as inquietações que trazia sufocadas em meu inconsciente.

Já frequentei divã e essa experiência me ajudou a reconhecer e resolver algumas questões que incomodavam mas não sabia como resolver. Já de antemão, digo que não é fácil. Algumas vezes quis sumir e nunca mais aparecer no consultório. No entanto, valeu a persistência em encarar meus demônios. Ainda não eliminei todos. Sobrou alguns mais difíceis de abandonar a moradia.

Penso que assim que der, retorne à ele afinal, como seres em constante evolução, nada mais natural que se busque ajuda quando não conseguimos resolver sozinhos. E nunca, nunca é tarde para tentar melhorar. O ser humano não nasceu para sofrer.

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