O “barato” de se viver

Ao me deparar com a possibilidade da finitude ao qual todos estamos fadados, passei algumas noites refletindo: se souber que tenho apenas alguns dias de vida ou apenas umas horas, o que vou procurar fazer?

Perguntei a mim mesma: está com medo?

É claro que o medo existe afinal, humana que sou, trago inseguranças de todo tipo. Mas, o que gostaria de fazer para servir de legado à minha partida ou que sirva de desfecho grandioso antes de pegar o trem para a eternidade?

Talvez, devido ao momento que vivemos – onde nos encontramos resguardados da possível contaminação pelo vírus -, falta-me imaginação para pensar em algo diferente.

Vasculhando meu interior através dessa reflexão, cheguei a uma conclusão:

se vou morrer hoje, amanhã ou daqui a vinte anos, não pensaria em fazer nada de extraordinário. Apenas viver. Vivenciar meu dia-a-dia de forma intensa. Enxergar beleza em todo lugar e em todo ser vivo. Continuar apreciando as notas musicais de meus compositores preferidos: Mozart, Vivaldi, Albion. Cantar mesmo que desafinadamente minhas canções da Bossa Nova, afinal, mestre João Gilberto abençoou os desafinados. Sorte a minha!

Sambar de cadeiras endurecidas as canções de Martinho da Vila, deixando-se contagiar por sua deliciosa malemolência. Permitir-se em alguns momentos a melancolia e o desespero da mulher abandonada tão bem retratada na potente voz de nossa eterna “Pimentinha”. Amo derramar litros de lágrimas ouvindo sua voz. Verdadeira terapia musical: vou ao fundo, do fundo, do fundo do poço e retorno de alma lavada.

Seguirei com minhas leituras apreciando anos de solidão de Gabriel García Márquez, passando pela narrativa afiada de Rubem Fonseca em Secreções, excreções e desatinos. Perceber inclusive que as 100 escovadas antes de ir para a cama, é muito mais que uma história sobre certa “Lolita”.

Continuarei meus rituais de bebericar meus cafés e minhas xícaras de chá nos horários que meu relógio biológico reclamar, mantendo o prazer sempre à frente no comando dessa vida que a qualquer hora pode cessar.

E a poesia? Ah, essa permanecerá sempre tatuada em minhas retinas e em minha alma pois ela, é o tempero especial que eleva e torna tudo mais bonito. Acompanhada de Pessoa, Leminsky, Drummond, Quintana e tantos que não li mas, que ainda terei tempo de conhecer. Caso não me seja permitido, já estarei em ótimas companhias. Nada a reclamar!

Quer saber? Tudo isso já faço portanto, não mudaria minha rotina em absolutamente nada a não ser, viver. Até o último suspiro. Viver!

4 comentários sobre “O “barato” de se viver

  1. Caramba! Que belas companhias, as suas! Sobre “barato” de viver, acabei por lembrar de uma das pessoas de Fernando – Álvaro de Campos:
    “Começo a conhecer-me. Não existo.
    Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
    Ou metade desse intervalo, porque também há vida…
    Sou isso, enfim…
    Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.
    Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
    É um universo barato.”

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