Agridoce

Vigésimo dia de isolamento social. Sentada de frente à janela, o sol é uma carícia que envolve e aquece meu rosto nessa tarde já outonal. Beberico uma xícara de café que acabei de passar. Vem à lembrança, você.

A saudade bate forte. Um soco, não no estômago mas sim, no coração. Por segundos, sofro uma parada cardíaca. Seca a boca, derrubo a xícara, apago o agora, sofro tremores. Uma lágrima brota em meus olhos ressecados. Uma vontade incontrolável de te reencontrar, te abraçar, te beijar.

Impossível. Você se encontra léguas de distância. Não existe transporte que me leve até você nesse momento. Por acaso se lembra do motivo de nosso distanciamento? Foi alguma discussão boba? Traição? Não consigo recordar o motivo…

Gostaria de sentar e escrever uma longa carta mas, para onde encaminhar se perdi seu contato. Não sei mais onde mora. Por onde anda minha amiga? O que fez de sua vida? Desde nossa separação, muitas coisas aconteceram na minha. Segui com os estudos, trabalhei em muitas funções até chegar onde cheguei, fazendo algo que realmente gosto. Não me casei, nem tive filhos. Isso não foi problema. Também não tenho cão, nem gato, muito menos periquito. Com o passar dos anos, fui me desapegando de tudo e de todos mantendo apenas os vínculos necessários para sobreviver. Viajei muito. Conheci muitos lugares. Estava certa de que era o melhor caminho a seguir.

Envelhecer significa você constatar que só cometeu erros no decorrer de sua juventude. Cometi muitos e um deles foi deixar você partir. Deveria ter lutado com unhas e dentes para te segurar pelo menos mais próxima de mim. Simplesmente abri mão de sua necessária presença.

Pago agora um preço alto pela sua ausência. Através de seu olhar desprovido de qualquer maldade, conseguia enxergar um mundo mais bonito, colorido e alegre. Sua pureza me contagiava. Desaprendi até mesmo de assoviar como fazíamos juntas. Lembra? Aprendemos isso com a vovó que administrava aquela casa imensa de nossa infância, cantando e assoviando o tempo inteiro. Nossa, bateu saudades dela também. De seu cheiro, de seus carinhos e de sua risada espontânea.

Sento no chão, de olhos embaçados. Pego o pote de mel, abro e começo a comer em colheradas cada vez mais rápidas. Salgado misturado ao doce transformando-se numa iguaria única e um pensamento se expressa em minha voz embargada pela pasta de mel, saliva e lágrimas:

Como e onde te encontrar menina que fui um dia? Volta pra mim. Volta!

4 comentários sobre “Agridoce

  1. Ah, na qualidade de escritora, sempre reencontro a menina que eu fui… e me divirto com suas rabugices. A observo e sinto que sou observada por ela. Já reprovou ações minhas e eu dei de ombros. Hoje, no entanto, parece satisfeita, afinal, nos escrevemos, como ela pretendia. rs

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