Salada de frutas

Acordei necessitada de frutas. Sorte pois hoje, sábado, é dia de feira. Após café da manhã, passar por todo ritual para sair à rua, pernas pra que te quero.

Chegando à feira, fui saudada pelos feirantes como se já fôssemos amigos de infância. Um deles, mais jovem, na casa dos vinte anos, aproximando de mim perguntou:

-Você andou sumida! Bom tê-la de volta. Disse isso esboçando um sorriso escondido por máscara.

Sorri, na tentativa de retribuir tanta simpatia. Fui cercada por vários feirantes me oferecendo pedaços suculentos de frutas e eu, medrosa, não queria tirar a máscara, salivando de frente à tantas guloseimas naturais.

Fiz minha compra saindo com a sacola carregada: laranja, melão, abacaxi, morango, manga e tâmaras. Lembrei em casa que esqueci de pegar as bananas que tanto queria…

Passando pelo corredor das verduras e legumes, frustrei ao saber que hoje não tinha bok choi ou abrasileirando, acelga chinesa. Nunca tinha experimentado e, sábado passado, ao me deparar com algo desconhecido, perguntei e o feirante deu uma verdadeira aula me apresentando a iguaria e até dando dicas de como preparar. Nem preciso dizer que caí de paixão. Daí minha frustração ao saber que hoje não tinha. Paciência. Vamos de alface crespa mesmo, inhame para fortalecer o sistema imunológico (isso virou obsessão), tomates orgânicos, cheiro verde (fresquinho), beterraba…

E falando em beterraba, assisti ontem um vídeo em que se dava a dica de bater um suco com beterraba, água e uva passa. Excelente para diminuir a gordura no fígado. Rapaz! Quero experimentar! Só esqueci da uva passa… Será que tâmara serve?

E falando em tâmara, o danadinho do rapaz da banca de frutas, me ganhou quando ofereceu um bombom natural feito de tâmara com morango. Estava tão bonito que não resisti. Peguei o tal bombom, embalado num guardanapo de papel. Me afastando, tirei a máscara e abocanhei o dito cujo. Fui ao céu e voltei. Descobri que o paraíso é doce!

Na saída da feira, satisfeita e mais pobre, vim para casa acompanhada de um menino, filho de um dos feirantes que me ajudou com as compras. Viemos entabulando um papo divertido e – já no portão do prédio, o pequeno Nathanael, perguntou :

-Tia, por acaso você tem algum celular velho que possa me dar? O meu está tão ruinzinho. Tá difícil assistir as aulas com ele…

Nessa hora meu coração apertou. Minha vida está muito confortável diante da realidade que muitos enfrentam.

-Pôxa, amiguinho, não tenho nenhum sobrando mas, olha, fica com esse dinheirinho e vá juntando para comprar um quando der. Obrigada pela ajuda.

O jovem Nathanael, abriu um sorriso que iluminou mais que o sol de quase onze horas.

Tudo tão bonito, bancas coloridas, pessoal trabalhando animado que – não fosse essa praga assolando o planeta, até teria feito um pit stop na barraca de pastel para saborear o meu preferido de palmito e tomar aquele copo geladinho de caldo de cana.

Ah… Bons tempos!

Imagem licenciada: Shutterstock

Programação alterada

Tarde de sábado. Sinto como se estivesse estirada em uma grelha de churrasco. A carne a tostar – no caso, sou eu. Esse calor anormal que invadiu a cidade de São Paulo em pleno final de inverno está me prostrando.

Programei minha manhã para dar umas voltas pelas ruas em torno de minha residência. Sair um pouco do casulo que se transformou meu apartamento. Planos: ir até a farmácia de produtos naturais comprar geleia real e conhecer a feira livre, na rua paralela a minha.

Envelhecer é isso! Outras coisas passam a ser prioridades e aguçar nossa curiosidade. Quando que em minha juventude, conhecer novas feiras dos bairros seria programa matutino do sábado?

E a tal da geleia real? De nova pensaria em correr atrás e consumir essa gororoba das abelhas, em jejum pela manhã para fortalecer o sistema imunológico? E esse palavrão então? Na mocidade (hum, isso também é frase dos mais velhos), minha preocupação era tomar coca-cola, posar de fumante e paquerar. Muito!! Era tão bom paquerar! Nem sei mais como se faz. Esqueci.

Esquecimento também faz parte dessa nova fase. Para quem se gabava em ter uma memória de elefante, ultimamente esqueço até mesmo de escovar os cabelos. Depilar então, ficou no passado de mulher que está com tudo em dia. Meu empoderamento hoje é manter a saúde. E olha que a cada dia que passa, essa tarefa é das mais difíceis. Diria, hercúlea!

Agitação, aglomeração, faziam minha alegria na adolescência. Ver gente, estar com gente, encostar em gente! Era tudo de bom! Hoje, quero mais é distanciamento de gente. Reunião, só se for pelo Google meet, Zoom e afins. Encostar em mim, só se for álcool em gel. Bafo no cangote, somente do ventilador me refrescando as ondas de calor da menopausa.

E a essa altura da vida, passei a gostar até mesmo de caldo de pés de galinha. Uma iguaria dos Deuses! Além de saboroso, ajuda nas dores das tais “juntas” que enferrujam com o passar do tempo. Ah…Maldito tempo, que passa numa velocidade….ZÁS!!! Passou e esqueci o que ia complementar. Esquece.

Resumo da ópera ( que antigamente dizia ser programa de veio): envelhecer é simplesmente alterar a programação. Mas quer saber? Bendito seja os que conseguem chegar à terceira idade pois viver, mesmo que de forma limitada, ainda é o melhor programa!